Angela Bittencourt
Valor
O ciclo de aperto monetário terá a duração necessária para que a inflação decline quanto o Banco Central (BC) considerar suficiente. No momento em que esse patamar for atingido, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve interromper o ciclo de aperto monetário, avalia a economista Monica Baumgarten de Bolle, sócia diretora da Galanto Consultoria e diretora da Casa das Garças. Embora sem cravar uma projeção para a Selic ou para o ciclo de alta, a economista considera que se a inflação de maio e junho melhorar, é possível que o ciclo seja menor do que o mercado hoje imagina – 0,75 ponto em vez de 1 ou 1,25 ponto percentual. “Essa indicação ficou evidente no comunicado que sucedeu a última decisão do Copom”, diz Monica que não identifica convicção alguma do BC ao iniciar o aperto monetário.
Em entrevista ao Casa das Caldeiras na manhã da última sexta-feira, Monica reconheceu que o mercado reagiu à ata branda do Copom como o esperado, mas também ficou claro que as taxas de juros fecharam, numa reação que foi além do desejado pelo BC que não quer propriamente mexer na Selic, na sua opinião.
Exatamente por esse motivo, entende a diretora da Casa das Garças, o BC quer que sua comunicação provoque determinada reação [no mercado] que o ajude a combater a inflação que está aí. “Tudo o que se seguiu a partir da ata [discurso do diretor de Política Econômica, em evento realizado em São Paulo na quinta-feira, e manifestação da Diretoria do BC compartilhando a opinião manifestada pelo diretor, mais forte que a da ata] foi uma tentativa de desfazer uma parte da mensagem enviada pelo documento”, pondera.
Ainda que o BC consiga conduzir a curva de juros na direção que deseja, Monica de Bolle avalia que a tentativa da autoridade monetária “de operar a curva de juros no gogó é complicada e arriscada”. “O BC não quer elevar a Selic, mas sabe que precisa. Continuará tentando fazer o ajuste no discurso, mas no discurso não é possível chegar a uma sintonia fina de projeções ou expectativas. É de se esperar, portanto, sinais esquizofrênicos no mercado de juros daqui para frente, com o BC dando um sinal para um lado e o mercado reagindo para outro. O BC tentando reconduzir o mercado para onde prefere que os juros estejam. E o mercado nem sempre compreendendo o que isso significa. O saldo dessa opção de comunicação [ou de política] é um aumento considerável na volatilidade”, explica.
A comunicação tortuosa do BC comporta riscos consideráveis na avaliação da diretora da Casa das Garças, para quem o primeiro deles é [o risco] de reputação e credibilidade. “A comunicação do BC só piora. E o risco institucional que já está colocado é importante porque reputação se perde apenas uma vez. No campo operacional, a volatilidade acentuada principalmente nas projeções de juros com prazos mais longos é muito grave porque essas projeções são referência para as empresas. Incerteza quando ao juro longo ou à política monetária a ser aplicada traz incerteza e a incerteza prolonga a paralisia dos investidores. Nesse sentido, um grande erro de política econômica está sendo cometido porque o resultado pode ser um desincentivo aos investimentos no país”, completa a economista.