sexta-feira, março 04, 2022

Há três cenários para o fim da guerra na Ucrânia

  Thomas L. Friedman, 

O Estado de S.Paulo

A batalha pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde 1945

  Foto: Alexander Ermochenko/REUTERS 

A cada vídeo de TikTok e imagem de celular que exibe a brutalidade de 

Vladimir Putin, fica cada vez mais difícil para o mundo ignorar o que está acontecendo. 

A batalha pela Ucrânia pode ser o acontecimento mais transformador na Europa desde a 2.ª Guerra e a confrontação mais perigosa para o mundo desde a Crise dos Mísseis em Cuba. Vejo três cenários possíveis para o fim desta história: um “desastre total”, “concessões sujas” e a “salvação”.

O cenário de desastre é o que se desenrola neste momento. A não ser que Vladimir Putin mude de ideia ou seja dissuadido, ele parece disposto a matar quantas pessoas for necessário, obliterar a Ucrânia enquanto Estado e cultura independentes e erradicar sua liderança. Esse cenário poderia ocasionar crimes de guerra numa escala não vista na Europa desde os nazistas – crimes que tornariam Putin, seus comparsas e a Rússia párias globais.

O mundo conectado e globalizado jamais teve de lidar com um líder acusado desse nível de crimes de guerra, cujo país detém um território que perpassa 11 fusos horários, é um dos maiores produtores mundiais e petróleo e gás natural e possui um arsenal de ogivas nucleares maior do que qualquer outra nação.

A cada dia que Putin se recusa a parar nos aproximamos mais dos portões do inferno. A cada vídeo de TikTok e imagem de celular que exibe sua brutalidade, fica cada vez mais difícil para o mundo ignorar o que está acontecendo. Mas interferir arrisca detonar a primeira guerra na Europa envolvendo armas nucleares. E deixar Putin reduzir Kiev a cinzas – como ele fez com Alepo e Grozny – permitiria a ele criar um Afeganistão europeu, transbordando refugiados e caos.

Putin não tem capacidade de instaurar um fantoche na Ucrânia e deixá-lo por lá. Ele enfrentaria uma insurreição permanente. Então, a Rússia precisa estacionar milhares de soldados na Ucrânia para controlar o país – e os ucranianos vão atirar neles todos os dias. É assustador perceber o pouco que Putin pensou sobre como essa guerra vai acabar.

Gostaria que Putin estivesse motivado apenas pelo desejo de manter a Ucrânia fora da Otan, mas seu apetite cresceu para muito além disso. Ele se aferrou ao pensamento mágico. Como disse Fiona Hill, uma das principais especialistas em Rússia dos EUA, ele crê em algo chamado “Mundo Russo”: acredita que ucranianos e russos sejam “um só povo” e considera sua missão arquitetar “o reagrupamento de todos os russófonos, de todos os lugares, que em algum ponto pertenceram ao império czarista”.

Para concretizar essa visão, Putin acredita que é seu direito e dever desafiar um sistema com base em regras, em que os objetivos não são alcançados pela força. E, se os EUA e seus aliados tentarem impedi-lo, ele sinaliza que está pronto para cometer mais loucuras do que todos nós.

Ou, como Putin alertou, antes de colocar suas forças nucleares em alerta máximo, qualquer um que impeça seu caminho deve estar pronto para enfrentar “consequências jamais vistas”. Adicionando a isso o crescente relato que coloca em dúvida a sanidade de Putin, temos um coquetel assustador.

O segundo cenário é que, de alguma maneira, os militares e o povo da Ucrânia sejam capazes de resistir à blitzkrieg – e as sanções econômicas comecem a afetar a economia de Putin, para que ambos os lados se sintam compelidos a aceitar concessões sujas.

Em troca de um cessar-fogo e da retirada das tropas russas, os enclaves no leste da Ucrânia, atualmente sob controle russo, poderiam ser cedidos formalmente à Rússia, enquanto a Ucrânia se comprometeria a jamais aderir à Otan. Ao mesmo tempo, os EUA e seus aliados concordariam em suspender todas as sanções impostas recentemente.

Esse cenário é improvável, porque requereria que Putin admitisse que foi incapaz de concretizar sua visão de reabsorção da Ucrânia, depois de pagar um enorme preço em sua economia e com as vidas de soldados russos. Além disso, a Ucrânia teria de ceder parte de seu território e aceitar a condição permanente de uma terra de ninguém entre a Rússia e a Europa – apesar de manter nominalmente sua independência. Isso também requereria que todos ignorassem a lição já aprendida de que Putin jamais deixará a Ucrânia em paz.

Finalmente, o cenário menos provável, mas o melhor desfecho: que o povo russo demonstre bravura e comprometimento com a própria liberdade e opere a salvação depondo Putin. Muitos russos devem estar começando a se preocupar com a possibilidade de que, enquanto Putin for seu líder, eles não terão futuro.

Milhares estão tomando as ruas para protestar contra a guerra, arriscando a própria segurança. E, apesar de ser cedo para afirmar, sua reação faz a gente imaginar que a barreira do medo pode estar sendo rompida, e um movimento de massa poderia acabar com o reinado de Putin. Mesmo para os russos que estão quietos, a vida foi subitamente perturbada.

E há ainda a nova “taxa Putin” que cada russo terá de pagar indefinidamente pelo prazer de tê-lo como presidente. Estou falando dos efeitos das sanções. Na segunda-feira, o Banco Central da Rússia teve de fechar o mercado de ações para evitar um derretimento e foi forçado a elevar sua taxa básica de juro de 9,5% para 20%, para estimular as pessoas a manterem seus rublos. Mesmo assim, o valor do rublo caiu 30% em relação ao dólar – 1 rublo vale agora menos de US$ 0,01.

Por todas essas razões, tenho esperança de que neste exato momento alguns comandantes militares e graduados oficiais de inteligência russos próximos a Putin estejam se reunindo a portas fechadas no Kremlin e expressando o que devem estar pensando. Ou Putin perdeu a mão enquanto estrategista durante seu isolamento na pandemia ou está em negação sobre quão erroneamente calculou a força dos ucranianos, dos EUA, de seus aliados e da sociedade civil global como um todo.

Se Putin levar adiante a destruição das maiores cidades da Ucrânia, ele e todos os seus comparsas nunca mais verão os apartamentos que compraram em Londres e Nova York com as riquezas que roubaram. Não haverá mais Davos nem St. Moritz. Em vez disso, eles ficarão trancados em sua grande prisão chamada Rússia – livres para viajar apenas para Síria, Crimeia, Belarus, Coreia do Norte e China, talvez. Seus filhos serão expulsos de internatos, da Suíça a Oxford.

Ou eles colaboram para depor Putin ou todos compartilharão a mesma cela. O mesmo vale para a população. Imagino que este último cenário seja o mais improvável de todos, mas é o que atende melhor à promessa de alcançar o sonho que sonhamos quando o Muro de Berlim caiu, em 1989 – de uma Europa livre, das ilhas britânicas a Vladivostok. 

 TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO


Não é hora de neutralidade

 Editorial

O Estado de São Paulo

Só o rápido fim da guerra, com suspensão da violência, desocupação da Ucrânia e restauração da ordem multilateral, pode interessar ao Brasil. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, parece desprezar essa verdade tão óbvia quanto importante. Mantida a agressão à soberania ucraniana, a insegurança continuará e todos os países serão afetados política e economicamente. Não é hora para neutralidade nem para simpatia mal disfarçada a quem viola de forma inegável e arrogante o direito internacional. Não adianta recorrer a argumentos travestidos de realismo. Nem a mais grosseira caricatura de maquiavelismo pode justificar a atual diplomacia presidencial. Além de política e moralmente indefensável, a tolerância ao brutal expansionismo de Vladimir Putin é mau negócio.

Se a guerra se prolongar, prolongadas serão também as sanções. As maiores perdas poderão caber à economia russa, mas todos pagarão um preço, incluído o Brasil. Se ficar mais difícil importar da Rússia, o agronegócio poderá ter dificultado seu acesso ao principal fornecedor de certos fertilizantes – 76% do nitrogênio, 55% do fósforo e 94% do potássio aplicados nas lavouras brasileiras. Isso prejudicará o plantio, no segundo semestre, dos cereais e oleaginosas da próxima safra de verão.

Também as vendas do Brasil à Rússia poderão ser afetadas, mas com pouco efeito no resultado geral do comércio. Em 2021, o mercado russo absorveu exportações brasileiras no valor de US$ 1,59 bilhão, soma equivalente a apenas 1,59% do total. Na lista de países compradores de produtos brasileiros, a Rússia apareceu, no ano passado, em 36.º lugar. Em 2006, 2,5% das vendas externas do Brasil foram destinadas ao mercado russo, mas essa fatia diminuiu a partir do ano seguinte, talvez por negligência brasileira.

Se depender do empresariado da Rússia, parece pouco provável uma redução das vendas de fertilizantes ao Brasil. Esse empresariado já indicou ao presidente Putin sua preocupação com as consequências econômicas da guerra. Será uma surpresa se renunciar a qualquer esforço para manter os negócios com clientes do mundo capitalista, especialmente se essa clientela estiver ligada ao agronegócio brasileiro.

Mas o risco de empecilhos ao comércio é inegável, se a guerra e as sanções forem mantidas por muito tempo. Problemas poderão surgir nas cadeias globais de suprimentos, alertou a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala. Ela destacou possíveis altas de preços, com danos principalmente para as populações pobres, se houver redução das exportações de cereais da Rússia e da Ucrânia, países grandes produtores de trigo e de milho.

O Brasil, diria um analista apressado, até poderia beneficiar-se com maior exportação de alguns produtos. Mas apostar em ganhos provenientes de uma guerra é perigoso econômica e politicamente e inaceitável pelos critérios da convivência segura.

Esses critérios foram várias vezes menosprezados, nos últimos três anos, pelo Executivo brasileiro, em manifestações contrárias à ordem multilateral. Sua política antiambientalista, com desastrosos efeitos diplomáticos, naturais e humanos, é um claro exemplo dessa oposição a valores defendidos internacionalmente.

As características bolsonarianas também se manifestam na identificação do presidente brasileiro com chefes autoritários, como o russo Vladimir Putin e o húngaro Viktor Orbán. Ambos foram visitados na semana anterior à invasão da Ucrânia. Consumada a violação, o Executivo brasileiro limitou-se a defender negociações. O governo da Suíça, país tradicionalmente neutro, aderiu às sanções. “Estamos com o povo ucraniano na travessia desses horrendos acontecimentos”, disseram os líderes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, ao anunciar ajuda à Ucrânia.

As escolhas são claras e nem o malabarismo da diplomacia brasileira esconde a tolerância à brutalidade de Putin. Serão os dirigentes do FMI, do Banco Mundial e da Suíça incapazes de entender o bom negócio de Bolsonaro?


Ganhar perdendo

  Merval Pereira

O Globo

Uma guerra que se ganha perdendo parece ser o destino da Rússia de Vladimir Putin na escalada militar contra a Ucrânia. O discurso do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, diante do Congresso americano, muito assertivo, fez uma análise geopolítica sobre a guerra interessante, que parece ser consensual: Putin está saindo enfraquecido dessa guerra, e seu desejo de menos Otan em seu entorno parece estar proporcionando o ambiente político internacional para que mais países queiram se proteger na aliança militar ocidental.

A provável derrota militar de Volodymyr Zelensky poderá se transformar numa derrota política de consequências inimagináveis para a ambição de Putin de recriar a Grande Rússia. Se não for morto na guerra, Zelensky, que era o alvo número um do aparato militar russo, será o líder da resistência à dominação, com grande capacidade de comunicação e uma rede de apoio político que poucos líderes têm.

Digo que Zelensky era o alvo, e não é, porque, a esta altura, um assassinato dele poderá ser o estopim de uma reação internacional com reflexos internos, que podem levar à deposição de Putin. Os interesses financeiros dos oligarcas que literalmente o sustentam estão fortemente abalados pelas sanções impostas pelo Ocidente.

Havia muito tempo não se viam países ocidentais reagindo em conjunto, não restando dúvida de que a Rússia pagará caro pelo ataque. Constatar que, além de EUA e Europa, estão juntos contra a invasão países como o Japão e a Austrália, e agora até mesmo a China vai cautelosamente mudando de posição, colocando-se como possível mediadora do conflito, mostra que o mundo não está mais disposto a aceitar invasões como a Rússia vinha fazendo na Crimeia, na Geórgia.

Os três países que votaram contra a moção da Assembleia Geral da ONU contra a invasão da Ucrânia, além da própria Rússia e de seu satélite Bielorrússia, são ditaduras: Coreia do Norte, Eritreia e Síria. Ter mais ou menos Otan em volta da Rússia significa hoje não mais uma ação opressora como quer Putin, mas uma reação a favor da democracia. As forças democráticas ocidentais de um lado, e um governo autocrático, dirigido por um protoditador, de outro.

A Rússia tem uma democracia formal, não real, tanto que quem está protestando nas ruas é preso violentamente. E Putin monta sempre manobras para ficar no poder. A Rússia é dessas democracias aparentes, como Venezuela e Nicarágua. Tem eleição, Suprema Corte, Congresso funcionando. É como na nossa época da ditadura militar, uma democracia formal, todas as instituições funcionando, mas o governo tinha poderes excessivos para reprimir a oposição. É o que acontece na Ucrânia. O mundo ocidental já entendeu que está em jogo ser ou não democrático. O fortalecimento da democracia é um sinal do enfraquecimento de Putin.

A Finlândia, que nunca anunciou que gostaria de entrar na Otan, e era uma preocupação de Putin, agora já quer entrar; a Ucrânia está pedindo para entrar na União Europeia em caráter emergencial. A Otan, uma força que poderia ser vista como intervenção americana na Europa, passou a ser uma força de defesa da democracia no mundo, ganhou outra dimensão, e isso Putin não imaginava.

Se continuar avançando, a Rússia de Putin acabará dominando a Ucrânia, mas uma Ucrânia arrasada, falida, assim como seu algoz, uma Rússia falida, sem capacidade de se reorganizar, e uma resistência cidadã que já se demonstra heroica. Com guerrilhas, emboscadas, se transformará num inferno aquela região, e um inferno a dominação da Rússia sobre a Ucrânia.

Putin não imaginava que poderia acontecer uma resistência tão forte, que está adiando a vitória dele, que parece inevitável. Mas será daquelas derrotas, para a Ucrânia, que se transformam em vitória moral e reforçam o sentimento de pertencimento de uma população.



A longa estrada da morte.

 Carlos Brickmann 

 A arrancada dos russos não chegou a ser sensacional: aquela guerra que se ganha em dois dias está-se prolongando. Mas, nesta primeira fase, se a guerra continuar mais algum tempo, os russos devem vencer. Seu poder de fogo é muito maior que o dos ucranianos. O problema é que uma guerra nunca é só a etapa inicial, uma corrida de cem metros rasos, que exige arranque e velocidade: guerra é maratona, pede fôlego.

Aparentemente, os russos já sentem as represálias, que ainda nem foram aplicadas de maneira integral. O objetivo das sanções que o Ocidente está impondo é exatamente este: fazer com que a economia dos agressores se desgaste, levando a negociações ou a uma derrota militar.

Fora a pressão econômica, há a inesperada resistência dos ucranianos. Se os russos ocuparem o país, terão guerrilha, terão franco-atiradores, terão uma tarefa difícil. As armas pesadas que a OTAN prometeu, como canhões, não devem chegar em tempo. Caças exigem uma infraestrutura que os russos já estão destruindo. Mas bazucas antitanque, fuzis, mísseis Stinger (terra-ar, e portáteis) são armas excelentes para infernizar a vida de eventuais ocupantes. As situações não são comparáveis, mas a disposição é: russos e americanos foram tocados do Afeganistão. Some-se a isso o desgaste da economia russa, que reduz o padrão de vida da população, e os prejuízos dos maiores empresários do país.

Eles são Putin desde criancinhas, mas até quando?

As surpresas

É provável que Putin tenha se surpreendido com a resistência das tropas ucranianas, com a disposição de luta da população e com a rapidez dos países da OTAN em concordar com sanções que prejudicarão seus próprios interesses. Todos pagarão mais pelo petróleo. A Alemanha, consumidora ávida de gás natural russo, terá de buscar novos fornecedores a preços bem mais altos.

Outros fatos surpreendentes: a Alemanha, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, concordou em vender armas para área de conflito (e multiplicou por três seu orçamento de defesa). A Suíça, neutra desde os tempos de Napoleão, aderiu às sanções; Suécia e Finlândia, tão cautelosas diante dos russos que não entraram na OTAN, estão do lado da Ucrânia.

Impenetrável

Ninguém se atreve a imaginar limites para o comportamento de Putin. Ele é obstinado, bem preparado, e – como diria Bolsonaro – por coincidência ou não, muitos de seus ex-aliados morreram em circunstâncias estranhas. Sua aparência é impenetrável, seu pensamento só é revelado por ele mesmo, em pequenas porções. Deve ter excelentes assessores, seu serviço de informação desfruta de ótima fama. Circunstâncias que talvez o tenham surpreendido já devem estar analisadas e com soluções previstas. É esperar para ver.

Lembranças

Uma coisa não deve ser esquecida: antes da entrada de tropas russas na Ucrânia, os dois últimos países que invadiram outros países soberanos na Europa foram a Alemanha e a União Soviética, no finalzinho dos anos 30 do século passado. Seus líderes eram Adolf Hitler e Joseph Stálin.

Jogo duro

Mikhail Fridman, nascido na Ucrânia e bilionário na Rússia, onde é dono do Alfa-Group, declarou-se publicamente, e por escrito, contra a invasão. É uma atitude absolutamente incomum na Rússia. Na declaração, Fridman cita o que chama de “deterioração progressiva” da segurança no Leste europeu; diz que as preocupações russas a respeito desse tema foram desconsideradas, abrindo caminho para a crise.

E completa: “Deixe-me ser claro, no entanto: essa situação de forma nenhuma justifica o uso da força contra a integridade territorial e a soberania de qualquer Estado-membro. Isso vai de encontro aos mais básicos princípios e normas que todos respeitamos e é uma clara violação à Carta da ONU”. Os pais de Fridman moram na Ucrânia, em Lviv.

As lágrimas de Portugal

Do poeta português Fernando Pessoa: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! /Por te cruzarmos, quantas mães choraram, /quantos filhos em vão rezaram! /Quantas noivas ficaram por casar /para que fosses nosso, ó mar! /Valeu a pena? /Tudo vale a pena se a alma não é pequena. /Quem quer passar além do Bojador /Tem que passar além da dor. /Deus ao mar o perigo e o abismo deu, /mas nele é que espelhou o céu.”

O grande Pessoa não sabia que boa parte deste sal seria gasto nas seguidas férias de Jair Bolsonaro (está em Guarujá, pela décima vez desde que chegou à Presidência – isso fora as vezes que ficou em São Francisco do Sul, Santa Catarina, local também de belíssimas praias). Da última vez em que se expôs às lágrimas de Portugal, gastou R$ 900 mil reais – dados oficiais. Foi quando se atirou tão avidamente ao prato de frutos do mar que engoliu um camarão sem mastigá-lo. Foi para o hospital, mandou buscar seu médico no Exterior. E não seguiu as recomendações de, por exemplo, evitar as motos aquáticas.

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Agressor é Putin, não o povo russo

 Guga Chacra

O Globo

  Pau BARRENA / AFP

O foco do planeta tem de ser em Vladimir Putin, não em punir 

os esportes e a cultura de uma gigantesca nação como a Rússia | 

O agressor é o regime de Vladimir Putin, não o povo russo. Há centenas ou mesmo milhares de cidadãos sendo presos em São Petersburgo e Moscou por protestarem contra a invasão da Ucrânia. Tenha certeza de que milhões devem ser contra, mas temem a repressão. Atletas, como o tenista número 1 do mundo, Daniil Medvedev, e outras celebridades como o ex-enxadrista Gary Kasparov defendem a Paz. Nos atos contra a guerra em Nova York e outras cidades dos EUA e da Europa, há muitos russos carregando cartazes com frases pacifistas e críticas ao Kremlin.

Embora as sanções econômicas sejam necessárias para punir Putin, o boicote ao esporte e à cultura da Rússia é controverso. Tanto por ser hipócrita como também por castigar pessoas que podem ser vozes fundamentais contra as agressões de Moscou a Kiev.

Comecemos pela hipocrisia. Afinal, a Fifa suspendeu a seleção russa da Copa do Mundo. Até concordo. Mas a Copa será realizada no Qatar, uma ditadura. Ironicamente, a anterior ocorreu justamente na própria Rússia, em 2018, quatro anos depois de Putin violar a integridade territorial da Ucrânia ao anexar a Crimeia. Já o Comitê Olímpico Internacional acabou de realizar a Olimpíada de Inverno na China, acusada de limpeza étnica da minoria uigur. O Mundial de Clubes foi realizado semanas atrás na ditadura dos Emirados Árabes, que leva adiante uma campanha de bombardeios ao Iêmen há anos.

A outra questão se dá no erro de associar um atleta ou um cineasta a um regime, defendendo a punição deles. As patinadoras russas, que são as melhores do planeta, não poderão disputar o Mundial de patinação. São adolescentes que jamais se envolveram em questões geopolíticas. A Federação de Tênis da Ucrânia defende que Medvedev, apesar de ser um crítico da guerra, não possa disputar torneios internacionais. O Festival de Cannes não permitirá a presença de delegações russas, embora tenha salientado a importância de atores e diretores russos. A Royal Opera House cancelou apresentações do Balé Bolshoi, fundado no ano da declaração de independência dos EUA, em 1776. Até mesmo restaurantes russos, como O Russian Tea Room, em Nova York, estariam sendo boicotados. Em algumas cidades americanas, há iniciativas para não beber vodka.

Atletas, músicos, artistas e escritores russos podem ser as vozes mais importantes contra a agressão de Putin à Ucrânia, como já vem ocorrendo. Vejam o cinema iraniano, celebrado no mundo todo e sem ligação com os aiatolás. Dentro do possível e com enorme habilidade, diretores conseguem adotar um tom crítico em relação aos líderes em Teerã. Na música, na literatura e nas artes plásticas também ouvimos muitas vozes que condenam os governantes de seus países, como o artista plástico chinês Ai Weiwei. Mesmo no Brasil, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram fundamentais no combate ao regime militar.

É um erro, portanto, associar a cultura e o esporte russos a Putin e a suas atrocidades. Há os livros de Dostoievsky e Tolstoi, as composições de Igor Stravinsky, os bailarinos como Baryshnikov e Nureyev, e atletas como a Yelena Isinbayeva e Alexander Popov. O foco do planeta tem de ser em Putin, não em punir os esportes e a cultura de uma gigantesca nação como a Rússia. Afinal, somente um levante do povo russo pode pôr fim ao regime de Putin, ainda que seja extremamente difícil diante da repressão.


Bolsonaro fala uma coisa, o Itamaraty faz outra. Neutralidade ou equilíbrio?

 Eliane Cantanhêde*,

 O Estado de S.Paulo

O presidente anunciou 'solidariedade' à Rússia e 'neutralidade', mas o Brasil votou contra o país na ONU

   Foto: Gabriela Biló/Estadão

Eliane Cantanhêde: 'O problema? Quem define a política externa é o presidente'.  

O mundo acompanha, estupefato, a dicotomia insana do Brasil diante da invasão russa na Ucrânia, que terá drásticas consequências por toda a parte. O presidente Jair Bolsonaro diz uma coisa, o Itamaraty faz outra. Ele anuncia “solidariedade” à Rússia e “neutralidade”, mas o Brasil votou contra a Rússia na ONU e o chanceler Carlos França corrigiu ontem na GloboNews: a posição do Brasil “é de equilíbrio, não de neutralidade”.

Uma vez negacionista, sempre negacionista, e o Brasil tem o azar, ou a imprudência, de ter um presidente que deu de ombros para a pandemia, as vacinas, as enchentes na Bahia, a Amazônia em chamas, a Educação e a Cultura e agora trata de forma rasa, com uma ligeireza espantosa, uma guerra que atinge todo o mundo e terá altos custos para os brasileiros.

Assim como o ex-chanceler Celso Amorim, do PT, classifica a reação do Brasil à guerra como “esquizofrênica”, o ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa, da era tucana, define como “dicotomia”. Apesar das sabidas divergências entre eles, ambos estranham as manifestações de Bolsonaro, mas concordam com as notas oficiais e votos do Itamaraty na ONU.

Bolsonaro não diz coisa com coisa, mas o Itamaraty pediu em nota o fim das “hostilidades” e a missão brasileira na ONU votou a favor da resolução do Conselho de Segurança que condenava a ação russa – derrubada pelo veto da própria Rússia. Neste domingo, 28, a missão ratificou na assembleia emergencial o respeito ao direito internacional, à integridade territorial e à soberania da Ucrânia, com cessar-fogo imediato.

Por outro lado, o Brasil discorda do envio de armas pelos europeus e americanos à Ucrânia e das sanções econômicas e diplomáticas que atingem a Rússia em várias frentes. Isso não é neutralidade, é, repetindo o chanceler França, uma “posição de equilíbrio”.

Enquanto o antecessor Ernesto Araújo era mais realista do que o próprio rei, radicalizando e amplificando os erros de Bolsonaro, França tenta amenizar, convencer, dar alguma racionalidade à “esquizofrenia” ou “dicotomia”. E tem aliados no Planalto, como o almirante da ativa Flávio Rocha, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), que se encarrega de “tourear” o chefe contra as maluquices.

Assim, o presidente da Ucrânia agradece ao Brasil pelo voto na ONU, mas o representante do País aqui, Anatoliy Tkach, diz que Bolsonaro “está mal informado”. O problema? Quem define a política externa é o presidente. Que, assim como foi grosseiro com a primeira-dama da França, a ex-presidente do Chile e o atual presidente da Argentina, chama Zelenski de “comediante”, por sua profissão. Oremos!

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA


Na guerra da Ucrânia, Bolsonaro faz diplomacia pelo WhatsApp

  Malu Gaspar

O Globo

  Sputink / Via Reuters

Putin recebe Bolsonaro na Rússia: para brasileiro, é "exagero" falar em massacre | 

Ao explicar o que ele mesmo chamou de posição de “neutralidade” em relação à guerra na Ucrânia, Jair Bolsonaro recorreu à dependência do setor agrícola em relação aos fertilizantes russos.

“Para nós, a questão do fertilizante é sagrada”, disse, na mesma entrevista em que considerou um “exagero” falar que o governo de Vladimir Putin está massacrando ucranianos.

Claro que não interessa a ninguém que o agronegócio brasileiro fique sem insumos. Menos fertilizantes levam a menor produtividade, maiores custos e, consequentemente, mais inflação.

Está evidente, porém, que essa não foi a única razão para o comportamento leniente de Bolsonaro em relação a Putin.

Desde o momento em que pisou na Rússia, ele demonstrou que seu cálculo tem mais a ver com as eleições de outubro que com a geopolítica mundial ou com a pujança da nossa agricultura.

Nenhum acordo relevante foi assinado em território russo e, que se saiba, nada de concreto foi discutido. Nem mesmo a reunião de produtores russos de fertilizantes com representantes da comitiva brasileira trouxe grande novidade. Só mesmo a conclusão óbvia de que os compatriotas de Putin estão muito a fim de vender para o Brasil.

O único saldo visível da viagem foi a foto em que Bolsonaro e Putin aparecem num sorridente aperto de mão. A menos que algo muito confidencial tenha sido discutido nas duas horas em que ficaram a sós, era só isso mesmo o que Bolsonaro queria.

Não é segredo que ele ficou mordido com o recente giro europeu de Lula e vinha buscando incluir em seu cardápio de campanha alguma demonstração de que não está isolado no panorama internacional.

Naquele momento, Putin foi o único líder de potência mundial disposto a recebê-lo, e Bolsonaro era o único chefe de Estado de um país relevante disposto a adular o autocrata russo em plena crise com a Ucrânia.

Do ponto de vista da política de relações públicas, a jogada russa já se converteu em tiro no pé assim que a guerra começou.

Ter ido a Moscou com uma conversa vaga sobre paz dias antes do ataque ou indica que Bolsonaro fez papel de bobo, ou então que, no fundo, não estava nem aí para a paz mundial. A confusão entre o que o presidente diz e o que o Itamaraty faz nas Nações Unidas também cai muito mal para quem se pretende um ator de peso no cenário global.

O aspecto econômico é mais um em que a postura de Bolsonaro se revela simplista e inócua. Com as sanções impostas aos bancos e o embargo à cadeia de transporte, os russos não conseguirão vender fertilizantes ao Brasil mesmo que queiram. O país terá de fazer novas articulações para tentar suprir a produção agrícola. E, dependendo do cenário, será obrigado a disputar produtos de grandes fornecedores, como o Canadá.

Com a oferta menor que a demanda, será necessário algum critério para decidir quem consegue os produtos primeiro. Dependendo de qual for esse critério, a vida do agronegócio brasileiro não ficará muito mais fácil do que está.

O curioso é que Bolsonaro, agora, já não parece mais tão preocupado. Enquanto a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, trabalhava para acelerar o Plano Nacional de Fertilizantes, que deveria ter sido lançado no final do ano passado, e anunciava sua ida ao Canadá para negociar o aumento do fornecimento, o presidente sugeria no Telegram que se liberasse a exploração de minas de potássio em reservas indígenas, como forma de obter mais matéria-prima.

No WhatsApp, espalhava teorias da conspiração desconexas para justificar o injustificável. “Se Bolsonaro não tivesse corrido para fazer aliança com Putin (fertilizantes, ...), nem eleições teríamos”, dizia um trecho da enigmática mensagem que enviou às suas listas de zap, como mostrou ontem o colunista Lauro Jardim.

“Os mesmos que desejam que o Presidente brasileiro tome uma posição firme no conflito Rússia x Ucrânia são aqueles que desejam tomar de nós a Amazônia.”

Não chega nem a ser surpresa que Bolsonaro esteja avacalhando a tradição da nossa diplomacia, assim como fez com todo o resto da capacidade instalada no governo, ou que não enxergue um palmo adiante do nariz no cenário econômico internacional.

É previsível que se ocupe mais com eleições e de suas narrativas caóticas que com trazer solução a nossos dilemas, em meio a uma crise planetária de grandes proporções. O problema para o próprio presidente é que, assim como o print da tela do celular, a História não se apaga, e as consequências de sua diplomacia do zap podem vir a ser perenes — tanto na economia quanto nas urnas.


Balanço tranquilo em cenário incerto

 Editorial

O Estado de São Paulo

O déficit de US$ 8,1 bilhões, em janeiro, nas transações correntes do balanço de pagamentos – um registro contábil das relações comerciais e financeiras da economia brasileira com o exterior feito pelo Banco Central (BC) – não chega a preocupar. É um resultado menor do que o observado um ano antes (de US$ 8,34 bilhões) e, na soma de 12 meses, é coberto com bastante folga pelo ingresso líquido de investimentos diretos no País (IDPs).

A balança comercial vem tendo papel central na manutenção de resultados tranquilizadores nas contas correntes. Em janeiro, a balança registrou déficit, mas menor do que o de 2021, o que ajudou a melhorar o saldo das transações correntes. Para o ano, o governo projeta superávit comercial de US$ 79 bilhões; menos otimistas, analistas do setor privado preveem saldo de US$ 57 bilhões em 2022. Qualquer dos resultados será bom.

As contas externas demonstram resistência num período em que o relacionamento do Brasil com o exterior enfrenta turbulências. Observa-se, desde o início do governo Bolsonaro, um acúmulo de erros, gestos imprudentes e desprezo por padrões diplomáticos que marcaram a presença e o papel do País no cenário das relações internacionais. O Brasil ficou menor.

Por procurar destruir relacionamentos diplomáticos e comerciais consolidados e de grande relevância para o País, bem como por menosprezar questões que se tornaram essenciais no debate mundial, como a preservação do meio ambiente e o compromisso com a redução dos fatores responsáveis pelo aquecimento global, o governo Bolsonaro tornou o Brasil alvo de críticas generalizadas no exterior. Governos estrangeiros já estudam restrições à entrada em seus mercados de produtos brasileiros originários de regiões não devidamente protegidas pelo governo contra desmatamentos e incêndios florestais.

No plano estritamente comercial e financeiro, porém, o cenário é diferente, como mostram os números do Banco Central. No acumulado de 12 meses, o resultado líquido das transações internacionais do País relacionadas a comércio, rendas e transferências unilaterais – que compõem as transações correntes – foi um déficit de US$ 27,733 bilhões, o equivalente a 1,71% do Produto Interno Bruto (PIB); em dezembro, correspondia a 1,74% do PIB. Para todo o ano, a projeção do Banco Central é de um resultado negativo de US$ 21 bilhões, como foi apontado em seu Relatório Trimestral de Inflação.

O ingresso líquido de investimentos diretos no País tem sido suficiente para cobrir os déficits em transações correntes. Em janeiro, o total de investimentos diretos foi de US$ 4,709 bilhões. Nos 12 meses encerrados em janeiro, a soma alcançou US$ 47,672 bilhões, cerca de US$ 20 bilhões mais do que o déficit em transações correntes. Para o ano, o BC projeta o ingresso de US$ 55 bilhões em IDP, cifra bem maior do que o déficit projetado para as contas correntes do balanço de pagamentos. É um quadro tranquilo, num cenário externo marcado por incertezas. A proximidade das eleições tende a gerar mais incertezas no plano interno.


De Getúlio Vargas para Bolsonaro

 Elio Gaspari

O Globo

Ouça o chanceler, como ouvi o Osvaldo Aranha

Prezado presidente,

O senhor não gosta de mim, e a recíproca é verdadeira. Escrevo-lhe para sugerir alguma cautela diante da guerra europeia. Pretendo ater-me aos cuidados que tive entre agosto e setembro de 1941, quando a tropa alemã entrou em Kiev. Como o senhor sabe, Hitler invadiu a Rússia em junho num ataque fulminante e, em agosto, estava nas proximidades da capital da Ucrânia, a caminho de Moscou. Foi uma guerra diferente na forma e no conteúdo, mas vou lhe contar o que acontecia no Palácio do Catete e outras coisas que eu só soube quando vim para cá.

A invasão da Rússia já tinha data marcada quando o presidente americano Franklin Roosevelt mandou ao Rio um escultor para fazer meu busto. Dois dos meus conselheiros, os generais Dutra (ministro da Guerra) e Góes Monteiro (chefe do Estado-Maior) achavam que a máquina alemã seria invencível na Rússia.

Nenhum de nós sabia que o secretário da Guerra, Henry Stimson, estava de olho no Brasil. Três dias antes da invasão da Rússia, ele escreveu ao presidente, temendo que os alemães pulassem do Norte da África sobre o nosso território. (A menor distância para atravessar o Atlântico Sul vai da costa africana ao Saliente Nordestino.) Lembro-lhe que os Estados Unidos não haviam entrado na Guerra, mas queriam “salvar o Brasil”. Como? Instalando uma base no Nordeste.

Eu mandava sinais aos dois lados. Quando falei nos riscos do “capitalismo financeiro cosmopolita”, o embaixador americano assustou-se. O alemão acreditava que o Brasil estava afastado dos Estados Unidos. Muita gente supunha que os russos estavam perdidos, imagine que chegaram a tirar a múmia do Lênin de Moscou.

Os americanos mandaram para cá um coronel que reclamava do Dutra e do Góes. Os alemães talvez soubessem de alguma coisa, porque viram o Churchill no Rio Grande do Norte. Parolagem.

Na bolha do Palácio do Catete, tudo ia bem. Minha mulher deu uma linda festa no Theatro Municipal, e a Academia Brasileira de Letras elegeu-me para a cadeira que tem como patrono o Tomás Antônio Gonzaga. A favor dos americanos, ouvia-se, exaltado, o chanceler Osvaldo Aranha, que investiu contra o Góes e o Dutra. Isso no dia em que começou a batalha de Kiev. 

E eu equilibrando-me. Os americanos mandaram para cá até o Walt Disney. Queriam nos ensaboar.

No fim de setembro, os alemães entraram em Kiev. Eu me aborrecia com a insistência dos americanos para construir bases aéreas e navais no Brasil, mas, desde o primeiro momento, alinhei-me com Roosevelt. Não me passava pela cabeça ficar contra os Estados Unidos, mas eles não estavam na guerra.

Eu não sabia, mas podia intuir, que os americanos planejavam um desembarque em Natal. Também podia intuir que o Japão iria à guerra contra os Estados Unidos, mas nunca da maneira que o fizeram.

Como o senhor sabe, o Japão atacou, liberei a construção da base de Natal, e ela foi uma das principais pistas de pouso dos aviões americanos. Declarei guerra ao Eixo e, depois do desembarque Aliado na Europa, nossa Força Expedicionária chegou à Itália. Equilibrei-me. Tivesse ouvido o Góes, o Dutra e alguns conselheiros em 1941, e estaria frito.

Ouça o chanceler, eu ouvia o Aranha.

Respeitosamente,

Getúlio Vargas.


Democracias doentes

 Editorial

O Estado de São Paulo 

Segundo o Índice da Democracia da Economist Intelligence Unit, a pandemia impactou negativamente todas as regiões do mundo. Em 15 anos de edição, 2021 registrou a pior pontuação global e o maior declínio de um ano para outro.

O Índice é baseado em cinco categorias – processo eleitoral e pluralismo, funcionamento do governo, participação política, cultura política e liberdades civis – que classificam quatro tipos de regime – “democracia plena”, “democracia falha”, “regime híbrido” e “regime autoritário”.

A saúde da democracia já estava em declínio havia anos. A crise agravou tendências como “uma abordagem cada vez mais tecnocrática na gestão social” e o recurso à coerção, resultando em “uma retração sem precedentes das liberdades civis tanto entre as democracias quanto entre os regimes autoritários”.

Em 2020, restrições à circulação, controle da mídia e vigilância já haviam provocado um declínio severo. Mas as altas taxas de mortalidade e a ausência de vacinas ofereciam um caso convincente para restrições excepcionais e a maioria das pessoas se dispôs a sacrificar liberdades individuais em prol de um bem maior.

Previstas para durar limitadamente, essas restrições já estabeleciam precedentes temerários. Em 2022 a pandemia tende se dissolver em um quadro endêmico, mas o risco de que esses poderes emergenciais sejam normalizados é real. Em 2021, a distribuição das vacinas, melhores tratamentos e o declínio de hospitalizações e mortes coincidiram com a introdução de “uma panóplia de medidas coercitivas e intrusivas”.

Restrições excepcionalíssimas aos não vacinados eram defensáveis. Mas em muitos lugares esses grupos minoritários foram demonizados, até por seus governantes. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que tornaria a vida dos não vacinados a mais dura possível e muitos políticos propuseram excluí-los das redes de seguridade.

A pandemia foi o laboratório perfeito para as tiranias testarem seu aparato de repressão e propaganda. A referência a um único país no título do Índice é incomum, mas emblemática: O Desafio da China aumentou com o vírus – cuja origem, de um animal ou um laboratório, por sinal, o mundo não consegue investigar. No terceiro ano da pandemia, há milhões de chineses confinados em lockdowns pela política epidemiologicamente insana da “covid-0”.

Em três décadas a economia da China cresceu o triplo da dos EUA. Hoje ela é uma superpotência econômica a caminho do maior PIB global. A pandemia energizou a confiança do Partido Comunista, que acusa os ocidentais de a administrarem mal, sacrificando centenas de milhares de vidas, e a propagandeia como prova de superioridade sobre as democracias liberais caóticas e decadentes.

A América Latina foi a região que registrou o maior declínio de um ano para o outro na história do Índice. Cinco países caíram na classificação, entre eles o Chile, de democracia “plena” para “falha”, e Equador, México e Paraguai, de “falhos” para “híbridos”. A queda foi puxada pelo indicador “cultura política”. A insatisfação pública com a gestão da crise amplificou o ceticismo contra a democracia, assim como a tolerância com o autoritarismo.

O presidente Jair Bolsonaro é citado como exemplo dos populistas iliberais que promovem a deterioração democrática, entre outras coisas por ter exigido a renúncia de dois membros da Suprema Corte, questionado a integridade do processo eleitoral e ameaçado descumprir o resultado das urnas. O recrudescimento desses ataques em 2022 está contratado.

O vírus foi tóxico para a democracia global e tônico para a autocracia. Mas ele atingiu uma democracia já em degradação e uma autocracia em ascensão. A autocracia global, liderada pela China, não retrocederá num futuro próximo. A grande dúvida é se as democracias conseguirão sanar suas comorbidades e eliminar os patógenos que as consomem. O Brasil padece da mesmíssima enfermidade e paira sobre ele a mesma incerteza. Mas uma coisa é certa: o seu presidente, longe de ser parte da cura, é o agente mais virulento da doença.


Como guerra de Putin revela a ignorância no discurso público

 Philipp Lichterbeck

Deutsche  Welle

Bolsonaro e alguns esquerdistas se encontram em sua opinião sobre a invasão da Ucrânia por Putin. Nesse assunto, o que os une é a burrice e a prepotência, escreve Philipp Lichterbeck.

 © State Emergency Service/AA/picture alliance 

Destruição na cidade de Zhytomyr: para brasileiros, Ucrânia está longe demais

Quando um desses youtubers brasileiros neo-direitistas – o nome dele é Monark – afirmou, simplesmente porque lhe deu na telha, que se devia fundar um partido nazista no Brasil – ou seja, um partido visando o assassinato de adversários políticos, minorias étnicas e deficientes, além de legitimar campos de concentração e guerras ofensivas –, eu considerei tratar-se de mais um sintoma de uma dinâmica que já venho observando há bastante tempo. Sobretudo na internet, mas também nas mídias tradicionais e na política brasileira, estamos sendo confrontados com uma nova geração de ignorantes, prepotentes e burros.

Costumam ser pessoas que, em razão de uma projeção alcançada por caminhos duvidosos, se sentem com autoridade para dizer as maiores imbecilidades, sem pudor nem moderação. Eles se consideram corajosos por dizer coisas supostamente provocadoras ou tabus, ou que simplesmente soam bem aos seus ouvidos.

Na realidade, eles só têm uma boca deste tamanho, mas nenhuma informação. Fazem barulho, mas nunca leram um livro. Consideram-se espertos, mas seus raciocínios são de uma simploriedade arrepiante. Sabem o preço de tudo mas o valor de nada. São pessoas que nada qualifica a manifestar suas ideias ao grande público. Fazem muita confusão, mas por trás não há nada além de ar quente. São aqueles concidadãos sobre quem o filósofo britânico Bertrand Russel certa vez advertiu: "O problema com o mundo é que os estúpidos são excessivamente confiantes, e os inteligentes são cheios de dúvidas."

Pode-se observar esse fenômeno por toda parte, seja no YouTube, no rádio ou na televisão. Mas é também na política onde alardeiam suas opiniões, baseadas menos em saber do que, acima de tudo, numa crença prepotente nas próprias convicções.

Infelizmente há exemplos disso aos montes. Seja o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, afirmando que a escravidão foi "benéfica" para os escravos; ou Mário Frias, o secretário especial da Cultura, qualificado pelo próprio primo, o historiador Raul Milliet, como "inculto", "folgado" e "bajulador" – um julgamento que Frias faz todo possível para confirmar.

Ou o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, segundo quem Jair Bolsonaro evitou a Terceira Guerra Mundial e merecia o Nobel da Paz porque a visita do mandatário brasileiro ao ditador russo o fez "recuar" da invasão na Ucrânia. Pouco depois, Putin marchava sobre o país vizinho.

O fascínio de exibir a própria ignorância

E assim chegamos ao tema: a ofensiva russa contra a Ucrânia, sobre a qual circulam no Brasil as mais diversas opiniões e teorias. O que mais me apavora é quanta ressonância a propaganda russa na internet encontra justamente entre certos esquerdistas brasileiros.

Movidos por um reflexo anti-imperialista, eles acreditam e partilham toda opinião em que os Estados Unidos, a Otan e a União Europeia sejam declarados verdadeiros culpados por todo o mal do mundo. Eles justificam o assalto de Putin repetindo o argumento do ditador de que haveria na Ucrânia neonazistas que até mesmo definem a política do país (embora o próprio presidente ucraniano seja judeu). Com o argumento da existência de neonazistas, se poderia invadir e bombardear quase todo país do mundo, inclusive a Alemanha e o Brasil.

Especialmente peculiar é também a admiração do anticomunista ferrenho Jair Bolsonaro pelo ex-agente da KGB Vladimir Putin. Ao declarar a neutralidade do Brasil na guerra na Ucrânia, Bolsonaro alinha o país com as ditaduras socialistas da Venezuela, Cuba, Nicarágua, Belarus, China e Coreia do Norte. E assim, por uma vez na vida, o presidente e a obstinadamente anti-imperialista esquerda brasileira estão de acordo.

Uma prova dos distúrbios intelectuais e hormonais que a guerra na Ucrânia desencadeia no Brasil, tanto entre bolsonaristas quanto entre esquerdistas, é a reação do deputado estadual e pré-candidato ao governo de São Paulo, Arthur do Val (Podemos-SP), que está a caminho da fronteira da Ucrânia com a Eslováquia, junto com o coordenador nacional do MBL, Renan Santos. Segundo este, a dupla viajou para relatar o que está ocorrendo na região.

Fico muito curioso sobre o que os dois vão relatar. Pergunto-me se algum deles fala ucraniano ou russo, eslovaco ou polonês? Qual é seu conhecimento prévio sobre a região, com que especialistas falaram, que livros leram? Parece-me uma empreitada cuja meta não é realmente descobrir e relatar algo sobre a guerra, mas sim se colocar em cena, se aproveitar da guerra como palco.

Assim como Monark, para se fazer de importante, usou um acontecimento pavoroso da Europa, do qual não entendia nada e com que não tinha qualquer relação, os dois jovens políticos pretendem transformar o assalto militar da Rússia à Ucrânia num trampolim para suas próprias carreiras.

Guerras, genocídio, crimes na Europa parecem exercer sobre alguns brasileiros um fascínio especial, o qual os inspira menos à reflexão do que a exibir, com bastante alarde, a própria ignorância.

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Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para jornais da Alemanha,Suíça e Áustria. Ele viaja frequentemente entre Alemanha, Brasil e outros países do continente americano. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.


Bolsonaro agora quer usar a guerra para uma jogada absurda

 Matheus Leitão 

Veja online

Entenda

  Alan Santos/PR/Divulgação

O presidente Jair Bolsonaro na Duma, casa legislativa da Rússia 

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu a proeza de acrescentar mais um absurdo para sua interminável lista de feitos destituídos de pudor. Desta vez, quer usar a guerra como pretexto para atacar os indígenas brasileiros.

Em sua conta no Twitter, que este colunista não consegue acompanhar facilmente por estar bloqueado, Bolsonaro escreveu a seguinte raciocínio:

“Com a guerra Rússia/Ucrânia, hoje corremos o risco da falta do potássio ou aumento do seu preço. Nossa segurança alimentar e agronegócio (Economia) exigem de nós, Executivo e Legislativo, medidas que nos permitam a não dependência externa de algo que temos em abundância”.

Para o presidente, o Brasil é dependente de fertilizante porque não tem potássio. E a solução então seria aprovar um antigo projeto dele sobre mineração em terras indígenas para poder explorar o importante elemento químico.

Bolsonaro quer, na verdade, algo absurdo: “tirar a casquinha” da guerra – vejam vocês – para aprovar um projeto tenebroso que sua gestão defende com unhas e dentes – projeto este que não faz sentido. Foi rejeitado até por conservadores. Isso, além de afrontar a Constituição que protege as terras indígenas.

O problema é que nos acostumamos a ver Bolsonaro afrontar a Constituição. Neste caso, contudo, desde o início do governo, em 2019, o presidente força sua mão violenta sobre os indígenas.

O projeto que Bolsonaro defende não traz garantia nenhuma de que o Brasil ficará auto-suficiente em fertilizantes, como é hoje a Rússia. Mas temos certeza de uma coisa: aumentarão as mortes e a violência contra os indígenas por mais invasões de garimpeiros.

Ou seja, é tentar pegar carona em uma tragédia, que é a guerra, para botar de pé, dar um empurrão num projeto ruim que ele mesmo mandou para o congresso, mas que não andou muito.

Felizmente e por sorte, tá?

O presidente da Câmara, Arthur Lira, se mostrou completamente aderente à pauta antiambiental de Bolsonaro. E… já mostrou várias vezes.


Um Brasil altivo e ativo, mas do lado errado

 Paulo Sotero

O Estado de São Paulo

A incapacidade de nossas elites dirigentes de identificar o interesse nacional, que as impele a subir no muro sempre que a realidade impõe uma escolha clara, produziu um efeito surpreendente na guerra desencadeada pela criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia. Desta vez, o Brasil optou – com firmeza – pelo lado errado.

Inspirado, senão incentivado, por seu mentor, Donald Trump, admirador declarado de Vladimir Putin, o líder brasileiro viajou a Moscou duas semanas antes do ataque para posar em casa de mediador, papel que não tem condição intelectual ou política para exercer. Na volta, justificou a viagem afirmando que ela fora motivada pela preservação de interesses comerciais do País – hoje reduzido a um fazendão exportador de matérias-primas agrícolas e minerais de baixo valor agregado.

Vozes dissonantes, como a do vice-presidente Hamilton Mourão, e inúmeras outras manifestações indicam que a sociedade brasileira não aprovou a embaraçosa sortida diplomática de Bolsonaro e está alinhada com a comunidade internacional na condenação da Rússia, patente desde o início do conflito e expressa pela esmagadora maioria dos países-membros das Nações Unidas na segunda-feira passada. Mas não nos enganemos.

A posição assumida pelo capitão presidente tem respaldo na direita e na esquerda brasileiras. Ela foi endossada pelo ex-chanceler Celso Amorim, principal porta-voz e conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais. Espantosamente, Amorim defendeu a viagem de Bolsonaro à Rússia em entrevista ao blog de Bela Megale, no O Globo, como uma decisão correta. “Foi a viagem certa, no momento certo, com a pessoa errada, mas a pessoa que tem, né?” O ex-chanceler justificou a viagem de Bolsonaro dizendo que denunciar a Rússia seria “um sinal de submissão a uma agenda de Washington que não tem cabimento”. A declaração de Amorim torna explícita a posição petista de se opor aos Estados Unidos mesmo quando a postura americana tem o respaldo de todas as democracias dignas de respeito na Europa, nas Américas, no Japão e em toda parte.

Da declaração de Amorim se conclui que, estivesse ele de volta ao governo com Lula, o apoio do Brasil à invasão da Ucrânia teria sido uma decisão perfeita e irrepreensível. Mas os cidadãos e cidadãs brasileiros concordam com tamanha estupidez?

Não se trata de pergunta retórica. A continuar o franco favoritismo do ex-presidente nas enquetes de opinião sobre as eleições presidenciais de outubro, a tese petista passará por um teste de realidade, já que as consequências militares, humanitárias, políticas e econômicas da inominável agressão russa a seu vizinho estarão vivas e presentes se o líder do Partido dos Trabalhadores for reconduzido ao poder, em janeiro do ano que vem.

Ações, declarações e posicionamentos do governo ilustram já há algum tempo a desorientação e perda de relevância internacional do Brasil – um país à deriva, desfigurado pela mediocridade, pela pusilanimidade e pelo despreparo de seus líderes para atuar nos tabuleiros internacionais que interessam ao Brasil.

Este não é o primeiro grande fiasco da diplomacia brasileira. Mas será o mais danoso. Doze anos atrás, estimulado pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a colocar seu considerável prestígio internacional a serviço da negociação de um acordo nuclear entre o Irã e os cinco membros permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, Lula, aconselhado por Amorim, anunciou em Teerã, com estardalhaço, as bases de um entendimento que alinhavara com o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o líder da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, um autocrata até hoje no poder. Surpreendidos pelo anúncio público de princípios de um entendimento sobre o qual não haviam sido consultados, os governos de Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra bloquearam a presepada e aprovaram sanções contra o Irã por violação de seus compromissos de signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

O episódio levou a um curto-circuito das relações entre o Brasil e os Estados Unidos nunca superado e apenas remediado no governo de Dilma Rousseff, graças ao interesse de Washington de ver o Brasil numa posição de protagonista nas negociações da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas em Glasgow, no ano passado, que Bolsonaro fez de tudo para sabotar.

A crise internacional desencadeada pela insana irresponsabilidade de Putin é a mais grave desde o fim da guerra fria e não deixa espaço para poses diplomáticas. Isolado e desacreditado, o Brasil pagará alto preço pela insensatez do apoio de Bolsonaro a Putin e o endosso de Lula, via Amorim, ao tresloucado gesto. E é bom que pague, para aprender a se comportar como a nação digna e civilizada que julga ser.

*

JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON



Desiludidos e 'traídos', Brasil vê seus filhos partirem em êxodo sem precedentes

 AFP

Nunca antes tantos brasileiros viveram fora de seu país. Sobrecarregados pela insegurança e pelas dificuldades econômicas, a cada ano, dezenas de milhares de jovens e aposentados, ricos e pobres, fazem as malas para reconstruir suas vidas longe da maior economia da América Latina.

 © MAURO PIMENTEL 

O engenheiro mecânico Marcos Martins, de 58 anos, conversou com a AFP 

em 15 de fevereiro de 2022 e contou seus planos de emigrar para Portugal

Historicamente uma terra de acolhimento de asiáticos, africanos e europeus, o Brasil agora vê seus filhos partirem: 4,2 milhões deles viviam no exterior em 2020, número que começou a crescer ininterruptamente desde 2016, quando o Itamaraty registrava três milhões de emigrantes. 

A situação se aprofundou desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, em 2019.

"Não sei se diria que estava infeliz (...) mas não via futuro. Já estava pensando em ter uma família e pensei: 'não posso fazer isso aqui'. Eu amo meu país, minha família inteira está lá, mas, por enquanto, meu marido e eu não estamos pensando em voltar", disse Gabriela Vefago Nunes à AFP.

Como muitos que buscam melhores empregos e qualidade de vida, esta enfermeira de 27 anos deixou sua terra natal em setembro para se estabelecer em Québec, no Canadá, o nono destino mais procurados por migrantes brasileiros, com 121.950 pessoas registradas.

Com quase 1,8 milhão, os Estados Unidos encabeçam a lista, seguidos por Portugal (276,2 mil) e Paraguai (240 mil), onde houve migração de perfil rural na década de 1970, segundo relatório recente do Ministério das Relações Exteriores.

- "Nada em troca" -

Os altos índices de violência, inflação, desemprego e o impacto da pandemia da covid-19 são os ingredientes do maior êxodo do Brasil, que supera a fuga migratória surgida em meados dos anos 1980 (1,8 milhão), então motivada pela hiperinflação, concordam especialistas ouvidos pela AFP.

"Agora se trata, principalmente, de uma questão econômica, de falta de oportunidades de trabalho, da impossibilidade de crescer no mercado, de ganhar mais dinheiro, poupar, comprar uma casa", explica Gabrielle Oliveira, especialista em migração e professora da Universidade de Harvard.

"As pessoas perderam a confiança e se sentem, de alguma maneira, traídas por seu próprio país. Pensam: 'Eu dei tanto e não recebo nada em troca'", acrescenta.

O engenheiro mecânico Marcos Martins, de 58 anos, considera-se um privilegiado por ter uma vida profissional "mais bem-sucedida" do que boa parte dos brasileiros. Ainda assim, também pretende partir. E, em abril, espera já ter trocado a "estressante" cidade do Rio de Janeiro por Lisboa, onde pretende continuar seus empreendimentos, junto com sua mulher.

O relatório do Ministério brasileiro das Relações Exteriores não especifica idades, nem condições socioeconômicas, mas Oliveira afirma que os migrantes que vão para Estados Unidos e Europa têm perfis muito variados. Ainda assim, esclarece a especialista, em sua maioria, são jovens e homens.

 © Tatiana MAGARINOS 

Evolução da quantidade de brasileiros radicados no exterior desde 2009 e

 quantidade de migrantes brasileiros por continente e país de destino 

segundo números de 2020.

Na diáspora dos anos 1980, aqueles que deixaram o país eram, principalmente, pessoas de maior poder aquisitivo. Agora, alguns brasileiros pobres vendem seus pertences e até se endividam para poderem migrar, de forma irregular, ou legalmente, relata Oliveira.

- Risco futuro -

Em Portugal, há vantagens fiscais para aposentados e empresários brasileiros, diz a publicitária carioca Patrícia Lemos. Em 2018, ela montou neste país europeu uma empresa para ajudar seus compatriotas a se mudarem e se adaptarem.

"Aqui, uma pessoa de 50, 60 anos, consegue trabalhar. No Brasil, não consegue trabalho nem para vender pipoca", diz Patrícia, destacando que muitos de seus compatriotas se estabelecem com mais facilidade na Europa por terem nacionalidade portuguesa, ou italiana, produto da colonização, ou da recepção de migrantes da Itália.

Segundo especialistas, além de perder mão de obra qualificada de setores com alta demanda, como o de tecnologia, o êxodo pode ser um risco para o futuro do país, devido às projeções recentes que alertam para um envelhecimento populacional.

Em 2100, o grupo etário a partir dos 65 anos poderá representar 40,3% dos 213 milhões de brasileiros, contra 7,3% em 2010, segundo um relatório publicado em outubro passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia. O grupo abaixo de 15 anos cairá de 24,7% para 9%.

"É algo que, para o futuro, pode complicar muito, quando você vê muitas pessoas se aposentando e menos pessoas na idade produtiva", alerta a especialista Gabrielle Oliveira.

raa/app/yow/ap/tt


Brasileiros abandonam o país de Bolsonaro: Bloomberg Opinion

 David Wainer

Bloomberg

(Bloomberg) -- Como brasileiro que emigrou para os EUA, muitas vezes me perguntam se eu ainda tenho família no País. Desde que viemos para os EUA, em 1999, voltávamos todo verão e nos alternávamos entre a casa da vovó Mercedes e os apartamentos das minhas quatro tias no Rio de Janeiro.

Hoje em dia, quase não temos parentes para visitar.

Meu tio foi o primeiro a partir e hoje trabalha como cardiologista na Flórida. Nós seguimos seus passos alguns anos depois e fomos viver em Miami. Em seguida, outros integrantes da família — médicos, engenheiros e advogados formados no Brasil — foram se mudando para Israel. Em uma geração, mais de 30 membros de uma família deixaram o País.

A piada famosa é que o Brasil é o país do futuro — e sempre será. Por mais grosseiro que pareça, cada vez mais brasileiros compartilham esse sentimento e, apesar de seu amor pelo País, decidiram se mudar para o exterior.

O número de brasileiros vivendo no exterior aumentou 35% na última década. Nos EUA, foram 3,4 milhões de pedidos de visto para empregos de alta qualificação — em engenharia de software, finanças e outras áreas. Além dos EUA, é grande a procura por destinos como Portugal, Reino Unido e Japão, segundo um estudo publicado no ano passado pelo Ministério das Relações Exteriores.

Com a inflação e o desemprego em alta em meio à pandemia, brasileiros que não conseguiram visto rumaram para o norte mesmo sem documentação. Mais de 56.000 brasileiros foram encontrados na fronteira sul dos EUA no último ano fiscal, comparado a apenas 1.500 apreensões no ano fiscal de 2018, pouco antes de o presidente Jair Bolsonaro tomar posse. Uma pequena cidade em Minas Gerais, Alpercata, por exemplo, está se esvaziando rapidamente à medida que as famílias vendem seus pertences para bancar a viagem ilegal para os EUA.

A instabilidade política e econômica incentiva a migração não apenas no Brasil, mas em grande parte da América Latina. Períodos de alta dos preços das commodities impulsionam ondas de crescimento econômico e, por algum tempo, as economias parecem estar em recuperação. Mas mudanças políticas bruscas e choques externos — como a queda na demanda global por soja, carne bovina ou petróleo — atrapalham o crescimento e a debandada se acelera.

Resumidamente, o Brasil precisa deixar de ser o pasto do mundo (o que contribui para a destruição da Amazônia) e se tornar uma economia impulsionada por inovação.

Infelizmente, à medida que a polarização se agravou, também piorou o debate sobre o financiamento à educação e à ciência. Bolsonaro alertou que vacinas contra a Covid poderiam transformar as pessoas em jacarés, incentiva o ceticismo em relação ao ensino superior e promete consertar o sistema educacional “marxista” que ele vê no Brasil.

O economista João Leal, formado pela London School of Economics e autor de estudo sobre a “fuga de cérebros” do Brasil, argumenta que as políticas de Bolsonaro tiveram um efeito assustador nas perspectivas dos pesquisadores e, mais amplamente, da classe média-alta brasileira.

Antes da pandemia, Bolsonaro já lutava contra servidores públicos em cargos científicos que não compartilhavam sua ideologia política. Ele demitiu o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por publicar dados de satélite que mostraram aumento acentuado do desmatamento. A guerra contra a ciência se intensificou após a pandemia, com dois ministros da Saúde destituídos por defenderem medidas como o distanciamento social.

No meio acadêmico, Leal diz que mais preocupante foi o corte de milhares de bolsas para pesquisas de mestrado e doutorado e a retirada de recursos das universidades, o que quase provocou a falência da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, favorito a vencer a eleição presidencial de outubro, prometeu restabelecer o financiamento para que, nas palavras dele, o filho de um operário possa se formar em medicina. No entanto, Lula não está prestando atenção suficiente a outros problemas do Brasil: controle excessivo do Estado sobre a economia e um setor privado moribundo. Embora tenha animado os mercados ao dizer que gostaria de ter o centrista Geraldo Alckmin em sua chapa, o ex-presidente critica a atitude favorável de Bolsonaro em relação às empresas. Lula não revelou suas intenções sobre a tão necessária reforma tributária. Além de investimentos em educação, destravar o crescimento econômico exige reformas estruturais.

O Brasil não é o líder da região quando se trata de emigração. A saída de brasileiros foi compensada em parte por um quarto de milhão de venezuelanos que buscaram refúgio do outro lado da fronteira nos últimos anos. Mas a crise econômica no Brasil afetou severamente o mercado de trabalho para pessoas com curso superior. A parcela de profissionais qualificados que estão desempregados ou atuando em ocupações precárias é muito maior do que a média nacional, segundo Leal.

A partida de cidadãos mais qualificados significa que o Brasil continuará atrás do resto do mundo em se tratando de um dos principais fatores preditivos do crescimento econômico: produtividade. Sem melhora da produtividade, a economia brasileira — que está tecnicamente em recessão — terá potencial de crescimento limitado, segundo Adriana Dupita, economista da Bloomberg.

Em geral, meus primos se casaram com outros expatriados brasileiros e criam seus filhos na cultura brasileira mesmo vivendo no exterior. Eles ainda fazem churrasco com os amigos, falam português com os filhos, torcem pela Seleção e escutam MPB.

O sentimento de nostalgia deles pelo Rio de Janeiro me lembra o trecho de uma canção de João Gilberto: “Eu vim da Bahia, mas algum dia eu volto pra lá.”

O compositor morreu no Rio sem ter voltado a morar em seu empobrecido estado natal. E eu desconfio que a maioria da minha família não voltará a viver no Brasil.


Graziano: fome no Brasil pode chegar a "situação explosiva"

 Malu Delgado

Deutsche Welle

Ex-diretor da FAO e coordenador do programa Fome Zero no governo Lula, José Graziano afirma que fome está em patamar que "nunca se tinha visto". Solução depende de crescimento e renda, não só de programas sociais, diz. 

Menos de uma década após o Brasil ter deixado o Mapa da Fome, em 2014, o país vive hoje um aumento significativo da insegurança alimentar, que pode levar a uma "situação explosiva" antes do final do ano e precisa ser enfrentada pelas autoridades públicas e pela sociedade com urgência.

O alerta é de José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de 2012 a 2019 e coordenador do programa Fome Zero no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista à DW Brasil, Graziano, atualmente diretor do Instituto Fome Zero, afirma que a situação da fome no Brasil é hoje "muito mais difícil" do que quando o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, usou em 1992 o mote "quem tem fome tem pressa" para lançar sua campanha contra a insegurança alimentar.

"Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil, nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade. Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra", afirmou Graziano. "Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle." 

Segundo uma pesquisa realizada em dezembro de 2021 pelo Datafolha, 15% dos brasileiros, ou cerca de 32 milhões de pessoas, deixaram de fazer alguma refeição nos meses anteriores porque não tinham dinheiro para comprar comida. E 26%, ou 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro suficiente.

Para ele, o Bolsa Família foi um aliado crucial no combate à fome, mas apenas programas de transferência de renda não solucionam esse drama. "O mais importante no programa de erradicação da fome é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda. Ou seja, o país precisa crescer e distribuir a renda gerada. É isso que acaba com a fome. Políticas de transferência de renda são atores coadjuvantes", afirma.

DW Brasil: Brasil construiu um longo caminho para sair, em 2014, do Mapa da Fome. Em 2017, já se observava um retorno gradual do país à conhecida situação de insegurança alimentar. Hoje, pelo menos 55% da população vive nessas condições. Quais as causas desse retrocesso ?

José Graziano: Na verdade, a gente já vê um declínio da segurança alimentar da população brasileira a partir de 2013, que se acentua muito nos últimos anos, a partir de 2018. A questão da fome hoje no país, e sempre, é uma questão de acesso. Não faltam alimentos. Falta dinheiro para a população comprar alimentos. Já era assim no tempo de Josué de Castro [médico, nutrólogo e autor do livro "Geografia da fome”, escrito em 1946, presidiu a FAO], há 75 anos, e agora está muito mais acentuado.

Eu listaria cinco causas mais importantes para esse rápido crescimento da fome: 1) Consequência da crise mundial: O Brasil passa por um período de baixo crescimento econômico, abaixo de 2% [por ano] é insuficiente para gerar emprego e renda. Consequentemente, aumenta a população desempregada ou ocupada informalmente, com baixíssimos salários. 2) Queda nos salários: A inflação se acentua e culmina com uma não valorização do salário mínimo, que deixa de ser reajustado acima da inflação. O salário mínimo serve de farol para o setor informal. Pesquisa do Dieese mostrou que, no último ano, praticamente todas as categorias não conseguiram repor nem mesmo as perdas inflacionárias nas negociações salariais. 3) Corte nas políticas sociais e de segurança alimentar: Houve um desmantelamento de políticas sociais e de segurança alimentar criadas no início dos anos 2000; 4) Descontrole inflacionário, particularmente nos últimos dois anos da pandemia: A inflação dos alimentos afeta mais a população mais pobre. 5) As políticas de transferência de renda do governo aplicadas durante a pandemia, via auxílio emergencial, foram insuficientes para evitar que mais gente fosse para baixo da linha da miséria. Com exceção do primeiro auxílio emergencial, que pagou R$ 600 para mais de 65 milhões de pessoas, todos os outros programas de transferência de renda não foram suficientes para evitar o agravamento da fome.

DW Brasil: A pandemia agravou as vulnerabilidades e desigualdades sociais. Mas o quadro de fome no Brasil seria contínuo inevitavelmente, diante das políticas públicas (ou da ausência delas) adotadas pelo Executivo nos últimos anos?

Graziano: A pandemia veio agravar o problema, mas não é sua causa original. Com mais concentração da renda, mais desemprego, menor crescimento, a situação só piorou e mais pessoas foram jogadas na miséria. Dizer o que teria sido sem a pandemia é difícil, mas pelo mapa da pesquisa Vigisan [projeto de monitoramento da condição alimentar e nutricional do Brasil, feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar Nutricional – Penssan], a trajetória do rápido crescimento da insegurança alimentar já era clara desde 2013 e se acentua muito em 2018. A falta de política de segurança alimentar e combate à fome do governo federal agravou muito essa situação, sem dúvida. 

Foto: Getty Images/AFP/S. Kambou

Graziano: Conselhos de Segurança Alimentar nos municípios 

podem fazer muito, como organizar mutirões e campanhas

DW Brasil: O Bolsa Família foi redesenhado na gestão Bolsonaro e há especialistas que apontam riscos para o êxito futuro da política de transferência de renda pelo desmonte nas áreas de educação e saúde. Como enxerga as mudanças no programa?

Graziano: A mudança que foi feita, de extinguir o Bolsa Família e criar o Auxílio Brasil, foi apenas uma jogada de marketing num ano eleitoral, para eliminar a associação do Bolsa Família com o Lula. Não vi vantagem nenhuma, e isso é unânime entre especialistas, no novo desenho do programa. Pelo contrário, parece até uma coisa provisória, que é para conseguir emprego formal. 

Sabemos que conseguir um emprego formal não é uma questão de tempo, para quem passa fome, seja pela falta de qualificação profissional, seja porque não há oferta suficiente de empregos gerados na economia pelo baixo crescimento econômico. O desenho do novo programa deixa muito a desejar. Mas o mais importante, na minha opinião, é ter claro que as políticas de transferência de renda são muito importantes para o contingente de população miserável, mas não resolvem o problema da fome. 

O mais importante é geração de emprego e renda dentro de um processo de desenvolvimento econômico inclusivo, que distribua melhor a renda. Isso que acaba com a fome. Políticas de transferência de renda são o que chamo de atores coadjuvantes das políticas macroeconômicas. A valorização do salário mínimo, na minha opinião, foi a grande política que tirou o país do Mapa da Fome nos governos Lula.

DW Brasil: A fome é um fenômeno multifacetado, sobretudo no Brasil, pelas camadas de desigualdade. Vê alguma possibilidade de o país dar respostas céleres ao problema no momento atual?

Graziano: A situação atual é dramática, em várias frentes. Mas o Brasil tem que enfrentar esse problema desde já. O problema da fome não pode ser deixado para um próximo governo, em 2023. Algo precisa ser feito em 2022. Senão, vamos chegar a uma situação explosiva no final do ano. A fome praticamente dobrou na pandemia, pelos dados de que dispomos. Hoje, em 2022, com eleição, só os municípios têm condições de tomar iniciativas, já que o governo federal e os governos estaduais estão totalmente absorvidos pelo processo eleitoral. Mas os municípios podem fazer muita coisa, restaurantes populares, feiras livres, apoio à agricultura familiar, hortas comunitárias... Os municípios têm os Conseas (Conselhos de Segurança Alimentar). Eles não foram extintos, como foi o Consea Federal. E os conselhos podem fazer muito nos municípios, organizar mutirões contra a fome, campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos, implantar bancos de alimentos, melhoria de acesso da população mais pobre a alimentos. Algo tem que ser feito, um verdadeiro mutirão contra a fome, em 2022, para que o problema não saia do controle.

DW Brasil: Existe uma espécie de negligência ou normalização do problema por parte das autoridades governamentais e da sociedade brasileira? Os movimentos da sociedade civil que tentam aplacar a fome podem ser comparados à mobilização nacional à qual assistimos na década de 90, com Betinho?

Graziano: Sem dúvida há uma negligência por parte do governo federal, e muitos Estados e municípios também têm feito corpo mole. A pandemia virou a desculpa perfeita para essa inação de grande parte do setor público que lava as mãos frente à questão da fome. A fome tem crescido assustadoramente na pandemia. O último dado que temos é uma pesquisa Datafolha, de dezembro de 2021, que mostrou que 15% da população adulta, cerca de 32 milhões de pessoas, tinham deixado de comer porque não tinham dinheiro para comprar comida. E 26%, ou seja, 55 milhões de pessoas, haviam comido menos do que necessitavam porque não tinham dinheiro para comprar mais alimentos no segundo ano da pandemia. Isso é aproximadamente o dobro do que tinha sido registrado um ano antes pela Unicef. Ou seja, a fome dobrou no segundo ano da pandemia. 

As organizações da sociedade civil estão fazendo o possível, muitas vezes o impossível. Nota-se claramente uma canseira, fadiga dos doadores. É muito difícil manter esse ritmo acelerado de arrecadação e distribuição de alimentos. Mas uma série de outras iniciativas novas estão surgindo. A Ação da Cidadania está liderando, atualmente, um conjunto de entidades, entre as quais o Instituto Fome Zero, que eu dirijo, para realizar um encontro contra a fome ainda no primeiro semestre de 2022. O objetivo é procurar organizar melhor essas inúmeras iniciativas voluntárias que surgiram no país.

Mas não há dúvidas de que a situação hoje é muito mais difícil do que era antes, no tempo do Betinho. Além de atingir um número muito maior de famílias, como nunca se tinha visto antes no Brasil, nós não contamos com a ajuda do governo federal. São poucos os municípios e Estados que têm no combate à fome a sua prioridade. Eu, particularmente, que estive por 15 anos na FAO, parece que estou vendo um país em guerra. Essa é a imagem que me vem à mente quando vejo o que está se passando no Brasil, com muita tristeza.

DW Brasil: Além do custo social e político, a fome tem um custo financeiro. Poderia falar sobre alguns dados e estudos sobre os impactos econômicos que a fome gera às nações?

Graziano: Na América Latina temos estudos da Cepal, junto com o Programa Mundial de Alimentos, a partir de 2005. Infelizmente não tem um estudo específico para o Brasil. Mas os resultados para a América Central e República Dominicana mostram perdas de 2% a mais de 11% do PIB, em decorrência da fome, dependendo do país. A média é de 6,4% de perda do PIB. A fome afeta a produtividade das pessoas, com maior ocorrência de enfermidades, mortes, menor nível educacional decorrente de repetência ou ausência das crianças. Na América do Sul, há estudos para a Bolívia, Equador, Paraguai e Peru por parte da Cepal e PMA, que mostram uma perda, em média de 3,5% do PIB, tendo como referência o ano de 2005. Costumo dizer que a relação custo-benefício para erradicar a fome é de aproximadamente 1 para 10 na América Latina. Quer dizer que a cada R$ 1 investido na erradicação da fome, teríamos o retorno de R$ 10. Portanto, não fossem por razões morais e humanitárias, também do ponto de vista econômico é um grande negócio erradicar a fome até 2030.


O que mudou no Brasil em dois anos de pandemia

 Edison Veiga

Deutsche Welle

A pandemia ainda não acabou, e seu saldo negativo é imenso, com quase 650 mil mortes. Mas alguns avanços e lições poderão deixar o país mais preparado para futuras crises sanitárias. 

Em 26 de fevereiro de 2020, quando o primeiro caso de covid-19 foi registrado no país, poucos apostavam que o problema seria tão longo e tão grave. Dois anos depois, oficialmente a doença já tirou a vida de quase 650 mil brasileiros, trouxe impactos econômicos e transtornos que jamais poderão ser esquecidos.

Por outro lado, embora a pandemia ainda não tenha terminado, já é possível analisar os acertos e erros durante a crise sanitária e, principalmente, estimar qual é o legado positivo herdado da covid-19 – ou seja: o que fica e ajudará o Brasil a lidar com futuras pandemias. Que, alertam os cientistas, virão. E cada vez com mais frequência.

Em termos práticos, o país está mais preparado do ponto de vista institucional. A pandemia de covid-19 exigiu melhorias nas duas principais instituições produtoras de vacinas do Brasil, o paulista Instituto Butantan e a federal Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). E esses avanços, claro, seguirão à disposição da saúde pública.

Vitória de vacina nacional

O primeiro aspecto destacado por Tiago Rocca, gerente de Projetos Estratégicos e Novos Negócios do Butantan, é a rapidez na produção dos imunizantes. Segundo ele, o desenvolvimento tecnológico foi absorvido internamente e deve "servir para combater futuras doenças".

Estruturalmente também houve um ganho de escala. "Aumentamos muito a nossa capacidade produtiva e de fornecimento de vacinas. Isso vai deixar um legado para a instituição em termos de resposta, esse padrão de trabalhar com um volume maior do que a gente vinha trabalhando", comenta. "Acho que, para o futuro, essas plataformas podem ser utilizadas para outras respostas e agregar em algo mais eficiente para o país nessas crises de saúde pública."

De acordo com Raphael Guimarães, pesquisador do Observatório Covid-19 da Fiocruz, a experiência adquirida com a atual pandemia é fundamental para as estratégias futuras da fundação. "A Fiocruz é pioneira no Brasil no enfrentamento de crises sanitárias, em diversas dimensões, desde o monitoramento e a avaliação dos cenários epidemiológicos até o uso da tecnologia mais dura para disponibilidade de insumos, como as vacinas. Isso sempre fez de nós uma referência internacional."

"Desta vez, o trabalho incansável de diferentes unidades da Fundação, trabalhando com um propósito comum de oferecer a melhor saúde pública possível, nos fez ganhar mais credibilidade na população em geral. E este talvez seja um dos principais legados: poder oferecer à população uma saúde pública de qualidade, mesmo quando há forças poderosas agindo contra isso", elogia o pesquisador.

"Além disso, comemoramos o fato de termos conseguido produzir uma vacina 100% nacional, com a incorporação tecnológica completa da vacina AstraZeneca/Oxford", diz Guimarães. "Com essa tecnologia, poderemos avançar no futuro com o desenvolvimento de outras vacinas e utilizar a mesma plataforma tecnológica para o enfrentamento de novos desafios e agravos."

 Foto: Armando Franca/AP Photo/picture alliance

Parte das conquistas para o sistema médico brasileiro 

permanecerá pós-pandemia, apostam especialistas

"Viva o SUS"

Especialistas ouvidos pela DW Brasil também destacaram algumas mudanças sociais impulsionadas pela pandemia que devem ser irreversíveis. A principal: a imagem do Sistema Único de Saúde (SUS). Antes visto como precário e combalido por boa parte da população, o modelo público de atendimento de saúde acabou enaltecido durante a crise sanitária: de hashtags #VivaoSUS em posts de mostrando cidadãos sendo vacinados, a formadores de opinião defendendo a importância de uma saúde pública gratuita e universal.

De certa forma, a covid-19 espantou um fantasma que por vezes aparecia em discursos neoliberais: o ideia da privatização completa da saúde. "É um grande aprendizado: devemos manter e cuidar do SUS. Ele não pode ser eliminado de jeito nenhum. Precisa ser ampliado e melhorado", aponta o médico Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina. "Quem não entendeu isso, provavelmente hibernou durante a pandemia."

No aspecto da vacinação, isso ficou claro. Se houve atraso e bateção de cabeças no processo de negociação e aquisição dos imunizantes por parte do governo federal, tão logo eles estiveram disponíveis a aplicação foi eficiente. Com um sistema nacional capilarizado e estruturado há cinco décadas, nem mesmo discursos antivacina conseguiram manter baixas as taxas de adesão.

"O governo federal apoiou políticas negacionistas. Mas as vacinas foram um acerto", reforça a imunologista Ester Sabino, pesquisadora da Universidade de São Paulo. "Houve um atraso na compra pelo governo federal. Mas uma vez as vacinas chegando, a proporção de pessoas vacinadas foi muito boa."

Na mesma toada, o discurso de valorização da ciência foi a tônica. "De repente, a ciência saiu do puxadinho do quintal e foi posta na sala de estar das famílias brasileiras. E os cientistas passaram a ser reconhecidos como quem pode ajudar o país", comenta o neurocientista Miguel Nicolelis, pesquisador da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

"Para combater uma doença infecciosa pandêmica, um problema sanitário, a gente precisa ouvir especialistas e cientistas. Não podemos tirar conclusões do chapéu, como o governo federal fez e continua fazendo", ressalta a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência. "Esse aprendizado, eu espero que fique."

Pesquisas em rede

Outra lição aprendida de forma emergencial que agora fica como legado é a capacidade que cientistas de diversas instituições tiveram de estabelecer redes de trabalho, seja para pesquisa, seja para o desenvolvimento de projetos visando à produção de insumos. Inúmeros grupos multidisciplinares foram criados, geralmente de forma orgânica, para tratar de questões inerentes ao enfrentamento da covid-19.

"A comunidade científica se organizou para analisar a pandemia e mesmo combater os apagões de dados, que foram vários [por parte do governo federal]. Essas redes científicas demonstraram que temos um potencial pouco explorado e, ao mesmo tempo, comprovaram a relevância do sistema público universitário brasileiro, que é um dos maiores do mundo", avalia Nicolelis.

Ele coordenou um comitê científico organizado para dar apoio ao Consórcio Nordeste, criado durante a pandemia. "Foi explosivo. Reunimos mais de 2 mil voluntários entre pesquisadores de todo o Brasil, trabalhando em tempo integral. Isso mostrou um potencial reprimido na criação científica brasileira." O pesquisador acredita que tais redes de pesquisa serão mantidas, mesmo num cenário pós-pandêmico.

Professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), o médico Paulo Saldiva ressalta que essa união acadêmica proporcionou a produção "em curto espaço de tempo" de alguns insumos importantes, de ventiladores a máscaras. Contudo, recorda que também houve união de outros setores, como o empresariado, instituições filantrópicas e diversas outras entidades civis: "Formou-se uma rede de solidariedade, e isso veio preencher o vazio entre a demanda e a falta de insumos." 

Foto: Eraldo Peres/AP Photo/picture alliance

Gestão deplorável da crise sanitária colocou

 grande parte da população contra o governo Bolsonaro

Vida mais digitalizada

Outro ponto elencado por Saldiva são os protocolos que foram aprimorados. E um exemplo que também "veio para ficar" está na telemedicina, com os atendimentos remotos que podem ser uma maneira de garantir mais acesso da população ao atendimento médico, mesmo que sirva apenas para uma triagem inicial.

Pesquisador da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Jones Albuquerque também tem o olhar atento para as transformações do dia a dia que, ao ficarem como legados positivos da pandemia, além de facilitar a vida também nos deixam mais preparados para outras crises sanitárias.

"Aprendemos a digitalizar e desburocratizar vários processos, de contas de energia a carteiras de habilitação, passando por compras online, evitando que tenhamos de nos expor desnecessária e insalubremente a filas e ambientes aglomerados", enumera, ressaltando mudanças como o home-schooling e o home-office, que demonstraram que os ambientes físicos podem "não ser mais tão necessários para o trabalho, o aprendizado e o convívio social".

Por fim, Albuquerque ainda lembra que "muitos estão optando por viver onde antes 'passavam férias', melhorando a qualidade de vida como um todo", e isso "reduz os riscos de prováveis surtos novos de doenças", à medida que pode vir a diminuir o adensamento das grandes cidades e a criação de aglomerações desnecessárias.

Dados abertos

Em tempos de informação digitalizada, o programador e analista de dados Álvaro Justen ressalta uma lição desta pandemia: a necessidade de o Brasil ter sistemas mais integrados e processos mais automatizados de coleta e armazenamento de dados.

A plataforma Brasil.IO, criada por ele, acabou sendo uma tábua de salvação nos momentos de apagão de dados oficiais. Mas a tabulação dessas informações, diante de uma falta de padronização de formatos por parte dos órgãos municipais e estaduais de saúde, dependia de horas e horas de voluntariado.

"A pandemia pegou todo mundo de surpresa, mas o treinamento de alguns servidores, principalmente quem lida com dados, poderia ser mais técnico. Isso precisa ser melhor trabalhado para que, no futuro, todos tenham acesso a mais dados e consigamos fazer algo melhor com os dados disponíveis", propõe Justen.