sexta-feira, maio 27, 2011

Querem trocar um preconceito por outro

Adelson Elias Vasconcellos

Há algum tempo que leio sobre o tal “kit-gay” e as referências sobre o material que o MEC encomendou, produziu e aprovou, prestes a ser distribuídos a milhões de estudantes do ensino público, e NENHUMA foi positiva.

Claro que as opiniões podem embutir certo preconceito, antipatia, ou qualquer outro sentimento parecido  para com o movimento em si, e não contra o material que trazia uma mensagem teórica, intencional, de combater a violência contra uma minoria.

Assim, esperei até que pudesse assistir aos vídeos que, para alguns, o ministro Haddad confessou não ter visto nada de errado. Já comentei aqui sobre a mentira que o ministro tentou aplicar a alguns parlamentares, quando disse que nada estava decidido, que ele sequer tivera acesso ao material e que se propunha a estudar com uma comissão constituída pelo Congresso, todo o kit produzido antes de sua divulgação. No dia seguinte, contudo, em programa de rádio, o ministro confessou que o material não apenas já estava pronto, mas que ele julgara positivo, não contendo nada de errado.

É evidente que esta contradição, em tão curto espaço de tempo, não passou despercebida dos parlamentares com quem Haddad havia se reunido. E foi a partir daí que o país pode perceber o que estava em jogo.

Procurada pelos parlamentares das bancadas católica e evangélica, a presidente pediu para assistir os vídeos e mandou suspender o tal kit. Em entrevista à imprensa, justificou de forma clara que o governo, o seu governo, não investiria publicidade quanto as opções sexuais das pessoas, uma vez que o estado não tem nada com isso.

À primeira vista, a justificativa parece, até certo ponto, correta. Porém, é preciso destacar que, a atitude de assistir o material que o MEC mandara produzir e que estava prestes a divulgar, só foi tomada pela rebelião de parlamentares de várias correntes políticas. Ou seja, se não houvesse protestos, a presidente sequer teria assistido previamente os tais vídeos.

Este é um ponto importante, porque revelador de uma fragilidade de um governante que, até então, se mostrara ao país como durona, intolerante com o erro, que era eficiente e cobrava a mesma eficiência de seus ministros, assessores e auxiliares. Uma gerente no mais alto grau de eficácia e competência. E isto nos faz lembrar de outro fato, recente, quando a presidente reclamou da questão dos aeroportos, tendo dito que estava sendo enrolada há cinco anos.

De qualquer forma, até porque os tais vídeos vazaram na internet, e para um melhor julgamento, me dispus a assisti-los. Adoraria que TODOS os pais que tenham filhos estudando em escolas públicas a partir do nível médio, pudessem assistir aquilo que não passa, prá resumir, de MOLESTAMENTOS MORAL E SEXUAL. E ATENÇÃO: o material seria distribuído e exibido para crianças a partir de 11 anos de idade. Sem dúvida, trata-se de um crime dos mais perversos, uma vez que praticado contra quem não pode se defender e sequer tem formação suficiente para não se deixar influenciar pelas mensagens apelativas. Não há outra forma para caracterizar um conteúdo formado por imagens e diálogos de puro lixo moral, que foi produzido e pago com dinheiro público, isto é, com dinheiro saído do bolso dos pais cujos filhos seriam as vítimas de ação espúria e covarde por parte do Estado, em nome de uma causa supostamente nobre, mas que, no fundo, não passa de um movimento que pretende substituir um preconceito por outro. Ou seja, ao fim e ao cabo de algum tempo, caso TODO o material estivesse disseminado e assimilado pelos adolescentes, a maioria se tornaria alvo do escárnio da minoria.

A questão deve ser vista pela natureza que ela tem: homossexualismo, independente de homem ou mulher, não é uma doença. É uma predisposição de natureza genética, com a qual a pessoa nasce. E, aí é que está o problema, ela atinge, segundo dados confiáveis, não mais do que 10% da população mundial, inclusive considerado este percentual através da história. Ou seja, o homossexualismo por mais natural que ele seja, não passa de um “irregularidade” genética. Ora, ser natural não é o mesmo que ser normal. O normal, e não dá para brigar com a ciência, é a heterossexualidade.

Então, o que temos é que, se o movimento de homossexuais, homem ou mulher não importa, quer ser aceito e respeitado pela imensa maioria da humanidade, que é normal, não pode querer transformar a todos os heterossexuais em anormais. Não pode, em nome de sua causa de “direitos humanos”, porque, afinal, independente do sexo ou de sua opção, eles também são humanos, querer reverter a natureza e implantar uma espécie de preconceito contra aqueles que lhe são diferentes na opção e conduta.

Falar em homofobia na forma como o debate se desenvolve no país, até parece que ser “normal” e “maioria” para esta turma  é que é errado. Precisamos ter um pouco mais de cautela neste aspecto. Eles pretendem o quê com sua causa, reconhecimento de sua opção? Ótimo, mas não venham tentar inverter a lógica natural e normal da existência. Os diferentes são eles, não os outros.

Reclamam de preconceito? Ótimo, mas por que o MEC ao encomendar o tal “kit” convocou apenas entidades flagrantemente homossexuais para a sua produção? Vejam: o material se destina a quem, aos homossexuais ou heterossexuais? É claro que ao último grupo. Então por que a linguagem empregada deve ser a do grupo que se diz discriminado? Que seus representantes e entidades tenham vez no debate e na produção de leis de proteção e de orientação contra o preconceito é uma coisa, mas não podem ser apenas eles a ditarem as normas para todo o restante da sociedade que, é bom não esquecer, representa um total de 90%.

Veja-se o caso que se discute no Congresso, a tal lei da homofobia. A tal comissão comandada pela senadora Marta Suplicy até agora só chamou para o debate de ideias, unicamente, representantes homossexuais. É isto que chamam de democracia? Nada disso, o tal debate não passa da ditadura da minoria sobre a maioria, o que vem a ser justamente a imposição de um preconceito em lugar de outro.

É bom também esclarecer outro detalhe: quando se fala em “liberdade” é muito fácil confundir, nos tempos atuais, com libertinagem. A primeira, que é um valor individual, só se completa mediante sua regulação social, ou seja, a liberdade de um não pode ferir a de outrem. Assim, não existe liberdade absoluta, que para tornar-se numa conquista plena de cada um, impõem responsabilidades para se legitimar. No caso da libertinagem, não há limites. Estamos diante de um quadro de barbárie, de ausência completa de moral e de regras. E isto jamais poderá ser uma conquista da civilização, até pelo contrário, é sua degeneração.

Cada um tem o direito de se acasalar com quem bem entender, e ninguém tem nada a ver com isso. Porém, sua opção não poderá ser imposta aos demais que não nasceram com a tal “irregularidade” genética e, sexualmente, se comportam de maneira natural e normal.

Da mesma forma, não se pode eliminar o preconceito interior das pessoas por decreto. Assim, falar de “direitos humanos” deve ser uma orientação que atinja a todos, e não apenas alguns grupos.

Por exemplo, há religiões que não admitem o homossexualismo. Vai se pretender o que, eliminar sua crença, sua fé, seus dogmas? Vai se proibir que orientadores religiosos deixem de criticar o comportamento minoritário no campo da sexualidade? Ou agora qualquer crítica à homossexuais será classificado como "crime", e não como o exercício à liberdade de expressão? 

Não fui totalmente contrário a recente decisão do STF. Que os ministros do Supremo digam ser natural que se mude a lei para abrigar o direito dos homossexuais estabelecerem união civil, é uma coisa. Não podem é legislar da forma como o fizeram, contrariando o que dispõe a respeito o texto constitucional, provocando uma tremenda insegurança jurídica. Sua missão é justamente contrária àquela que resultou de sua decisão.

Quando comentei aqui a decisão do STF, afirmei ser favorável a união civil sim, como direitos a herança, a divisão do patrimônio e até a pecúlio em razão de morte. Mas esta última deve estar sujeita, primeiro, a que um ou ambos tenham contribuído para a previdência social, a exemplo do que se exige dos heterossexuais. Mas serei contrário a qualquer reivindicação quanto à adoção de crianças. Quem é pai ou mãe sabe que a criação de um filho exige a presença da figura materna e paterna, justamente, para haver equilíbrio e segurança na formação da criança. Senhores, a Natureza é sábia, e há uma penca de razões, que talvez muitos não tenham consciência, para que um filho seja fruto de um casal, homem e mulher. Não se trata apenas de “condições econômico-financeiras”, mas de equilíbrio emocional possível de se obter pelos valores que se fundem da união de um homem e uma mulher.

Respeito é um direito natural que pertence a todos, independente de gênero, sexo, cor, religião ou crença política. Mas “direitos especiais” devem se restringir a evitar a discriminação violenta, a não agressão, e não para se abrir as portas para a promiscuidade e libertinagem, ou molestamento que, no fundo, é o que se depreende dos tais vídeos.

Educação é um processo de transmissão de conhecimentos e VALORES. E, se a maioria é heterossexual, nada mais natural que sejam os seus valores a prevalecerem na sociedade. Isto vale para o ser humano como para qualquer espécime vivo encontrado na natureza.

Todo o movimento que busca extirpar a discriminação e o preconceito deve ter por base apenas o limite de se evitar que uma minoria seja humilhada e constrangida pela maioria. Mas não pode é tentar substituir um preconceito por outro, ou querer impor sua diferença a todos os demais. E, porque são justamente minorias frutos de uma irregularidade genética, acharem que a sua natureza é que é a opção normal das sociedades. Porque, senhores, não há ciência que justifique esta inversão.

Se o material produzido foi taxado pela presidência (e por muito mais gente) como inadequado, e por conta disso teve sua distribuição cancelada, é justo que, ou quem recebeu pelo mau serviço reembolse os cofres públicos, ou se disponha a produzir o material adequado sem ônus aos contribuintes. Mas uma coisa seria obrigação de dona Dilma providenciar: a imediata demissão do ministro Fernando Haddad, o mais inepto e incompetente ministro da Educação que o país já teve. Chega de espertalhões, vigaristas, irresponsáveis e picaretas tratando de algo vital para o futuro deste país.

E que, doravante, não apenas o MEC mas todo o Poder Público, ao tratar de assuntos sobre temas controversos como este, principalmente aqueles que digam respeito a seara dos pais e educadores, portanto, de foro íntimo, chame para o debate o conjunto da sociedade, e não apenas parte dela, como ocorreu no caso do Código Florestal quando dona Dilma Rousseff ouviu apenas os ambientalistas. Jamais se reuniu com os produtores rurais e com o relator do texto que foi aprovado na Câmara. O Brasil somos muitos e somos todos, e não apenas alguns. É preciso deixar bem claro para dona Dilma e para toda a corriola que a cerca em milhares de cargos públicos, a maioria, por sinal, perfeitamente dispensável: a reprovação do tal kit de molestamento infantil não parte apenas de religiosos de qualquer credo, e sim por todos os pais e mães responsáveis por seus filhos. Sala de aula não é local para apresentações de bordel, muito menos proselitismos de uma minoria que deseja impor suas diferenças à maioria!!!

Encerro com um trecho extraído de um texto escrito hoje pelo jornalista Reinaldo Azevedo e postado em seu blog, como um convite para reflexão, que diz bem da miséria moral que o debate sobre alguns temas vem tomando conta do país, infelizmente.

E esse tem sido um problema permanente da nossa democracia. O estado está sendo tomado de assalto por minorias organizadas que pretendem impor a sua pauta, independentemente da vontade da maioria e de suas instâncias de representação. É assim em todas as áreas. Os Verdes de Marina Silva acham que o Congresso não tem de se meter com meio ambiente porque isso é coisa de sua militância; os gays organizados acham que os educadores e os héteros não têm que se envolver com o material anti-homofobia porque isso é coisa de sua militância; os negros organizados acham que os não-negros não podem participar do debate de cotas porque isso é coisa de sua militância; mulheres organizadas defendem que o aborto seja decidido em plebiscito por mulheres porque isso é coisa de sua militância; os maconheiros organizados acham que os não-maconheiros não tem legitimidade para debater a descriminação de drogas porque isso é coisa de sua militância…

O interesse público está acima de qualquer contrato.

Adelson Elias Vasconcellos

O ministro Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, reuniu-se em um almoço, bancado pela presidente Dilma, com os senadores do PT. Devem ter tratado de muitos assuntos de interesse do país. Mas, claro, ao final, cobrou-se dos participantes o assunto do momento, o enriquecimento súbito do ministro Palocci.

Dentre as explicações esdrúxulas e vazias que se ouviu após o encontro, uma está completamente fora de lugar. Palocci teria deixado claro que, em razão da cláusula de confidencialidade presente nos contratos de assessoria que prestou, não apenas não divulgará o nome de seus clientes, nem valores tampouco o objeto dos referidos contratos.

Há cerca de uns dois anos, talvez um pouco mais, critiquei aqui o decreto assinado pelo ex-presidente Lula declarando que, grande parte dos gastos com cartões corporativos, realizados pela Presidência da República, seria sigiloso. Esta estupidez é absurda, trata-se de uma vigarice sem limites. Não há despesas sigilosas quando realizadas com dinheiro público. Todos os gastos devem ser transparentes e feitos em nome do bem público.

Assim, qualquer pessoa que investida de qualquer cargo,  utilize verba dos cofres públicos, deve, OBRIGATORIAMENTE,  prestar de contas. No caso dos tais cartões, sequer ao montante mantido sob “sigilo” foi dado acesso para o Tribunal de Contas da União auditar. Aliás, até hoje é injustificável que os órgãos de fiscalização, entre eles o Ministério Público, não tenham buscado a nulidade de tal decreto junto ao STF. Nossa constituição tem muitos artigos e parágrafos que o tal decreto fere e transgride.

Assim, voltando ao Palocci, os contratos de sua empresa foram firmados no período em que o mesmo era deputado federal, pertencendo neste período à base governista. Apenas isto, e dado o montante movimentado, já justificaria uma pequena apuração tanto por parte da Receita Federal – que afirmou em nota que “tudo foi declarado e impostos foram pagos” – quanto por parte do Ministério Público. Tal investigação até poderia – e deveria – se realizar em segredo, dado que buscaria encontrar evidências ou não da presença de tráfico de influência. Até porque, conforme a relação de clientes que foi divulgada, todas as empresas mantém negócios com o Poder Público.

E é aí que a coisa toda começa a tomar contornos de acobertamento de um crime e até obstrução de se investigá-lo. Por quê? Voltando-se um pouco no tempo, vale recordar o escândalo sobre a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo que, por constar em sua conta na Caixa uma movimentação que o COAF considerou atípica de R$ 30 mil, precisou explicar-se. Claro, depois ficamos sabendo que tudo não passou de uma vigarice iniciada no gabinete do senhor Palocci, na época Ministro da Fazenda, informação que, nesta semana, a própria Caixa Econômica Federal confirmou. E, de outro lado, tivemos a declaração do jornalista Paulo Nogueira, ex-diretor das Organizações Globo, confirmando que foi Palocci, pessoalmente, quem levou o extrato bancário do caseiro à redação da Revista Época.

EM TEMPO: Há alguma justificativa, razoável ao menos, para a Caixa Federal demorar todo este tempo para prestar a informação que divulgou nesta semana? Imaginemos que esta informação ocorresse antes do julgamento de Palocci pelo STF, há procedência em se imaginar que o resultado teria sido outro? Além disto, a turma da Caixa, não seria merecedora de uma ação por obstrução? Eis um bom tema para a Oposição se mexer – se ainda existir uma, é claro! – e até o pessoal do Ministério Público refletir melhor!

Retomando, e se a gente voltar um pouco mais, ao tempo em que Palocci comandou a prefeitura de Ribeirão Preto, iremos ter mais evidências ainda de que, este senhor, investido de qualquer cargo ou função pública, não tem recomendações favoráveis capaz de inocentá-lo de um tráfico de influência.

Ora, uma empresa de consultoria ter o faturamento que a empresa de Palocci teve em tão curto espaço de tempo, seria já motivo suficiente para justificar uma pequena apuração de fatos. E sabendo-se que a empresa era pertencente a um deputado federal da base governista, e com um passado não muito recomendável, por mais forte razão esta “pequena apuração“ se justificaria. Caso estivesse tudo dentro dos limites legais, encerrasse o inquérito interno e fim de papo.

Volto ao ponto: motivos para apuração existem e, neste caso, o que deve falar mais alto é o interesse público. Mesmo que os tais contratos de consultoria tenham lá sua cláusula de confidencialidade, o senhor Palocci não pode se negar a prestar esclarecimentos, mesmo que o faça a portas fechadas com o Procurador Geral. A ele, o ministro deveria exibir os tais contratos, para que se esclarecesse, de forma objetiva, que o objeto deles não resultou em tráfico de influência.

Volto a dizer que, se nem os cartões corporativos podem ter suas prestações de contas ocultadas dos órgãos de fiscalização, mesmo que se avoque uma balela do tipo “segurança nacional” - ridícula por si só num país como o nosso -, muito menos consultorias prestadas por deputado federal, com trânsito livre no Poder Público, e para empresas privadas com estreitos vínculos de negócios com empresas estatais e órgãos públicos.

Não se trata como afirmou a presidente Dilma de “politização” do caso. Trata-se da verificação da lisura dos negócios do Estado, que devem sim se processar nos rigores da lei. Entendo até a posição da presidente, afinal, parte dos  honorários milionários, coisa de R$ 10 milhões, foram pagos entre a realização do segundo turno e a nomeação de Palocci para coordenar o gabinete de transição.

Além disto, diante das versões que se distribuiu em favor do ministro, e os fatos que se tomou conhecimento, tem havido muitas estranhas “coincidências” a cobrarem explicações. Até porque, quanto mais a história verdadeira for sonegada da opinião pública, maior será o enfraquecimento do próprio governo Dilma, que sequer completou cinco meses de um mandato de quatro anos. É bom que dona Dilma reflita melhor sobre suas prioridades: salvar o mandato em benefício do próprio país, ou manter ao seu lado um ministro que, por se negar a dar explicações, vai comprometer e manchar seu governo até o fim. Já nem vou me referir ao prejuízo à sua imagem, precisando convocar o ex-presidente Lula para apagar um incêndio que competia a ela resolver, por ter sido eleita e exercer o cargo de Presidente do país. Tudo o que este país não precisa é ter um governante laranja (ou banana). 

Fratura exposta

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

São vários os fatores que expõem a fragilidade política de Dilma Rousseff como presidente da República, sendo o mais recente e mais evidente a entrada de Luiz Inácio da Silva em cena.

Há outros, como a necessidade de esconder que a pneumonia contraída na volta da viagem à China não era "leve" como inicialmente anunciado, a recusa de tratar em público de suspeitas envolvendo seu principal auxiliar ou a demora em reagir a questões importantes como as sucessivas demonstrações de que há algo de muito errado no Ministério da Educação.

O recuo na distribuição do chamado "kit anti-homofobia" aconteceu não por causa de uma avaliação rigorosa sobre a adequação ou inadequação de uma campanha daquela natureza junto aos alunos do ensino fundamental, mas em função do temor de que católicos e evangélicos do Congresso não sustentem apoio a Antonio Palocci na crise.

Lula desembarcou em Brasília nesta semana não só para comandar a defesa do ministro Palocci, mas também para tentar conter a crescente insatisfação no PT e no PMDB com o estilo distante e animoso da presidente.

Para o público externo, galvaniza as atenções inventando uma versão qualquer para jogar suspeições sobre o PSDB a fim de desviar o foco das desconfianças sobre o enriquecimento anômalo do ministro e da evidência de que, se conspiração contra Palocci há, ela está dentro do PT e não na oposição.

Para o público interno, funciona como dique para conter a contrariedade das bancadas e suprir as carências do Planalto no momento em Palocci está fora de combate e que o ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, se confirma na condição de nulidade.

A situação não é nova, vem se desgastando nos últimos dois meses, mas acabou se agravando com a crise que imobilizou Palocci conjugada à necessidade de uma articulação competente diante de uma questão importante como a votação do Código Florestal.

Um exemplo da carência de atributos de Dilma para lidar com o Congresso aconteceu na tarde de terça-feira, quando o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, foi ao palácio comunicar os termos para a votação do Código Florestal naquela noite.

O líder comunicou a Palocci o apoio do PMDB à emenda que permite a manutenção das produções agrícolas existentes em áreas de preservação permanente antes de 2008. Palocci levou a informação à presidente, que, então, mandou comunicar ao vice-presidente Michel Temer que se o partido insistisse no apoio à emenda demitiria todos os ministros do PMDB.

Uma impossibilidade evidente. Temer e Palocci precisaram contornar a situação fazendo ver a Dilma que aquele não seria o melhor momento para deflagrar uma guerra dessa envergadura.

O PMDB manteve a posição e à presidente foi transmitida a avaliação de que a emenda seria derrubada no Senado.

Se não for, ela terá de arcar com o desgaste do veto junto ao setor agrícola e até se expor ao risco de ver o veto derrubado.

Uma complicação à qual um governante não faz frente se não tiver experiência, vocação e tino políticos. Como Dilma Rousseff não tem, acaba de transferir essa tarefa a Lula.

Tal transferência pode até resolver o problema de imediato.

Mas abre enorme flanco com a cessão da autoridade presidencial a outrem. E não a um outrem qualquer: a Lula que sabe como ninguém potencializar poder político.

Decorre daí uma anomalia: o encolhimento da figura da presidente de direito e a expansão do papel de um ex-presidente numa informalidade institucional jamais vista em qualquer País do mundo civilizado.

Passivo.
Quando o Supremo Tribunal Federal rejeitou a denúncia contra o ministro no caso da quebra do sigilo bancário de Francenildo Costa, o fez por falta de provas. Talvez fosse outra a decisão se os detentores de informações importantes tivessem se manifestado no tempo adequado.

Como a Caixa Econômica Federal, que tardou, e falhou, ao só agora informar à Justiça que a responsabilidade foi do gabinete do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci.

Palocci e o método Lula

Janio de Freitas, Folha de São Paulo

"A imprensa" a que Lula atribui má-fé é uma forma de referir-se aos jornalistas ligados ao caso Palocci

O Lula que reaparece para "assumir a defesa" de Antonio Palocci, o qual já precisou afastar do governo por atitude delinquente e imoralidade administrativa, é um dos piores Lulas: o Lula que faz calúnias fáceis e desumanas.

"A imprensa" a que Lula volta a atribuir conduta de má-fé, com as notícias sobre o enriquecimento peculiar de Palocci, é uma forma verbal que se presta à dispensa cômoda de referir-se aos jornalistas ligados ao assunto em questão. As revelações, antes de o serem da imprensa, que as veicula, o são dos jornalistas. Nunca os que prestem serviços palacianos e partidários, menos ou mais disfarçados, ou façam "jornalismo" mais de ficções que da disposição de expor-se às adversidades da profissão. Não é a estes que Lula se dirige.

Exaltado, diz Lula que o bombardeio da imprensa a Dilma começou muito antes do que ocorreu à sua Presidência.

De fato, demorou um pouco a revelação ao país, por intermédio da Folha, do tráfico de dinheiro entre políticos operado pelo conluio de parte da cúpula petista com Marcos Valério. E, é certo, tardou mais ainda a revelação da casa utilizada por lobistas com o então ministro principal de Lula.

Mas não é verdade, e é caluniosa, a acusação de Lula a propósitos de bombardear Dilma e, para tanto, valer-se das revelações sobre os negócios inconfessados, e até agora inconfessáveis, de Palocci outra vez feito ministro por Lula, apesar de tudo.

Nem, muito menos, tais revelações têm o objetivo político de "testar a Dilma". Excetuado Fernando Henrique Cardoso, e por motivos óbvios, Lula não demonstraria que algum outro presidente, desde o fim da ditadura de Getúlio, fosse tratado com mais consideração pessoal e cuidado crítico do que Dilma Rousseff em seus cinco meses iniciais (ao que acrescento: tratada como fez por merecer).

As duas revelações fundamentais do novo caso Palocci - a compra multimilionária de imóveis e a colheita gênero megassena logo em seguida à eleição de Dilma - foram publicadas pela Folha e elaboradas como notícias objetivas. Sem qualquer extrapolação excedente aos fatos. Nada do publicado ali foi desmentido.

A nota de defesa de Palocci, para que senadores, deputados e ministros falassem por ele, foi confirmação inequívoca das revelações. Até com um acréscimo inábil, constatado por artigo nesta coluna, que levava à revelação de posse, além dos imóveis, de riqueza em espécie posta sob guarda e aplicações de empresa especializada.

A atribuição de segundas e outras intenções a jornalistas sérios, como Lula praticou quando presidente e volta a fazer, é caluniosa para com profissionais que se esforçam por um jornalismo honesto. E, sem motivo algum, desumanamente desrespeitosa com eles como pessoas. Os quais nem ao menos são citados nominalmente, para justificar uma defesa.

Com o tempo de vida passado como testemunha e partícipe daquele esforço, não dá mais para ver, como se nada significassem, essas violências e injustiças de fins intimidatórios. E não exclusivas de Lula, apesar de sua especialidade.

Nunca estive e não estou nem perto das linhas de frente dos defensores da imprensa, brasileira ou outra. Mesmo quando Lula me atribuiu a intenção de causar prejuízo eleitoral ao PT, por ter revelado uma fraude (comprovada) em concorrência na então prefeitura petista de Campinas, apenas assinalei sua atitude.

Mas o golpe da calúnia se tornou hábito. Os aborrecimentos para dentro do jornalismo não cabem mais só nele. Se posso usar este para protestar, é o que faço.

O leitor que ache nada ter com isso, e ainda assim chegou até aqui, queira desculpar. Mas tem muito mais a ver com isso do que pode supor.

Palocci e a hidra de duas cabeças

Demétrio Magnoli - O Estado de São Paulo

Antônio Palocci não estará alheio à coincidência de que os lucros fabulosos de sua firma de consultoria tenham vindo à tona precisamente quando o governo Dilma Rousseff enfrenta uma encruzilhada crucial. De novo, mas numa conjuntura internacional diferente, eclode no núcleo do poder a disputa sobre o lugar do Estado na economia brasileira. Atrás do "fogo amigo" contra o chefe da Casa Civil está o projeto de radicalização do pacto lulista esboçado após a queda de Palocci, em 2006.

No primeiro mandato de Lula, a dupla Palocci-Henrique Meirelles funcionou como âncora da ortodoxia herdada, expressa nos três mandamentos oriundos do Plano Real: metas de inflação, câmbio flutuante e equilíbrio fiscal. O escândalo do caseiro abriu a oportunidade para o avanço dos "desenvolvimentistas" e, no segundo mandato, sob o comando ambivalente de Guido Mantega e Meirelles, surgiram os traços de um desenho alternativo, que tendia a suprimir o equilíbrio fiscal do tripé de política econômica. A quebra do Lehman Brothers, em 2008, rompeu o dique de contenção do Banco Central, propiciando a articulação do pacto lulista destinado a eleger Dilma Rousseff. Os vagalhões do tsunami seriam reduzidos a uma "marolinha" pela ressurreição do "Estado provedor".

No princípio, era necessidade. À estiagem global de liquidez o governo Lula contrapôs uma torrente de crédito e investimento que, em menos de um ano, reativou o crescimento interno. Depois, a necessidade foi retraduzida como virtude: o frenesi de gastos públicos aqueceu a caldeira da demanda interna, produzindo a fogueira de 2010. No ano eleitoral, a economia entrou em desabalada carreira, à custa de contratação de dívida pública, apreciação cambial e deterioração das contas externas.

Economia é política concentrada. O pacto lulista aliou o governo à fração principal do grande empresariado por intermédio do BNDES, das estatais e dos fundos de pensão. A inflexão de política econômica alicerçou-se sobre a convergência de duas motivações. Lula, que não se importa com ideias, consolidava uma aliança de poder que tornaria viável a transição para um governo destituído de seu carisma. Os arautos do capitalismo de Estado, representantes de uma doutrina, visualizavam a oportunidade para destruir alguns pilares da ortodoxia vigente. Fruto da convergência, surgiu a hidra de duas cabeças: uma política econômica que almeja conciliar voluntarismo desenvolvimentista e controle da inflação na moldura restritiva do câmbio flutuante.

Dilma montou seu governo à luz de um desejo continuísta, revigorando o poder de Mantega na equipe econômica, mas, simultaneamente, traçando um limite para as aventuras desenvolvimentistas pela nomeação de Palocci para o cargo fantasmagórico de primeiro-ministro. A hidra bifronte deveria seguir sua marcha, espalhando inconsistências ao longo de uma vereda providencialmente aberta pelos elevados fluxos externos de investimentos no Brasil. O repique inflacionário atual, num cenário de apreciação da moeda rodeado por incertezas externas, assinala a encruzilhada: cedo ou tarde, será preciso cortar uma das cabeças da hidra.

Decepar a cabeça desenvolvimentista exige a recuperação do equilíbrio fiscal por meio da redução dos gastos públicos, que possibilitaria mais à frente uma queda sustentada da taxa de juros. No curto prazo, porém, a inflação precisaria ser contida por aumentos inclementes dos juros. Em vários cenários externos malignos, a combinação de apertos fiscais e monetários provocaria uma recessão doméstica. A hipótese é politicamente dolorosa, talvez intragável, pois uma presidente sem carisma estaria declarando nulo o pacto lulista que a conduziu ao Planalto.

A alternativa, acalentada por figuras influentes, dentro e fora do governo, é decepar a cabeça ortodoxa, renunciando ao câmbio flutuante e ao sistema de metas de inflação. Num ambiente de aumento de preços internos, o governo usaria sua artilharia pesada para promover um vasto programa de obras e financiar o grande empresariado associado ao Estado. O real seria desvalorizado e o câmbio, posto sob cabresto. Sob a égide de um protecionismo restaurado, o mercado interno se converteria no eixo de expansão econômica. A hipótese equivale a um passeio às cegas num campo minado pelo retorno da inflação e pela queda dos salários reais.

A presidente pode adiar o desenlace, decidindo nada decidir, numa aposta equilibrada sobre as vultosas reservas internacionais do País e as esperanças numa evolução benigna do cenário mundial. O Ministério da Fazenda atribui as ameaças inflacionárias à especulação internacional nos mercados de commodities, silenciando acerca da orgia fiscal promovida no ano eleitoral. Hoje, num seminário conjunto do governo brasileiro e do FMI, Mantega repetirá sua peça acusatória contra as políticas monetárias dos EUA e da China, a fim de atribuir a fatores externos o impasse brasileiro. Ele tem alguma razão, como costumam ter uma pitada de razão todos os que invocam o espectro do "inimigo estrangeiro" para ocultar insolúveis dilemas internos.

"Não importam os nomes, a responsabilidade pela economia é minha", assegurou Dilma ainda antes da posse. Na política real, feita por pessoas de carne e osso, não por abstrações sociológicas, os nomes importam, sim - como sabem as fontes últimas das suspeitas que cercam o primeiro-ministro. Tais fontes evidenciaram apenas a película pública da história da firma de consultoria (ou de lobby, como sugere Michel Temer?), pois não pretendiam derrubar seu proprietário, mas tomá-lo como refém, provocando uma incapacitação política. O serviço, que contou com o auxílio involuntário do próprio Palocci, já está feito. O dilema econômico subsiste, mas o campo de batalha foi modificado.

A presidente ''ultrapassada''

O Estado de São Paulo

Nos primeiros tempos do novo governo, a presidente Dilma Rousseff era aplaudida por duas características que representavam um bem-vindo contraste com o estilo de seu mentor Lula. Para os ouvidos fartos da verborragia do então presidente e para as vistas cansadas das suas incessantes aparições, a economia de palavras e a concentração da sucessora nos seus afazeres foram recebidas com um misto de alívio e otimismo. Assim também os relatos do exame minucioso que dedicava aos assuntos de sua alçada e do rigor com que cobrava da equipe a correção das lacunas ou imperfeições identificadas nos documentos que pousavam na sua mesa de trabalho - a antítese da aversão de Lula pelos textos levados à sua leitura que excedessem um par de páginas.

Mas a política é impiedosa. Bastaram os primeiros sintomas de incerteza nas decisões do Planalto (sobre o reconhecimento de que a inflação começara a voltar e a escolha dos instrumentos para contê-la, por exemplo) e as primeiras rusgas com a balofa base parlamentar governista (sobre cargos e verbas, como sempre) para que as avaliações da conduta presidencial passassem a produzir conclusões diferentes. As suas aparentes virtudes seriam, na realidade, limitações. Se ela fala pouco, é porque, além da inaptidão para se expressar em público, pouco tem a dizer. Se ela dedica tempo e energia a perscrutar com lupa os calhamaços da administração, é porque padece do vício do detalhismo e do gosto tecnocrático pela microgestão, em detrimento do diálogo com as suas forças no Congresso. Foi em meio a essa mudança de louvores para reparos que Dilma sofreu dois golpes.

O primeiro, a pneumonia que não só a obrigou a se recolher ao Palácio da Alvorada, a sua residência oficial, e a reduzir o ritmo de sua atividade, como evidenciou, com o passar do tempo, que o Planalto mentiu sobre a gravidade da doença que a acometeu. O segundo golpe, naturalmente, foi a revelação do enriquecimento, em meros 4 anos, do principal coordenador de sua campanha, o então deputado Antonio Palocci, que ela promoveu a personagem central do governo, como titular da Casa Civil e seu interlocutor com as elites nacionais. O silêncio - só ontem rompido - e a aparente inexistência de qualquer iniciativa de Dilma em face do escândalo deram azo a uma fuzilaria de críticas: procedentes, as da opinião pública; oportunistas, as dos políticos da base aliada, descontentes com o pouco-caso de Dilma e Palocci.

O comando da base vinha bloqueando, até por meios truculentos, as tentativas da oposição de convidar o ministro a se explicar. Mas o confronto entre a presidente e o PMDB a propósito da vitoriosa emenda ao projeto do Código Florestal, que anistia os cultivos feitos até 2008 em áreas de proteção permanente, instalou um clima de mala sangre entre o governo e sua base parlamentar de que a oposição, sobretudo no Senado, poderia tirar proveito para trazer Palocci às falas, no âmbito de uma CPI. Não se sabe se a presidente e o ministro já tinham se dado conta da erosão do seu patrimônio político no Congresso - e, em caso positivo, o que pretendiam fazer para recuperá-lo. O fato é que, com a sua proverbial intuição, Lula se abalou a Brasília e chamou a si o controle da crise. O resultado de sua intervenção é incerto, mas, com a sua entrada em cena, Dilma foi "ultrapassada", como se diz na caserna quando um comandante tem diminuída a sua autoridade.

Sob a batuta de Lula, que a instou a "abrir mais" o seu governo, ela marcou sucessivos encontros com políticos petistas e aliados. Ao mesmo tempo, para dissuadir as bancadas religiosas na Câmara de abandonar Palocci à própria sorte, mandou para o arquivo morto o polêmico kit anti-homofobia - uma cartilha e cinco vídeos que o Ministério da Educação pretendia distribuir nas escolas públicas de nível médio a pretexto de promover a tolerância entre os alunos. Decerto ainda é pouco para aplacar a irritação dos políticos, a julgar pela pilha de reclamações que deixaram com Lula sobre a "indiferença" de Dilma e a "arrogância" de Palocci. Guiada pelo antecessor, ela tem o telefone e a caneta para ir ajeitando as coisas. Mas ele continua tendo de fazer o que até agora evitou: dar satisfações dos seus negócios. Do contrário, também será ultrapassado.

A Rainha Muda, a matemática homoafetiva, a idiotia politicamente correta e os cadáveres da imprensa

Reinaldo Azevedo

Um dos grandes dramas do Brasil hoje em dia é que os ignorantes patrulham os oportunistas. A presidente Dilma Rousseff suspendeu ontem o tal “kit anti-homofobia” que seria exibido nas escolas — se aquilo era “anti” alguma coisa, era anti-heterossexual; tratava-se de proselitismo gay. Escrevi aqui que Dilma pode ter feito por maus motivos o que deveria ter feito por bons. O que quis dizer com isso? O material era de uma impressionante vigarice intelectual, moral, técnica e matemática. Até aí, tudo bem para o Planalto! A Rainha Muda não havia movido uma palha!

Quando a bancada cristã ameaçou chamar Antonio Palocci para o palco, então a presidente se mexeu e descobriu, ora vejam!, que o tal kit era inadequado e entrava na seara das famílias. Desconheço país do mundo que exiba filmes em sala de aula que tenham o objetivo de alertar os alunos heterossexuais para a possibilidade de que eles podem estar perdendo a oportunidade de “ficar” com indivíduos do mesmo sexo. Isso, obviamente, é assédio moral. Mas não é ainda o limite. Abaixo do fundo do poço, há um alçapão.

Divulgados os vídeos — eu já havia publicado um deles aqui, sobre o rapaz que se chama “Bianca” —, assisti a outro, intitulado justamente “Probabilidades”. Escrevi um post a respeito. Conta a história de Leonardo, que descobriu que gostava de meninas e… meninos. Certo! Aí, relata o filme, “foi copiando a lição de probabilidade que Leonardo teve um estalo (…), gostando dos dois, a probabilidade de encontrar alguém por quem sentisse atração era quase 50% maior. Tinha duas vezes mais chance de encontrar alguém (…)!” Evidenciei o óbvio: trata-se de uma bobagem matemática dupla. Se Leonardo passou a se interessar por todos os bípedes sem pêlos e penas — os tais humanos —, e não apenas pelas fêmeas da espécie, dado que antes só fazia a sua coleta em 50% dos indivíduos, a probabilidade é 100% maior, não 50%; ele não tem duas vezes mais chance, mas uma — já que a primeira sempre esteve dada.

É um troço elementar. Eu não sei se a economista Dilma Rousseff, ainda que destituída de seu falso doutorado, percebeu a falcatrua matemática ao ter vetado o vídeo. O que me causa espanto é que não vi o erro apontado nos sites dos grandes jornais — não havia uma miserável linha a respeito. E a razão é simples. O erro não foi percebido pelo MEC, o erro não foi percebido pelos especialistas, o erro não foi percebido pelos jornalistas. Uma vez denunciado, como foi aqui (este blog teve ontem 98.627 visitas, e vocês sabem como funciona a rede; os posts se multiplicam porque reproduzidos por outros páginas), fizeram de conta que nada tinha acontecido, que a bobagem não estava lá, que o material era bom pra chuchu e só foi vetado porque Dilma cedeu aos dinossauros cristãos para tentar salvar a pele de Palocci.

Sim, ela, o PT e mais um bando de gente — sobretudo um bando de gente! — está tentando salvar a pele de Palocci, mas não só por intermédio da suspensão do kit gayzista, não é mesmo? O fato de que tenha recorrido também a esse expediente é uma evidência a mais do desespero, mas não torna aceitável ou respeitável o material. É um lixo pedagógico! É um lixo didático! É um lixo matemático!

Setores da imprensa estão indignados! E daí que a matemática homoafetiva seja diferente daquela matemática habitualmente usada par tocar a vida, presente nas pontes, nos prédios, nas calculadores, nas contas em geral? Que se dane! A escola é o lugar em que a gente tem de aprender “cidadania” e “justiça social”!!! Porque esses são dois conceitos respeitáveis, sem dúvida, então eles podem substituir todo o resto. O Ministério da Educação pode torrar alguns milhões oferecendo uma matemática troncha à patuléia — desde, obviamente, que se o faça por bons propósitos. A canalha considera que a causa da igualdade pode suportar uma língua errada, uma matemática errada, uma ciência errada.

Os alunos pobres podem, sim, ser ignorantes. O importante é que sejam “justos” e pratiquem a igualdade. Dilma suspendeu o material por oportunismo, sem dúvida, mas está sendo patrulhada pelos estúpidos. Ontem, um dos portais trazia a Natalie Lamour do Congresso, Jean Willys (PSOL-RJ), conclamando os gays a não votar mais na petista. O ex-BBB teve pouco mais de 16 mil votos e só está na Câmara porque Chico Alencar foi o seu Tiririca…

Politicamente incorreto

Alguns colunistas condenados ao oblívio pelos leitores — em razão da falta do que dizer — esforçam-se para voltar ao debate atacando “essas pessoas politicamente incorretas” que andam aí pela imprensa — um deles ficou a um passo de soletrar meu nome quando defendi a ação da PM contra os maconheiros que fechavam a Paulista, mas não o fez.

Pois é… O que se entende por politicamente incorreto? Saber matemática? Apontar a picaretagem teórica dos vídeos homoafetivos do MEC? Acusar o estado de estar invadindo a esfera privada das famílias? Demonstrar o primarismo do roteiro, do texto e dos conceitos das FÁBULAS ESTATAIS que querem levar às crianças e aos adolescentes? Denunciar um verdadeiro trabalho de molestamento da maioria sob o pretexto de proteger a minoria?

Uma imprensa que se conforma com o fato de que o MEC exiba em sala de aula um filme oficial com um erro grotesco de conceito matemático, mas supostamente aceitável porque ancorado na correção política, é uma IMPRENSA MORTA! Parou de cumprir a sua função e está se comportando como militante política. Uma imprensa que propaga uma mentira estúpida — como a afirmação de que o suposto desmatamento no Mato Grosso teria sido provocado pelos debates sobre o novo Código Florestal — é igualmente uma IMPRENSA MORTA. Perdeu o seu compromisso com a verdade.

Não me preocupa — e acho que isso explica, em parte ao menos, o sucesso do blog — se minha opinião é politicamente correta ou incorreta; não preciso pedir licença a nenhum aiatolá para escrever. Já defendi algumas vezes, por exemplo, a união civil de homossexuais. Eu me oponho, aí sim, a que o Supremo ignore a Constituição para realizar esse propósito. Eu me oponho a que o Estado assuma o lugar das famílias. Eu me oponho a que se violem a lógica e a matemática para fazer “justiça”. Eu me oponho a que as aulas de “igualdade” tomem o lugar da aritmética e da língua portuguesa. Isso não é ser politicamente incorreto. Isso é não ser politicamente estúpido.

Dilma vetou o filme para salvar o couro de Palocci? É só mais uma manifestação da República dos Companheiros. A sua decisão, comprometida pelo oportunismo, não torna aceitável a porcaria que Fernando Haddad preparou para ser exibida nas escolas. Aplaudo a decisão em si. E censuro a Rainha Muda por ter deixado essa estupidez ir tão longe.

Lula assume o comando

O Estado de São Paulo

Passados 144 dias de sua descida da rampa do Palácio do Planalto, Lula assumiu - se não o controle da administração de sua afilhada Dilma Rousseff - a condução política do governo. A volta foi ostensiva, deliberadamente ostensiva. Não é que até então ele tivesse deixado de influir em decisões da sucessora, a começar da formação da sua equipe, enquanto dizia ora que ex-presidentes não devem dar palpites sobre o que fazem os novos, ora que não lhe estava sendo fácil "desencarnar" da Presidência. Mas a sua atuação se dava nos bastidores, mediante telefonemas e reuniões discretas. À parte isso, a sua agenda política se concentrava em levar o PT a lançar um nome novo - presumivelmente, o ministro da Educação, Fernando Haddad - para disputar a Prefeitura paulistana no ano que vem.

Anteontem tudo mudou. Diante do desastroso manejo do escândalo que se abateu sobre o titular da Casa Civil, Antonio Palocci, tanto por parte do governo do qual, segundo Lula, ele é "o Pelé", quanto por parte do partido onde o ex-ministro da Fazenda não é propriamente uma unanimidade, o primeiro-companheiro decidiu entrar em campo para comandar o time político. Almoçou e posou para fotos com ar de comandante-chefe com 12 dos 14 membros da bancada do PT no Senado, os quais exortou a sair em defesa de Palocci de uma vez por todas. Revelado o fenomenal enriquecimento do ministro entre 2006 e 2010, quando acumulou o mandato de deputado com a atividade dita de consultoria, apenas 3 senadores petistas foram à tribuna se solidarizar com ele.

Lula não ficou nisso. Calejado no ramo do despiste desde a descoberta, em 2004, de que a Casa Civil do seu governo tinha um assessor parlamentar já flagrado cobrando propina, Lula deu duas ordens. Aos senadores e a tutti quanti, mandou bater na tecla de que o ônus da prova cabe a quem acusa - a imprensa e a oposição -, de que não há prova alguma de que o dublê de consultor e líder informal do governo na Câmara tenha feito fortuna ilicitamente e que, portanto, ele não deve explicações além das que deu à Comissão de Ética da Presidência. Ao mais íntimo homem de confiança no Planalto, o seu ex-chefe de Gabinete e atual secretário de Dilma, Gilberto Carvalho, Lula mandou desviar o foco do problema, culpando o secretário municipal de Finanças de São Paulo, Mauro Martins Costa, principal aliado do ex-governador tucano José Serra na gestão do prefeito Gilberto Kassab, pela revelação dos ganhos auferidos pela Projeto, a firma de Palocci.

A Secretaria teria como estimar o faturamento da empresa a partir dos valores do Imposto sobre Serviços (ISS) que nele incidiam, à razão de 5%. Desde a primeira hora, atribuía-se o vazamento ao "fogo amigo" de petistas furiosos com os vastos poderes de Palocci no governo Dilma e em posição de bisbilhotar os dados fiscais da Projeto, em posse da Receita Federal. A questão, no entanto, é secundária perto das implicações dos presumíveis ilícitos que Palocci teria cometido. De mais a mais, a muitos não escapou a ironia da corda em casa de enforcado: falar em quebra do sigilo fiscal do ministro lembra a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, ao qual ele ficou indelevelmente associado. De todo modo, o fato central na reaparição de Lula é o atestado da omissão política da presidente. O seu mentor precisou preencher a lacuna de sua ausência na crise que atingiu o cerne do governo.

A omissão poderia ser debitada ao desnorteamento de Dilma diante de um escândalo que ela não tinha preparo para enfrentar. Mas isso não é tudo. O que Lula ouviu dos companheiros senadores foram queixas sobre o alheamento político da presidente. Por soberba, inapetência, ou uma mistura das duas coisas, ela vem mantendo até os parlamentares de seu partido a uma distância incompatível com as suas necessidades. Dilma delegou o diálogo ao seu superministro. Com ele nas cordas, o vazio ficou escancarado. Agora, será uma surpresa se Lula se limitar a reger o governo no caso Palocci. Se, falando do ministro, disse que "não dá para pôr o Pelé no banco", que pensará ele de sua própria condição de titular a que os fatos o reconduziram?

Se Palocci ganha, Dilma perde

Marco Damiani, Brasil 247

Presidente pode ser carimbada como complacente com o mal feito

O nome do ex-ministro chefe da Casa Civil Henrique Hargreaves está em alta em Brasília. Menos por seu trabalho no gabinete do presidente Itamar Franco - de resto um governo ainda incompreendido em relação aos avanços que promoveu no País – e sim pela atitude tomada diante de uma acusação que o envolvia pessoalmente. Como frisou a senadora Ana Amélia Lemos, do PP do Rio Grande do Sul, Hargreaves se afastou do mesmo cargo que Palocci ocupa hoje para provar sua inocência diante de acusações de irregularidades no exercício do cargo. Conterrâneo de Itamar, de quem é amigo pessoal, Hargreaves tornou-se chefe Gabinete Civil em 5 de outubro de 1992 e ficou lá até 1º de novembro de 1993 quando, em combinação explícita com o então presidente, saiu para se defender das acusações. Ficou um ano, como se diz, na chuva, mas voltou de alma lavada, em 8 de fevereiro de 1994, permanecendo até a posse do sucessor que Itamar elegeu, FHC, em 1º de janeiro de 1995.

Pela atitude, Hargreaves contribuiu para carimbar no governo Itamar a imagem pública de gestão austera e dura com os servidores públicos de ação, digamos, mais heterodoxa. Tanto colou, que, levado pelo braço por Aécio Neves, Itamar, de terno branco, elegeu-se senador por Minas no ano passado. Entre os políticos que estão aí, ele é o que menos se pode atacar nos quesitos “rouba mas faz”, “não rouba mas deixa roubar”, “finge que não vê ou não lembra” e outros. Itamar tem moral para falar mais alto quando o assunto é o combate aos malfeitos na administração pública.

Jogando com a força do rolo compressor governista no Congresso, articulado com os governadores do PT e escudado diante da mídia pela ação de assessores e lobistas do naipe da recém contratada FSB, o atual titular Antônio Palocci tem tudo para ficar no cargo. Mas vai manter o mesmo moral perante o País? E a presidente Dilma, quanto irá pagar, politicamente, por aceitar a vontade de Palocci de aferrar-se ao cargo?

Na condição de presidente eleita, em dezembro, Dilma disse em entrevista à tevê Bandeirantes que não seria, de modo algum, complacente com o mal feito. Em setembro, também do Gabinete Civil, sua amiga Erenice Guerra ‘levou um pé’ do presidente Lula em razão de acusações sobre uma enorme ação familiar envolvendo verbas públicas. Ali, porque corria o risco de perder a eleição, Lula pouco hesitou antes de promover a exoneração. Uma vez realizada, a campanha dilmista voltou aos eixos e ela venceu.

No fundo, Palocci fica porque não há eleições por perto. Mas na mesma medida em que ele pode cantar vitória neste curto prazo, Dilma não tem nada para comemorar. Agora e por longo prazo, quem será vista com o carimbo de complacente vai ser ela própria. O que no Japão poderia terminar em suicídio e nos Estados Unidos em cadeia, aqui no Brasil já resulta em desgaste para uma presidente que vacilou à primeira chance de fazer o que prometera diante de casos mal explicados como este da multiplicação por 20 no patrimônio de um dos seus.

Lula volta à cena com script de sempre

Fernando Gabeira, Estadão.com

Lula voltou ao centro da cena política. Era previsível que isto acontecesse numa crise. Ela veio rápida demais, na minhas opinião. O Financial Times, por exemplo, acha o contrário. Na opinião do jornal inglês, a luta de mel do governo Dilma foi surpreendentemente longa.

A volta de Lula, no auge da crise, traz com ele toda a experiência que ganhou ao longo dos anos, administrando as confusões mais graves que envolveram o PT.

A primeira mensagem foi dirigida ao público que não acompanha noticiário de jornal, nem se interessa muito, pelo menos no momento, em fixar os limites de uma consultoria paga a Palocci.

Ao afirmar que Palocci era o Pelé da economia, ele estava justificando para aqueles setores a multiplicação dos bens do ministro. Os altos salários dos jogadores de futebol são algo bem familiar ao cotidiano. Quando se trata de um jogador extraordinário como Pelé, eles são naturais como o frio no inverno.

O outro lance da intervenção de Lula refere-se ao governo. O senador Magno Malta sintetizou sua impressão: Lula é jeitoso, não tem a síndrome de Mercadante.

Para quem viveu anos perto deles, a frase utiliza o nome de Mercadante mas pode estar falando de Dilma Rousseff.

Lula percebeu tudo . Não sei se foi num relance, ou se a prática de tantos anos já o faz trabalhar no piloto automático. Os senadores querem cargos e verbas, isso não é nenhuma novidade.

Mas é uma ilusão achar que querem apenas cargos e verbas. A prática política tem um importante componente subjetivo. Todos querem ser bem tratados, exceto um ou outro masoquista. Na cultura brasileira isso tem um peso tão grande que, na impossibilidade de dar o cargo ou a verba, um pouco de afeto atenua a reação negativa.

Finalmente, Lula tratou das acusações a Palocci. Em primeiro lugar disse que eram contra Dilma e que eram armação da imprensa. Isso remete , basta dar uma olhada na internet, ao combate de sempre: vencemos as eleições no voto, há uma imprensa golpista que não se conforma.

No fundo, talvez saiba que repórteres apenas buscam notícias. É fácil acusá-los porque nem sempre podem responder a um ex-presidente.

No primeiro dia, Lula mostrou inúmeras armas de seu arsenal. Ele intuiu que a crise é grave e saiu rápido em defesa de um governo que dá ainda seus primeiros passos.

O arsenal de Lula, por mais eficaz que seja, não consegue, no entanto, responder à pergunta elementar : como explicar a fortuna de Palocci?

Dilma Rousseff entre a ‘herança maldita’ de Lula e sua própria inércia

Bolívar Lamounier, Exame.com

Começar por onde? Pela timidez da política econômica, que mal e mal tenta impedir a escalada da inflação e nada faz em relação à infraestrutura? Pela política externa, que começou auspiciosa, tomando distância em relação ao Irã, mas ficou nisso? Pelas sempre urgentes e sempre adiadas reformas que Lula engavetou e Dilma periga de não desengavetar?

Justiça seja feita, o “estilo Dilma” contribuiu notavelmente para desanuviar e relaxar a atmosfera política do país. Falando pouco e denotando certa sobriedade, ela devolveu a milhões de cidadãos a preciosa faculdade do senso crítico. A consciência de que a verborreia lulista ultrapassara de muito os limites do tolerável. Só por haver despoluído o ar, Dilma já mereceria aplausos.

Mas a melhora não se deveu apenas a seu estilo pessoal. Aqui e ali, mediante discretas indicações, ela de fato sinalizou que iria aos poucos se desvencilhar do torniquete ideológico lulopetista. Quando anunciou que iria privatizar a expansão dos aeroportos mais congestionados, por exemplo; mas não custa lembrar que esse assunto também está sendo tocado a passos de cágado.

Imaginar que a presidente fosse se inteirar dos detalhes da política educacional em menos de 150 dias seria demais, admito. Minha impressão é que ela tomou conhecimento da falta de rumos do MEC da mesma forma que o público em geral, ou seja, pelos jornais. Foi por este caminho que o país veio a saber que tipo de livro o MEC adquire para distribuir entre centenas de milhares de estudantes.

Foram dois casos. Primeiro, livros destinados ao ensino de história no ensino médio, só que portadores de um flagrante (e previsível) viés ideológico-partidário. Segundo, com repercussão muito maior, o besteirol do “nóis pega os peixe”: um ajuntamento em tudo e por tudo pedestre de pseudoideias pedagógicas. Deixo para outro dia um comentário mais paciente e circunstanciado sobre essa matéria.

Mas eis que de repente, não mais que de repente, a Exma. Sra. Presidente da República se deixa arrastar para um imbróglio, este sim, de bom tamanho. Um imbróglio, dois imbróglios, um em dois ou dois em um, vamos ver aos poucos qual é a caracterização mais adequada.

De um lado, o affair Palocci. Não preciso recontar a história toda. Do essencial todo mundo já tomou conhecimento: o ministro-chefe da Casa Civil recebeu uma fortuna entre 2006 e 2010, período em que também exerceu o mandato de deputado federal. Alega tê-la ganho mediante atividades de consultoria, mas não deseja revelar quem foram seus contratantes nem por que o contrataram.

Optando por não fazer de forma voluntária os esclarecimentos que a opinião pública reclama, o ministro obviamente se torna alvo de uma longa série de indagações e cobranças totalmente pertinentes. Pode dizer que não deve satisfações a ninguém? É claro que não; isto aqui não é uma monarquia absoluta, é uma república, uma democracia, um Estado de Direito.

Pode dizer que seus ganhos estão dentro do padrão normal no ramo de consultoria econômica? Poder, pode; pode dizer o que quiser; mas precisa se lembrar que nem todos os cidadãos são crédulos incuráveis.

Pode dizer que as informações relevantes já foram prestadas ao fisco? De forma alguma. Sendo um agente público, não lhe cabe delimitar o que é ou não relevante. Já se sabe, por exemplo, que uma grande parte dos rendimentos que auferiu foi-lhe paga nos últimos dois meses do ano passado, após a eleição presidencial, tendo ele coordenado a campanha vitoriosa e intermediado os contatos dela com os provedores de recursos financeiros.

Numa ponta – chamemo-la a “ponta Palocci”-, é portanto evidente que a presidente se meteu numa enrascada. Sua opção, doravante, é manter ou demitir o todo-poderoso ministro da Casa Civil. Ela poderia ter evitado esse dilema? Claro que podia. Bastava ter indicado a Antonio Palocci a conveniência de um afastamento até os fatos ficarem plenamente esclarecidos.

Aqui chegamos à “ponta Congresso”, ou, se quiserem, à ponta Código Florestal, ou ainda à ponta PT-PTMDB.

Não quero fazer uma avaliação injusta. Numa questão que consideram vital, os ruralistas provavelmente fariam valer o seu peso numérico na Câmara, de um jeito ou de outro. Mas precisava ser uma derrota acachapante como a que se verificou ontem, com possíveis reflexos no Senado? Se este mantiver o texto aprovado na Câmara, Dilma não terá outra opção a não ser o veto, e a partir daí o relacionamento entre o Executivo e o Legislativo poderá sofrer uma deterioração substancial e duradoura.

No fragor dessas duas batalhas – Palocci e Código Florestal -, Dilma Rousseff pediu ajuda. Chamou Lula, Franklin Martins e outros menos votados. Oficialmente eles teriam ido a Brasília por outras razões, claro, mas este texto não é destinado a leitores mirins. Na realidade dos fatos, o processo acima rememorado pode ser resumido em três pontos.

Primeiro, Dilma está começando a sentir em seus ombros o peso da “herança maldita” de Lula: a ilha da fantasia no aspecto econômico, o país travado pelas reformas que ele poderia ter feito e não fez etc. etc.

Segundo, o peso de sua própria inércia. É difícil dizer se Dilma não percebe a densa nuvem de dificuldades que está se formando, ou se percebe mas não tem coragem ou capacidade para agir. Fora de dúvida é que ela continua refém das facções e dos apetites partidários que despudoradamente se digladiam à sua vista, refém das ambiguidades ideológicas e partidárias que a catapultaram à sua atual posição.

Por último, a presidente parece prestes a ser tragada por um duplo sorvedouro. De um lado, certa propensão a olhar o Congresso de cima para baixo, tratando-o de maneira arrogante e autoritária – atitude em geral desaconselhável mas especialmente grave em vista de sua inexperiência no ramo. De outro, ao constatar a pouca solidez do terreno em que está pisando, o rápido recurso ao mentor, ao paizão: Lula.

Essa fórmula pode funcionar uma, duas ou três vezes, mas acabará por aprofundar o seu desgaste. Inevitavelmente. Como dois e dois são quatro.

Direitos baratos

J. R. Guzzo, Revista Veja

Muito pouca gente notou, alguns dias atrás, que foram eleitos uma nova diretoria e um novo presidente, que aliás é o mesmo de antes, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp de antiga fama como porta-voz dos empresários brasileiros, ou pelo menos paulistas. E como jogo de futebol no campeonato da terceira divisão — sai só o resultado, quando sai, naquela salada de tabelas que aparecem no fim do noticiário esportivo.

Mas a vida de hoje em dia é cheia de surpresas, e problemas podem aparecer onde menos se espera que apareçam. Pois então: a Fiesp publicou uma página inteira de jornal com os nomes dos seus novos 133 diretores, um por um, sendo que o nome do presidente, o socialista Paulo Skaf, aparece cinco vezes no mesmo anúncio.

Até aí tudo bem, levando-se em conta que a maioria deles gosta de ver o nome anunciado no jornal, sobretudo quando é a Fiesp que paga tudo. Mas logo fica claro que alguma coisa está errada nessa história. Olha-se um pouco melhor para o anúncio e logo se vê a encrenca: não há, entre os 133 novos diretores Fiesp, uma única mulher, nem uma que seja.

É o diabo: o que poderia haver de mais incorreto do que isso? O duro é que foi acontecer logo com a Fiesp, que, como uma porção de gente boa neste país, presta tanta atenção para se manter a favor de tudo o que é moderno, virtuoso e democrático nos tempos de hoje — da sustentabilidade à defesa das terras indígenas, da alimentação hipocalórica ao casamento gay.

Não é uma falha sem riscos. Teoricamente, a entidade poderia ficar sujeita a uma investigação da Secretaria de Políticas para as Mulheres (secretaria com status de ministério, diga-se) ou, quem sabe, de alguma severa procuradora do Ministério Público Federal — isso se não tiver, ainda, de responder a um pedido de explicações por parte da senadora Marta Suplicy.

Com essas coisas não se brinca. Afinal, a fundação da secretaria foi saudada pelo governo anterior como “um novo momento na história do Brasil”. Não ajuda em nada a Fiesp, além do mais, a circunstância de que a Presidência da República é atualmente ocupada por uma mulher. Fazer uma diretoria 100% masculina justo numa hora dessas?

A esperança para a entidade seria dizer, como faz o governo quando lhe aparece algum desgosto, que se trata de um “episódio superado”; é bem possível que ninguém se incomode. A Fiesp viveu, alguns anos atrás, os seus 15 minutos de fama. Na ocasião, por falta do que fazer dos jornalistas, foi promovida à categoria de assunto importante, com direito a aparecer todo dia na imprensa; depois, o tema foi perdendo a graça, por sua monotonia congênita, e acabou morrendo de causas naturais.

Hoje em dia a Fiesp é apenas uma dessas curiosidades da política brasileira. Seu presidente deveria estar presidindo um sindicato de trabalhadores, já que até outro dia estava num partido de esquerda e, ultimamente, tenta ser um amigo dileto do ex-presidente Lula; em seu lugar deveria estar um dos novos sindicalistas do Brasil Potência, que andam de carro com chofer, sentam em conselhos de empresas estatais e não gostam de greves nas obras do PAC.

Mas a questão, no fundo, não é que a Fiesp tenha conseguido montar uma diretoria com mais de 100 cidadãos sem colocar entre eles nenhuma mulher. É que as mulheres não reclamaram; provavelmente nem perceberam.

O episódio, de fato, diz muito sobre a banalidade dos direitos nos dias atuais. Os direitos, atualmente, passaram a ser fabricados em linha de montagem; são tantos, e se multiplicam num ritmo tão veloz, que fica difïcil para as pessoas saber todos os direitos que têm, beneficiar-se deles ou fiscalizar se estão sendo respeitados.

Há direitos para os sem-teto, sem terra, quilombolas, cotistas raciais, vítimas da ditadura, deslocados por barragens, homossexuais, transexuais e, com um pouco de sorte, todo o grupo que apresenta alguma exigência coletiva. A contribuição mais recente vem do Ministério da Educação, que acaba de conferir aos brasileiros o direito de escrever em português grosseiramente errado e adverte, inclusive, que é “preconceito” criticar quem escreve, por exemplo, “dois pastel”.

País moderno é isso.

Por falar em “caso superado”: acaba de acontecer de novo, agora com o ministro Antonio Palocci e seu apartamento de 6,6 milhões de reais em São Paulo; em menos de 48 horas o governo descobriu que está tudo bem. A culpa acabará ficando com a Folha de S.Paulo, que deu a notícia – em mais uma tentativa de golpe, sem dúvida, contra o governo Dilma Roussef.

Palocci e outras roubalheiras

Villas-Bôas Corrêa

Anotei apenas no primeiro caderno de O Globo mais de uma dúzia de denúncias de escândalo, talvez o recorde da temporada que a cada semana é superado.

Vamos começar pelas chamadas da primeira página. No alto, em duas colunas, o nada surpreendente título de “Conselheiros de Tribunais de Contas são investigados”. È o mundo virado de cabeça para baixo: os austeros e impolutos conselheiros do Tribunais de Contas dos Estados (TCEs) em vez de investigar viraram pelo avesso e são investigados. O levantamento pela Associação Nacional do Ministério Público de Contas expõe o vexame da denúncia de que dos 240 integrantes desses tribunais, 48, isto é, 20% respondem a processos ou inquérito.

O mais grave, o campeão da bandalheira é o de Rondônia, onde seis dos sete conselheiros são alvejados por processos. Os TCEs plantam bananeiras, virados de cabeça para baixo. A lista de crimes praticados é extensa: há suspeita de tráfico de droga, pedofilia e homicídio. A maioria das denúncias envolve corrupção e conflito de interesses, como conselheiros que julgam contas de prefeituras para empresas para as quais prestam serviço. È a cadeia da felicidade ou da impunidade muito bem remunerada.

Especialistas crédulos defendem indicações técnicas para os postos nesses tribunais pelo país. Mas, assim acabam com a festa. Claro, que o palpite não terá vida longa.

Do envolvimento em fraudes clássicas, as da rotina de cada dia, como licitações viciadas e superfaturamento, como as mais criativas com o uso e abuso do cargo para pressionar prefeitos e vereadores a apoiar a candidatura do filho e parentes a deputado estadual, a lista dos investigados corresponde a 20% do total dos conselheiros do país.

Recordes extravagantes são registrados todos os anos: a lista dos investigados nos últimos oito anos corresponde a 20% do total dos conselheiros do país.

Ao todo são 55 inquéritos e processos. Em Rondônia seis dos sete conselheiros são investigados. O que escapou está a merecer condecoração em praça pública com palanque e o desfile de oradores da comunidade.

Se o mesmo recorde fosse alcançado pelo Judiciário, o número de conselheiros suspeito chegaria a 3.400 dos 17 mil magistrados brasileiros.

Das sete vagas disponíveis, três são indicadas pelo governador e quatro pela Assembléia Legislativa que costuma indicar ex- deputados. A boca é rica, nada de desperdício.

Na Bahia, a Promotoria de Justiça de Combate à Improbidade Administrativa investigou suposta relação conflituosa entre as funções de conselheiro do Tribunal de Contas do Município e o presidente “fantasma” de clube de futebol.

Outros casos não são tão prosaicos. Na lista dos suspeitos nomeados há suspeitos de tráfico de drogas, crimes contra o meio-ambiente, pedofilia e até homicídios.

Inspirada no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a PEC 28/2007 propõe a criação do Conselho Nacional de Tribunais de Contas, integrado por membros dos tribunais de contas, além de representantes do Ministério Público e auditores.

A Associação Nacional do Ministério Público de Contas, pela sua presidente Evelyn Pareja, está com o pé atrás, pois a PEC amplia esse poder fiscalizador do futuro órgão para os membros do Ministério Público que atuam nos tribunais.

A Associação não quer ficar livre do controle externo, mas defende um conselho próprio para a classe.

Olhando a moldura, esquecem a pintura

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

A denúncia foi formulada por um dos mais importantes ministros palacianos, o secretário-geral da presidência da República, Gilberto Carvalho: teriam partido da prefeitura de São Paulo, quer dizer, do prefeito Gilberto Kassab, as informações sobre o aumento do patrimônio de Antônio Palocci. O fio da meada estaria na declaração do Imposto Sobre Serviços pago pela empresa do chefe da Casa Civil. O ISS é um imposto municipal e quem o administra é a Secretaria de Finanças do município.

Não deixa de ser inusitada a denúncia. Que interesse teria Kassab em atingir Palocci, precisamente quando tenta formar um novo partido retirado dos escombros da oposição, com a finalidade de apoiar o governo Dilma Rousseff?

Como no caso das consultas concedidas por Palocci, é preciso provar. Que evidências Gilberto Carvalho possui para fazer tão grave acusação? A quem interessa desconstituir o chefe da Casa Civil?

Já o ex-presidente Lula fulaniza a acusação, responsabilizando o secretário de Finanças, Mauro Ricardo. Também não poupa José Serra, a quem chama de cérebro de toda a operação.

Há quem opte por outro caminho, supondo que o verdadeiro algoz de Antônio Palocci tenha sido o ex-deputado José Dirceu, influência de peso no PT e interessado em desestabilizar o governo.

De tudo, uma conclusão: dedicam-se todos a examinar e a opinar sobre a moldura, esquecendo-se de olhar a pintura. Despreza-se o principal em favor do supérfluo. O importante nesse episódio é saber quais eram os clientes de Palocci, já que ele faturou pelo menos trinta milhões de reais em tempo recorde. É aqui que a vaca vai para o brejo, como tem ido desde que o Brasil foi descoberto. O poder econômico permanece à sombra, jamais exposto. Foram empresas, em especial as empreiteiras de obras públicas, que contribuíram para aumentar a conta bancária do ex-ministro da Fazenda? Quais são elas?

Comprar ações de Franklin?
Todo presidente da República, ao nomear seu ministério, dispõe de alternativas que guarda no fundo da gaveta. O próprio Lula, muito antes da demissão de Palocci, já tinha Guido Mantega como regra três. Ao perder José Dirceu, guardava Dilma Rousseff como opção. Trata-se de cautela adotada por todos os chefes de governo para não serem surpreendidos.

No palácio do Planalto não se cogita da substituição de Antônio Palocci na chefia da Casa Civil, mas se porventura acontecer, é bom comprar ações de Franklin Martins. São antigos os laços que unem o ex-ministro da Comunicação Social e a presidente Dilma Rousseff.

Oposições com sorte
Apesar de amorfas, insossas e inodoras, as oposições andam com sorte. Caiu-lhes no colo a crise que envolve o ministro Antônio Palocci. Nada fizeram para cumprir seu papel, desde as eleições do ano passado.

Envolvidos em conflitos internos, tanto o PSDB quanto o DEM vinham navegando a reboque dos acontecimentos. De repente, deparam-se com um prato suculento, para o qual não contribuíram sequer com o caldeirão. Sabendo aproveitar as consequências, os oposicionistas poderão melhorar sua imagem e até pensar na conquista de prefeituras importantes, ano que vem.

A Voz Do Brasil
Houve tempo, quando se chamava a Hora do Brasil, em que era o programa mais ouvido pelo rádio em todo o território nacional. Na hora certa, sete da noite, chegava aos mais remotos rincões do país pelos poderosos transmissores da Rádio Nacional e todas as demais emissoras, em cadeia. Seu caráter obrigatório incomodava pouco, dados os índices de audiência.

O tempo passou e a televisão ocupou muitos espaços. A última vez em que a Voz do Brasil empolgou o país inteiro, no interior e nas grandes cidades, foi durante os sete meses do governo Jânio Quadros, quando o histriônico presidente mandava para o programa, com exclusividade, os seus “bilhetinhos” aos ministros. Anunciava projetos, passava reprimendas e compunha comissões de inquérito. Era obrigatório ouvir, até mais do que transmitir.

O Congresso acaba de flexibilizar a Voz do Brasil, mantendo-a obrigatória mas facultando às emissoras de rádio sua transmissão entre sete e dez da noite. Melhora um pouco o faturamento das empresas, assim como livra o ouvinte de receber em todos os canais, na mesma hora, um programa que certamente não o agrada. Enquanto não criarem a Voz de Brasil obrigatória na televisão, vai tudo bem.

Pelé da economia tem de mostrar por que é craque

Costábile Nicoletta (*)- Brasil Econômico

Que segredos guarda o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, para que o governo aceite barganhar com o Congresso Nacional a votação de projetos pela não convocação do auxiliar da presidente Dilma Rousseff?

Tudo parece ter virado motivo para negociação, do Código Florestal a propostas menos conhecidas.

Até a suspensão da produção do material de combate à homofobia, que seria distribuído a cerca de 6 mil escolas de ensino médio, foi atribuída ontem a uma negociação do governo com a bancada evangélica da Câmara dos Deputados, que ameaçou não colaborar com os projetos do Poder Executivo.

Quanto mais tempo Palocci demora para esclarecer sua evolução patrimonial no hiato entre sua estada como ministro da Fazenda de Luiz Inácio Lula da Silva e o cargo atual na administração Dilma, aumenta proporcionalmente a suspeição de que, de fato, tenha cometido algo ilícito, sobretudo pelo esforço despendido por vários membros do governo e do Partido dos Trabalhadores para evitar sua convocação para explicar-se publicamente sobre os negócios que alega não poder revelar em decorrência de cláusulas de confidencialidade nos contratos de consultoria que prestou.

Se Palocci se sente constrangido de dizer o nome das empresas para as quais trabalhou e se nada mesmo houve que o denigra, essas companhias fariam um bem à nação se viessem a público voluntariamente e apresentassem os motivos pelos quais contrataram o "Pelé da economia", como Lula o qualificou em encontro com senadores.

A continuar nessa toada, Palocci vai acabar virando um Judas cada vez mais fácil de malhar, sem que se saiba qual foi sua traição. A presunção de culpa será sua condenação.

Já os deputados e senadores que chantageiam o governo trocando seu voto pela suposição de inocência de Palocci sem que ouçam suas explicações também prestariam um bem ao país se passassem a analisar com pelo menos um pingo de responsabilidade civil os projetos de interesse nacional.

Não se tem impressão de que realmente pretendem fazer com que o ministro esclareça sua situação. Quanto mais tempo prolongarem o calvário de Palocci, mais munição acumularão para negociar vantagens.

Não se condena aqui que funcionários públicos não possam ganhar dinheiro depois que deixam o governo. Mas os nobres parlamentares poderiam pensar numa lei que remunerasse decentemente a quarentena desse profissional quando se tornasse ex-servidor e estabelecesse que suas relações comerciais teriam de ser, necessariamente, de conhecimento público.

Dessa forma, não se cercearia seu comezinho direito capitalista de ganhar dinheiro, nem se esconderia da população por que é tão bem pago pela iniciativa privada.

(*) Costábile Nicoletta é diretor adjunto do Brasil Econômico

Na verdade, o Planalto está em transe e a Dama de Ferro não existe, era só uma ilusão eleitoral.

Carlos Newton, Tribuna da Imprensa

“Hay gobierno?”, perguntaram a Francelino. “Não, e a presidenta sumiu”, respondeu o sábio político mineiro.

Depois de ter ameaçado a Câmara dos Deputados e levado uma sova na votação do Código Florestal, a presidente Dilma Rousseff teve de se submeter à pressão da bancada evangélica e suspendeu a produção e distribuição do kit anti-homofobia desenvolvido pelo Ministério da Educação, determinando que todo material do governo que se refira a “costumes” passe por uma consulta aos setores interessados da sociedade antes de ser publicado ou divulgado.

Antes tarde do que nunca, porque a bancada evangélica (74 deputados em 513) é suprapartidária, integrada por parlamentares da situação e da oposição. Além disso, o tal kit anti-homofobia é repudiado também pela bancada católica e por todos os políticos que enxergam um palmo à frente do nariz.

Acuada, a presidente resolveu sumir com o kit, porque a bancada evangélica chegou a ameaçar o governo não só com a obstrução da pauta no Congresso, mas esse parlamentares se mostraram dispostos também a colaborar com assinaturas para convocar o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) a se explicar sobre sua evolução patrimonial, e chegaram a aventar até a formação de uma CPI para investigar o MEC.

Na verdade, o tal kit gay (destinado a crianças e adolescentes) é patético e inoportuno. As ilustrações sexuais parecem ter saído do livro do Kama-Sutra, não é exagero, não. E o pior é clara tentativa de demonstrar que o sexo homossexual é mais prazeroso do que o heterossexual. Nas ilustrações a bico de pena, por exemplo, não se vê o rosto dos casais heterossexuais transando na posição papai-mamãe. Mas são impressionantes a alegria e o prazer estampados nos rostos dos homossexuais, em pleno sexo anal. Para que tanto exagero? Por que essa defesa intransigente de que é bom ser homossexual? Se você não acredita, é só procurar na internet, as ilustrações estão disponíveis, são facilmente acessáveis.

Uma coisa é lutar contra a homofobia e os preconceitos contra os gays. Nada contra. Outra coisa, muito diferente, é fazer a apologia do homossexualismo, como se fosse a melhor opção sexual. E é isso que transparece no kit gay, que nitidamente tenta educar as crianças rumo ao terceiro sexo. No MEC, já não bastava a compra dos 450 mil exemplares do livro baseado no antigo linguajar de Lula? Ou será tudo “menas verdade”, como o ex-presidente gostava de dizer, antes de ser instruído por seus perceptores, que tão bem o prepararam para vôos mais altos na política.

O descontrole do governo nos mais diversos setores mostra que a Dama de Ferro era uma balela. Dilma Rousseff foi colocada no Planalto por Lula, mas não conseguiu se libertar. Mostra não ter voz própria, obedece a ele em tudo. Em Brasília sabia-se que Lula jamais desencarnou da Presidência, telefonava toda hora para ela, que ainda não aprendeu a dizer não. Permanece como uma marionete nas mãos dele.

Agora, Lula arranca a máscara da face e mostra a realidade. Assume o governo de fato, reúne-se com os presidentes dos partidos e líderes da base aliada, na casa de José Sarney, pede que todos apresentem as queixas contra o governo, que ele, Lula, vai resolver tudo. “Apertem os cintos, a presidenta sumiu”, diria o político mineiro Francelino Pereira, com seu sotaque do Piauí.

O único fato positivo da suspensão do kit gay é que, aparentemente, representava a primeira atitude que Dilma Rousseff tomava por si própria. Com isso, ela parecia desferir um grande golpe no ministro Fernando Haddad, o escolhido de Lula para a sucessão da prefeitura de São Paulo.

Mas isso só não basta. Era preciso que a presidente se libertasse de Lula por completo e enfim demonstrasse que a presidente agora é ela. O momento é crucial. O ainda ministro Antonio Palocci circula no Palácio do Planalto como uma espécie de zumbi, um cadáver insepulto e putrefato, a infectar todo o ambiente, com o mau cheiro se espalhando por todo o país. Se a presidente não se livrar logo dele, vai ser vampirizada. Não conseguirá governar nem a cozinha do Palácio Alvorada.

Ou Dilma Rousseff assume logo o governo e volta a usar a velha armadura da Dama de Ferro, ou é melhor abandonar tudo e retornar a Campinas, para dar seguimento àquele curso de Mestrado que abandonou e hoje lhe faz tanta falta. Como disse o Almirante Barroso, na guerra do Paraguai, “o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. A presidente chama-se Dilma Rousseff, e não Luiz Inacio Lula da Silva. Mas quem governa é ele. Mas que país é esse, Francelino???

Os jornal cumpanhêro

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação

Ripa dos principais meios de comunicação no livro que endossa frases como "os livro foi emprestado" ou, mais deliciosa ainda (pena que não esteja lá!), "as história mais interessanta forum apagada". Mas quem mais bate no livro cumpanhêro parece tê-lo transformado em Manual de Redação. O que se lê nos jornais e na Internet é um português aterrorizante.

De uma coluna muito lida, noticiando um acordo pelo qual uma empresa aérea de um grande país iniciará voos para o Brasil: "Em troca, (a nação) vai registrar as aeronaves da Embraer, o que a permite comprar aviões (...)".

O professor Pasquale certamente corrigiria a regência para "lhe permite". Mas, quando o livro cumpanhêro vira manual, tudo é possível. Até a frase seguinte, que certamente Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, de rigorosa formação escolar em seminário, não disse, mas é atribuída a ele: "O passado de cada ministro não cabe ao governo fazer nenhum tipo de investigação".

Há uma delícia esportiva: "O juiz (...) exitou em assinalar o pênalti".

Este colunista tem a impressão de que nem o livro cumpanhêro "exitaria" em apontar o erro no texto.

É preciso reconhecer que herrar é umano. Erra-se por uma série de motivos: porque a frase foi modificada e o redator se esqueceu de adaptar o restante do texto à nova forma, porque houve falha na digitação, porque o autor da matéria não conhecia mesmo a forma correta, porque na pressa o erro passou batido. Tudo isso faz parte do jogo. Mas o desconhecimento total da regência não faz parte do jogo. Frases sem sentido em destaque não fazem parte do jogo. E baixar o cacete num livro que defende formas alternativas de usar o idioma, ao mesmo tempo em que se trata o idioma a pontapés, é simplesmente ridículo.

O portinglês
Winston Churchill, primeiro-ministro britânico na Segunda Guerra Mundial, conta no magnífico Minha Mocidade que, ao entrar na escola de elite em que o haviam matriculado, o professor quis ensinar-lhe a declinação da palavra latina "mensa" - mesa. O vocativo, explicou-lhe o mestre, seria usado se conversasse com uma mesa. O menino Churchill disse-lhe que não pretendia jamais conversar com uma mesa. Na discussão que se seguiu, Churchill acabou deixando a escola. E tomou uma decisão: não se dedicaria aos estudos de latim, nem de grego. Mas iria aperfeiçoar-se em sua língua, o inglês. E como se aperfeiçoou!

Bom, hoje vemos anúncios pedindo jornalistas com pós-graduação, domínio de duas ou três línguas, vivência internacional, e tudo por um salário que não paga nem os cursos. Funciona? Às vezes, funciona. Às vezes, dá coisas desse tipo:

1 - "Oficiais da Federação Paulista de Futebol mostram total confiança (...)"

Official, em inglês, é alto funcionário. Em português, tem um monte de significados. E nenhum deles é o utilizado no texto.

2 - (O jogador) "foi introduzido à torcida (...)"

Introduced, em inglês, significa "apresentado". "Introduzido" é outra coisa, mas deixa pra lá.

Invasão de privacidade 1
A camareira que acusou Dominique Strauss-Kahn de ataque sexual deveria estar sob proteção total - inclusive com a garantia do anonimato público. Uma imigrante que investe contra um funcionário público internacional, como o diretor do FMI, não pode ser exposta. No entanto, a imprensa francesa já divulgou seu nome.

Que informação relevante isso traz? Se fosse uma pessoa notória por denunciar ataques sexuais, tudo bem; mas é uma moça comum, uma viúva, mãe de uma adolescente. Seu nome não significa nada para o grande público. Por que, então, expô-la?

Invasão de privacidade 2
Dominique Strauss-Kahn é alto funcionário internacional, importante dirigente de um grande partido político francês, era apontado como candidato a presidente da República. Foi preso sob a acusação de um crime infamante. OK: até aí está tudo justificado. Mas colocá-lo diante das câmeras para ser filmado, fotografado, gravado com algemas é excessivo - especialmente porque, até o momento em que isso ocorreu, havia apenas a acusação, sem qualquer prova exceto o testemunho da moça que se apresenta como vítima. Imaginemos, só para argumentar, que tenha havido algum tipo de armação ou de sexo consensual (parece, a propósito, que esta será a principal argumentação da defesa, caso não haja evidências físicas da tentativa de estupro): para ele, o mal já estará feito. Para DSK, uma eventual pena de prisão é apenas um sofrimento complementar. O castigo ele já sofreu, ver sua carreira política destruída. E sofreu o castigo antes de ser julgado, antes de ser condenado.

Invasão de privacidade 3
São dois casos interessantes. No de Dominique Strauss-Kahn, quem o expôs foi a Polícia, e a imprensa não teve alternativa exceto acompanhar o caso. Se alguém decidisse não gravar as imagens à disposição por motivos éticos certamente perderia o emprego. Mas, no da camareira, a responsabilidade é exclusiva da imprensa, que gastou tempo, dinheiro e talento na busca de uma informação que nada acrescenta ao caso e serve apenas para prejudicar a moça.

A informação até poderia ser apurada: caso se comprovasse que não houve ataque sexual, a moça seria exposta. Mas, aparentemente, houve a intenção deliberada de prejudicá-la, fosse ou não vítima. Nacionalismo? Se foi, a má-fé é delinquencial: DSK não foi preso por ser francês, por ser judeu, por ser dirigente do Fundo Monetário Internacional, mas por ser acusado de estupro.

O crime virtual
O jornalista australiano Ben Grubb, investigando uma falha de segurança no Facebook, usou uma foto privada na reportagem - e, por isso, acabou sendo preso. Foi libertado em seguida, mas está sendo processado. A Polícia acha que cometeu exatamente o mesmo crime que procurava denunciar; ele acha que não cometeu crime algum, apenas mostrou como era fácil burlar a segurança do portal.

A discussão é longa: quando um repórter, profissionalmente, suborna um funcionário público, sem visar benefício próprio, com o único objetivo de mostrar que ele aceita suborno, está cometendo algum crime? Um repórter que se infiltre num grupo de traficantes estará sujeito a prisão e processo se for preso junto com os bandidos? E se, na verdade, ele fizer parte do grupo, e usar sua condição de repórter apenas como blindagem?

Essa questão é debatida há muito tempo. Mas agora, com a rápida difusão da Internet, o debate precisa ser intensificado. Como no caso dos advogados, é preciso criar privilégios profissionais para jornalistas em atividade e estabelecer limites para seu uso. Repórter não é criminoso, embora relate as atividades de criminosos; mas também pode ultrapassar os limites e colaborar com aqueles cujas atividades deveria apenas relatar. Até onde se pode e se deve ir?

O valor de uma vida
Cláudia Rolli, destacada repórter da Folha de S.Paulo, está empenhada no maior desafio que já enfrentou até hoje: salvar a vida do pai, vítima de uma doença rara, que só pode ser tratada nos Estados Unidos e que exigirá gastos de algo como US$ 1 milhão. Na busca de recursos para tratar o pai, Cláudia Rolli está rifando uma casa de praia (R$ 250,00 o bilhete com quatro números) e leiloando uma camisa do Corinthians, com a assinatura de todos os jogadores do atual elenco. O maior lance pela camisa, até a tarde de sexta-feira, era de R$ 1.400,00.

Os lances (e os pedidos de bilhetes da rifa) devem ser encaminhados ao e-mail do blog acaopelavida.noe@gmail.com ou ao Facebook, na página de Cláudia Rolli, ou em http://www.facebook.com/l/39956/www.acaopelavidanoe.blogspot.com, na área de comentários

O sorteio da rifa e o resultado do leilão saem em 29 de junho.

carlos@brickmann.com.br
http://www.brickmann.com.br/