sexta-feira, maio 27, 2011

Por que os mercados financeiros estão sem rumo?

Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com

Os mercados financeiros têm apresentado um comportamento próximo do neurótico nestes primeiros cinco meses do ano. A chamada volatilidade dos preços dos principais ativos negociados 24 horas por dia pelos quatro continentes está deixando desconcertados até mesmo os mais experientes profissionais. O que sobe em uma semana, cai na outra; uma hora o euro é uma moeda segura, refugio contra a fraqueza do dólar americano; em seguida ela despenca nos mercados de câmbio respondendo às incertezas da estabilidade de longo prazo da comunidade europeia; o preço do petróleos – no especulativo mercado futuro de Nova York- oscilam mais de 2% ao dia ao sabor de condições que ninguém sabe explicar.

A inflação na China e em outras nações do mundo emergente, e o medo de uma resposta desproporcional por parte do Bancos Centrais nacionais no seu combate, mantém os mercados de ações paralisados nestes países. A Bolsa de Shangai não consegue superar o nível dos 3000 pontos já há mais de um ano e a BOVESPA, apesar do forte crescimento do consumo no Brasil e dos preços elevados das principais commodities, amarga uma queda expressiva no ano.

Os investidores respondem a este quadro de incertezas retirando seus investimentos dos mercados de ações e correndo como uma manada para as aplicações vistas como mais seguras. Nesta busca irracional não importa o nível de juros próximo de zero nos Estados Unidos e na Europa e os preços tidos como irracionais do ouro e outros metais preciosos.

Os analistas mais preocupados com o médio prazo - e não apenas o vai e vem diário dos mercados – se perguntam sobre as razões deste quadro tão incerto. Vou tentar colocar ao leitor deste Blog minhas reflexões e incertezas em relação a estas questões.

Uma coisa é certa neste complexo mundo das finanças: os mercados não gostam de mudanças estruturais pois estas causam incertezas extremas e tornam seus modelos estatísticos de previsão dos preços - e para as gerações mais jovens o único instrumento confiável de previsões – verdadeiras bombas explosivas de erros e prejuízos. E o mundo econômico hoje é um sistema com profundas transformações…

Podemos identificar pelo menos dois grandes vetores que vêm alterando as estruturas da economia mundial depois de um longo período de uma certa estabilidade funcional. O primeiro aparece a partir do desenvolvimento da China, principalmente depois da virada do século quando a demanda chinesa - depois de um longo período de crescimento acelerado - atinge uma massa critica suficiente para alterar os equilíbrios de oferta e procura em vários mercados mundiais. A incorporação de varias centenas de milhões de chineses à chamada economia de mercado, aumentando de forma expressiva suas rendas monetárias, e a decisão do governo de investir pesadamente em projetos na infra estrutura econômica do país são os principais fatores que explicam esta nova dinâmica.

O segundo vetor aparece com a crise financeira de 2008 e as respostas fiscais e monetárias que se seguiram em vários países. Os déficits sequenciais no mundo desenvolvido a partir de 2008 levaram os níveis de endividamento de muitas nações a pontos críticos, criando uma crise de confiança nos títulos soberanos, principalmente na chamada periferia europeia. Mesmo a divida publica americana – de longe a maior e a mais líquida do mundo – foi atingida neste processo com a advertência da agencia de risco S&P sobre a necessidade de soluções de longo prazo para se evitar a perda de sua nota triple A.

Por outro lado, a política monetária ultra expansiva do FED e do BCE, criou um excesso de liquidez no mundo, provocando mudanças importantes nos preços relativos de vários produtos primários como metais, combustíveis e alimentos. Com isto, a deflação no mundo desenvolvido está virando inflação importada nas economias emergentes na medida em que estas não vivem as mesmas restrições de crescimento econômico.

Finalmente, os mercados começam a especular sobre uma nova recessão econômica nos países ricos mais importantes quando estes tiverem que lidar com os déficits fiscais atuais e com as dividas acumuladas durante os últimos anos. A Inglaterra saiu na frente neste processo mas os Estados Unidos – de longe a situação mais critica pela dimensão da economia americana - só vai lidar com esta questão a partir das eleições de 2012. E a divisão extrema entre democratas e republicanos não ajuda no encaminhamento correto desta questão. A forma como se dará esta correção na maior economia do mundo e quais as suas repercussões nos outros países já começam a preocupar os analistas mais cuidadosos e a estender as incertezas para um horizonte mais longo.