terça-feira, março 20, 2018

Indústria tem menor participação no PIB desde os anos 1950

Marcello Corrêa 
O Globo

Apesar do crescimento em 2017, setor continua a perder espaço na economia

Agência O Globo
Fábrica da Mercedez-Benz 

RIO - A indústria de transformação voltou a crescer em 2017 — 2,2% —, mas continuou a perder espaço na economia. Segundo dados divulgados na quinta-feira pelo IBGE, a participação do segmento no Produto Interno Bruto (PIB) caiu para 11,8%, a menor desde os anos 1950. No início da década, esse percentual era de 15% e, nos anos 1980, chegou a superar a casa dos 20%. Mais do que efeito da recessão que abalou o país por mais de dois anos, o fenômeno é estrutural. As consequências, no entanto, dividem especialistas. Parte dos economistas que acompanham o tema afirma que o Brasil passa por um processo de desindustrialização precoce, com consequências nocivas à inovação e à produtividade. Para outros analistas, a perda de espaço das fábricas é um processo natural de mudança do perfil, em que o setor de serviços tende a ganhar cada vez mais protagonismo.

Historicamente, os países que se desenvolvem passam por processos de industrialização, enriquecem e, aos poucos, reduzem a participação do setor na economia. O ponto dos críticos é que o Brasil teria passado por esse processo cedo demais. Segundo dados do Banco Mundial de 2015, os últimos disponíveis para todos os países, o peso da indústria brasileira no PIB, estimado em 11,8% naquele ano, estava abaixo da média mundial, de 16,5%. Por diferenças metodológicas, os números diferem um pouco dos dados do IBGE, que, naquele ano, registrou 12,2%. O indicador brasileiro, no entanto, também estava abaixo do estimado em países vizinhos, como México, Peru e Argentina.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) é uma das principais críticas à perda de espaço do setor. Segundo dados compilados pela entidade, a queda estrutural da participação da indústria na economia ocorreu mais rapidamente no país do que no resto do mundo. Estudo da instituição observa que, entre 1975 e 1992, o peso do setor no PIB mundial diminuiu 25%, enquanto, no Brasil, recuou 38%. A entidade também observa que o início do processo ocorreu quando o país tinha PIB per capita de US$ 11 mil, menos que o patamar de US$ 20 mil observado em países desenvolvidos quando fizeram transição semelhante.


O protagonismo dos serviços

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), acrescenta que o país não tem características que justifiquem essa queda.

- Nossa renda per capita não é de país desenvolvido. O Brasil está para trás na robotização, não tem um grande fenômeno de outsourcing (terceirização de processos da indústria para o exterior). Foram as condições macroeconômicas e sistêmicas que fizeram com que a indústria perdesse espaço, como câmbio desfavorável e custo de capital elevado.

Outra corrente de pesquisadores lembra que o perfil da economia mudou, os serviços ganharam protagonismo, e a ideia de que o país deve ter um parque industrial capaz de suprir todas as cadeias internamente está ultrapassada. O próprio conceito do que conta como valor adicionado no setor mudou ao longo dos anos.

Entre as duas correntes, é comum a crítica às formas de incentivo à indústria nos últimos anos, baseadas principalmente em incentivos fiscais e crédito subsidiado. A queda de participação da indústria na economia brasileira ocorreu mesmo durante os dez anos em que o país teve três versões de programas específicos do governo para estimular o setor. Em 2004, quando o governo Lula lançou a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), a indústria representava 17,8% do PIB. Em 2015, já no governo Dilma, quando foi apresentado o Plano Brasil Maior (PBM), o indicador havia recuado para 12%.

O atual governo, de Michel Temer, diz que também planeja estratégias. Para o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Luiz Augusto Ferreira, não há desindustrialização no país. A instituição, ligada ao governo federal e responsável por gerir políticas industriais, tem como meta elevar a participação do setor no PIB para até 15% nos próximos cinco anos. As ações serão voltadas ao desenvolvimento da indústria 4.0, que incorpora novas tecnologias, como a internet das coisas. 

- A ABDI está preparando para o próximo governo duas ou três novas políticas industriais. Não há desindustrialização. O que tem de haver agora é um reacerto do espaço da indústria nacional - afirma Ferreira.

A evolução do índice 


Processo de desindustrialização se acentuou a partir de 2008

O Globo 

Segundo José Luís Oreiro, movimento reduz perspectivas de crescimento da economia

Reprodução
José Luís Oreiro, professor do departamento de Economia da UNB 

RIO - O professor do Departamento de Economia da UNB José Luís Oreiro acha que já não se coloca mais a questão se há desindustrialização ou não e que esse processo se acentuou a partir de 2008. Segundo ele, os defensores de que havia ganharam o debate.

- A desindustrialização não só está ocorrendo, como reduz as perspectivas de crescimento da economia brasileira. Portanto, fora a retomada cíclica do nível de atividade, que já está posta, é preciso enfrentar essa questão para que o Brasil possa crescer a uma taxa mais robusta e sustentada.

Em relação às políticas industriais, Oreio afirma que, se não houver taxas de câmbio e de juros competitivas, é enxugar gelo.

- Nenhuma das três que tivemos obteve sucesso no que se refere a reverter esse processo, porque foram colocadas num cenário em que os preços macroeconômicos estavam sistematicamente fora do lugar.

O segundo ponto, registra, é que foram políticas que não tinham desenhados dentro delas mecanismos de contrapartida, e acrescenta que o BNDES assumiu um gigantismo em 2008, em função principalmente da crise financeira internacional, quando desapareceram as linhas internacionais de crédito.

- Só que, depois, durante o governo Dilma, isso passou da conta - diz.

Conceito de indústria mudou, afirma economista

O Globo

Para Marcos Lisboa, país teve uma concepção equivocada sobre política industrial

Edilson Dantas / Agência O Globo 
Marcos Lisboa, presidente do Insper.  

RIO - Segundo o economista e presidente do Insper, Marcos Lisboa, o Brasil optou, em diversos setores, por fazer no país a maior parte da produção, com regras de conteúdo nacional, tentando ter a cadeia inteira aqui.

- Isso vai na contramão do que o mundo faz, que é identificar áreas em que se é muito eficiente. Nas demais, compra-se de quem faz melhor no mundo - afirmou, acrescentando que, além disso, o conceito de indústria mudou muito e que hoje as atividades são muito fluidas.

- A Apple é indústria ou serviço? A parte que gera imenso valor de mercado não tem fábrica. A montagem (na China) vale poucos dólares. O grande valor está na concepção.

Sobre política industrial, Lisboa diz que o país teve uma concepção equivocada. Para ele, os problemas fundamentais que prejudicam a produção no Brasil fora da fábrica não foram enfrentados.

- Nossa estrutura tributária é muito mal desenhada, muito complexa e gera muito litígio. E, no entanto, essa é uma agenda que as lideranças empresariais não adotaram. As lideranças pedem crédito subsidiado e menos impostos. Criamos uma agenda muito equivocada.

Reforma da Previdência foi adiada, mas o problema só vai piorar

João Pedro Caleiro 
Exame.com
“Uma pessoa que diz que não tem déficit parte de pressupostos absolutamente desonestos”, diz Vladimir Teles, vice-diretor da FGV/EESP

(dolgachov/Thinkstock)
A Previdência consumiu 63% das receitas tributárias de 2017 

São Paulo – Com a intervenção federal no Rio de Janeiro impossibilitando mudanças constitucionais e a perda de força do governo, tudo indica que a reforma da Previdência ficou para 2019.

Mas a sustentabilidade do sistema de pensões e aposentadorias não tem perspectiva de melhora – muito pelo contrário.

A Previdência consumiu 63% das receitas tributárias de 2017, ou 57% de todas as despesas primárias, de acordo com Marcio Holland, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no primeiro governo Dilma Rousseff.

Os números foram apresentados em debate na Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo na última terça-feira (13).

A Previdência fechou 2017 com rombo recorde de 268,799 bilhões de reais, alta de 18,5% sobre o ano anterior.

Estes dados do governo somam o déficit dos sistemas urbano (R$ 71,709 bilhões) com o rural (R$ 110,740 bilhões) e o do regime próprio de servidores públicos e militares (R$ 86,349 bilhões).

“Uma pessoa que diz que não tem déficit parte de pressupostos absolutamente desonestos”, disse Vladimir Teles, vice-diretor da FGV/EESP.

Os cálculos que negam o déficit costumam consideram todas as receitas marcadas como parte da Seguridade Social e ao mesmo tempo excluir o regime próprio, além de parar em 2014 – quando o rombo começou a se agravar ainda mais por causa da recessão.

Mas o problema não é só conjuntural e fiscal: o Brasil gasta muito com Previdência na comparação internacional mesmo não sendo um país tão envelhecido.

A despesa com Previdência já supera 13% do PIB, mas a população com 65 anos ou mais é de apenas 8%. É muito fora do padrão: países com mesmo nível de gasto costumam ter população idosa acima dos 14%.

E considerando que a porcentagem deste grupo cresce rapidamente e só se estabiliza em 2070, a relação de dependência, entre pessoas em idade de trabalhar e inativos, deve disparar.

“Se não corrigir agora, essa confusão vai ser muito grande já nos próximos anos”, diz Holland.

“Precisamos fazer um pacto intergeracional de não deixar o país quebrar”, conclui.


Reforma

Holland defende a idade mínima de aposentadoria, algo que poucos países do mundo hoje não tem e que é ponto central da reforma apresentada pelo atual governo.

Mas ele critica a decisão de não ter encaminhado ao mesmo tempo uma reforma do sistema de aposentadoria militar e diz que a unificação da aposentadoria rural com a urbana terá que ser encarada.

“Eu não sei te falar se alguém que corta cana sofre mais do que alguém que está numa construção civil, acorda as 5 da manhã para ir ao trabalho, pega duas horas de transporte público e só vai conseguir dormir a 1 hora da manhã”, diz ele.

Uma de suas sugestões é dar mais transparência ao sistema, criando uma conta individualizada que mostre claramente as contribuições e benefícios de cada um, algo teoricamente simples de ser feito.

Além disso, ele propõe que novos trabalhadores possam optar por um sistema não de repartição, como o atual, mas de capitalização em que cada trabalhador poupa recursos guardados em uma conta própria.

“Os dois modelos têm vantagens e desvantagens, então talvez a solução seja um modelo misto”, diz Tomas Málaga, peruano que já foi economista-chefe do Itaú e hoje é professor da FGV.

Também foi levantada a necessidade de mexer com as receitas do sistema. As renúncias previdenciárias equivalem sozinhas a R$ 44 bilhões ou 0,7% do PIB, e entidades filantrópicas, por exemplo, estão isentas.

“Você hoje faz política cultural, por exemplo, com recursos da Previdência que oneram o emprego. Não faz o menor sentido”, diz Málaga.

Déficit da Seguridade Social soma R$ 292 bi em 2017, alta de 13%

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

O rombo representou 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado e foi 13% superior (em valores nominais) ao saldo negativo de 2016

(Andre Popov/Thinkstock)
Déficit: no ano passado, as receitas da Seguridade Social 
totalizaram R$ 657,9 bilhões 

Brasília – O déficit da Seguridade Social – que engloba as áreas de Saúde, Previdência e Assistência Social – chegou a R$ 292,4 bilhões em 2017, o pior resultado da história, de acordo com dados divulgados nesta quinta-feira, 8, pelo Ministério do Planejamento. O rombo representou 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado e foi 13% superior (em valores nominais) ao saldo negativo de R$ 258,7 bilhões de 2016.

No ano passado, as receitas da Seguridade Social totalizaram R$ 657,9 bilhões, enquanto as despesas somaram R$ 950,3 bilhões. Somente os gastos com aposentadorias, seguro-desemprego, abono e outros benefícios somaram R$ 797,8 bilhões em 2017.

“Estamos partindo de um déficit que já era de R$ 90,1 bilhões em 2013 para quase R$ 300 bilhões no ano passado. Apesar do aumento das receitas da Seguridade nesses anos, o que tem pesado mais nesse resultado são as despesas com os benefícios da Previdência”, afirmou o secretário de Orçamento Federal do Ministério do Planejamento, George Soares.

De 2015 para 2016, o déficit da Seguridade Social havia saltado quase 55%. O salto de 2016 para 2017 foi menor, de acordo com o Soares, devido à retomada da atividade econômica no ano passado. Com a melhora no nível de emprego, aumentou também a arrecadação previdenciária.

Depois de quatro anos de queda, as receitas da Seguridade Social cresceram em porcentual do PIB no ano passado, de 9,8% para 9,9%. Pelo mesmo critério, as despesas tiveram alta pelo sexto ano seguido, passando de 13,9% para 14,4% do PIB.

O arriscado decreto de Barroso escrito com a voz das ruas

Antonio Carlos Prado
Revista  ISTOÉ

(Crédito: Divulgação)
A legislatura de Barroso é ilegítima: ele jamais recebeu um voto popular
que o legitimasse para tal função Barroso pode se indignar, dentro do Estado
 de Direito, mas não pode ferir o Estado de Direito porque está indignado 

Conceituado professor de direito constitucional, é difícil crer que o ministro do STF Luís Roberto Barroso não soubesse, na semana passada, que estava ferindo a tripartição dos poderes e a Constituição quando resolveu, monocraticamente, alterar o decreto de Michel Temer referente ao indulto natalino. Tal decreto abrangia condenados por crime de corrupção, fixava cumprimento de um quinto da pena e não determinava tempo mínimo de execução da sentença. Barroso pode se indignar, dentro do Estado de Direito, mas não pode ferir o Estado de Direito porque está indignado. Foi, porém, o que resultou de seu ato. 

Primeiro: Barroso invadiu o poder legislativo ao incluir condenados por corrupção, alterar o que era um quinto para um terço e impor o mínimo de oito anos de encarceramento. O ministro legislou, e ele não pode legislar, até porque a sua legislatura é ilegítima: jamais recebeu um voto popular que o legitimasse em tal função. 

Segundo: no ato de legislar, Barroso invadiu também o poder executivo, porque isso nasceu liminarmente outro decreto – e o artigo 87, inciso 12, da Carta Magna, cristaliza que decretar indulto “compete privativamente ao presidente da República”. 

Terceiro: Barroso diz que o decreto de Temer não corresponde à “vontade manifestada pelos cidadãos” e apresenta “manifesta falta de sintonia com o sentimento social”. Barroso ataca, assim, o Estado de Direito, ao considerar que a voz das ruas (em nossa opinião, legítima somente se vier das urnas) deve ser ouvida em matéria penal. Que risco! Nesse campo não cabe o ditado “vox populi, vox Dei”, de Tito Lívio (59 a.C – 17 d.C), até porque muitas das vozes das ruas apoiam linchamentos. 

Devemos então regredir à lapidação? O governo respondeu, acionou a AGU e na quinta-feira 15 o ministro Carlos Marun já esboçara o pedido de impeachment de Barroso com base no artigo 39 da lei 1.079 (trata de crimes de responsabilidade). Não está em jogo, aqui, se o texto original beneficiava condenados de colarinho branco, mesmo porque contemplava também milhares de presos pobres. O que se discute é o perigo da quebra de princípios republicanos. Temer deve lutar na Justiça, como está fazendo, porque é dele a prerrogativa de decretar indulto.

STJ suspende ações de poupadores até início de adesão a acordo

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo

Os processos discutem a devolução de diferenças de correção monetária da poupança decorrentes dos planos econômicos dos anos 1980 e 1990

(Ingram Publishing/Thinkstock)
Poupança: após a implantação da plataforma,
as partes poderão ser intimadas 

São Paulo – Os ministros da Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram suspender o exame dos processos relativos à restituição dos expurgos das cadernetas de poupança, até o início de funcionamento da plataforma eletrônica de adesão dos poupadores ao acordo firmado entre entidades de defesa do consumidor e representantes dos bancos no Supremo Tribunal Federal.

As informações foram divulgadas no site do STJ. Após a implantação da plataforma, as partes poderão ser intimadas para que digam se querem aderir ao acordo ou se preferem a continuidade do julgamento pela Corte.

Os processos discutem a devolução de diferenças de correção monetária da poupança decorrentes dos planos econômicos dos anos 1980 e 1990.

Homologado pelo Plenário do Supremo no dia 1.º de março, o acordo para pagamento das diferenças dos expurgos inflacionários prevê o prazo total de dois anos para que os poupadores possam aderir aos seus termos.

Em relação aos novos processos sobre o tema que chegarem ao STJ, assim como aqueles que ainda não foram distribuídos aos gabinetes dos ministros, a Segunda Seção decidiu que serão devolvidos às instâncias de origem, “para que lá aguardem a manifestação das partes durante os próximos dois anos”.

Mediante concessões mútuas, o acordo prevê que os bancos pagarão aos poupadores os valores correspondentes aos expurgos inflacionários da poupança relativos aos planos Bresser (1987), Verão (1989) e Collor II (1991).

Em contrapartida, as partes concordaram em pleitear a extinção das ações judiciais individuais e coletivas que discutem os expurgos.

Estima-se que cerca de um milhão de processos sobre o tema estejam em tramitação no momento.

Além da Confederação Nacional do Sistema Financeiro e da Federação Nacional dos Bancos, assinaram o acordo 11 entidades de defesa do consumidor e associações como a Frente Brasileira pelos Poupadores.

Os pagamentos serão feitos de forma escalonada e mediante habilitação em sistema eletrônico.

O pacto teve a mediação da Advocacia-Geral da União, com a intervenção do Banco Central.

Os erros que derrubaram a gigante de alimentos BRF

Cristiane Mano, Giuliana Napolitano e Lucas Amorim 
Revista EXAME

Para entender os equívocos da BRF — e possíveis soluções —, EXAME conversou com executivos, analistas, consultores e assessores próximos à companhia

(Edu Lopes/EXAME)
Abilio Diniz: ele tem dito que quer sair da empresa pela porta da frente 

Um clima surpreendentemente cordial prevaleceu durante o encontro dos nove membros do conselho de administração da fabricante de alimentos BRF na manhã do dia 5 de março na sede da companhia, na zona oeste de São Paulo. A empresa acabara de ser informada — da maneira mais dramática — que é a investigada central da Operação Trapaça, da Polícia Federal, que apura suspeitas de fraudes em exames feitos em seus produtos. Onze profissionais ligados à companhia, incluindo o ex-presidente Pedro Faria, haviam sido presos horas antes (e ficaram detidos por uma semana, embora ainda não sejam réus). Os nervos, portanto, estavam à flor da pele. Não só pela surpresa da manhã mas também pela importância do tema que seria tratado naquele dia para o futuro da BRF.

Marcada a pedido dos fundos de pensão Previ e Petros, que, juntos, têm 22% do capital, a reunião tinha o objetivo de definir uma data para a assembleia em que os mais de 30.000 acionistas da empresa serão convocados a eleger o novo conselho de administração. O pedido é um ataque frontal a Abilio Diniz, presidente do conselho e dono de cerca de 4% do capital da BRF, e da gestora Tarpon, com 7% de participação. Na nova chapa proposta, não há um único representante do empresário. Na superfície, o ambiente da reunião era de cortesia. Abilio propôs que a assembleia que vai votar o novo conselho aconteça em 26 de abril — um prazo que parece exageradamente longo para uma empresa com tantos problemas. Ainda assim, todos os conselheiros concordaram.

Nos bastidores, porém, a briga corria solta. Abilio, Tarpon, os fundos de pensão e os demais acionistas e conselheiros da BRF estão imersos numa disputa de poder que avançou no mesmo ritmo que as dificuldades enfrentadas pela companhia nos últimos anos. O que for resolvido nas próximas semanas poderá ajudar a tirar a empresa do caos — ou aprofundar a crise. A seu estilo, Abilio já avisou aos mais próximos: entrou pela porta da frente e quer “sair pela porta da frente”. E a dignidade, segundo ele tem dito, pode estar na paz ou na luta.

Luiz Maximiano/Agência O Globo
Pedro Faria: presidente da BRF até 2017, 
ele foi preso no início de março 

O drama dos dias de hoje contrasta com a euforia que reinava entre os acionistas da BRF, maior exportadora mundial de carne de frango, com um faturamento de 34 bilhões de reais, poucos anos atrás. Para entender os equívocos cometidos desde então — e as possíveis soluções —, EXAME conversou com dezenas de executivos, ex-executivos, analistas, consultores e assessores próximos à companhia. Boa parte deles falou na condição de anonimato. Todos concordam que se tratava de um projeto que, pelo menos na planilha do Excel, não tinha como dar errado. Resultado da união de duas empresas rentáveis, a Perdigão e a Sadia (que registrara prejuízo com operações financeiras, mas tinha negócios bem-sucedidos), a BRF era considerada uma espécie de “Ambev das carnes”, com potencial de crescer globalmente.

Nunca houve muita polêmica quanto à maneira de realizar esse potencial: ganhar relevância internacional, fortalecer as marcas e incutir uma cultura única, uma missão complicada numa fusão entre rivais. Uma sequência de erros de execução, porém, somada a uma trama cheia de conspiração, desconfiança mútua e embate de egos levaram o plano a um fim melancólico.

Xinhua News Agency/Eyevine/Glow Images
Fábrica da BRF em Rio Verde, Goiás: exportações suspensas 

Clamor por mudanças

A relação entre os sócios foi azedando à medida que os resultados pioravam. Enquanto 2014 e 2015 foram períodos de aumento de lucro e ações em alta, 2016 foi o ano do baque. A empresa teve o primeiro prejuízo desde que foi criada: de quase 400 milhões de reais. Assim que o resultado foi apurado, os antigos aliados da era Tarpon e Abilio começaram a pedir a cabeça de Pedro Faria, que presidiu a BRF de 2015 a 2017.

Segundo EXAME apurou, Walter Fontana, da família de fundadores da Sadia, foi um dos acionistas que procuraram Abilio Diniz em seu escritório da gestora Península, que cuida de seu patrimônio, para expor a lista de problemas na gestão — e para clamar por mudanças. No início, Abilio resistiu. Tentou conciliar os interesses dos acionistas com a promessa de aproximá-los da gestão. Criou um comitê de emergência para investigar os problemas na operação e tentar consertá-los. O comitê de pessoas, sob o comando da conselheira Flávia de Almeida, sócia da Península, passou a conduzir uma revisão completa da diretoria. O diagnóstico apontou que muita gente estava no lugar errado.

Os indicados pela Tarpon foram demitidos ou renunciaram. Cinco vice-presidentes foram substituídos naquele ano. Ao mesmo tempo, criou-se o cargo inédito de vice-presidente de gestão e informação, com o objetivo de atender acionistas que reclamavam da fragmentação das informações e da falta de controle na empresa.


As mudanças acalmaram os acionistas descontentes por um tempo. Mas criaram atritos na relação entre todos: acionistas, conselho e executivos da empresa. Os fundos de pensão decidiram passar um pente-fino nas operações por meio de um comitê de auditoria ligado ao conselho, comandado pelo economista e advogado Francisco Petros, que (extrema coincidência) é conselheiro indicado pela Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras.Nesse momento, os executivos da BRF começaram a reclamar do que chamam de “clima de inquisição”. “Foi iniciada uma devassa na empresa com o objetivo de antagonizar as pessoas”, afirma uma fonte. “Tenho sido responsável por um trabalho que envolve temas delicados e desgastantes na companhia, o que pode gerar essa sensação”, diz Petros.

Os resultados ruins, porém, continuaram, e a pressão sobre Abilio aumentou. Nesse momento, o empresário pôs em andamento o plano de sobrevivência para tentar manter sua influência na empresa. Primeiro, concordou em rifar Pedro Faria. Depois, passou a trabalhar para indicar um novo presidente. O conselho contratou a consultoria Spencer Stuart para selecionar candidatos e dois nomes foram apresentados. Um deles era o de José Aurélio Drummond Júnior, que presidiu a empresa de energia elétrica Eneva (ex-MPX), é conselheiro da BRF desde abril e tem o apoio de Abilio. O outro candidato era Roberto Funari, executivo brasileiro com experiência de 20 anos no exterior, atualmente vice-presidente da fabricante de bens de consumo Reckitt Benckiser na Inglaterra.

Cada um dos candidatos teve 40 minutos para se apresentar aos conselheiros. A votação, ocorrida em novembro, deixou evidente o racha no conselho, e Drummond só se elegeu porque Abilio teve o voto de minerva. Diante do que considerou uma derrota pessoal, por ter sido desafiado, Abilio procurou Walter Mendes, presidente da Petros. A intenção era acabar com o que o empresário definiu como uma sequência de desentendimentos. Como ficou evidente na reunião do dia 5, a relação entre os dois não melhorou depois disso.

 Eduardo Knapp/Folhapress
Augusto Cruz: desafeto de Abilio Diniz e
 indicado pelos fundos para o conselho da BRF 

EXAME apurou que o plano de Abilio é tentar propor mudanças na chapa indicada pelos fundos para compor o conselho de administração da BRF — que inclui Funari e Augusto Cruz, ex-presidente do Pão de Açúcar e desafeto de Abilio. O empresário tem procurado os fundos para tentar incluir pelo menos um indicado seu no conselho. Os fundos têm aceitado negociar, segundo pessoas próximas, para evitar que a assembleia se transforme em mais um palco de rinha pelo poder. Isso pode acontecer se o sistema de votação para a eleição do conselho for alterado para um regime de voto múltiplo. Nesse sistema, em vez de votar numa chapa, os acionistas podem votar separadamente em conselheiros indicados por diferentes grupos. “Ou seja, o resultado fica imprevisível”, diz um executivo que acompanha as negociações.

A mudança para o sistema de voto múltiplo pode ocorrer caso acionistas que tenham, individualmente ou em conjunto, um mínimo de 5% do capital da BRF façam esse pedido até 48 horas antes da data da assembleia. Com menos poder de interlocução, a Tarpon também estaria se movimentando no sentido de conquistar pelo menos uma posição no conselho. Antes de apelar para o voto múltiplo, uma alternativa seria Abilio e a Tarpon tentarem compor uma chapa totalmente nova — mas o histórico recente dificulta a atração de nomes de peso. Até que os resultados da BRF melhorem e as ações voltem a valorizar, todos os acionistas são reféns da situação. No caso da Tarpon, a participação que detém na BRF equivale a 30% do patrimônio total da gestora.


Menino-prodígio

O plano de tomada de poder dentro da BRF foi construído passo a passo, ao longo de anos, por José Carlos Magalhães Neto, conhecido como Zeca Magalhães, e Pedro Faria, sócios da gestora Tarpon. Visto como um menino-prodígio do mercado financeiro, Zeca iniciou a carreira de investidor em ações aos 16 anos, trabalhando com seu tio, Luiz Alves Paes de Barros, um dos maiores investidores da bolsa brasileira. Trabalhou também no banco Patrimônio, na gestora de fundos de private equity GP e na Semco, holding do empresário Ricardo Semler. Em 2002, com 24 anos, Zeca fundou a Tarpon e começou a comprar ações da Sadia. Faria, que vem de uma família de banqueiros — é neto de Gilberto de Andrade Faria, que comandou o banco Bandeirantes, e sobrinho-neto de Aloysio Faria, que vendeu o banco Real ao Santander —, já havia trabalhado com Zeca no Patrimônio.

Na Tarpon, a dupla e os demais sócios que ingressaram posteriormente na gestora ganharam notoriedade ao fazer investimentos certeiros, como a compra de 25% da fabricante de calçados Arezzo, que deu um lucro de mais de 500% em cinco anos. Com o tempo, consolidaram o desejo de só investir em empresas em que pudessem ter influência na gestão. Em 2008, a oportunidade parecia ter chegado.

Marcus Leoni/Folhapress
Luiz Fernando Furlan, conselheiro: 
desavenças após resultados ruins 

Nessa época, a Sadia foi engolida pela crise financeira mundial: por fazer operações de altíssimo risco no mercado de câmbio, teve um prejuízo bilionário quando o dólar disparou. Zeca e Faria decidiram, então, fazer uma oferta para comprar a Sadia. O plano da Tarpon — que, nessa época, já tinha capital aberto e contava com uma base sólida de grandes investidores institucionais — era levantar 2 bilhões de reais, investir os recursos na Sadia e comandá-la junto com as famílias Fontana e Furlan.

A proximidade de Zeca com Walter Fontana, a quem chama de “tio” por ser primo de um amigo de seu pai, também ajudou. Mas as famílias — que reuniam mais de 100 herdeiros desarticulados — cederam às pressões da concorrente Perdigão, o que resultou na formação da BRF em 2009. A Tarpon acabou conseguindo se tornar uma acionista relevante da BRF nos anos seguintes, comprando papéis no mercado. Em 2011, passou a ter 8% do capital. Em 2016, chegou a 12%. Zeca e Faria passaram a integrar o conselho de administração e começaram a sugerir mudanças — mas, na época, mal eram escutados. Até que eles começaram a enxergar aliados que poderiam virar o jogo. Os primeiros foram os próprios antigos acionistas da Sadia. “Existia uma esperança, por parte da família, de construir uma grande Sadia e reverter o processo que estava se desenhando de fato, que era a construção de uma grande Perdigão”, diz uma fonte próxima.

O primeiro presidente da BRF foi José Antonio Fay, e o conselho foi comandado em conjunto por Nildemar Secches, ex-Perdigão, e Luiz Fernando Furlan, ex-Sadia. Formar um bloco coeso nas decisões — família Fontana, Previ, Tarpon — deixaria a situação de controle estável. Para convencer a Previ, a estratégia foi mostrar que a integração estava mais lenta do que deveria, e que a BRF poderia aumentar sua rentabilidade ao mudar a maneira como operava.

Munidos de um estudo feito pela consultoria Boston Consulting Group, Zeca e representantes da Previ levaram o plano para Abilio em agosto de 2012. Abilio era importante para dar credibilidade ao bloco numa empresa tão visível. Era também um nome forte o suficiente para substituir Nildemar Secches, executivo que liderou a lendária virada nos resultados da Perdigão nos anos 90. Para Abilio, que havia acabado de encerrar uma disputa penosa com os franceses do Casino pelo comando do Pão de Açúcar e deixara a companhia fundada por seu pai, aquela era uma oportunidade de dar a volta por cima. Numa entrevista concedida a EXAME em 2013, Abilio deu uma pista do que passava por sua cabeça: “Por que meus amigos do 3G [de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira] se dão bem em tudo o que fazem? Eles têm gestão. É isso o que pretendemos fazer, em proporção menor”. 

Toque para ampliar

Desgaste

Na largada, o plano já era que Pedro Faria assumisse a presidência da BRF. Mas, dada sua pouquíssima experiência, ficou combinado que ele faria uma espécie de estágio como presidente da área internacional. O escolhido para assumir o comando naquele momento foi o consultor Claudio Galeazzi, que havia sido contratado para fazer um diagnóstico das mudanças a ser feitas na companhia. O diagnóstico está em dez cadernos com mais de 1.000 páginas. Galeazzi deveria ficar até 2018, quando Faria estivesse preparado. Meses depois de assumir, Galeazzi já tinha dito a pessoas próximas que estava insatisfeito com a postura intervencionista de Abilio na gestão.

O desgaste da relação no dia a dia mais o encantamento de Abilio com os resultados obtidos por Faria nas operações internacionais apressaram as mudanças, e Galeazzi foi informado ainda em 2014 que seria substituído no ano seguinte. Diante da confirmação de que Faria era o escolhido, os então 11 sócios da Tarpon marcaram um jantar em comemoração ao que se referiam como a “subida ao Everest”. Galeazzi não gostou. Antes de sair, escreveu uma carta aos acionistas: “Lamento profundamente o que ocorreu, mas prefiro interromper um sonho na raiz a ter de viver um pesadelo na minha gestão”. O episódio custou não apenas o fim da parceria entre Abilio e Galeazzi na BRF como também o término de uma amizade de anos entre os dois.

Omar Paixão
Flávia de Almeida: braço direito de Abilio Diniz no conselho 

Mesmo quem quer se livrar da gestão Tarpon-Abilio reconhece que estava correto o diagnóstico feito por eles quando decidiram se unir para mudar a empresa. Na época, a BRF estava estagnada, como mostra um estudo feito, a pedido de EXAME, por Oscar Malvessi, professor de finanças na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas. Malvessi se debruçou sobre os balanços da BRF desde a aprovação da fusão da Sadia com a Perdigão em 2011. Quando considerada a inflação, o faturamento da empresa diminuiu de 38 bilhões de reais, em 2011, para 36,8 bilhões, em 2013, no primeiro ano da nova gestão. Mas, em vez de melhorar, a situação desandou. Em 2017, o faturamento diminuiu para 34 bilhões de reais.

Na contramão, os custos subiram, abatendo a margem da operação, que era de 7% em 2013 e fechou com 2,2% em 2017. “Essa queda explica a perda de valor na bolsa”, diz Malvessi. Para a gestora britância Aberdeen, dona de 5% do capital da BRF, o problema não foi a nova estratégia, e sim as falhas ao colocá-la em prática, levando a empresa a acumular prejuízo de 1,5 bilhão de reais nos dois últimos anos e perder 40 bilhões em valor de mercado desde o auge, em 2015.

Leo Pinheiro/Valor/Agência O Globo
José Drummond, presidente da BRF: o desafio da virada 

Ao tentar importar práticas que deram certo em outros setores, a BRF colocou em xeque a estabilidade de toda a sua cadeia, que parte de um intrincado planejamento para formação e acompanhamento de milhares de criadores de aves e suínos até o abate, o chamado desmonte dos animais e o envio das partes para diferentes lugares no mundo. Tornar essa sequência azeitada é a chave para não perder dinheiro.

Uma das medidas que mais prejudicaram os resultados foi tomada em 2016, quando a BRF resolveu descentralizar a decisão sobre o que produzir e quanto cobrar. Em vez de isso ser definido pelo escritório central, os escritórios regionais passaram a ter autonomia. A ideia havia sido importada da fabricante de cervejas Ambev, de onde veio parte dos executivos contratados pela BRF. O objetivo era criar incentivos para que todas as regionais dessem lucro. Na prática, porém, ficou claro que a estratégia só funciona em cadeias menos complexas.

Na BRF, o resultado foi que, no conjunto, a conta não fechou. O segredo da rentabilidade está em aproveitar todas as partes do frango da melhor maneira possível. Mas, na lógica nova, descentralizada, partes menos nobres e menos rentáveis passaram a sobrar, elevando o desperdício. Cortes drásticos demais também afetaram o negócio. Toda a área de food services, que faturava 2 bilhões de reais atendendo o mercado profissional, como redes de restaurantes, foi fechada. A equipe comercial foi cortada quase pela metade. Os times das marcas Sadia e Perdigão foram unificados e passaram a não dar conta de vender todo o portfólio. Como consequência, a quantidade de clientes da companhia, que era de 200.000, caiu para 163.000. Com a reversão do modelo em 2017, voltou para 190.000.

Toque para ampliar


As constantes mudanças na gestão foram outro problema. Desde 2013, passaram pela empresa quatro presidentes globais e cinco para o Brasil. O posto executivo de maior rotatividade foi o de vice-presidente financeiro e de relações com investidores, que teve sete ocupantes. Em áreas como RH e marketing, foram quatro. No total, foram 39 trocas em 16 postos de vice-presidência e presidência de 2013 a 2018. Nessas substituições, um terço dos sucessores não tinha nenhuma experiência na indústria. Muitos funcionários de Sadia e Perdigão foram demitidos e recrutados pela concorrente JBS, que havia comprado a Seara justamente em 2013. Um deles era Gilberto Tomazoni, que passou 30 anos na Sadia, onde havia entrado como estagiário e saiu depois de ocupar o cargo de presidente em 2009. Hoje, ele é vice-presidente de operações globais da JBS.  

Germano Lüders
Gilberto Tomazoni: 
um dos executivos que foram para a concorrência 

Recentemente, Drummond começou uma jornada de apresentações ao mercado de um plano de reestruturação, na tentativa de conquistar aliados à sua gestão. Segundo EXAME apurou, fazem parte das propostas a venda de ativos e o esforço para reduzir a ociosidade das fábricas, atualmente em 20%, e para tentar elevar a rentabilidade. Procurado, Drummond não deu entrevista, e a companhia não revelou detalhes do plano apresentado ao conselho no dia 22 de fevereiro.

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Wesley Batista, da JBS: 
a empresa teve de vender ativos para sobreviver 

Em meio ao tiroteio, a BRF passou a ser alvo de eventuais compradores, que veem aí uma oportunidade de pagar pouco por uma empresa com fábricas de primeira linha e marcas líderes de mercado, embora se assustem com a avalanche de problemas. A fabricante americana de alimentos Tyson, que deixou o Brasil em 2014 ao vender seus ativos para a JBS, sondou a BRF no fim de 2017. A BRF também entrou recentemente na mira de grupos chineses, que nos últimos anos investiram em companhias de sementes e em tradings agrícolas no país. Os chineses preferem comprar alguns ativos da BRF, principalmente as fábricas instaladas fora do país.

O objetivo é adquirir processadoras de carne que garantam a segurança alimentar da China, seguindo uma investida global por empresas de consumo. “Os chineses começaram a comprar empresas com marcas fortes mundo afora, como é o caso da BRF. Mas não gostam de negócios em reestruturação. Preferem pagar mais por empresas redondas”, diz um executivo próximo a investidores chineses. No passado, a BRF já havia sido sondada pela Tyson, pela gestora 3G e pelo grupo formado pelo banco Safra e pela empresa de sucos de laranja Cutrale, que, em 2014, havia comprado a produtora de bananas Chiquita Brands por 1,3 bilhão de dólares (as companhias não comentam).

Alexandre Battibugli
Geladeira em supermercado: 
competição mais difícil 

Fechar um negócio hoje envolve uma série de dificuldades. A mais relevante é que não se sabe quais serão os efeitos da Operação Trapaça nos negócios da BRF. Até o fechamento desta edição, em 13 de março, quatro fábricas da BRF continuavam com as exportações suspensas para 12 países. O processo contra a empresa e seus executivos está na fase da coleta de provas. Depois disso, o Ministério Público pode fazer uma denúncia contra os executivos, o que geraria uma ação na Justiça criminal. Se eles forem condenados, as penas podem ser o pagamento de multas ou, em casos extremos, a prisão. Já a empresa deve ser investigada pelos reguladores num processo administrativo.
Caso seja considerada culpada, pode pagar multas, ter produtos apreendidos e fábricas interditadas. A BRF também pode ser alvo de ações de entidades de defesa do consumidor. “Houve irregularidades na relação com os consumidores, e isso pode gerar o pagamento de indenizações individuais ou coletivas”, diz Vidal Serrano Nunes Júnior, vice-diretor da Faculdade de Direito da PUC de São Paulo. Por fim, acionistas que se sentiram prejudicados pelas decisões da direção da companhia podem processar a empresa pedindo ressarcimento, como se deu no caso da Petrobras. Em meados de março, um investidor americano entrou com um processo contra a BRF nos Estados Unidos. Mas pode haver outros.

Hoje, é impossível saber quanto a BRF será obrigada a pagar para encerrar esses processos (se é que terá de pagar algo). Um caso semelhante ocorreu com a montadora Volkswagen. Num processo que se arrastou de 2015 a 2017, a empresa admitiu ter fraudado testes de emissões de poluentes em carros a diesel em todo o mundo e pagou 26 bilhões de dólares em multas a consumidores e reguladores.

Divulgação 
Fábrica da BRF em Abu Dhabi: 
uma complicada expansão internacional 

A vantagem da BRF é que ela não precisa vender para conseguir pagar suas contas — pelo menos, por enquanto. O endividamento total é alto: a dívida soma 20 bilhões de reais, o que representa quase oito vezes a geração de caixa, um nível superior ao da concorrente JBS e dos frigoríficos Marfrig e Minerva, segundo o banco BTG Pactual. Mas apenas 5 bilhões de reais vencem neste ano, e a BRF tem 6,6 bilhões em caixa. É uma situação bem diferente da JBS, quando veio a público o acordo de delação premiada que estava sendo negociado por seus donos, Joesley e Wesley Batista, em maio de 2017. Na época, a empresa devia 59 bilhões de reais, sendo que 18 bilhões venceriam em 12 meses.

Em caixa, tinha 11 bilhões de reais. “Os irmãos sabiam que teriam de renegociar a dívida com os bancos para manter a empresa de pé”, diz um executivo que acompanhou as negociações. Em julho, os bancos concordaram em renegociar e deram um prazo de 12 meses de carência para a JBS começar a pagar uma dívida de 20,5 bilhões de reais.

Michael Loewa/Laif/Glow Images
Protesto contra a Volks: 
multa de 26 bilhões de dólares por fraude 

A holding J&F, dona da JBS e comprometida a pagar uma multa de 10,3 bilhões de reais como parte de seu acordo de leniência, vendeu outras empresas do grupo, como a companhia de calçados e roupas Alpargatas, a produtora de celulose Eldorado e a fabricante de produtos lácteos Vigor. O caso da BRF não é propriamente incomum, como mostra uma pesquisa do Centro de Finanças do Insper, em conjunto com a organização Endeavor e com a assessoria financeira Ártica Investimentos, realizada com empresários que foram sócios de fundos de private equity e passaram pelo ciclo completo de investimento no Brasil. Em 61% dos casos, os empresários consideraram que a tese de investimento do sócio tinha sido totalmente realizada. Mas em 22% apenas parte da tese se concretizou.

Na maioria dos fracassos, problemas de gestão impediram a materialização total do plano. Em alguns casos houve piora do mercado. Em outros, conflito entre os sócios. “Nos relatos de frustrações, os empresários lamentam gestores de fundos que se atêm às planilhas de números e, às vezes, não buscam todo o contexto do dia a dia da empresa”, diz Luiz Penno, sócio da Ártica. A BRF não participou da pesquisa. No caso da companhia, a própria natureza de seu controle pulverizado colaborou para o potencial explosivo dessas relações. Por se tratar de uma “corporation”, nenhum acionista tem posição acionária majoritária a ponto de mandar sozinho. O mais poderoso, a Petros, detém 11,4% do capital. A sustentação de poder sempre dependeu da habilidade em manter a harmonia entre acionistas muito diferentes. Inicialmente, uma confluência de fatos conspirou para esse equilíbrio. Mas o tempo mostrou a fragilidade de sua base. Em jogo, a sobrevivência de uma joia do capitalismo brasileiro. 

Acionista da BRF: "Ingerência tem de acabar"  

Com reportagem de Aline Scherer e Letícia Toledo

Sindicatos patronais demitem para sobreviver à reforma trabalhista

Renée Pereira 
O Estado de S. Paulo

Fim da contribuição sindical obrigatória, em novembro de 2017, fez cair em até 70% a arrecadação das entidades que representam os empregadores no País; com menos recursos, elas reduziram o quadro de funcionários, cortaram viagens e eventos

Foto: JULIA MORAES/ DIVULGAÇÃO 
Também na Avenida Paulista, 
um dos edifícios mais conhecidos é o da sede da Fiesp

A reforma trabalhista, em vigor desde novembro do ano passado, teve um efeito colateral para os sindicatos patronais – principais defensores da mudança. O fim da contribuição sindical obrigatória derrubou a receita das entidades que representam as empresas. Com isso, elas foram obrigadas a reduzir o quadro de funcionários, cortar viagens e eventos. Em alguns casos, a queda de arrecadação chega a 70%.

Com menos dinheiro em caixa, os sindicatos fazem campanha para convencer as empresas da importância do pagamento da contribuição. Alguns deles recorreram à Justiça para manter a cobrança compulsória. É o caso da Confederação Nacional do Turismo (CNTur), que entrou com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o fim do imposto sindical. No total, entre sindicatos patronais e trabalhistas, já há 11 ações no STF sobre o assunto. 

“A situação está caótica. Tivemos queda de 70% na arrecadação”, afirma o diretor executivo da CNTur, José Osório Naves. Segundo ele, com caixa reduzido, a confederação cortou todas as gratificações aos funcionários e os contratos de terceiros. Os jantares que reuniam os executivos do setor foram suspensos e viagens só em caso de urgência. “Estamos nos adequando para conseguir sobreviver. Não sabemos até quando.”

Em 2016, a arrecadação da contribuição sindical (patronal) somou quase R$ 800 milhões. Do montante recolhido, 60% fica com os sindicatos; 20% com o Ministério do Trabalho; 15% com as federações; e 5% com as confederações. No caso das empresas, o pagamento é proporcional ao capital social da companhia. Os dados de 2017 e deste ano ainda não foram consolidados, mas os sindicatos já começaram a calcular as perdas. 

Orçamento. Na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), uma das representações mais fortes do País, a queda na arrecadação ficou entre 13% e 14%. Para se adequar ao novo orçamento, cerca de 20% do quadro de funcionários foi reduzido e alguns departamentos unificados, como economia e competitividade e startups e micro e pequenas empresas. 

“Com isso, liberamos espaço para que outros sindicatos patronais ocupem a área”, diz a diretora executiva jurídica da Fiesp, Luciana Freire. Ela conta que a Fiesp fez uma assembleia com os filiados, que somam 130 sindicatos, para deliberar sobre a contribuição.

“Entendemos que o fim seria mais coerente com a nossa bandeira de redução da carga tributária”, diz ela, ressaltando que para as empresas continuarem contribuindo de forma opcional, os sindicatos terão de dar alguma contrapartida, como produtos e serviços. 

Economia forte ou caos no mundo: o que conta para Trump?

 Duda Teixeira e Thais Navarro
Revista VEJA

Fracassos em política internacional têm menos importância política do que crescimento econômico

Mandel Ngan/AFP
O presidente Donald Trump e a primeira-dama Melania Trump 
cumprimentam partidários no aeroporto de Cincinnati, Ohio 

Com quase catorze meses de mandato, o presidente americano Donald Trump ainda não conquistou nada no mundo que possa ostentar a seu favor. Seu encontro previsto com o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, em maio, em nada avança nas negociações das últimas décadas.

Sua política externa não tem eixo ou continuidade. A diplomacia, geralmente ligada ao departamento de Estado, deu lugar aos tuítes e declarações intempestivas da Casa Branca. Um exemplo disso foi a demissão do secretário de Estado Rex Tillerson, na semana passada. “O departamento de Estado perdeu preeminência nas questões internacionais. tem sido mais a regra que a exceção que o Assessor de Segurança Nacional da Casa Branca e o embaixador junto à ONU falem sobre política externa”, diz o embaixador Rubens Ricupero, conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

Mas os fracassos ao redor do mundo não necessariamente terão um impacto político negativo em Trump. O tema da política externa não pesa muito. “Na campanha presidencial, os eleitores de Trump não estavam seguros de que ele conseguiria conquistar algo, mas que pelo menos ele tentaria”, diz a americana especialista em opinião pública Karlyn Bowman, do American Enterprise Institute.

O que conta, em geral, é a economia. E ela tem favorecido Trump. O PIB cresce mais de 2% ao ano desde 2009. Em janeiro, o FMI até elevou sua previsão para o crescimento do PIB mundial, de 3,7% para 3,9%, motivado pelo corte de impostos com a reforma fiscal americana. Suas promessas de barrar imigrantes ou de elevar tarifas de importação do aço e do alumínio ainda não geraram consequências negativas. Nos dois primeiros meses do ano, foram acrescentadas 276 000 vagas de emprego ao mês, bem mais do que as 182 000 ao mês ao longo do ano passado. Desde que tomou posse, o desemprego caiu de 4,7% para 4,1%, um nível que os economistas consideram como de pleno emprego. Todos os que buscam uma vaga a encontram sem muita dificuldade e a economia está em sua plena capacidade. O valor pago pela hora trabalhada aumentou 3% ao longo de doze meses.

De cada dez americanos, sete consideram que a economia está em boa ou excelente forma, de acordo com pesquisa realizada pela universidade americana de Quinnipiac. “A economia está indo bem por causa de todos os estímulos que o ex-presidente Obama e o presidente da Reserva Federal empurraram na economia a partir de 2009”, diz Richard Parker, professor de Economia de Harvard. Dados da mesma pesquisa apontam que apenas 41% dos americanos responsabilizam Obama por esse crescimento, enquanto 48% dão o crédito a Trump.

Cerca de 75% desses classificam sua situação financeira como boa ou excelente e 51% aprova a maneira com a qual Trump está lidando com a economia.

A questão é se Trump conseguirá manter este crescimento por bastante tempo. Para Parker, medidas protecionistas e ameaças de deportações em massa de imigrantes ilegais poderiam colocar o crescimento em risco.

“A questão então será quão rápida a economia irá crescer com Trump. Ele acha que pode crescer de 3 a 4% por ano, eu acredito que pode crescer de 2 a 2,5% tendo em vista suas medidas”, diz Parker.