domingo, maio 27, 2018

‘Greve de caminhoneiros’. Onde?

Elio Gaspari
O Globo

O que houve foi uma doce parceria com os empresários do setor de transporte de cargas rodoviárias

De uma hora para outra, houve uma greve de caminhoneiros e o presidente da Petrobras, Pedro Parente, tornou-se o responsável por dias de caos. Duas falsidades.

O que houve não foi uma greve de caminhoneiros, mas uma doce parceria com os empresários do setor de transporte de cargas rodoviárias. Diante dele, o governo capitulou. A repórter Míriam Leitão mostrou que só 30% dos caminhões pertencem a motoristas autônomos. Na outra ponta estão pequenas empresas subcontratadas e grandes transportadoras. Uma “greve de caminhoneiros” pressupõe greve de motoristas de caminhão. Isso nada tem a ver com estradas obstruídas.

Pedro Parente não provocou o caos. Desde sua posse na presidência da Petrobras, ele descontaminou-a do caos que recebeu. Na base dessa façanha esteve uma nova política de preços, acoplada ao valor do barril no mercado internacional. É assim que as coisas funcionam em muitos países do mundo. Se o preço do diesel salgou a operação do setor de transporte de cargas, o problema é dele, não de uma população que foi afetada pelo desabastecimento e agora pagará a conta. Os empresários sabiam muito bem o tamanho da confusão que provocariam.

O sujeito oculto da produção do caos foi o governo de Michel Temer. No seu modelito Davos, orgulhou-se da política racional de preços dos combustíveis. Já no modelito MDB-DEM-PP-PR-PPS, fez de conta que ela não teria custo político. Deveria ter provisionado um colchão financeiro para subsidiar a Petrobras, mas essa ideia era repelida pelos sábios da ekipekonômica. Diante do caos, descobriram que o colchão era necessário.

O governo tolerou a bagunça e associou-se ao atraso. A primeira reação de Temer deveria ter sido a responsabilização dos empresários, desmistificando a ideia de “greve dos caminhoneiros”. Bloqueou estrada? Reboco o caminhão, caso ele não pertença ao motorista. Queimou o talonário do policial que multou o veículo? Prendo-o. Só mudou o tom e exerceu a autoridade na sexta-feira, usando a força federal para desobstruir estradas.

Desde o primeiro momento tratou-se do caso com o gogó, deixando que o problema deslizasse para a Petrobras e seu presidente. Conseguiram piorar a discussão, beneficiando grupos de pressão, com o dinheiro dos outros.

A lição de Pedro Parente para os sábios
Na entrevista teatral e inútil que os ministros deram na quinta-feira, o doutor Carlos Marun defendeu a capitulação do governo diante da suposta greve dos caminhoneiros, referindo-se ao que denominou de “realidade brasileira”.

Teve toda razão, mas essa realidade está aí há 518 anos.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad aumentou as tarifas de ônibus e foi para um evento em Paris com o governador Geraldo Alckmin. Numa esticada noturna, cantaram “Trem das Onze”. Deu no que deu. O economista Edmar Bacha, conselheiro econômico do candidato Alckmin, cunhou a expressão Belíndia. Hoje se vê que os economistas belgas precisam aprender a viver com a realidade da Índia.
A política de preços da Petrobras estava certa. O que faltou foi combinar com os russos, com o setor de transporte de cargas rodoviárias, com as empresas e, finalmente, com os motoristas de caminhão. Faltou sobretudo acautelar-se. Perplexos, os belgas acordaram na Índia.

Pedro Parente foi satanizado até mesmo pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que o acusou de “arrogância” e pediu sua demissão. O senador Eunício de Oliveira (MDB-CE) seguiu na mesma linha, e o candidato a presidente Henrique Meirelles, corifeu do liberalismo de Temer, foi gloriosamente evasivo.

Pedro Parente fez o que devia como presidente da Petrobras. Quem desafiou a “realidade brasileira" foram Temer, sua ekipekonômica e a claque belga que os aplaudia.

Doidos soltos
Alguém abriu a porta do hospício. Circula em Brasília o cochicho de que o atual Congresso poderia votar uma emenda constitucional criando a girafa de um regime semipresidencialista. É impossível e impraticável.

Seria uma reedição piorada do golpe parlamentarista de 1961. Naquele caso, tratou-se de golpear o direito constitucional de João Goulart. Neste, trata-se de golpear o direito de todos os eleitores brasileiros, que irão às urnas em outubro. Para piorar, a iniciativa partiria de um Congresso de pouca fama, com um terço do Senado e toda a Câmara em fim de mandatos.

Parece conversa de maluco, mas há uns dois meses Michel Temer disse que o tema do semi presidencialismo continuava na sua agenda.

O preço do truque
A banca curvou-se e ressarcirá imediatamente em até R$ 5 mil todos os seus clientes lesados na correção de suas poupanças pelos planos Bresser, Verão e Collor. O litígio vinha desde o século passado e custará algo como R$ 11 bilhões.

As ilustres diretorias dos bancos, bem como a da Febraban, deveriam revisitar o caso para calcular o custo da própria arrogância. Os doutores tentaram de tudo, desde tristes acrobacias junto ao Supremo Tribunal Federal, até cabalas custosas para o preenchimento de vagas na Corte.

Quem sabe fazer contas estima que, entre honorários de advogados y otras cositas más, gastaram-se algo como R$ 200 milhões.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e decidiu oferecer um mimo a quem acompanha com curiosidade a sucessão presidencial.

Ganha um fim de semana em Caracas, com direito a levar mala de comida, quem souber o que resultaria de um eventual cruzamento das ideias de Jair Bolsonaro com as do economista Paulo Guedes, mais as práticas do ex-deputado Valdemar Costa Neto e seu Partido da República.

Por três vezes Bolsonaro defendeu o fuzilamento ou a eliminação do presidente Fernando Henrique pelas suas privatizações e pela abertura do mercado de exploração de petróleo.

O doutor Paulo Guedes já perguntou: “Por que não pode vender os Correios? Por que não pode vender a Petrobras? (…) Por que uma empresa que assalta o povo brasileiro tem que continuar na mão do Estado?”

O ex-deputado Costa Neto não é propriamente um homem de ideias, mas de práticas. Em 2012 ele foi condenado a 7 anos e 10 meses de prisão por corrupção, cumpriu parte da pena em casa e foi indultado em 2016.

Bolsa Fiemg
A Federação das Indústrias do Rio diz que o fim da política fracassada de desonerações tributárias ameaçará 400 mil empregos.

Faltou-lhe sorte. No mesmo dia, a Federação das Indústrias de Minas Gerais anunciava que desempregou Eduardo Azeredo, seu consultor para assuntos internacionais, com um salário de R$ 25 mil mensais. Como se sabe, o ex-governador está na cadeia. A mesma FIEMG pagou R$ 2 milhões pelos serviços de consultoria do doutor Fernando Pimentel depois que ele deixou a prefeitura de Belo Horizonte, antes que assumisse o governo do estado.

Humilhar-se, pagar, ser enganado

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

 O caro leitor se preocupa com as negociações entre Governo e líderes dos caminhoneiros grevistas? Preocupe-se mais: é tudo pior do que parece.

Greve de caminhoneiros não houve: o que houve é locaute, paralisação promovida por patrões. Greve é regulada em lei. Locaute é proibido por lei. Governo não há: o sistema oficial de informações (apelidado, veja só, de “inteligência”) não sabia da paralisação. O festejado ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, candidato à Presidência, não tinha percebido que a alta dos preços do diesel, por mais correta que fosse, estava prejudicando o setor dos transportes, e não havia pensado em nenhuma compensação para salvá-lo. Quando a paralisação foi deflagrada, o Governo não sabia o que fazer. Presidido por um doutor em Direito Constitucional, em vez de recorrer à lei deixou-se conduzir pelo Congresso. Tudo bem, nosso Congresso é o melhor que o dinheiro pode comprar, mas parece insaciável. Cobrou mais e reduziu a receita do Governo, já atolado num imenso déficit.

Na hora de negociar com os líderes da paralisação, o Governo já deveria ter notado que se tratava de um locaute: praticamente só havia empresários do outro lado da mesa. Michel Temer poderia (e deveria) exigir ao menos o fim dos bloqueios nas estradas. Preferiu deixar a lei pra lá, ceder tudo, pedir desculpas por existir, para a qualquer custo evitar o confronto.

Esqueceu a dignidade do cargo, humilhou-se. E teve o confronto.

Voracidade
A redução de impostos aprovada às pressas pela Câmara derruba em mais R$ 12 bilhões a receita do Governo (que já é insuficiente para cobrir as despesas). O substituto de Meirelles no Ministério da Fazenda, Eduardo Guardia, diz que não há onde buscar dinheiro para cobrir o rombo. Mas a voracidade dos nobres parlamentares era tão grande que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, filho de conhecido economista, errou na conta: garantiu que o custo seria de R$ 3,5 bilhões.

Quem liga para R$ 8,5 bilhões de diferença? Afinal, não é ele que paga a conta. E por que tanta vontade de baixar impostos? Ora, alguns parlamentares para dizer aos eleitores que lutam contra tanto imposto. Outros, para lembrar aos setores beneficiados que um voto nessa questão que tanto lhes interessa é precioso, vale ouro.

 O confronto
Sejamos sinceros: a Presidência da República é exercida, hoje, pelo general Sérgio Etchegoyen, de excelente reputação. Tem problemas: suas decisões, como presidente de fato, têm de passar pelo presidente de direito, Michel Temer. Ele participou (ao lado do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, e do ministro da Defesa, general da reserva Joaquim Silva e Luna), da reunião em que Temer anunciou que as Forças Armadas iriam participar do confronto com os caminhoneiros.

Na véspera da reunião, quando Temer ainda acreditava que os líderes da paralisação cumpririam o acordo de trégua com o Governo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, já determinava a mobilização da tropa. Não tomou essa decisão sozinho, nem por ordem de Temer. Se, como prometeu um dos líderes da paralisação, os militares não forem obedecidos, pode haver incidentes sérios. Militar manda ou obedece. E a ordem é desbloquear as estradas, com apoio das PMs. É um confronto complicado: boa parte dos líderes da paralisação quer ver as Forças Armadas dirigindo o Brasil.

 Lembrando
 Há alguns anos, este colunista visitou Guaxupé, simpática cidade mineira que hospeda a maior cooperativa de café do mundo. Na época, com preços mais baixos do que hoje, a Cooxupé movimentava US$ 300 milhões por ano. O maior shopping center da cidade chama a atenção: é igualzinho a uma estação de estrada de ferro.

 O motivo é que lá, antes, era a estação ferroviária. Um dia, houve um problema na linha da Fepasa, no Estado de S.Paulo, que exigia a troca de uns dois quilômetros de trilhos, reforço da base de concreto e brita e novos dormentes. O Governo paulista preferiu desativar a linha, isolando Guaxupé. E os US$ 300 milhões anuais de café passaram a seguir para Santos de caminhão. Quem dá força à paralisação?

 Pá de cal 1
 A ideia de Lula, de registrar sua candidatura à Presidência e esperar que alguém a impugne, para ganhar tempo até, quem sabe, as eleições, pode morrer nos próximos dias: o Tribunal Superior Eleitoral deve votar a norma que impede o registro de candidatos que não atendam aos requisitos da Lei da Ficha Limpa. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a tendência do TSE é aprová-la por unanimidade. Em seguida, o Ministério Público pediria uma decisão que torne automática a proibição de pedir registro ao TSE.

 Pá de cal 2
 Se Alckmin tem hoje dificuldade para decolar, imagine se Josué Alencar sair mesmo candidato pelo mesmo setor político e pagando sua campanha.

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O risco do populismo

Míriam Leitão
O Globo



Durante dias o país sentirá os efeitos da desordem provocada pela paralisação do transporte rodoviário de carga. O movimento que uniu caminhoneiros e transportadoras precisou de pouco tempo para nocautear o país. Ontem não havia gasolina em várias cidades. Permanecem o bloqueio de estradas e o desabastecimento. O que pedem caminhoneiros, patrões, consumidores é controle de preços.

Há uma fórmula simples que resolve esta crise e a raiva da classe média com o preço da gasolina. E ela está errada. Em tempos eleitorais, a solução errada tem sido defendida pelos candidatos. Eles dizem que a Petrobras deve vender todos os seus derivados pelo custo de produção. Parece simples, faria a felicidade dos donos de carros, dos caminhoneiros, das empresas de transporte, das companhias aéreas e reduziria a tarifa de energia. Tem apenas um problema: já foi executada inúmeras vezes e sempre terminou em correção brusca de preços e prejuízo para a empresa estatal.

O professor de economia da PUC-Rio Márcio Garcia disse que essa tem sido a tendência no Brasil:

— Agora, por exemplo, recebi uma mensagem de um amigo dizendo: não vamos abastecer o carro amanhã porque temos que nos bater contra essa política de aumentos. Como se as altas do dólar e do petróleo fossem algo sobre o qual o governo tivesse controle. Ou tivesse obrigação de não deixar passar. A compreensão é a de que o governo tem que intervir e garantir a coisa barata.

O cientista político e professor da UNB Eduardo Viola acha que essa inclinação não é só do Brasil, é de toda a América Latina e explica os grandes ciclos de decadência na região. Sobre um gráfico do PIB per capita da Argentina, em comparação com o dos Estados Unidos, Viola mostrou que as políticas populistas começaram no governo Perón e foram mantidas pelo regime militar:

— Metade da sociedade argentina considera correta a adoção de medidas populistas, o peronismo se divide em três correntes, mas todas elas defendem essas políticas. O eleitorado argentino foi se tornando cada vez mais populista.

O populismo econômico não é de direita, nem de esquerda. No Brasil, quem olha com sinceridade o problema das contas públicas verá o gigantismo do custo dos incentivos e subsídios. Todo setor empresarial quer um subsídio para chamar de seu. E o que se viu na última semana foi isso. Transportadoras, caminhoneiros autônomos e a maioria dos consumidores têm um ponto em comum: querem que o governo lhes garanta preço baixo, independentemente da realidade econômica. Todos os governos, Fernando Henrique, Lula, Dilma e agora Temer, enfrentaram greve do setor de transporte rodoviário de carga e todos eles cederam dando um maior ou menor grau de intervencionismo nos preços.

A greve do governo Fernando Henrique foi no ano da sua maior fragilidade política, em 1999, logo depois da desvalorização cambial. A do governo Dilma foi no meio dos protestos de 2013 contra seu governo. O pior agora é que esse é um governo atingido por denúncias de corrupção e em fim de temporada no Planalto. Mas nosso problema não é este governo cadente, mas sim que tipo de economia a sociedade quer.

Márcio Garcia alerta que a oscilação do dólar vai continuar e vai pegar todos os países mais frágeis.

— O Brasil, se não encaminhar ao menos uma solução para a questão fiscal, será duramente atingido — prevê.

O país, além de não enfrentar o problema fiscal, quer a volta da política de preços de combustíveis baixos. A Argentina de Cristina Kirchner subsidiou tanto o preço da energia que chegou ao ponto de um apartamento de classe média alta em Buenos Aires pagar US$ 2 de conta de luz. Por mais provas que haja na história de que esse caminho é errado, o que se pede nos momentos de crise é que o governo resolva o problema reduzindo os preços.

— Por isso não sou otimista sobre o futuro do Brasil. A mentalidade não muda. Parecia que iria mudar depois do fracasso das políticas de Dilma. Mas não. O discurso dominante é populista — diz Viola.

É mais fácil pedir ao governo um subsídio. Foi isso que empresários do transporte e caminhoneiros exigiram, com maus modos. E ganharam. Será tirado dinheiro do Orçamento para reduzir o preço do diesel.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:


Infelizmente ninguém está pensando no futuro do país. A saída populista que está tomando corpo é um caminho tão fácil quanto torto. Receitas iguais levaram o Brasil a viver nos anos 80, do século passado, a tal década perdida. Mais recentemente, o receituário petista , cuja máxima alcançou os anos de Dilma, A Medíocre, nos levou a sofrer  dois anos de recessão, a maior da história, culminando com 14 milhões de desempregados e centenas de empresas fechando as portas.   E este será o quadro caso o Brasil siga o caminho que se está adotando. 

Sair da recessão o país até conseguiu, Mas a retomada vigorosa e consistente da economia ninguém disse que seria fácil e rápida. O descontrole com 13 anos de PT no poder, foi tamanho que um mínimo de 10 anos de recuperação serão necessário. E isso se o Brasil fizer tudo certo, sem desvios ou os populismos que agora se está querendo adotar. 

Informação clara ao eleitor

Editorial
O Estado de S.Paulo

O País tem um gravíssimo problema fiscal, que afeta todo o desenvolvimento econômico e social

O País tem um gravíssimo problema fiscal, que afeta todo o desenvolvimento econômico e social. Além disso, se o reequilíbrio das contas públicas é sempre politicamente muito difícil, no caso brasileiro a questão é agravada pelo fato de o caminho de reestruturação fiscal envolver mudanças na Constituição. Não basta que o governo esteja decidido a diminuir os gastos públicos. É necessário que o Congresso aprove, em dois turnos nas duas Casas, com quórum qualificado de três quintos dos parlamentares, as necessárias correções constitucionais para que as despesas possam ser de fato reduzidas.

É o caso da reforma da Previdência, que o Congresso não votou no ano passado, apesar das tentativas do Palácio do Planalto. Se forem mantidas as regras para a concessão de pensões e aposentadorias, o déficit previdenciário conduzirá as contas públicas ao colapso.

A despeito da evidente gravidade do tema fiscal – basta pensar que, sem reforma da Previdência, o Estado não disporá de recursos para efetuar investimentos em áreas essenciais, como saúde e educação –, o debate político travado pelos pré-candidatos não tem abordado o tema com a devida responsabilidade.

Há os que, não dispostos a enfrentar o problema, preferem ignorar suas reais dimensões. Por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro, que se colocou reiteradamente contra a reforma da Previdência em discussão no Congresso, diz que bastariam apenas alguns pequenos ajustes na Previdência. Além disso, opõe-se a qualquer mudança no regime previdenciário dos militares.

O debate eleitoral é uma ocasião privilegiada para esclarecer a população a respeito dos grandes desafios nacionais. A mensagem que vem sendo transmitida por alguns pré-candidatos é, no entanto, desorientadora. Os discursos de alguns políticos dão a entender que o equilíbrio fiscal seria uma simples opção ideológica, como se fechar ou não as contas fossem caminhos igualmente válidos.

Não há escapatória: o próximo presidente da República terá de enfrentar batalhas muito difíceis para reduzir o desequilíbrio fiscal. No entanto, tem sido comum ouvir pré-candidato criticar até mesmo os passos já dados nesse complicado itinerário de redução de despesas. É o caso da Emenda Constitucional (EC) 95/2016, que impede, por um período de 20 anos, o governo federal de realizar despesas acima da inflação do ano anterior.

Segundo o pré-candidato do PDT, Ciro Gomes, “com essa PEC (do teto dos gastos) haverá um garrote vil sobre a essencialidade dos custos das universidades, da saúde. Os repasses da União vão despencar, por uma maluquice que não tem precedente no mundo. É uma incongruência estúpida que vamos ter que desmontar”. Ora, difundir esse tipo de desinformação é tremendamente prejudicial ao País, pois alimenta a ideia equivocada de que os recursos públicos são ilimitados, o que dificulta ainda mais a resolução do problema fiscal.

Mesmo entre os políticos que defendem a necessidade de um equilíbrio fiscal, tem havido uma abordagem superficial da questão. Recentemente, o pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, também criticou a regra do teto de gastos. “Você está limitado em custeio, investimento e pessoal. O teto de gastos vai acabar com o investimento, que é o mais importante. Não foi concebido corretamente”, disse Geraldo Alckmin.

O País não pode ficar refém do discurso populista. A emenda do teto dos gastos (EC 95/2016) foi um enorme avanço, já que impôs um claro limite para os gastos do poder público. O passo foi ainda mais significativo tendo em conta a atual composição do Congresso, que não tem em grande apreço a responsabilidade fiscal.

Será muito complicado – para não dizer impossível – dar continuidade ao trabalho de reconstrução do País se o cidadão for à urna depositar o seu voto ignorando a gravidade do desequilíbrio fiscal, com todos os seus efeitos. Informar com clareza o eleitor sobre os problemas nacionais é tarefa necessária de quem almeja um cargo político.

Raízes da crise são velhas, falha de Temer é própria

Rolf Kuntz*
O Estado de S.Paulo

O presidente Michel Temer também pode, apesar de tudo, considerar-se mais uma vítima de um acúmulo de erros alheios

Acuado, desorientado diante da pressão dos caminhoneiros, mal aconselhado, hesitante no uso da autoridade e negociando de igual para igual com violadores da lei, o presidente Michel Temer também pode, apesar de tudo, considerar-se mais uma vítima de um acúmulo de erros alheios. Durante décadas, decisões desastrosas condenaram o Brasil a depender excessivamente do transporte rodoviário, enquanto outros países continuavam a valorizar e a modernizar as ferrovias e os sistemas de transporte hidroviário.

Equívocos igualmente perigosos submeteram combustíveis e energia elétrica a uma tributação pesada e irracional, aplicada principalmente pelos Estados. Tanto os problemas dos caminhoneiros quanto sua capacidade de pressionar o governo e de impor custos inaceitáveis à sociedade são consequências de erros como esses. Mas esses desacertos foram ainda agravados, durante muito tempo, pela ineficiência na expansão, na modernização e até na mera conservação das estradas – importantes fatores adicionais de custos e de riscos para os envolvidos no transporte de cargas e também de passageiros por estradas. 

Nenhum desses fatores atenua as falhas do Executivo na reação ao bloqueio das estradas. Os caminhoneiros podiam ter motivos ponderáveis para protestar e para cobrar mudanças, mas nada poderia justificar a obstrução de rodovias e a imposição de danos à população. Era função da autoridade fazer cumprir a lei prontamente. Em seguida poderia examinar medidas para aliviar a situação dos transportadores, tanto indivíduos quanto empresas. Mas qualquer solução será parcial, provisória e muito imperfeita enquanto os velhos erros forem mantidos. 

O equívoco mais notório foi o quase abandono do transporte ferroviário, acentuado a partir dos anos 1960. O Brasil tem uma posição bem diferenciada, entre os países de grande território, quando se trata da matriz de transportes. Os dados variam de uma fonte para outra, mas de forma bem limitada. De modo geral, os vários conjuntos de informações mostram um país muito mais dependente que os outros da movimentação rodoviária. 

Um quadro incluído no Plano Nacional de Logística de 2014 permite a comparação. Na Rússia, ferrovias transportavam 81% das cargas, 8% dependiam de rodovias e 11%, de hidrovias. No Canadá, as proporções eram 46%, 43% e 11%. Na Austrália, 43%, 53% e 4%. Nos Estados Unidos, 43%, 32% e 25%. Na China, 37%, 50% e 13%. No Brasil, 25%, 58% e 17%. 

A esses dados é preciso acrescentar a baixa qualidade do sistema rodoviário. Falta pavimentação em cerca de 80% das estradas, segundo informações em circulação no ano passado. Algumas fontes indicam uma proporção próxima de 85%. O levantamento anual publicado pela Confederação Nacional dos Transportes mostra geralmente um quadro precário. De acordo com relatório divulgado pela entidade em novembro de 2017, eram regulares, ruins ou péssimas as condições de 61,8% dos 106 mil quilômetros de vias avaliadas. No ano anterior essa parcela representava 58,2% do total. 

Estradas em más condições impõem maior gasto de tempo, maior consumo de combustível, risco maior de quebras e de acidentes e possibilidade maior de perda de cargas. Impõem prejuízos, portanto, ao transportador, ao proprietário da carga, ao consumidor e, de modo geral, à eficiência e ao poder de competição do País. Tudo isso afeta o crescimento econômico, a formação de preços e as contas externas. São efeitos micro e macroeconômicos inegáveis e bem conhecidos, mas negligenciados. 

A tributação irracional também é um velho problema. Surgiu no Senado, na quarta-feira, a ideia de um projeto de resolução para impor um teto à alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) incidente nos combustíveis. O limite para gasolina e álcool ficaria em 18%. O teto para óleo diesel seria de 7%. As alíquotas variam de Estado para Estado, até o máximo de 35% no Rio de Janeiro. Diante da crise, o governador fluminense ofereceu aos caminhoneiros uma redução. Não basta, no entanto, a boa vontade. É preciso repensar as finanças estaduais e torná-las menos dependentes da tributação de combustíveis e eletricidade.

Sem a crise causada pelos caminhoneiros, dificilmente essas questões entrariam na pauta oficial. O governo mal tem conseguido cuidar dos problemas fiscais mais prementes – e só tem alcançado algum avanço nessa área graças ao trabalho dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, exceções na administração federal de hoje. O trabalho do Banco Central contra a inflação também está fora do padrão dominante no Planalto. 

A demora do governo em reagir ao bloqueio de estradas comprova a deficiente informação da Presidência da República e seu despreparo para enfrentar crises mais sérias. Comprova também, como tantos outros episódios, a qualidade do Gabinete organizado pelo presidente – uma equipe desfalcada precocemente pela demissão do então secretário de Governo Geddel Vieira Lima, depois envolvido numa história de malas com R$ 51 milhões.

A negociação com os bloqueadores de rodovias esteve à altura desse padrão. Depois da reunião, a equipe do Executivo anunciou um acordo para o fim dos bloqueios. No dia seguinte, sexta-feira, caminhoneiros continuavam obstruindo rodovias, desafiando a lei, impedindo a entrega de combustíveis e entravando a movimentação de outras mercadorias, como alimentos, medicamentos e até oxigênio para ambulâncias e hospitais. 

A ajuda oferecida pelo presidente da Petrobrás, Pedro Parente – redução de preços por 15 dias para dar tempo a uma negociação – havia sido desperdiçada, ou, mais caridosamente, muito mal aproveitada. E ainda sobraram, no Planalto, ameaças e críticas a Parente, com risco de perda de um raro núcleo de competência, a diretoria responsável pelo resgate da maior empresa brasileira.

* JORNALISTA