.
Ao finalizar sua coluna de sábado na TRIBUNA DA IMPRENSA, Helio Fernandes focalizou um episódio de grande importância na história moderna do Brasil ao lembrar que Vargas começou a cair (e morrer) em novembro de 53, quando não resistiu ao manifesto dos coronéis e demitiu João Goulart do Ministério do Trabalho. Jango tinha então 35 anos, havia lançado a candidatura de Getúlio às eleições de 50 em almoço na sua fazenda e vinha dando grande força aos sindicatos.
Mal pensavam, Jango e Vargas, que, vinte anos depois, surgiria um líder sindical sucessor de ambos nas lutas sindicais do ABC paulista, e que mais tarde seria presidente da República. O apoio de Goulart aos sindicatos despertou a desconfiança e a revolta nas Forças Armadas. Da mesma forma que na UDN de Carlos Lacerda. Temiam algo semelhante ao Outubro de 17, na União Soviética, "Os dez dias que abalaram o mundo", belo título da obra clássica sobre a Revolução de outubro, do jornalista americano John Reed.
O manifesto dos coronéis era aberto por Amaury Kruel, cujo destino seria o de se reaproximar de Jango, tornando-se seu ministro do Exército, e dele se afastar definitivamente em 31 de março de 64, quando aderiu ao movimento militar que depôs o presidente da República. Goulart foi, assim, por duas vezes derrubado por Kruel. Coincidência ou estava escrito no tempo, como costumam achar os fatalistas? Não sei. Mas o tema de Helio Fernandes não foi o mistério.
Pelo contrário, ele percorreu a estrada da clarificação. De fato, ao ceder à pressão descabida (os coronéis nada tinham com a política trabalhista), Vargas cedeu e, com isso, abriu um precedente e começou a perder estabilidade. Tanto é assim que, menos de um ano depois, em agosto, deparou-se no último ato de sua vida com o documento não dos coronéis, mas dos generais, exigindo sua renúncia. Vargas, ao contrário do que praticou em 53, era muito firme em suas decisões. Era dual, mas não era dúbio. Não vacilava. Agiu desta forma na Segunda Guerra Mundial equilibrando o País entre Churchill, Roosevelt, Hitler e Stalin. Este desafio não era para qualquer um. Errou em 53, como destaca HF, morreu em 54, como está na história.
Juscelino Kubitschek não enfrentou o conflito mundial, mas decidia com firmeza. Logo ao assumir, em janeiro de 56, percebeu que sem o general Odilo Denys no comando do I Exército e sem o general Lott no Ministério da Guerra, como se chamava à época, não governaria. Não perdeu tempo. Denys atingira a idade limite. JK enviou mensagem ao Congresso, a lei está valendo até hoje, permitindo a reconvocação de militares para o serviço ativo.
Não vacilou na anistia aos rebeldes de Jacareacanga, em 56, tampouco na anistia aos revoltosos de Aragarças de março de 60. Não custava a decidir. Alterou pouco sua equipe de governo ao longo de cinco anos, dourados por sinal. Só nomeou pessoas habilitadas. Não escolheu qualquer incompetente. Era seu estilo.
O estilo de João Goulart era completamente diferente. Vargas e JK tinham vocação para o poder, cada qual à sua maneira. Goulart não. Detestava situações difíceis, confrontos, debates. Havia Carlos Lacerda em um de seus caminhos, Brizola em outro. Não resistiu às contradições. Tinha horror a lidar com elas. Mas elas são próprias da política. Costa e Silva teve decisão no desfecho do golpe, ocupando o Palácio de Caxias.
No poder, não ocupou o espaço do Planalto. Limitava-se a assinar, lastimando as cassações e suspensões de direitos políticos impostos pelo Alto Comando. Foi encurralado em 1968 quando do Ato 5. Em junho de 69, um derrame cerebral o afastou do governo. Morreria meses depois. Na realidade, foi deposto em dezembro de 68. Castelo Branco, seu antecessor no ciclo dos generais, havia sido parcialmente deposto em outubro de 65, quando foi obrigado a assinar o Ato 2.
Na área militar, Ernesto Geisel, responsável pela brutal censura à TRIBUNA DA IMPRENSA, decidia com firmeza, reconheça-se. Demitiu o general Ednardo, demitiu o ministro Silvio Frota, demitiu o general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, promoveu João Figueiredo de qualquer maneira e dele fez seu sucessor.
Chegamos a Luis Inácio Lula da Silva. Eleito e reeleito, consagrado pelo voto popular, ocupando legitimamente o poder, ao contrário dos generais que o antecederam no tempo e na história, não gosta de afastar aqueles que julga amigos, mas que na realidade não merecem sua amizade porque só lhe criam problemas.
Custou a demitir o ministro José Dirceu, tendo, entretanto, a sorte de encontrar uma Dilma Rousseff, que, com firmeza, apagou o incêndio e estabilizou o presidente no Alvorada e na largada inicial da administração. Até o momento ainda não demitiu, como deveria ter feito, a ministra Marta Suplicy. Não demitiu, como as condições exigem, o ministro Valdir Pires, um inerte que tenta se omitir da crise aérea. No sábado, por exemplo, no "Jornal nacional" da Globo, teve a coragem de dizer que o tráfego de aviões não era de sua esfera.
Como não? Se ele é o ministro da Defesa, e a circulação de aeronaves é subordinada ao comando da Aeronáutica, e este comando é vinculado ao Ministério da Defesa, ao contrário do que afirmou, a responsabilidade é sua, sim. Valdir Pires fugiu da responsabilidade. Finalmente chegamos ao triste episódio Marco Aurélio Garcia. O homem do gesto obsceno, sinal de comemoração das mais absurdas que a história pode registrar. O presidente Lula deveria tê-lo demitido imediatamente. Mas não o fez. A contemplação é péssima para o presidente, péssima para o governo, pior ainda para o País.
A perplexidade e o silêncio dizem tudo. Escrevi sobre vários presidentes, falei de vários estilos. E João Figueiredo? Não decidiu o Riocentro, não decidiu a explosão deste jornal, não investigou a bomba da OAB. Incrível.
Ao finalizar sua coluna de sábado na TRIBUNA DA IMPRENSA, Helio Fernandes focalizou um episódio de grande importância na história moderna do Brasil ao lembrar que Vargas começou a cair (e morrer) em novembro de 53, quando não resistiu ao manifesto dos coronéis e demitiu João Goulart do Ministério do Trabalho. Jango tinha então 35 anos, havia lançado a candidatura de Getúlio às eleições de 50 em almoço na sua fazenda e vinha dando grande força aos sindicatos.
Mal pensavam, Jango e Vargas, que, vinte anos depois, surgiria um líder sindical sucessor de ambos nas lutas sindicais do ABC paulista, e que mais tarde seria presidente da República. O apoio de Goulart aos sindicatos despertou a desconfiança e a revolta nas Forças Armadas. Da mesma forma que na UDN de Carlos Lacerda. Temiam algo semelhante ao Outubro de 17, na União Soviética, "Os dez dias que abalaram o mundo", belo título da obra clássica sobre a Revolução de outubro, do jornalista americano John Reed.
O manifesto dos coronéis era aberto por Amaury Kruel, cujo destino seria o de se reaproximar de Jango, tornando-se seu ministro do Exército, e dele se afastar definitivamente em 31 de março de 64, quando aderiu ao movimento militar que depôs o presidente da República. Goulart foi, assim, por duas vezes derrubado por Kruel. Coincidência ou estava escrito no tempo, como costumam achar os fatalistas? Não sei. Mas o tema de Helio Fernandes não foi o mistério.
Pelo contrário, ele percorreu a estrada da clarificação. De fato, ao ceder à pressão descabida (os coronéis nada tinham com a política trabalhista), Vargas cedeu e, com isso, abriu um precedente e começou a perder estabilidade. Tanto é assim que, menos de um ano depois, em agosto, deparou-se no último ato de sua vida com o documento não dos coronéis, mas dos generais, exigindo sua renúncia. Vargas, ao contrário do que praticou em 53, era muito firme em suas decisões. Era dual, mas não era dúbio. Não vacilava. Agiu desta forma na Segunda Guerra Mundial equilibrando o País entre Churchill, Roosevelt, Hitler e Stalin. Este desafio não era para qualquer um. Errou em 53, como destaca HF, morreu em 54, como está na história.
Juscelino Kubitschek não enfrentou o conflito mundial, mas decidia com firmeza. Logo ao assumir, em janeiro de 56, percebeu que sem o general Odilo Denys no comando do I Exército e sem o general Lott no Ministério da Guerra, como se chamava à época, não governaria. Não perdeu tempo. Denys atingira a idade limite. JK enviou mensagem ao Congresso, a lei está valendo até hoje, permitindo a reconvocação de militares para o serviço ativo.
Não vacilou na anistia aos rebeldes de Jacareacanga, em 56, tampouco na anistia aos revoltosos de Aragarças de março de 60. Não custava a decidir. Alterou pouco sua equipe de governo ao longo de cinco anos, dourados por sinal. Só nomeou pessoas habilitadas. Não escolheu qualquer incompetente. Era seu estilo.
O estilo de João Goulart era completamente diferente. Vargas e JK tinham vocação para o poder, cada qual à sua maneira. Goulart não. Detestava situações difíceis, confrontos, debates. Havia Carlos Lacerda em um de seus caminhos, Brizola em outro. Não resistiu às contradições. Tinha horror a lidar com elas. Mas elas são próprias da política. Costa e Silva teve decisão no desfecho do golpe, ocupando o Palácio de Caxias.
No poder, não ocupou o espaço do Planalto. Limitava-se a assinar, lastimando as cassações e suspensões de direitos políticos impostos pelo Alto Comando. Foi encurralado em 1968 quando do Ato 5. Em junho de 69, um derrame cerebral o afastou do governo. Morreria meses depois. Na realidade, foi deposto em dezembro de 68. Castelo Branco, seu antecessor no ciclo dos generais, havia sido parcialmente deposto em outubro de 65, quando foi obrigado a assinar o Ato 2.
Na área militar, Ernesto Geisel, responsável pela brutal censura à TRIBUNA DA IMPRENSA, decidia com firmeza, reconheça-se. Demitiu o general Ednardo, demitiu o ministro Silvio Frota, demitiu o general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, promoveu João Figueiredo de qualquer maneira e dele fez seu sucessor.
Chegamos a Luis Inácio Lula da Silva. Eleito e reeleito, consagrado pelo voto popular, ocupando legitimamente o poder, ao contrário dos generais que o antecederam no tempo e na história, não gosta de afastar aqueles que julga amigos, mas que na realidade não merecem sua amizade porque só lhe criam problemas.
Custou a demitir o ministro José Dirceu, tendo, entretanto, a sorte de encontrar uma Dilma Rousseff, que, com firmeza, apagou o incêndio e estabilizou o presidente no Alvorada e na largada inicial da administração. Até o momento ainda não demitiu, como deveria ter feito, a ministra Marta Suplicy. Não demitiu, como as condições exigem, o ministro Valdir Pires, um inerte que tenta se omitir da crise aérea. No sábado, por exemplo, no "Jornal nacional" da Globo, teve a coragem de dizer que o tráfego de aviões não era de sua esfera.
Como não? Se ele é o ministro da Defesa, e a circulação de aeronaves é subordinada ao comando da Aeronáutica, e este comando é vinculado ao Ministério da Defesa, ao contrário do que afirmou, a responsabilidade é sua, sim. Valdir Pires fugiu da responsabilidade. Finalmente chegamos ao triste episódio Marco Aurélio Garcia. O homem do gesto obsceno, sinal de comemoração das mais absurdas que a história pode registrar. O presidente Lula deveria tê-lo demitido imediatamente. Mas não o fez. A contemplação é péssima para o presidente, péssima para o governo, pior ainda para o País.
A perplexidade e o silêncio dizem tudo. Escrevi sobre vários presidentes, falei de vários estilos. E João Figueiredo? Não decidiu o Riocentro, não decidiu a explosão deste jornal, não investigou a bomba da OAB. Incrível.