Luiz Carlos Mendonça de Barros, Exame.com
Os mercados financeiros têm apresentado um comportamento próximo do neurótico nestes primeiros cinco meses do ano. A chamada volatilidade dos preços dos principais ativos negociados 24 horas por dia pelos quatro continentes está deixando desconcertados até mesmo os mais experientes profissionais. O que sobe em uma semana, cai na outra; uma hora o euro é uma moeda segura, refugio contra a fraqueza do dólar americano; em seguida ela despenca nos mercados de câmbio respondendo às incertezas da estabilidade de longo prazo da comunidade europeia; o preço do petróleos – no especulativo mercado futuro de Nova York- oscilam mais de 2% ao dia ao sabor de condições que ninguém sabe explicar.
A inflação na China e em outras nações do mundo emergente, e o medo de uma resposta desproporcional por parte do Bancos Centrais nacionais no seu combate, mantém os mercados de ações paralisados nestes países. A Bolsa de Shangai não consegue superar o nível dos 3000 pontos já há mais de um ano e a BOVESPA, apesar do forte crescimento do consumo no Brasil e dos preços elevados das principais commodities, amarga uma queda expressiva no ano.
Os investidores respondem a este quadro de incertezas retirando seus investimentos dos mercados de ações e correndo como uma manada para as aplicações vistas como mais seguras. Nesta busca irracional não importa o nível de juros próximo de zero nos Estados Unidos e na Europa e os preços tidos como irracionais do ouro e outros metais preciosos.
Os analistas mais preocupados com o médio prazo - e não apenas o vai e vem diário dos mercados – se perguntam sobre as razões deste quadro tão incerto. Vou tentar colocar ao leitor deste Blog minhas reflexões e incertezas em relação a estas questões.
Uma coisa é certa neste complexo mundo das finanças: os mercados não gostam de mudanças estruturais pois estas causam incertezas extremas e tornam seus modelos estatísticos de previsão dos preços - e para as gerações mais jovens o único instrumento confiável de previsões – verdadeiras bombas explosivas de erros e prejuízos. E o mundo econômico hoje é um sistema com profundas transformações…
Podemos identificar pelo menos dois grandes vetores que vêm alterando as estruturas da economia mundial depois de um longo período de uma certa estabilidade funcional. O primeiro aparece a partir do desenvolvimento da China, principalmente depois da virada do século quando a demanda chinesa - depois de um longo período de crescimento acelerado - atinge uma massa critica suficiente para alterar os equilíbrios de oferta e procura em vários mercados mundiais. A incorporação de varias centenas de milhões de chineses à chamada economia de mercado, aumentando de forma expressiva suas rendas monetárias, e a decisão do governo de investir pesadamente em projetos na infra estrutura econômica do país são os principais fatores que explicam esta nova dinâmica.
O segundo vetor aparece com a crise financeira de 2008 e as respostas fiscais e monetárias que se seguiram em vários países. Os déficits sequenciais no mundo desenvolvido a partir de 2008 levaram os níveis de endividamento de muitas nações a pontos críticos, criando uma crise de confiança nos títulos soberanos, principalmente na chamada periferia europeia. Mesmo a divida publica americana – de longe a maior e a mais líquida do mundo – foi atingida neste processo com a advertência da agencia de risco S&P sobre a necessidade de soluções de longo prazo para se evitar a perda de sua nota triple A.
Por outro lado, a política monetária ultra expansiva do FED e do BCE, criou um excesso de liquidez no mundo, provocando mudanças importantes nos preços relativos de vários produtos primários como metais, combustíveis e alimentos. Com isto, a deflação no mundo desenvolvido está virando inflação importada nas economias emergentes na medida em que estas não vivem as mesmas restrições de crescimento econômico.
Finalmente, os mercados começam a especular sobre uma nova recessão econômica nos países ricos mais importantes quando estes tiverem que lidar com os déficits fiscais atuais e com as dividas acumuladas durante os últimos anos. A Inglaterra saiu na frente neste processo mas os Estados Unidos – de longe a situação mais critica pela dimensão da economia americana - só vai lidar com esta questão a partir das eleições de 2012. E a divisão extrema entre democratas e republicanos não ajuda no encaminhamento correto desta questão. A forma como se dará esta correção na maior economia do mundo e quais as suas repercussões nos outros países já começam a preocupar os analistas mais cuidadosos e a estender as incertezas para um horizonte mais longo.