terça-feira, abril 30, 2013

Um caro legado geopolítico


Rodrigo Botero Montoya, 
O Globo


Não é frequente que um país de tamanho médio e escasso dinamismo econômico adquira um protagonismo internacional desproporcional. Mas a trajetória da Venezuela desde 1992, quando Hugo Chávez irrompeu na atividade pública com um golpe militar sangrento, tem pouco de usual.

Como homem de poder e dirigente político, o Comandante Chávez foi um marco na história venezuelana. Impôs sua vontade à sociedade e a polarizou.

Seu desaparecimento deixa uma nação traumatizada. Assim sugere o caráter faraônico que os atuais dirigentes decidiram imprimir a seu funeral. As implicações de seu governo para as instituições democráticas e a viabilidade do sistema econômico começam a se tornar evidentes em curto prazo. A avaliação dos custos do socialismo bolivariano condicionará o debate político nacional dos próximos anos.

A conveniência de manter vigente um projeto geopolítico superdimensionado é um assunto que vai requerer a atenção imediata do novo governo, seja qual for sua conformação.

A Venezuela acabou se tornando uma plataforma insuficiente para a missão para a qual Chávez se sentiu chamado: destruir o capitalismo e transformar o mundo. Confrontou o império e estabeleceu alianças com governos de países cujo denominador comum era a postura antiocidental. Isto explica sua amizade com os regimes de Irã, Iraque, Líbia, Bielo-Rússia e Síria, carentes de legitimidade democrática.

As diversas manifestações de antissemitismo oficial conduziram à expulsão do embaixador de Israel na Venezuela. A consequente emigração de integrantes da comunidade judaica local implicou uma substancial perda de talento e de capacidade empresarial.

A tentativa de excluir a participação do Canadá e dos Estados Unidos dos assuntos hemisféricos implicou o debilitamento da OEA e o rechaço dos acordos comerciais com esses países. Hugo Chávez se ufanava de haver sepultado a iniciativa da Alca, com a ajuda de Néstor Kirchner e de outros, durante a Cúpula das Américas de 2005, em Mar del Plata.

Como alternativa, impulsionou a criação da Alba e retirou a Venezuela do Grupo Andino e do acordo comercial G3, com Colômbia e México. Houve um marcado contraste entre as invocações bolivarianas à unidade latinoamericana e seu comportamento desagregador e, inclusive, belicoso.

A anunciada sepultura da Alca terminou com um grupo de países do Pacífico e a República Dominicana comprometidos com o livre comércio, de um lado, e os países de vocação protecionista, de outro.

A estreita relação ideológica com Cuba se cimentou numa vultosa transferência financeira a Havana em forma de fornecimento de petróleo a preços subsidiados.

É pouco provável que a continuação do fluxo de recursos de igual magnitude seja sustentável. Sua aliança com a Argentina se baseou no humor autoritário de Cristina Kirchner, em ressentimentos similares e nas possibilidades de corrupção que oferecem os negócios entre empresas estatais de ambos os países.

O fortalecimento energético dos EUA reduziu a importância do petróleo venezuelano para o mercado americano. Por outro lado, a dependência da Venezuela de gasolina e alimentos, procedentes de seu principal sócio comercial (os EUA), se ampliou.

(*) Rodrigo Botero Montoya é economista e foi ministro da Fazenda da Colômbia.