Paulo Moreira Leite, Revista Época
A votação do Código Florestal não me surpreendeu — por bons motivos.
É certo que a bancada ruralista tem uma força colossal no Congresso e dificilmente deixaria de aprovar uma versão favorável a seus interesses. Não lhe falta dinheiro para isso. Mas não é só.
A defesa da agricultura — em larga escala, familiar, o que for — tornou-se uma causa irresistível num pais como o Brasil e quem não entender isso não irá compreender muita coisa sobre o mundo atual.
Vamos combinar que o mundo assiste a uma inédita demanda por alimentos como parte dos povos ex-subdesenvolvidos, hoje chamados de emergentes.
Os bilhões de chineses que socializaram sua cumbuca de arroz aguado agora querem carne de vaca, porco, soja, frango…
O mesmo vale para indianos, para asiáticos em geral — e até para brasileiros que acumularam séculos com uma dieta escravista só um pouco melhorada.
Com uma imensidão de terras férteis, um conhecimento bem razoável sobre tecnologia de alimentos e de plantio, muita área para ser explorada, o Brasil ocupa uma posição privilegiada para conseguir ganhos cada vez maiores com a procura por comida.
Não por acaso as exportações agrícolas ocupam uma porção cada vez maior de nossas vendas para o exterior. As regiões de agriculturas batem recordes de crescimento e de investimento. O mundo está mudando e a agricultura tem sido uma das portas para o Brasil participar dessa evolução.
Um pesquisador lúcido poderia até comparar o ciclo atual da agricultura com o ciclo do café, da cana de açúcar…
Foram momentos especiais de prosperidade em nossa história, que lançaram as
bases materiais para saltos obtidos na economia e na vida social.
É necessário avaliar de forma crítica a atuação dos barões do café, o papel social regressivo dos coronéis do açúcar. Eles colheram muitos benefícios e pouco devolveram à sociedade. Deixaram uma dívida social profunda.
Mas essa é uma questão de outra natureza. O café, em si, não era ruim. Muito
menos a cana de açúcar, ou o algodão…
A questão é essa. É evidente que se pode discutir pontos específicos para impedir desastres ambientais capazes de dificultar o progresso humano.
Nosso desenvolvimento agrícola representa um ciclo indispensável da construção de uma das maiores economias do mundo. O resto é ideologia.