segunda-feira, março 07, 2022

O copo meio cheio de Guedes em relação à invasão russa na Ucrânia

 Victor Irajá 

Veja online

Ministério cita que conflito no leste europeu pode consolidar o Brasil como destino de investimentos privados e Guedes comemora desempenho do Real

  Edu Andrade/Ascom/ME/.

Ministro Paulo Guedes - 

Em tempos de guerra, virou regra dentro do Ministério da Economia o blitzkrieg pela divulgação de uma agenda positiva. O ministro Paulo Guedes vem tentando virar a chave da opinião pública em torno dos resultados colhidos por sua gestão, passado o pior momento da pandemia de Covid-19 e tenta ver o copo meio cheio sobre os efeitos que o conflito entre Rússia e Ucrânia podem trazer para a economia brasileira. Nesta semana, Guedes disparou por WhatsApp para empresários os resultados do real desde o início do ano, e a Guerra da Ucrânia. A moeda brasileira foi a que mais  se valorizou desde o início do ano — o que inclui a incursão do autocrata russo, Vladimir Putin, no país. Outro envio por parte do ministro aponta os bons resultados da bolsa brasileira no período. A mensagem encaminhada por Guedes mostra que o real valorizou-se 9,2% — melhor resultado entre 62 moedas desde janeiro. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, avançou cerca de 30% desde o início do ano.

O chefe de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, é um dos assessores mais alinhados ao chefe e aproveitou a nota da Secretaria de Política Econômica, a SPE, para reforçar as mensagens de Guedes. En passant, o documento que repercute os resultados do PIB aborda os efeitos econômicos para o Brasil e — apesar da situação adversa — pode trazer bons frutos ao país. “Cabe ao Brasil, além dos posicionamentos diplomáticos e humanitários (em três oportunidades já se posicionou na ONU condenando a invasão da Rússia à Ucrânia; ressalta-se ainda que o Brasil emitirá vistos especiais aos refugiados), mostrar que é um porto seguro para os investimentos privados”, afirma a nota. Com diversas sanções econômicas aos russos, há investidores que vêm tirando dinheiro de lá e vindo para outros emergentes, como o Brasil. Como mostra o Radar Econômico,  em apenas três dias, os investidores estrangeiros despejaram 8,6 bilhões de reais na bolsa brasileira.

A SPE aproveita  para deixar claro o objetivo final do chefe, Paulo Guedes, que é aprovar algo de sua agenda reformista para deixar de legado. Em ano de eleição, a agenda eleitoral vem ganhando espaço no ministério em detrimento das reformas.  Segundo eles, para que o Brasil aproveite a oportunidade, “é necessário manter a agenda de reformas, fortalecendo o mercado de capitais e de crédito, por isso é fundamental aprovar o projeto de lei (PL) do Novo Marco de Garantias, a medida provisória (MP) de registros públicos, e o PL de debêntures incentivadas”, diz o documento, citanto também as privatizações dos Correios e da Eletrobras.

Cutucadas

A nota da SPE teve novamente o já conhecido tom ufanista, mesmo com Sachsida tendo deixado o posto de chefe da secretaria para assumir o papel de assessor especial de Guedes. Em tom de despedida, talvez esta seja a última nota em tom comemorativo assinada por ele, abordando os resultados do Produto Interno Bruto, o PIB de 2021. A economia brasileira avançou 4,6% em relação ao ano anterior, superando as perdas causadas pela pandemia em 2020. “Quase três quartos das projeções de mercado coletadas pelo Focus no mês de março para o PIB do ano corrente se afastam do resultado realizado”, avalizou, entoando o mote de Guedes de que as análises do mercado financeiro estão equivocadas.

Para o ano de 2022, as previsões de crescimento podem ser corroboradas, segundo Sachsida, por dois aspectos positivos que estão em curso na economia brasileira: a ampliação significativa do investimento e a recuperação contínua do mercado de trabalho. “O Brasil tem melhorado sua posição relativa de taxa de poupança e investimento nos últimos anos. Segundo as projeções do FMI, o Brasil foi o segundo país que mais elevou sua taxa de poupança no período entre 2018 e 2021 no grupo dos 20 países com maior PIB em dólares”, escreveu. “A ampliação da taxa de poupança é determinante para o aumento do investimento e crescimento de médio prazo. De forma paralela, tem ocorrido uma ampliação da taxa de investimento na economia brasileira nos últimos anos, em ritmo maior que o próprio crescimento do PIB”.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Guedes deveria um pouco mais cauteloso, mais comedido quanto a valorização da nossa moeda.  Em razão dos juros altos, com o propósito de conter a inflação, o país vem recebendo uma enxurrada de dólares na Bolsa de Valores. Com o alto ingresso da moeda americana, a tendência é o dólar desvalorizar-se como de fato vem ocorrendo. Somado a este fato, há o ingresso volumoso de dólares em razão das nossas exportações. Sendo assim, a valorização do real se dá  não por virtudes da nossa economia, e muito maias pelo seu desajuste. Em tempos de crise, como a que ocorre em razão da guerra Rússia x Ucrânia, qualquer possibilidade de ganhos atrai investidores.  Basta que haja queda dos juros para níveis pré-pandemia, e esse montão de dólares vai embora. Num piscar de olhos.