Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, site Diego Casagrande
Em tudo e por tudo, o Brasil está estacionado no passado de futuro brilhante. Somos sempre o país do futuro, pois a esperança é a última que morre, etc.etc. Durante muito tempo, acreditamos que esse era um desígnio de Deus. Já sabemos que não é assim. Deus não nos quer burros, pobres, medíocres.
Não vou me estender sobre a desgraça que nos atingiu esta semana. As mortes. A dor. A angústia. A agonia da espera. Não sabemos exatamente o que aconteceu, ainda. Nem sei se chegaremos a saber com exatidão. Parece que as caixas pretas não saíram ilesas do fogo. Além do que, não sou piloto, não sou técnica em nada, e não entendo nem de administração de aeroportos, nem de engenharia.
O que me dá o direito de estar indignada é o descaso do Governo Federal com as palavras de quem entende do assunto. Congonhas fica no meio de uma área hoje densamente povoada. O Santos Dumont entre água e pedras. Ambos têm edifícios luxuosos, quilômetros do mais fino mármore, lojas, cafés e restaurantes. Mas alguém se preocupou em ouvir – não é fazer uma pergunta aqui, outra acolá – é em ouvir os pilotos e dar a devida atenção ao que eles dizem? Ou em levar a sério os controladores?
A preocupação foi uma só. Desculpe, corrijo: duas. Não aborrecer os donos das companhias aéreas, e nossa imagem lá fora. Bonita preocupação, não é? Tenho visto na BBC internacional, na CNN, na TV5 francesa, na RAI e nas TVs portuguesa e espanhola, as dantescas imagens do Brasil. Lido nos jornais internacionais, os de grande circulação, notícias sobre nosso país. Saudade do tempo em que, lá fora, procurava-se uma notícia do Brasil e não se encontrava uma linha. Era a máxima do “pas de nouvelles, bonnes nouvelles...”.
Hoje, isso acabou. O que aqui se faz, aqui se paga, segundo os calvinistas. Mas também é rapidamente divulgado no mundo todo. Por exemplo, a linda cena que presenciamos ontem: o comportamento apolíneo do Marco Aurélio Garcia, aspone do Lula, e de seu próprio pequeno aspone, chamado Bruno. Ambos mostraram ao mundo como procedem auxiliares do presidente, seus gestos impudentes, expressivos. Não estavam em suas casas, nem num boteco entre rapazes, nem numa festa privada. Estavam numa das salas que compõem o gabinete da Presidência da República, naquele palácio que Oscar Niemeyer fez em vidro branco transparente, para que ali tudo se desse à luz do sol.
Até agora não compreendi o que comemoravam Garcia e seu amigo. E a quem pretendiam ofender. Se comemoravam a possibilidade de um defeito técnico na aeronave ser a causa do acidente, comemoravam a morte de mais de 200 pessoas. Não acredito que isso seja possível. Não vi em nenhum dos dois rabinhos, chifres ou pés de cabra. Se comemoravam o que acham ter sido uma perfídia da Imprensa, desmentida, coitados: estavam assistindo a um jornal da maior e melhor cadeia de televisão brasileira, que se encontra entre as melhores do mundo, justamente porque é livre a sua expressão. Um jornal que tem sido de grande utilidade para o Governo Federal. Que bom que ele pode alertar o Lula sobre muitas coisas. Se não fosse o JN...
Nosso blog ontem estampava uma frase também reveladora: a do Ministro das Relações Institucionais, Mares Guia. Era um embaralhado de idéias que no fundo queria dizer que foi falha humana e portanto o Governo nada tem a ver com isso (não é humano?). Hoje, acabo de ver que o Noblat escolheu outra frase, essa do Lula: “Não importa discutir causas. A responsabilidade pela solução dos problemas é do governo, e disso não podemos fugir”. Não sei qual das duas é mais sincera. Espero que o Lula tenha caído em si, que as vaias lhe tenham feito muito bem. Que o alarido que penetrou sua alma e seu coração vaidosos, tenha tido um efeito salutar e que essa frase seja o prenúncio de uma virada.
O que ele não pode é continuar a passar as mãos na cabeça de corruptos e ter essa dificuldade cósmica em demitir os errados. Na cadeia de comando de nossa segurança aérea está a culpa de tudo que vem acontecendo há meses, de todas aquelas cenas vergonhosas nos aeroportos brasileiros. Agora, piorou muito: são, ao que se saiba, mais de 356 vidas ceifadas estupidamente.
Parece que hoje ele fala à Nação. Vem tarde. Já deveria tê-lo feito. Mas vamos esperar que venha com notícias positivas e com palavras prenhes de verdade e não vazias e fátuas. Que demita quem autorizou a abertura daquela pista cujas obras ainda não estavam prontas. Se a falha foi do piloto, se a falha foi da máquina, nada retira a culpa dos levianos que liberaram a pista inacabada, ainda mais em dia de chuva.
Que a zoada das vaias não saia do ouvido do Presidente tão cedo. Sabe ao que as comparo? A uma palmada bem dada que damos numa criança pequena que se solta de nossa mão e corre para a rua cheia de carros. A vaia é igualmente profilática. Li, a respeito de vaias, uma crônica do Ruy Castro que adoraria ter escrito, na qual ele conta como Julio, um grande jogador de futebol brasileiro, dominou as vaias torturantes que recebia no Maracanã: com garra e mostrando todo seu talento.
Também li sobre as vaias que Churchill, ainda Primeiro-Ministro, recebeu no primeiro grande comício do pós-guerra. O povo, cansado das agruras que sofrera e ouvindo as promessas de fartura que lhe fazia o candidato trabalhista, Attlee, foi estrepitoso em suas vaias. Churchill, com a lucidez e a mente brilhante que Deus lhe deu, disse ao microfone: “Feliz o povo que pode vaiar seus governantes...”. As vaias até recrudesceram. Então, ele encarou a platéia e naquele seu belo vozeirão, disse: “Vim falar sobre o extraordinário desempenho de Londres durante a guerra. Vocês querem vaiar isso também?”. Claro que pode terminar seu discurso, sob aplausos..
O que nós precisamos, sem dúvida alguma, é dessa liberdade à qual Churchill se referia. E da qual, até agora, vimos gozando. Que continuemos a poder vaiar os nossos dirigentes quando não estivermos satisfeitos com eles. Que a Imprensa continue a poder noticiar o que acontece em todos os cantos deste enorme e destrambelhado país. E que os governantes tenham bons exemplos para mencionar.
O dinheiro é essencial, claro. Mas não é o mais importante: para que o Brasil desempaque, é vital que tudo seja feito às claras e que o Lula possa assistir ao JN, e aos outros noticiários, diariamente, a fim de se inteirar da vida real e não da vida de fantasia que lhe pintam esses que o cercam e que não são, mas não são mesmo, seus amigos.
Em tudo e por tudo, o Brasil está estacionado no passado de futuro brilhante. Somos sempre o país do futuro, pois a esperança é a última que morre, etc.etc. Durante muito tempo, acreditamos que esse era um desígnio de Deus. Já sabemos que não é assim. Deus não nos quer burros, pobres, medíocres.
Não vou me estender sobre a desgraça que nos atingiu esta semana. As mortes. A dor. A angústia. A agonia da espera. Não sabemos exatamente o que aconteceu, ainda. Nem sei se chegaremos a saber com exatidão. Parece que as caixas pretas não saíram ilesas do fogo. Além do que, não sou piloto, não sou técnica em nada, e não entendo nem de administração de aeroportos, nem de engenharia.
O que me dá o direito de estar indignada é o descaso do Governo Federal com as palavras de quem entende do assunto. Congonhas fica no meio de uma área hoje densamente povoada. O Santos Dumont entre água e pedras. Ambos têm edifícios luxuosos, quilômetros do mais fino mármore, lojas, cafés e restaurantes. Mas alguém se preocupou em ouvir – não é fazer uma pergunta aqui, outra acolá – é em ouvir os pilotos e dar a devida atenção ao que eles dizem? Ou em levar a sério os controladores?
A preocupação foi uma só. Desculpe, corrijo: duas. Não aborrecer os donos das companhias aéreas, e nossa imagem lá fora. Bonita preocupação, não é? Tenho visto na BBC internacional, na CNN, na TV5 francesa, na RAI e nas TVs portuguesa e espanhola, as dantescas imagens do Brasil. Lido nos jornais internacionais, os de grande circulação, notícias sobre nosso país. Saudade do tempo em que, lá fora, procurava-se uma notícia do Brasil e não se encontrava uma linha. Era a máxima do “pas de nouvelles, bonnes nouvelles...”.
Hoje, isso acabou. O que aqui se faz, aqui se paga, segundo os calvinistas. Mas também é rapidamente divulgado no mundo todo. Por exemplo, a linda cena que presenciamos ontem: o comportamento apolíneo do Marco Aurélio Garcia, aspone do Lula, e de seu próprio pequeno aspone, chamado Bruno. Ambos mostraram ao mundo como procedem auxiliares do presidente, seus gestos impudentes, expressivos. Não estavam em suas casas, nem num boteco entre rapazes, nem numa festa privada. Estavam numa das salas que compõem o gabinete da Presidência da República, naquele palácio que Oscar Niemeyer fez em vidro branco transparente, para que ali tudo se desse à luz do sol.
Até agora não compreendi o que comemoravam Garcia e seu amigo. E a quem pretendiam ofender. Se comemoravam a possibilidade de um defeito técnico na aeronave ser a causa do acidente, comemoravam a morte de mais de 200 pessoas. Não acredito que isso seja possível. Não vi em nenhum dos dois rabinhos, chifres ou pés de cabra. Se comemoravam o que acham ter sido uma perfídia da Imprensa, desmentida, coitados: estavam assistindo a um jornal da maior e melhor cadeia de televisão brasileira, que se encontra entre as melhores do mundo, justamente porque é livre a sua expressão. Um jornal que tem sido de grande utilidade para o Governo Federal. Que bom que ele pode alertar o Lula sobre muitas coisas. Se não fosse o JN...
Nosso blog ontem estampava uma frase também reveladora: a do Ministro das Relações Institucionais, Mares Guia. Era um embaralhado de idéias que no fundo queria dizer que foi falha humana e portanto o Governo nada tem a ver com isso (não é humano?). Hoje, acabo de ver que o Noblat escolheu outra frase, essa do Lula: “Não importa discutir causas. A responsabilidade pela solução dos problemas é do governo, e disso não podemos fugir”. Não sei qual das duas é mais sincera. Espero que o Lula tenha caído em si, que as vaias lhe tenham feito muito bem. Que o alarido que penetrou sua alma e seu coração vaidosos, tenha tido um efeito salutar e que essa frase seja o prenúncio de uma virada.
O que ele não pode é continuar a passar as mãos na cabeça de corruptos e ter essa dificuldade cósmica em demitir os errados. Na cadeia de comando de nossa segurança aérea está a culpa de tudo que vem acontecendo há meses, de todas aquelas cenas vergonhosas nos aeroportos brasileiros. Agora, piorou muito: são, ao que se saiba, mais de 356 vidas ceifadas estupidamente.
Parece que hoje ele fala à Nação. Vem tarde. Já deveria tê-lo feito. Mas vamos esperar que venha com notícias positivas e com palavras prenhes de verdade e não vazias e fátuas. Que demita quem autorizou a abertura daquela pista cujas obras ainda não estavam prontas. Se a falha foi do piloto, se a falha foi da máquina, nada retira a culpa dos levianos que liberaram a pista inacabada, ainda mais em dia de chuva.
Que a zoada das vaias não saia do ouvido do Presidente tão cedo. Sabe ao que as comparo? A uma palmada bem dada que damos numa criança pequena que se solta de nossa mão e corre para a rua cheia de carros. A vaia é igualmente profilática. Li, a respeito de vaias, uma crônica do Ruy Castro que adoraria ter escrito, na qual ele conta como Julio, um grande jogador de futebol brasileiro, dominou as vaias torturantes que recebia no Maracanã: com garra e mostrando todo seu talento.
Também li sobre as vaias que Churchill, ainda Primeiro-Ministro, recebeu no primeiro grande comício do pós-guerra. O povo, cansado das agruras que sofrera e ouvindo as promessas de fartura que lhe fazia o candidato trabalhista, Attlee, foi estrepitoso em suas vaias. Churchill, com a lucidez e a mente brilhante que Deus lhe deu, disse ao microfone: “Feliz o povo que pode vaiar seus governantes...”. As vaias até recrudesceram. Então, ele encarou a platéia e naquele seu belo vozeirão, disse: “Vim falar sobre o extraordinário desempenho de Londres durante a guerra. Vocês querem vaiar isso também?”. Claro que pode terminar seu discurso, sob aplausos..
O que nós precisamos, sem dúvida alguma, é dessa liberdade à qual Churchill se referia. E da qual, até agora, vimos gozando. Que continuemos a poder vaiar os nossos dirigentes quando não estivermos satisfeitos com eles. Que a Imprensa continue a poder noticiar o que acontece em todos os cantos deste enorme e destrambelhado país. E que os governantes tenham bons exemplos para mencionar.
O dinheiro é essencial, claro. Mas não é o mais importante: para que o Brasil desempaque, é vital que tudo seja feito às claras e que o Lula possa assistir ao JN, e aos outros noticiários, diariamente, a fim de se inteirar da vida real e não da vida de fantasia que lhe pintam esses que o cercam e que não são, mas não são mesmo, seus amigos.