domingo, fevereiro 02, 2020

Habilidades do futuro: você possui inteligência cultural?

Sofia Esteves, presidente do conselho do grupo Cia. de Talentos 
Exame.com

Entenda a importância dessa habilidade e como você pode desenvolvê-la no artigo de Sofia Esteves, presidente do conselho da Cia. de Talentos 

 (d3sign/Getty Images)
Antigamente, o envio de uma correspondência para a alguém na China
 demorava de dois a seis meses para chegar ao remetente. Imagine 
como era desafiador fazer negócios com outros países!

Hoje, a tecnologia e a globalização, conectam rapidamente diferentes partes do mundo permitindo que, no mesmo momento, milhares de profissionais de diferentes partes do planeta estejam trabalhando em conjunto com equipes brasileiras, formando times cada vez mais diversos.

O cenário atual traz à tona a necessidade de aprendermos a lidar com a diversidade cultural. Na verdade, não precisamos ir muito longe para entender a importância desse tema.

O Brasil é um país enorme, influenciado por diferentes povos e composto por uma pluralidade cultural extremamente rica, além do enorme número de imigrantes atuando no mercado de trabalho nacional. A globalização só faz com que, finalmente, olhemos para o desafio que sempre esteve por aqui: nossa própria diversidade.

Os profissionais do sul do país têm hábitos culturais muito diferentes dos habitantes do nordeste e isso não afeta a capacidade de cada povo,mas a forma como eles interagem e respeitam as diferenças entre si muda completamente os resultados das entregas.

Estudos da Harvard Business School revelam que empresas com times diversos tiveram aumento de 77% no engajamento dos colaboradores e que onde a diversidade é reconhecida e aplicada, há uma diminuição de 50% nos conflitos dentro das organizações.

Além de aprender novos idiomas, saber lidar com a diversidade cultural é uma das habilidades do futuro e será um diferencial para quem deseja se manter atualizado. Além dos aspectos sociais, morais e econômicos, outro importante motivo para se desenvolver nesse tema é a possibilidade de se tornar mais criativo.

A interação com diferentes visões amplia o conhecimento e desenvolve um profissional cada vez mais ágil na busca por soluções e na tomada de decisões.


Como desenvolver a inteligência cultural?

A Inteligência Cultural nada mais é do que a capacidade de respeitar e se adaptar às interações com pessoas de culturas diferentes e usar essas distinções a favor da construção de uma relação produtiva. Essa habilidade é composta por quatro componentes: um fator motivacional, um fator cognitivo, outro metacognitivo e, por fim, um fator comportamental.

O fator motivacional está ligado a sua vontade de conhecer e interagir com as diferenças. Como anda a sua curiosidade? Você deseja aprender coisas novas ou tem como hábito chegar em uma conclusão sobre algo e não se permitir mais mudar de ideia? Aceitar a diversidade não é apenas “tolerar” lidar com gêneros, cores, culturas ou orientações sexuais distintas, mas principalmente ter interesse e se abrir genuinamente para ideias, culturas e histórias de vida diferentes da sua.

O fator cognitivo diz respeito às normas de outra cultura. Você sabe como se comportar com pessoas de outras culturas segundo suas normas sociais? Pesquise quais são os países e regiões que mais compõem a diversidade da sua empresa e estude seus costumes, principalmente sobre como se relacionam e atuam no mercado de trabalho.

Por exemplo, os americanos tendem a ser mais objetivos nos e-mails e isso não significa que não querem se conectar a você, é apenas um costume comportamental.

O componente metacognitivo é a habilidade de consciência transcultural, que é a capacidade de “interpretação de texto”, a compreensão das ideias dos outros a partir da sua própria cultura.

Esse fator requer apenas que você pare e escute, ou leia, algo com atenção plena e saiba absorver corretamente a mensagem passada, independente se é trazida em outro idioma, formato ou com expressões populares regionais.

Para uma comunicação assertiva, também é importante que você sempre pergunte, caso não tenha entendido algo e mesmo que acredite ter compreendido, valide as informações para não haver falhas de execução no trabalho que estão fazendo juntos.

O fator comportamental fala sobre nossa capacidade de adaptação e respeito aos costumes de outra cultura, como por exemplo, não cumprimentar com um beijo no rosto os profissionais de países que não têm o contato físico como costume comportamental.

Mais uma vez é de extrema importância estudar as culturas com que você se relaciona durante a sua jornada profissional. Dessa forma, além de evitar gafes desconfortáveis, a outra ponta se sente valorizada, respeitada e há mais chances de naturalmente gerar conexão profissional entre vocês.

Bons estudos!

Contra o império da lei

José Roberto Guzzo, 
O Estado de S.Paulo

O que houve à vista de todos foi o choque entre lei, ou que nos dizem que é a lei, e a moral
  
Foto: Dida Sampaio / Estadão
Fachada do Supremo Tribunal Federal, em Brasília 

Este é o novembro do nosso descontentamento diante de um Brasil que está em guerra aberta contra os brasileiros. Agora, depois de meses a fio de uma tragédia única no mundo, vemos a maioria dos magistrados do tribunal supremo do País fazerem o oposto do que é a sua obrigação. Em vez de buscarem mais justiça numa sociedade que já é perigosamente injusta, chamaram para si a tarefa de dar aos criminosos ricos, aqueles que têm dinheiro para pagar escritórios milionários de advocacia penal, o direito de passarem o resto da vida sem receber nenhuma punição real pelos crimes que praticaram.

Não fazem isso porque acreditam, como dizem, que o direito de defesa deve estar acima de todos os outros - a começar pelo direito de suas vítimas. Fazem porque estão metidos numa luta desesperada pela sobrevivência do Brasil velho. Você sabe que Brasil é este - corrupto, subdesenvolvido e desigual, paraíso dos parasitas da máquina pública, da venda de favores e dos privilégios para quem tem força, inimigo do trabalho, do talento e do mérito individual. É o País que você tem certeza que não quer.

Nada destrói tanto o respeito pelos governos, dizia Einstein, do que a sua incapacidade de fazer com que as leis sejam cumpridas. É o risco que foi construído no Brasil. De fato, como seria possível respeitar o poder público neste País se o Código Penal brasileiro diz que é proibido praticar crimes, mas o STF decide impedir a punição dos crimes praticados? Na verdade, o que realmente aconteceu em toda essa infame discussão sobre a “prisão em segunda instância” não foi, em momento algum, uma divergência sobre questões jurídicas. Esqueça as questões jurídicas.

O que houve à vista de todos, isso sim, foi um choque entre lei, ou o que nos dizem que é a lei, e moral. Quando a lei se opõe à moral, como nesse caso, ou se perde o senso moral ou se perde o respeito pela lei. Não há outra possibilidade. É o momento em que a lei se torna injusta, por não estar mais em harmonia com as noções elementares do certo e do errado. O resto é mentira. 

O que o cidadão viu, neste golpe legal para proibir a prisão de condenados em segunda instância, foi uma tentativa aberta de impedir que vigore no Brasil o império da lei - algo que só pode existir se a Justiça for imparcial. Mas quem defende essa aberração, inexistente em qualquer país sério do mundo, propõe, na verdade, que o sistema judicial brasileiro tome um partido - o dos réus, por considerar que as provas colhidas contra eles jamais estarão corretas, ou serão suficientes, e que os juízes errarão todas as vezes em que condenarem alguém.

Trata-se, simplesmente, de usar o que está escrito na lei para desrespeitar a lei. Sempre ouvimos que democracia e civilização só podem vigorar se a Justiça tiver coragem de enfrentar o grito irracional da multidão, que exige culpados, não se interessa por provas e não entende de hermenêutica. Mas não há nada de irracional na voz da multidão que se está ouvindo agora - muito pelo contrário. O brasileiro sabe perfeitamente que um réu, para acabar na cadeia, tem de ser condenado por um juiz, a “primeira instância”.

Em seguida precisa ser condenado outra vez - agora não mais por um, mas por um conjunto de magistrados, a “segunda instância”. Nos dois casos, ele tem todas as chances de se defender e, se não consegue, não pode ficar apelando na Justiça até o Dia do Juízo Final. Irracional é querer o contrário. Não há nada de frouxo na moralidade, como alegam os campeões do “direito de defesa”. Na verdade, ela é muito mais dura que qualquer lei. Diz apenas que é preciso fazer a coisa certa.


E assim vai a economia

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Reformas virão mais por necessidade do que por virtude. Todo mundo já percebeu que o sistema tributário é ruim

Mostre os dados econômicos a um estrangeiro não versado em assuntos brasileiros, e ele dirá algo assim: o crescimento está abaixo do necessário, mas sem dúvida há boas chances de aceleração.

E estará mais certo do que errado.

Mas se o gringo perguntar — e a política? e a capacidade de gestão do governo? — ficará em dúvida.
E, de novo, estará mais certo que errado.

E o que podemos dizer, nós, brasileiros, para nós mesmos? Que, de fato, há um risco político.

O cenário econômico melhorou muito com a aprovação da reforma da Previdência. Não apenas porque a reforma afastou o risco de colapso das contas públicas, mas porque mostrou a capacidade do sistema político de aprovar medidas complexas em tempo relativamente curto.

Podem questionar: curto? São 30 anos de debate dessa reforma.

Verdade, mas a coisa andou em poucos meses com este novo governo e novo Congresso. Aqui a mudança crucial.

Reparem: o presidente Bolsonaro anda às turras com seu próprio partido e com lideranças da base que se elegeu com ele. A reforma da Previdência e todas as que são necessárias na sequencia dependem de votos qualificados na Câmara e no Senado. Ou seja, as coisas só andaram e só vão andar se lideranças do Congresso assumirem as reformas.

A nova agenda pré-anunciada pelo ministro Guedes é extremamente ambiciosa. Propõe uma reforma radical no sistema público brasileiro, em todos os níveis. Exige a aprovação de emendas constitucionais, além de ampla legislação ordinária.

Tudo isso com o presidente Bolsonaro querendo ou mudar de partido ou formar um novo. E sem ter organizado uma base parlamentar.

Certo, mas não foi em circunstâncias assim que passou a reforma da Previdência? Por que o processo não pode se repetir?

A resposta nos meios econômicos, nacionais e internacionais, é que pode, sim, se repetir.

O risco Brasil (medido pelo Credit Default Swap, seguro contra calotes) estava no início da semana em 117 pontos. Isso significa que os compradores que adquirem títulos do governo brasileiro acham que a chance de um calote é inferior a 2%.

De onde tiram isso? Da firmeza da equipe econômica em implementar o ajuste das contas públicas. E mais: inflação muito baixa, e com jeito de persistentemente baixa. O que permite esperar taxas de juros cada vez mais baixas, por um longo período.

A notar: com juros baixos, cai a despesa financeira do governo. E se estimula a expansão do crédito para pessoas e empresas.

Por isso, também, a Bolsa está em alta. Empresas têm colocado cada vez mais ações no mercado, obtendo assim financiamento saudável para novos investimentos.

E aqui aparece uma dúvida. Por que ainda não decolaram os investimentos na economia real? Em novas fábricas, infraestrutura, construção civil?

Eis a diferença: no mercado financeiro, posições podem ser formadas e desmanchadas muito rapidamente. Na economia real, iniciar um novo negócio, ampliar o atual, depende de confiança em futuro razoavelmente longo. É isso que ainda não tomou embalo.

Há, porém, um poderoso instrumento: as privatizações e concessões, a começar pelo megaleilão do pré-sal. Sabem como é, negócio puxa negócio, um poço de petróleo demanda um monte de equipamentos e gente.

Tudo considerado, está aí a variável-chave, se admitido que a reforma do setor público tomará seu curso, ainda que não tão ambiciosa como pretende o ministro Guedes.

Investimentos de peso, necessariamente privados, já que o governo está cortando gastos, dependem de um maior grau de confiança.

Aqui entra a política.

Essas crises e confusões criadas e/ou estimuladas pelo presidente Bolsonaro têm sido relativamente ignoradas. O pessoal acha que até aqui não tem nada que ameace o mandato. E acredita que reformas virão mais por necessidade do que por virtude. Por exemplo: todo mundo já percebeu que o sistema tributário é ruim para todo mundo. Logo, algo deve sair e, como é impossível piorar, deve ajudar as empresas.

É mais ou menos assim o espírito geral. Serve para acelerar a recuperação. Mas não aceita muitos desaforos seguidos.

A ver.

A Amazônia devastada não começou agora, tem 500 anos e chamava-se Mata Atlântica

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Primeiro bem explorado na colônia foi o pau brasil

O Brasil começou 8 anos antes de Cabral em 1500, com Cristóvão Colombo e Américo Vespúcio. Cristóforo, italiano de Genova, era marinheiro. O barco naufragou, foi esbarrar em Portugal, onde casou com a rica Felipa, estudou os mares, mas ninguém acreditava nele. Foi para a Espanha, conquistou os reis Fernando e Isabel, de Castela, e em 1492 chegou à América, virou “o almirante de todos os mares”, e está lá, de pé, todo majestoso, no alto da torre, diante do porto de Barcelona.

Logo, a América devia chamar-se Colômbia e não América. Colombo foi literalmente roubado pelo bancário depois banqueiro italiano Américo Vespúcio. Esses banqueiros!

SUBGERENTE –

 Américo Vespúcio, de Florença, trabalhava no banco dos Médicis e foi transferido para Sevilha, na Espanha. Era o subgerente. O gerente ajudou a financiar a primeira viagem de Colombo, em 1492. Morreu o gerente, Américo assumiu e continuou financiando Colombo na segunda viagem de 1493 a 96, na terceira de 98 a 1500; e na quarta de 1502 a 1506.

Mas Américo Vespúcio já tinha percebido que a América existia mesmo e dava dinheiro. Virou também navegador. Em 1501, já o Brasil descoberto, saiu de Lisboa, passou pelo cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, e foi até o Rio de Janeiro, aonde chegou em 1502.

Em 1503, passou por Fernando de Noronha e pela Bahia e foi até Cabo Frio. Voltou à Europa, foi à Alemanha, pagou e pôs o continente em seu nome, América e não Colômbia, no mapa de Strasburgo em 1506. Passado para trás, Colombo morreu de desgosto em 1506.

VEIO O PEREIRA – 

Depois do Vespúcio, em 1503 e de Caramuru em 1510, foi o Pereira, 25 anos depois. Em 1534, Portugal dividiu a costa do pais em capitanias hereditárias, em 15 lotes, cada um medindo 50 léguas, cerca de 300 quilômetros. O rei doou a da Bahia a um fidalgo português, Francisco Pereira Coutinho, vindo das Índias, velho e doente, rico e durão,o Rusticão.

Ele reuniu 120 pessoas e veio assumir suas terras, em 1536. Ficou encantado e gabou muito. Mandou dizer ao rei que havia “bons ares”, “boas águas”, “os algodões são os mais excelentes do mundo” e “o açúcar se dará quanto quiserem e a terra dará tudo que lhe deitarem”.

Instalou-se na Barra, onde hoje está o farol da Barra. Subindo para a Vitoria, fez um povoado com umas 30 casas, cercou de pau a pique e levantou uma torre de dois andares, garantida por quatro canhões. Era a Vila do Pereira. Caramuru estava ali perto há 30 anos, com a Paraguaçu

OS TUPINAMBÁS – 

O Pereira não se meteu com Caramuru, mas começou a distribuir terras em volta para sua gente, que veio com ele. Mas aquelas terras tinham donos : 5 ou 6 mil Tupinambás, “homens de peleja”, que começaram a ser escravizados, para trabalharem nas plantações de cana.

Em 1540, a guerra estourou. Pereira perdeu o apoio de Caramuru. Duarte Coelho, donatário de Pernambuco (até hoje) queixou-se ao rei : – “Ele é mole para resistir às doidices e desmandos dos doidos e mal ensinados”. Durante cinco anos a briga com os Tupinambás levou fome, sede e morte para a Vila do Pereira. Acabaram “encurralados entre o mar e a muralha que protegia a vila”, como brilhantemente conta o historiador Eduardo Bueno:

– “Eram uns 100 colonos cercados por mais de mil Tupinambás brandindo tacapes, lançando flechas incendiarias, produzindo nuvens tóxicas com a combustão de pimenta e ervas venenosas”. (Bush teria logo mandado bombardear pelo uso de armas químicas).

PORTO SEGURO – 

Pereira fugiu para Porto Seguro e os índios tomaram conta da Vila do Pereira, destruíram a torre e as casas, saquearam os armazéns. Caramuru, solidário, foi a Porto Seguro e trouxe o Pereira em seu barco, que naufragou na ponta de Itaparica. Deve ter sido coisa do cacique João Ubaldo. Quem não morreu foi preso pelos índios, inclusive o Pereira, “morto ritualmente” por um garoto de 5 anos, cujo irmão tinha matado.

Caramuru evidentemente foi poupado. Era o sinal, para Portugal, de que as capitanias não resolviam o problema. E o Pereira mudava a historia.

Ou Portugal agia rápido ou perdia o Brasil para os franceses. Esses foram os primeiros grandes inimigos, durante mais de meio século, de 1500, no Descobrimento, a 1567, quando foram expulsos do Rio.

SAQUEANDO – 

Seus navios piratas cortavam a costa de norte a sul, do Maranhão a São Vicente, trocando, comprando, roubando, levando sobretudo pau-Brasil. Também já havia o comercio de escravos e cana de açúcar, mas começando. O grande negocio da época era o pau-Brasil.

Se você quer conhecer uma das mais belas cidadezinhas do mundo, vá a Honfleur, de apenas 8 mil habitantes, a 200 quilômetros de Paris, na foz do Senna, norte da França, entre Trouville e Havre.

Aquela jóia universal é tão francesa quanto brasileira. Com seu porto profundo, diante do grande porto do Havre, durante dezenas de anos os navios franceses despejaram o pau-Brasil negociado, tomado, roubado dos índios e de traficantes portugueses. A entrada da bela baia de Todos os Santos, hoje Farol da Barra,para os franceses era o “Point de Carammorou”. A Amazônia devastada, saqueada, não começou agora. Tem 500 anos. Chamava-se Mata Atlântica, com seu pau-brasil.



Canalhocrata completo (e Dona Fernanda)

Ipojuca Pontes
 Diário do Poder

 O douto “Aurélio” define a figura do canalha, entre outras designações, como gente vil, infame, velhaca e reles. Muito bem. E o canalhocrata? O canalhocrata, claro, é o adepto da canalhocracia que, por sua vez, significa o sistema em que prepondera o canalha.

Vamos aos fatos. Recentemente, tivemos a pomposa declaração do presidiário Lula da Selva em que ele disse rejeitar a progressão da sua pena para o regime semiaberto concedida pelo Ministério Público. Diante de 15 asseclas na sala do SPA da Polícia Federal, em Curitiba, Lula blefou que não trocava  “liberdade pela sua dignidade”. Bonito!

Mas a dignidade invocada por Lula parece com a valentia do coronel Zeca Nitão do Ingá do Bacamarte, na Paraíba, coiteiro de Antonio Silvino, cangaceiro que morreu em odor de Santidade numa penitenciária de Pernambuco. O coronel Zeca, querendo se antepor à entrada da volante militar na sua fazenda, vociferou, determinado: “Alto lá, tenente Salgado! Aqui o sr. só passa dessa porteira por cima do meu cadáver!”

O tenente avaliou o falso obstáculo, deu-lhe um bom piparote e antes de se fazer porteira adentro, completou:

– “Conversa, coiteiro safado. Tu tem lá cadáver!”

Dignidade em qualquer indivíduo pressupõe decência, honestidade, honradez, virtude, integridade moral, ou seja, tudo aquilo que Lula não possui. De fato, o chefão do PT vive  encharcado num oceano de manobras

ilícitas, artimanhas, cambalachos,  mentiras e maracutaias sem fim. Já se disse que, uma vez aberto o Código Penal, o “honrado líder carismático” corre o risco de ser enquadrado na maior parte de seus artigos. Aliás, Lula está hoje por trás das grades justamente por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, sem falar nos oito processos em que se vê arrolado e que circunscrevem a autoria de expressivo número de delitos considerados graves, entre eles a compra fraudulenta do sítio de Atibaia pela qual foi condenado pela juíza Gabriela Hartd a cumprir a pena de 12 anos e 11 meses de prisão.

De fato, o velho Chacal tem um largo prontuário que registra vasta soma de erros, equívocos e delitos, dentro e fora do poder. Em 2006, escrevi um livro, já esgotado, sobre o assunto (“ A Era Lula – Crônica de um desastre anunciado”, Girafa Editora, São Paulo). Nele, fiz o levantamento diário do primeiro mandato do ex-sindicalista do ABC, motivado pela trágica imolação de José Antonio de Souza, o pedreiro que ateou fogo no próprio corpo depois de passar dez dias defronte ao Palácio do Planalto sob os olhares de Lula, a segurar um cartaz em que expunha  sua condição de desempregado a pedir apoio nunca efetivado pelo então presidente, que se dizia “pai dos pobres”.

À margem a “Era Lula”, em que analisei com detalhes aspectos políticos, econômicos, culturais e diplomáticos de gestão totalitária e corrupta, há também um livro a merecer registro, de autoria do esquerdista Mário Morel, “Lula, o Metalúrgico”, publicado em 1981 (Nova Fronteira – Rio de Janeiro). Ele tem o mérito de flagrar o ovo da serpente em plena gestação, delineando, por exemplo, as promíscuas relações negociais do líder sindical com o ministro do trabalho do governo Figueiredo, Murilo Macedo, num sítio em Atibaia; as sórdidas práticas de Lula para arrancar dinheiro dos patrões via horas extras que nunca foram trabalhadas; as sujas manobras do “operário relâmpago” para passar a perna em Paulo Vidal, o eficiente presidente que o acolheu no Sindicato do ABC, e, entre outras preciosidades, os arranjos dos intelectuais comunistas da USP e dos frades da Teologia da libertação para fazer de Lula um fantoche engajado (aqui, não esquecer breve “cursilho” frequentado por Luiz Inácio, segundo noticiário da época, na Alemanha Oriental).

Há quem diga, talvez por malícia, que o presidiário não aceita a pena em regime semiaberto porque, no frigir dos ovos, a prisão da PF em Curitiba é. na verdade, um autêntico SPA, em que Lula tem direito a pouso, roupa lavada, comida extra, frigobar, jornais, TV, esteira rolante, assistência médica, visitas a toda hora, mesa e cadeiras para reuniões com advogados, políticos e companheiros de partido etc. – tudo às custas da Viúva. Então, por que sair do pouso grátis e estratégico?

A hipótese levantada é viável, mas não acredito nela. Lula está mais interressado – sobretudo quando dispõe da fidelidade canina de bom número ministros que ele colocou dentro do STF – em jogar por terra a legitimidade da prisão em segunda instância e, com isso, soltar dezenas de bandidos contumazes que estão presos. Mais que isso: tentar desmoralizar o juiz Sérgio Moro e, em especial, criar um clima de instabilidade objetivando inviabilizar o governo de Jair Bolsonaro – a única força viva da nação capaz de se interpor ao pretendido retorno dos comunistas ávidos por meter a mão no dinheiro da população.

Ou seja, aposta na inimaginável volta da canalhocracia ao poder.

2 – A atitude do diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim, de classificar Fernanda Montenegro como uma pessoa “sórdida” (por, entre outras coisas,  posar como mártir de uma falsa inquisição cultural), além de corajosa, me parece bastante adequado.

Fernanda, conhecida intramuros como a “Chanceler da Mamata”, há muito deixou de ser uma unanimidade (“burra”, como toda unanimidade, segundo Nelson Rodrigues). Há pouco, por exemplo, um núcleo de internautas que foi atacado pela vestal no programa do boquirroto Faustão, da TV Globo, exigiu dela respeito e acusou-a de ser desonesta por usufruir de grossas verbas repassadas por governos esquerdistas reconhecidamente corruptos.

Outro dia, em solenidade artística transmitida pela TV, a Fernandona apareceu e narrou para a plateia que ouvira de um secretário de Cultura palavras de elogios, afirmando ele, em seguida, que afora a cultura oficial o governo tinha outras prioridades, tais como investir em saúde, educação e segurança. A “Chanceler da Mamata”, irônica, disse que respondeu à tola autoridade, mais ou menos, o seguinte: “Olha, quando chegar a nossa vez, nos chama. A gente aqui só está interessada em verba”.

Na mosca! Os governos, em qualquer escala, precisam saber que o “beautiful people” da corporação artística só está interessada em dinheiro fácil para consecução de projetos pessoais, a maioria deles comprometidos com a subversão ou a pornografia. (Sei do que estou falando, porque já estive pela frente e por trás do balcão, quando ajudei Collor de Melo fechar a Embrafilme, ninho de cobras falido pela corrupção comunista

Agora, o mais curioso: ao longo dos anos Fernanda Montenegro foi consolidando o mito de grande atriz sem nunca ter enfrentado o desafio de interpretar nos palcos teatrais, que eu saiba, os grandes dramaturgos, tais como Ésquilo, Sófocles, Eurípedes ou Aristófanes, criadores da tragédia grega, ou autores do teatro clássico espanhol do porte de Calderón de La Barca, Quevedo e Lope de Vega. Ou mesmo dramaturgos modernos complexos como Ibsen, além do maior de todos, William Shakespeare. Não é estranho?

Avaliada como atriz, ela perde no cantar para Bibi Ferreira, na dança para Marília Pêra, em vigor interpretativo para Cacilda Becker, em beleza física para Tonia Carrero, em elegância e leveza cênica para Maria Della Costa, em comicidade para Dercy Gonçalves, em energia e pioneirismo teatral para Dulcina de Moraes, em personalidade e substância artística para Madame Morineau, todas de sua geração, para não mencionar a excepcionalidade de voz e a força dramática de Tereza Rachel, segundo Paulo Autran a única atriz brasileira credenciada para representar as grandes personagens da tragédia grega.

E tem mais o seguinte: nos tempos da “ditadura” militar, enquanto atrizes como Odete Lara, Norma Benguel e Tonia Carrero saiam às ruas para protestar contra os arbítrios vigentes, e Tereza Rachel enfrentava no braço a polícia de Carlos Lacerda na noite de estreia da peça “Berço do Herói”, de Dias Gomes, Dona Fernanda posava ao lado do Marechal Castelo Branco, 1º ditador do “golpe” de 64.





E assim (não) vai a AL

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

O que FH disse uma vez a respeito do Brasil se aplica ao Chile de hoje: não é um país pobre, mas tem muitos pobres

Depois de anos na fila, a esquerda ganhou no México com Andrés Manuel López Obrador — Amlo, como se apresenta — e que prometeu crescimento anual de 4%, simplesmente o “dobro do período liberal”. Passado um ano de governo, o crescimento do PIB se arrasta perto de zero, com baixa perspectiva de aceleração.

Pode-se dizer que um ano é muito pouco e que o mundo todo está desacelerado. Verdades, mas ocorre que Amlo não apresentou nada de novo, nenhuma virada. Cortou mordomias e salários de funcionários, inclusive dele próprio, cancelou obras que achou muito caras, sem qualquer base em números, e tocou o barco. Cancelou leilões de petróleo, mas a melhor esperança de algum crescimento de base está justamente na maturação dos investimentos em campos leiloados no governo anterior.

Nada na corrupção, e especialmente nada no combate ao narcotráfico, que se tornou ainda maior e mais violento.

Já no Uruguai, pode acontecer o contrário. A Esquerdista Frente Ampla, no governo nos últimos 15 anos, está perto de perder as eleições de 24 próximo. O candidato de centro direita, Luis Lacalle Pou, lidera as pesquisas de segundo turno.

O problema da Frente é também o baixo crescimento. Como toda a América Latina, o Uruguai pegou o boom das commodities, chegou a ter uma expansão de 8% do PIB em 2010. Acabada a festa, desacelerou forte e neste ano está crescendo menos de 1%. Tem um baita déficit nas contas públicas.

Na Argentina, outra inversão. Depois de apenas quatro anos de centro direita liberal, volta o peronismo, protagonista de um dos maiores desastres econômicos de todos os tempos. Conseguiu empobrecer um país que estava entre os mais ricos do mundo no século passado.

Na Bolívia, também passado o boom das commodities, o país desacelerou, vai devagar, o que retirou a popularidade e a força política de Evo Morales.

No Chile, ao contrário, é um governo de centro direita que está em apuros. Mas é preciso notar que a população contesta uma política econômica que era quase uma unanimidade. Depois de Pinochet, direita e esquerda alternaram-se no poder e o país manteve o mesmo curso — por sinal bem-sucedido.

Números: iniciada a década de 90, a Venezuela tinha um PIB per capita, no método de Paridade de Poder de Compra, de US$ 8.500; Brasil, 7.500; e Chile, 7.000. Fechadas as contas de 2018, o Chile apresentava PIB per capita de quase rico, US$ 26 mil, expansão de quase quatro vezes; o Brasil tinha US$ 16,1 mil (dobrando em relação a 90) e a Venezuela mal alcançava os US$ 11 mil.

De certo modo, a bronca dos chilenos é de uma classe média que, passado o boom das commodities, sente os efeitos da desaceleração do crescimento e da renda. O país vai melhor que a média latino-americana — expansão anual em torno de 2% —mas não resolveu a questão clássica da região: desigualdade.

O que FH disse uma vez a respeito do Brasil se aplica ao Chile de hoje: não é um país pobre, mas tem muitos pobres. Quem visita a AL regularmente percebe que há muitas coisas melhores no Chile: economia mais eficiente, alguma inovação, organização, menos corrupção, democracia eleitoral mais consistente.

Mas, tudo considerado, falta o que falta a toda a América Latina: um capitalismo dinâmico, com um setor privado gerador de riqueza para a maioria da população, indústrias de ponta, inovadoras, máquinas exportadoras de bens de alto valor agregado, escolas de primeira. E um setor público muito ativo para remover as falhas de mercado e promover distribuição de renda via impostos, ricos pagando mais, todos recebendo mais serviços.

Falta o que um estudo do FMI chamou de Política de Tecnologia e Inovação, que arranca o país e o coloca no grupo de alta renda, de modo permanente. Exemplos ao longo dos séculos: Estados Unidos, Alemanha, Japão, Hong Kong, Cingapura e Coreia do Sul, o campeão mais recente.

A AL continua apresentando níveis de crescimento sempre inferiores ao dos asiáticos, não produziu nenhum verdadeiro milagre econômico. Nem conseguiu se livrar do capitalismo de amigos, aquele dos empresários amigos do governo. A Lava-Jato pegou esse pessoal em toda a AL, mas parece que está perdendo embalo até nisso.

Moody’s: Política impede reformas na América Latina, mas Brasil é exceção

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Mesmo com o ritmo menor de crescimento, os emergentes vão seguir com alta do PIB mais forte que países desenvolvidos

 (LorenzoT81/Getty Images)
América do Sul: para 2020, a visão dos analistas é de que o ambiente
 para a região e os emergentes como um todo é negativo

São Paulo — O cenário político tem impedido o avanço de reformas estruturais na América Latina, mas o Brasil é uma “notável exceção”, avalia a agência de classificação de risco Moody’s Investors Service em relatório, nesta quinta-feira, 21. Para 2020, a visão dos analistas é de que o ambiente para a região e os emergentes como um todo é negativo, por conta do aumento de riscos políticos e geopolíticos.

“Em muitos países da América Latina e ainda na África do Sul e Turquia, a política impede reformas estruturais. O Brasil é uma notável exceção”, destaca o relatório.

O crescimento da América Latina deve se recuperar em 2020, com o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil voltando a se expandir na casa dos 2%, mas os riscos políticos e para as políticas econômicas aumentaram na região, observa a Moody’s.

Para os emergentes, a previsão é de avanço de 4,5%, número menor que a média dos últimos anos e longe dos picos de alta do PIB em países como México, Rússia, Índia e China, segundo o relatório.

Mesmo com o ritmo menor de crescimento, os emergentes vão seguir com alta do PIB mais forte que países desenvolvidos, que devem ter avanço médio de 1,5%, observa a Moody’s.

Embora tenha crescido o temor de recessão na economia mundial, a Moody’s não espera crescimento negativo para nenhum dos principais emergentes em 2020, com exceção da Argentina, ressalta o vice-presidente, Gersan Zurita.


Por que o STF faz tanto mal ao Brasil

Percival Puggina. 

O STF cumpre três funções:

  • • Corte Constitucional, suprimindo do ordenamento jurídico atos legislativos em desconformidade com a Constituição;
  • • Suprema Corte, operando como última instância do Poder Judiciário;
  • • Tribunal Penal, julgando réus detentores de foro [privilegiado] por prerrogativa de função (o pachorrento caminho da impunidade).


Não bastasse esse acúmulo de competências exclusivas, alguns de seus ministros, mais afeitos às artes e manhas da política, ainda ocultam, sob a negra toga, uma ilegítima vocação para as tarefas de Poder Moderador, figura que não compareceu a qualquer de nossas Constituições republicanas.

Esse acúmulo de atribuições conferidas a 11 pessoas não tem como dar certo, mormente quando o longo ciclo de governos esquerdistas no país entulhou a Corte de almas gêmeas daquelas que carimbaram suas indicações. Como consequência, sob vários aspectos, temos um STF sem um único liberal e sem um único conservador, de perfil bolivariano, portanto, a considerar-se tutor da opinião pública.

Não estou, em absoluto, preocupado com o acúmulo de funções e tarefas a serem cumpridas pelos senhores ministros. Não me preocuparei com algo que não parece preocupar os membros da corte. Suas sessões deliberativas começam tarde, terminam cedo e incluem um longo e farto coffee break. Nelas, parece perfeitamente normal gastar tempo recitando ou ouvindo a inútil leitura de centenas de páginas para justificar votos. Esses saraus jurídicos são um luxo a que só se pode dar quem tem tempo sobrando.

O que me preocupa é algo muito mais grave. É a causa da ruptura entre o STF e a opinião pública nacional que abomina a atual composição da Corte. É a causa do placar de 6 x 5 em favor da libertação dos réus de colarinho branco. No exercício das três funções discriminadas no primeiro parágrafo deste artigo, o STF, ao deliberar como Corte Constitucional, não pode, sob pena de se tornar esquizofrênico, renunciar a seu papel de Suprema Corte, última instância do Poder Judiciário. 

Não pode! Não pode desconhecer a Justiça, a moral, o interesse público, o bem comum. Não pode ser lojinha de conveniência dos criminosos, dos corruptos, dos corruptores e de seus pomposos advogados. Não pode ser o crematório das esperanças nacionais, nem a marcha à ré do processo histórico. Não pode iluminar atalho aos inimigos do Estado de Direito.

Por incrível que pareça, apenas cinco dos senhores ministros perceberam e evidenciaram em seus votos a plenitude das atribuições constitucionais que lhes estão conferidas – Tribunal Constitucional e Suprema Corte. Os outros se limitaram à leitura rasa da Constituição e quanto ao mais, chutaram o balde, derrubaram o pau da barraca, abriram a caixa de Pandora e mandaram tudo mais para o inferno.

Impõe-se ao Congresso corrigir o mal feito. E, a cada brasileiro, mobilizar-se para que a Justiça e o Bem, novamente servidos, nos conduzam nos caminhos de 2020.

Se alguém neste País assusta investidor é Toffoli e seus parceiros do STF

José Roberto Guzzo,
 O Estado de S.Paulo

É livre o julgamento que cada um faz da fala de Guedes sobre AI-5, mas não tem cabimento presidente da Corte imaginar aquilo que ele finge que é

Foto: Dida Sampaio/Estadão
O ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF)  

O planeta Terra seria um lugar perfeitamente insuportável se todo o mundo, sem nenhuma exceção, dissesse sempre a verdade, o tempo todo, para todas as outras pessoas que conhecesse. Já imaginou? É melhor não imaginar. O fato é que esta vida precisa ter os seus momentos de hipocrisia, para funcionar com um mínimo de paz – mas também é fato que as autoridades da nossa vida pública não precisavam exagerar. É a velha história: gente que manda não perde praticamente nenhuma oportunidade de ficar cega para os seus próprios desastres, mas nunca é surda, nem por um minuto, para qualquer erro que possa ser cometido pelos outros.

O hipócrita, felizmente, é um bicho que só morde de verdade quando consegue esconder que está sendo hipócrita – quando a sua hipocrisia fica na cara de todo mundo, como vive acontecendo, o mal que faz não leva a lugar nenhum. É o caso, neste preciso momento, do ministro Dias Toffoli, que acaba de compartilhar com o resto da nação suas preocupações com a má imagem que os investidores estrangeiros fariam do Brasil depois de uma declaração do ministro Paulo Guedes sobre o AI-5. Teria o ministro sugerido a ressurreição do “Ato”, que está morto há 40 anos – quatro vezes mais, aliás, que o tempo durante o qual esteve vivo? Não. Ele disse o seguinte: “Não se assustem se alguém pedir o AI-5”, no caso de haver baderna na rua, em vez de oposição na política.

É livre, obviamente, o julgamento de cada um sobre o que disse Guedes. O que não tem cabimento é imaginar que Toffoli está sendo aquilo que ele finge que é – um cidadão aflito com o futuro do investimento externo no Brasil. Se há alguém nesse País que assusta o investidor, de qualquer nacionalidade, é ele mesmo, em pessoa – junto com os seus parceiros de STF que acabam de proibir a prisão de criminosos condenados em segunda instância. Isso sim, é construir a imagem de uma nação sem lei.

A farra dos desembargadores

Elio Gaspari
O Globo

Tribunal de Justiça de São Paulo quer construir duas torres de 24 andares com seis subsolos para 1.300 vagas de estacionamento

A menos de um quilômetro de distância do pedaço do Vale do Anhangabaú onde as filas de desempregados se formam ao amanhecer, o Tribunal de Justiça de São Paulo quer construir duas torres de 24 andares com seis subsolos para 1.300 vagas de estacionamento. Coisa estimada em R$ 1,2 bilhão. Esse assunto rola desde 1975, e por ora o tribunal trata do projeto executivo da obra, que poderá custar até R$ 26 milhões. Deve-se à desembargadora Maria Lúcia Pizzotti o bloqueio da farra. Se ninguém mais puser a boca no mundo, esse negócio vai adiante. Vai aos poucos, mas vai.

Quem ouve falar em duas torres para o Tribunal de Justiça pode até achar que um país rico, em regime de pleno emprego, precisa de uma boa sede para o Tribunal de São Paulo. Não é nada disso. Os edifícios destinam-se a abrigar apenas os gabinetes dos 360 desembargadores. Todo mundo pagará pela farra, mas as torres terão 28 elevadores e 12 serão privativos para desembargadores e juízes. Os doutores terão também um andar exclusivo para seu restaurante. Isso e mais um posto bancário só para desembargadores.

Uma das razões dadas pelos faraós seria a economia de R$ 58 milhões/ano que são gastos com aluguéis. Conta outra, doutor, sobretudo porque o Tribunal de Justiça já gastou R$ 141 milhões em projetos e estudos em torno dessa obra.

São Paulo tem 360 desembargadores com carro, motorista, um salário de R$ 35,5 mil, para começar, mais auxílio-moradia. (Um dos doutores recebia o penduricalho mesmo sendo dono de 60 apartamentos.)

O esforço para domar a dívida

Notas & Informações, 
O Estado de S.Paulo

Consertar as contas públicas é essencial para tornar o governo mais eficiente, impulsionar o crescimento, criar empregos e elevar as condições de vida. 

Apertadas no dia a dia, as famílias podem nem perceber os efeitos da política de corte de juros. Para o consumidor o crédito pode até estar mais acessível, mas continua caro. Para os cofres públicos, no entanto, a redução do custo financeiro produz benefício rápido, claro e traduzido em bilhões. Mesmo com esse alívio, o governo continua forçado a conter gastos importantes para a produção, o emprego e o bem-estar dos brasileiros. Mas alguns sinais positivos nas contas oficiais são incontestáveis. Os juros custaram R$ 360,03 bilhões ao setor público nos 12 meses até setembro. Nos 12 meses terminados em setembro do ano passado essa despesa havia chegado a R$ 401 bilhões. Com essa mudança, o custo financeiro nas contas governamentais passou em um ano de 5,94% para 5,10% do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados são das Estatísticas Fiscais elaboradas mensalmente pelo Banco Central (BC).

O peso da dívida continua muito grande, mas pelo menos alguns fatores vêm facilitando a administração do problema. Juros em queda e inflação contida explicam boa parte da melhora. Ainda será necessário, no entanto, muito trabalho para conter o enorme endividamento e reduzi-lo a proporções mais seguras.

O Brasil tem-se destacado entre os países emergentes pelo baixo ritmo de crescimento, pelo mau estado das contas públicas e pelas proporções do endividamento oficial. Em setembro, a dívida bruta do governo geral correspondeu a 79% do PIB. A proporção gira em torno de 50% para a média dos países emergentes e em desenvolvimento. Em agosto, a relação dívida/PIB era de 79,8%. O governo geral inclui as administrações da União, dos Estados e dos municípios e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O governo central tem o maior peso e é o garantidor de grande parte das dívidas estaduais e municipais.

Dois fatos explicam a redução do peso de 79,8% para 79% do PIB. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) pagou ao Tesouro Nacional R$ 40 bilhões, parte de uma dívida acumulada no período petista. Além disso, vendas de dólares pelo BC enxugaram R$ 36 bilhões do mercado. Os dois eventos diminuíram a necessidade de emissão de novos títulos.

O conserto das contas públicas depende, no entanto, de um programa amplo e complexo de ajustes e de reformas. A reforma da Previdência é uma conquista importante para o controle das despesas obrigatórias, mas seus efeitos só aparecerão nos próximos anos. Por enquanto, o déficit previdenciário continua engolindo as economias conseguidas com a contenção de outros gastos e deixando ainda amplo o saldo negativo.

Nos 12 meses até setembro, por exemplo, o Tesouro Nacional acumulou superávit primário, isto é, sem a conta de juros, de R$ 103,13 bilhões. O BC teve um pequeno déficit de R$ 591 milhões. O rombo de R$ 205,24 bilhões do INSS devorou o saldo positivo obtido pelo Tesouro e o resultado para o governo central foi um déficit primário de R$ 102,80 bilhões.

Adicionados os saldos, em parte positivos, de Estados, municípios e empresas estatais, o setor público fechou o período com um déficit primário de R$ 91,43 bilhões. Acrescentados os juros, o resultado nominal, o mais amplo, foi um déficit de R$ 451,46 bilhões, soma equivalente a 6,39% do PIB, um buraco de proporções em todos os grupos de economias.

A relação dívida/PIB só será controlada e reduzida quando o setor público tiver sobra, isto é, superávit primário, para liquidar os juros devidos em cada ano. Algum superávit primário deverá aparecer a partir de 2022, segundo projeções do mercado recolhidas na pesquisa Focus conduzida pelo BC.

A dívida bruta do setor público é um indicador acompanhado com atenção por instituições nacionais e estrangeiras, interessadas em identificar as condições de solvência de cada país. Não se trata, no entanto, apenas de sustentar e depois aumentar a nota de crédito do País. Consertar as contas públicas é essencial para tornar o governo mais eficiente, impulsionar o crescimento econômico e a criação de empregos e elevar as condições de vida de toda a população.

As medidas fiscais de Paulo Guedes

Samuel Pessôa
Instituto Millenium

O governo enviou três PECs (Propostas de Emenda Constitucional). Tantas medidas demandarão tempo para que eu consiga digerir. Mas já é possível compartilhar com o leitor as minhas primeiras reações.

A medida inicial é emblemática e, penso eu, muito importante. O artigo 6º da Constituição estabelece que “são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a Previdência Social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. A PEC estabelece que “será observado, na promoção dos direitos sociais, o direito ao equilíbrio fiscal intergeracional”.

Nossa Constituição ficou desequilibrada. Deu muito peso ao presente e ao passado e pouco peso ao futuro: somos o segundo país que mais gasta com aposentadorias do mundo, após controlarmos pela demografia; gastamos pouco com a infância; e, apesar de termos umas das maiores cargas tributárias entre os emergentes, investimos muito pouco. O novo texto visa o reequilíbrio.

Entre muitas medidas, a PEC promove a harmonização para toda a Federação dos critérios contábeis: gastos com pessoal e superávit primário, por exemplo, terão que ser contabilizados da mesma forma em todas as unidades federadas.

A harmonização é urgente.

Um segundo conjunto de medidas dota o Estado de instrumentos para lidar com situação de desequilíbrio fiscal estrutural, isto é, quando a receita é estruturalmente inferior aos gastos.

Para a União, estabelece que, se o endividamento for superior ao gasto com investimento, não haverá aumento nominal de salários dos servidores, o salário mínimo será reajustado somente pela inflação, não se renovará benefício fiscal e não serão feitos novos concursos, entre outras medidas.

Para estados e municípios, esses gatilhos serão disparados se o gasto corrente atingir 95% da receita corrente líquida.

As medidas constitucionalizam dois instrumentos da LRF que foram rejeitados pelo STF: a possibilidade de redução de jornada de servidores contra redução de salários; e o contingenciamento de recursos dos Poderes e órgãos autônomos —Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Defensoria e Tribunais de Contas— sempre que houver frustração de receita. O contingenciamento deixa de ser suportado exclusivamente pelo Poder Executivo.

Há muita “atividade-meio” no Estado brasileiro que pode ser objeto da redução de jornada sem que a qualidade dos serviços públicos seja comprometida. Adicionalmente, o congelamento dos salários permitirá que os salários do setor público, ao menos para os entes da Federação com dificuldades financeiras, se aproximem dos salários do setor privado para as mesmas funções.

As medidas aumentam a flexibilidade dos gestores ao permitir que a vinculação para saúde e educação seja observada conjuntamente: municípios com muito idosos e poucas crianças poderão direcionar mais recursos para a saúde. O inverso para a situação inversa.

A polêmica medida de incorporação dos municípios menores que 5.000 habitantes, cuja receita própria seja inferior a 10% da receita total, é correta. Poupa-se na manutenção de uma estrutura cara —Assembleias Legislativas e prefeituras— para que sobrem mais recursos para aplicação com atividades-fim: saúde, educação e segurança.

As PECs completam nossas instituições fiscais. Ajustes aqui e acolá são necessários. Mas a direção geral das medidas é correta e urgente.

Muito preocupam as contrarreformas fiscais apontadas por Marcos Mendes em sua coluna deste sábado (9).


Fonte: “Folha de S. Paulo”

Além do petróleo

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Países produtores precisam aplicar os recursos em investimentos que gerem riqueza a longo prazo

Há muitos equívocos cometidos por aqui na história do petróleo, mas talvez possam ser resumidos assim: contar com um dinheiro que não existe e, seu inverso, gastar mal o dinheiro que aparece.

Faz anos que se discute nos meios políticos, prioritariamente, como dividir o dinheiro do pré-sal entre os governos federal, estaduais e municipais, de um lado, e quais setores (educação? saúde? investimentos?) receberiam as verbas, de outro. E só secundariamente como seria explorada essa riqueza natural que, segundo Dilma e Lula, levaria o Brasil a um lugar entre os mais desenvolvidos do mundo.

Uma mistura de ideologia estatizante — seria tudo do Estado — e enorme incompetência deixou um atraso de pelo menos cinco anos na exploração de óleo. Nesse período, o preço do petróleo caiu — tornando os investimentos menos rentáveis — e, mais importante, acentuou-se a percepção de que o fim da Era do Petróleo está bem visível, mais à frente.

Esse foi o segundo grande erro. O primeiro erro ocorreu quando de fato havia dinheiro. Com o preço do petróleo nas alturas, nos anos 2000, o Brasil faturou alto e... torrou o dinheiro em gastos de pessoal e custeio. E na grossa corrupção do petrolão.

E não por falta de aviso, nos dois casos. Na verdade, dois avisos muito antigos, do sheik Yamani, criador da Opep lá nos anos 60. O primeiro: “A Idade da Pedra não acabou por falta de pedras”. O segundo: “A Era do Petróleo vai acabar antes que o mundo fique sem petróleo”.

Naquela época, o debate mais intenso tratava do fim das reservas de petróleo. Fazia-se a conta: o consumo de óleo crescia mais depressa que a descoberta de novos jazidas. Logo, em um dado momento, o mundo ficaria sem petróleo.

O outro debate era mais político. Como os países árabes controlavam a maior parte do petróleo, e já haviam imposto um embargo global, era preciso encontrar outras formas de energia. 

Em qualquer caso, o recado de Yamani, para os donos do petróleo, era claro: usar o dinheiro de hoje para criar uma economia, digamos, “não petróleo”. Valia para produtores e consumidores.

De uns anos para cá, tornou-se dominante o tema do aquecimento global. A meta que se vai formando, no mundo, é de garantir que a temperatura global não suba mais de dois graus nos próximos 30 anos. Vai daí, como nota a última edição da revista “The Economist”, o consumo global de petróleo terá que cair dos atuais 95 milhões de barris/dia para não mais que 75 milhões — e idealmente, para 45 milhões.

E se o mundo caminha nessa direção, países que dispõem da riqueza natural precisam tomar duas providências: primeira, acelerar a exploração, vender petróleo enquanto há; segunda, aplicar os recursos em investimentos que gerem riqueza a longo prazo.

Para a primeira política, será preciso mudar o regime de exploração, de modo a tornar mais baratos os investimentos em exploração. O custo alto foi uma das causas do fracasso no leilão de ontem.

Para a segunda política, será preciso definir os pontos nos quais poderá ser aplicada a renda do petróleo. Não é difícil fazer isso. É só copiar de países que deram certo. E copiar de grandes companhias petrolíferas globais que estão investindo em energia sustentável. 

Ou construir uma imensa indústria espacial — foguetes e estações pelo universo — para poder escapar da Terra quando tudo se estragar.



O petróleo é benção ou maldição para o Brasil?

Da Redação
Exame.com

Com os novos leilões do pré-sal, o país dobrará a produção até 2030. Mas é preciso planejamento para não incorrer em erros do passado, e de outros países

(Daniel Acker/Bloomberg)

Petróleo: commodity tem sido foco do debate no Brasil, 
seja com os leilões do pré-sal ou com os vazamentos nas praias do Nordeste  

Dez anos após a extração do primeiro barril do pré-sal e cinco anos após o início da Lava-Jato, o petróleo voltou às manchetes no Brasil. Enquanto a mancha de óleo continua a avançar sobre as praias do Nordeste, num volume que já chega a mil toneladas de material recolhido, o país organiza uma série de leilões que vai colocá-lo em outro patamar na indústria global. É preciso planejamento para tirar o melhor proveito, e para evitar e responder a tragédias como a que está em curso no Nordeste.

O maior deles é o do excedente da chamada cessão onerosa, agendado para 6 de novembro. Os novos projetos devem elevar a produção diária do Brasil de 3 milhões para 7 milhões de barris, o suficiente para fazer do -país o quarto maior produtor do mundo na década de 2030 — atrás de Rússia, Estados Unidos e Arábia Saudita, pelo ranking atual.

É uma mudança de patamar que começou a ser construída em 2010, quando foi concedida à Petrobras, sem licitação, uma área na Bacia de Santos com reserva prevista de 5 bilhões de barris, por 74 bilhões de reais — a tal cessão onerosa. Após investimentos de 10 bilhões de reais, a estatal descobriu que os volumes eram muito maiores.

O excedente pode variar de 5 bilhões a 10 bilhões de barris, ou seja, o volume total de óleo ali depositado pode chegar ao triplo do inicialmente imaginado. É esse adicional que será leiloado em novembro, com um bônus de assinatura esperado de 106 bilhões de reais. A projeção do governo para 2030 é que somente o excedente leiloado renda a produção de 1,2 milhão de barris por dia — o equivalente a 40% do óleo extraído atualmente no país.

Por se tratar de uma área com reservas praticamente comprovadas, o risco de exploração é tido como baixo; e o retorno do investimento, rápido: em média, o período entre a exploração e o início da produção leva cerca de dez anos, mas na área da cessão onerosa pode cair para até três anos, segundo especialistas. Será o maior e mais atraente leilão da história.

Em um país sem folga para o aumento de impostos e com lacunas sociais profundas, a notícia de que há uma fonte de bilhões de dólares embaixo do mar é excelente. A cadeia produtiva do petróleo é responsável por 4% do PIB, segundo cálculos da Fundação Getulio Vargas — algo como 270 bilhões de reais em 2018. A tendência é de alta: com os novos leilões, a projeção do banco Standard Chartered é que a geração de riqueza da cadeia petrolífera poderá chegar a cerca de 700 bilhões de reais no final da próxima década — cerca de 8% de um PIB estimado em 8,6 trilhões de reais.

O problema é que a combinação de recursos naturais com países emergentes costuma dar errado. É o que os economistas Jeffrey Sachs e Andrew Warner, da Universidade Harvard, eternizaram como “maldição dos recursos naturais”. Um estudo deles de 1995 mostrou que os países que, em 1971, tinham grande parcela do PIB em produtos básicos, no geral, cresceram menos do que seus pares nas duas décadas seguintes. O padrão é parecido em grandes produtores de petróleo, gás, minérios e alimentos.

No Brasil, boa parte do roteiro perverso foi experimentado durante o ciclo de alta e baixa das commodities na última década. Os produtos básicos roubaram a cena, o real valorizou, a indústria minguou, o governo gastou muito e uma grave crise veio quando as cotações das matérias-primas caíram. Isso tudo ladeado por um esquema de corrupção de proporções inéditas. O caminho para a tragédia, portanto, o país já conhece.

A reportagem completa sobre os riscos e as oportunidades da cessão onerosa (e o aviso que veio com a mancha de óleo do Nordeste) está na capa de edição 1196 de EXAME, ..




A revolução do carro a álcool

Mario Garnero*,
O Estado de S.Paulo

Brasil sofre críticas injustas, pois desenvolveu o mais eficiente projeto de redução de emissão de carbono

Na quinta-feira, dia 19 de setembro, completaram-se 40 anos de uma cerimônia histórica para o Brasil e, particularmente, para a indústria automobilística brasileira. Nesse mesmo dia de 1979, então presidente da Anfavea, assinei junto com o vice-presidente da República Aureliano Chaves, o ministro da Indústria e Comércio João Camilo Pena e com Cesar Cals, ministro de Minas Energia, na presença do presidente João Figueiredo, um protocolo que viabilizou a produção de veículos automotores movidos integralmente a álcool.

Com o barril do petróleo atualmente em US$ 65, em 40 anos, em valores correntes, poupamos mais que US$ 15 bilhões em divisas. Além disso, a poluição do ar em São Paulo, a cidade com a maior frota de veículos, foi reduzida em cerca de 40%, conforme estudos desenvolvidos pelo Berkeley Lab, da Califórnia. E é preciso destacar que a produção da cana-de-açúcar não arranhou nem mesmo um hectare das terras da Amazônia legal.

Por causa do uso de biocombustíveis e de medidas como o rodízio de veículos, embora a cidade de São Paulo tenha uma frota de 8,5 milhões de veículos, ela não tem a mesma poluição do ar que metrópoles como Beijing, Délhi e Cidade do México.

Mais importante: proporcionou um salto monumental na agricultura brasileira, que de 6 milhões de toneladas de soja colhidas, naquele ano, atingiu 127 milhões de toneladas neste ano, e conduziu-nos a ser o maior produtor mundial, sem desmatar ou incendiar a Amazônia.

Em 2003 foi lançado outro grande avanço tecnológico da indústria automobilística, o carro flex, e temos hoje no Brasil uma frota de veículos flex de 30 milhões de unidades, equivalente à frota de automóveis da França.

Este simples apanhado é o retrato de um país preocupado em continuar sendo um país que cuida bem de sua megadiversidade e protege 74,5% de suas terras.

De sua história desde o ProÁlcool até o protocolo assinado entre a iniciativa privada e o governo, a lição que fica é a da união de esforços que produziu, no curto prazo, 5 milhões de veículos a etanol e ajudou a integração nacional nas áreas de agricultura, comércio e indústria.

O poder público e os empresários foram seus artífices, todos congregados na Comissão Nacional de Energia (CNE), onde o protocolo se originou.

De 1976 a 2018 foram substituídos o uso e a importação de mais de 3 bilhões de barris de gasolina, um marco significativo para um país que possui reservas provadas de 12 bilhões de barris, incluindo o pré-sal. O valor econômico da gasolina substituída, calculado pela Datagro, equivale a mais de US$ 506 bilhões.

E, nesta mesma semana em que o Brasil comemora a assinatura do protocolo do carro a álcool, a Toyota surpreendeu o mundo com a inclusão, em sua linha, do primeiro veículo híbrido, que pode rodar com um motor elétrico ou motor flex, que mistura álcool e gasolina em qualquer proporção. Este já pode ser considerado o carro mais limpo do planeta, pois emitirá, nas ruas, apenas 27g de CO2 por km.

A demonstração eloquente da substituição de carbono que empreendemos com o carro a álcool – um sucesso mundial – se completa com o nosso Código Florestal, as reservas de áreas de preservação permanente, o respeito aos índios e, agora, o apoio e participação do Exército para coibir e punir os responsáveis por desmatamentos ilegais e, acima de tudo, pelas queimadas, já disciplinadas em São Paulo e que deveriam há muito ser coibidas ou controladas pelo poder federal.

Neste momento de reflexão sobre nossos erros na condução da política para um desenvolvimento programado para a Amazônia, que o susto pelo qual passamos nos sirva de alerta para termos uma preocupação permanente com o meio ambiente e a nossa extraordinária agricultura.

Sinto-me honrado em ter meu nome associado a esta saga que lançou o Brasil mundialmente à frente, ao criar a gasolina verde. Penso apenas que perdemos a batalha da comunicação, pois nenhum país fez tanto na área da mobilidade quanto o Brasil, que sofre hoje críticas injustas, mesmo tendo desenvolvido o mais coerente e eficiente projeto de redução de emissão de carbono.

*Presidiu a ANFAVEA entre 1974 E 1981

Precisamos acabar com a partilha

Adriano Pires
Instituto Millenium

Era uma vez um País rico em petróleo, mas que não sabia usufruir disso. Um País sentado em bilhões de barris em reservas, mas que não sabia monetizá-las.

Na semana passada, dois leilões de petróleo sob o regime da partilha não saíram exatamente como o País e o Governo esperavam.

A razão é simples: do ponto de vista dos investidores estratégicos — aqueles que injetam dezenas de bilhões de dólares num projeto com horizonte de 30 anos, e correndo riscos políticos às vezes incalculáveis — a partilha, ainda mais dando preferência à Petrobras, tem se mostrado um modelo antieconômico, que anestesia o chamado espírito animal.

Antes de entrar nos pormenores, vamos deixar clara a diferença entre a partilha e o regime de concessão, que vigorava antes dele e ao qual o Brasil deveria retornar o mais rápido possível — sob pena de continuar perdendo oportunidades.

É bom lembrar que o petróleo cada vez mais entra em desuso pelos mais diferentes motivos. Por isso, há que se ter pressa em monetizar as reservas do pré-sal.

No regime de concessão, leva o campo a petroleira que faz o maior cheque para o Governo. Tipicamente, o lance mínimo é quase simbólico. É o mercado que avalia o campo, produz concorrência e joga o preço para cima.

Na partilha, o Governo estabelece um valor fixo (o chamado “bônus de assinatura”). Quem quiser competir tem que pagar aquele valor. A concorrência acontece não no bônus, e sim no percentual de barris produzidos (descontados os custos) que o investidor está disposto a dividir com a União.

E é aí que começam os problemas. Sempre com a corda no pescoço, o Governo tem exigido bônus de assinatura (o valor que o investidor paga na frente) muito altos. É preciso lembrar que o investidor nestes campos ficará sujeito ao risco de diversas mudanças de Governo ao longo da vida do projeto. Uma hora o Brasil é Thatcher; outra hora é mais Maduro. O valor dos bônus pode ser alto, mas eles deveriam ser parcelados ao longo de anos, alinhando os interesses do Estado com o investidor.

O segundo problema da partilha é a PPSA, a estatal criada para receber a parte da União e que participa do comitê gestor dos campos.

A razão de ser da PPSA é fiscalizar se o operador do campo não está colocando um sobrecusto para lesar a União. No final do dia, a lei da partilha acabou criando algo similar a uma trading estatal.

Mas a existência da PPSA aumenta o custo de transação e eleva o risco comercial para o investidor porque, como membro do comitê gestor, a PPSA tem direito a vetar o plano de investimento, o que aumenta a incerteza sem que a PPSA invista um dólar sequer.

Enquanto fazia leilões no regime de concessão, o Brasil ia bem. A decisão de mudar para a partilha veio em 2010, no Governo Lula, sem critério técnico e somente olhando para um projeto político de poder.

Quando descobriu o pré-sal, o Brasil ficou guloso. Brasília achou que aquilo era a oitava maravilha do mundo, e que dava ao Brasil um poder negocial maior do que tinha até então. O raciocínio foi: em vez de cobrar do investidor apenas o pedágio de entrada, poderemos cobrar ao longo da vida do projeto. Este modelo vigora principalmente em países da África e na Venezuela.

A realidade se mostrou mais dura. O mundo está cheio de projetos que competem por capital, a América Latina oferece um risco político crescente, e cada detalhe na mecânica dos leilões pode alienar investidores.

É hora de acabarmos com a partilha e voltar à concessão. Caso contrário, a profecia dos sindicalistas será cumprida, e o petróleo permanecerá eternamente nosso.

Fonte: “Brazil Journal”

O que faz o Brasil ser um dos piores no ranking de competitividade digital

Ligia Tuon
Exame.com

País segue na 57ª posição entre 63 países com gargalos fortes em áreas como educação. Uma boa surpresa é o nível de digitalização dos serviços do governo

(Prasit photo/Getty Images)
Cidades inteligentes 

São Paulo – Falta de mão de obra qualificada, de investimentos e agilidade nos negócios estão entre os fatores que mantém o Brasil nos últimos lugares do ranking de competitividade digital da escola de negócios suíça IMD.

A nova edição da lista, divulgada nesta quinta-feira (26), mostra o país estagnado desde o ano passado na 57ª posição entre 63 países.

É a pior posição desde que o ranking começou há cinco anos. O Brasil foi da 56ª posição em 2015 para a 54ª em 2016 mas, já no ano seguinte, caiu para a 55ª. Em 2018, foi para a 57ª, onde segue até hoje. Os primeiros lugares são Estados Unidos, Singapura, Suécia e Dinamarca.

Para avaliar competitividade digital econômica dos países, foram analisados três fatores: “Conhecimento”, que significa a capacidade do país de entender e aprender novas tecnologias; “Tecnologia”, que é a competência para desenvolver inovações digitais; e “Preparação para o Futuro”.

Do ano passado para este, o Brasil melhorou em “Conhecimento” e “Preparação para o Futuro”, mas ficou estagnado em “Tecnologia”.


Conhecimento

O Brasil subiu três posições, do 62º para o 59º lugar, neste primeiro índice, que engloba a oferta do país de profissionais qualificados e a qualidade na sua formação. O país já chegou a ficar na 54ª posição neste item em 2016.

O subitem que mais se destacou foi “Concentração científica”, que subiu 10 posições do ano passado para este. Esse é o primeiro estágio da cadeia de inovação e revela a capacidade do país de gerar conhecimentos que possam gerar novas tecnologias e, eventualmente, inovação.

Com um gasto de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil está entre os 30 países que mais investem no setor.

“Parece muito, mas se compararmos com países que estão querendo ser mais inovadores, como Estados Unidos e China, tem que melhorar muito esse porcentual”, diz Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral, parceira do IMD no desenvolvimento dessa pesquisa.

Outro destaque da “Concentração Científica” é a produção de publicações provenientes da pesquisa e do desenvolvimento, na 8ª posição geral. Isso significa que o Brasil é um bom gerador de conhecimento.

“Esse conhecimento poderia ser transformado em tecnologia e inovação, mas há um gargalo. O país consegue fazer publicações interessantes, mas não consegue transformar isso em patentes”, diz Arruda. O país está na 46ª posição geral no item “geração de patentes”.

Outro fator de destaque é o nível relativamente alto de investimento público em educação, já que o Brasil está entre os oito que mais investem no setor e entre os 30 que mais investem por aluno.

O Brasil investe cerca de 6% de seu PIB em educação, só que a maior parte desse valor vai para a educação superior e pós-graduação – ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, onde a maior porcentagem dos recursos costumam ir para a educação básica.

“O país investe bem, investe muito, mas bastante dirigido para as universidades, que vão gerar cientistas. É bom, mas fica deficiente na educação básica, como mostra a posição horrível do país no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), em 56º lugar”, diz Arruda.

A resposta passa por melhorar a qualificação de mão de obra interna e da legislação digital, de acordo com o professor José Caballero, economista sênior do ranking global de Competitividade Digital do IMD.

“As empresas estão com dificuldades de encontrar trabalhadores qualificados (…) e a digitalização encontra problemas para avançar com a legislação local e com um setor privado pouco encorajado”, diz.

Ele destaca que o Brasil é penúltimo lugar do ranking no item “Talentos”, que corresponde à mão de obra qualificada.

Preparação para o futuro

O Brasil pulou quatro posições, de 47º para o 43º lugar, no quesito “Preparação para o Futuro”. O destaque positivo foi para o subitem “E-Participação”, que mede o nível de digitalização no relacionamento do governo com a população em geral, onde houve salto da 32ª posição para a 12ª.

Aí entra desde o programa digital do Imposto de Renda até serviços digitais do Detran ou de tribunais reginais.

“O Brasil se destacou nisso e deve avançar ainda mais”, diz Arruda. “Vemos planos de simplificação administrativos sendo lançados, burocracias sendo reduzidas em muitas frentes”, diz. 

O que mais preocupa Arruda a educação. “É algo que não dá para corrigir rapidamente. Nós temos um gap de qualidade que vem de longo prazo e é difícil de ser reparado”.

Arruda destaca que entre os piores países do ranking, há quatro latino-americanos e nenhum asiático. Já entre os melhores, há quatro asiáticos e nenhum latino.

“Estamos numa região que está ficando para trás na competitividade digital, enquanto outra parte do mundo se posicionou orientada para essa mudança tecnológica”, diz ele.



O avanço do gasto obrigatório

Notas & Informações,
 O Estado de S.Paulo

Sem uma urgente revisão das despesas obrigatórias, a margem do governo para investimentos públicos tende a simplesmente desaparecer em poucos anos

Um estudo da equipe econômica do governo federal obtido pelo Estado indica que as despesas obrigatórias vão crescer R$ 266,2 bilhões entre 2016 até o ano que vem, um ritmo mais acelerado do que o avanço do teto de gastos, corrigido pela inflação. Com isso, essas despesas atingirão 93% do total do Orçamento de 2020, comprimindo ainda mais as despesas discricionárias, isto é, relativas a custeio e investimento. Esse cenário reitera a necessidade urgente de revisão das despesas que o governo é obrigado a honrar, muitas das quais resultantes de determinações constitucionais. Sem essa mudança, a margem orçamentária do Estado para os tão necessários investimentos públicos tende a simplesmente desaparecer em poucos anos, condenando o País, na melhor hipótese, a uma prolongada estagnação econômica.

Mesmo que a reforma da Previdência seja aprovada neste ano, como se espera, a despesa com benefícios previdenciários, principal item entre os gastos obrigatórios, continuará a apresentar expansão significativa. Conforme o relatório do governo, esses benefícios, que em 2016 representavam 40,7% do Orçamento, passarão a consumir 46,1% em 2020.

O mesmo acontece, mas em menor proporção, com a despesa obrigatória que envolve folha de pagamento do serviço público e encargos sociais. Esse tipo de despesa, que consumiu 20,6% do Orçamento em 2016, representará 22,8% do total em 2020.

Considerando-se que o crescimento econômico do País, que mal se recuperou da recessão de 2015-16, não deve superar 1% e que a inflação prevista para este ano – que reajustará o teto – deverá ficar abaixo de 4%, observa-se com facilidade que o ritmo da expansão dessas despesas obrigatórias tem superado em muito o aumento da riqueza nacional.

Sem uma reforma ampla para reduzir as demandas orçamentárias inscritas na Constituição, a tendência é a deterioração acelerada da capacidade do Estado de realizar obras de infraestrutura e saneamento básico e de oferecer serviços de saúde e educação adequados para a população. Esse aspecto também aparece no estudo do governo. A despesa discricionária, isto é, o gasto que o governo pode fazer indiscriminadamente, cairá de 11,3% do total do Orçamento em 2016 para 7,1% em 2020.

É preciso considerar, ainda, que os gastos discricionários incluem as despesas de custeio, que se prestam basicamente à manutenção do funcionamento da máquina do Estado. A redução dos recursos disponíveis para os gastos discricionários, portanto, ameaça interromper os serviços do governo – o chamado shutdown. O cenário já é crítico em pelo menos 13 Ministérios e órgãos do governo federal, que podem vir a encurtar o expediente e suspender alguns de seus trabalhos, conforme mostrou recente reportagem do Estado. Em diversos órgãos, não há dinheiro sequer para pagar a conta de luz.

Essa situação tem servido para que a ideia de “flexibilizar” o teto de gastos ganhe ares de solução. Tal tese geralmente é esposada por aqueles que julgam que “gasto é vida”, conforme defendeu a petista Dilma Rousseff em sua ruinosa Presidência. Foi com base na ideia de que o governo pode gastar de forma ilimitada, na presunção de que esse gasto estimula o crescimento, que o País mergulhou na recessão e viu a renda nacional ser corroída – o exato oposto do paraíso de prosperidade que os advogados da irresponsabilidade fiscal prometem.

O teto de gastos, aprovado no governo de Michel Temer justamente como parte do esforço para reorganizar as contas públicas depois do cataclismo dilmista, visa a demonstrar quais são os limites orçamentários do Estado e, por conseguinte, a necessidade de o governo ser mais seletivo na escolha das prioridades nacionais. Trata-se de um avanço civilizatório para um País que foi levado por seus dirigentes políticos a imaginar que o dinheiro público é infinito – e as diversas vinculações orçamentárias determinadas pela Constituição são prova dessa mentalidade.

Um momento de crise como este é uma boa oportunidade para uma discussão adulta sobre os gastos públicos. A evolução vegetativa das despesas obrigatórias, já fartamente demonstrada, está no centro dos problemas fiscais do País, e já passou da hora de tratar desse problema sem demagogia.