Cecília Araújo
Veja online
Especialistas consultados pelo site de VEJA ajudam a entender quem são as pessoas mais propensas a aderir ao extremismo atualmente e como elas agem
Robert F. Bukaty/AP
Boston homenageia vítimas de atentado
O atentado em Boston, na semana passada, orquestrado pelos irmãos de origem chechena Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, é mais uma prova de que a natureza do ativismo islâmico radical contra populações civis em várias partes do mundo ocidental, em especial nos Estados Unidos, mudou. Cada vez mais a internet se mostra capaz de radicalizar e treinar um jovem disposto à vingança e propenso à violência. O terrorismo moderno não precisa de um comando central, nem mesmo de recrutar insurgentes. Suas ações são de menor proporção, anárquicas e improváveis, passando muitas vezes despercebidas aos olhos atentos das agências de inteligências locais e globais. Especialistas consultados pelo site de VEJA ajudam a entender o que pode levar essas pessoas comuns, sem ligação direta às grandes organizações extremistas, a realizar tais ataques. “Por muitas almas descontentes, a jihad é vista como uma causa heróica - uma promessa de que qualquer pessoa de qualquer lugar pode deixar sua marca contra o país mais poderoso do mundo”, diz o antropólogo americano Scott Atran.
Com a ajuda do Departamento de Defesa americano, uma equipe de investigação multinacional e multidisciplinar liderada por Atran tem analisado os processos mentais e sociais que levam algumas pessoas a se tornarem radicais nos EUA. Segundo o especialista, que é professor da Universidade de Michigan e autor do livro Talking to the Enemy (Falando com o Inimigo, 2010), os terroristas que agem em território ocidental hoje são parte da população comum - não necessariamente psicopatas ou sociopatas, nem mesmo gênios estrategistas. “Geralmente são jovens em fase de transição - estudantes, imigrantes, desempregados - propensos a se identificar com movimentos que pregam o companheirismo e a promessa de aventura e glória. A maioria deles teve uma educação secular, inclinando-se à causa jihadista na adolescência ou até os 20 e poucos anos”, diz Atran.
Danny Zahreddine, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-Minas, destaca que a juventude é o momento em que qualquer ser humano busca sua identidade, e fica ainda mais difícil encontrá-la quando suas raízes estão do outro lado do mundo, em uma região que vivenciou repetidos conflitos e ainda enfrenta disputas violentas. “Os chechenos, mesmo aqueles que não deixaram a região do Cáucaso, vivem em uma condição de marginalidade, são perseguidos pelos russos como se precisassem ser eliminados. Por isso tantos buscam asilo ou refúgio em outros países”, afirma. “Nesse contexto, os EUA acabam sendo vistos por eles como uma oportunidade de crescer, mostrar sua competência. Porém, quando chegam lá, a realidade é outra: sofrem uma profunda xenofobia, especialmente os muçulmanos, desde o atentado de 11 de setembro de 2001, com a intensificação da guerra ao terror iniciada por George W. Bush”, acrescenta.
Para Edwin Bakker, especialista em contraterrorismo da Universidade de Leiden, na Holanda, o atentado na Maratona de Boston foi essencialmente um ato de expressão pessoal, e a mensagem dos terroristas foi algo como “somos nós contra o mundo/os EUA” ou “olhem para nós”. “As necessidades e desejos pessoais dos autores - em particular Tamerlan, que parecia menos integrado à sociedade americana do que Dzhokhar - vieram em primeiro lugar. Os autores nem sequer se preocuparam em formular uma mensagem política (separatista da Chechênia) ou religiosa (islamismo radical)”, diz. “Se eles tiveram algum treinamento no exterior - supõe-se que o irmão mais velho pode ter se relacionado com terroristas quando esteve na Rússia, no ano passado -, ele foi tão rudimentar quanto os explosivos usados no atentado. Pode ser que Tamerlan tenha tido contato com extremistas islâmicos ou separatistas chechenos, mas dificilmente é membro de uma rede”, acredita.
Radicalização on-line -
O caminho para a radicalização pode levar anos, meses ou apenas dias, dependendo da vulnerabilidade da pessoa e da influência de outros. Geralmente, aquele que se radicaliza tem um parente ou um amigo de amigo com alguma ligação com o exterior, alguém que possa lher dar o mínimo de treinamento e motivação para carregar uma mala de explosivos ou puxar o gatilho. Mas as redes sociais e a internet de uma forma geral são suficientes para radicalizar um jovem em crise e lhe oferecer informações operacionais, além de garantir o que mais impulsiona o terrorismo moderno: a publicidade. “A internet há anos se mostra como catalizador de processos sociais e políticos, diminuindo fronteiras e dando acesso a informações que antes eram sigilosas ou restritas a alguns grupos distantes. Qualquer um pode facilmente aprender a fazer uma bomba com uma panela de pressão, entrar no Google Earth e ver o percurso de uma maratona”, diz Zahreddine.
As pesquisas de Scott Atran indicam que hoje as conspirações terroristas contra populações civis ocidentais tendem a ser pouco sofisticadas, e não controladas por organizações internacionais. Ao contrário, elas parecem partir de redes domésticas, ou mesmo caseiras, com o objetivo de defender menos uma causa, e mais seus próprios interesses, de seus amigos e familiares. Os terroristas modernos em geral se motivam um ao outro dentro de “irmandades” de parentesco real ou fictício. É como se a injustiça mundial ressoasse com aspirações pessoais frustradas, e a indignação daria sentido e impulso para a radicalização e a ação violenta. O resultado é um movimento nada hierárquico, com ações de menor amplitude e autônomas, em constante evolução por meio das redes sociais. “Os ataques terroristas bem-sucedidos nos últimos anos são tão anárquicos, fluidos e improváveis que os autores conseguiram passar despercebidos, apesar de as agências de inteligência em algum momento terem seguido seus passos”, diz.
Novo desafio -
Segundo Atran, o ativismo islâmico radical moderno tem três características centrais: seus objetivos finais são vagos e superficiais - muitas vezes não mais profundos do que a vingança contra a injustiça que os muçulmanos sofrem em todo o mundo -, seus modos de ação são decididos de forma pragmática, com base na tentativa e erro, e aqueles que se unem à causa não são recrutados, eles próprios buscam alguma ligação com o jihad global, pessoal ou virtualmente.
“Os ataques da Al Qaeda contra o Ocidente diminuíram em intensidade, mas os jihadistas passaram a incentivar jovens autônomos que vivem em países ocidentais a manter viva a ameaça terrorista. Por um lado, a possibilidade de que haja um novo 11 de setembro é mínima. Porém, os terroristas solitários são muito mais difíceis de serem detectados e detidos pela inteligência americana”, pontua Bakker.
Nos Estados Unidos, há muitos grupos de imigrantes que procuram mais do que as habituais lutas por desenvolvimento economômico. Mas o "choque de civilizações" entre o Islã e o Ocidente pode ser confuso: os extremistas não reivindicam o ressurgimento das culturas tradicionais, mas sim o seu colapso. Os jovens deslocados das tradições milenares de seu povo na verdade buscam uma nova identidade social, que lhe dê um significado pessoal. E decifrar a cabeça dessas pessoas é o grande desafio agora. “As autoridades americanas e europeias estão cientes de que sua principal ameaça hoje não vem do núcleo central da Al Qaeda ou de suas filiais regionais já estabelecidas, mas sim das células autônomas ou mesmo de terroristas solitários”, diz Bakker. “Parece cada vez mais difícil estar totalmente seguro, não importa o quanto a gente gaste em segurança ou sacrifique as nossas liberdades individuais. A iminência desse tipo de ação terrorista não cabe nas antigas respostas e alertas de segurança global", completa Atran.
Quem são os irmãos Tsarnaev
Tamerlan, de 26 anos, era casado e tinha uma filha de 3 anos. Participava do Golden Gloves, torneio de boxe amador dos Estados Unidos, e pensou um dia em competir pelo país. Ao mesmo tempo, parecia se sentir um peixe fora d’água ali. "Não tenho um único amigo americano, não consigo compreendê-los, eles não têm valores”, afirmou certa vez. Pessoas próximas a Tamerlan contam que nos últimos anos ele se mostrava cada vez mais atraído pelo islamismo radical. No YouTube, há vários vídeos postados por ele com imagens de clérigos radicais islâmicos da Chechênia e outras partes do mundo proferindo mensagens ameaçadoras ao Ocidente enquanto bombas explodem no segundo plano. Em 2011, o FBI (polícia federal americana) chegou a entrevistar Tamerlan a pedido da Rússia sobre possíveis conexões com extremistas chechenos, mas a investigação não foi adiante. No ano passado, Tamelan visitou o pai no Daguestão e pode ter tido contato com jihadistas que o motivaram a agir. Após o atentado, foi morto em um tiroteio com policiais.
Dzhokhar, o irmão mais novo, de 19 anos, era estudante da Universidade de Massachusetts, em Dartmouth, e jogava futebol na instituição. Conhecido pelos amigos como Jahar, ele conseguiu entrar na concorrida faculdade americana por meio de uma bolsa escolar, mas ultimamente estava indo mal nas aulas. Segundo conhecidos, mantinha uma boa relação com os colegas e participava de encontros extraescolares, inclusive festas. Não costumava discutir sobre política e nunca havia sido rotulado como ativista islâmico, nem mesmo como particularmente religioso. Alguns dizem que ele “estava sempre sorrindo” e “tinha um coração de ouro”, embora outros o descrevam como sério, agressivo e suscetível às más influências do irmão mais velho. Nos últimos meses, os tweets de Jahar se tornaram um tanto obscuros: "Não vou correr, vou apenas matar todos vocês", "Eu pareço ser tão fraco assim? Pouco sabem esses cães que estão latindo para um leão”.

