terça-feira, outubro 16, 2012

Até agora, é só promessa


J.R.Guzzo
Revista Exame

O Brasil não precisa de PAC nenhum. Mas precisa de obras de infraestrutura que vêm sendo prometidas há anos. O resultado do atraso é o aumento da distância do país em relação aos competidores internacionais.

Não se ouve falar muita coisa, nestes dias, sobre o PAC. Onde andará? Como ocorre com frequência na vida cotidiana, este fato tem dois lados. O lado bom é que a propaganda do governo deixa, pelo menos por algum tempo, de encher tanto a paciência do público falando sobre o assunto. O lado ruim é que, se o próprio governo não anda muito animado em bater palmas para seus “projetos estruturantes” e as fabulosas obras que estaria executando, imagine-se, então, a pobreza dos resultados concretos que conseguiu obter. É verdade que o país não precisa de PAC nenhum: mas precisa, com certeza e com urgência, das obras que o programa prometeu, sobretudo porque a população está pagando muito caro para o governo construir o que não constrói. Há exceções, aqui e ali, no andamento dos trabalhos. Mas, de modo geral, a coleção de obras públicas que vêm sendo prometidas há dez anos, e que são absolutamente essenciais para salva a infraestrutura brasileira do colapso, está afundada numa sucessão de atrasos, estouro de orçamentos, maus projetos, maus contratos, más ideias, trabalhos paralisados ou simplesmente abandonados, execução de terceira categoria, problemas ambientais, níveis recordes de incompetência – e mais um caminhão de dificuldades, cuja leitura seria cansativa demais. O resultado é um desastre para a produtividade, e só aumenta a distância que vai colocando o Brasil cada vez mais para trás na corrida com seus competidores.

O coração desse fracasso está nos oitos anos do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Qualquer balanço sobre o que foi realmente construído nesse período de tempo mostra resultados paupérrimos, em termos de conclusão efetiva de obras e benefícios para o país. É o que aconteceu, por exemplo, com a célebre “transposição do são Francisco”, na qual o que se transpôs, basicamente, foi dinheiro do Erário para o bolso das empreiteiras e seus advogados na máquina estatal. O andamento das obras de grandes ferrovias destinadas a alterar, de forma decisiva, o sistema de transportes no Brasil equivale a um certificado internacional de inépcia. As refinarias de petróleo que o governo Lula prometeu são, igualmente, uma obra-prima na arte de fazer muito barulho por nada – ou melhor, por nada de útil, mas por muito em matéria de torrar dinheiro público.  Como alguns leitores talvez ainda se lembrem,  as refinarias até foram “inauguradas”, com fotos de algum terreno onde apareciam Lula, um bando de puxa-palmas com capacete amarelo e uns tratores ao fundo. De lá para cá, só uma coisa mudou nos terrenos: sumiram os tratores. Na verdade, a única refinaria em construção é a de Abreu Lima, em Pernambuco - a ser montada em sociedade com o companheiro Hugo Chávez, num grande feito de geopolítica do governo anterior. Até hoje, como bem se sabe, a Venezuela não entrou com um tostão em moeda corrente para honrar sua parte do acordo.  Em compensação, a refinaria já com custo cinco vezes maior do que o planejado. Os investimentos da administração Lula no Nordeste, no fim das contas, atingem a soma superior a 100 bilhões de reais:  quando se vai ver o que foi realmente construído com esse dinheiro, muito pouco aparece. 

O governo atual não tem tido, também, um grande sucesso com o “maior programa de obras da história deste país” – até porque uma boa parte de seu tempo e esforços tem sido gasta na tarefa de consertar erros mais grosseiros que encontrou no plano mestre de seu antecessor.  Não seria realista esperar que toque no assunto, pois não pode dar a entender, nem de longe, que recebeu de Lula uma herança desgraçada: afinal, se não fosse por ele, a presidente Dilma Rousseff não estaria hoje dando entrevistas às mais celebradas publicações da imprensa internacional nem aparecendo nas listas de “mulheres mais poderosas” do mundo. Mas o que interessa para a população não é o que ela diz, e sim o que o seu governo faz. Espera-se, apenas, que faça mais e melhor.  

A culpa não é da Imprensa


João Ubaldo Ribeiro
O Globo

Desde que o mundo é mundo, dar más notícias não é bom negócio. Não resolve nada cortar a cabeça do mensageiro, mas parece que os destinatários das más notícias têm opinião diversa, principalmente quando são poderosos e a mensagem anuncia algo que ameaça esse poder. E isso se estende às opiniões. 

Também desde que o mundo é mundo, os cortesãos aprendem a evitar dar palpites negativos sobre os atos dos poderosos de que dependem e é proverbial a recorrência, no folclore de muitas culturas, de histórias sobre como reis se disfarçavam e assim saíam às ruas, para tentar ouvir sem intermediários o que falavam seus súditos.

O portador de más notícias e opiniões desagradáveis, em nossos dias, é a imprensa, entendida esta como todos os meios de comunicação. Isso leva a fenômenos interessantes. Na internet é comum ler que a grande imprensa, por estar mancomunada com o governo ou com o rabo preso por interesses escusos, não denuncia isso ou aquilo e distorce os fatos para agradar o poder. 

Daí a alguns cliques de mouse, surge um artigo indignado, argumentando que a imprensa vendida e golpista é que está por trás, por exemplo, das condenações dos réus do mensalão. E protestos embravecidos choveram, logo depois das condenações da última terça-feira, culminando com o comentário de um dos advogados do réu, segundo o qual jornalista bom é jornalista morto.

O autor da frase explicou que se tratava de um pilhéria. Certamente foi, embora eu não creia que achassem muita graça nela os incontáveis jornalistas que, desde os primórdios de sua profissão, em todo o mundo, foram e são assassinados, torturados, encarcerados, banidos ou forçados ao silêncio. Toda ditadura, sem exceção, tem como prioridade básica o controle da imprensa, a vigilância rigorosa sobre os fatos e opiniões que podem ser conhecidos pelo público. 

Não há como aceitar o controle da imprensa pelo Estado e muito menos pelo governo. O resto é conversa e interesse contrariado, pois em lugar nenhum existe democracia sem liberdade de imprensa. É a imprensa, apesar de todos os defeitos comuns à condição humana, que serve de olho e boca da coletividade, não pode ser cerceada sem que as liberdades civis também sejam.

O espirituoso chiste do advogado, que perdeu a causa e -quem sabe se num ato falho - pode numa piada ter exposto o que lhe vai no coração, ainda compõe um panorama curioso. Os condenados e seus aliados parece que não se lembram das barbeiragens que cometeram desde que chegaram ao poder. 

Quem os meteu nessa camisa de onze varas não foi a imprensa, foram os atos deles mesmos. Não enxergaram que não estamos mais no país dos golpes, rumores de golpes, advertências à nação e outras práticas enterradas no passado, que as instituições vêm resistindo muito bem aos trancos por que têm passado, que houve muitas mudanças neste mundo.

Num aparente acesso de onipotência, decidiram que sórdidas práticas velhas, como a compra de apoio e de votos, nas mãos deles de alguma forma não apenas se justificavam, mas quase se legitimavam. Montaram um esquema cujos riscos não avaliaram e que talvez desmoronasse inevitavelmente, mesmo que não houvesse sido ruidosamente delatado - havia gente demais envolvida e buracos demais; o vazamento era sempre uma possibilidade. 

Não me refiro a deslizes éticos ou ações criminosas, mas a barbeiragens motivadas pelo excesso de confiança e pelo desdém pela inteligência alheia. Espertos demais, com as cabeças envoltas pelas nuvens do poder e da glória, erraram nas manobras e não por culpa da imprensa ou de ninguém, mas da própria inépcia, que redundou em ações incompetentes. O que previram, naturalmente, também se revelou errado. 

Em certo momento do desenrolar da história, pareceu até que o ex-presidente Lula achava que os ministros do Supremo por ele indicados eram ocupantes de cargos em comissão. Nomeados por ele deviam votar com ele, não foi para isso que os nomeou, onde já se viu uma aberração dessas? Por que não é possível demiti-los por quebra de confiança?

Em suma, alçados ao poder, ainda rodeados da aura ética e ideologicamente definida que publicamente os caracterizava, consagrados por uma votação expressiva e imersos numa onda de popularidade incontestável, os novos governantes e estrategistas avaliaram mal a situação, superestimaram a si mesmos e, paralelamente, subestimaram os obstáculos que enfrentariam. 

Viam-se talvez como praticantes sagazes e habilidosos de uma eficiente Realpolitik e seus planos para a obtenção da sempre lembrada governabilidade. Claro que, como disse Kennedy uma vez, a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. Ninguém entre os atingidos deve desejar ser o pai dessa grande derrota. Mas os pais são eles mesmos. Armaram um esquema cheio de si, acreditaram nos falsos indícios que às vezes entontecem os poderosos e quebraram a cara. 

Pois, afinal, as condenações são a demonstração de que o esquema armado para governar, em vez de sabido, era burro e que os novos generais engendraram e puseram em ação um plano gravemente equivocado e desastroso.

A culpa não é da imprensa, nem de ninguém, a não ser dos autores e agentes da estratégia. Supondo-se malandros, demonstraram-se otários. Isso certamente é duro de admitir e talvez nunca o seja de todo. Até porque vem aí, depois das sentenças, o processo em que os condenados serão considerados mártires por seus companheiros, serão objeto de apelos internacionais e, enfim, serão glorificados como heróis de sua causa, o que lá venha a ser definido como tal na ocasião. 

E a imprensa, com toda a certeza, vai ser necessária, para que isso tenha repercussão. A imprensa serve a todos, até mesmo a quem precisa muito de um culpado pelo próprio fiasco.

Na cabeceira da pista


Dora Kramer 
O Estado de S.Paulo

Candidato a presidente, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, ainda não é, mas está no páreo e deixa isso muito claro: avisa aos navegantes que não tem "temperamento para vice" enquanto pavimenta o terreno com base na arte de fazer amigos e influenciar pessoas.

Não cria conflitos, trabalha para dirimir os existentes e só coleciona os contenciosos absolutamente necessários. Um exemplo é a tênue, porém picante, tensão com o PT de cuja órbita procura distanciar o PSB.

No plano local, já entrou na eleição reconciliado com o senador Jarbas Vasconcelos, adversário durante 20 anos. Quando saiu dela vitorioso no primeiro turno em Recife, tratou logo de pedir desculpas aos que "eventualmente tenha ofendido" no calor da disputa.

Na cena nacional, desfila de braço dado com o ex-presidente Lula, reafirma os laços com a presidente Dilma Rousseff, confere substância ao PSD de Gilberto Kassab, já é visto como objeto de desejo no PMDB e cultiva as melhores relações com o PSDB.

Dividiu vitória com Aécio Neves em Belo Horizonte e recebe mensagens constantes de interlocutores de Fernando Henrique Cardoso a quem confere toda deferência.

O que isso tudo quer dizer?

Por ora significa que é tempo de semeadura.

Não se consegue obter de Eduardo Campos uma resposta precisa sobre prováveis alianças nem sobre nada que diga respeito ao seu futuro político.

Em parte porque ele mesmo não tem respostas precisas, em parte porque não lhe é conveniente revelar o conteúdo de certas tratativas.

O governador capta as mensagens e decodifica.

Para ele, no momento o PSDB joga - "com acerto, do ponto de vista da oposição" - na cizânia da base governista e atua para abrir espaço na tropa que em tese estaria unida para sustentar a reeleição de Dilma, em 2014.

Nesse caso, o PSB seria um ótimo parceiro por dois motivos: representaria a "renovação" com mais eficácia que o PSDB - desgastado depois de oito anos de Presidência e outros tantos de embate com o PT - e tem em Pernambuco um porto seguro no Nordeste.

Kassab, se José Serra perder em São Paulo, aposta que "vai trabalhar com Dilma". Em ministério, para ele ou correligionário próximo. Terminado o mandato na Prefeitura, vai precisar de uma referência de poder "para cuidar daquelas 50 crianças". Vale dizer, a bancada de deputados federais que filiou ao PSD.

Sobre sua permanência ao lado de Lula, Dilma e do PT, a posição de Eduardo Campos é mais complexa.

Não fecha nem deixa a porta completamente aberta. Simplesmente não põe (ainda) essa aliança em jogo. Fala dela como quem procura manter o distanciamento do analista.

Na visão do governador, primeiro de tudo há uma questão a ser resolvida - a agenda do governo - e o equívoco a ser corrigido - a maneira de tratar os aliados.

A pauta do Planalto, na opinião dele, não pode ser eleitoral. "A governo algum interessa a antecipação de disputas, pois dissemina a desagregação e resulta em perda antecipada de poder."

O melhor a fazer é se dedicar a uma "agenda de vida real": situação dos Estados e municípios, crescimento da economia, seca no Nordeste, royalties do petróleo, investimento em infraestrutura, fornecimento de energia e por aí vai uma gama enorme de problemas.

A arrogância no trato com os parceiros não tem sido boa conselheira para o PT que por ela levou uma surra memorável em Recife e deixou Aécio Neves levar adiante seu plano de reafirmar a liderança em Belo Horizonte. "Falta vocação e humildade para engolir sapos", aponta.

Se quiser chegar forte em 2014, Eduardo Campos acha que o governo precisa se apressar, sem perder de vista a data limite. Em outubro de 2013 vence o prazo de filiação partidária para os candidatos à eleição do ano seguinte quando, então, estará oficialmente aberta a temporada da sucessão.

O cachimbo que entorta a boca


Miguel Jorge (*)
Valor Econômico

A propósito da política de proteção da indústria brasileira, que a presidente Dilma Rousseff acaba de defender em discurso na ONU, algumas considerações parecem, no mínimo, oportunas. À parte a discussão sobre se o Brasil é protecionista ou pratica "iniciativas legítimas de defesa comercial", como definiu a presidente, a questão central é que nossa indústria tem baixa competitividade.

Isso, não somente por questões cambiais, mas por fatores estruturais, entre os quais estão, de um lado, a alta carga tributária, a péssima qualidade da infraestrutura, a baixa produtividade da mão de obra e os custos do trabalho e de financiamento. São os explosivos ingredientes do chamado "custo Brasil", que torna nossa produção mais cara do que em outros países e potencializa os problemas de baixa competitividade.

Mas, de outro lado, é preciso não perder de vista o fato de que o setor tem uma péssima herança dos tempos de mercado fechado e protegido. Dos anos 1970 até 1990, era proibido importar tudo e esse gigantesco protecionismo garantiu à indústria uma enorme zona de conforto, que não exigiu modernização, uma vez que não havia concorrência externa e se dispunha de um grande mercado interno.

Quando o protecionismo prevalece, as indústrias tendem a se acomodar e deixam de investir em modernização.

Desse período, o país herdou uma indústria automotiva sucateada até os anos 1990, o atraso tecnológico decorrente da Política Nacional de Informática dos anos 1970 e um passado de hiperinflação, até hoje na memória da população adulta. Resumindo: as restrições impostas aos produtos importados na fase protecionista retardaram o desenvolvimento empresarial no Brasil.

A partir do fortalecimento do real e da abertura da economia às importações, ficaram evidentes as graves deficiências produtivas de uma relevante parcela das indústrias. A abertura econômica teve impacto modernizante em alguns setores, que registraram importantes avanços tecnológicos, mas grande parte das indústrias ficou menos competitiva por várias razões e uma delas decorre, exatamente, da zona de conforto gerada pelo excesso de protecionismo.

Não por acaso, costuma-se dizer que o uso do cachimbo entorta a boca.

Quando o protecionismo prevalece, as indústrias tendem a se acomodar e deixam de investir em modernização, tecnologia e produtividade. Em vez de oferecer produtos de qualidade internacional, trabalham com custos altos e produtos ruins, comparativamente aos internacionais. Resultado: ineficiência em vez de produtividade, conspirando contra o crescimento do país.

A verdade é que continuamos pouco afeitos à competição e o governo, ao trilhar o caminho do protecionismo (ou das "iniciativas legítimas de defesa comercial", como diz a presidente), pouco tem feito para reverter este cenário.

Vale lembrar algumas das medidas mais recentes, voltando há pouco mais de um ano, quando foi anunciado o decreto que aumentou em 30 pontos percentuais o IPI sobre veículos importados - e olhe que, isso para proteger uma indústria, toda multinacional, de importações de apenas 5,9% do total do mercado de automóveis!

De lá para cá, foram sobretaxados os tênis asiáticos de alta performance, impostos limites ao desembarque de carros mexicanos e continuam em análise pedidos de salvaguarda a diversos setores, como o têxtil e o de vinhos.

No início de setembro, o governo brasileiro anunciou a elevação das tarifas de importação de 100 produtos, entre eles pneus, químicos, móveis, petroquímicos e material de construção. A tarifa média de 12%, já bem acima da média mundial, passou para 25%. E outra lista, com mais uma centena de produtos, está sendo preparada para outubro.

Os aumentos ficam abaixo do teto de 35% estabelecido junto à OMC, mas em vários casos a restrição é duplicada, porque a "iniciativa legítima de defesa comercial" vale também para mercadorias já protegidas por medidas antidumping.

A curto prazo, a restrição aos importados funciona às mil maravilhas para os setores protegidos, mas prejudica os consumidores, pois a concorrência reduz o poder de monopólio das empresas locais, e por extensão, os preços. Em um prazo mais longo, no entanto, a proteção contra a competição dos importados desestimula a economia brasileira como um todo, além de reduzir a eficiência e a competitividade do país.

Não nos enganemos: a queda na produtividade reduz a capacidade de as empresas de absorverem aumentos de custos sem repassá-los aos preços. Se os salários aumentam mais que a inflação, como vem acontecendo, fica mais evidente ainda a necessidade de se aumentar a produtividade e a competitividade da indústria.

Para isso, não basta desvalorizar o real, baixar os juros ou adotar "iniciativas legítimas de defesa comercial", porque o crescimento da produtividade não se dá em um passe de mágica. Ao contrário, é uma construção realizada passo a passo, ao longo do tempo.

Essa construção exige investimentos em novas máquinas e equipamentos, que não apresentam cenário de retorno vantajoso no curto prazo, e na formação e treinamento da mão de obra, e exige redução dos vários impostos que estrangulam a produção. Também exige grandes investimentos em pesquisa tecnológica e em inovação.

A exposição à concorrência externa obriga nossas empresas a reduzirem custos, investir no processo de inovação e realizar alianças estratégicas. Essa busca de adequação aos padrões internacionais gera ganhos de qualidade e de produtividade, com reflexos na queda do nível geral de preços dos produtos. A concorrência internacional incentiva o desenvolvimento das empresas, gerando um nova dinâmica nas relações empresariais.

Veja-se o exemplo de nossa agricultura. Na última década, sua produtividade cresceu o dobro da média mundial, ou quatro por cento ao ano, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O rendimento de algumas culturas, como milho, arroz e trigo, aumentou bem mais do que em países produtores tradicionais, como Estados Unidos, Canadá, Japão e Rússia.

A soja, por exemplo, é um caso de absoluto sucesso. Começou a se espalhar pelo Brasil, a partir do sul, ao longo dos anos 60, e hoje, graças a um forte avanço tecnológico, caminhamos para produzir oitenta milhões de toneladas e ser o maior exportador mundial.

O setor não se acomoda: seu desafio continua sendo explorar novos limites para garantir mais produtividade e sustentabilidade. E a indústria? 

(*) Miguel Jorge - É jornalista. Foi ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio, de 2007 a 2010.

A raiz do mensalão


Merval Pereira
O Globo

Pode até ser que o mensalão não impeça o PT de vencer a eleição para a prefeitura de São Paulo, como indicam as primeiras pesquisas, mas me parece inegável que o partido sofrerá a médio prazo os efeitos de seu desprezo pelas regras éticas na política.

O PT nasceu defendendo justamente um novo modo de fazer política e foi assim que chegou ao poder, mesmo que no período anterior à eleição de 2002 já estivesse envolvido em diversas situações nebulosas nas prefeituras que vinha governando.

Os assassinatos de Celso Daniel, prefeito de Santo André, e Toninho do PT, prefeito Campinas, são dois exemplos da gravidade dos problemas que envolviam o PT já antes de chegar ao poder central do país, com irregularidades em serviços como coleta de lixo e distribuição de propinas para financiamento de eleições.

Quando o escândalo do mensalão eclodiu, em 2005, dois dos fundadores do PT, o cientista político César Benjamin e o economista Paulo de Tarso Venceslau, revelaram os bastidores da luta de poder dentro do partido nos anos 90 do século passado, ocasião que eles identificam como o “ovo da serpente” no qual teria sido gestado esse projeto de poder que acabou desaguando nas práticas de corrupção.

Coordenador da campanha de Lula a presidente em 1989, Benjamin garantiu que “o que está aparecendo agora é uma prática sistêmica que tem pelo menos 15 anos no âmbito do PT, da CUT e da esquerda em geral. Nesse ponto, a responsabilidade do presidente Lula e do ex-ministro José Dirceu é enorme”.

O episódio do mensalão seria o desdobramento de uma série de práticas que começaram na gestão do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) no fim dos anos 90, quando Delúbio Soares foi nomeado representante da CUT na gestão do fundo.

Esse tipo de prática, segundo César Benjamin, deu “ao grupo do Lula” uma arma nova na luta interna da esquerda. O esquema de Marcos Valério foi apenas um upgrade na prática de desvio de verbas públicas para financiar campanhas eleitorais.

“Esse esquema pessoal do Lula começou a gerenciar quantidades crescentes de recursos, e isso foi um fator decisivo para que o grupo político do Lula pudesse obter a hegemonia dentro do PT e da CUT”, disse Benjamin.

Paulo de Tarso Venceslau, companheiro de exílio do ex-ministro José Dirceu, foi expulso no começo de 1998 depois de denunciar um esquema de arrecadação de dinheiro junto a prefeituras do PT organizado pelo advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula, na casa de quem morou durante anos.

Um relatório de investigação interna do PT, assinado por Hélio Bicudo, José Eduardo Cardozo, hoje ministro da Justiça do governo Dilma, e Paul Singer, concluiu pela culpa de Teixeira, mas quem acabou expulso do partido foi Venceslau. Ele identifica esse episódio como o momento em que “Lula se consolida como caudilho, e o partido se ajoelha diante dele”.

Para ele, “um caudilho com esse poder, um partido de joelhos e um executor como o Zé Dirceu só podiam levar a isso que estamos vendo hoje", garantiu Venceslau.

Segundo ele, na entrevista daquela ocasião, “evidentemente que Lula não operava, assim como não está operando hoje, mas como ele sabia naquela época, ele sabe hoje, sempre soube”.

A reação do PT ao julgamento do mensalão tem obedecido a uma oscilação que depende dos interesses políticos do partido. Da reação inicial de depressão e pedido de desculpas à afirmação de que o mensalão não passava de caixa dois eleitoral, o então presidente recuperou forças para se reeleger.

A partir daí, o mensalão passou a ser “uma farsa”. Agora, que o esquema foi todo revelado à opinião pública, o PT diz que o julgamento é golpe dos setores reacionários contra um governo popular.

O que importa é vencer a eleição em São Paulo, comandada por José Dirceu, como sempre comandou. O mensalão não terá a menor influência no eleitorado, diz o imediatista Lula, que pensa na próxima eleição sem pensar na próxima geração.

Os ensinamentos que o episódio poderia proporcionar ao partido, permitindo que recuperasse o rumo que, pelo menos em teoria, era o seu ao ser fundado, vai sendo engolido pelo pragmatismo que levou o PT aonde está hoje: no poder, mas em marcha batida para se transformar em mais uma legenda vulgarizada pela banalização da política.

Especialistas divergem sobre ascensão da “nova classe média”


Agência Brasil

Nova classe média não é unanimidade entre especialistas
 (Imagem: "Huelga", de Antônio Bemi)

Brasília – O diagnóstico de ascensão de parte da população pobre à classe média na última década, como defendido por alguns intelectuais e por técnicos do governo não é consenso entre especialistas em desigualdade e estratificação social.

Esses especialistas não negam a diminuição da desigualdade social, a redução da concentração da riqueza, a melhoria da renda dos mais pobres e o incremento das perspectivas desse setor da população. Entretanto, consideram que a renda não é o único fator a ser levado em conta – pesquisa divulgada pelo governo na semana passada classifica como classe média os que vivem em famílias com renda per capita mensal entre R$ 291 e R$ 1.019 e tem baixa probabilidade de passar a ser pobre no futuro próximo.

“Essa classe média é uma fantasia que está se criando”, critica Eduardo Fagnani, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Não se define a classe média pela renda, mas pela posição na estrutura populacional”, explica o economista que também participa do núcleo de estudos Plataforma Política Social.

Segundo ele, o conjunto da população em ascensão ainda depende muito do sistema público de saúde, previdência e ensino e não tem entre as suas despesas o pagamento de escola particular para os filhos, a manutenção de previdência complementar, acesso a plano de saúde privado ou o costume de fazer viagens ao exterior.

Ele lembra que a noção de classe média é associada a determinados padrões de consumo e de formação educacional “que não temos no Brasil, como amplo acesso ao curso superior”, disse mencionando a situação da Europa Ocidental, anos após a Segunda Guerra Mundial (1939-1956), quando a maior parte da população se torna classe média.

Em linha semelhante, o sociólogo Jessé Souza, autor do livro Os Batalhadores Brasileiros e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), prefere chamar a população em ascensão econômica no Brasil de “nova classe trabalhadora” e critica o ponto de vista estritamente econômico que não considera “condições sociais, morais e culturais”, repassados em família, que permitem a “apropriação” de hábitos e comportamentos considerados como de classe média.

Além da conceituação equivocada, Eduardo Fagnani assinala que atribuir basicamente às políticas sociais (como o Programa Bolsa Família) a razão da ascensão também é um erro. “A meu ver, há uma super valorização das políticas focalizadas. O governo está batendo no bumbo errado”, disse à Agência Brasil. “O principal legado do governo Lula (2003-2010) foi articular mais positivamente a economia com o social. É um erro não atribuir o êxito a aspectos relacionados à política econômica”.

Segundo ele, “a partir de 2006 houve uma melhor articulação entre os objetivos econômicos e sociais. Isso é o ponto central. Houve uma atenção maior no sentido de retomar o papel planejador do Estado, e este coordenar o investimento público e privado (…) As políticas fiscais e monetárias passaram a ser menos restritivas, o crédito aumentou muito, teve o aumento real do salário mínimo; isso caindo o desemprego e reduzindo o trabalho precário”.

Assim como Fagnani, a economista Sônia Rocha, ligada ao Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) relativiza a importância das políticas sociais e o uso da expressão “classe média”.

Ela elogia a “surpreendente” diminuição da desigualdade e elogia o programa Bolsa Família “que não se ‘esgarçou’ ou se ajustou às necessidades clientelísticas tradicionais, o que é uma excelente notícia e absoluta novidade em termos de mecanismo de política social no Brasil”. Para a economista, entretanto, foi o mercado de trabalho – responsável por 3/4 das rendas das famílias brasileiras – que exerceu o papel fundamental para redução da pobreza e da desigualdade.

Ela lembra ainda da crise econômica mundial que pode ter reflexos na dinâmica da economia nacional. “O que ia bem numa conjuntura externa favorável começou a virar, deixando evidente o dever de casa não feito: investimento cronicamente baixo, deficiências enormes de infraestrutura, despesas elevadas e ineficientes da máquina pública e nível educacional lamentável. Com a crise externa, não tem como o mercado interno segurar o tranco. E a crise externa vai durar… Qualquer coisa que façamos internamente também vai levar tempo para maturar”, destacou.

Jornalista, sim! Querem encarar?


Marli Gonçalves 
Alerta Total 

Epa, epa, que não estamos gostando nadica de nada desses arroubos juvenis que estão acometendo os líderes petistas agora condenados pelos magistrados da mais Alta Corte de um país; por um acaso, o nosso país. Vamos discutir quem é "urubu", "torturador", ou se "jornalista bom é jornalista morto"? 

Antes, até para saber onde estamos pisando de verdade, os riscos que corremos, precisaria fazer uma pergunta a esses líderes petistas que um dia respeitamos - eu respeitei - mas que jogam sem dó suas próprias histórias no lixo, alterados, com seus olhos cheios de sangue e ódio: como é que vocês pretendem reagir? Como vão fazer cumprir a ordem dada pelo subchefe Zé Dirceu, o número 2? Vão continuar pagando alguns outros jornalistas treinados para mandar, jogá-los uns contra os outros, até que realmente ocorra um confronto pessoal? E quanto à Justiça? Como é que se "reage" à maior instância da democracia? Podemos saber?

Dito isso, sou da paz. Não tenho lado, que esse tempo já foi. Só tenho questões, muitas. Mania de jornalista, entende?

Assim, antes que amigos ainda ligados ao PT - sim, os tenho - reajam, abro logo outro flanco, o mais rápido possível. Para dar um cascudo também no tal coronel tucano que andou tentando intimidar um repórter da Folha, pelo que consta. Aproveito para perguntar ao governador Alckmin qual teria sido o "crime" presenciado pelo atual secretário de Segurança, que é mantido no posto acima de tudo e de todos? Como assim processar o Fabio Pannunzio pela emissão de opiniões dele, no blog dele, pessoal, sem patrão, coisa de horas vagas? 

Como assim tentar calar os blogs que, vários jornalistas, mantemos, com dificuldade, ou para desopilar o fígado ou para mostrar que pensamos além dos quadradinhos da tevê e das letras diagramadas nos jornais? Neles, a gente paga para trabalhar e se dedicar, cultivar os leitores. Não temos anúncios. Não lutamos contra o Poder. Apenas o criticamos. Isso é um direito. Aliás, um dever - o que esperam de nós, o que sempre fizemos quando éramos mais respeitados. Não sei se ainda acontece, mas quando consegui o registro profissional havia um juramento - não calar diante de ameaças a qualquer pessoa.

É guerra? Já não bastam bandidos atirando em helicópteros de reportagem? Traficantes matando cinegrafista nos morros? Fazendo churrasquinho de repórter, como fizeram com Tim Lopes? As emboscadas aos jornalistas nas esquinas da vida, que crivam de balas seus corpos? As mortes encomendadas e pagas a pistoleiros. Só neste ano foram oito mortes. O que nos pôs no topo da lista mundial, quarto lugar, com mais mortes de jornalistas do que nas guerras do Iraque e Afeganistão. Uma vergonha.

Precisa vir com gracinha tipo "jornalista bom é jornalista morto"? - depois dizendo que era "piada", "modo de dizer", "bom humor"? Foi o que fez um advogado, o do Delúbio. E você, Genoíno, como pode estar assim tão fora de si, tão desesperado, para chamar jornalistas de urubus? De torturadores? Você bem sabe o que é um torturador de verdade! Sabe o horror, o conheceu bem de perto. Não se xinga de torturador, se este não o for, nem o nosso pior inimigo. 

Fica difícil agora defender você, Genoíno, por quem até há pouco jornalistas rendiam grandes amores; o procurávamos como fonte para tudo, e você respondia sempre gentil e sorridente. O que mudou? Mudamos nós, os jornalistas? Ou mudou você, que todo mundo sabe mesmo que é modesto, que não pegou dinheiro para gastar com luxinhos? Genoíno, está tão cheio de rancor, triste porque caiu numa teia partidária que talvez nem tenha visto ser armada? A gente não tem culpa dessa sua roubada. Fala isso também para a sua filha, que achei bem bonito quando ela buscou comover. Por meu pai, faria até mais. Mas, por favor, não a deixe pensando que foram jornalistas que o levaram a assinar aqueles documentos, fazer aqueles repasses, organizar as reuniões partidárias.

Deixe-a apenas fazer o senador Suplicy chorar. Nosso showman.

Parem vocês todos de ameaçar destruir a "mídia", palavra que agora quer dizer tudo o que faz cosquinha ou passa rasante a quem só quer mandar, não ouvir.

Não tentem matar- nos nem com balas, nem com palavras, nem tentando arrancar de nossas cabeças pensamentos ou posições políticas antagônicas. Esqueçam, porque nunca nos controlarão a todos. 

Morre um jornalista, nasce outro. Fecha um jornal, abre outro. A internet é infinita.

E a imprensa, imortal.

São Paulo, centro do reator, 2012 

Marli Gonçalves é jornalista - Sem dúvida.

Chacoalhada nas estatais elétricas


Suely Caldas 
O Estado de S.Paulo

Depois de dois apagões que deixaram às escuras Estados do Sul, Sudeste, Norte e Nordeste do Brasil, o governo federal anuncia mudanças na gestão da principal subsidiária da Eletrobrás, a Furnas Centrais Elétricas.

Além de tirar do comando diretores e gerentes que servem aos partidos políticos e substituí-los por profissionais do mercado, a presidente Dilma Rousseff quer acelerar um plano de reestruturação da estatal que inclui demissão de funcionários e mudanças em atribuições de diretorias.

Vai fazer com Furnas o que fez com a Petrobrás: desfazer o loteamento político construído pelo ex-presidente Lula. Nos cargos de comando, é provável que consiga, se não de uma só vez, pelo menos gradativamente. Será mais difícil, demorado e, talvez, impossível desidratar funções intermediárias povoadas por sindicalistas e companheiros petistas. Mas a profissionalização da direção de Furnas é um bom e bem-vindo começo.

A chacoalhada de Dilma nas estatais elétricas inclui também proibir empresas com obras atrasadas da participação em leilões de novas linhas de transmissão, o que excluirá da próxima licitação, prevista para novembro, as três geradoras gigantes do Grupo Eletrobrás: Furnas, Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte). O atraso nas obras chegou a uma situação tão absurda que, no Nordeste, há 32 novas usinas eólicas paralisadas, sem gerar energia, porque a Chesf não entregou as linhas de transmissão no prazo previsto em contrato. O atraso geral pode ser avaliado pela evolução do programa de investimentos em 2012: de R$ 10,2 bilhões de investimentos previstos, as empresas do Grupo Eletrobrás só aplicaram 29,6% (R$ 3,04 bilhões) até agosto.

Desde os tempos dos governos militares o modelo de gestão do setor elétrico estatal é comparável a um feudo, comandado por algum político, que distribui cargos, favorece amigos e usa as empresas para obter vantagens, favores e financiamento de campanhas eleitorais. Nos anos 1970 e 1980, a empresa-mãe Eletrobrás era dominada pelo ex-senador baiano Antonio Carlos Magalhães (ACM), que atuava em parceria com governadores das áreas de influência das subsidiárias. Por muitos anos quem mandou na Eletronorte foi o ex-governador do Pará Jader Barbalho; em Furnas, os governadores de Minas Gerais; na Chesf, o próprio ACM; e na Eletrosul, governadores do Paraná.

Com a morte de ACM, o atual presidente do Senado, José Sarney, herdou o espólio do setor elétrico e o poder de nomear dirigentes para as empresas. Até mesmo o atual presidente de Furnas, o engenheiro Flavio Decat, quadro técnico da confiança de Dilma, passou pelo crivo de Sarney.

O ex-presidente Lula vestiu com perfeição esse figurino e saiu loteando cargos entre partidos aliados, em proporção jamais vista na história elétrica do Brasil.

Começou em 2004, quando demitiu o engenheiro Luiz Pinguelli Rosa da presidência da Eletrobrás e o substituiu por Silas Rondeau, com a bênção de José Sarney. E partiu para as subsidiárias, nomeando indicados que ali estavam para servir e favorecer os interesses de seus partidos. Em Furnas, Dilma conseguiu neutralizar a longa influência do PMDB do Rio de Janeiro e colocou no comando Flavio Decat, que acaba de anunciar um plano de demissão voluntária para enxugar excessos de funcionários e adequar a empresa à nova realidade de queda de receita, com a redução de tarifas, a partir de fevereiro de 2013. Mas Decat tem encontrado dificuldades para mudar vícios e defeitos estruturais em Furnas. Pior será quando a faxina alcançar a Chesf e a Eletronorte, onde há décadas a influência dos políticos locais está enraizada.

Mensalão. "Acho estranho e muito, muito grave, que alguém diga 'houve caixa 2'. Caixa 2 é crime, é agressão contra a sociedade brasileira. Mesmo que tivesse sido isso, não é pouco. É grave, porque parece que ilícito no Brasil pode ser realizado e tudo bem" - nesses quase dois meses de julgamento do caso mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), um dos momentos mais lúcidos e oportunos ficou registrado nesse trecho do voto da ministra Cármen Lúcia, ao reprovar a defesa de Delúbio Soares, que admitiu o crime de caixa 2 esperando, com isso, conseguir absolver o seu cliente.

A banalização e a tolerância com a corrupção marcaram o estilo de governar do ex-presidente Lula. Os partidos aliados pediam e conseguiam cargos e verbas em troca de apoio político ao governo. E, quando o titular do cargo era flagrado em desvio de dinheiro público, recebia de Lula carinho, compreensão, abraço fraterno. A começar pelo delator do mensalão, Roberto Jefferson, em favor de quem Lula disse que assinaria um cheque em branco.

O setor elétrico não foi o único. Todas as estatais, incluindo a Petrobrás (lembram do deputado Severino Cavalcanti pedindo "aquela diretoria que fura poço e encontra petróleo"?), ministérios e órgãos públicos passaram a ser comandados por políticos. Como se fosse algo banal, corriqueiro e necessário para a governabilidade.

Ora, se a corrupção e o desvio de dinheiro público são tolerados, permitidos, por que não o caixa 2, que apenas financia campanhas eleitorais? Assim raciocinam Lula, o PT e a defesa de Delúbio Soares, a quem caberia estar atento à lei, e não dela desdenhar.

A ministra Cármen Lúcia cuidou de lembrá-lo de que caixa 2 é crime previsto em lei, um ilícito que deve ser punido, não ignorado ou perdoado como coisa menor. Portanto, não esperasse o advogado da mais alta Corte do País cumplicidade para seu esdrúxulo raciocínio.

Concessões. Amanhã é o prazo final para as empresas elétricas manifestarem interesse pela renovação das concessões de seus contratos que vencem entre 2015 e 2017. Provavelmente, todas irão responder positivamente, porque a decisão pode ser revista mais adiante. Mas Furnas, Chesf, Eletronorte, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) estão apreensivas.

Além da falta de dados numéricos com que trabalha o governo e que têm efeito na tarifa, a Medida Provisória n.º 579 está longe de ser aprovada pelo Congresso Nacional, criando insegurança jurídica. A queda da tarifa na conta de luz é muito bem-vinda, mas o governo precisa dialogar com as empresas para que não haja cancelamento de investimentos e evitar mais apagões no futuro.

Bolhas e bolas murchas


Vinicius Torres Freire 
Folha de São Paulo

Os preços de imóveis estão horríveis no Brasil, a gente sabe. Desde 2008, outro ano que não termina, as casas ficaram em média uns 150% mais caras em São Paulo e ainda mais extravagantes 180% no Rio.

Na semana passada, o FMI voltou a falar em bolha imobiliária no Brasil. Há várias bolas murchas ou furadas, mas bolha imobiliária está difícil de ver. Por ora, ao menos.

Como o FMI errou barbaramente no caso da bolha americana (estava "tudo bem", diziam em 2007), talvez fosse o caso de a gente ficar tranquilo com o alerta do Fundo, digamos, para não perder a piada.
Há bolha imobiliária no Brasil? O assunto mal cabe em teses universitárias, que dirá em colunas de jornal. Mas a horrível inflação imobiliária brasileira não parece bolha.

Não há variedade de instrumentos financeiros sofisticados nem dinheiro bastante para alavancar uma bolha. O crédito parece ser concedido de maneira razoável -a inadimplência imobiliária é mais ou menos um quarto da inadimplência geral.

As estatísticas imobiliárias são fracas e escassas, certo. Mas haveria bolha num país com ainda tamanho deficit habitacional? Onde estão as massas de imóveis construídos e vendidos para especular, com dinheiro emprestado, por exemplo?

O crescimento rápido do crédito imobiliário não se deveu a melhorias na regulação e à baixa razoável da taxa de juros, associadas a um periodozinho de crescimento econômico bom? E os preços sobem agora mais devagar.

Ainda assim, o crédito imobiliário como proporção do PIB é baixo, menor que em muito país "hermano", mesmo tendo saltado de 3,7% do PIB, em 2010, para 5,8% do PIB, agora.

Sim, a calmaria pode ser ilusão. O desemprego está baixo, assim como os juros. Quando subirem, quando a maré baixar, vamos ver quem nadava pelado. A inadimplência subirá, bancos vão perder dinheiro, o crédito vai piorar? Difícil saber, os dados de agora não permitem prever tamanho rolo. Como se diz em filme de tribunal americano: "Especulativo, protesto".

Decerto a situação brasileira tem muita bola cheia que pode murchar de modo perigoso. Mudando um pouco de assunto, mas não muito, não sabemos se é "sustentável", duradoura, a situação do emprego e dos juros. Seriam bolas cheias demais, a ponto de estourar?

O juro caiu no Brasil, entre outros motivos, por causa da lerdeza mundial, dos juros baixos (zero) no centro do mundo. Um dia, eles subirão. Daqui a três anos, talvez, um pouco mais. Isso vai nos afetar.

O desemprego está muito baixo no Brasil. Bola cheia demais? Se o país voltar a crescer, vamos importar trabalhadores da vizinhança e da Europa desempregada? Daqui, não tem muito de onde tirar. Os custos (preços) vão subir ainda mais?

Mesmo com desemprego baixo, a inadimplência não cai.

O governo está reduzindo impostos e, ao mesmo tempo, reduzindo sua dívida porque a despesa com juros caiu. Logo, "economiza" menos.

Com Copa e eleição pela frente pode economizar ainda menos, mas gastando o dinheiro, em vez de reduzir imposto e dívida? Isto é, o governo vai gastar em consumo o dinheiro da bonança dos juros baixos (e vai continuar a estimular o consumo das famílias), em vez de dar uma força para o investimento?

O impeachment foi apenas um rio que passou na vida dele: Collor continua o mesmo


Carlos Newton
Tribuna da Imprensa


A revista Época, na edição que está nas bancas, mostra que o ex-presidente Fernando Collor perdeu o poder, mas não abandonou os maus costumes. A reportagem mostra que Acemilton Gonçalves da Silva é jardineiro na Casa da Dinda, residência da família Collor de Mello desde a década de 1960 e atual morada do senador Fernando Collor (PTB-AL) em Brasília.

Mas, para o Senado, o funcionário consta como assistente parlamentar no gabinete de Collor, designado pela sigla burocrática AP08, com salário de R$ 2.200 mensais, pago pela instituição – ou seja, pelo contribuinte.

Além do jardineiro, duas colegas de gabinete são pagas para trabalhar no Senado, mas prestam serviços particulares a Collor: as arquivistas Carmem Valéria Soares Rocha e Sandra Regina Sasaki, que constam como assistentes parlamentares da categoria AP04, um cargo comissionado cujo salário é de R$ 6,4 mil. No entanto, elas trabalham no Centro de Memória do Presidente Fernando Collor – uma casa branca em frente à Casa da Dinda -, onde organizam o acervo e a biblioteca do local.

As informações da Revista Época destacam que Acemilton foi nomeado por Collor em fevereiro de 2007, uma semana depois da posse como senador. A nomeação saiu no ato número 1.343, de 7 de fevereiro de 2007, um dos famosos atos secretos do Senado, conjunto de medidas que, contrariando a lei, não foram publicadas e provocaram escândalos em 2009. Acemilton, Carmem e Sandra não precisam bater ponto.

Em nota enviada à Época, o chefe de gabinete de Collor, Joberto Mattos de Sant’Anna, respondeu que Acemilton não é jardineiro. “Desempenham, os três servidores (Acemilton, Carmem e Sandra), como assistentes parlamentares, as atividades de apoio que lhes são determinadas”, diz o texto.

A revista fez fotos do jardineiro na Casa da Dinda e informa que Acemilton se identifica como jardineiro no Sistema de Identificação do Distrito Federal. A assessoria de imprensa do Senado informou que é de “responsabilidade de cada gabinete a definição das atividades desenvolvidas pelos seus servidores”.

Traduzindo: Collor não tem jeito, mesmo.

Indo na contramão


O Estado de S.Paulo

No momento em que entidades empresariais e especialistas defendem a flexibilização da legislação trabalhista, como forma de impulsionar os investimentos, o governo estuda a imposição de novos ônus sobre os empregadores, com o objetivo de reduzir a rotatividade no mercado de trabalho e, em decorrência, conter os gastos com o seguro-desemprego. As propostas em análise raiam o absurdo, indo desde a criação de taxas extras para as empresas que demitirem mais funcionários do que a média de seu setor, até a imposição de barreiras para que os trabalhadores menos qualificados tenham direito ao seguro-desemprego.

Os propositores dessas ideias estapafúrdias não levam em consideração que, justamente para conter a rotatividade, a multa rescisória sobre o FGTS foi aumentada, há 20 anos, de 10% para 40%, valor que é pago ao trabalhador - mais um adicional de 10% que é destinado ao Fundo.

Em linha com as medidas tomadas pelo governo para desonerar os custos trabalhistas de empresas de alguns setores, o Senado aprovou em agosto o fim do tal adicional de 10%, havendo a expectativa de que essa excrescência seja definitivamente eliminada pela Câmara dos Deputados - o que se espera que aconteça, por incrível que pareça, somente em junho de 2013.

Na contramão desse esforço, as inovações para reduzir a rotatividade que o governo está estudando não têm o objetivo de beneficiar o trabalhador. O que preocupa os técnicos do governo é o crescimento dos pagamentos do seguro-desemprego, cujos pedidos acumulados chegaram a 500 mil no mês de agosto. Estima-se que, em período de 12 meses, esses pagamentos, junto com o abono aos cadastrados no PIS, já representariam, nos 12 meses findos em agosto, o correspondente a 0,87% do PIB, apresentando um crescimento de 0,34 ponto porcentual em comparação com o período anual anterior, uma taxa de expansão superior à dos investimentos públicos federais no mesmo período.

Esse raciocínio deixa de levar em conta que, se os investimentos públicos têm aumentado pouco, isso se deve, em primeiro lugar, à elevação das despesas do governo com o custeio de sua máquina, que se tornaram ainda mais pesadas com a recente rodada de reajuste de salários de servidores públicos, que, em média, são superiores aos pagos pelo setor privado. E, em segundo lugar, à incompetência gerencial do governo, que não consegue transformar ideias em obras concretas.

Convém notar ainda que a taxa de desemprego em agosto caiu para 5,3%, segundo o IBGE, a menor taxa para o mês desde 2002. Foi contratado 1,8 milhão de pessoas e demitido 1,7 milhão, deixando um saldo positivo de 101 mil. Como se verifica simultaneamente um crescimento de contratações com carteira assinada, é natural que os demitidos, enquanto não encontram colocação em condições que lhes agradem, recebam o salário-desemprego. Daí a maior procura do benefício. O que deveria preocupar o governo não são os pagamentos a fazer de acordo com a lei em vigor. Haveria motivo de apreensão se a economia, apesar do baixo crescimento, não estivesse criando empregos.

Podem, é claro, ser introduzidas modificações no seguro-desemprego para evitar fraudes, bem como estabelecer normas que induzam os desempregados a frequentar cursos de qualificação. Isso não tem nada a ver com aumentar os encargos sobre as empresas em caso de demissão de funcionários. Há categorias, como a construção civil, em que os contratos de trabalho são por curto prazo, o que é próprio da atividade. Além disso, a rotatividade não é provocada somente por empresas que buscam reduzir seu passivo trabalhista. Com o aquecimento do mercado de trabalho, milhares, se não milhões de pessoas, principalmente jovens, trocam de emprego com bastante frequência, em busca de melhores salários.

Além disso, é importante considerar que o custo da demissão, hoje já alto, é levado em conta nas admissões. Se as dispensas de pessoal forem mais oneradas, isso acabará repercutindo sobre a abertura de novas vagas no setor privado.

Professor na Europa ganha quase 10 vezes mais que no Brasil


Amanda Previdelli
Exame.com

Um professor do ensino fundamental na Europa lida com uma sala com menos alunos e recebe, no fim do mês, quase 10 vezes mais que um docente brasileiro

Apuração: Amanda Previdelli
Design: Juliana Pimenta
Fonte: UBS, OECD e MEC

Um avião fecha um aeroporto por dois dias. Pode, Brasil?


Marco Prates
Exame.com

Desde sábado, mais de 400 voos foram cancelados no aeroporto de Campinas por causa de um avião de carga com pneu furado. Para ex-presidente da Infraero, prazo é inaceitável

Alexandre Battibugli/EXAME.com
Avião da Azul em Viracopos: 
passageiros da empresa, que tem 85% dos voos concentrados em Campinas, 
foram os mais prejudicados. Não há previsão ainda para reabertura do terminal 

São Paulo – Um problema com um avião de carga que aterrissava em Campinas (SP) no sábado deu mostras de que se pode fechar um aeroporto brasileiro por dois dias sem que nenhum acidente grave tenha acontecido. Desde o início da noite do dia 13, nenhum voo decola ou pousa em Viracopos, um dos dez aeroportos mais movimentados do país e o segundo que mais escoa produtos brasileiros para o exterior. E não há previsão de quando ele voltará a operar.

 “É um tempo absurdamente grande. Isso é para ser medido em horas, não dias”, afirmou Adyr da Silva, ex-presidente da Infraero.

O resultado é que a Azul, companhia aérea que centraliza seus voos em Viracopos, teve 450 voos cancelados até o momento. Todos os marcados até às 15h de hoje não voarão. A empresa já avisou que, caso a aeronave de carga da norteamericana Centurion Cargo não seja removida até este horário, mais serão cancelados.

Passageiros da Gol, Tam, TAP e Trip também foram prejudicados. As companhias aéreas defendem que estão redirecionando voos para os aeroportos de Congonhas ou Guarulhos, afirmam que estão remarcando passagens sem multa ou fornecendo acomodação aos que foram prejudicados em pleno feriado do Dia das Crianças.

A Azul pede aos passageiros que só saiam de casa hoje ao confirmar a normalização das operações pelo site da companhia ou call center.

Despreparo
Nas ruas do país já se torna cada vez mais comum a expressão “e na Copa?”, indicando a descrença da população do que pode vir a ocorrer quando o Brasil for inundado de estrangeiros no Mundial de 2014. O certo é que, por enquanto, não se pode esperar rapidez em casos de emergências.

Parte dos equipamentos necessários para remover a grande aeronave de carga só chegaram na manhã de hoje a Viracopos. Mas quando exatamente o trabalho - comandado por uma equipe de 70 pessoas, segundo a assessoria da Infraero – será concluído permanece uma incógnita. Ninguém ficará espantado se o terminal que mais recebe aviões com carga estrangeira do país completar dois dias, ou mais, paralisado.

Para Adyr da Silva, que é também o atual presidente do Instituto de Transporte Aéreo do Brasil, a Infraero não tem – ou ao menos não em condições de executar – um Plano de Remoção de Aeronave Avariada.

“Quando esse plano é feito, levanta-se todas as disponibilidades mobilizáveis para tirar o avião mais critico (maior e mais pesado) que opera no aeroporto”, defende o ex-presidente da Infraero.

EXAME.com aguarda resposta da assessoria de imprensa da empresa para saber se o plano citado existe, com aprovação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Incidentes como esse aumentam ainda mais as críticas aos terminais sob gestão pública no Brasil.

No caso de Viracopos, o consórcio que venceu o leilão no começo deste ano irá assumir completamente a gestão do aeroporto em fevereiro do ano que vem. Atualmente, segundo a Infraero, ocorre uma transição de comando.

A nova companhia ficará responsável por todas as obras necessárias para preparar o aeroporto para a Copa de 2014 e para fazer jus ao hub de exportação e importação de cargas que já é hoje, com crescente movimentação de passageiros.

Retirada de avião de Viracopos poderia ter demorado 15 h a menos


Mariana Barbosa
Folha de São Paulo

A falta de experiência prática em remoção de aeronaves pode ter atrasado em pelo menos 15 horas a operação de retirada do avião cargueiro da Centurion em Viracopos, que durou 45 horas.

Segundo apurou a Folha com um alto executivo do setor, ainda que a equipe da TAM, dona do equipamento usado na remoção, esteja bem treinada, o kit de remoção foi adquirido há apenas um ano e esta foi só a terceira vez que foi utilizado.

O diretor comercial de um dos maiores fabricante de kits de remoção de aeronaves, a Resqtec Zumro, da Holanda, afirmou que na Europa o avião teria sido removido da pista em "até dez horas".

"Foi uma operação complexa, mas longe de ser rara", disse Dennis Beck. "Pelo menos uma vez por semana, em algum aeroporto, acontece de um avião obstruir uma pista, por diferentes motivos."


Equipes trabalham para retirar o cargueiro MD-11 
da Centurion Cargo, que teve um pneu estourado durante o pouso

A operação começou 12 horas após o incidente, pois foi preciso esperar o amanhecer. Foram tomados cuidados adicionais para não danificar a pista, o que poderia fazer com que o aeroporto ficasse fechado ainda por mais tempo.

RESPONSABILIDADE
A Organização Internacional da Aviação Civil, entidade ligada às Nações Unidas e que estabelece diretrizes de operação e segurança, recomenda que cada aeroporto tenha um "plano de remoção". Mas a compra do equipamento não é obrigatória.

Como são caros --custam de R$ 2 milhões a R$ 13 milhões--, as empresas aéreas fazem "pools" regionais, em que uma adquire e presta serviço às demais. Existem 11 equipamentos espalhados pelo mundo nesses acordos. A TAM, que investiu R$ 2 milhões na compra do equipamento há um ano, é a representante da América Latina.

O Brasil ficou sem cobertura de 2005, quando o da Varig deixou de operar, até 2011. O equipamento da Varig foi leiloado recentemente, como sucata. Já a equipe da Varig de remoção de aviões está hoje quase toda na Azul. Na Europa 25 aeroportos têm equipamentos próprios, diz Beck.

O Código Brasileiro da Aeronáutica estabelece que a responsabilidade por remover aviões em caso de acidente é da companhia aérea, mas diz também que, se a empresa não tiver condições ou não providenciar "tempestivamente" a remoção, a responsabilidade é do aeroporto.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) diz que cobra dos operadores de aeroportos um plano de emergência no qual devem constar "procedimentos a serem executados e responsabilidades, ações e funções" dos órgãos e funcionários envolvidos.

O cargueiro da Centurion, um MD-11 que voou com as cores da Varig de 1991 a 2000 transportando passageiros, sofreu acidente similar, com fratura de trem de pouso, em Montevidéu, há três anos.

40 mil passageiros foram prejudicados


Ricardo Brandt e Nataly Costa 
O Estado de S. Paulo

Empresa aérea mais afetada pela interdição, a Azul não tinha nesta segunda-feira previsão de quanto tempo vai demorar para colocar os voos em dia

SÃO PAULO - Só às 18h10 desta segunda-feira, 15, 46 horas após o acidente, saiu o primeiro voo de passageiros de Viracopos, com destino a Salvador. Nesse período, 40 mil pessoas foram prejudicadas. A companhia Azul, a mais atingida, não tem previsão de quantos dias levará para colocar em dia os voos cancelados. "Vamos operar todas as viagens regulares e o máximo de extras", garantiu o diretor de Comunicação e Marca, Gianfranco Panda Beting.

Hélvio Romero/AE
Avião cargueiro teve problemas durante o pouso na noite de sábado, 13

Sete fiscais da Fundação Procon passaram o dia em Viracopos para analisar se as companhias ofereceram condições adequadas para os clientes. As empresas TAM e Gol enviaram seus passageiros para Congonhas, em São Paulo, e Cumbica, em Guarulhos. Já a Azul ofereceu transporte por terra para Confins (MG) - oito horas de viagem -, para o Rio - seis horas - e São Paulo - 1h30 - para quem quisesse seguir para outros destinos por conta própria.

O Procon de São Paulo informou que vai pedir à Azul "informações sobre os cancelamentos de voos". A empresa deve responder ao órgão até quinta-feira. "Somos vítimas de uma situação que fugiu completamente do nosso controle. É uma situação-limite para a companhia, porque ela não sofreu um acidente. Ela sofreu uma paralisação não espontânea e não programada, com enorme impacto na qualidade dos serviços. Companhia nenhuma está preparada para perder 100% de sua capacidade produtiva da noite para o dia", afirmou Beting.

Já o Procon municipal de Campinas também notificou as empresas Azul, TAM e Gol, que terão prazo de dez dias para informar como foi feito o atendimento aos passageiros prejudicados. Durante a fiscalização em Viracopos, a Trip já foi autuada - por fornecer informações incompletas sobre o atendimento aos passageiros de voos cancelados.

Caos.
 "Vou ao Rio a trabalho, mas preferi usar esse ônibus que leva até São Paulo e de lá vou embarcar em outro avião de outra companhia", afirmou o executivo Silas Goldenberg, de 40 anos.

"Estou indo para o Aeroporto de Confins, em Minas, e de lá vou para Ipatinga. O jeito vai ser ir no ônibus que a empresa (Azul) ofereceu, mas são oito horas de viagem e ainda nem sei se vou conseguir chegar a tempo para pegar outro voo", afirmou o engenheiro Alexandre Onça, de 29 anos. Ele e muitos passageiros que tinham como destino Belo Horizonte e Rio, em aviões da Azul, acabaram usando ônibus.

Mas o sistema alternativo adotado não agradou a muitos passageiros. Foi o caso do dentista Jeferson Rodrigues, de 25 anos, que mora em Salvador e havia passado o fim de semana em Campinas. "Tenho uma cirurgia agendada para terça-feira às 7h e fui informado de que, se quiser seguir viagem, terei de pegar o reembolso da passagem e arcar com o prejuízo", explicou. "Vão me devolver R$ 340 da passagem. Mas agora vou ter de ir para São Paulo e pegar um outro voo que custa R$ 1,2 mil." O dentista procurou os fiscais do Procon no aeroporto para saber como procurar a Justiça.

Outra passageira que viajaria para Recife, Maria Socorro Araújo, deveria ter embarcado no domingo à noite. "Disseram que só terei um novo voo amanhã, às 13h30. Não me deram hotel nem táxi nem nada. Só disseram para pedir reembolso da passagem."

Lei. 
Procurado, o diretor da empresa Gianfranco Panda ressaltou que a companhia ofereceu reembolso total de passagens, realocação no primeiro voo disponível e colocação dos clientes em voos de outras companhias. "Seguimos tudo que foi preconizado pela lei: hospedagem, alimentação e comunicação."

O 'aeroporto do futuro' fechou porque não tem segunda pista


Respicio A. Espirito Santo Jr. (*)
Folha de São Paulo

Quando criança, meu avô me levava ao Galeão para ver os aviões decolarem e pousarem. O Rio era, à época, o portão de entrada do Brasil.

Mais de 40 anos se passaram e, até as portas do leilão da concessão de Viracopos, Guarulhos e Brasília/JK à iniciativa privada, em fevereiro último, várias autoridades não cansavam de afirmar que Viracopos seria "o aeroporto do futuro" para a Grande São Paulo e até para o Brasil.

Interessante, não? O "aeroporto do futuro" era aquele mesmo de 40 anos atrás, sem tirar nem por...

Agora, Viracopos voltou às manchetes, mas como o principal aeroporto fechado do país. Como tem só uma pista e uma aeronave cargueira de grande porte teve seu pneu furado, o aeroporto foi interditado por mais de 40 horas.

Sim, Viracopos fechou porque não tem uma segunda pista Mesmo tendo um "gatilho" de investimento obrigatório após atingir um determinado nível de serviço, ninguém se lembrou de prever no edital de concessão a urgência da segunda pista.

Em outras palavras: uma segunda pista não foi considerada absolutamente necessária para o bem-estar da sociedade e o bom funcionamento da economia, no curto prazo. Assim, ficou de fora do edital da concessão.

Então cabem as perguntas: quem elaborou e revisou o edital? Por que as empresas que operam em Viracopos, em especial as que têm base lá, não pressionaram efetivamente os envolvidos para que a segunda pista fosse prioridade de curtíssimo prazo?

Por que prefeitura e Câmara de Campinas não ombrearam com as empresas aéreas para que a pressão tivesse resultados práticos e efetivos?

Os principais responsáveis pelos transtornos em Viracopos o leitor encontrará nas respostas a essas questões.

(*) RESPICIO A. ESPIRITO SANTO JR. é professor-adjunto do Departamento de Engenharia de Transportes da UFRJ

Investimentos da Infraero continuam estagnados em 2012


Dyelle Menezes
Do Contas Abertas


A Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) ainda não conseguiu acelerar os investimentos autorizados para 2012. Do total de R$ 2 bilhões, apenas 29,4% foram aplicados nos oito primeiros meses do ano. O percentual equivale a R$ 591,5 milhões. Caso a execução dos investimentos fosse regular durante o ano, cerca de R$ 1,3 bilhão já deveria ter saído dos cofres da estatal. Os dados foram divulgados pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. 

Segundo a assessoria da Infraero, problemas climáticos e no processo de contratação atrasaram as obras, mas haverá compensação nos próximos meses. “Em decorrência desses fatores, as obras da Infraero apresentam maior índice de execução no segundo semestre do ano. Em 2011, 70% dos investimentos realizados pela empresa foram executados no segundo semestre. A expectativa da Infraero é executar entre 85 e 90% dos investimentos previstos para 2012”, explicou.

O ritmo geral de investimentos é refletido nas obras de ampliação, reforma, adequação e construção de vários aeroportos do país, o que os torna um dos principais gargalos para a realização da Copa das Confederações, já no ano que vem, e da Copa do Mundo, em 2014.

Do total de R$ 1,2 bilhão previsto pela Infraero para os aeroportos das 12 cidades-sede, apenas R$ 365,1 milhões, o correspondente a 30,3%, foram aplicados entre janeiro e agosto de 2012. Em 7 das 15 ações previstas para esses aeroportos, menos de 15% dos recursos previstos foram investidos.

Entre essas obras estão a reforma e ampliação do terminal de passageiros e do sistema de pistas e pátios do Aeroporto Santos Dumont e a adequação do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Estão incluídas ainda a adequação dos aeroportos internacionais de Confins, Brasília, Cuiabá e Salvador.

A obra que deve receber o maior montante de recursos é a de adequação do Aeroporto Internacional de Guarulhos: R$ 270,5 milhões, dos quais apenas R$ 144,8 milhões foram aplicados. Outra ação, a de reforma e adequação do Terminal de Passageiros 1 do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes , em Manaus (AM), teve 63,5% (R$ 83,7 milhões) dos R$ 131,8 milhões previstos para 2012 aplicados até o momento.

Ontem (01), a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), ao comentar os preparativos para a Copa de 2014,alertou que, em razão dos atrasos nas obras de aeroportos, a ampliação de terminais corre o risco de custar “horrivelmente caro” ao País. A afirmação foi feita pelo diretor executivo da Associação, Tony Tyler, em uma coletiva com jornalistas de todo o mundo.

Tyler chamou a atenção para o fato de as reformas e ampliações em aeroportos serem “absolutamente necessárias” para que o Brasil possa receber torcedores e turistas durante o Mundial. Mas, faltando menos de dois anos para o evento, não é mais possível esconder a preocupação em relação às obras.

“Ainda há tempo para realizar as ampliações necessárias. Isso é possível, como vimos na Índia, onde reformas foram feitas em 36 meses. Mas o problema é que podem custar horrivelmente caro”, disse Tyler. “Os aeroportos brasileiros estão sob enorme pressão”, declarou.

O executivo ainda criticou o modelo de licitação lançado pelo governo para a concessão dos aeroportos nacionais. Para ele, o volume de dinheiro pago na primeira rodada de vendas resultará em aumento de preços nas passagens e prejuízos ao consumidor. “Isso é um problema esperando para ocorrer”, concluiu.

Apesar disso, a assessoria da Infraero ressaltou que os investimentos da empresa estão sendo executados de acordo com o planejado.

Viracopos fechado e pane no sistema da TAM complicam vida de passageiros na volta do feriado


Veja online

No aeroporto de Campinas, interior de São Paulo, já são 450 voos cancelados, muitos passageiros irritados e sem previsão de embarque

 (Futupress) 
Filas em Congonhas por causa de pane no sistema de check-in da TAM

A volta do feriado e o retorno ao trabalho para os passageiros dos aeroportos brasileiros não está fácil. Os problemas começaram na noite de sábado, com o fechamento da pista do aeroporto de Viracopos, em Campinas, após falhas no pouso de um avião cargueiro. A pista só deve reabrir nesta tarde. Para piorar a situação, a TAM teve uma pane no sistema de check-in logo nas primeiras horas do dia, o que deve impactar nas operações da companhia ao longo desta segunda-feira. 

A companhia aérea Azul, que opera 85% dos voos em Viracopos, teve de cancelar todos os voos com partidas do terminal em Campinas. Foram 450 cancelamentos até o meio-dia, mas esse número pode aumentar até que a empresa regularize sua malha aérea. Segundo a assessoria de imprensa da Azul, o novo prazo para o retorno das operações em Viracopos é às 15 horas.

A empresa afirmou que desde sábado “está oferecendo alternativas para os clientes”. Além de acomodações, a empresa está negociando com outras companhias para realocar os passageiros em voos de Congonhas e Guarulhos. A Azul afirma também oferecer as opções de remarcação, devolução integral do valor do bilhete e ônibus executivos para cidades próximas. Os clientes da companhia podem confirmar a situação do seu voo por meio do telefone 4003-1118, do site www.voeazul.com.br ou diretamente nas lojas da empresa.

Os pousos e decolagens em Viracopos foram paralisados às 19h55 de sábado, quando um cargueiro furou um dos pneus durante o pouso e ficou quebrado na pista. A empresa responsável pela aeronave que causou a interdição do aeroporto é a americana Centurion Cargo. Inicialmente, a previsão era de que a pista fosse liberada às 22 horas deste domingo, mas a Centuriun não conseguiu realizar a remoção da aeronave.

Pane – 
A pane do sistema de check-in da TAM durou cerca de três horas e afetou os voos em todos os países onde a empresa opera, na Europa e na América.

O programa responsável pela impressão de cartões de embarque e das etiquetas de bagagem teve uma instabilidade e o procedimento teve de ser feito manualmente até às 8h30, quando o sistema voltou a funcionar. A lentidão do processo causou filas longas filas nos saguões de aeroportos brasileiros e em outros países onde a companhia opera.

É a segunda vez neste ano que a TAM tem esse tipo de problema, que também foi registrado em 2 de março deste ano.

Às 11 horas desta segunda, o aeroporto de Congonhas, em São Paulo, registrava 29 voos atrasados e três cancelados, segundo informações da Infraero. Em Guarulhos, a situação era de oito voos atrasados e um cancelado. O aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, registrou 12 atrasos e quatro cancelamentos. 

O Procon de São Paulo vai realizar, nesta segunda-feira, fiscalização nos aeroportos de Congonhas e Viracopos para averiguar se os direitos dos consumidores estão sendo respeitados pelas companhias aéreas.

4G no Brasil ficará restrito, no início, a apenas 50% da área de seis capitais


Julio Wiziack
Folha de São Paulo

Em junho de 2013, quando a seleção de futebol estrear na Copa das Confederações, o Brasil entrará na era da internet móvel 4G. As operadoras de telefonia têm até abril para começar a vender o serviço, que, no início, será para poucos --não pelo preço, mas pela cobertura.

Em sua estreia, o 4G estará disponível em, no máximo, 50% da área urbana das seis sedes do torneio (Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Salvador e Rio), totalizando cerca de 10 mil antenas.

Editoria de Arte/Folhapress

Quem vinculou a implantação da rede 4G ao torneio de futebol foi o governo, dentro dos preparativos de infraestrutura para o Mundial de 2014. Por isso, São Paulo, que não sedia a Copa das Confederações, não é prioridade agora e pode demorar ainda mais para receber o 4G.

Para especialistas do setor ouvidos pela Folha, as 10 mil antenas não são o suficiente, pois, para cobrir a mesma área de uma antena 3G, é preciso três ou quatro antenas 4G --por isso a oferta do novo serviço será tão limitada.

Apesar da área restrita, a rede 4G nacional oferecerá os mesmos recursos das disponíveis no exterior: velocidade de transmissão de dados até 15 vezes superior à do 3G. O que significa, por exemplo, poder assistir a partidas de futebol ao vivo pelo celular sem as interrupções e os engasgos típicos do 3G brasileiro.

Na semana passada, durante a feira de telecomunicações Futurecom, no Rio, as teles anunciaram o início da construção das redes 4G que, nesta primeira etapa, aproveitarão a estrutura já existente --uma torre com equipamento 3G também terá o 4G.

A TIM é a única ainda em fase de negociação, mas anunciou que está prestes a fechar contratos.

A Claro e a Oi já fazem testes fechados do serviço, em redes experimentais em Campos do Jordão (SP), Paraty (RJ), Búzios (RJ) e Brasília, no caso da Claro, e no bairro do Leblon, no caso da Oi.

Somados, os investimentos das quatro operadoras devem chegar a R$ 4 bilhões nessa primeira fase de implantação do 4G, sem contar os R$ 2,9 bilhões já gastos com as licenças do serviço, leiloadas em junho passado.


QUANTO VAI CUSTAR?
As operadoras começam agora a fechar o modelo de negócio e desejam lançar os planos 4G no Carnaval. A Folha apurou que está em estudo a viabilidade de planos 4G pelo preço do 3G com quantidade de dados definida (em torno de 20 Mbytes).

O presidente da TIM Fiber, Rogerio Takayanagi, disse que o custo unitário da transmissão em 4G já é praticamente o mesmo do 3G. "Mas ainda estamos estudando os modelos", disse. Na Europa, o 4G custa mais em planos com velocidades de 50 Mbps e 100 Mbps, mas, em muitos casos, há restrição de dados.