quarta-feira, julho 25, 2007

TRAPOS & FARRAPOS...

NO BARRANCO DE CONGONHAS, A LAMA QUE ESCORRE...
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

A lama encheu a avenida. Pouco a pouco, um barranco, com enormes muros de arrimo, começou a descer rumo à avenida. A chuva, nem tão forte assim, respingava com suas gotas um caudal de barro, grama, entulhos. Como se brotasse da terra, num chorar intermitente e de profunda dor, uma canaleta mostrava sua cara. Dela pendiam aquelas lágrimas quase absurdas, e mesmo que tardia, a terra chorava um choro sentido, ela que ali estivera passiva como uma personagem, uma testemunha ocular, que assistira um vôo que não freava no solo em que tocava, uma aeronave que se arremetia por sobre a avenida e ia de encontro ao prédio erguido do outro lado, onde explodiria, recebendo ali a última de suas encomendas para despachar, mas que embarcaria no silêncio do cargueiro da morte, levando consigo dezenas de vidas, mutiladas pela carruagem da irresponsabilidade.

Na lama que ora escorria iam junto todas as declarações, a falta de escrúpulos, as mentiras, as farsas, as empulhações de um governo e todo seu séqüito de atores delinqüentes. Tudo o que profanaram os ouvidos nacionais, tudo o que eles fecharam os olhos para não ver, como se negativa suficiente fosse para encobrir seus desmandos e seu descaso, a lama agora empurrava para a avenida, por onde passam carros, ônibus, pessoas. Ali, ainda úmida, contorciam-se os estertores de agonias das versões oficiais e oficiosas da mentira escancarada aos olhos de todos. Misturada aquela lama toda, embrulhado naquele barro lavado, misturavam-se a honra e a cara de um governo eleito para evitar a dor da tragédia anunciada, para evitar a lama que enxovalha o poder central. Escorria a decência pouca que ainda havia e que agora jaz sem nada poder evitar, arregaçando o verdadeiro descalabro de um governo corrupto como nunca se viu, incompetente como nunca se teve, irresponsável e sem honra como jamais se terá.

Não mais se poderá dizer que a crise não existe, ou que ela é fabricada pela mídia reacionária, pela mídia das elites, pela mídia burguesa; não mais se poderá dizer que a crise é um produto fabricado e plantado pelos inimigos políticos do governo; ou, que a crise possa ser fruto do progresso, como se ineficiência e incompetência pudesse ser sub-produto do desenvolvimento, onde ocorre justamente o contrário.

Na lama que escorre barranco abaixo, e vai se resvalar até o leito da avenida à sua frente, vai junto toda esta ladainha federal, toda esta fala embusteira e desavergonhada, vão-se todas as tolices e parlapatices que nos atiraram na cara nos últimos dez meses. Desnudou-se na lama do barranco que se esvai, a farsa de um governo assassino e mau caráter.

O barranco, que assistira o desastre à sua frente, não mais se conteve: aproveitou a chuva que caía, e cheio de dor pelo assassinato em massa que o fizeram presenciar, vomitou sua revolta, sua tristeza. Jorrou na lama putrefata de um governo viciado na mentira, na farsa, na jogadinha de pegadinhas políticas, nas falas zombeteiras de palacianos sem graça, sem alma, sem honra, sem ética, sem caráter. O barranco da cabeceira do aeroporto de Congonhas cansou e descarregou na avenida sua indignação. Mostrou o nível mais baixo a que um governo pode chegar. Rendeu-se à dor dos que foram vitimados pelos imorais e irresponsáveis que riam e riem das desgraças que afligem parte do povo brasileiro, parte esta que trabalha, que estuda, que lutou e se sacrificou para serem profissionais dignos e honestos, que não se valeram de suas relações promíscuas para galgarem a fidalguia dos gigolôs da nação, vagabundos imorais, para sobreviverem. Gente que um dia também foi pobre, mas que não se acomodou à esmola degenerativa e preguiçosa, jogada como pérolas aos porcos, que sobre ela pisam mas se agarram e se vendem por míseros trocados, quando deveriam cobrar não a esmola servil mas as oportunidades de um trabalho digno, de uma vida digna, de um governo digno.

Portanto, o barranco de Congonhas ruiu porque não suportou mais ser um agente passivo da imoralidade de um governo podre e deprimente. Na sua lama, mistura-se não apenas um lamento de dor, mas um grito de basta: ele não mais quer testemunhar novas desgraças que poderiam ser evitadas se governo houvesse neste país. Ele se nega a continuar conivente e cúmplice de uma horda de medíocres que não apenas martirizam o país, mas que também disseminam o vírus fétido do caos.

A lama do barranco de Congonhas, que escorre e vai para a avenida carrega consigo, portanto, toda a veleidade, toda a imundície sórdida do governo mais podre que este país já teve. E na sua desistência de ser cúmplice de novas tragédias, o barranco de Congonhas está nos alertando para lutarmos e resistirmos, antes que Lula e seus delinqüentes imorais exterminem com os poucos honestos que ainda restam em novas fogueiras em louvor do caos e do descalabro.

O barranco de Congonhas chorou pelos que se foram visceralmente cozidos no fogo da indecência mas, dos seus soluços e lamentos, brotou o alerta para os que ainda resistem, permanecerem lutando e se indignando. Por pior que seja o caos que reina entre nós e nos vitima todos os dias, em repetidas pequenas tragédias que não matam a vida e sim a esperança, ele não pode mais do que a força da nossa fé, do que a força do caráter dos bons e dos honestos, dos trabalhadores e dos dignos. Afinal, como a lembrar meu avô, se não há bem que dure, por certo também é que não há mal que um dia, cedo ou tarde, não acabe...

Mãe de vítima da TAM acusa Lula de falsidade

Cláudio Humberto

A mãe de Fernando Soares Zacchini, 41, uma das vítimas do Airbus da TAM, divulgou uma carta aberta criticando a atitude do governo e principalmente do presidente Lula em relação ao acidente. Adi Maria Vasconcellos Soares afirma que a tragédia já era prevista e que se surpreendeu com a reação do presidente que ela considerou falsa e classificou como um insulto. "Não pensei que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas." Luiz Fernando trabalhava para o Sindicato dos Técnicos-Científicos do Estado do Rio Grande do Sul (Sintergs) e deixou mulher e um filho. Veja a íntegra da carta:

"Aos governantes e à família brasileira,

Perdi o meu único filho.

Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior.

Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que ontem oferecemos à alma de meu filho, Luís Fernando Soares Zacchini, mais de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas. Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua esposa, por todos parentes e amigos. Por todos os sacrificados na catástrofe do Aeroporto de Congonhas.

Há muito eu sabia que desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que os vôos neste país não oferecem segurança no céu e na terra. Que no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos superou o respeito à vida humana. A culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Um Governo alheio a vaias é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis e confiáveis empresas aéreas do mundo, a VARIG, em benefício da TAM, desde então, a principal provedora de bilhetes pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para supostos erros de bodes expiatórios, permitindo aos ambíguos incompetentes que nos governam continuarem sua ação impune. Que nossos aeroportos não têm condições de atender à crescente demanda de vôos cujo preço é o mais caro do mundo. Quando os usuários aguardam uma explicação, à falta de respeito ao cidadão juntam-se o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando aos viajantes prejudicados que relaxem e gozem.

Assuntos de alcova não condizentes com a reta postura moral e respeito exigidos no exercício de cargos públicos. Assessores do presidente deste país eximem-se da responsabilidade e do compromisso com a segurança de nosso povo exibindo gestos pornográficos. Gestos mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Ao invés de se arrependerem de uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e amável como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos. Aqueles que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil nada fazem exceto conchavos. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem caixa preta de sucata. Tanto que oneraram e humilharam o país ao levar o material errado para ser examinado em Washington. Essas são as mesmas autoridades agraciadas com louvor e condecorações do Governo em nome do povo brasileiro, enquanto toda a nação, no auge de sofrimento, chorava a perda de seus filhos.

Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto, bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo obrigam-nos a esquecer a própria dor.

Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigido mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto a forçada e patética tentativa que demonstrou ao simular uma lágrima. Não, francamente eu não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava presenciar a estúpida cena: ver o chefe da nação sofismar um sofrimento que não compartilhava conosco.

Senhores governantes: há dias vejo o mundo através de lágrimas amargas mas verdadeiras. Confundem-se com as lágrimas sinceras e puras de todos os corações amigos. Há dias, da forma mais dolorosa possível, aprendi o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.

Não jorra das bocas, flui do coração!

E que Deus nos abençoe!

Adi Maria Vasconcellos Soares
Porto Alegre, 21 de julho de 2007."

Vargas, JK, Jango, Costa e Silva e Lula

Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
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Ao finalizar sua coluna de sábado na TRIBUNA DA IMPRENSA, Helio Fernandes focalizou um episódio de grande importância na história moderna do Brasil ao lembrar que Vargas começou a cair (e morrer) em novembro de 53, quando não resistiu ao manifesto dos coronéis e demitiu João Goulart do Ministério do Trabalho. Jango tinha então 35 anos, havia lançado a candidatura de Getúlio às eleições de 50 em almoço na sua fazenda e vinha dando grande força aos sindicatos.

Mal pensavam, Jango e Vargas, que, vinte anos depois, surgiria um líder sindical sucessor de ambos nas lutas sindicais do ABC paulista, e que mais tarde seria presidente da República. O apoio de Goulart aos sindicatos despertou a desconfiança e a revolta nas Forças Armadas. Da mesma forma que na UDN de Carlos Lacerda. Temiam algo semelhante ao Outubro de 17, na União Soviética, "Os dez dias que abalaram o mundo", belo título da obra clássica sobre a Revolução de outubro, do jornalista americano John Reed.

O manifesto dos coronéis era aberto por Amaury Kruel, cujo destino seria o de se reaproximar de Jango, tornando-se seu ministro do Exército, e dele se afastar definitivamente em 31 de março de 64, quando aderiu ao movimento militar que depôs o presidente da República. Goulart foi, assim, por duas vezes derrubado por Kruel. Coincidência ou estava escrito no tempo, como costumam achar os fatalistas? Não sei. Mas o tema de Helio Fernandes não foi o mistério.

Pelo contrário, ele percorreu a estrada da clarificação. De fato, ao ceder à pressão descabida (os coronéis nada tinham com a política trabalhista), Vargas cedeu e, com isso, abriu um precedente e começou a perder estabilidade. Tanto é assim que, menos de um ano depois, em agosto, deparou-se no último ato de sua vida com o documento não dos coronéis, mas dos generais, exigindo sua renúncia. Vargas, ao contrário do que praticou em 53, era muito firme em suas decisões. Era dual, mas não era dúbio. Não vacilava. Agiu desta forma na Segunda Guerra Mundial equilibrando o País entre Churchill, Roosevelt, Hitler e Stalin. Este desafio não era para qualquer um. Errou em 53, como destaca HF, morreu em 54, como está na história.

Juscelino Kubitschek não enfrentou o conflito mundial, mas decidia com firmeza. Logo ao assumir, em janeiro de 56, percebeu que sem o general Odilo Denys no comando do I Exército e sem o general Lott no Ministério da Guerra, como se chamava à época, não governaria. Não perdeu tempo. Denys atingira a idade limite. JK enviou mensagem ao Congresso, a lei está valendo até hoje, permitindo a reconvocação de militares para o serviço ativo.

Não vacilou na anistia aos rebeldes de Jacareacanga, em 56, tampouco na anistia aos revoltosos de Aragarças de março de 60. Não custava a decidir. Alterou pouco sua equipe de governo ao longo de cinco anos, dourados por sinal. Só nomeou pessoas habilitadas. Não escolheu qualquer incompetente. Era seu estilo.

O estilo de João Goulart era completamente diferente. Vargas e JK tinham vocação para o poder, cada qual à sua maneira. Goulart não. Detestava situações difíceis, confrontos, debates. Havia Carlos Lacerda em um de seus caminhos, Brizola em outro. Não resistiu às contradições. Tinha horror a lidar com elas. Mas elas são próprias da política. Costa e Silva teve decisão no desfecho do golpe, ocupando o Palácio de Caxias.

No poder, não ocupou o espaço do Planalto. Limitava-se a assinar, lastimando as cassações e suspensões de direitos políticos impostos pelo Alto Comando. Foi encurralado em 1968 quando do Ato 5. Em junho de 69, um derrame cerebral o afastou do governo. Morreria meses depois. Na realidade, foi deposto em dezembro de 68. Castelo Branco, seu antecessor no ciclo dos generais, havia sido parcialmente deposto em outubro de 65, quando foi obrigado a assinar o Ato 2.

Na área militar, Ernesto Geisel, responsável pela brutal censura à TRIBUNA DA IMPRENSA, decidia com firmeza, reconheça-se. Demitiu o general Ednardo, demitiu o ministro Silvio Frota, demitiu o general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, promoveu João Figueiredo de qualquer maneira e dele fez seu sucessor.

Chegamos a Luis Inácio Lula da Silva. Eleito e reeleito, consagrado pelo voto popular, ocupando legitimamente o poder, ao contrário dos generais que o antecederam no tempo e na história, não gosta de afastar aqueles que julga amigos, mas que na realidade não merecem sua amizade porque só lhe criam problemas.

Custou a demitir o ministro José Dirceu, tendo, entretanto, a sorte de encontrar uma Dilma Rousseff, que, com firmeza, apagou o incêndio e estabilizou o presidente no Alvorada e na largada inicial da administração. Até o momento ainda não demitiu, como deveria ter feito, a ministra Marta Suplicy. Não demitiu, como as condições exigem, o ministro Valdir Pires, um inerte que tenta se omitir da crise aérea. No sábado, por exemplo, no "Jornal nacional" da Globo, teve a coragem de dizer que o tráfego de aviões não era de sua esfera.

Como não? Se ele é o ministro da Defesa, e a circulação de aeronaves é subordinada ao comando da Aeronáutica, e este comando é vinculado ao Ministério da Defesa, ao contrário do que afirmou, a responsabilidade é sua, sim. Valdir Pires fugiu da responsabilidade. Finalmente chegamos ao triste episódio Marco Aurélio Garcia. O homem do gesto obsceno, sinal de comemoração das mais absurdas que a história pode registrar. O presidente Lula deveria tê-lo demitido imediatamente. Mas não o fez. A contemplação é péssima para o presidente, péssima para o governo, pior ainda para o País.

A perplexidade e o silêncio dizem tudo. Escrevi sobre vários presidentes, falei de vários estilos. E João Figueiredo? Não decidiu o Riocentro, não decidiu a explosão deste jornal, não investigou a bomba da OAB. Incrível.

A síntese da crise, ou como chegamos a este ponto...

Blog Lucia Hippolito

O comentarista deste blog que se assina Ronaldo me pede para responder sinceramente se “aceitaria ocupar uma das posições do governo responsáveis pelo sistema aeroviário.”

A resposta é “não”, Ronaldo. Minha função não é esta, não tenho qualificações técnicas para tanto.

A hora é muito grave para experimentações.

Entendo que mesmo pessoas com currículo adequado estejam temerosas de aceitar um convite para assumir um cargo desses.

Começando pelo Ministério da Defesa. Sua criação vem sendo discutida desde a Constituinte de 46, mas o assunto nunca tinha ido adiante.

Depois de 21 anos de ditadura, o país preferiu não discutir o papel das Forças Armadas em regime democrático. Afinal, para que servem?

Esta pergunta jamais foi respondida a sério.

Os governos civis reduziram fortemente os recursos das Forças Armadas que, sucateadas e sem projeto, ficaram à deriva no Brasil democrático.

Quando assumiu em 1995, Fernando Henrique declarou que a criação do Ministério da Defesa estava em seu programa de governo.

Mas a articulação política foi muito malfeita. Os militares sem sentiram alijados do processo.

O fato é que jamais aceitaram a criação do Ministério, com a conseqüente perda de status e de poder e a subordinação a um civil.

O segundo problema reside na Infraero. Feudo de oficiais da Aeronáutica, foi entregue a um petista aliado, no primeiro mandato do presidente Lula.

Desde então, pululam denúncias de irregularidades, várias surgidas a partir de sindicâncias do TCU.

Suspeita de superfaturamento nas obras dos aeroportos, transformação dos terminais de passageiros em shopping centers, desprezo por despesas que não têm fita de inauguração – pistas, instrumentos, segurança dos vôos –, tudo isto ronda as últimas administrações da Infraero.

O terceiro obstáculo está na Anac, a agência reguladora criada por lei em 2005 e implantada em março de 2006, para planejar, gerenciar e controlar as atividades relacionadas com a aviação civil, substituindo o DAC, vinculado à Aeronáutica. A Anac sofre o mesmo problema de todas as agências reguladoras: a antipatia por parte do governo Lula. Desde que assumiu, Lula e seus assessores mais próximos insurgiram-se contra o que o presidente chamou de “terceirização do governo”.Assim, a política adotada pelo Planalto foi a de sucateamento das agências, politização excessiva e contingenciamento de recursos.

A tal ponto que vários diretores e presidentes de agências reguladoras pediram demissão antes do término de seus mandatos.

Diversas agências passaram mais de um ano sem um ou dois diretores (Anatel e ANP, por exemplo), inviabilizando a tomada de importantes decisões.

Mais ainda: no caso da Anac, deu-se fenômeno similar ao da criação do Ministério da Defesa: os militares não aceitaram a perda de poder, não concordaram com a criação da Anac.

Resultado: limparam as gavetas e se retiraram, levando consigo a memória institucional.Se tudo isto não basta para afugentar qualquer talento que porventura tivesse espírito público suficiente para enfrentar estes problemas, existe ainda o estilo petista de governar.

Resume-se a esquartejar a administração, criando uma penca de órgãos para fazer a mesma coisa. Estruturas superpostas, esquemas burocráticos rivais, um vigiando o outro.

O resultado é: ninguém tem poder, ninguém tem autoridade, ninguém coordena, ninguém lidera.

Difícil, muito difícil.

Saudade da Varig

Jota Alves (*), Orlando, Flórida (EUA), blog Cláudio Humberto

Vendo as imagens, ouvindo as notícias e lendo grande quantidade de comentários sobre a segunda grande tragédia aérea brasileira, meu deu uma saudade danada da Varig.

A Varig Brazilian Airlines, direta ou indiretamente, esteve na vida dos brasileiros no exterior. Ou foi pelos seus aviões que atravessamos mares e começamos uma nova vida, ou foi nas suas lojas que bebemos na fonte da saudade ou nos sentíamos em casa folheando um JB, um Globo, uma Veja, o Pasquim...

Da Varig eu só tinha ouvido falar. O meu primeiro vôo internacional foi do Rio para Roma. Comigo, uns cem brasileiros a promover Brasília na Europa. Voamos pela Alitália com escala em Recife e Dakar.

Anos mais tarde, voei de Moscou, capital do “comunismo”, pela Aeroflot e fui trabalhar no castelo-símbolo do capitalismo, o Rockfeller Center, na rua 50, bem no centrão de Nova York.

No térreo, bem em frente à catedral de St.Patrick, na Quinta Avenida, ficava a lojinha da Varig. E foi graças a ela, nela e por causa dela que a minha vida tomou outros rumos, levando-me a conquistas na Big Apple.

Com o Clube Brasileiro de Viagem (Brazilian Travel Club), o Brazilian American Promotion Center e dezenas de charters, foram vinte anos de excelente relacionamento profissional, que acabaram levando-me a relacionamentos pessoais com funcionários, comandantes, tripulantes e diretores, entre os quais destaco Erik de Carvalho, Oswaldo Trigueiros e Helio de Souza.

A Varig primava pela pontualidade, pelo bom atendimento no check in, no check out e a bordo. Raramente havia atrasos nos seus vôos de conexão dentro do Brasil. Nossos clientes voltavam satisfeitos. Consultado, dei palpites para a trilha sonora dos vôos internacionais e guardo vários cardápios, excelentes obras de arte. Só mesmo a Air France competia com o menu da Varig. E as nossas aeromoças eram mais bonitas.

Fiquei super contente e orgulhoso quando a Varig finalmente trocou o “z” pelo “s” no seu Brazilian Airlines. Uma grande batalha que travei por ter trocado o “z” pelo “s” no jornal que fundei: o The Brasilians.

É óbvio que na ortografia correta em inglês Brazilian deve ser com z. Mas e daí? Inventamos e mudamos palavras e significados nos idiomas, nos costumes, nos comportamentos, nas gírias, no marketing, na língua escrita e falada que o atrevimento nos enchia de orgulho. Para alguns, patriotada.

Para mim, que comia, bebia, vestia, dormia, acordava, com o Brasil por todos os lados, era ponto de vista, ousadia. Marcar presença. Fazer a diferença.

E era com esse sentimento de pátria, de nação, de povo, de país que a gente via a Varig, uma companhia de bandeira, como a Air France, a Lufhthansa, a Aerolíneas Argentinas, a KLM, a Scandinavian Airlines, Aero Peru...

Como agente de viagem, como empresário e como brasileiro eu tinha orgulho da Varig. E o que fez o nosso governo com as dificuldades da companhia? Deixou-se levar por lobistas da aviação comercial, uma cambada de irresponsáveis, delirantes, corruptos, e abandonou a Varig.

Um bando de incompetentes à frente do setor de aviação não entendeu e não quis ver que deixar a Varig ao Deus-dará não era solução e sim problema. Houve um aumento acelerado de passageiros, nos vôos internos e nos internacionais. Um país-continente não pode ser atendido por duas empresas aéreas.

Foi só explodirem a Varig que o buraco negro apareceu e um imenso vazio despertou o caos aéreo no Brasil. Países como o Japão, a França, a Alemanha, a Itália, o Canadá ajudam e investem em suas companhias aéreas de bandeira.

E o pessoal da Varig? Dezenas de comandantes, tripulantes, milhares de técnicos, profissionais de nível internacional, com muitos anos de experiência deveriam ser amparados pelo governo e chamados para ajudar a resolver essa imensa e duradoura crise.

Muito mais que aviões é o material humano, seu treinamento, sua eficiência operacional que determina a seriedade e a competência de uma empresa aérea. Vê se tem alguém com esse gabarito nos muitos órgãos governamentais que dirigem a aviação comercial brasileira!

O presidente Luis Inácio que acusa os brasileiros de falarem mal do Brasil no exterior, e deseja que nós fossemos italianos ou suíços, que reclama da imprensa que só “publica coisa ruim” vai ver agora com quantos-pau-sefaz-uma canoa, ou vai entender o que significa grooving em pista de aeroporto.Vaias podem ecoar em suas viagens ao exterior.

O Brasil está sob quarentena e auditoria internacional. Os governos cuidam de seus cidadãos e por isso temem as pistas de pouso e os aeroportos do nosso país. Líderes mundiais da aviação comercial estão recomendando que as pessoas não viajem ao Brasil.

Como ninguém sabe explicar direito o que significa Con-gon-has, uns dizem cego-nhas, outros chamam o mais importante aeroporto do Brasil em espanhol de conhos brasilenos e em inglês de con-go-hell.

A imprensa não publica coisa ruim e nem o brasileiro que está no exterior fala mal do Brasil. O governo é o coisa ruim e a causa das trágicas notícias brasileiras que estão circulando pelo mundo.

Que saudade da Varig!

Inimputável corriola

por Dora Kramer, no Estadão

No programa de rádio de ontem de manhã, o presidente Luiz Inácio da Silva repetiu mais ou menos o que já tinha dito no pronunciamento de sexta-feira: pediu compreensão para com o governo, considerou impróprios quaisquer "julgamentos precipitados" sobre as causas do desastre de uma semana atrás e subiu um pouco o tom da condenação às críticas dirigidas à desídia governamental no manejo da crise aérea: considerou "quase irresponsável" o debate público a respeito da tragédia que mobiliza o País.

Nenhuma palavra, porém, o presidente disse nesta ou em qualquer outra oportunidade em que abordou o assunto, nenhum gesto fez para - não se diga nem punir, pois já viu pelo conjunto da obra que seria exigir demais - ao menos condenar ou, quem sabe, impor algum reparo, manifestar alguma discordância para com a inominável série de atitudes e palavras produzidas por agentes de responsabilidade pública, a maioria seus subordinados diretos.

Pelo que se depreende da posição do presidente, à corriola governamental tudo é permitido: agredir o público com grosseria, com leviandade, com futilidades, com fugas patéticas ao cumprimento dos deveres, com indiferença, vale qualquer coisa se a anarquia tem origem nas hostes governistas.

Só o que não vale é debater, discutir, reclamar, interpretar os fatos, cobrar do poder público bom senso, rapidez, comando, organização, presença, porque isso denota irresponsabilidade, quando não intenções conspiratórias e vocação para se aproveitar da comoção para travar lutas político-partidárias.Lula demora a falar e, quando o faz, quase leva a Nação a concordar com seus assessores que por três dias após o desastre o aconselharam a "mergulhar" para ver se afastava de si o cálice da repercussão negativa.

Em todo o transcurso da crise, o presidente aceitou toda sorte de absurdos verbais e gestuais por parte de seus auxiliares sem manifestar sequer desconforto quando os ouvia dizer na televisão que não existia crise, que o melhor era o brasileiro relaxar e aproveitar seus efeitos, que tínhamos até motivo de comemoração, pois o caos indicava progresso, que enfrentávamos apenas os acasos da "lei de Murphy", que não podíamos nos deixar levar pela "pressa neurótica".

Não esboçou um mínimo sinal de desagrado diante de um ministro da Defesa, superior hierárquico do Comando da Aeronáutica, a desafiar, irritado, que se procurasse na lei onde estava escrita sua responsabilidade sobre tráfego aéreo; não ponderou à sua ministra-chefe da Casa Civil que o momento não era de exibir seus atributos de dama de ferro em forma de rudeza ("não seremos fonte de especulação imobiliária") e sim de informar com serenidade que não existe ainda um local escolhido para o futuro aeroporto de São Paulo; não estranhou a condecoração aos ineptos da Anac; não viu mais que um ato "infeliz" no gesto de Marco Aurélio Garcia a mandar todos para aquele lugar.

O presidente passou por cima de tudo e mais um pouco, mas achou por bem apelar à "compreensão" geral e alertar para a irresponsabilidade do público que debate, desconfia e cobra aquilo que nada mais é do que seu direito inalienável à vida, à segurança, à liberdade de ir, de vir e de se expressar.

E por que a corriola é inimputável? Porque na concepção preponderante no governo suas atitudes são tomadas em defesa de um projeto político cuja razão de ser começa e termina na preservação do exercício do poder pelo poder.
Seja qual for a verdade que "virá à tona", como assegurou Lula, sobre o acidente, nada muda essa realidade consolidada pelos fatos, um após o outro, ocorridos desde o início da crise - datada de 29 de outubro, dia do segundo turno da eleição presidencial - para cá.

CPI investe contra cúpula da Anac

Correio Braziliense

O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) fará amanhã o primeiro movimento de um plano para tirar do cargo o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi. Fruet apresentará, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Apagão Aéreo, pedido de processo disciplinar contra toda a diretoria da Anac. Se o pedido for aprovado, o governo será obrigado a abrir investigação. Uma comissão será formada para apurar responsabilidades. E estará concretizada uma das três hipóteses em que um dirigente de agência reguladora pode ser apeado da função dentro do mandato de cinco anos a que têm direito — as outras duas são condenação na Justiça e pedido de demissão. A atuação da Anac vem sendo apontada como fator preponderante do caos nos aeroportos. Do ponto de vista da regulação, a agência seria condescendente demais com as companhias aéreas, gerando todo tipo de transtorno para os usuários. Zuanazzi, um petista cujo ponto alto do currículo foi a temporada como secretário de Turismo do Rio Grande do Sul, é apontado como símbolo do retalhamento político do órgão e de sua conseqüente inaptidão técnica. A despeito da situação crítica da aviação comercial brasileira, ele se mantém firme no cargo graças à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, por quem foi indicado.

Antes do acidente com o avião da TAM, os deputados da base governista na CPI impediram a investigação de supostas irregularidades na Anac e na Infraero. Agora, depois da tragédia, na qual morreu inclusive o líder da Minoria na Câmara, deputado Júlio Redecker (PSDB-RS), até deputados governistas querem investigar a atuação do órgão. Procura-se uma cabeça para entregar à opinião pública. A de Zuanazzi é a da vez.

O presidente da Anac parece estimular os movimentos contra si. Ou não se deu conta de que a crise ameaça implodir a instituição. Ontem, a diretoria insistia na tese de que o aeroporto de Congonhas não pode abrir mão das conexões que o transformaram no principal ponto de convergência das rotas aéreas nacionais. Discutia a elaboração de um documento com críticas às decisões anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada. Autor de uma das declarações mais polêmicas sobre o apagão aéreo — "não existe crise aérea no país" —, Zuanazzi enfrenta uma crise atrás da outra, desde o colapso da Varig.

A indignação é tanta que a Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros do Transporte Aéreo (Andep) entrou com representação no Ministério Público Federal. Quer o fim da Anac e a volta do extinto Departamento de Aviação Civil (DAC), controlado por militares. "Tenho certeza de que foi a transformação do DAC em Anac que causou toda a crise", argumenta o presidente da Andep, Cláudio Candiota. Milton Zuanazzi será ouvido amanhã pela CPI. No mesmo dia, será tomado o depoimento de Rui Amparo, vice-presidente técnico da TAM.

Aparelhamento: Dos integrantes da diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil, apenas um trabalha na área:

Milton Zuanazzi
Engenheiro, é pós-graduado em sociologia. Foi vereador em Porto Alegre pelo PDT, secretário de Turismo do Rio Grande do Sul e secretário nacional de Políticas de Turismo. Hoje é filiado ao PT e foi indicado para o cargo pela ministra Dilma Rousseff, a quem é ligado desde quando ela era do PDT.

Jorge Luiz Velozo
Coronel-aviador, foi indicado pelo ex-comandante da Aeronáutica brigadeiro Luiz Carlos Bueno. Era chefe do Departamento Técnico-Operacional do extinto Departamento de Aviação Civil (DAC). Piloto pela Academia da Força Aérea Brasileira, é especialista em segurança de vôo.

Leur Lomanto
Advogado, foi deputado federal por 28 anos, nos mais diversos partidos. Foi chefe da assessoria parlamentar da Infraero e relator do projeto de lei que criou a Anac. Foi indicado pelo PMDB para o cargo.

Denise de Abreu
Advogada, é militante petista, apadrinhada pelo ex-ministro da Casa Civi, José Dirceu. Ocupou o cargo de chefe de gabinete da Secretaria de Saúde de São Paulo e da Febem.

Josef Bara
Economista, foi duas vezes secretário de Transportes do estado do Rio de Janeiro. Como consultor de empresas públicas e privadas, prestou serviços para a TAM. Foi indicado pelo deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ), com apoio das empresas aéreas.

Inexoravelmente empacado?

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, site Diego Casagrande

Em tudo e por tudo, o Brasil está estacionado no passado de futuro brilhante. Somos sempre o país do futuro, pois a esperança é a última que morre, etc.etc. Durante muito tempo, acreditamos que esse era um desígnio de Deus. Já sabemos que não é assim. Deus não nos quer burros, pobres, medíocres.

Não vou me estender sobre a desgraça que nos atingiu esta semana. As mortes. A dor. A angústia. A agonia da espera. Não sabemos exatamente o que aconteceu, ainda. Nem sei se chegaremos a saber com exatidão. Parece que as caixas pretas não saíram ilesas do fogo. Além do que, não sou piloto, não sou técnica em nada, e não entendo nem de administração de aeroportos, nem de engenharia.

O que me dá o direito de estar indignada é o descaso do Governo Federal com as palavras de quem entende do assunto. Congonhas fica no meio de uma área hoje densamente povoada. O Santos Dumont entre água e pedras. Ambos têm edifícios luxuosos, quilômetros do mais fino mármore, lojas, cafés e restaurantes. Mas alguém se preocupou em ouvir – não é fazer uma pergunta aqui, outra acolá – é em ouvir os pilotos e dar a devida atenção ao que eles dizem? Ou em levar a sério os controladores?

A preocupação foi uma só. Desculpe, corrijo: duas. Não aborrecer os donos das companhias aéreas, e nossa imagem lá fora. Bonita preocupação, não é? Tenho visto na BBC internacional, na CNN, na TV5 francesa, na RAI e nas TVs portuguesa e espanhola, as dantescas imagens do Brasil. Lido nos jornais internacionais, os de grande circulação, notícias sobre nosso país. Saudade do tempo em que, lá fora, procurava-se uma notícia do Brasil e não se encontrava uma linha. Era a máxima do “pas de nouvelles, bonnes nouvelles...”.

Hoje, isso acabou. O que aqui se faz, aqui se paga, segundo os calvinistas. Mas também é rapidamente divulgado no mundo todo. Por exemplo, a linda cena que presenciamos ontem: o comportamento apolíneo do Marco Aurélio Garcia, aspone do Lula, e de seu próprio pequeno aspone, chamado Bruno. Ambos mostraram ao mundo como procedem auxiliares do presidente, seus gestos impudentes, expressivos. Não estavam em suas casas, nem num boteco entre rapazes, nem numa festa privada. Estavam numa das salas que compõem o gabinete da Presidência da República, naquele palácio que Oscar Niemeyer fez em vidro branco transparente, para que ali tudo se desse à luz do sol.

Até agora não compreendi o que comemoravam Garcia e seu amigo. E a quem pretendiam ofender. Se comemoravam a possibilidade de um defeito técnico na aeronave ser a causa do acidente, comemoravam a morte de mais de 200 pessoas. Não acredito que isso seja possível. Não vi em nenhum dos dois rabinhos, chifres ou pés de cabra. Se comemoravam o que acham ter sido uma perfídia da Imprensa, desmentida, coitados: estavam assistindo a um jornal da maior e melhor cadeia de televisão brasileira, que se encontra entre as melhores do mundo, justamente porque é livre a sua expressão. Um jornal que tem sido de grande utilidade para o Governo Federal. Que bom que ele pode alertar o Lula sobre muitas coisas. Se não fosse o JN...

Nosso blog ontem estampava uma frase também reveladora: a do Ministro das Relações Institucionais, Mares Guia. Era um embaralhado de idéias que no fundo queria dizer que foi falha humana e portanto o Governo nada tem a ver com isso (não é humano?). Hoje, acabo de ver que o Noblat escolheu outra frase, essa do Lula: “Não importa discutir causas. A responsabilidade pela solução dos problemas é do governo, e disso não podemos fugir”. Não sei qual das duas é mais sincera. Espero que o Lula tenha caído em si, que as vaias lhe tenham feito muito bem. Que o alarido que penetrou sua alma e seu coração vaidosos, tenha tido um efeito salutar e que essa frase seja o prenúncio de uma virada.

O que ele não pode é continuar a passar as mãos na cabeça de corruptos e ter essa dificuldade cósmica em demitir os errados. Na cadeia de comando de nossa segurança aérea está a culpa de tudo que vem acontecendo há meses, de todas aquelas cenas vergonhosas nos aeroportos brasileiros. Agora, piorou muito: são, ao que se saiba, mais de 356 vidas ceifadas estupidamente.

Parece que hoje ele fala à Nação. Vem tarde. Já deveria tê-lo feito. Mas vamos esperar que venha com notícias positivas e com palavras prenhes de verdade e não vazias e fátuas. Que demita quem autorizou a abertura daquela pista cujas obras ainda não estavam prontas. Se a falha foi do piloto, se a falha foi da máquina, nada retira a culpa dos levianos que liberaram a pista inacabada, ainda mais em dia de chuva.

Que a zoada das vaias não saia do ouvido do Presidente tão cedo. Sabe ao que as comparo? A uma palmada bem dada que damos numa criança pequena que se solta de nossa mão e corre para a rua cheia de carros. A vaia é igualmente profilática. Li, a respeito de vaias, uma crônica do Ruy Castro que adoraria ter escrito, na qual ele conta como Julio, um grande jogador de futebol brasileiro, dominou as vaias torturantes que recebia no Maracanã: com garra e mostrando todo seu talento.

Também li sobre as vaias que Churchill, ainda Primeiro-Ministro, recebeu no primeiro grande comício do pós-guerra. O povo, cansado das agruras que sofrera e ouvindo as promessas de fartura que lhe fazia o candidato trabalhista, Attlee, foi estrepitoso em suas vaias. Churchill, com a lucidez e a mente brilhante que Deus lhe deu, disse ao microfone: “Feliz o povo que pode vaiar seus governantes...”. As vaias até recrudesceram. Então, ele encarou a platéia e naquele seu belo vozeirão, disse: “Vim falar sobre o extraordinário desempenho de Londres durante a guerra. Vocês querem vaiar isso também?”. Claro que pode terminar seu discurso, sob aplausos..

O que nós precisamos, sem dúvida alguma, é dessa liberdade à qual Churchill se referia. E da qual, até agora, vimos gozando. Que continuemos a poder vaiar os nossos dirigentes quando não estivermos satisfeitos com eles. Que a Imprensa continue a poder noticiar o que acontece em todos os cantos deste enorme e destrambelhado país. E que os governantes tenham bons exemplos para mencionar.

O dinheiro é essencial, claro. Mas não é o mais importante: para que o Brasil desempaque, é vital que tudo seja feito às claras e que o Lula possa assistir ao JN, e aos outros noticiários, diariamente, a fim de se inteirar da vida real e não da vida de fantasia que lhe pintam esses que o cercam e que não são, mas não são mesmo, seus amigos.

Que vivam as causas! Morte aos efeitos?

por Percival Puggina, site Diego Casagrande

A contradição exclamada no título deste artigo caracteriza perfeitamente a maneira como se pretende lidar com a maior parte das dificuldades nacionais: trata-se de acabar com os efeitos preservando suas causas no sacrário das coisas intocáveis. É perfeitamente admissível que o povão se deixe iludir pela denúncia e pelo aparente combate dos males visíveis. No entanto, quando essa é a atitude do intelectual, ou daquele que se dedica à vida pública, ou do detentor de mandato, ou do que tem responsabilidades perante a opinião pública, bem, nesse caso, embusteiro é a palavra que melhor o designa. Pretender corrigir efeitos sem atacar aquilo que os produz é evidência de desavergonhado afeto a ambos.

Está na ordem do dia essa coisa horrorosa chamada Agência Nacional de Aviação Civil, aparelho petista e cabide de empregos para companheiros tão estranhos e alheios às funções do órgão quanto íntimos e próximos do partido e da base do governo. Mas, sabemos todos, a ANAC é, neste exato momento, apenas a cabeça mais visível da monstruosa Hidra de Lerna da administração federal, com centenas de cabeças, onde dezenas de milhares de operadores correspondem ao mesmo perfil e reproduzem os mesmos males. Como se resolve isso? Atacando a causa. Organizando a administração pública do modo como fazem os países bem geridos, aqueles onde as coisas funcionam, ou seja, retirando da mão do governo a caneta que dispõe sobre os postos administrativos, sobre as estatais e sobre as portas de tantos cofres. Simples como isso, mas tão difícil de acontecer quanto o leitor bem pode imaginar, até porque o olho de quem está na oposição enfoca, com volúpia, exatamente essa caneta, esses cargos e esses cofres.

Temos partidos em excesso? O Congresso Nacional, com tantos líderes de bancada revestidos de prerrogativas regimentais, ou está congelado ou se arrasta em câmera lenta? É impossível conter o abuso do poder econômico nos pleitos parlamentares? As corporações dominam o parlamento? Quem pode controlar os gastos reais da campanha de um candidato em quinhentos municípios? Pois é. Nossos legisladores querem resolver tais coisas com financiamento público, cláusulas de barreira e proibindo a distribuição de chaveirinhos e camisetas... Fala sério! Num sistema de eleições distritais o número de partidos cai, se tanto, para meia dúzia, todas as campanhas se fazem sob os olhos do juiz eleitoral e do promotor do distrito, as distorções saltam às vistas de todos, inclusive dos eleitores e acaba a representação política dos grupos de interesse.

Mensalão, distribuição de emendas parlamentares, o escambau? Precisamos de ética e a ética resultará da justa indignação dos bons! Será isso suficiente? E por que não atacar a causa, atribuindo as responsabilidades de governo à maioria parlamentar em vez de obrigar o governo a compor e manter essa base aos custos conhecidos? Você sabe porquê. É o desavergonhado amor às causas e suas conseqüências.

TRAPOS & FARRAPOS...

E SE AO INVÉS DE FHC TIVESSE SIDO LULA EM 1995?
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

É difícil comparar governos, às vezes, se cometem injustiças, por fazermos avaliações sem considerar-se as condições de governabilidade do país entre um período e outro. Não é este o caso de Fernando Henrique, 1995-2002, e Lula, desde 2003.

Ao assumir seu primeiro mandato, Fernando Henrique encontrou o seguinte Brasil: inflação galopante e sem controle, dívida externa fora de controle, total desequilíbrio fiscal, uma enxurrada de empresas estatais sugando o orçamento com monumentais déficits, sem a menor condição de investimento, comércio internacional querendo recuperar-se ainda das atrapalhadas da moratória de Sarney e das atrapalhadas de Collor, instabilidade econômica com total vulnerabilidade a qualquer espirro, instabilidade política em razão da renúncia de Collor.

Durante aquele período, o mundo sofreu cinco graves crises financeiras internacionais, México, Argentina, Rússia, Turquia e Sudeste Asiático, e4 cresceu na média em torno de 2%. O Brasil fechou o período com média ligeiramente superior a 2,3%. Apesar dos problemas, das instabilidades, das crises, conseguimos domar a fera da inflação, equilibrar as contas públicas, criar uma moeda valorizada, criar um leque de proteção social, reduzir o analfabetismo, reduzir a mortalidade infantil, reduzir sensivelmente o trabalho escravo infantil, recuperar mercados internacionais para os produtos brasileiros. Chegamos ao final do período com estabilidade econômica e política, e com uma série de avanços sociais e educacionais, bem como conseguimos implantar uma longa série de políticas de saúde pública, bastante elogiadas por organismos internacionais.

Vejamos Lula: recebeu o governo com inflação dominada, equilíbrio fiscal, déficit contido, endividamento renegociado em condições bastante favoráveis, indicadores econômicos favoráveis, o mundo no seu período cresceu em médias superiores a 5%, todo um programa de planejamento no campo da energia traçado e implantado, nenhuma crise financeira internacional, políticas sociais em pleno vigor. Ou seja, o Brasil que Lula encontrou já não tinha mais inflação, desequilíbrio fiscal, vulnerabilidades a acontecimentos externos, estabilidade política garantida, além de franco avanço nos indicadores de saúde, educação e sociais. Bastava a Lula terminar o trabalho iniciado e pronto: o país estaria galopando na mesma velocidade com que os demais emergentes galoparam nestes últimos cinco anos. Porém, a média de crescimento é inferior a 3,0%, metade dos demais países, os indicadores de educação e saúde perderam velocidade e alguns até retrocederam, e apesar da balança comercial com superávits históricos, perdemos posições no ranking do comércio mundial, e, bem dentro do governo, instalado uma rede de corrupção vergonhosa, além de uma crise aérea que não existia, e que está simplesmente destroçando o país.

A pergunta que fica não é quem é melhor, e sim, se Lula tivesse encontrado o país nas mesmas condições que FHC encontrou, ou, se ao invérs de FHC haver ganho a eleição, o vencedor tivesse sido Lula, o país teria avançado o quanto avançou no período até chegar à esta estabilidade e política de hoje ?

Olhando-se para dentro do governo Lula a conclusão a que chega é de que não estaríamos vivendo o bom momento econômico atual com Lula no poder em lugar de FHC. Pela simples razão de que este governo Lula é ruim de serviço mesmo.

Naquilo que Lula mexeu, o país deu marcha ré. No que ele manteve da herança recebida, o país anda bem e avança.

Não é apenas a crise aérea, fabricada pelo governo atual, que nos espelhamos para chegarmos a esta conclusão. Bastante seria retroceder no passado para sabermos que a relação entre os poderes nunca foi tão promíscua como agora com Lula e Petê no poder.

Nunca as instituições foram tão destroçadas como agora estamos vendo, o crime aumentou, a infra-estrutura a cada dia mais se desmorona, os níveis de educação recuaram muito comparando-se os dois períodos, o apagão volta à cena e sua ameaça ainda é real, nosso comércio internacional se sustenta muito mais em comoditties valorizadas pelo crescimento dos demais países e não por políticas internas, nunca tantos brasileiros emigram tanto para tantos países em busca de melhor condição de vida como agora se vê e se assiste, nunca a segurança pública foi tão crítica como agora, e a cada dia que passa e novos rankings de qualidade de país são divulgados, mais e mais percebemos que estamos perdendo para nações com muito condições e riquezas do que o Brasil. Estamos andando para trás, enquanto o mundo segue em frente.

Tivesse Lula sucedido Itamar Franco, e deste recebido o país que FHC herdou, considerando-se o conjunto da obra do governo atual, dá até medo imaginar-se o país que seríamos.

Nos artigos de hoje, vocês lerão uma síntese excelente da Lucia Hippolito sobre a questão aérea, um artigo também excelente do Pedro do Coutto, da Tribuna da Imprensa sobre estilos diferenciados de presidentes que o Brasil já conheceu, e concluirão que o problema do governo atual não é a capacidade política de Lula, e sim, a dubiedade com que age na administração dos principais problemas nacionais. Segue ainda um artigo relembrando da VARIG e a carta triste e angustiada de uma das muitas mães atingidas na tragédia com o Airbus da TAM, e o sentimento de repulsa à fala de Lula na sexta-feira, considerando-a falsa e mentirosa. E encerrando, nesta e4dição mais algumas pérolas do jeito TAM de anarquizar a segurança dos vôos com manutenção de aeronaves que mereciam a medalha do demérito aeronáutico. Ah, quase que esquecia: num artigo do Correio Braziliense, apresentaremos os currículos dos “profissionais” (ir)responsáveis que comandam e infernizam a vida dos passageiros com uma crise fruto da incompetência, descaso, falta de respeito e, claro, fruto disto tudo, da falta de autoridade, da falta de governo, já que seu ocupante está muito mais preocupado com sua imagem populista (e canalha), e foge covardemente dos problemas criados por seu desgoverno, para atirar-se nos braços da claque contratada para afagar-lhe o ego, apesar das fumaças que ainda ardem no local da maior tragédia da aviação brasileira de todos os tempos.

O Brasil foi na Venezuela com um time de reservas e venceu a Argentina com seu time de estrelas de goleada e foi campeão da Copa América. No Pan, bastou escalar Lulinha e tomamos um baile do Equador no futebol masculino. Nem medalha disputaremos. E como desgraça pouca é bobagem, deu apagão até na tocha olímpica do PAN. Inédito o fiasco.

O que me preocupa é como chegaremos em 2010, data das próximas eleições presidenciais. Se Lula continuar ignorando os problemas reais do país, investindo sua imagem unicamente no assistencialismo ordinário, e apostando todas suas fichas que a crise se resolverá por um passe mágica e sem afetar as demais instituições democráticas do país, vai pagar muito caro pela imprevidência. Seria bom que ele começasse a se preocupar e cuidar com mais atenção da classe que sua política imbecil insistir em ignorar e escarrar: vai precisar muito dela ainda, nem tanto ele politicamente, mas o povo brasileiro é feito não apenas por pobres e os muito ricos, mas também pelo contingente formado pela classe média. E nenhum país, fosse na história antiga ou contemporânea conseguiu atingiu grau elevado de desenvolvimento com os governantes louvando desprezo e ódio aos “pequenos burgueses”. Eles são o esteio da nação, sem eles governante algum consegue se sustentar...

Os sinais de deterioração do governo são muitos e bastante visíveis. Seria bom que alguém começasse a se dar conta disto enquanto é tempo... Senão, depois quem vai fazer top-top-top somos nós, e ao menor sinal de reclamação, bradaremos com a maior simplicidade: “Não esquenta, não, relaxa e goza que a zorra é tua, seu cretino!”.