segunda-feira, março 07, 2022

A semana que acordou o mundo

David Brooks*, The New York Times, 

O Estado de S.Paulo

As relações internacionais, como a vida, são um empreendimento moral 

Ao longo dos últimos anos, houve um poema famoso que foi citado inúmeras vezes: “O centro não pode suportar”, escreveu William Butler Yeats, antes de acrescentar. “Aos melhores, falta toda a convicção, enquanto os piores estão cheios de uma intensidade apaixonada”. As pessoas gostam de citá-lo tanto porque é verdadeiro. 

Mas, na semana passada, ele não foi tão acurado assim. Os eventos na Ucrânia têm sido uma atrocidade moral e uma tragédia política, mas também representaram uma revelação cultural em todo o mundo. Não é que as pessoas agora professem novos credos, mas muitos foram lembrados do que acreditam. Agora, cremos com mais fervor e com mais convicção. Foi uma semana de veredictos. 

Inspiração

Os ucranianos foram nossos tutores e inspiradores. Eles são os homens e mulheres comuns mostrados em vídeos do New York Times, fazendo filas para pegar em armas e defender sua pátria. Eles são a senhora dizendo ao invasor russo para pôr sementes de girassol em seu bolso. Eles são os milhares de ucranianos que vivem confortavelmente no exterior e voltam para seu país, arriscando a vida, para defender seu povo. 

A eles, devemos muito. Eles nos lembraram não apenas do que é acreditar na democracia, no Estado liberal e na honra nacional, mas também do que é agir com bravura em nome desses valores. Eles nos lembraram que você pode acreditar nas coisas com maior ou menor intensidade – levemente, com palavras ou profundamente, com ardor e a convicção até a alma. 

Eles nos lembraram de como contratempos e humilhações (Donald Trump, o Afeganistão, a injustiça racial e uma política disfuncional) nos levaram a duvidar e não praticar o Evangelho da democracia. Mas, apesar de todos os nossos fracassos, este Evangelho ainda é verdadeiro e reluzente. 

Foi uma semana de fé restaurada. Mas exatamente em quê? Bem, em primeiro lugar na liderança. Vimos muitas lideranças fracassarem ultimamente, mas na semana passada Volodmir Zelenski emergiu como um líder do povo – o cara de camiseta, o comediante judeu, o cara que não fugiu, mas tinha a frase certa preparada: “Preciso de munições, não de uma carona”.

Patriotismo

A fé no verdadeiro patriotismo foi restaurada. Ao longo dos últimos anos, temos visto tanto de um nacionalismo étnico azedo na direita. Uma forma de patriotismo raivosa e xenofóbica. À esquerda, temos visto o desdém ao patriotismo, de pessoas que apoiam vagamente ideais abstratos de nação, enquanto mostram uma gratidão limitada à própria herança. Algumas elites, enquanto isso, se perderam na direção de um globalismo sem alma, num esforço de se erguer acima das nações. 

Os ucranianos nos mostraram como o tipo certo de patriotismo é enobrecedor. É uma fonte de significado e um motivo para arriscar a vida. Eles nos mostraram que o amor por um lugar em particular, sua terra e seu povo, apesar de todos os problemas, pode ser parte de um amor por ideais universais, como a democracia, o liberalismo e a liberdade. 

Houve um restauro da fé no Ocidente, no liberalismo e na comunidade de nações. E houve tantas divisões entre elas – tanto internas e quanto externas. 

Hoje, quando acordo pela manhã, pego meu telefone, me contagio com a Suécia provendo ajuda militar à Ucrânia. Fico fascinado pelo que o povo alemão agora apoia: muitas nações democráticas reagiram às atrocidades com o mesmo sentimento de dever e propósito. 

O mesmo ocorre nos Estados Unidos. Claro que há aquela amarga polarização que usa o momento para chamar a esquerda de fraca ou a direita de apoiar Putin. Sempre existirão pessoas que ficarão felizes de mentir para provocar o caos social. Mas, a esta altura, quase todos os membros do Congresso estão unidos nesta causa maior. E eles estão unidos porque aprendemos a desprezar aquilo que por séculos muitos se acostumaram: que países grandes podem engolir países pequenos, que os poderosos podem fazer o que estiver a seu alcance e os fracos podem sofrer o que for necessário. /

TRADUÇÃO DE LUIZ RAATZ

* É COLUNISTA DO ‘NEW YOTK TIMES’, ESCREVE SOBRE POLÍTICA, CULTURA E CIÊNCIAS SOCIAIS


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EM TEMPO: Acesse a seção ALMANAQUE para conhecer a nova edição atualizada.  

A Rússia é culpada, sem adversativas

  Carlos Alberto Sardenberg

O Globo,

Como não dá a menor atenção a questões ambientais, sociais e de sustentabilidade, o presidente Putin não percebeu a enorme mudança ocorrida nas corporações privadas ocidentais: a era da responsabilidade social. E, assim, cometeu o maior erro de cálculo de seu ataque à Ucrânia: não imaginou que as grandes multinacionais, envolvidas em negócios bilionários com o governo e empresas russas, pudessem aderir de maneira avassaladora às sanções contra o país.

Todas essas multinacionais estão perdendo muito dinheiro. A Embraer informou que não prestará mais assistência aos 30 aviões que voam na Rússia. Nem assistência técnica, nem fornecimento de peças. Logo, deixa de receber dólares por um serviço.

A BP simplesmente cancelou sua participação no capital de empresas petrolíferas russas — assimilando uma perda patrimonial de US$ 25 bilhões e perdendo acesso a importantes reservas de óleo e gás.

Por que fazem isso? Porque, no mundo corporativo contemporâneo, contam muito os valores éticos, a responsabilidade com o público e a sociedade.

Muita gente dizia que isso de ESG — environmental, social and governance — era puro marketing. Uma enganação para parecer politicamente correto. Mas o verdadeiro cancelamento que as multinacionais impuseram aos negócios com a Rússia teve efeitos devastadores. As ações das 11 maiores empresas russas listadas na Bolsa americana Dow Jones viraram pó. Uma queda de 98%!

Perderam riqueza empresas e pessoas russas, mas também empresas e pessoas do mundo ocidental.

As sanções de governos eram esperadas. Mesmo assim, foram mais fortes do que se imaginava e podem escalar com a proibição total de importação de petróleo e gás russos. A adesão tão completa das multinacionais — às vezes, mais forte que as governamentais — é a parte nova desta história.

O isolamento global imposto à Rússia é uma atitude ao mesmo tempo geopolítica e moral. É para dizer: não, a Rússia não pode invadir a Ucrânia e ponto final. A Rússia é a criminosa; a Ucrânia, a vítima. E a ordem jurídica internacional, tal como definida na Carta da ONU, também é vítima. A Rússia viola escandalosamente o princípio de integridade territorial.

São inteiramente equivocadas as análises segundo as quais a Rússia se sentiu ameaçada pelo avanço da União Europeia e da Otan na direção do Leste Europeu, dos ex-satélites soviéticos. Sei que gente bem-intencionada diz isso. Ainda assim, é um grave equívoco. E, sim, equivale a dar razão a Putin.

A Rússia não estava sob nenhuma ameaça militar. O que estava e está se desfazendo é a ideologia sustentada por Putin, segundo a qual os valores ocidentais —liberdade individual, direitos de minorias, imprensa e partidos livres e o modo ESG —estavam em colapso.

A tremenda reação do Ocidente provou o contrário. Assim, pessoal, nada de adversativas, nada de “mas, porém”.

Compreendo que muita gente não gosta de ver que o Ocidente está do lado certo desta vez. Como Lula. Ele disse no México que os presidentes “envolvidos” deveriam cessar a guerra. “Envolvidos” — eis uma expressão marota, para dizer o mínimo. A Ucrânia está envolvida na guerra ... como vítima. É o cúmulo do mau-caratismo pedir que ela, Ucrânia, cesse a guerra. E entregue tudo para o agressor?

Aliás, Bolsonaro também não condena a Rússia.

Também é equivocado — e maneira indireta de dar razão a Putin — dizer que é perigoso acuar o ditador russo. Trata-se do contrário: é perigoso para o mundo deixar que Putin execute seu imperialismo criminoso sem nenhuma oposição.

Os países do Leste Europeu que aderiram ou estão aderindo à União Europeia e à Otan o fizeram livremente. Nem precisa pensar muito para entender por quê. Você preferiria aliar-se a uma Europa democrática e rica ou a uma ditadura imperialista?

As sanções geram uma inflação mundial. Mas, como disse o presidente Zelensky, um dólar a mais no preço da gasolina não parece caro diante do crime cometido contra o povo ucraniano.

Só as sanções podem levar o povo russo a deter Putin. 


O drama de Obélix.

 Carlos Brickmann

 

Gérard Depardieu nasceu na França há 73 anos e se naturalizou russo em 2013. Mora em Novosibirski, na Sibéria, por dois motivos: para pagar menos impostos que os cobrados na França e por ser amigo de Putin. “Eu amo muito o presidente Vladimir Putin, e é mútuo”. Mas é contra a invasão da Ucrânia: “Rússia e Ucrânia sempre foram países irmãos. Eu digo: parem com as armas e negociem. Sou contra essa guerra fratricida”.

Na ânsia de responder à repugnante guerra movida por Putin, o Ocidente tem exagerado nas retaliações. Bloquear os fundos russos, perfeito: são eles que financiam a guerra. Bloquear o comércio com os russos, OK: é criando dificuldades para que os agressores tenham problemas internos que surgem oportunidades de colocar um fim na guerra. Confiscar iates, mansões e jatos dos bilionários russos pode colocá-los contra Putin – além disso, sabe-se que petrolão e rachadinhas, na Rússia, só servem para troco. Dinheiro de pinga.

Mas proibir gatos russos nas mostras da Federação Felina Internacional já chega à fronteira da galhofa. Proibir que um maestro russo participe de um concerto para o qual foi convidado, pense o que pensar da guerra, é absurdo.

Mas voltemos a Depardieu, que representa Obélix em filmes baseados nas histórias em quadrinhos. Será impedido de representar um dos irredutíveis gauleses que, com Astérix, Panoramix, Abraracurcix e o cãozinho Ideiafix, impedem o Império Romano de proclamar que conquistou toda a Gália?

Guerra é guerra

Certas loucuras ideológicas fazem com que as represálias adequadas para tempos de guerra se apequenem. Isso ocorreu no Brasil pós-1964, quando um grupo de chineses foi preso sob a suspeita de ser formado por chineses (e, não faz muito tempo, os governantes brasileiros ávidos por investimentos da China descobriram que alguns dos presos eram agora gente poderosa, com amplo poder de negociação); e o Ballet Bolshoi, de reputação internacional, foi proibido de se apresentar no Brasil, para não difundir o comunismo por meio dos pas-des-deux de O Lago dos Cisnes.

Nesse instante, apreender os iates, as mansões, as contas bancárias dos bilionários russos faz parte dos incômodos que lhes são causados pela proximidade com Vladimir Putin. Mas que não se alegue que isso ocorre por lavagem de dinheiro, ladroeira ou rapinagem de dinheiro público. Tudo isso já existia antes da invasão e era bem aceito pelo mundo. Nenhum ladrão ficou bilionário em poucos meses.

O poderoso chefão

Vladimir Putin era agente dos serviços secretos soviéticos quando caiu o regime comunista. Foi trabalhar com um político que se elegeu prefeito de São Petersburgo. Ganhava tão pouco que trabalhava também como motorista de táxi. Quando entrou na política para valer, seus problemas desapareceram. E uma das mais bem recheadas contas bancárias agora bloqueadas é a dele.

Adubo do mesmo saco

Bolsonaro tinha assuntos importantes a tratar com Putin: fertilizantes, tecnologia para a miniaturização do reator que deverá mover o submarino nuclear brasileiro e para resolver da melhor maneira a sua parte elétrica, mais as Pequenas Centrais Nucleares, que geram energia limpa e, dizem, segura. O problema foi a época: os dias que antecederam a agressão à Ucrânia.

Como de hábito, Bolsonaro aproveitou a oportunidade para fazer o que não devia: comprometer-se com um lado da guerra que se aproximava. Bolsonaro gosta de Putin: o russo é o que ele gostaria de ser, alguém cujas ordens ninguém discute e que manda no noticiário da imprensa. Tudo o leva, portanto, a ser o mais suave possível na condenação aos invasores – mesmo que isso o leve a ficar ao lado da Venezuela, Coreia do Norte, Argentina, Cuba, cujos governos detesta.

Já Lula adora ficar perto desses governos, ainda encara os dirigentes russos como se fossem soviéticos e comunistas, seu sonho é o tal “controle social da imprensa”, nome bonito que dá à Censura, e é suavíssimo na condenação à guerra: em seus discursos, pede que todos se levantem para mostrar que são contra a guerra, e encerram-se aí seus esforços. Lula liberou parte de sua imprensa para defender a tese de que Estados Unidos e OTAN são os responsáveis pela guerra – embora a guerra seja Ucrânia x Rússia.

Em poucas palavras

No Brasil, extrema direita e extrema esquerda se unem para condenar os regimes democráticos. E tanto Lula quanto Bolsonaro se sentem tão íntimos dos russos que até chamam seu presidente pelo diminutivo.

Imprensa como eles gostam

A Duma, o Parlamento russo, aprovou em alta velocidade uma lei que pune com prisão de três a 15 anos para quem produzir ou espalhar notícias falsas. O presidente Vladimir Putin sancionou imediatamente o projeto, que já está em vigor. Que são “notícias falsas” (ou “fake news”?) Por exemplo, falar em guerra entre Rússia e Ucrânia, ou em invasão da Ucrânia.

O nome mais bem aceito pelo presidente Putin é “missão de paz”.

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Por excesso de dependência, Brasil é pego de calça curta na guerra, como na pandemia

 Eliane Cantanhêde, 

O Estado de S.Paulo

Efeitos da guerra em si, e do cerco e das sanções à Rússia, já começam a chegar, não na forma de bombas, tanques e tiros, mas de ameaça ao fornecimento e aos preços de gás, combustível, fertilizantes e trigo

 Depois de falar com o russo Vladimir Putin, o francês Emmanuel Macron avisou ao mundo que “o pior está por vir na Ucrânia”. Quem avisa amigo é, e o pior não atinge só a Ucrânia, bombardeada, invadida e ameaçada de extinção, mas também potências e países periféricos. O Brasil não passa ileso.

Os efeitos da guerra em si, e do cerco e das sanções à Rússia, já começam a chegar, não na forma de bombas, tanques e tiros, mas de ameaça ao fornecimento e aos preços de gás, combustível, fertilizantes e trigo. Logo, às famílias, empresas e economia, com mais inflação e juros, menos crescimento e empregos.

Na pandemia de covid-19, o Brasil foi pego de calças curtas pelo excesso da dependência externa de insumos para vacinas e medicamentos, respiradores e equipamentos hospitalares e até máscaras. Há uma década, produzia 55% dos IFAs (Ingredientes Farmacêuticos Ativos) e, agora, 5%. Ou seja, importa 95%.

Na guerra da Rússia contra a Ucrânia, o Brasil está novamente frágil, pelo excesso de dependência de fertilizantes, apesar de ser um dos três maiores produtores agrícolas do mundo, e também de trigo, um dos dois principais alimentos na mesa dos brasileiros, junto com o arroz.

O País importa 85% dos fertilizantes que consome, 1/3 disso da Rússia e de Belarus. Segundo a ministra Tereza Cristina, o problema será na próxima safra, entre agosto e setembro. E propõe: ampliar os fornecedores, com foco no Canadá; facilitar os processos de importação; a Embrapa ensinar como usar menos fertilizantes.

E o Brasil é autossuficiente e até exporta soja e milho, utilizados para a pecuária, mas é dependente do trigo, único grão de consumo estritamente humano, base para pães, macarrão, bolos e biscoitos. Importa 60% do consumo interno, 85% da Argentina, mas a Rússia é o maior exportador no mundo e a Ucrânia está entre os dez maiores produtores. Os preços internacionais dispararam. Bom para a Argentina, ruim para o Brasil.

Ontem, o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), ex-embaixador Rubens Barbosa, pediu a Tereza Cristina atenção a dois planos há anos na gaveta do governo. Um, de 2019, é da própria associação e o outro, de 2020, é da Embrapa – estatal –, prevendo produzir trigo no Cerrado. Custaria R$ 3 milhões e acarretaria uma economia de R$ 450 milhões por ano.

O presidente Jair Bolsonaro, aliás, tem uma saída para os fertilizantes: explorar potássio em reservas indígenas. E ataca: “o Brasil foi em parte inviabilizado no passado com a indústria da demarcação das terras indígenas”. Guerra? Que nada! O problema são os indígenas.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA



Em 1917, o czar não entendeu nada

 Elio Gaspari

O Globo

Não se sabe o que se passa na cabeça de Vladimir Putin, mas sabe-se bem o que acontecia nos palácios de Nicolau II em 1917

Não se sabe o que acontece no Kremlin, muito menos o que se passa na cabeça de Vladimir Putin. Passados 105 anos, sabe-se bem o que acontecia nos palácios do czar Nicolau II em 1917.

No dia de hoje, pelo calendário gregoriano, a Rússia Imperial estava em guerra contra a Alemanha e ia mal. A vida doméstica de Nicolau ia pior. Uma de suas filhas e o príncipe herdeiro, Alexei, estavam doentes (era sarampo). A czarina Alexandra ainda não havia se recuperado do assassinato, em dezembro, do monge Rasputin, curandeiro de seu garoto hemofílico. Ela vivia chapada por tranquilizantes. A Corte russa era um serpentário de intrigas e pensava-se até num golpe. Num desses planos, Alexandra seria mandada para um mosteiro.

Nos últimos dois anos, além de Rasputin, a Rússia tivera quatro primeiros ministros, cinco ministros do Interior, três chanceleres, outros três ministros da Guerra e quatro da Agricultura.

Bailava-se nos palácios, mas faltava comida em São Petersburgo e formavam-se longas filas diante das lojas num inverno que levava a temperatura a quinze graus abaixo de zero. Como aconteciam alguns protestos e greves, Alexandra aconselhou o marido: “Eles precisam aprender a ter medo de você. O amor não basta.”

No dia seguinte, 8 de março, o tempo estava bom (cinco graus abaixo de zero), e dezenas de milhares de trabalhadores, a maioria mulheres, tomaram as ruas de São Petersburgo. Se o negócio era botar medo, veio um mau sinal: os soldados relutaram em reprimir a manifestação. Muita gente cantava a “Marselhesa”. Nada a ver com os bolcheviques, que eram poucos. Lênin estava na Suíça, Trotsky, em Nova York, e Stalin, na Sibéria. Essa data de março marca o início da Revolução de Fevereiro. Era o dia 23, pelo calendário juliano, vigente à época na Rússia.

As greves alastraram-se, paralisando 200 mil trabalhadores, e começaram casos de confraternização de soldados com operários. Com novas manifestações, dessa vez com cerca de 200 mil pessoas, a czarina disse ao marido que aquilo era coisa de desordeiros e, se a temperatura caísse, eles ficariam em casa. Um chefe bolchevique da cidade achava coisa parecida: bastaria que houvesse mais pão. O czar descansava a cabeça lendo Júlio César. Nisso, adoeceu mais uma filha, e na cidade saqueavam-se padarias, mas os teatros funcionavam.

Nicolau mandou atirar, e morreram duzentas pessoas. Três regimentos de elite da cidade amotinaram-se, varejaram o arsenal, levaram 40 mil rifles e seguiram para a cadeia onde estavam os presos políticos, libertando-os. Um general que passava de carro a caminho de um almoço no palácio ficou a pé. Indo para a costureira, a poeta Anna Akhmatova reclamava porque não conseguia um táxi. São Petersburgo foi tomada pela revolta, o chefe de polícia foi morto. A bailarina Mathilde Kschessinska, que muitos anos antes tirara a virgindade de Nicolau, foi avisada que a coisa ia mal, juntou algumas coisas e abandonou seu palacete. No dia seguinte, a casa foi saqueada. (Meses depois, ela veria uma bolchevique, com seu casaco de arminho.)

No dia 12 de março (27 de fevereiro, pelo calendário juliano), os motins tomaram conta dos quartéis. Segundo o historiador Richard Pipes, esta deveria ser a data da Revolução de Fevereiro. Quando a notícia chegou a Nicolau, ele disse que eram maluquices que “nem me incomodei de responder”. Sua mulher achava que estavam acontecendo “coisas terríveis” e passou pela sepultura de Rasputin. Ele previra que se morresse ou se o czar o abandonasse, perderia a coroa em seis meses.

Passaram-se apenas dois meses, e o regime caíra. Os ministros foram presos e levados para uma fortaleza, escoltados por um rebelde que lá estivera preso.

Na noite de 15 de março, Nicolau II abdicou. Como não havia entendido o que acontecia, passou a coroa para um irmão, achando que mais tarde iria para a Inglaterra. Nada disso aconteceu.

Stalin chegaria a São Petersburgo em março, Lênin, em abril, e Trotsky, em maio. Em outubro, com um golpe, os bolcheviques tomaram o poder, e a Revolução de Fevereiro ficou fora de moda.

Hungria 1956

A repulsa dos Estados Unidos e das nações europeias diante da invasão da Ucrânia honra a nova ordem mundial, mas o estímulo à resistência armada deve levar em conta um mau precedente.

Em 1956, o povo húngaro foi estimulado para rebelar-se contra a invasão soviética e deixado à própria sorte.

O primeiro-ministro Imre Nagy asilou-se na embaixada da Iugoslávia. Foi deportado, devolvido e acabou enforcado.

Brasil e EUA

O Brasil e os Estados Unidos já tiveram períodos de aproximação e de distanciamento. Nunca, porém, viveram um período no qual o que falta é interlocução. No caso da guerra da Ucrânia, o que faltou foi conversa.

O embaixador americano em Brasília deixou o posto há mais de um ano, e sua sucessora ainda não chegou.

Há três anos, Bolsonaro dizia que mandaria seu filho para a embaixada, e o palácio espalhava que o presidente Donald Trump mandaria um de seus filhos para o Brasil.

Madame Natasha

Natasha está tentando transformar seus frascos de perfume em coquetéis molotov para defender o idioma. Ela concedeu mais uma de suas bolsas ao ministro Ricardo Lewandowski. Trancando a ação que o lavajatismo moveu contra Lula pela compra dos caças suecos, ele disse o seguinte:

“Não há como deixar de levar em conta a incontornável presunção de que a compra das referidas belonaves ocorreu, rigorosamente, dentro dos parâmetros constitucionais de legalidade, legitimidade e economicidade mesmo porque, até o presente momento, passados mais de sete anos da assinatura do respectivo contrato, não existe nenhuma notícia de ter sido ele objeto de contestação por parte dos órgãos de fiscalização, a exemplo da Controladoria-Geral da União, do Ministério Público Federal ou do Tribunal de Contas da União.”

Ele quis dizer que a compra dos aviões foi legal e ninguém reclamou. Não precisava de uma frase com 79 palavras. Natasha e o dicionário Houaiss são do tempo em que belonave era navio e não voava.

Aviso ao agro

País de vocação e história agrícolas, a Ucrânia tem excelentes institutos de pesquisas. Assim como o antissemitismo trouxe para o Brasil destacados cientistas, a bola está rolando para os pés do agronegócio.

Mourão e o Rio

Foram muitos os motivos que levaram o general da reserva Hamilton Mourão a disputar uma vaga no Congresso pelo Rio Grande do Sul e não pelo Rio de Janeiro. Afinal, lá ia bem nas pesquisas. 

Com o patrimônio do próprio nome, não queria se expor a alianças radioativas.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e não vai à praia porque é grátis. Ele não se impressionou com a decisão do governo de zerar o imposto de importação de 16% dos jet-skis.

O que ele não entende é porque o mesmo governo cobra 14,4% na importação de telefones celulares.


O PIB, a guerra na Ucrânia e os desafios estruturais da economia brasileira

 Fernando Honorato*

O Estado de São Paulo

 © DIDA SAMPAIO / ESTADÃO 

Agropecuária e reabertura do setor de serviços devem favorecer o ano de 2022;

 crescimento não deve ser significativamente impactado pela guerra na Ucrânia. 

O crescimento brasileiro não deve ser significativamente impactado pela guerra na Ucrânia. O déficit externo do País é pequeno e a dívida em dólares do governo é amplamente coberta pelas reservas. Nosso comércio com a Rússia representa menos de 0,4% do PIB e nossas exportações devem se beneficiar da alta de preços de commodities. Em adição, as empresas brasileiras estão pouco endividadas e o Tesouro possui caixa para honrar um ano de compromissos sem precisar emitir novas dívidas.

A agropecuária, os efeitos remanescentes da reabertura do setor de serviços e os gastos de Estados e municípios devem favorecer o ano de 2022. Medidas como o corte de IPI e a possível liberação de recursos do FGTS também podem ajudar. Com isso, o PIB deve ter uma expansão ao redor de 0,5% neste ano. Trata-se de um crescimento modesto quando comparado aos 4,6% de 2021, mas suficiente para que o desemprego registre o menor patamar desde 2016.

Assim, a economia vai mostrando certa resiliência, mas há desafios adiante. A guerra irá agravar o já delicado quadro de inflação, reduzindo a renda disponível e dificultando o trabalho do Banco Central, cuja alta de juros impactará o PIB no segundo semestre. Estruturalmente, as contas públicas requerem atenção e temos perdido tração em relação à economia global. O crescimento estrutural não tem sido suficiente para reduzir as desigualdades e acelerar o PIB per capita, que cresce a um ritmo anual de 0,3%. Não há perspectiva de solucionarmos esses problemas sem reformas.

Para isso, será preciso enfrentarmos as diversas capturas do orçamento, das receitas públicas bem como as amarras que nos impedem de aumentar a competição e a nossa inserção global. A eficiência e a proximidade das fronteiras tecnológicas precisam ser os nortes das políticas públicas e do ambiente de negócios. Algumas reformas importantes foram feitas nos últimos anos, mas será preciso avançar mais e mais rápido. Tomara que a guerra e as disputas políticas não nos impeçam de avançar na direção correta, sob o risco de desperdiçarmos essa resiliência e perpetuarmos nosso baixo crescimento estrutural por muito mais tempo.

* É ECONOMISTA-CHEFE DO BRADESCO


PIB: Economia brasileira foi do auge ao declínio em 20 anos

 Claudio Considera, Isabela Kelly, Juliana Trece*

O Estado de São Paulo

 © Foto: Taba Benedicto/Estadão 

Dois componentes explicam a paralisia da produtividade industrial: a indústria de transformação e a de construção, com a redução da produtividade e estagnação nos últimos 21 anos. 

O IBGE divulgou os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) referente a 2021: cresceu 4,6%, recuperando a queda de 2020. O valor per capita de 2021 é de R$ 40.688,00, ainda inferior ao de 2010. Conforme as Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, a economia brasileira cresceu (51%) no período 2001-2019, e o PIB per capita cresceu 24%, parecendo ter entrado em nova fase de expansão, a despeito dos percalços pelo caminho. Isso foi interrompido pela pandemia, mas não só. Agora há um fator a mais: a guerra Rússia x Ucrânia.

A que se pode associar tal desempenho, ignorando os fatores externos? Ao examinar as atividades que compõem o PIB, nos últimos 21 anos, conforme resultados em reais de 2021, verifica-se que a agropecuária praticamente dobrou seu valor adicionado (VA). Sua qualidade é ser uma “commodity” com forte demanda e elevado valor internacional. A indústria teve um desempenho bem inferior, aumentando seu VA em 27,7%.

Conforme as Contas Nacionais Trimestrais, os piores desempenhos na indústria foram a de transformação e a da construção. Por outro lado, a extrativa mineral (“commodities”) e a eletricidade apresentaram crescimento significativo. Os serviços, por sua vez, tiveram seu VA aumentado em 55,7% representando, em 2021, 69% do VA total da economia.

Outro aspecto importante é o desempenho da produtividade, com aumento de 20% entre 2001 e 2013 e estagnação a partir de 2014 (na faixa dos R$ 82.000,00). Durante todo o período, a indústria, que tem a maior produtividade, declina enquanto a agropecuária, que tem a menor produtividade, cresce vigorosa e ininterruptamente.

Os serviços, que têm baixa produtividade, evoluem de forma semelhante ao PIB. Dois componentes explicam a paralisia da produtividade industrial: a indústria de transformação e a de construção, com a redução da produtividade e estagnação nos últimos 21 anos.

A derrocada da economia brasileira está fortemente associada ao desempenho das indústrias de transformação e construção. Ambas ditam a evolução da indústria, e a indústria dita o rumo da economia brasileira, embora não sejam os componentes mais importantes. As “commodities” agropecuária e extrativa mineral – essa segunda graças às exportações de petróleo e gás e de minério de ferro – evoluem vigorosamente sem interrupção. Assim, aqui há duas notícias: a boa é que temos “commodities” e a má é que só temos “commodities”.

* SÃO PESQUISADORES DO INSTITUTO BRASILEIRO DE ECONOMIA DA FGV


PIB: Economia brasileira cresce 4,6% em 2021, mas 4 riscos trazem nuvens carregadas para 2022

 Thais Carrança

Da BBC News Brasil em São Paulo 

CRÉDITO,FABIO TEIXEIRA/NURPHOTO VIA GETTY IMAGES

Setor de serviços foi impulsionado no ano passado 

pelo avanço da vacinação contra covid

A economia brasileira cresceu 4,6% em 2021 e 0,5% no quarto trimestre, em relação ao terceiro, informou nesta sexta-feira (04/03) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Ambos os resultados representam uma recuperação, após queda de 3,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 e recuos de -0,3% e -0,1%, respectivamente, no segundo e terceiro trimestres de 2021 (o dado do segundo trimestre foi revisado de -0,4% divulgado anteriormente).

No ano passado, os principais destaques positivos da atividade foram o setor de serviços (em alta de 4,7%), impulsionado pelo avanço da vacinação, e a indústria, que cresceu 4,5%, após tombo de 3,4% no primeiro ano da pandemia.

O setor agropecuário registrou queda de 0,2% em 2021, impactado por quebras de safras devido a questões climáticas e problemas na cadeia de produção pecuária.

Na ponta da demanda, os investimentos cresceram impressionantes 17,2% em 2021, sob efeito dos juros baixos no início do ano passado — é preciso lembrar que a Selic começou 2021 em 2%, menor patamar da história.

Apesar do crescimento bem acima dos anos anteriores, economistas avaliam que há pouco a se comemorar com o resultado do PIB em 2021. Isso porque boa parte do crescimento é resultado da comparação com o ano fraco de 2020 e o avanço de 4,6% do PIB brasileiro em 2021 é inferior ao de países vizinhos como Colômbia (10,6%) e Argentina (10,3%).

Para 2022, as perspectivas já eram pouco animadoras, com economistas prevendo PIB estagnado — isto é, com variação zero ou próxima de zero —, devido principalmente ao efeito da forte alta de juros sobre a economia.

 CRÉDITO,REUTERS

Incerteza com guerra na Ucrânia piora quadro já pouco favorável para este ano

A esse cenário pouco otimista somou-se a guerra na Ucrânia, que traz ao menos quatro riscos adicionais para a atividade esse ano: o de uma piora na inflação devido à alta de preços das commodities; de juros elevados por mais tempo, na tentativa de conter esse aumento da inflação; de continuidade dos gargalos de produção na indústria; além de um aumento da incerteza, que inibe os investimentos das empresas.

Entenda o que aconteceu com o PIB em 2021, como ficou o quarto trimestre e o que vem pela frente em 2022, em meio às incertezas geradas pelo conflito no Leste Europeu.

2021: serviços em destaque, mas pouco a comemorar

Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, destaca o bom desempenho do setor de serviços em 2021, com crescimento de 4,7%, após queda de 4,3% em 2020.

"Aqui a maior influência, a partir da metade do ano, veio da reabertura econômica. Depois de muitas idas e vindas, a campanha de vacinação contra covid-19 ganhou tração ao final do segundo trimestre, permitindo o retorno de uma série de atividades que impulsionaram o setor terciário na segunda metade do ano", observa o analista.

Ele destaca os serviços prestados às famílias, como turismo, hospedagem, bares e restaurantes; além do desempenho sólido dos serviços de informação e comunicação, resultado da dinâmica da pandemia; e transportes, com a retomada da mobilidade.

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Serviços prestados às famílias, como turismo, hospedagem, 

bares e restaurantes, foram destaque em 2021

Na indústria, que registrou uma alta de 4,5% em 2021, após queda de 3,4% no ano anterior, o quadro é um pouco mais complexo.

Margato observa que boa parte do crescimento registrado no ano passado se deve à base de comparação fraca de 2020. Mas, olhando o resultado a fundo, há desigualdade importantes.

A construção civil registrou uma alta de 9,7% no ano passado, com retomada das obras particularmente no segmento imobiliário residencial. Já a indústria de transformação cresceu 4,5%, após uma queda de 4,4% em 2020, com o crescimento contido por gargalos de produção, com alta de custos e escassez de matéria-prima em setores diversos, como o automotivo.

Com queda de 0,2%, o setor agropecuário foi impactado positivamente pelo crescimento da safra de soja no primeiro trimestre. Mas, ao longo do ano, culturas como milho, café, cana-de-açúcar e algodão tiveram quebras de safras importantes, devido a problemas climáticos.

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Crescimento da safra de soja teve impacto positivo no primeiro trimestre

"A leitura que fica de 2021 é que o Brasil está crescendo muito menos do que seus pares", avalia Marcos Ross, economista-chefe do banco Haitong.

"Estamos crescendo 4,6%, até que é bastante para o quadro recente de Brasil, mas é muito menos do que Colômbia e Argentina, que estão crescendo acima de 10%. E tem muito de efeito estatístico no nosso crescimento, devido à base fraca de 2020."

4º trimestre: agro forte, mas calma lá

Se em 2021 o efeito estatístico teve papel importante na alta de 4,6% do PIB, no quarto trimestre não foi diferente.

O grande destaque no crescimento de 0,5% da economia em relação ao terceiro trimestre foi o avanço de 5,8% da agropecuária, mas isso se deve em forte medida a um efeito "rebote", após queda de 7,4% no terceiro trimestre, resultado de uma combinação de seca, geadas e o fim da safra de soja.

Já o setor de serviços teve uma alta mais modesta, de 0,5%, ainda sob impulso do avanço da vacinação, mas com destaque negativo para o comércio, que registrou queda de 2% em relação ao trimestre anterior, sob impacto da perda de renda da população, diante do avanço da inflação.

O "rebote" da agropecuária e a ligeira alta do PIB de serviços compensaram uma queda de 1,2% da indústria, que teve desempenho negativo em quase todos os setores: extrativa (-2,4%), transformação (-2,5%), eletricidade (-0,2%). A exceção foi novamente a construção, com avanço de 1,5%.

2022: com guerra, novos riscos

Ao fim do ano passado, os economistas estavam pessimistas com as perspectivas para o PIB em 2022, prevendo um desempenho muito próximo de zero.

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Uma das preocupações é com a piora na inflação devido à alta de preços 

das commodities, que pode se refletir no preço dos combustíveis

Alguns fatores contribuíam para isso: a fraca herança estatística deixada por 2021 para esse ano (de apenas 0,1%); a forte alta de juros, com a Selic indo de 2% em janeiro do ano passado para 10,75% em fevereiro de 2022, com perspectiva de superar os 12% nos próximos meses; a perspectiva de uma inflação persistente, mesmo diante dos juros altos; e o clima negativo para negócios, devido às incertezas do ano eleitoral.

Nesse começo de ano, porém, a coisa tinha mudado um pouco, e alguns economistas estavam mais otimistas.

Eles estavam olhando para uma série de fatores promissores: a atividade em recuperação no quarto trimestre de 2021, após dois trimestres de queda no PIB; a perspectiva de avanço de concessões e privatizações neste ano; municípios e Estados de caixa cheio após a arrecadação recorde de 2021, que pode se traduzir em investimentos; e a perspectiva de uma série de estímulos à economia por um governo Bolsonaro de olho na reeleição.

Mas então veio a guerra na Ucrânia. O otimismo perdeu força e os economistas agora avaliam que há quatro riscos principais para a atividade nesse ano.

"Ficou para atrás a possibilidade de normalização das cadeias produtivas com esse novo choque da guerra. Esse novo cenário pode pressionar a indústria ainda mais, tanto em custos, como em dificuldade de acesso a matérias-primas", observa Luana Miranda, economista da gestora de recursos GAP Asset.

Outra preocupação agora é com uma piora da inflação, diante da forte alta de commodities como petróleo, gás natural, minerais e alimentos como trigo, milho e soja, que podem ser impactados ainda por uma eventual escassez global de fertilizantes.

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'Inflação mais alta tira poder de compra das famílias', adverte especialista

"Tem um viés altista para a inflação. A parte de combustíveis é uma preocupação: a defasagem dos preços domésticos em relação aos preços internacionais de gasolina chegou em 30%. Isso é muito alto, pois a defasagem costuma rodar em torno de 10%. A Petrobras não deve conseguir segurar essa defasagem por muito tempo sem reajustar os preços", diz Miranda, ponderando que o real valorizado em relação ao dólar ajuda a evitar um quadro ainda pior.

Segundo Margato, da XP, alguns setores da economia brasileira podem se beneficiar dessa alta de preços das commodities, como o agronegócio, que vai vender seus produtos a valores mais altos. Mas o efeito líquido de uma inflação maior é negativo para a economia em geral.

"Inflação mais alta tira poder de compra das famílias", diz Margato, destacando a queda da renda dos brasileiros que persiste há pelo menos seis meses, como resultado da inflação.

Com a carestia persistente, o Banco Central pode optar por manter os juros altos por mais tempo, o terceiro fator de atenção para a atividade.

"Nas nossas contas, a Selic chega a 12,75% em junho. Antes, achávamos que após as eleições de outubro, haveria espaço para o Banco Central começar a cortar a taxa básica de juros, mas a depender da evolução do conflito militar, talvez o Banco Central decida postergar um pouco esse corte. Isso também significa uma atividade doméstica mais fraca adiante", afirma o analista da XP.

Por fim, o último ponto de atenção nesse novo cenário trazido pelo conflito no Leste Europeu é o aumento das incertezas.

"Diante de um quadro de maior percepção de risco, de um quadro econômico mais nublado, isso pode deprimir a confiança dos empresários e postergar decisões de investimentos. Isso impacta o sentimento econômico e pode também atrapalhar a dinâmica da atividade", completa Margato.

Marcos Ross, do Haitong, destaca que tudo vai depender da duração da guerra.

"O Brasil não é uma economia muito aberta, somos historicamente fechados e muito protecionistas. Então não temos uma raiz de crescimento voltada ao comércio exterior", observa.

"Agora, se a alta de preços de commodities persistir ao ponto de impactar a atividade da China, pode haver um efeito de desaceleração econômica mais complicado."


Crescimento do PIB dentro de 2021 foi de apenas 1,3%; leia análise

 Roberto Macedo*

O Estado de São Paulo

 © Germano Rorato/Estadão - 24/8/2018 

Taxa de 4,5% do PIB é ilusória quanto ao crescimento 

dentro de 2021, pois seu resultado veio mais do buraco de 2020

O IBGE anunciou nesta sexta-feira, 4, que entre 2020 e 2021 o PIB cresceu 4,6%, o que dá uma visão enganosa da variação do PIB dentro de 2021, que foi de apenas 1,3%. O gráfico que acompanha este artigo explica essa diferença.

Nota-se que em 2020 o índice do PIB teve um movimento em V, ou seja, de queda e recuperação, com esta se completando só no primeiro semestre de 2021, cujo índice do PIB, de 171,8, foi bem próximo daquele do quarto trimestre de 2019 (171,3). Com esse movimento em V o índice do PIB trimestral médio de 2020, ficou em 163,5, e sabe-se que isso levou a uma queda de 3,9% relativamente à média de 2019.

Já em 2021 o índice do PIB trimestral médio foi de 171,6, o que, comparado com a média de 2020 produziu o crescimento de 4,6%. O gráfico também mostra que após a recuperação em V ele passou a um formato similar ao símbolo da raiz quadrada, com o PIB crescendo muito pouco em 2021, inclusive com dois trimestres de variação negativa. Tomando-se o PIB médio de 2021 e comparando-o com o PIB do último trimestre de 2020, chega-se à taxa de 1,3% já citada.

Creio ser importante mostrar essa outra taxa, pois a de 4,5%, que deve dominar o noticiário, é ilusória quanto ao crescimento dentro de 2021, e seu resultado veio mais do buraco de 2020 do que do desempenho no ano passado.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR


Brasil fica em 15º em ranking mundial do PIB em 2021

 Hamilton Ferrari

Poder 360

O Brasil ficou na 15ª colocação no ranking mundial de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021. O país avançou 4,6% no ano passado.

O levantamento feito pela Austin Rating mostrou que há 20 países que tiveram desempenho melhor do que o Brasil no ano passado. Alguns empatam nas posições superiores pelo percentual igual de crescimento. Eis a íntegra do estudo (137 KB).

A maior alta foi do Peru, com PIB anual de 13,3%. A economia do país latino americano havia recuado mais de 11% em 2020. No caso do Brasil, a queda foi menor no ano anterior: -3,9%. Leia o levantamento de 2020.

O mundo cresceu, em média, 5,7% em 2021, segundo o economista Alex Agostini, da Austin Rating. O Brics –grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul– cresceu menos: 3,3%. O PIB do Brasil avançou mais do que a média de seus pares emergentes. A Zona do Euro cresceu 5,9% em 2021.

 © Fornecido por Poder360

O Brasil manteve-se na 13ª posição no ranking das maiores economias globais. Deixou de ficar entre as 10 maiores economias em 2019. As 15 maiores economias do mundo detêm 76,3% de todas as riquezas do mundo, o equivalente a US$ 71,89 trilhões.

 © Fornecido por Poder360




PIB brasileiro cresceu abaixo da média mundial em 2021

  Bruno Villas Bôas, Daniela Amorim e Vinicius Neder

O Estado de São Paulo

Rio - O desempenho da economia brasileira em 2021 foi frustrante na comparação ao de outras nações, embora tenha sido suficiente para recuperar as perdas registradas durante a pandemia, avalia Alex Agostini, economista-chefe da agência de classificação de risco Austin Rating.

Conforme divulgado nesta sexta, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 4,6% em 2021, frente ao ano anterior. Com isso, o País ocupou a 21ª posição de um ranking da Austin Rating que considera o ritmo de crescimento de 34 países que apresentaram seus resultados.

“As expectativas para o PIB do Brasil de 2021 eram bem melhores no início do ano passado. Não é um resultado ruim, já que recupera boa parte do que foi perdido. O problema é que o Brasil, mesmo crescendo 4,6%, permanece longe de seus concorrentes diretos”, diz Agostini.

De acordo com o levantamento, o crescimento médio dos 34 países analisados foi de 5,7% em 2021, acima do desempenho da economia brasileira. A lista do PIB de 2021 foi liderada pelo Peru, com crescimento de 13,3%. Outro sul-americano em destaque foi a Colômbia, com alta de 10,7%.

Também no topo do ranking chama atenção a presença de Índia e China, integrantes ao lado do Brasil dos blocos Brics – acrônimo para Brasil, Rússia, China e Índia. O PIB chinês cresceu 8,1% no ano passado, ritmo bastante próximo ao da Índia (+8,2%), segundo o levantamento.

Histórico

Agostini explica que o Brasil aparece, historicamente, do meio para o fim da tabela de crescimento global. De 2012 a 2021, o ritmo médio de crescimento brasileiro foi 0,4% ao ano. No mesmo período, o mundo cresceu 3%. Mesmo países desenvolvidos cresceram mais, 1,2% ao ano no período.

“Como pode um país emergente crescer tão pouco? Temos um problema político, um olhar só de curto prazo, o que explica estarmos sempre com problema fiscal. O custo disso é um problema social enorme, elevada taxa de desemprego e renda baixa. Política pública precisa ser revista”, afirma.

Para o economista, o cenário para 2022 não parece promissor, com perspectiva de alta de apenas 0,3% do PIB na estimativa da Austin Rating. O baixo crescimento é motivado por taxa de juros alta e inflação elevada, além do problema fiscal e da guerra entre Rússia e Ucrânia.

“A guerra pode afetar o agronegócio no Brasil por causa dos fertilizantes. O setor tem uma cadeia produtiva muito grande. Quando colhe soja e milho, precisa transportar para algum lugar. Caminhões, portos, aeroportos acabam afetados indiretamente”, avalia Agostini.

Ranking

Em relação ao ranking de tamanho do PIB em dólares, a Austin confirma que o Brasil ficou na posição de 13ª maior economia do mundo ao fim de 2021.

O País chegou a ocupar a sétima posição do ranking antes da sucessão de crises. Para o próximo ano, a expectativa é de que o Brasil recupere a 12ª posição do ranking global.


PIB do Brasil cresce 4,6% em 2021 e recupera perdas da pandemia

 Exame,com

Com informações Reuters

Em 2021 como um todo, a economia registrou expansão de 4,6%, depois de encolher 3,9% em 2020, taxa recorde da série histórica iniciada em 1996

 

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil teve crescimento acima do esperado no quarto trimestre e recuperou em 2021 as perdas da pandemia de covid-19.

Em 2021 como um todo, a economia registrou expansão de 4,6%, depois de encolher 3,9% em 2020, taxa recorde da série histórica iniciada em 1996.

Entre outubro e dezembro, o PIB subiu 0,5% em relação aos três meses imediatamente anteriores, de acordo com os dados divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o PIB apresentou alta de 1,6% no quarto trimestre de 2021, vindo dentro das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, que variavam de uma elevação de 0,5% a 2,5%, com mediana positiva de 1,2%.

Ainda segundo o instituto, o PIB do quarto trimestre de 2021 totalizou R$ 2,3 trilhões. No ano de 2021, o PIB somou R$ 8,7 trilhões.

O PIB da agropecuária subiu 5,8% no quarto trimestre de 2021 ante o terceiro trimestre de 2021. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o PIB da agropecuária mostrou queda de 0,8%, segundo o IBGE. No ano de 2021, o PIB da agropecuária caiu 0,2% ante 2020.

 - (Necton/Reprodução)

O Produto Interno Bruto da indústria caiu 1,2% no quarto trimestre de 2021 ante o terceiro trimestre. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o PIB da indústria mostrou queda de 1 3%. No ano de 2021, o PIB da indústria subiu 4,5% ante 2020.

Já o PIB de serviços subiu 0,5% no quarto trimestre de 2021 ante o trimestre anterior. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o PIB de serviços mostrou alta de 3,3%. No ano passado, o PIB de serviços subiu 4,7% ante 2020.

O consumo das famílias subiu 0,7% no quarto trimestre de 2021 ante o terceiro trimestre de 2021, de acordo com o IBGE. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o consumo das famílias mostrou alta de 2,1%. No ano de 2021, o consumo das famílias subiu 3,6% ante 2020.

 - (Necton/Reprodução)

O consumo do governo, por sua vez, subiu 0,8% no quarto trimestre de 2021 ante o terceiro trimestre. Na comparação com o quarto trimestre de 2020, o consumo do governo mostrou alta de 2 8%. No ano de 2021, o consumo do governo subiu 2% ante 2020.

FBCF-

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) subiu 0,4% no quarto trimestre de 2021 ante o terceiro trimestre de 2021. Os dados foram divulgados pelo IBGE, que anunciou nesta sexta os resultados das Contas Nacionais Trimestrais.

Na comparação com o quarto trimestre de 2020, a FBCF mostrou alta de 3,4%. No ano de 2021, a FBCF subiu 17,2% ante 2020. Segundo o instituto, a taxa de investimento (FBCF/PIB) de 2021 ficou em 19,2%.



Por que o PIB do agro recuou enquanto a economia se recuperou

 Luisa Purchio

Veja online

Produções de açúcar, milho, café e leite foram impactados negativamente pelas intempéries climáticas; retração do setor no quarto trimestre foi de 0,8%

 // Dirceu Portugal/.

BAIXA Em 2021, PIB do agronegócio recuou 0,2% em relação ao ano anterior 

O agronegócio é, tradicionalmente, um importante motor da economia brasileira. Porém, as intempéries climáticas ao longo do ano de 2021 levaram a fortes perdas no campo, o que impactou negativamente no resultado do PIB do campo. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 4, apontam que o PIB do agronegócio recuou 0,2% em 2021 em relação ao ano anterior, com resultados correntes de 598,1 bilhões de reais.

Na lavoura, culturas como cana de açúcar, milho e café tiveram baixas significativas devido à seca que atingiu o país no final de 2020 e início de 2021, afetando a colheita. Já no meio do ano, o tempo virou e foi a vez de geadas e até chuvas de granizo prejudicarem a safra. Na pecuária, a produção de bovinos e de leite também foi impactada pelas condições climáticas adversas.

A produção de cítricos como laranja, por exemplo, ficou abaixo do esperado. “Tivemos uma queda de safra muito grande por conta da seca que aconteceu no final de 2020 e início de 2021. Ela prejudicou muito a primeira florada, que é quando normalmente se concentra a maior produção da fruta. Depois só piorou: mais seca, geada, todos os problemas que podemos imaginar”, diz Ibiapaba Netto, diretor executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).

4º trimestre

No último trimestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior, o recuo do PIB do Agronegócio foi ainda maior, de 0,8%. Os principais destaques na queda foram a cana de açúcar, com retração de 10,1%, e a mandioca, de 2,4%. Algumas culturas, no entanto, apresentaram crescimento no período, como trigo, fumo e laranja.


PIB volta do tombo puxado por investimento, mas cenário de 2022 continua fraco

 Míriam Leitão e Alvaro Gribel

O Globo

 Yasuyoshi Chiba/AFP

Linha de produção na indústria automotiva 

O crescimento de 2021 veio dentro do esperado, 4,6%, mas houve surpresa positiva no último trimestre, com 0,5%. Isso aumenta o efeito estatístico herdado por 2022. Contudo, a guerra adicionou um grau enorme de incerteza sobre o crescimento de 2022. Pode haver uma série de revisões para cima nas projeções deste ano, mas lembrando que a mediana estava em torno de 0,3%. Contudo, a duração da guerra e das sanções tornam o horizonte muito incerto.

O crescimento de 4,6% em 2021 vem depois de uma retração de 3,9% em 2020. Ou seja, na média, as perdas com a pandemia foram repostas. Voltamos do tombo. E ainda houve um pequeno crescimento “líquido” nesses dois anos. Porém os economistas não acreditam que esse ritmo seja sustentável, e o PIB deve voltar a crescer entre zero e 1% este ano. Apesar de o PIB ter se recuperado, o PIB per capita não conseguiu compensar a queda, teve alta de 3,9% em 2021 depois de uma queda de 4,6% em 2020.

A agricultura teve um ano difícil em 2021, e encolheu, 0,2%, mas foi uma das boas surpresas do final do ano com um crescimento robusto de 5,8%. Esse é o setor que pode mais duramente ser atingido pela  guerra de Putin pelo risco de falta de fertilizantes.

Há algumas boas notícias no indicador divulgado hoje pelo IBGE. A taxa de investimento chegou a 19,2% do PIB, o maior percentual desde 2014. Isso aconteceu porque a taxa de poupança também subiu, para 17,4% e permitiu o financiamento dos investimentos. E mais investimento sempre aponta para crescimento futuro. Com a forte alta da Selic pelo Banco Central, no entanto, a tendência é que esse número volte a cair.

Outro dado importante é que o PIB do quarto trimestre subiu 0,5%, acima das projeções do mercado, em torno de 0,2%. Segundo o economista-chefe do banco Alfa, Luis Otávio Leal, o carregamento estatístico para 2022 deve subir de zero para 0,3%. A grosso modo, isso quer dizer que a mediana das estimativas de mercado – hoje em 0,3% no Boletim Focus – pode subir para 0,6%.

A surpresa no número do quarto trimestre, explica Leal, veio nos serviços, que o mercado apostava em queda, mas veio com alta de 0,5%, e no consumo das famílias, que saltou 1,5%.

O que houve em 2021 foi a recuperação das perdas de 2020, com pouco crescimento, de fato. Olhando para frente, o país enfrentará várias dificuldades. A inflação permanece elevada, ainda em dois dígitos, o Banco Central levou a Selic para 10,75%, e o mundo enfrentará as consequências da invasão da Rússia à Ucrânia, com todas os efeitos colaterais do conflito e das sanções aos russos.

Por outro lado, o governo Bolsonaro tem adotado uma série de medidas de estímulo no ano eleitoral para tentar melhorar o clima econômico e ajudar na tentativa de reeleição, que podem ter efeito duplo: aumentar o consumo, mas também elevar a desconfiança em relação às contas públicas.

A invasão da Rússia à Ucrânia é um complicador enorme, porque o Brasil já estava pior do que o mundo, tanto em projeção de crescimento quanto na inflação, e agora os dois indicadores pioram. Já é certo que haverá mais inflação global, pelos choques nos mercados de energia e de alimentos. E deve ocorrer novos problemas nas cadeias de suprimento, o que afetará diversas indústrias. Mas a notícia do dia é boa: voltamos do tombo, e houve até umas boas surpresas nos dados do IBGE.


Por que o Brasil, potência no agro, depende de fertilizantes russos

 Diogo Magri 

Veja online

Sanções impostas a empresas russas já começam a complicar a obtenção desses insumos essenciais para a produção no campo

  Reinaldo Canato/VEJA 

70% dos insumos usados na agricultura brasileira são importados -  

O Brasil está longe de se envolver diretamente na invasão militar da Rússia sobre a Ucrânia, mas não deixa de sofrer suas consequências. Um dos problemas principais envolve a importação de fertilizantes, comércio que está ameaçado pelas sanções econômicas impostas pela comunidade internacional às empresas russas.

Atualmente, o Brasil compra de fora 70% do insumo usado na agricultura. Em 2021, 23% desses adubos ou fertilizantes químicos importados vieram da Rússia, segundo dados do Comex Stat, ferramenta do Ministério da Economia. Foram 41,6 milhões de toneladas compradas por 15,1 bilhões de dólares.

Mas como pode um país que é potência mundial no agronegócio depender da importação de fertilizantes? A resposta passa pela falta de infraestrutura, apesar da existência de matéria-prima. Atualmente, o Brasil não conta com um sistema de dutos grande o suficiente para dar conta de escoar o gás utilizado para a produção de fertilizantes nitrogenados. Para efeito de comparação, o Brasil tem 40 mil quilômetros de canos, enquanto os Estados Unidos contam com 400 mil quilômetros em seu sistema de escoamento.

Além disso, o Brasil conta com somente quatro fábricas de fertilizante nitrogenado. Todas pertenciam à Petrobrás, mas três delas, localizadas em Camaçari-BA, Laranjeiras-SE e Três Lagoas-MS, foram vendidas nos últimos anos. A última foi negociada com o grupo russo Acron no último dia 4 de fevereiro, mas teve o processo de privatização impedido pelo bloqueio econômico global contra a Rússia. A fábrica que restou, em Araucária-PR, está fechada. A estratégia de deixar o setor de fertilizantes é seguida pela Petrobrás desde 2017.

A falta dos insumos em solo brasileiro também foi usada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) como justificativa para não criticar a postura da Rússia na Europa. “Para nós, a questão do fertilizante é sagrada”, ressaltou ele. O tema esteve entre as discussões que o presidente brasileiro teve com Vladimir Putin, quando visitou o país europeu há algumas semanas. A ideia era pedir a Putin garantias de oferta de fertilizantes e alguma estabilidade nos preços neste ano.

Em suas redes sociais, o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, aproveitou o momento para atacar as reservas indígenas do país. “Não precisaríamos ser dependentes de importação de fertilizantes. Temos reservas de potássio na Amazônia. A esquerda fez o ‘favor’de inviabilizar a sua exploração com suas demarcações de terras indígenas e unidades de conservação que juntas somam mais da metade da região”, publicou ele.

A reserva de potássio de fato existe e, até hoje, já recebeu 149 pedidos de exploração do minério feitos pela empresa Potássio do Brasil, administrada pelo banco canadense de investimentos Forbes & Manhattan. No entanto, os pedidos ainda esbarram na legislação estadual de Pará e Amazonas. O mesmo grupo canadense também tem a pretensão e construir uma mina de ouro a céu aberto nos arredores da hidrelétrica de Belo Monte, na bacia do Rio Xingu.


Exclusão da Rússia de índices globais pode atrair mais recursos ao Brasil

 Exame.com

Com informações Estadão Conteúdo

Na noite de quarta-feira, a fornecedora global de índices de ativos MSCI anunciou que a Rússia deixará de fazer parte do índice MSCI Emerging Markets 

A retirada da Rússia de índices de referência de investimentos de mercados emergentes pode favorecer o Brasil ainda mais nas próximas semanas. Na noite de quarta-feira, a fornecedora global de índices de ativos MSCI anunciou que a Rússia deixará de fazer parte do índice MSCI Emerging Markets para ser classificada como um mercado independente. A mudança passa a valer a partir do dia 9 e foi decidida porque já não há mais acessibilidade e capacidade de investimento no mercado russo.

Na prática, essa alteração impede empresas russas de ter acesso a uma parte relevante dos fundos de investimentos. A tendência é de que os recursos que seriam aportados na Rússia sejam distribuídos entre outros mercados emergentes, como o Brasil.

Outra fornecedora de índices do mercado de ações, a FTSE Russel decidiu retirar a Rússia de todos os seus índices de renda variável. Segundo apurou o Estadão, investidores globais, como a BlackRock, vêm pressionando para a remoção do país desses índices. De acordo com uma fonte, a retirada da Rússia de outros índices deverá ocorrer em ritmo maior a partir da próxima semana.

Segundo cálculos do Itaú, apenas com a mudança feita pela MSCI, US$ 27,1 bilhões poderiam deixar a Rússia. Considerando que o Brasil tem um peso de 4,97% no índice, ele poderia receber US$ 1 34 bilhão desse total. Juntas, as Bolsas de toda a América Latina ficariam com US$ 2,12 bilhões.

Essa saída de recursos, porém, está travada por enquanto. Isso porque o mercado de ações russo está fechado desde segunda-feira e as sanções adotadas contra o País tornam as transações financeiras bastantes difíceis.

Ainda assim, o fundo soberano norueguês, por exemplo, que possui US$ 1,3 trilhão sob gestão, já anunciou que venderá seus ativos russos, compostos por ações de 47 empresas, com um valor aproximado de US$ 2,83 bilhões.

Futuro

Por enquanto, conforme analistas, é mais certo que a América Latina e o Brasil reconquistem importância nos índices que balizam investimentos nos mercados emergentes e nas carteiras de fundos dedicados a esses países.

Levantamento recente do BTG Pactual mostra que os fundos que apenas compram ativos de países emergentes tinham, em 2021, 5% do total no Brasil, na mínima histórica, sendo que o máximo foi de 16,9% em 2009. Se forem considerado os fundos globais, que são aqueles que podem investir em todo o mundo, a fatia que o Brasil ocupa é de apenas 0,23% - já foi de 1,9%, também em 2009. No fundo dedicado aos Brics, a participação chega hoje a 10,6%, longe do pico de 35% observado em 2010.

Já no índice de emergentes da MSCI, a China tem um peso 12,7% superior à média dos últimos 22 anos, enquanto o Brasil e o México recuaram em 5,1% e 3,2% em suas respectivas participações de acordo com o Itaú. A Rússia representava 1,47%, tendo perdido espaço desde a última revisão do índice em fevereiro, quando detinha 3,41%.


Plano Nacional de Fertilizantes pode sair nas próximas semanas

 Forbes Brasil

Com informações  Agência  Reuters

A promessa do governo brasileiro de lançar ainda neste mês um aguardado Plano Nacional de Fertilizantes renovou esperanças do setor, que vê possibilidade de aumento de produção local, cujo desenvolvimento tem sido afetado por ambiente pouco atrativo para investimentos apesar da forte demanda nacional por adubos, segundo associações ouvidas pela Reuters.

 © Roberto Samora/Reuters 

Com o Plano, o setor de fertilizantes vê a possibilidade de aumento da produção local

O governo já vinha elaborando medidas para reduzir a grande dependência externa de fertilizantes, mas o tema ganhou destaque depois de a Rússia — maior fornecedor para o Brasil — iniciar ataques contra a Ucrânia e levantar temores de desabastecimento.

O Brasil importa cerca de 85% do seu consumo de fertilizantes, incluindo potássio, que enfrenta um “gargalo” maior em função do conflito e de sanções ocidentais que já estavam em curso contra Belarus, outro importante produtor. No caso dos potássicos, as compras externas do país somam 96% do consumo.

“Espero que o plano nacional impulsione o setor. É algo necessário. O governo está consciente disso. Ele já trata desse assunto há muito tempo”, disse diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Julio Nery.

O diretor destacou esperar que o plano ataque gargalos ligados a mapeamento geológico, financiamento de pequenas e médias mineradoras, eficiência de licenciamento ambiental de jazidas, questões tributárias e desenvolvimento de tecnologias.

O Brasil tem hoje a única mina subterrânea convencional de potássio do Hemisfério Sul, no Complexo Mineroquímico Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete (SE), que conta também com uma planta de beneficiamento, segundo dados da proprietária Mosaic Fertilizantes. A capacidade do empreendimento é de 400 mil toneladas de cloreto de potássio por ano.

Mas a ausência de outros empreendimentos no país não é por falta de potencial geológico, disse Nery à Reuters.

Ele ressaltou que há grandes expectativas com o projeto conhecido em Autazes, na Amazônia, que enfrenta dificuldades para a obtenção de licença ambiental, além de outros diversos depósitos com bons indícios, mas que ainda demandam pesquisa mineral.

O projeto citado por Nery, da Potássio do Brasil, poderia produzir 2,4 milhões de toneladas da matéria-prima de fertilizante anualmente, mas enfrenta questões ambientais e dificuldades judiciais por estar perto de terras indígenas.

Outras iniciativas também já estão em curso no Brasil, apesar do setor ver a necessidade de mudanças no ambiente regulatório para que haja mais investimentos.

Alguns projetos, contudo, ganharam impulso adicional da demanda diante do conflito no Leste Europeu e da alta nos preços.

A Verde Agritech anunciou na véspera a aceleração de seus planos de investimentos em Minas Gerais, podendo alcançar capacidade de produção de 3 milhões de toneladas de potássio neste ano, contra 400 mil toneladas previstas para 2021.

A fonte para a produção do adubo da Verde Agritech é o siltito glauconítico, rocha de cor esverdeada que, embora utilizada há 200 anos nos EUA, é uma novidade no Brasil.

Diversificação de supridores

Além da necessidade de estimular a produção nacional, o setor de fertilizantes defende ainda uma busca por ampliar a base de fornecedores externos e reduzir a exposição do país a poucos países produtores, disse o diretor-executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), Ricardo Tortorella.

Segundo dados da Anda, dos cerca de 10 milhões a 11 milhões de toneladas de importação de potássio inicialmente estimada para 2022, metade deveria vir da Rússia e de Belarus. No momento, a guerra e sanções a Belarus restringem os embarques.

“O custo de produção atual (de fertilizantes no Brasil) não dá boa rentabilidade, ainda é mais barato buscar do outro lado do mundo”, disse Tortorella, apontando expectativas com o iminente plano do governo para mudar esse cenário.

Segundo ele, o Brasil não será autossuficiente em fertilizantes e o plano governamental precisa também entregar estratégias que abram novos canais, mercados e parceiros comerciais, juntamente com aprimoramentos em logística.

Tortorella pontuou que as entregas de fertilizantes no país têm crescido nos últimos anos, juntamente com as safras agrícolas, mesmo com a alta de preços dos produtos, diante de uma forte demanda também em outros países como Índia e EUA.

Nesta semana, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que o plano governamental para fertilizantes deverá ser lançado possivelmente entre os dias 20 e 29.

Ela comentou que o programa buscará minimizar gargalos de legislação, tributários e principalmente os relacionados questões ambientais, para o desenvolvimento nacional do setor.



Subsídio faz país dobrar capacidade de energia no papel, mas salto real é impossível

 Letícia Fucuchima

Agência Reuters

 © Reuters/Sergio Perez 

Parque de energia eólica

SÃO PAULO (Reuters) - A corrida entre empreendedores para garantir subsídios a novos projetos de geração renovável de energia permitiria que o Brasil dobrasse a capacidade instalada nos próximos anos, mas mesmo o forte interesse no mercado não será capaz de acomodar todos os empreendimentos, em meio a questões como baixo crescimento do consumo e gargalos de infraestrutura.

Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica enviados à Reuters mostram que foram emitidos 196,7 gigawatts (GW) em requerimentos de outorga (DROs) para novas usinas de fontes renováveis entre março do ano passado e o início deste mês.

Esse era o prazo final para que empreendedores solicitassem outorga para obter o desconto de pelo menos 50% na tarifa-fio (uso do sistema de distribuição e transmissão) --benefício que foi extinto pela lei 14.120/2021.

No total, foram emitidos 156,7 GW para a fonte solar fotovoltaica, 39,2 GW para a eólica, e 0,78 GW para a biomassa.

A quantidade de DROs expedidas em um ano equivale a mais do que o Brasil tem em capacidade instalada operacional de todas as fontes de energia. Atualmente, o parque gerador brasileiro soma 184 GW, segundo dados da Aneel.

Especialistas e executivos do setor elétrico avaliam que essa “corrida do ouro” vai impulsionar o já aquecido mercado de energias renováveis, acelerando a implantação de novas usinas num momento em que cada vez mais consumidores --de grandes indústrias a pequenas empresas-- buscam comprar energia de fontes limpas e baratas.

Pela lei, para ter direito ao desconto as usinas deverão estar totalmente operacionais em até quatro anos depois da concessão da outorga pela Aneel. Ao mesmo tempo, a expectativa é de alta mortalidade de projetos, uma vez que, além de não existir demanda por energia para absorver tanto projeto, há restrições no fornecimento de equipamentos para geração e principalmente na conexão com a infraestrutura de transmissão de energia.

Em nota à Reuters, o Ministério de Minas e Energia afirmou que é natural que haja um súbito aumento de projetos em função da nova lei, mas observou que o montante cadastrado supera em duas vezes e meia a necessidade de acréscimo de capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional nos próximos dez anos.

“Ou seja, não há demanda para absorver o total de projetos em cadastramento na Aneel”, apontou.

“Também não é razoável que os consumidores de energia elétrica paguem por uma capacidade de transporte que exceda as necessidades do país, devendo o sistema de transmissão ser dimensionado para atender o crescimento da demanda planejado para os próximos anos”, acrescentou a pasta.

FILTRO DO MERCADO

Muito dos quase 200 GW cadastrados na Aneel são projetos de empresas desenvolvedoras, que se concentram em trabalhos iniciais, como a medição do recursos renováveis, e depois vendem projetos para geradores que construirão e operarão as plantas.

Com isso, é possível que grande parte dos empreendimentos fique pelo caminho, prevalecendo apenas aqueles realmente competitivos, avalia João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia.

“Vai haver forte competição, uma busca por contratos de compra e venda de energia, ou então os geradores vão ter que construir parques sem ter contrato... Nem tudo vai prosperar, tem depósito de garantias e uma série de exigências, além do prazo de construção até 2026."

A avaliação é similar na Omega Energia. "É um jogo de papel, tem muita gente tomando muito risco, porque quem faz outorga tem obrigação de entregar", disse o presidente da geradora, Antônio Bastos, em teleconferência no final de fevereiro.

Segundo Bastos, a Omega aproveitou a janela de oportunidade, mas foi seletiva. "Temos um volume de projetos e de outorgas na mão que é condizente com o nosso plano de negócios até 2026."

Na AES Brasil, a estratégia também é cautelosa. O diretor financeiro, Alessandro Gregori, disse à Reuters que a companhia está avançando com seus projetos greenfield na Bahia e Rio Grande do Norte em volumes que se sente confortável para implantar.

"Tendemos a nos beneficiar ainda mais porque temos lastro de energia convencional com as nossas hídricas, conseguimos atender o grande cliente com energia convencional e guardar o benefício da energia incentivada para clientes menores... Vamos juntar esses dois mundos para rentabilizar os produtos", acrescentou Gregori.

REGULATÓRIO E PLANEJAMENTO

Já do lado do governo, a imensa fila de projetos deve exigir uma verdade força-tarefa no âmbito da Aneel, que passará agora a analisar a concessão das outorgas.

Outra dificuldade será priorizar os projetos para acesso ao sistema de transmissão de energia.

"O que define hoje se um projeto de renováveis é viável ou não é a conexão com a transmissão, já que o licenciamento ambiental não costuma ser impeditivo nesses casos", afirma Tiago Figueiró, sócio do Veirano Advogados.

Figueiró lembra que recentemente o governo flexibilizou por meio de decreto alguns requisitos relacionados à transmissão que eram exigidos dos empreendedores para a obtenção de outorga.

"Esse filtro agora vai acontecer depois... O que pode ocorrer é que muito projeto com outorga não consiga conexão, ou pelo menos não no prazo que esperava, não sendo viável no final do dia", avalia.

Para tratar dessa questão, o governo estuda criar um "leilão de margem de escoamento", no qual empreendedores poderiam disputar preferência na fila de conexão.

Além disso, a Empresa de Pesquisa Energética vem estruturando um novo ciclo de expansão da transmissão de energia no Nordeste, para fazer frente ao avanço das renováveis na região.

No início do ano, foi apresentado um primeiro estudo, com previsão de investimentos de 18,2 bilhões de reais em novas instalações em Estados do sul do Nordeste.


6 fatos da guerra na Ucrânia que impactam o mercado brasileiro de carne bovina

 Lygia Pimentel

Forbes Brasil

  © Gettyimages

 Conflito na Europa impacta o mercado de carne bovina no mundo todo

Um dos assuntos mais conversados e especulados desde a última semana tem sido a invasão da Ucrânia pela Rússia. E para além da tragédia humanitária imediata e óbvia, nós temos também efeitos bem negativos e que acabam influenciando a população global sobre o acesso à proteínas pelo crescimento dos custos de produção decorrentes desses problemas.

Para fazermos um breve resumo e começar a estabelecer uma análise sobre a situação, a gente pode dizer que após a aproximação entre Rússia e China, protagonizada pelos presidentes Putin e Xi Jinping no início de fevereiro, o país europeu começou a mobilizar mais de 100 mil soldados, tanques, veículos, infantaria, mísseis e outros para o extremo oeste para a fronteira com a Ucrânia.

Além disso, a Rússia vinha executando treinamentos navais nos oceanos Atlântico e Pacífico, e também no mar arábico junto às forças chinesas. E tudo isso teve início após a sinalização positiva da Ucrânia junto à Otan. E aí, na última quarta-feira (23), deu-se início a um intenso ataque a pontos de interesse geopolíticos no território ucraniano que, apesar de historicamente ser uma zona de conflito, acabou chocando o mundo por deixar evidente o ressurgimento de conflitos armados no mundo ocidental.  

Além da tragédia humanitária, o conflito traz custos ocultos como o de aumento dos custos de produção de proteína, que eleva a dificuldade do acesso de populações com menor renda a esses produtos. Então, esse racional, já nos leva ao entendimento de que conflitos militares levam à insegurança alimentar, em maior ou em menor grau.

Como consequências óbvias para o mercado de carne, a gente destaca as seguintes:

Redução ou interrupção do fluxo exportador brasileiro devido aos bloqueio de portos em decorrência dos ataques

Redução da demanda; a perda de energia em decorrência de uma guerra militar é motivo suficiente para projetarmos uma queda do consumo de carne russo e de outros países europeus envolvidos ou que podem se envolver no conflito. É cedo ainda para dizer quanto isso afetará o consumo de carne bovina na região, mas a duração e os desdobramentos das ações nos responderão. Apenas para dar uma ideia de números, a UE importou 59 mil toneladas de carne bovina em 2021, enquanto a Rússia levou 28 mil toneladas. Isso equivale a 1% da produção de carne bovina brasileira. Caso a fatia precisasse ser redirecionada para o mercado doméstico, isso representaria um aumento de 1,3% de disponibilidade de carne bovina para o Brasileiro

Em resposta ao conflito armado, os países da Otan estão aplicando sanções sobre o sistema bancário russo, notadamente o bloqueio de bens e o acesso ao sistema financeiro ocidental, o que dificulta o fluxo de pagamentos para quem comercializa entre as regiões.

No entanto, caso a sanção chegue à exclusão total da Rússia do sistema bancário global, o Swift, os negócios com os russos também seriam muito mais dificultados. Sob esse prisma, o efeito do conflito armado seria limitado ao aumento de 1,3% na oferta de carne no mercado brasileiro que não iria mais para lá e teria que ser redirecionado, mas essa é só a ponta do iceberg. Por trás das consequências óbvias, a gente pode desenhar custos ocultos que pairam sobre a comercialização das commodities:

1 – Pode haver aumento do custo dos grãos

Então, de tudo que é comercializado no mundo, 34% do trigo e 15% do milho partem do mar negro, e por isso uma interrupção desse fluxo levariam os preços dos grãos a se valorizar globalmente.  Elevando consigo o custo de produção de frangos, suínos e também bovinos. Outras commodities como soja e açúcar também teriam os seus preços elevados devido às pressões energéticas.

Devemos lembrar que 75% dos custos de produção do frango estão atrelados ao milho, enquanto suínos entre 60% e 70% e para a pecuária de corte entre 20% a 30%. Isso indica que a produção de frango seria a mais impactada pela redução do fluxo comercial global de milho e de insumos correlatos; considerando ainda que os produtores já vem de um período de impacto relevante e positivo com esses custos nutricionais.

2 – Possibilidade de elevação dos custos de energia

A Rússia fornece cerca de 40% do gás natural utilizado na fabricação de fertilizantes nitrogenados, para indústrias e residências do continente europeu. Então, a redução ou a interrupção do suprimento de gás natural à UE tem consequências diretas aos preços dos serviços e mercadorias que utilizam essa commodity como matéria-prima. Além do gás, o conflito também é refletido no petróleo e nos biocombustíveis.

3 – Impacto no preço e disponibilidade de fertilizantes

É um assunto muito comentado, porque o Brasil é altamente dependente. A Rússia é a segunda maior produtora de nitrogenados e potássicos e é a quarta maior de fosfatados, com share como a produção global de 10%, 19% e 9%, respectivamente.

Então, qualquer ação que impacte uma menor produção ou escoamento dessas matérias primas pode trazer a elevação dos preços e até mesmo a falta do adubo, o que seria um gargalo para a produção agrícola e pecuária em todas as regiões do planeta. E o Brasil depende muito; em 2021, importou 41 milhões de toneladas de fertilizantes com 22% sendo de origem russa.

4 – Aumento dos custos logísticos

Existem diversas rotas marítimas que são utilizadas para o comércio internacional de mercadorias. Quanto tem um conflito no mar Negro, como é o caso atual, algumas rotas precisam ser desviadas. Então, imagine que aquilo que levava mais ou menos 12 mil quilômetros para ser transportado agora leva 20 mil quilômetros.

Além disso, o petróleo, o gás natural e o dólar estão se valorizando, portanto o impacto sobre os combustíveis pode chegar facilmente ao Brasil dentro dos próximos dias. E isso certamente será repassado para empresas de transporte, para o processador, para o produtor e ao consumidor. É uma péssima hora para esse tipo de problema acontecer, afinal estamos saindo de uma crise.

5 – Volatilidade das moedas e temores sobre os pagamentos

Considerando que os principais membros da Otan anunciaram sanções à Rússia que podem implicar em prejuízo ao fluxo bancário com o ocidente, risco de solvência entra no radar. O que eleva sobremaneira a volatilidade das moedas globalmente e aumenta o risco operacional de comércio.

E isso, por sua vez, aumenta os custos com instrumentos de hedge, financiamentos e prejuízos cambiais. Isso aumenta os custos com insumos e, destacadamente, os fertilizantes.

6 – Acesso a crédito e seguro

Portanto, maior risco equivale a maior volatilidade que, por sua vez, equivale a custos mais altos com prêmios de seguro de preço. Além disso, os riscos armados costumam a reduzir a oferta de capital de risco, como crédito geralmente é  condicionado a adesão de algum tipo de seguro, o conflito pode levar ao aumento das taxas de juro e dos prêmios dos seguro.

Por fim, a gente precisa considerar que o prolongamento do conflito, a intervenção de outros países, ocorrências envolvendo China e outros desdobramentos do conflito poderão agravar ainda mais os efeitos aqui citados. Para os pecuaristas especificamente, tem um ponto de alívio que é o fato de o mercado internacional ser mais dependente de maneira proporcional de grãos na produção de bois do que o Brasil que tem vastas áreas de pastagem.

Apesar destas áreas estarem reduzindo paulatinamente nos anos anteriores, o que a gente tem é um clima privilegiado, distribuição de água privilegiada e boas condições para produzir um boi mais competitivo em relação ao resto do mundo, que tem uma dependência maior dos grãos. Portanto, pode ser que isso traga uma maior competitividade ao boi brasileiro frente a seus concorrentes, apertando um pouquinho para cima a importação de carne bovina.

Lygia Pimentel é médica veterinária, economista e consultora para o mercado de commodities. Atualmente é CEO da AgriFatto. Desde 2007 atua no setor do agronegócio ocupando cargos como analista de mercado na Scot Consultoria, gerente de operação de commodities na XP Investimentos e chefe de análise de mercado de gado de corte na INTL FCStone.

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