sexta-feira, março 04, 2022

Agressor é Putin, não o povo russo

 Guga Chacra

O Globo

  Pau BARRENA / AFP

O foco do planeta tem de ser em Vladimir Putin, não em punir 

os esportes e a cultura de uma gigantesca nação como a Rússia | 

O agressor é o regime de Vladimir Putin, não o povo russo. Há centenas ou mesmo milhares de cidadãos sendo presos em São Petersburgo e Moscou por protestarem contra a invasão da Ucrânia. Tenha certeza de que milhões devem ser contra, mas temem a repressão. Atletas, como o tenista número 1 do mundo, Daniil Medvedev, e outras celebridades como o ex-enxadrista Gary Kasparov defendem a Paz. Nos atos contra a guerra em Nova York e outras cidades dos EUA e da Europa, há muitos russos carregando cartazes com frases pacifistas e críticas ao Kremlin.

Embora as sanções econômicas sejam necessárias para punir Putin, o boicote ao esporte e à cultura da Rússia é controverso. Tanto por ser hipócrita como também por castigar pessoas que podem ser vozes fundamentais contra as agressões de Moscou a Kiev.

Comecemos pela hipocrisia. Afinal, a Fifa suspendeu a seleção russa da Copa do Mundo. Até concordo. Mas a Copa será realizada no Qatar, uma ditadura. Ironicamente, a anterior ocorreu justamente na própria Rússia, em 2018, quatro anos depois de Putin violar a integridade territorial da Ucrânia ao anexar a Crimeia. Já o Comitê Olímpico Internacional acabou de realizar a Olimpíada de Inverno na China, acusada de limpeza étnica da minoria uigur. O Mundial de Clubes foi realizado semanas atrás na ditadura dos Emirados Árabes, que leva adiante uma campanha de bombardeios ao Iêmen há anos.

A outra questão se dá no erro de associar um atleta ou um cineasta a um regime, defendendo a punição deles. As patinadoras russas, que são as melhores do planeta, não poderão disputar o Mundial de patinação. São adolescentes que jamais se envolveram em questões geopolíticas. A Federação de Tênis da Ucrânia defende que Medvedev, apesar de ser um crítico da guerra, não possa disputar torneios internacionais. O Festival de Cannes não permitirá a presença de delegações russas, embora tenha salientado a importância de atores e diretores russos. A Royal Opera House cancelou apresentações do Balé Bolshoi, fundado no ano da declaração de independência dos EUA, em 1776. Até mesmo restaurantes russos, como O Russian Tea Room, em Nova York, estariam sendo boicotados. Em algumas cidades americanas, há iniciativas para não beber vodka.

Atletas, músicos, artistas e escritores russos podem ser as vozes mais importantes contra a agressão de Putin à Ucrânia, como já vem ocorrendo. Vejam o cinema iraniano, celebrado no mundo todo e sem ligação com os aiatolás. Dentro do possível e com enorme habilidade, diretores conseguem adotar um tom crítico em relação aos líderes em Teerã. Na música, na literatura e nas artes plásticas também ouvimos muitas vozes que condenam os governantes de seus países, como o artista plástico chinês Ai Weiwei. Mesmo no Brasil, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram fundamentais no combate ao regime militar.

É um erro, portanto, associar a cultura e o esporte russos a Putin e a suas atrocidades. Há os livros de Dostoievsky e Tolstoi, as composições de Igor Stravinsky, os bailarinos como Baryshnikov e Nureyev, e atletas como a Yelena Isinbayeva e Alexander Popov. O foco do planeta tem de ser em Putin, não em punir os esportes e a cultura de uma gigantesca nação como a Rússia. Afinal, somente um levante do povo russo pode pôr fim ao regime de Putin, ainda que seja extremamente difícil diante da repressão.