O Globo
Estradas brasileiras são ruins também por causa da baixa qualidade do material
Ônibus passa por trecho da RJ-117 na altura do bairro Vale das Videiras onde a pista cedeu:
rodovia foi inaugurada em junho de 2010 e apresenta várias rachaduras
PABLO JACOB
RIO - É um caminho perigoso, acidentado. As estradas brasileiras são ruins não só porque não têm conservação, mas também pela baixa qualidade do material usado nas obras milionárias de recuperação. Apesar de a Lei de Licitações determinar tempo médio de vida útil de dez anos pós-reforma, grande parte das rodovias federais e estaduais volta a estar esburacada e a oferecer perigo muito antes disso.
Desgaste prematuro do asfalto, buracos que se transformam em crateras, erosão no leito das pistas e quedas de barreira são percalços comuns nas vias de todo o país e demonstram a baixa qualidade das obras e do material utilizado. Há casos de estradas com trechos comprometidos antes mesmo de a pavimentação completar dois anos. A BR-474, em Minas Gerais, por exemplo, foi contemplada com obras de pavimentação há três anos, mas já precisa de recuperação.
Ao longo dos 160 quilômetros da BR-474, há buracos e risco permanente de quedas de barreiras. Em 2009, a estrada foi dividida em três trechos, sendo dois pavimentados. Interrompidas, as obras do terceiro deverão ser retomadas este ano. No entanto, além de concluir o projeto, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) terá de desembolsar recursos para a recuperação da extensão asfaltada. A obra total foi orçada em R$ 53 milhões, sendo R$ 42 milhões em verbas federais e o restante, estadual. Na avaliação feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) divulgada no fim do ano passado, é uma estrada ruim.
Problemas estruturais não comprometem apenas a malha viária federal. No Rio, a rodovia RJ-117, que liga Paty do Alferes a Petrópolis, na Região Serrana, não durou nem dois anos. Inaugurada em junho de 2010, a estrada tem rachaduras no asfalto e, na localidade de Vale das Videiras, o piso cedeu e a rodovia está em meia pista. As chuvas do início deste mês ainda provocaram quedas de barreira em praticamente toda a extensão da via. Os deslizamentos cobriram de barro o asfalto, e a cada chuva forte a terra vira um atoleiro. As obras custaram R$ 31 milhões. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-RJ) informou que vai recuperar a estrada após o período de chuvas.
Em Roraima, a BR-174 é dor de cabeça para os motoristas. Recuperada em 2010, apresenta centenas de buracos que dificultam a passagem até de caminhões e ônibus. Já no Rio Grande do Norte, foram empregados R$ 167 milhões em obras em estradas federais em 2009 e 2010. Mas rodovias como a BR-405, no estado, foram consideradas ruins pela avaliação da CNT.
— O tempo de vida útil não é alcançado porque há projetos ruins, execução errada e material de baixa qualidade comprado como se fosse de primeira. E, o que é pior, as fraudes se multiplicam por falta de fiscalização — diz o professor da UnB especialista em obras de pavimentação, Deckran Berberian.
Este ano, o Dnit prevê a restauração de 32 mil quilômetros de vias federais e de 1.500 pontes, um investimento de R$ 16 bilhões. Os recursos também serão usados em operações tapa-buracos para garantir o mínimo de condições de tráfego. Mas o programa de recuperação já derrapa em problemas. O Tribunal de Contas da União determinou que o Dnit faça correções em processos de licitação e contratos de manutenção. Foram identificados erros como projetos deficientes ou desatualizados.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Eis aí o verdadeiro festival de horror em que se tornou a administração pública brasileira: em apenas quatros reportagens, é imensurável quase o tamanho do desperdício de dinheiro público em obras mal concebidas, pessimamente executadas e, por conseguinte, sem nenhuma fiscalização.
Quando se analisa o volume de recursos que o Estado recebe da sociedade e o confrontamos com o retorno dado por este Estado à sociedade, impossível não nos indignarmos. Não é possível que tamanho desperdício prossiga por mais tempo.
A sociedade não pode continuar arcando com o prejuízo que o mau gestor ocasiona. É preciso que se faça uma cobrança imediata no sentido de que, tanto o irresponsável pela contratação quanto o executor de obras ruins sejam criminalizados e responsabilizados em ressarcirem o Erário por sua incompetência. Quem sabe a partir deste dia nossas estradas até melhorem, o custo Brasil se reduza ao mínimo e as nossas empresas voltem a ser competitivas. Do jeito que a coisa anda, não há Bolsa BNDES que dê jeito!!!! E o número de acidentes tendem a crescer continuamente, ceifando milhares de vidas. Será que cerca de 50 mil acidentes por ano, 60 mil mortes apenas nos três últimos anos, e cerca de R$ 30 bilhões de prejuízos anuais provocados por acidentes de trânsito não são capazes de acender um sinal de alerta para o país?
