segunda-feira, janeiro 30, 2012

Ser PT ficou pior que ser usineiro

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

João Cleofas, usineiro, saiu candidato em 50 a governador de Pernambuco, pela UDN, disputando com Agamenon Magalhães, do PSD. Gilberto Freire o aconselhou:

- Cleofas, se você fizer a campanha dizendo que é usineiro vai perder. Diga que é engenheiro.

Toda a propaganda de Cleofas falava no “engenheiro João Cleofas”. A campanha de Agamenon encheu Pernambuco com um boletim: “Cleofas diz que é engenheiro porque tem medo e vergonha de dizer que é usineiro. E nem é usineiro em Pernambuco, mas em Campos, no Estado do Rio, para não dar emprego ao povo daqui”.

Usineiro ou engenheiro, Cleofas perdeu. E desabafou:

- Em Pernambuco, é melhor ser batedor de carteira do que usineiro.

BANDIDAGEM
Todo mundo hoje acha que o Genoino é um atoleimado. Mas ele estava inteiramente certo quando disse ao então senador Delcídio (PT), presidente da CPI: – Se a CPI quebrar o sigilo bancário do Valério, vai acabar com a gente.

Quebrou e acabou. O relator Serraglio descobriu e revelou uma coisa espantosa: além dos R$ 92 milhões dos empréstimos de Marcos Valério para o PT, sem assinatura do PT, que Tarso Genro (então presidente do PT) dizia que não ia pagar, os empréstimos feitos oficialmente pelo PT não eram apenas os dois assinados por Genoino e Delúbio e avalisados por Valério, no valor de R$ 30 milhões. De repente,´passaram a ser 11, passavam de R$ 50 milhões e não paravam de aumentar. E o mais grave: vários deles já foram pagos.

Pagos por quem? E, se tomou tanto dinheiro, como é que, além dos R$ 92 mi de Valério, o PT ainda devia mais R$ 50 milhões? É evidente que tudo isso era lavagem de dinheiro público sujo, inconfessável. O PT de Dirceu, Genoino, Delúbio, era sinônimo de camarilha, quadrilha, bandidagem.

Cleofas não podia imaginar que ser PT ia ser pior do que ser usineiro.

POLÍCIA FEDERAL
O ministro Nelson Jobim, que estava no Supremo, em 2005 estava forçando para entrar na festa com a namorada dos outros. Prendia no Supremo Tribunal as mais definitivas provas do mensalão do PT e da corrupção do governo Lula.

Essa bola não era dele. Tinha que ir urgente para a CPI dos Correios, que primeiro a solicitou. Quem conhece, no Congresso e na Justiça, o ciclópico estrelismo do ministro Jobim, sabia que ele só devolveria os documentos a pulso, no derradeiro flash. E ainda poderia querer ganhar tempo mandando-os para a CPI do mensalão, cujos trabalhos mal haviam começado.

Essa palma, de haver conseguido a mais límpida, forte e inquestionável prova do escândalo é da Polícia Federal, sobretudo do delegado sagaz que, ao ouvir, na TV, o diretor do Banco Rural em Brasília contar que recebia de Belo Horizonte, por fax, as listas com os nomes para os pagamentos, foi lá, requereu à Justiça e pegou os disquetes e originais dos fax com os nomes todos.

O relator diz que é “pólvora pura”. A PF é a dona desse foguete.

NIÓBIO
Nas aventuras palacianas empresariais do ex-deputado José Dirceu há uma notícia que, de repente, foi varrida para debaixo do tapete. A primeira vez que Marcos Valério e Delúbio levaram a diretoria do Banco Rural ao então chefe da Casa Civil foi para tratarem do Banco Mercantil de Pernambuco. E divulgaram. Mas a segunda vez foi para discutirem o nióbio da Amazônia. E esconderam. Nióbio vale mais do que ouro e petróleo.

Até usineiro sabe disso.

Vale questiona Fazenda por ter mandado para a Justiça processo de R$ 9,8 bi

Reuters

O recurso se refere à cobrança de impostos, pelo governo, de lucros da Vale obtidos no exterior

RIO DE JANEIRO- A Vale está questionando junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), do Ministério da Fazenda, por que o órgão remeteu à Justiça um pedido de julgamento que envolve a cobrança de R$ 9,8 bilhões de reais com base em processos similares de outras empresas que foram julgadas pelo mesmo Conselho.

O Carf decidiu na semana passada repassar para a esfera judicial um dos recursos que estão sob sua análise a pedido da Vale, disse nesta sexta-feira o diretor financeiro da empresa, Tito Martins.

O recurso se refere à cobrança de impostos, pelo governo, de lucros da Vale obtidos no exterior, cujo valor supera os R$ 10 bilhões, considerando também multa e juros. A Vale quer manter este e outros três processos no âmbito administrativo.

"Quero ter o direito de ter o projeto avaliado pelo Carf porque outros processos iguais aos nossos foram avaliados com ganho de causa para os contribuintes", disparou o executivo, referindo-se à Marcopolo e à Perdigão. "Por que julgou os outros e não julgou os nossos? Estamos tomando as medidas legais cabíveis para isso", acrescentou.

Outros dois processos, segundo ele, ainda estão no âmbito administrativo, enquanto um deles já estava na Justiça antes dessa nova decisão do Carf.

"Quando se entra na Justiça há um problema: o juiz julgar não é um entendedor da matéria, então leva-se ao Conselho (Carf) para estudar aquilo e dizer o que ele acha", explica Tito Martins. Depois, se a empresa perde, tem ainda o direito de entrar na Justiça e isso serve para uma série de tributos. (Sabrina Lorenzi) 

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Enquanto o PT for governo, ele moverá céus e montanhas para tentar atrapalhar a vida da Vale. Como ele não conseguirá reverter a privatização pela via legal, tratará de colocar empecilhos de todo gênero para funcionalidade da companhia. Este caso, e nós retornaremos a ele, tem o cheiro evidente da safadeza. Neste caso, o critério de depois pesos e duas medidas, está bem demonstrado. 

TJ-SP vai ao STF para que Eliana Calmon identifique investigados

Efrém Ribeiro, O Globo

Ivan Sartori, presidente do Tribunal, já pediu informações, mas ainda não obteve resposta

TERESINA - Após participar da reunião do Colégio Permanente de Presidentes dos Tribunais de Justiça, realizada em Teresina, o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ivan Ricardo Sartori, disse que vai impetrar uma ação junto ao STF para que a corregedora-geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a ministra Eliana Calmon, diga os nomes dos desembargadores ou funcionários que estejam respondendo por 13 procedimentos para apurar irregularidades. No início do mês, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostrou que 369 juízes e servidores de tribunais movimentaram R$ 855,7 milhões entre 2000 e 2010 de forma atípica - ou seja, sem explicação imediata para a origem do dinheiro. Segundo o documento, 1.016 integrantes do Judiciário operaram R$ 274,9 milhões em espécie entre 2003 e 2010.

- Eu enviei um e-mail solicitando os nomes das pessoas que estão respondendo procedimentos. Queremos saber se um, dois ou três desembargadores estão envolvidos e, se os esclarecimentos não forem respondidos, vamos entrar com uma ação para ter essas informações - declarou o desembargador Ricardo Sartori.

Há dez dias, Sartori recebeu a visita de representantes do Coaf para conversar sobre as movimentações financeiras atípicas. Na véspera, após uma reunião com a corregedora do CNJ, ministra Eliana Calmon, o presidente do TJ de São Paulo disse que o CNJ deve ter o direito de investigar faltas cometidas por juízes apenas após a atuação da corregedoria local. No entanto, o órgão deveria agir em caso de omissão.

AMB: quatro juízes sofreram atentados nos últimos dois meses
O presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Henrique Nelson Calandra, informou nesta sexta-feira que quatro juízes sofreram atentados nos últimos dois meses em quatro estados brasileiros: Ceará, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, em consequência de decisões judiciais ou liminares que concederam.

Henrique Calandra disse que no Ceará, os pais da magistrada Sergia Miranda quase foram incendiados vivos durante um assalto.

- Segundo a mãe da juíza, dona Teresinha, os dois tiveram suas dentaduras quebradas e sofreram golpes com canos de fuzil e lâminas de faca, além de pontapés. Torturaram o casal até não puderem mais - afirmou Henrique Calandra. As agressões aos pais da juíza aconteceram 24 horas depois da concessão de uma liminar, e os agressores comentaram que a razão seria essa.

Em Minas Gerais, na cidade de Nova Serrana, uma juíza sofreu atentado à bomba. Além disso, foram incendiados o Fórum em que a juíza trabalhava e os processos. Outra juíza sofreu atentando na cidade de Rio Claro, em São Paulo. No Rio de Janeiro, no município de São Gonçalo, um juiz sofreu uma ameaça grave. Ele denunciou o caso à AMB.

Henrique Calandra afirmou que no ano passado foram registradas ameaças de morte contra mais de 200 juízes. A reunião do Colégio Permanente de Presidentes dos Tribunais de Justiça do Piauí foi aberta na noite de quinta-feira e será encerrada no fim da tarde desta sexta-feira. No fim da tarde, os desembargadores vão divulgar uma carta de Teresina, quando os presidentes irão manifestar apoio ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente do Colégio Permanente de Presidentes dos Tribunais de Justiça, desembargador Marcus Faver, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, disse durante a palestra que estão aumentando as ameaças contra os magistrados e, por outro lado, existem denúncias de irregularidades contra juízes.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Quanto aos atentados o que se pode dizer é que, a segurança pública no país, faliu faz muito tempo. Lembram dos cinco grandes "lançamentos" de programas de segurança pública patrocinados pelo Governo Lula ? Pois bem, serviram apenas para o marketing, com nenhum resultado prático em favor da população. Aliás, as estatísticas oficiais quanto ao aumento da criminalidade  são prova disto.

Mas há uma questão que seria oportuno para todo o Judiciário refletir: por que a violência campeia de norte a sul, e aumenta em ritmo cada mais veloz? 

Acontece que a impunidade persistente e resistente no Poder Público tem servido de estímulo para bandidagem. Enquanto os três Poderes não se juntarem em um movimento de verdadeira "varredura" ou faxina ética, enquanto os péssimos políticos que infestam os Poderes da República para se valerem de seus cargos e funções para enriquecimento pessoal ilícito, e sua maioria não for condenada e cumprir pena de prisão, enquanto o fisiologismo e corporativismo forem regras gerais vigorantes no Estado brasileiro, não há campanha de desarmamento que dê fim à violência. 

Não são apenas os magistrados que se tornam vítimas da bandidagem. As pessoas comuns são as que mais sofrem, por não contarem com mesmos recursos de defesa, como segurança especial paga pelo Estado.

Além disto, sempre valerá para o Judiciário a máxima que vale para toda a sociedade: bandido bom é o bandido preso. Enquanto no Brasil a legislação proteger mais os criminosos do que as suas vítimas, não há jeito dos cidadãos terem um pouco de paz. Ou expliquem por conta do que, o tal "auxílio-reclusão" é superior ao salário mínimo pago aos trabalhadores honestos? Para quem não sabe, de acordo com a Portaria  nº 02 de 06.01.2012, da Previdência Social, o auxílio reclusão que era de  R$ 862,60 foi reajustado para R$ 915,05, portanto, cerca de 50% a mais da remuneração paga para quem trabalha e é honesto. É preciso dizer mais?  

Servidores cobram R$ 2 bilhões do Tribunal de Justiça de São Paulo

Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

Entre 35 mil e 40 mil funcionários da corte, inclusive aposentados, são credores de algum tipo

Os servidores do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) cobram R$ 2 bilhões da corte, montante que alegam ter direito por férias não tiradas, atualização monetária de "erros salariais" e outras parcelas. O TJ paulista tem 50 mil funcionários - além dos juízes, que são 2,4 mil em todo o Estado. Entre 35 mil e 40 mil servidores, inclusive aposentados, são credores de algum tipo de crédito, informa José Gozze, presidente da Associação dos Servidores do TJ-SP.

O TJ investiga pagamentos antecipados a 29 magistrados. Pelo menos cinco deles receberam valores superiores a R$ 600 mil. Um desembargador que presidiu a corte, Roberto Vallim Bellocchi, recebeu R$ 1,6 milhão - ele afirma ter recebido "pouco mais de R$ 500 mil".

Cerca de 12 entidades que abrigam todas as carreiras de servidores do Judiciário protocolaram no gabinete do presidente do TJ, desembargador Ivan Sartori, ofício em que solicitam audiência para discutir uma saída para o impasse. Algumas associações estimam em R$ 7 bilhões o estoque da dívida do TJ.

Ivan Sartori calcula que a corte deve R$ 1,8 bilhão aos servidores. "Penso que podemos planejar, conversar com os demais poderes e conseguiremos pagar os atrasados", disse o presidente do tribunal. "Vou dar preferência aos servidores. Sem eles o Judiciário não anda, temos que tratar bem essa gente. A Justiça vai andar melhor."

O desembargador reiterou que vai recorrer ao Palácio dos Bandeirantes. "Vou conversar com o governador (Geraldo Alckmin), não vou pressionar, tem o momento oportuno. Vou colocar a ele que pretendo priorizar a questão dos funcionários."

"O fato é convencer o governador a não cortar essa verba do orçamento", diz José Gozze. "Na verdade isso é dívida salarial, é alimento. Não é nenhum favor. A primeira parte (do orçamento) o governo corta. O Tribunal pediu R$ 12 bilhões (para 2012), o Executivo deu R$ 6,8 bilhões, pelo menos R$ 3 bilhões são dívidas, R$ 2 bilhões são dos servidores."

"No primeiro dia de março vence a data base", destaca José Gozze, que é escrevente e diretor de divisão no TJ. "Não é aumento, é reposição da inflação de 2011."

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Vamos dar um crédito de confiança quanto ao montante que se diz ser a dívida do TJ para com seus servidores. Beleza, só que até hoje, e a notícia já tem lá uns quinze dias desde que foi publicada, ninguém, nenhuma associação, nenhum dos poderes - Executivo, Legislativo ou Judiciário, veio a público para justificar (ou tentar ao menos) de que modo, face a arrecadação de impostos e repasses orçamentários, pode tamanha dívida ser atingida. 

Se a dívida é real, não se entende por que caminhos o dinheiro andou trilhando para deixar de pagar salários (não vantagens, mas salários) para os servidores do Judiciário. Sabe-se que o salário do servidor público é a obrigação número um a ser prevista em qualquer orçamento público. Por que se deixou de pagar? Ou, por outra, por que se deu preferência a outras "despesas" ao invés dos salários? Outra questão é , quem errou nas contas, ou os repasses para o Judiciário é que foram contingenciados?

Alguma explicação há e, por pior que ela seja do ponto de vista ético, é injustificável que se tenha chegado a tal estado de coisas. Assim, precisa o Judiciário provar que a alegada dívida é formada, EXCLUSIVAMENTE,  pela remuneração de servidores, sem aquelas "regalias" conquistadas por baixo do pano, às escondidas da opinião pública. E, depois, precisa demonstrar de forma clara, sem rodeios, por que deixou de pagar e onde foi parar a verba que deveria ter este propósito e foi desviado para outro. E dado o volume alegado, esta bola de neve não se formou da noite para o dia .  E isto nada tem a ver com alegados "excessos" por parte do CNJ, nem tampouco com pressões subterrâneas por conta do julgamento do Mensalão, como tentam se justificar alguns desembargadores para a crise que vive o Poder Judiciário. 

Por ser uma instituição pública, o Judiciário deve ser investigado sim, quando houver motivos para tanto (e este é um caso típico), como também está obrigado a prestar contas à sociedade. Chega de "caixas-pretas" guardadas e mantidas no Poder Público brasileiro. Isto cheira a qualquer coisa, menos democracia e estado de direito...

Energia cara demais

Celso Ming - O Estado de S.Paulo

A maioria dos países produz energia elétrica a partir de matéria-prima cada vez mais cara: petróleo, gás, urânio enriquecido ou carvão mineral. No Brasil, 75% da geração provém de recursos obtidos a custo operacional próximo de zero: água de rios ou vento.

Seria o suficiente para garantir a tarifa mais barata do mundo. Mas, desgraçadamente, acontece o contrário: a energia elétrica tupiniquim para a indústria já é a quarta mais cara (veja tabela). É um dos itens que mais derrubam a competitividade da produção nacional.

Na média, a indústria brasileira paga R$ 329,00 por megawatt/hora (MWh), 35% acima da média mundial, de R$ 215,50 por MWh - aponta a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

Tomando-se apenas países da sigla Bric, a tarifa do Brasil é 43% superior à da Índia; 57%, à da China; e 72%, à da Rússia. (Cálculos feitos a partir de dados da Aneel e da Agência Internacional de Energia).

Além da China, Estados Unidos e Alemanha são os maiores concorrentes comerciais do Brasil. Lá o produtor paga, respectivamente, 35% e 62% a menos.

Quase um terço do custo do quilowatt/hora consumido pela indústria do Brasil é imposto - sobretudo ICMS e PIS-Cofins. Na Alemanha, no Chile, no México e em Portugal, o tributo embutido na energia é zero - seus governos entendem que não se pode prejudicar a competitividade da produção interna. Por aqui, a voracidade tributária dos Estados e do governo federal prevalece sobre a necessidade de criar empregos e de reduzir o custo Brasil.

(Atenção: a comparação de todos esses custos está sujeita a variações cambiais e pode mudar todos os dias.)

Outros 17,5% do custo no Brasil são formados por encargos setoriais pagos ao governo para desenvolvimento do setor e pelo uso do sistema de transmissão.

Levando-se em conta apenas geração, transmissão e distribuição (média estimada em R$165,50), o custo do MWh no País ainda ultrapassa as tarifas cheias (incluídos aí os impostos) de China, Estados Unidos, Argentina e Rússia. É gol contra do Brasil especialmente agora quando a crise global - de desfecho ainda imprevisível - acirra a luta pela conquista dos mercados.

Carlos Eduardo Spalding, vice-presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira de Consumidores Industriais de Energia e conselheiro da Confederação Nacional da Indústria, lembra que, em 2015, vencem concessões equivalentes a 20% da capacidade de geração de energia. "Grande oportunidade para baixar tarifas." Mas nada indica que o governo pense assim.

Para Spalding, o preço da geração da energia teria de cair no mínimo 35% para, ao menos nesse ponto, o produto brasileiro voltar a conferir competitividade.

A questão tributária envolve complicadas negociações, congeladas sempre que a reforma volta à pauta. Se prevalecer a visão de que o ICMS seja cobrado pelo Estado do destino da mercadoria (ou do insumo) e não pelo da origem, alguns perderão enorme fonte de renda, como o Paraná - onde está Itaipu, a maior hidrelétrica do País.

(*) Colaborou Gustavo Santos Ferreira

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Se você clicar aqui,  aqui  e aqui, perceberá que, no último ano, pelo menos em três ocasiões comentamos e publicamos artigos  batendo nesta mesma tecla, isto é, o injustificável valor das tarifas de energia cobradas no país, além do absurdo de carga tributária que sobre elas incidem.

Considerando tanto o valor da tarifa quanto o peso dos impostos, chega-se à triste conclusão que, para o Poder Público, energia elétrica ainda é considerada artigo de luxo, de muito luxo, e não serviço de primeira necessidade. É um absurdo!!!

O pior são as desculpas: não há bom senso que consiga digerir as "explicações"!!!! Cada uma mais imbecil e cretina do que a outra.



Imposto pago ao impostor

Claudio Carneiro, Opinião & Notícia 

Cerca de 35% da riqueza produzida no Brasil vai parar nas mãos do governo. E o pior: em troca de muito pouco. 

Por esses dias estamos próximos dos R$ 120 bilhões 
em impostos de toda a ordem 
(Reprodução/Internet)

A Receita Federal ensina que o pagamento de impostos é um dever do cidadão, ao mesmo tempo em que é obrigação do Estado informar para onde vão os recursos recolhidos. Que o imposto é importante para promover o desenvolvimento social e o crescimento econômico, isso nos ensinam a Austrália, os Estados Unidos e a Coreia do Sul, que recolhem 25% do PIB e são, ao mesmo tempo, os países que mais devolvem – em serviço e qualidade de vida – o que cobram de imposto. O resultado disso é mera matemática: os três têm altíssimo índice de desenvolvimento.

Na porção de terras entre as Guianas e o Uruguai que habitamos, o buraco é mais embaixo. Estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) demonstrou que na relação entre os impostos recolhidos e os serviços públicos prestados, o Brasil ocupa a lanterninha entre os 30 países com maior arrecadação tributária do mundo. Estamos atrás da Grécia, da Eslováquia, Uruguai e Argentina.

Cerca de 35% da riqueza aqui produzida vai parar nas mãos do governo. E o pior: em troca de muito pouco. A Receita insiste que entre as prioridades de utilização do imposto estão serviços como plano de construção de habitação popular, saneamento e reurbanização de áreas degradadas nas cidades, construção e reparação de estradas, segurança pública e defesa do meio ambiente entre outros. Como diria Caetano, alguma coisa está fora da ordem…

Criado para medir e denunciar o tamanho da mordida do governo e seus órgãos de arrecadação, o Impostômetro revela que, por estes dias, estamos próximos dos R$ 120 bilhões em impostos de toda a ordem. A cada 18 segundos, a conta engorda em R$ 1 milhão. Com este valor ainda em pleno janeiro – revela o Impostômetro – o governo poderia construir cerca de 3,5 milhões de casas populares; ou 1.500 quilômetros de redes de esgoto; ou contratar por um ano nove milhões de professores de ensino fundamental; ou nove milhões de salas de aula equipadas com computadores e datashow; ou pagar 8 mil meses de contas de luz de todos os brasileiros; ou criar 2,5 milhões de postos policiais equipados. Como nada disso aconteceu, o leitor pode concluir para onde vai toda essa bufunfa. Impostômetro não tem a ver com imposto mas com impostor.

Com a popularidade em alta, mesmo sem ter cumprido diversas promessas de campanha, a presidente Dilma Rousseff vai bancar este ano uma folha salarial de funcionários que beira os R$ 203 bilhões que serão divididos – proporcionalmente – entre cada um dos 22 mil funcionários públicos em cargos de confiança – a maior população DAS da história deste país.

A boquinha do senador
O site Contas Abertas nos revela que o Senado Federal gastou R$ 5,5 mil comprando 100 bules de café, outros R$ 2,9 mil com 100 açucareiros, mais R$ 30 mil com copos de cristal, R$ 34,6 mil com xícaras de chá. O site destaca também que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios adquiriu o incrível número de 600 garrafas térmicas por R$ 7,1 mil. Já o Supremo Tribunal Federal alugou um veículo blindado por R$ 7,2 mil. Enquanto isso, o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal e Territórios, pagou R$ 7,9 mil pelo fornecimento de medalhas usadas na cerimônia de entrega da comenda do mérito eleitoral do Distrito Federal.

O Contas Abertas nos presenteia com uma informação de abrir um sorriso de orelha a orelha: o Senado ressarciu os R$ 31 mil do tratamento dentário do ex-senador Luiz Pontes que, pelo jeito, deve ter feito economia de pasta, escova de dentes e fio dental durante toda a vida.

Em contrapartida, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) viu – ainda no primeiro ano de governo – seus recursos de R$ 2,094 bilhões cortados à metade. Durante a campanha eleitoral, a promessa era ampliar a colaboração com estados e municípios nessa área. Também na Saúde Pública, Dilma rodou a foice vetando pontos previstos da chamada Emenda 29 que regulamenta os gastos em saúde pública. É a fagulha de pretensa austeridade em plena folia.

Recuperação de rodovias dura menos do que manda a lei

O Globo

Estradas brasileiras são ruins também por causa da baixa qualidade do material

Ônibus passa por trecho da RJ-117 na altura do bairro Vale das Videiras onde a pista cedeu: 
rodovia foi inaugurada em junho de 2010 e apresenta várias rachaduras
PABLO JACOB

RIO - É um caminho perigoso, acidentado. As estradas brasileiras são ruins não só porque não têm conservação, mas também pela baixa qualidade do material usado nas obras milionárias de recuperação. Apesar de a Lei de Licitações determinar tempo médio de vida útil de dez anos pós-reforma, grande parte das rodovias federais e estaduais volta a estar esburacada e a oferecer perigo muito antes disso.

Desgaste prematuro do asfalto, buracos que se transformam em crateras, erosão no leito das pistas e quedas de barreira são percalços comuns nas vias de todo o país e demonstram a baixa qualidade das obras e do material utilizado. Há casos de estradas com trechos comprometidos antes mesmo de a pavimentação completar dois anos. A BR-474, em Minas Gerais, por exemplo, foi contemplada com obras de pavimentação há três anos, mas já precisa de recuperação.

Ao longo dos 160 quilômetros da BR-474, há buracos e risco permanente de quedas de barreiras. Em 2009, a estrada foi dividida em três trechos, sendo dois pavimentados. Interrompidas, as obras do terceiro deverão ser retomadas este ano. No entanto, além de concluir o projeto, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) terá de desembolsar recursos para a recuperação da extensão asfaltada. A obra total foi orçada em R$ 53 milhões, sendo R$ 42 milhões em verbas federais e o restante, estadual. Na avaliação feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgada no fim do ano passado, é uma estrada ruim.

Problemas estruturais não comprometem apenas a malha viária federal. No Rio, a rodovia RJ-117, que liga Paty do Alferes a Petrópolis, na Região Serrana, não durou nem dois anos. Inaugurada em junho de 2010, a estrada tem rachaduras no asfalto e, na localidade de Vale das Videiras, o piso cedeu e a rodovia está em meia pista. As chuvas do início deste mês ainda provocaram quedas de barreira em praticamente toda a extensão da via. Os deslizamentos cobriram de barro o asfalto, e a cada chuva forte a terra vira um atoleiro. As obras custaram R$ 31 milhões. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) informou que vai recuperar a estrada após o período de chuvas.

Em Roraima, a BR-174 é dor de cabeça para os motoristas. Recuperada em 2010, apresenta centenas de buracos que dificultam a passagem até de caminhões e ônibus. Já no Rio Grande do Norte, foram empregados R$ 167 milhões em obras em estradas federais em 2009 e 2010. Mas rodovias como a BR-405, no estado, foram consideradas ruins pela avaliação da CNT.

— O tempo de vida útil não é alcançado porque há projetos ruins, execução errada e material de baixa qualidade comprado como se fosse de primeira. E, o que é pior, as fraudes se multiplicam por falta de fiscalização — diz o professor da UnB especialista em obras de pavimentação, Deckran Berberian.

Este ano, o Dnit prevê a restauração de 32 mil quilômetros de vias federais e de 1.500 pontes, um investimento de R$ 16 bilhões. Os recursos também serão usados em operações tapa-buracos para garantir o mínimo de condições de tráfego. Mas o programa de recuperação já derrapa em problemas. O Tribunal de Contas da União determinou que o Dnit faça correções em processos de licitação e contratos de manutenção. Foram identificados erros como projetos deficientes ou desatualizados.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Eis aí o verdadeiro festival de horror em que se tornou a administração pública brasileira: em apenas quatros reportagens, é imensurável quase o tamanho do desperdício de dinheiro público em obras mal concebidas, pessimamente executadas e, por conseguinte, sem nenhuma fiscalização.


Quando se analisa o volume de recursos que o Estado recebe da sociedade e o confrontamos com o retorno dado por este Estado à sociedade, impossível não nos indignarmos. Não é possível que tamanho desperdício prossiga por mais tempo. 


A sociedade não pode continuar arcando com o prejuízo que o mau gestor ocasiona. É preciso que se faça uma cobrança imediata no sentido de que, tanto o irresponsável pela contratação quanto o executor de obras  ruins sejam criminalizados e responsabilizados em ressarcirem o Erário por sua incompetência. Quem sabe a partir deste dia nossas estradas até melhorem, o custo Brasil se reduza ao mínimo e as nossas empresas voltem a ser competitivas. Do jeito que a coisa anda, não há Bolsa BNDES que dê jeito!!!! E o número de acidentes tendem a crescer continuamente, ceifando milhares de vidas. Será que cerca de 50 mil acidentes por ano, 60 mil mortes apenas nos três últimos anos, e cerca de R$ 30 bilhões de prejuízos anuais provocados por acidentes de trânsito não são capazes de acender um sinal de alerta para o país?               

Duplicação de rodovia para a Copa não durou três meses

Anselmo Carvalho Pinto, O Globo 

Primeira obra para 2014 em uma estrada em MT se desfez com asfalto de baixo custo

Buracos na rodovia que liga Cuiabá à Chapada dos Guimarães: 
asfalto durou apenas dois meses
GERALDO TAVARES/ DIÁRIO DE CUIABÁ

CUIABÁ. Festejada como a primeira obra de infraestrutura para a Copa do Mundo de 2014, a duplicação de 17 quilômetros de rodovia entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães transformou-se em um mico para o governo de Mato Grosso. Liberada para o tráfego em fevereiro de 2011, a estrada começou a apresentar trechos esburacados menos de três meses depois. Os problemas chamaram a atenção do Ministério Público Estadual, que abriu um procedimento investigatório.

O inquérito só não resultou em uma ação judicial porque a empresa responsável pela obra se antecipou e fez os reparos, após a repercussão na imprensa. Em vários trechos, o asfalto praticamente se desfez. Em outros, técnicos constataram a total ausência de drenagem. Uma rotatória precisou ser refeita porque era impossível para um ônibus, por exemplo, contorná-la sem subir no canteiro.

— O problema desta obra vem lá do início, do nascedouro — diz o promotor de Justiça Mauro Zaque.

Um dos motivos, segundo Zaque, foi o fato de o governo ter licitado a duplicação prevendo a mistura asfáltica chamada tratamento superficial duplo (TSD), um material de custo mais baixo. Também não havia drenagem e o pavimento era de baixa qualidade.

— A maioria dos problemas foi resolvida depois de nossa intervenção — afirma Zaque.

Defeitos em todas as obras de pavimentação
O governo de Mato Grosso afirma que a obra ainda não foi oficialmente entregue pela empreiteira, apesar de já estar liberada para o tráfego. E que só irá avaliar suas condições após recebê-la. O governo entende que o TSD é capaz de suportar o tráfego e as altas temperaturas do estado.

As falhas da duplicação são apenas um caso de mau uso dos recursos públicos na construção e reforma de estradas. Uma vistoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE) encontrou defeitos em todas as 27 obras de pavimentação de rodovias que tiveram trechos executados entre 2006 e 2008. Em 731,9 quilômetros, os técnicos verificaram 3.979 ocorrências de defeitos que não deveriam existir em obras tão recentes. Cerca de 1,2 mil ocorrências eram relativas a defeitos no revestimento da pista. Outras 1,1 mil consistiam nas chamadas “panelas” (buracos no jargão técnico). Levando-se em conta os preços atuais, o dinheiro empregado nestas rodovias totaliza mais de R$ 500 milhões.

A vistoria foi a campo em 2010 para verificar se as obras de pavimentação realizadas nos cinco anos anteriores ainda estavam em boas condições. O Tribunal de Contas de Mato Grosso entende que o empreiteiro deve responder pela solidez e segurança do trabalho pelo prazo de cinco anos após sua entrega. O pior trecho de todos foi encontrado na rodovia MT-246, em Alto Paraguai, no Médio Norte do Estado. Em apenas um quilômetro, foram encontradas 23 ocorrências.

O que mais chamou a atenção dos auditores do TCE foi a má qualidade do revestimento asfáltico. Um trecho do relatório diz: “A Secretaria de Estado de Infraestrutura (atualmente Secretaria de Transporte e Pavimentação) costuma especificar, certamente por razões econômicas, o revestimento do tipo tratamento superficial duplo (TSD)”.

Obras ruins sustentam indústria da recuperação, diz especialista

O Globo

Gasto com novos projetos é inferior ao prejuízo provocado por acidentes em rodovias ruins

EROSÃO NA BR-104 em julho do ano passado:
via, reformada em 2010, chegou a ser fechada ao trânsito
DIVULGAÇÃO/CNT


RIO - O investimento de R$ 16 bilhões previsto pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para 2012 é considerado vultoso. Mas, na avaliação do diretor-executivo da Confederação Nacional de Transportes (CNT), Bruno Batista, o país ainda destina poucas verbas para manter em bom estado as estradas. Segundo ele, parte dos recursos que deveriam ser alocados na construção de novas rodovias acaba em serviços emergenciais que antecedem a restauração das vias — como as operações tapa-buracos. Com isso, hoje o Brasil gasta mais com os prejuízos provocados pelas estradas ruins do que com a ampliação e modernização da malha rodoviária federal.

Para justificar sua afirmação, Batista usa os números de acidentes registrados em estradas federais em 2010 — as estatísticas do ano passado ainda não foram concluídas. Pelo total, foram 183 mil ocorrências, com 8.516 mortos.

— O governo gastou, em 2010, R$ 14 bilhões para cobrir os custos com os prejuízos causados pelos acidentes, grande parte motivada pelas péssimas condições das rodovias. No entanto, naquele ano, foram investidos R$ 9,8 bilhões nas estradas. Hoje se constrói muito pouco, e não se faz um trabalho preventivo, o que seria mais barato. Fazer reparos é mais caro, é o tipo da intervenção cara e de menor durabilidade — afirma Batista, ao apontar o crescimento da frota brasileira de veículos. — De 2008 a 2011, o país ganhou mais 13 milhões de veículos. Somente no ano passado, foram três milhões.

Assim como Batista, o professor da Universidade de Brasília (UnB) e engenheiro civil Deckran Berberian também afirma que gasta-se muito na manutenção das estradas. Segundo o especialista, a baixa qualidade das obras sustenta a indústria da recuperação:

— É feito para não durar.

Para a especialista em Controle da Regulação de Serviços Públicos Liliane Colares, o baixo tempo de vida útil também está ligado aos contratos previstos pela Lei de Licitações. Para ela, é necessário vincular as empresas que fazem os projetos à construção e à manutenção das vias.

De acordo com a especialista, contratos de manutenção deveriam ter prazos mais longos — hoje duram cinco anos, enquanto o tempo de vida útil chega a uma década. E os critérios de pagamento ainda deveriam ser revistos, segundo Liliane. Atualmente, por exemplo, paga-se o serviço pelo total de buracos tapados. O ideal seria avaliar o nível de qualidade da estrada. O processo de contratação das empresas de manutenção seria semelhante ao de concessões.

Pesquisa CNT sobre a qualidade das estradas aponta a erosão como o problema mais comum, seguido por buracos de grandes proporções, barreiras que interrompem o trânsito e pontes destruídas. O total de rodovias federais e estaduais em condições precárias chega a 14%, sendo 11,2% ruins e 2,8% péssimas.

Na BR-251, em MG, investimento de R$ 74 milhões foi perdido

A seguir, apresentaremos quatro reportagens do jornal  O Globo sobre rodovias. É o exemplo acabado de como não se deve governar, do mau uso que faz do dinheiro público e de como obras públicas são realizadas ao atropelo para alimentar a indústria da manutenção. Voltaremos ao assunto, claro, porque o que acontece com as rodovias é espelho do acontece com os ditos “investimentos públicos”. Só um país muito rico em recursos mas pobre em gestão pública, consegue suportar os prejuízos vultosos dos recursos que são desviados e jogados no lixo por pura incompetência, omissão e irresponsabilidade. É um descalabro.

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Ministério Público investiga desperdício de dinheiro em obras sucessivas
Por Thiago Herdy, O Globo
MANIFESTAÇÃO NA BR-251:
prefeitos protestam contra má qualidade 
das obras e cobram solução definitiva
DIVULGAÇÃO

BELO HORIZONTE - A chegada de máquinas para trabalhar nas obras de recuperação da BR-251, próximo a Montes Claros, no Norte de Minas, não é motivo de comemoração para quem já está acostumado a trafegar pela rodovia no trecho entre a cidade mineira e a BR-116. O resultado do recapeamento e da recuperação da via é sempre o mesmo: a obra é malfeita e o desgaste do asfalto, prematuro. A situação chamou a atenção do Ministério Público Federal (MPF), que conduz investigação para apurar a qualidade do serviço.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério dos Transportes, afirma ter investido R$ 74,1 milhões na BR-251 desde 2006. A assessoria não soube detalhar qual foi o investimento no trecho entre Montes Claros e Salinas.

— Eles limpam a pista e colocam uma faixinha de asfalto de péssima qualidade em cima. Hoje temos normas técnicas, ferramentas de controle de qualidade e de resistência de materiais. Não faz mais sentido aceitar o que tem sido feito. Isso não é recuperação, é desperdício de dinheiro — lamenta o presidente da Associação de Municípios da Bacia do Médio São Francisco e prefeito de Capitão Enéas, Reinaldo Teixeira.

Há cerca de 15 dias, prefeitos e dirigentes de cidades no Norte de Minas paralisaram dois sentidos da pista para protestar contra as obras pontuais e cobrar uma solução definitiva para a BR-251. Com faixas e distribuição de panfletos para os motoristas, os manifestantes denunciaram a péssima condição da rodovia, sobretudo no trecho entre Montes Claros e Salinas, também no Norte do estado.

Buracos, lombadas e desníveis na pista tornam a via “intransitável”, nas palavras de Teixeira. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, 58 pessoas morreram no trecho apenas em 2011, ano em que foram registrados 607 acidentes.

— São dez mil carros por dia, e esse asfalto de péssima qualidade não aguenta o tráfego de carreta de 30, 40 toneladas. O que gastaram aqui nos últimos cinco anos daria para fazer boa parte do que realmente a rodovia precisa, mas de uma vez só — afirma o prefeito.

O escritório do MPF em Montes Claros instaurou inquérito civil público para investigar as contratações e o serviço prestado nos últimos anos na rodovia. A apuração começou em agosto de 2011. Responsável pela abertura do inquérito, o procurador da República André de Vasconcelos Dias solicitou informações ao Dnit e determinou que fosse realizada perícia técnica para atestar a qualidade da reforma na pista entre as cidades de Montes Claros e Francisco Sá. O trabalho deve ficar pronto em fevereiro.

Situação semelhante é observada na BR-474, principalmente nos trechos entre Ipanema e Caratinga, no Vale do Rio Doce. Buracos enormes são constantes em todo o trecho, apesar das reformas recentes. Segundo o Dnit, nos últimos cinco anos a rodovia recebeu R$ 45,4 milhões em investimentos. Para o prefeito de Piedade de Caratinga, Adolfo Bento Neto, quem trafega hoje pela rodovia tem a sensação de que nada foi investido.

— Aparece um buraco, tapam com uma capinha o trecho todo, mas passa um mês e já está tudo do mesmo jeito — reclama o prefeito Neto.

Governo do trilhão

Míriam Leitão – O Globo

O governo federal tirou dos contribuintes quase R$ 1 trilhão no ano de 2011 em forma de impostos. E, mesmo assim, terminou o ano no vermelho, com um déficit nominal de 2,4% do PIB. O bolso do contribuinte, pessoa física e jurídica, também teve que mandar outros bilhões de reais para sustentar os governos estaduais e municipais.

A carga tributária pode ter aumentando 1,12 p.p. sobre o PIB, pelas contas do IBPT, e há fatos curiosos. A arrecadação aumentou 10,1%, descontando a inflação, apesar de o país ter desacelerado o ritmo no final do ano. O país cresceu menos de 3% em 2011, e a receita do governo federal com impostos e contribuições aumentou sobre 2010, em que o PIB cresceu 7,5%.

Em parte, isso é efeito de defasagem em impostos, como o Imposto de Renda, por exemplo, que cresceu quase 20%, mais do que a média das outras taxas. Mas há outros fatores que explicam o resultado positivo: a suspensão das isenções fiscais para o setor automobilístico, o aumento do imposto de importação, uma elevação do tributo sobre ganhos de capital. E um pagamento de uma dívida que estava sendo contestada pela Vale. Só a empresa pagou ao governo R$ 5 bilhões, mesmo antes de encerrar a discussão judicial. A nova diretoria da Vale decidiu fazer o recolhimento.

Até a Cide, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, nome pomposo do imposto que incide sobre combustíveis, teve aumento de arrecadação, apesar da redução do tributo para favorecer a Petrobras. Como a estatal está tendo perda com a importação de gasolina a preço acima do que ela pode cobrar das distribuidoras, foi feita uma gambiarra: o governo reduziu o tributo, mas manteve o preço para que a estatal fique com uma parte maior do dinheiro. Mesmo assim, recolheu R$ 9 bilhões. A Cide foi criada para financiar o investimento em infra-estrutura de transporte. Se fosse todo dedicado a isso, e se o Ministério dos Transportes usasse bem o dinheiro — sem desvios e com eficiência — o Brasil teria dado no ano passado um salto na qualidade da logística. Não foi o que aconteceu.

O problema no Brasil não é apenas que o governo cobra imposto demais, é que ele usa os recursos de forma ineficiente, a cada ano precisa de mais impostos, e sempre está fechando as contas com déficit. É uma dinâmica que não pode ser mantida indefinidamente. A carga tributária tem aumentado há quase 20 anos.

Para cumprir as metas fiscais, de superávit primário, o governo precisou postergar investimentos e recolher mais impostos. Imagina o que teria acontecido se a arrecadação não tivesse aumentado? O governo não pode contar sempre com aumento da receita para fechar as contas, porque haverá anos difíceis. Em 2012, muito provavelmente os impostos não crescerão nessa proporção. O ajuste tem que ser feito pelo lado da despesa e não apenas pela elevação da receita.

O presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, João Eloi Olenike, disse que normalmente a arrecadação federal é 70% de todos os impostos pagos pelos brasileiros. Se juntarmos com o que os contribuintes recolheram aos estados e municípios a carga que pesou sobre os nossos bolsos foi de R$ 1,375 trilhão. Só nos primeiros vinte dias de 2012 os brasileiros já pagaram R$ 100 bilhões, segundo o impostômetro da Associação Comercial de São Paulo.

Parte do aumento da arrecadação é por maior eficiência fiscalizatória. É bom que haja, para evitar a sonegação. Mas o peso dos impostos continua sendo distribuído desigualmente.

— Os impostos em sua maioria incidem sobre o consumo e assim não se separa por faixa de renda. Todos pagam igual, o que é inconstitucional. O pobre paga tanto quanto o rico — diz Olenike.

O brasileiro não recebe a informação do imposto que está sendo pago em cada produto. Ao contrário de outros países, no Brasil não há a discriminação dos impostos embutidos no preço.

Aumento da transparência de quanto pagamos de impostos indiretos é uma das tarefas urgentes para que ambos — governo e contribuintes — tenham mais consciência do custo que recai sobre a população. Um lado se sentiria mais obrigado a prestar contas do uso do dinheiro, e o outro lado teria mais consciência dos direitos que tem para exigi-los.

O governo diz que esse dinheiro cobrado retorna para a sociedade em forma de serviços, e deu como exemplo a forte redução da pobreza nos últimos anos. Isso é apenas parte da verdade. Com programas como Bolsa Família o governo gasta uma fração do dinheiro arrecadado, já o Bolsa Rico é bem mais caro. Não se sabe quanto. O Bolsa Rico é o conjunto de transferências feitas através das isenções de impostos aos lobbies mais poderosos, dos empréstimos subsidiados, e das capitalizações de empresas feitas muitas vezes com o BNDES pagando preço acima do valor de mercado. O Bolsa Família está no Orçamento, o Bolsa Rico, não.

Há inúmeras comparações que se pode fazer. Todas elas chegarão ao mesmo ponto. O governo gasta muito com a sua própria manutenção, tem 38 ministérios, desperdícios, e são frequentes os casos de desvio. O governo precisa merecer o dinheiro que recebe da sociedade.

Quem manda, quem obedece

Carlos Brickmann, Brickmann & Associados Comunicação

Quem manda no Governo: a presidente da República ou o PMDB?

Toda a briga de Funasa, DNOCS, Sudene, essa sopa de letrinhas que forma a administração federal, é uma queda de braço para saber quem manda; os caciques regionais peemedebistas, que controlam boa parte da bancada governista, ou a presidente Dilma Rousseff, que tem a caneta que nomeia, demite e dá verbas, edita o Diário Oficial da União e goza hoje de amplo apoio do eleitorado. A bancada do PMDB não controla a caneta nem edita o Diário Oficial, mas pode causar um monte de problemas - por exemplo, aprovar projetos que criem novas despesas e multipliquem as dificuldades de Dilma para governar o país. 

Quem ganha? Depende: os parlamentares do PMDB podem seguir a orientação de seus líderes, enfrentar Dilma, tentar dominar totalmente o Governo e correr o risco de ficar a pão e água, caso a presidente vença a queda de braço; mas é preciso lembrar que Suas Excelências são vulneráveis a determinadas gentilezas que só o Governo pode proporcionar, e talvez a adesão à tese do enfrentamento não seja tão maciça assim. Nesse caso, o partido teria de aceitar o que o Governo lhe oferecesse. Conhecendo o partido, pode-se dizer que para seus integrantes um pouco é melhor do que nada. Além disso, mesmo com a fartura da mesa oficial, muita gente não degustou o que esperava. É um grupo que potencialmente pode apostar na mudança, confiante em apoderar-se de pelo menos uma parte do que era destinado aos favoritos de ontem. 

A briga é boa. E a decisão demora.

Tiro ao alvo
A lista de apadrinhados que caiu ou está na fila é grande: Elias Fernandes, diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, DNOCS, indicado e sustentado por Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara, já caiu. Flávio Britto, PMDB, superintendente da Fundação Nacional da Saúde, Funasa, indicado pelo governador André Puccinelli, do Mato Grosso do Sul, não apenas caiu como foi substituído por um petista. O superintendente da Sudene, Paulo Sérgio Fontana, apadrinhado pelo deputado baiano Geddel Vieira Lima, e o diretor da Transpetro, Sérgio Machado, indicado pela cúpula do PMDB, estão na linha de fogo. Vão cair outros diretores da Petrobras, e a nova presidente da empresa, Graça Foster, já deixou claro que não dá a menor bola para seus partidos.

A lei, ora a lei
Que é que o presidente da Câmara Federal, Marcos Maia, do PT, faz na Alemanha? Ele viajou em segredo no dia 22 e só deve voltar no dia 30 - e violou a norma segundo a qual o presidente da Casa, ao ausentar-se por mais de 48 horas, tem de passar o cargo ao vice-presidente - no caso, a deputada Rose de Freitas, do PMDB capixaba. Por que viajou? Por que o segredo? 

Deve ser um motivo forte: violar as normas internas da Câmara pode dar processo por falta de decoro.

Coragem, gente! 
Desabam prédios no Rio e o governador Sérgio Cabral leva dois dias para aparecer. Dilma cancelou compromissos no Rio para ficar longe da tragédia. Diante da possibilidade de manifestações contra a desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, o governador tucano Geraldo Alckmin, católico praticante, não foi à missa do aniversário de São Paulo. Autoridades, mas sem exageros.

Nós e eles
Por falar em Pinheirinho, as autoridades assistiram à ocupação durante anos e nada fizeram. Depois que deixaram seis mil pessoas sem teto, prometeram unir esforços para ajudá-las. Mas não agora, claro: Estado, União e Prefeitura deveriam reunir-se na sexta, para discutir o que fazer. Mas todos estavam ocupados com seus problemas e a reunião ficou para a semana que vem, se tudo der certo. 

Gente sem teto não pode ser impaciente: por que não esperar mais um pouco?

Eles e nós
Quem não espera são os amigos. Lembra da Delta, aquela empreiteira cujos aviões levavam a família do governador fluminense Sérgio Cabral para seus passeios? Pois a Delta já recebeu R$ 2,8 bilhões do Governo Federal por obras do PAC. Desde 2007, a Delta foi a primeira colocada em recebimentos federais todos os anos, menos em um. 

E sempre se comportou muito discretamente: se não fosse aquele horrível acidente em Porto Seguro, que gerou até a separação temporária de um famoso casal, a gente nem teria ouvido falar dela.

Ecologia lucrativa
No Estado de São Paulo, um acordo entre Governo e supermercados aboliu as sacolinhas plásticas que embalavam as compras. Aboliu, não: trocou-as por outras, cobradas à parte (sem que haja qualquer desconto pelas que deixaram de ser entregues). O argumento é ecológico: menos plástico, menos poluição. Só que as novas sacolas também são de plástico; e as garrafas PET, aquelas que aparecem aos milhares em qualquer foto de enchente, continuam permitidas (garrafas retornáveis, nem pensar). As sacolinhas de supermercados eram usadas no mínimo duas vezes: uma como embalagem, outra como saco de lixo. Agora, será preciso comprar saquinhos de lixo - de plástico, claro - que serão usados só uma vez. 

Mas há quem apoie a medida: os supermercados, por exemplo, estão exultantes.

Nova defesa para o cofre

Rolf Kuntz, O Estado de São Paulo

O governo continua ampliando o sistema de prevenção de bandalheiras com dinheiro público – mais especificamente, de controle de convênios para transferência de verbas a entidades privadas “sem fins lucrativos”, também conhecidas genericamente como ONGs. Organizações não governamentais com frequência fazem operações lucrativas precisamente com recursos governamentais, fornecidos pelos contribuintes. Em mais uma tentativa de proteger o Tesouro, o Ministério do Planejamento implantou na segunda-feira, 16/1, três novas funções no Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse (Sincov). Ficará mais complicado meter a mão no cofre, mas a eficácia do kit de segurança continuará muito restrita, se o governo permanecer loteado, aparelhado e subordinado a interesses fisiológicos, acobertados ou não por siglas partidárias. A reforma ministerial dará uma ideia mais clara do alcance das ações de controle e fiscalização.

Para atender aos novos critérios, cada entidade privada envolvida em convênio deverá comprovar pelo menos três anos de atividade no setor e isso será inscrito no sistema. As inovações deverão ainda facilitar o registro de irregularidades e o “acompanhamento e fiscalização dos convênios, contratos de repasses e termos de parceria”. Está prevista a implantação de outros módulos até julho. O reforço do controle parece apreciável, mas a aprovação do novo cadastro vai depender do órgão responsável pela transferência. Na melhor hipótese, isso tornará mais claro o papel dos ministros e altos funcionários e esse requisito funcionará como um freio. Mas a melhor hipótese tem-se confirmado raramente quando se trata do uso de recursos públicos. Nesse caso, a pior hipótese é a aprovação de cadastros inadequados, com a continuação da patifaria.

A roubalheira por meio de convênios nunca foi interrompida, mesmo depois da implantação do Sincov, em 2008. O vigor da corrupção foi evidenciado mais uma vez nos escândalos ministeriais do ano passado. Alguns ministros foram demitidos e a presidente Dilma Rousseff assinou os Decretos 7.568, 7.592 e 7.641, no segundo semestre, para conter a sangria do Tesouro.

A ampliação das funções do Sincov é consequência dessa reação. Congressistas, no entanto, ficaram longe dessas preocupações e acrescentaram, por meio de emendas, R$ 967,3 milhões às verbas orçamentárias destinadas a convênios com entidades “sem fins lucrativos”, elevando o total a R$ 3,4 bilhões.

Não há nada ilegal, em princípio, nesse tipo de manobra. Com ou sem ilegalidade – fraude, favorecimento pessoal, envolvimento de laranjas e outros tipos de banditismo -, ações como essa resultam frequentemente em desperdício de dinheiro federal e em mera apropriação de verbas públicas para interesses privados. Tudo se passa como se a festiva divisão da pizza orçamentária fosse um perfeito ritual democrático.

Não é preciso violar a lei, no Brasil, para fazer da privatização de recursos públicos uma festa permanente. Não há um só argumento razoável a favor da aberração chamada Fundo Partidário, num país onde os partidos são fartamente financiados com recursos particulares. Além do mais, organizações partidárias são entidades privadas, e igualmente privados são os seus componentes, exceto quanto exercem um mandato público. Mas o tal fundo existe legalmente e todo ano é inscrito no Orçamento-Geral da União. Para este ano está prevista uma verba de R$ 324,7 milhões para os partidos. Houve um acréscimo de R$ 100 milhões à proposta original do Executivo, graças à intervenção dos senhores parlamentares. A maior fatia, R$ 53,9 milhões, deve ir para o PT. A segunda, R$ 41,6 milhões, para o PMDB. Nada mais justo, devem pensar os parlamentares, do que o inchaço do fundo num ano de eleições.

Instrumentos como o Sincov podem ter alguma utilidade, assim como organismos de controle. O Tribunal de Contas da União e a Controladoria-Geral têm contribuído para a imposição de algum freio aos desmandos com dinheiro público. Apesar desse esforço, a malandragem continua sendo uma das grandes marcas da administração federal.

Com uma oposição inepta, uma base empenhada em proteger a ralé ministerial e um governo incapaz de renegar claramente a aliança com o fisiologismo, qualquer programa saneador só pode ter alcance limitado. Tem-se discutido, por exemplo, se o Ministério de Ciência e Tecnologia ficará com o PT ou voltará ao PSB, quando o atual ministro for transferido para a Educação. Que tal discutir, para variar, uma política séria de pesquisa e desenvolvimento para modernizar a economia e torná-la realmente competitiva? Posta nesses termos, a questão extrapola o compromisso com o fisiologismo. Mantido esse compromisso, o Sincov será pouco mais que um desodorante para o ambiente governamental.

Burrice com fome de pasto

Percival Puggina

É possível, com algum esforço, criar uma palavra e atribuir-lhe um significado universalmente conhecido. Mas é quase impossível mudar o significado de uma palavra suprimindo ou alterando seu conteúdo simbólico consolidado. Fará muita bobagem na política quem não souber isso ou, ao menos, não o intuir. 

Exemplifiquemos. Você dificilmente participará de uma missa, ouvirá um sermão ou lerá um documento da CNBB sem que se depare com a palavra "excluído". Ela estará ali, para a mensagem, assim como a farinha de trigo está para a hóstia. Procure essa palavra nos quatro evangelhos e veja quantas vezes é mencionada. Já fez isso? Pois é. Nenhuma. Quando alguém, astuciosamente, substituiu a palavra "pobre" (esta sim, 25 vezes referida nos evangelhos) por "excluído", infiltrou um conteúdo ideológico na mensagem cristã. E quem não estiver prevenido receberá doses frequentes de veneno marxista em substituição ao verdadeiro ensinamento de Jesus, um ensinamento de amor ao próximo, de caridade, de zelo fraterno e de rejeição à idolatria da riqueza. Não há nos evangelhos qualquer esboço de luta de classes. Não há uma gota sequer de ódio aos ricos, mas severas advertências a quem apenas se ocupa com acumular bens onde eles são consumidos "pela ferrugem e pelas traças". Já a noção de exclusão implica a simétrica noção de inclusão e de ambas se deduz que o excluído é sujeito passivo da ação de exclusão que sobre ele exerce o sujeito ativo incluído. Vai uma bandeirinha vermelha aí? 

O ensino cristão sobre os bens materiais não significa, em absoluto, nem poderia significar, uma proposta de organização da economia sem direito de propriedade, sem iniciativa privada, sem produção, sem negócios, sem remuneração e sem lucro. Num mundo com bilhões de habitantes essa seria a receita da miséria e da inanição. 

Vamos em frente. Atente, leitor, para a palavra capitalismo. Volta e meia ela é usada para definir um sistema vantajoso, oposto ou em contraposição ao socialismo como sistema econômico. Ora, a carga simbólica da palavra capitalismo é tão negativa, malgrado se refira a um modelo comprovadamente superior ao socialismo, que até parece ter sido concebida por seus adversários, não é mesmo? E, de fato, foi! Esse vocábulo entrou nos dicionários na segunda metade do século 19, levada pelos textos de socialistas e anarquistas, a partir de Marx, Proudhon e outros. Portanto, usar como bandeira, proposta ideológica ou plataforma de organização da ordem econômica uma palavra com essa carga negativa, cunhada pelos próprios adversários da tese que expressa, é uma burrice com fome de pasto. Em tudo semelhante a de quem usa ingenuamente a palavra "excluído" em seus atos penitenciais, sem perceber o erro que está cometendo. Reze pelos pobres e aja em favor deles, meu irmão. Mas não caia nas redes da Teologia da Libertação! 

Veja o que escreveu o Papa João Paulo II, no nº 42 de sua extraordinária encíclica Centésimo Ano (1991): "Voltando agora à questão inicial, pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o sistema social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos Países que procuram reconstruir as suas economias e a sua sociedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos Países do Terceiro Mundo, que procuram a estrada do verdadeiro progresso econômico e civil? A resposta apresenta-se obviamente complexa. Se por "capitalismo" se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de "economia de empresa", ou de "economia de mercado", ou simplesmente de "economia livre". Ele veio de um país comunista e sabia das coisas. 

A privataria que não houve

Renato Lima, Opinião & Notícia

Paloccis e Pimentéis mostram preocupante faceta do capitalismo tupiniquim antiliberal: a enorme rede de laços entre grandes grupos privados e o Estado. 

Enquanto contatos forem mais valiosos que mérito
 Paloccis e Pimentéis serão astros do capitalismo

O ex-ministro Antônio Palocci e o atual ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel têm mais coisas em comum do que serem petistas de carteirinha. A confiar na palavra dos dois, são também gênios da administração de empresas, contratados a peso de ouro por empresários desejosos de ouvi-los sobre estratégias de negócio. Mas esses políticos receberam milhões para compartilhar conhecimento empresarial – um saber insuspeito de possuírem até então – ou para criar laços com o governo federal e abrir certas portas?

É inevitável a suspeita de que Palocci e Pimentel foram contratados para fazer tráfico de influência. Mas mesmo a alternativa legal, da legítima prestação de consultorias, mostra uma preocupante faceta do capitalismo brasileiro: a enorme rede de laços entre grandes grupos privados estabelecidos e o Estado. A passagem pelo governo e a influência no partido que está no poder criam um conhecimento de com quem falar para resolver problemas, quais os caminhos a serem usados para influenciar decisões de caráter regulatório ou de investimento.

Alguns acreditam que as privatizações dos anos 90 e a criação de agências reguladoras diminuíram o poder do estado no controle da economia. O suposto “Consenso de Washington” teria substituído o planejamento estatal pela mão invisível do mercado em vários países, inclusive o Brasil. A América Latina teria entrado na era neoliberal, em que o estado estaria impotente diante das forças do mercado. Essa visão é bastante popular no debate político e em obras opinativas. Só que não resiste a uma análise séria dos dados. A América Latina não se transformou numa utopia liberal nos anos 90, como pode ser observado – entre outros trabalhos – no livro do professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) Sebastian Edwards “Left Behind: Latin America and the false promise of populism” (2010), que analisa a timidez ou ausência de reformas de mercado no continente enquanto o mundo acelerava as mudanças. E o Brasil, ao contrário de ter um mercado privado mais forte e menos dependente do estado, teve sim foi um aumento da presença do seu Leviatã, como mostra Sérgio Lazzarini em “Capitalismo de Laços: Os Donos do Brasil e suas conexões” (2011). Essa é uma obra importante para entender o sucesso de consultores como Pallocci e Pimentel.

Lazzarini utiliza a metodologia da análise de redes – que está se popularizando em ciências sociais, mas ainda é pouco comum no Brasil – para avaliar as mudanças econômicas do país. O pesquisador investiga as conexões (“laços”) no controle societário e dos conselhos de administração das empresas. Diferentes empresas estão ligadas por meio de sócios comuns – e, dos mais frequentes e influentes estão o governo federal e fundos de pensão de empresas públicas. Dessa forma, muitas empresas nominalmente privatizadas ainda são comandadas pelo governo.

Capitalismo de laços
Vejamos o exemplo do Grupo Neoenergia, de distribuição elétrica. O grupo espanhol Iberdrola tem 39% do seu capital, mas a posição majoritária está com a Previ (49,01%) e o Banco do Brasil (11,99%). A própria Previ tem participação acionária em mais de 50 grandes empresas, como a Embraer e a Vale. A mão forte do governo se fez sentir na Vale com a pressão para a troca do CEO Roger Agnelli – mesmo, nesse caso, não tendo a maioria do capital. O executivo foi substituído para evitar retaliações à Vale (como aumento exagerado dos tributos na discussão de um novo Código Mineral) ou a outras empresas dos quais os sócios se relacionam com o BNDES e Previ. Na estrutura empresarial brasileira, é suicídio bater de frente com o BNDES e os fundos de pensão. Segundo o estudo de Lazzarini, entre 1996 a 2009, os fundos de pensão se tornaram quase 1000 vezes mais conectados em empresas do que a média entre os investidores (incluindo indivíduos, famílias, investidores institucionais e estrangeiros). E o BNDES é a grande fonte de empréstimo subsidiado para grandes empresas. É o melhor banco do mundo, como exultou o neobilionário Eike Batista, grande cultivador de laços com os governos do Rio de Janeiro e federal.

Como explica Lazzarini, o capitalismo de laços é um “modelo assentado no uso de relações para explorar oportunidades de mercado ou para influenciar determinadas decisões de interesse”. Esse sistema pode existir apenas entre atores privados (afinal, é mais fácil fazer negócios com quem já temos relações do que com desconhecidos) bem como com o governo. Mas se, além disso, o governo controla discricionariamente formas de financiamento e regulações, é mais vantajoso ser o amigo favorito de quem tem esse poder do que investir no melhor plano de negócios, podemos concluir. Quando o que vale são as amizades, o mérito fica em segundo plano. Escreve Lazzarini: “de um lado, os empresários podem enxergar nos laços com o governo uma forma de se capitalizar e se proteger de mudanças imprevistas; da mesma forma, o governo pode visualizar laços com o empresariado como uma forma de direcionar a atividade econômica”.

Essa é a realidade da não privatização no Brasil. Empresas que antes estavam sobre o controle estatal passaram para mãos de grupos que estão entrelaçados com o Estado. Sim, são empresas hoje mais eficientes, mas não independentes. Sem falar no emaranhado de estatais como Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Serpro, Dataprev, Hemobrás, Correios, CBTU, EBC entre várias outras. Cada empresa dessa mantém relações com seus fornecedores. Há não tanto tempo, Paulinho “Land Rover” Pereira ganhou um “mimo” de uma fornecedora da Petrobras interessada em manter boas relações (e contratos) com o governo.

Enquanto contatos forem mais importantes que o mérito, como é no capitalismo tupiniquim antiliberal, Paloccis e Pimentéis serão astros do capitalismo e Paulinhos ganharão presentes. Falar de “privataria” pode vender livro e instigar a militância, mas o partido no poder não mexeu uma palha para oficialmente estatizar as empresas vendidas. Tais relações podem ser boas para quem ocupa o poder e para os empresários estabelecidos, mas não são do melhor interesse para consumidores e empresas entrantes.

Capitalismo brasileiro?

Felipe Melo (*), Mídia Sem Máscara

Sérgio Malbergier, colunista do jornal Folha de S. Paulo, publicou hoje (26) um artigo que, a bem da verdade, poderia estar no frontispício da página oficial do Partido dos Trabalhadores. Intitulado “Era PT”, o artigo tem como tese central que o PT foi o maior promotor do “capitalismo brasileiro”. Convém, entretanto, investigarmos um pouco melhor o que “capitalismo brasileiro” significa.

O capitalismo pode ser definido, grosso modo, como um sistema econômico, social e legal, com características mais ou menos uniformes, que se desenvolveu na civilização ocidental após o período conhecido como Idade Média. Podemos definir genericamente os valores basilares desse sistema como sendo a livre empresa, o gozo dos frutos de seu próprio trabalho, a liberdade (juntamente com a responsabilidade) individual, a proteção legal aos contratos e a atuação restrita, porém especializada, do Estado. O arcabouço dos valores responsáveis pela construção da civilização ocidental – alicerçados no cristianismo e na filosofia clássica – também foi responsável pelo surgimento desse modo de produção que, ao longo dos séculos, tem se desenvolvido de maneira progressiva.

Em virtude de seu caráter amplo e do modo espontâneo com o qual se desenvolveu ao longo da história humana, o termo “capitalismo brasileiro” me parece uma contradição em termos pois se trata de um fruto de todo um processo civilizatório complexo, e não das elucubrações de um punhado de intelectuais. Se não existe um “capitalismo norte-americano”, e sendo os Estados Unidos o maior exemplo de nação capitalista do mundo, não é possível falarmos de um “capitalismo brasileiro”.

Todavia, é possível que falemos, por exemplo, em “comunismo brasileiro”, ou “fascismo brasileiro”, ou “socialismo brasileiro” – assim como podemos falar em “comunismo soviético”, ou “fascismo alemão”, ou “socialismo norte-americano”. Os constructos ideológicos modernos, baseados como são em sistemas filosóficos deliberada e meticulosamente desenvolvidos para atingir fins materiais determinados, possuem em seu próprio bojo um (pretenso) mecanismo de adaptação às realidades locais que objetiva infectá-las, sequestrar seu DNA e subvertê-las, como um retrovírus. O comunismo soviético e o comunismo chinês, apesar de serem irmãos, desenvolveram-se de modo peculiar em suas realidades específicas; ainda que possuam algumas características idênticas, diferem diametralmente em outros aspectos. Os fatores que propiciaram a revolução comunista nesses dois países são igualmente distintos, ainda que, em alguns pontos, semelhantes.

Quanto ao capitalismo, entretanto, isso não acontece. Parece estranho dizer isso, mas o sucesso do sistema capitalista está baseado, seja no Brasil, seja na Inglaterra ou em Cingapura, nos mesmos parâmetros: garantias legais de execução de contratos, proteção à propriedade privada, livre empresa e atuação especializada do Estado. Em seu livro “Mistério do Capital”, o economista peruano Hernando de Soto demonstra, com estatísticas e levantamentos de toda sorte, exatamente isso. Os próprios Estados Unidos, com seu paulatino e firme desenvolvimento das garantias legais de propriedade e de liberdade econômica desde a era colonial, são exemplo claro disso.

Ao contrário do que o Sr. Malbergier diz, o PT não é responsável pelo sucesso do “capitalismo brasileiro” simplesmente porque não existe nenhum “capitalismo brasileiro”. Nossa exorbitante carga tributária, nossa arcaica legislação trabalhista (de caráter fundamentalmente fascista, inspirada na Carta de Lavoro do governo Mussolini), a sufocante burocracia necessária à abertura de uma pequena empresa, as relações promíscuas entre grandes corporações e o governo (Eike Batista que o diga), o tamanho mastodôntico da máquina pública, a grande quantidade de políticas públicas que objetivam a dependência da população ao governo, tudo isso pode ser chamado muito melhor de fascismo brasileiro, ou socialismo brasileiro, do que de “capitalismo brasileiro”.

De acordo com o Index of Economic Freedom da Heritage Foundation, que mede o nível de liberdade econômica no mundo inteiro, o Brasil está na posição nº 99 – atrás de países como Azerbaijão (91), Mongólia (81), Namíbia (76) e Botsuana (33). Na América Latina, está muito aquém do Chile (7º) ou do nosso vizinho Uruguai (29). O índice Economic Freedom of the World, do Fraser Institute, colocava o Brasil na 87ª posição em 2002; em 2009, estávamos na 102ª posição. Antes de pensar que essas medições nada têm que ver com o nosso “capitalismo brasileiro” – e a inestimável contribuição do PT para desenvolvê-lo –, que isso é coisa de organizações malévolas serviçais do capital especulativo ianque (e que estão nas mãos daquele 1% contra quem o Occupy Wall Street dizia lutar), vamos considerar algumas coisas.

Dos parâmetros utilizados na medição de liberdade econômica de um país, há aqueles diretamente relacionados com a dinâmica econômica – como legislação, tributação, etc. – e os que mantêm relação indireta com a economia. Um destes parâmetros é a corrupção. O critério que mede esse quesito no levantamento da Heritage Foundation chama-se “Liberdade de Corrupção” (Freedom From Corruption), e calcula, numa escala que varia de 0 a 100, quão livre da corrupção encontra-se um determinado país. No caso do Brasil, a nota é 37, o que o deixa na 70ª posição geral nesse quesito. Nesse ponto, concordo plenamente com o Sr. Malbergier: o Partido dos Trabalhadores teve contribuição crucial para o “capitalismo brasileiro”. A quantidade de escândalos que estouraram desde a eleição de Lula em 2002 foi um recorde histórico que tem sido orgulhosamente mantido pelo governo Dilma – sete ministros derrubados por malfeitos é um escore difícil de igualar. 

Quanto a parâmetros diretamente relacionados com a economia, dois critérios importantes são “Liberdade Empresarial” (Business Freedom) e “Liberdade Laboral” (Labor Freedom); respectivamente, o Brasil encontra-se na 138ª e na 101ª posição referente a esses dois pontos. Para se abrir uma empresa no Brasil, são necessários aproximadamente 120 dias e uma quantidade obscena de papéis, taxas e que tais. Aliadas a um sistema tributário sufocante e altamente restritivo, essas características do “capitalismo brasileiro” empurram quase 50% da força de trabalho nacional para a informalidade. O montante final de ativos mortos – aqueles bens que não podem ser fungíveis, ou seja, não podem ser transformados em capital de fato – gerado a partir dessa situação é grotesco. Aqui também vemos uma preciosa contribuição do Partido dos Trabalhadores.

A respeito da relação intrínseca entre propriedade e liberdade, Richard Pipes diz: “Enquanto a propriedade, de certa forma, é possível sem liberdade, o contrário, por sua vez, é inconcebível.” Ainda que exista efetivamente um incremento de propriedade no fenômeno confusamente conceituado como “capitalismo brasileiro”, esse incremento não tem acontecido através da liberdade individual, mas à revelia dela. Vivendo em um país cujo governo pretende controlar a economia com precisão algorítmica e ser visto como o verdadeiro promotor do desenvolvimento humano, é quase impossível ver qualquer coisa que se assemelhe, ainda que ligeiramente, ao capitalismo. Melhor fosse chamar isso de “totalitarismo brasileiro”.

(*) Felipe Melo edita o blog da Juventude Conservadora da UNB.

De que tem medo Sérgio Cabral?

Vitor Hugo Soares – Blog do Noblat

Diante do que se viu, e ainda se vê, no espaço dramático e poeirento desta tragédia inesperada que fere o coração da Cidade Maravilhosa – igualmente marcada por momentos singulares de humanismo, generosidade solidária, superação e bom humor, mesmo frente à desgraça – é preciso dizer com todas as letras a bem da verdade e seu registro histórico: ninguém fez mais feio neste episódio do que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho.

Mando às favas o temor de ser repetitivo neste espaço, mas para contextualizar jornalisticamente o triste papel de Cabral é preciso recorrer mais uma vez ao Decálogo do Estadista, de Ulysses Guimarães. Magnífica, sólida e permanente construção do pensamento e da prática do saudoso fundador do MDB (hoje o PMDB do governador do Rio), presidente da Câmara e timoneiro da oposição em travessia das m ais difíceis do País entre a ditadura e a democracia.

Sérgio Cabral Filho, neste desastre que ainda recolhe seus mortos (quando escrevo de Salvador já são nove corpos recolhidos e a previsão oficial de 20 desaparecidos), afrontou acintosamente o primeiro mandamento do Decálogo de Ulysses: A Coragem.

Perdoem os incomodados, mas considero indispensável reproduzir aqui, mesmo para os que a conhecem e a seguem, o que reza a primeira e fundamental norma do homem público, segundo a lei do evangelho do fundador do PMDB: “O pusilânime nunca será estadista. Churchill afirmou que das virtudes, a coragem é a primeira. Porque sem ela todas as demais, a fé, a caridade, o patriotismo desaparecem na hora do perigo”.

“Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com o risco de sua vida, liberdade, impopularidade ou exílio. Sem coragem não o fará. Cesar não foi ao Rubicon para pescar, disse Andre Malraux. Se Pedro Primeiro fosse ao Ipiranga para beber água, suas estátuas não se ergueriam nas praças públicas do Brasil”.

O medo tem cheiro. Os cachorros e cavalos sentem-no, por isso derrubam ou mordem os medrosos. Mesmo longe, chega ao povo o cheiro corajoso dos seus líderes. A liderança é um risco. Quem não o assume não merece esse nome”. Grande e verdadeiro Ulysses Guimarães!

Agora de volta ao cenário dos desabamentos na noite de quarta-feira no centro do Rio. As primeiras notícias e imagens transmitidas na televisão deixaram em suspense o País e a parte do mundo que ainda não dormia quando os prédios começaram a ruir, reproduzindo cenas dramáticas de gente correndo da nuvem de poeira que os perseguia, como se o pesadelo do 11 de Setembro em Nova Iorque se repetisse na Cidade Maravilhosa.

Logo estavam na área os soldados do Corpo de Bombeiros (é fácil entender porque a população do Rio os ama e respeita tanto, embora Cabral pareça detestá-los). Socorrendo, ajudando, tentando retirar pessoas ainda com vida dos escombros.

Em seguida chegou também o prefeito Eduardo Paes, que estava em um teatro em Ipanema no lançamento da peça sobre Zezé Macedo. Saiu direto de um auditório de comédia para um palco de tragédia. Cumpria assim com tranqüilidade no meio da confusão – mas muita decisão e coragem, é preciso reconhecer – o seu dever de homem público com a população que o colocou no comando administrativo da cidade do Rio de Janeiro.

E o governador Sérgio Cabral? Em outros momentos, trágicos, ele foi apanhado em viagens mal justificadas ao exterior ou em estranhas transações com magnatas dos empreendimentos privados em Porto Seguro, na costa sul da Bahia. Desta vez, aparentemente, Cabral estava na capital do estado que ele governa. Ainda assim, ele que é um falastrão contumaz na hora de contar vantagens, se manteve escondido. Em silêncio. Ausente.

Com a suspeita bem humorada levantada pelo site carioca “Sensacionalista” de que o governador estava “entre os desaparecidos dos desabamentos”, Cabral resolveu dar sinal de vida. Mais de 15 horas depois dos desabamentos, na tarde do dia seguinte, o governador resolveu quebrar o silêncio. Em entrevista à Rádio CBN disse o óbvio, mas com palavras reveladoras: lamentou a tragédia, afirmou ter acompanhado os trabalhos, que estão sob o comando do prefeito Eduardo Paes e do secretário estadual de Saúde, Sérgio Cortes. E sentenciou com mais uma obviedade e outro tiro no pé: “a tragédia poderia ter sido ainda maior caso tivesse ocorrido horas antes”.

“Por amor de Deus, me bata um abacate!”, como dizem os baianos.

“Os medrosos têm cheiro!”, regista Ulysses em seu Decálogo do Estadista, e não custa repetir sempre esta verdade. Resta agora saber, diante dos fatos da recente tragédia carioca, de que ou de quem tem medo o governador Sérgio Cabral Filho?

Como no samba, responda quem souber.