Adelson Elias Vasconcellos
Ao invés de responsabilidade, o governo faz a opção estúpida de andar no fio da navalha e por razões puramente eleitoreiras.
De diferentes formas, já demonstramos aqui inúmeras manipulações estatísticas que os governos petistas praticam, principalmente na economia e no campo social, para mascararem sua incompetência.
Claro que não chegamos (ainda) ao exagero do que se assiste acontecer na Argentina, de Cristina Kirchner, onde os diretores de institutos de pesquisas independentes correm o risco de serem presos se divulgarem qualquer coisa com a qual o governo discorde. A credibilidade do governo no campo da estatística, interna ou externamente, é abaixo de zero.
Para não parecer “manipulador”, o governo Dilma inventou uma tal contabilidade criativa (expressão adotada por Guido Mantega), que são os instrumentos e artifícios utilizados para esconder a realidade das contas públicas.
Em diferentes ocasiões, mostramos aqui uma das vigarices comumente empregada pelo governo petista que é a que diz respeito à divida pública.
De forma sorrateira, a área econômica do governo emprega em seus cálculos, a tal “dívida líquida”, que é o total da dívida menos os créditos que o governo tem como dividendos das estatais e créditos junto aos bancos oficiais por empréstimos concedidos para expansão do crédito ao consumidor.
Ocorre, e disto já demonstramos, que o Brasil é o único no mundo que utiliza a dívida pública líquida para medir sua relação com o PIB. No restante do planeta o indicador é o da dívida bruta, que, no fundo, é o que realmente importa.
Para o leitor ficar atualizado, informamos que a dívida pública apresenta os seguintes números (toso oficiais):
• Dívida interna: R$ R$ 2.823.336.278.341,86, portanto se aproximando de incríveis R$ 3 TRILHÕES
• Dívida externa: US$ 441.757.289.145,05, considerando-se a paridade real/dólar em torno de R$ 2,00, equivaleria a R$ 883.514.578.290,10
• DIVIDA PÚBLICA TOTAL: R$ 3.706.850.856.631,95.
O total de juros que o governo pagou aos seus credores, em janeiro de 2013, para que o valor acima não aumentasse, foi de R$ 324.737.075.912. Convenhamos, uma fortuna.
Se os números acima se mantivessem neste patamar, talvez a gente não se importasse com eles. Afinal, se este endividamento todo fosse canalizado para investimentos, no campo da infraestrutura (rodovias, aeroportos, ferrovias, hidrovias e portos), e no campo da melhoria dos serviços públicos (segurança, transporte público, educação, saneamento básico), poderíamos até ponderar que seria um preço a pagar pelo desenvolvimento do país.
Ocorre que este crescimento vertiginoso da dívida pública é resultado dos gastos correntes em crescimento constante, desde que o PT chegou ao Planalto, e que a gente vem relatando aqui pelos levantamentos que são feitos pelo site Contas Abertas. A qualidade destes gastos é ruim e ver a dívida aumentando por conta deles é impossível não condená-los.
Na semana passada, o governo divulgou que a dívida pública houvera caído para baixo de R$ 2,0 trilhões. Contudo, o número divulgado refere-se a dívida líquida, e não ao total que é, afinal, o que realmente importa, e sobre o qual o mundo todo mede sua relação com o PIB.
Conforme editorial do Estadão reproduzido mais abaixo, “...Ao contrário do afirmado pelo secretário, o endividamento tem crescido. A dívida bruta do governo geral (administrações federal, estaduais e municipais e INSS) passou de 54,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2011 para 58,7% em dezembro de 2012. Subiu para 59,2% em janeiro deste ano e ficou praticamente estável em fevereiro, na marca de 59,1%. A dívida líquida é mascarada por créditos muito discutíveis, como aqueles correspondentes a empréstimos fornecidos aos bancos da União”(...)
Vimos também que, enquanto a arrecadação federal tem quedas por conta das desonerações pontuais praticadas em favor de alguns setores privilegiados, as despesas, a seu turno, não param de crescer. Isto, em condições normais, seriam suficientes para que o governo mudasse seu discurso e a administração de suas contas. É visível a deterioração, muito embora o governo negue e não admita (pelo menos externamente).
O pior é que, conforme declarações do senhor Arno Augustin, secretário do Tesouro, a situação tende a se agravar ainda mais. Isto fica claro quando se percebe que o governo não ficará comprometido, por exemplo, com um superávit pré determinado, que poderá oscilar de acordo com os caprichos da soberana que, a rigor, só pensa naquilo: reeleger-se em 2014. E danem-se os interesses e a credibilidade no Brasil. Ao invés de responsabilidade, o governo faz a opção estúpida de andar no fio da navalha e por razões puramente eleitoreiras.
Somente de alguns meses para cá, analistas e a imprensa em geral, vem criticando o modo irresponsável como as contas públicas vem sendo administradas pelo governo da senhora Dilma Rousseff. Aqui no blog, contudo, este alerta data de uns quatro anos ao menos.
E vamos nos antecipar mais uma vez para declarar o seguinte: se nada for feito, se o governo continuar insistindo nesta política suicida de expansão monetária, seja pela expansão desenfreada de crédito destinado ao consumo, seja pelos inúmeros subsídios que vem pendurando nas contas do Tesouro Nacional, não apenas a inflação tende a fugir do controle, como poderemos atingir um grau de instabilidade econômica da qual julgávamos livres.
Olhando-se para o calendário, e considerando as promessas descabidas que vem sendo feitas por Dilma Rousseff país afora, neste seu périplo de campanha pré eleitoral, associadas ao calendário eleitoral, não há menor chance de vermos este quadro reavaliado e descontinuado. O governo federal vai continuar nesta farra irresponsável pelo menos até outubro de 2014.
Se Dilma for reeleita, ela mesma terá que colher o que está semeando agora. Porém, se for um candidato da oposição, ao assumir, gastará pelo menos metade de seu mandato tentando desfazer os nós da herança maldita que lhe será entregue.
É pantanoso o terreno em que a economia brasileira vem pisando nestes últimos anos. Já perdemos a preciosa oportunidade para fazer deslanchar nosso desenvolvimento, ao deixar passar o trem da história em que nossa credibilidade, duramente reconquistada, estava em alta e o mercado investidor manifestava interesse real no Brasil. Hoje, porém, não só os investidores estão menos receptivos ao nosso país, como ainda vem crescendo a desconfiança de que a segurança jurídica mínima que estamos oferecendo é danosa ao capital privado.
E insisto: a inflação que se vê atualmente, é muito mais consequência das más escolhas feitas pelo governo Dilma do que por razões sazonais, como se tenta fazer crer. São sintomas de um governo que ainda não sabe o que fazer, que não tem projeto e sequer um diagnóstico preciso das nossas dificuldades. Tanto é assim que, por diferentes vozes, o governo já abandonou a meta de inflação que deveria de 4,5%, e já adota um discurso tolerante para um índice acima de 5%. Para um país que cresce pouco, e para um momento de transição da economia mundial, este índice deveria cair à metade. Aceitá-lo neste nível, é aceitar passivamente que se jogue no lixo todas as conquistas econômicas destas duas últimas décadas.




