Adelson Elias Vasconcellos
Quando se discutia, em 2007, a necessidade de prorrogação ou não da CPMF, vários textos postamos comprovando que o problema da saúde brasileira era de competência, capacidade de gestão e planejamento, com o estabelecimentos de metas e prioridades.
Vários foram os relatórios do TCU apontando irregularidades no âmbito do Ministério da Saúde e, tanto quanto se saiba, não houve retorno do dinheiro desviado aos cofres públicos, tampouco punição aos culpados por estes desvios.
Inúmeros foram os relatórios do site Contas Abertas apontando a existência e programação no Orçamento da União de dotações destinadas a inúmeros programas de saúde pública. E, a exemplo de tudo que ocorre neste governo, a aplicação andou muito longe de ser razoável. Dinheiro havia, faltava realização. Bem simples assim.
Na edição de hoje, mais abaixo, publicamos reportagem do jornal O Globo, informando que, “...Com o percentual de 5% do valor das multas de trânsito sendo depositado mensalmente na conta do Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), o fundo conseguiu ter orçamento previsto de R$ 581,4 milhões este ano. Apesar de ser o maior valor para um único exercício desde pelo menos 2003, apenas R$ 183,9 milhões (32%) foram gastos até o fim da semana passada. E, embora milhares de acidentes de trânsito sejam registrados todos os anos, especialmente em feriados prolongados como o deste final de semana, apenas 3% dos R$ 196,5 milhões destinados ao fomento de projetos de redução de acidentes no trânsito – principal ação do Funset – foi desembolsado nos dez primeiros meses de 2010.”
Não, meus caros, isto não é exceção: é regra. O governo Lula se esmerou em aplicar, sempre muito abaixo da expectativa, as verbas orçamentárias destinadas, em todas as esferas da administração pública, capazes de qualificar os serviços de atendimento e em benefício da população. Na Saúde não foi diferente.
No que toca à extinta CPMF, comprovamos aqui com relatórios do site Conta Abertas, que Lula contou com a bufunfa durante 4 anos seguidos, com uma arrecadação superior a R$ 160 bilhões, e NUNCA, neste período, se percebeu melhoras no atendimento na rede pública. Pelo contrário, ela degradou-se constantemente desde 2003.
Nestes últimos três meses, raramente atravessamos uma semana sem ter que noticiar alguma tragédia de uma rede pública em estado vergonhoso. São tantos os casos que neste artigo faltaria espaço para enumerar qual a tragédia maior. Todas o são, porque resultaram em morte.
Lula vem induzindo o pensamento nacional de que, para melhoria da saúde pública, precisaria ressuscitar a antiga CPMF. Dilma, já na primeira semana após eleita, juntou-se ao coro. Muitos governadores recém eleitos, endossam o discurso, esquecendo-se de que a CPMF é uma arrecadação federal e que, portanto, pouco ou quase nada lhes sobrará na repartição do butim.
Porém, o mesmo site Contas Abertas, por diversas vezes e em diferentes períodos, demonstrou que a destinação dada à CPMF, no período de vai de 2003 à 2007, pouco ou nenhuma relação guardava com respeito ao campo da saúde pública. Serviu até para bancar solenidades no Planalto. É só o leitor pesquisar no arquivo do blog que encontrará muitos destes relatórios aqui transcritos.
Portanto, a questão não é, como se vê, falta de verbas. Trata-se apenas, como dissemos no início, de falta de capacidade de gestão para planejar ações e estabelecer metas e elencar prioridades.
Querem um bom exemplo disto que falamos? Na edição de hoje do jornal O Globo, há uma reportagem esclarecedora da situação da má gestão, e não da falta de recursos. Em dado momento, o texto afirma que “...Um documento ao qual O GLOBO teve acesso mostra que, este mês, o serviço na Baixada está operando sem 19 de suas 49 ambulâncias. Na média mensal deste ano, tem contado com apenas 55,3% delas. APESAR DAS DEFICIÊNCIAS, AS VERBAS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE PARA CUSTEAR O SAMU SÃO REPASSADAS TODOS OS MESES. Entre janeiro e novembro, as cidades da Baixada receberam R$ 5,7 milhões para a manutenção do serviço. O valor equivale a 50% dos custos - as prefeituras têm que arcar com o resto. Em Nova Iguaçu, quatro veículos apodrecem no depósito público da cidade.”
Ou seja, dinheiro há, sem dúvida, mas, a exemplo do que ocorre em toda a administração, em seus três níveis, invariavelmente o recurso que chega é destinado para outros fins, diferentes do que se destinavam inicialmente.
Mas, logicamente, nossos governantes, quando doentes, não se valem dos serviços rasos que oferecem à população. Tratam-se em hospitais e clínicas privadas que, no frigir dos ovos, a conta acaba sendo paga pela sociedade.
Se diz que a senhora Dilma tem capacidade de gestão? Pois então, chegou a hora de comprovar para o país o mito criado em torno de sua figura. E falo mito, porque, se analisarmos em profundidade os dois programas que ela coordenou à frente da Casa Civil, o PAC e o Minha Casa, Minha Vida, não dá para ser muito otimista. A propaganda é maior do que os resultados. Sua eficiência até aqui, tem sido a de se mostrar eficiente, entenderam?
Por fim, é bom que a sociedade cobre do governo, seja de Lula ou de Dilma, que antes de se pensar em novos impostos e contribuições para a saúde, que ao menos apliquem as verbas que já existem e o façam de forma competente. Que se exija de prefeitos e governadores, os de agora e os que virão a partir de janeiro próximo, a devida prestação de contas das verbas que, como vimos, chega até eles, mas passa longe do fim a que se destinam.
Em suma: que provem, por mais A mais B, que os atuais recursos são insuficientes, e não apenas mal aplicados e desviados.
Segue o texto de Daniel Brunet, para o jornal O Globo.
Crise na saúde: Samu conta com metade de suas ambulâncias na Baixada Fluminense
Vítima de cirrose hepática, o funcionário aposentado da prefeitura do Rio Sebastião Vieira, de 68 anos, morador de Nilópolis, passou mal na madrugada do dia 12 de outubro e precisou ser levado para um hospital. A partir de 1h, os filhos do idoso telefonaram por mais de duas horas para o número 192, do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A ambulância nunca chegou. A falta de veículos e de atendentes nas centrais do Samu é um problema recorrente na Região Metropolitana do Rio.
Um documento ao qual O GLOBO teve acesso mostra que, este mês, o serviço na Baixada está operando sem 19 de suas 49 ambulâncias. Na média mensal deste ano, tem contado com apenas 55,3% delas. Apesar das deficiências, as verbas do Ministério da Saúde para custear o Samu são repassadas todos os meses. Entre janeiro e novembro, as cidades da Baixada receberam R$ 5,7 milhões para a manutenção do serviço. O valor equivale a 50% dos custos - as prefeituras têm que arcar com o resto. Em Nova Iguaçu, quatro veículos apodrecem no depósito público da cidade.
A central de regulação do Samu é coordenada pelo Consórcio Intermunicipal de Saúde da Baixada Fluminense (Cisbaf). Teoricamente, cada município deveria enviar atendentes de telefone e médicos reguladores. Esses profissionais servem para orientar os pacientes que telefonam e para deslocar as ambulâncias. Segundo um documento interno do Cisbaf, datado de agosto deste ano, a central deveria ter 56 operadores de telefonia e 38 médicos reguladores. No entanto, apenas Duque de Caxias, Queimados e Japeri cumprem suas cotas. Faltam 13 médicos e 13 atendentes.
- Estamos até hoje esperando a ambulância que pedimos para socorrer meu pai - ironiza a filha de Sebastião, Wilma Dias Vieira, de 32 anos.
Caxias tem a maior frota de ambulâncias da região
Caxias, junto com Nova Iguaçu, tem a maior frota da Baixada: dez ambulâncias - oito básicas, com técnico de enfermagem, e duas avançadas, com médico e equipamentos de maior tecnologia. Apesar de uma de suas unidades básicas não estar funcionando, a cidade é referência no sistema, por operar com todos os veículos a maior parte do tempo. A explicação da Secretaria de Saúde de Caxias para isso coloca as demais prefeituras contra a parede: "o município aplica adequadamente os valores repassados, cuidando da manutenção dos veículos, tendo bons profissionais para guiá-los e possuindo uma aplicada coordenação de viaturas".
Nova Iguaçu é a cidade com menos ambulâncias circulando: apenas duas, segundo o Cisbaf. A prefeitura disse que a frota está sendo renovada e que as quatro ambulâncias deixadas no depósito municipal após virarem sucata estão sendo substituídas. Uma já está circulando e outras três serão usadas em 20 dias. O restante passa por manutenção.
As prefeituras argumentam que as grandes distâncias entre as cidades da região danificam as ambulâncias e, por isso, muitas estão no conserto. Mas Caxias parece fugir à regra.
- Como eles sempre cuidaram bem de sua frota, usam as ambulâncias velhas para o serviço de vigilância sanitária - contou a secretária-executiva do Cisbaf, Rosangela Bello.
A Secretaria de Saúde de Belford Roxo acrescentou que, em breve, a cidade vai colocar mais dois veículos no sistema.
A prefeitura de Caxias explicou que a ambulância parada serve de reserva e será usada quando alguma der problema. A cidade recebeu ontem mais duas ambulâncias da União que, em breve, vão compor a frota.
A prefeitura de Mesquita informou que sua única ambulância - que não está circulando - passou por reparos e voltará às ruas hoje. Já o secretário de saúde de Nilópolis, Raymond Jacoub, disse que a manutenção dos veículos é feita, mas a prefeitura não consegue ter todos funcionando. Ele afirmou não ter notícia de pacientes que ficaram sem atendimento do Samu e pediu que os casos sejam comunicados à secretaria, pelo telefone 2791-3014. O secretário de Saúde de Meriti, Iranildo Júnior, negou que haja déficit de ambulâncias na cidade.
Até o fim do ano, o Ministério da Saúde vai aumentar o repasse mensal de verba ao Cisbaf: de R$ 19 mil passará para R$ 135 mil. Com isso, o Cisbaf vai contratar funcionários, deixando de depender dos municípios para ter atendentes e médicos.

