domingo, dezembro 08, 2013

Até quando a negligência fará vítimas nos estádios de futebol?

Adelson Elias Vasconcellos.

O que aconteceu hoje, no jogo entre Atlético Paranaense e  Vasco Gama é bem a cara do Brasil dos nossos dias. Raras são as partidas de futebol realizadas no país que não acabam em pancadaria entre torcedores, dentro ou fora dos estádios.

Nas informações iniciais, se quis atribuir culpa ao Ministério Público, por haver determinado que dentro do estádio, o policiamento somente poderia ser feito por seguranças privados.  Desinformação pura. Ocorre que há uma lei estadual que proíbe a presença de policiais fardados . Em Santa Catarina, portanto, conforme esta lei que podemos chamar de “burra”  ou estúpida”, o policiamento dentro dos estádios e em seu entorno somente poderá ser feita por seguranças privados. 

Acontece que, conforme reza o regulamento do próprio campeonato, a CBF determina que o policiamento dentro dos estádios deverá ser de competência de policiais privados. Então, diante de uma lei local, contrária ao regulamento da CBF, por que esta entidade autorizou a realização do jogo em Joinville?  Sinceramente, neste caso, tanto as autoridades locais quanto a própria CBF são culpadas pelo tumulto.

Mas, vamos avançar um pouco. Por que estas brigas nos estádios se repetem com tamanha frequência? Será apenas culpa das chamadas torcidas organizadas? Sim e não. Sim, porque dentro destas torcidas o clima de guerra com tra torcidas organizadas é real. Assim, não se tratam apenas de torcedores. São bandidos na própria acepção da apalavra. E não, porque se na primeira e segunda briga, os responsáveis pelo tumulto tivessem sido exemplarmente punidos e cumprissem pena rigorosa, certamente, serviria como desestímulo para que novas tragédias se repetissem.

Mas não é isso que acontece. Neste ínterim, cabe uma pergunta: no que resultou a morte do garoto na Bolívia provocado pela torcida do Coríntians? A própria diplomacia brasileira agiu intensamente para que os 12 presos fossem libertados. Além disso, se arranjou um menor  para servir de laranja para que ninguém fosse punido pela justiça boliviana. 

Dias depois, um daqueles estúpidos presos e depois libertados na Bolívia, foi flagrado em nova briga em Brasília. Pergunto: este cidadão está preso? Está impedido de ir a futebol? Certamente que não. Continua livre, leve e solto.

Ora, para um país que tem a pretensão de sediar uma copa do mundo, que será disputada em 12 cidades-sedes, esta violência toda que estamos assistindo domingo a domingo nos estádios brasileiros, já não era para ter sido coibida? 

Avanço ainda um pouco mais. Qual a punição “rigorosa” prevista em lei para estes bandidos travestidos de torcedores? Que iniciativa a classe política brasileira tem tomado para criar uma legislação rigorosa que ponha fim aos tumultos? Estão esperando o que, que aconteçam tragédias com vítimas fatais?  

Como vimos neste domingo, em reportagem da Exame.com reproduzida no blog, a violência, não só nos estádios, mas em todo o país tem se acentuado de maneira incontrolável.  Estamos matando mais do que qualquer guerra. São mais de 50 mil homicídios por ano. E aí, nada será feito, bandido continuará tendo vida mansa e liberdade total de ação? 

O agravante no jogo de hoje, entre Atlético Paranaense e Vasco da Gama, é que ele transmissão internacional. E esta terá sido a imagem que o país passou a seis meses do  início da copa do mundo. É assim que se pretende atrair milhares de turistas a visitarem o Brasil a partir de junho de 2014?

Não são fatos eventuais, tampouco ações de Black blocs. A violência no futebol já vem ocorrendo há alguns anos, e muitas vezes chamamos a atenção para estes tumultos. Como não houvesse punições, a violência vem num crescendo assustador, sem que perceba, tanto de parte das forças policiais, como das autoridades políticas, como ainda da própria entidade responsável pela organização e realização dos campeonatos nacionais, nenhuma atitude minimamente responsável e direcionada a garantir segurança aos verdadeiros torcedores que vão estádios por puro prazer, e não para duelarem com violência contra outros torcedores. 

Será que desta vez alguém resolverá agir? Será que iniciativas e providências serão tomadas no sentido de garantir ambiente de segurança nos estádios do país?  Serão que os brigões finalmente serão punidos com rigor e terão seu ingresso nos estádios proibido durante um bom tempo? 

Espera-se que uma verdadeira tragédia com vítimas não venha acontecer para comover nossas autoridades fazendo-as a agir. Chega de tanta negligência, de tanta omissão, de tanta irresponsabilidade. 

Segue a reportagem do Estadão, com a imagens da estupidez. 

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Torcedores de Atlético-PR e Vasco brigam e fazem jogo parar em Joinville

Juiz decide interromper o jogo. Um Helicóptero pousa no estádio para socorrer vítimas, algumas em coma


Franklin de Freitas
Torcedor do Atlético-PR é retirado de maca e enviado para o hospital 
durante confronto entre torcedores do Vasco e Atlético

SÃO PAULO - As torcidas de Atlético-PR e Vasco fizeram neste domingo o jogo parar. A violência dos dois lados deixou feridos nas arquibancadas da Arena Joinville. Os atleticanos invadiram espaço reservado aos vascaínos, encurralando os rivais num canto do estádio. Não havia policiamento na parte de dentro do campo por determinação das leis locais. O sargento Adilson Morena, da Polícia Militar, disse que quem faz a segurança interna nos estádios de Joinville é o time mandante, no caso deveria ser o Atlético-PR.

Havia, segundo ele, 120 policiais na parte externa do estádio, e 80 contratados para as áreas internas. O que se viu foi uma das piores brigas de torcida dos últimos tempos. 

As imagens chocam. A confusão na arquibancada foi rápida e violenta. Depois que os vascainos apanharam dos atleticanos que resolveram invadir o espaço do adversário, um grupo de torcedores do time do Rio conseguiu pegar dois atleticanos e não parou de bater nos rapazes, que também estavam envolvidos na briga, até que o policiamento chegou 'atirando' com balas de efeito moral e assim conseguiu frear as agressões. Eram pontapés, socos, chutes e pauladas. Havia mulheres no local reservado aos vascaínos.

Houve corre-corre. Muita confusão. As imagens da SporTV, que transmitia o jogo ao vivo, mostravam um torcedor com a camisa do Atlético-PR esticado no chão, de pescoço mole e sem se mexer. Havia outros. As torcidas se enfrentaram por cerca de cinco minutos, tempo suficiente para deixar um rastro de destruição. O jogo estava no mínuto 17. Pelo menos um torcedor do Atlético-PR permaneceu desacordado. Quatro foram levados para hospitais. 

 Cleber Yamaguchi/Eleven
Torcedor do Atlético Paranaense é visto ferido durante o confronto com torcedores do Vasco


ESTADO DE COMA
Dirigentes do Vasco informaram que torcedores do clube também foram levados ao hospital São José em estado "gravíssimos". Correu a informação que um vascaíno morreu após levar pauladas na cabeça. Autoridades do jogo e do hospital não confirmaram o óbito até 18h30. A Polícia informou inicialmente que apenas dois torcedores haviam sido levados para o hospital São José. Eles estavam bastante machucados. Um helicóptero teve de descer no campo para prestar atendimento médico. Carregou um torcedor. "As cenas que vi na arquibancada nunca havia visto antes no futebol", disse o técnico do Atlético-PR, Vágner Mancini.

Da mesma forma, Adílson Baptista, comandante do Vasco, parecia incrédulo e estarrecido com o enfrentamento e brutalidade das torcidas. "É triste e lamentável. Às vésperas da Copa do Mundo você vê cenas como essas, com torcedores sendo agredidos e se agredindo. Estou chocado. O mundo está vendo isso. Houve muita confusão e acho até que tem gente morta (não há informações de vítimas). Isso não é esporte."

O juiz decidiu parar o jogo por 30 minutos inicialmente, que depois foi retomado. Não havia clima para a continuidade da partida. Dirigentes do Vasco queriam deixar o estádio. Os jogadores do Vasco também se disseram amedrontados com o que o torcedor do seu próprio time poderá fazer caso se confirme o rebaixamento para a Segunda Divisão.

 Heuler Andrey
Torcedor vascaíno apanha e é socorrido durante partida do Campeonato Brasileiro


MINISTÉRIO PÚBLICO
O jogo ainda estava no começo, com vitória parcial do Atlético-PR por 1 a 0, quando começou a correria na arquibancada. Alguns torcedores do time paranaense partiram para cima dos vascaínos, que resolveram enfrentar os rivais. Diante das cenas de selvageria, a partida foi interrompida, com jogadores assustados com a violência. Eles tentaram pedir o fim da briga. Não foram ouvidos. Por decisão que teria envolvido a PM, o Ministério Público e o Atlético-PR, não havia policiamento dentro do estádio. Os policiais ficaram do lado de fora da Arena Joinville, enquanto a segurança interna era privada. Depois que começou a briga, a PM resolveu intervir, controlando os ânimos e montando um cordão de isolamento.

O Atlético-PR é o mandante do jogo, mas foi obrigado a jogar em Joinville para cumprir punição que o impedia de atuar em Curitiba. 

Presunção sem limites

Adelson Elias Vasconcellos

Se há uma coisa que enoja é pessoa oportunista, sem senso de realidade e que se encosta na fama alheia para valorizar a si mesmo.

Mais uma vez, e infelizmente, este é o caso do ex-presidente, senhor Luiz Inácio Lula da Silva, e sua descabida presunção de querer comparar-se, e pior, igualar-se a Nelson Mandela, morto nesta quinta feira, aos 95 anos, na África do Sul.

Em absolutamente nada os dois personagens se igualam. São em tudo e por tudo contrários um ao outro. 

A começar pelo fato de, após 27 anos de prisão, liberto, Mandela jamais requisitou a instalação de uma comissão da verdade para apurar os abusos de seus algozes e de seu povo. Ao contrário, pregou a reconciliação, a união, o perdão, o não revanchismo, a não vingança. Trabalhou desde a liberdade para a irmandade de seu povo. Lula, desde que surgiu para política, outra coisa não fez senão pregar a divisão do povo brasileiro.

Mandela jamais fez distinção entre pobres e ricos, entre pretos e brancos., entre norte/nordeste e sul/sudeste. Para ele, todo o ser humano, independe da cor, da cultura, da ideologia política, era apenas um ser humano com direitos a serem respeitados por todos os demais seres humanos.

Mesmo durante a campanha eleitoral que o levou a presidência de seu país,  Mandela jamais se valeu de ser negro para se impor perante os demais. Terminado o mandato, jamais se valeu de ser ex para se imiscuir  no mandato de seus sucessores fosse para palpitar, ou para formar o gabinete de um governo que não mais comandava. Não buscou a reeleição, retirou-se da política e foi lutar por uma campanha humanitária anti-aids, flagelo que assola todo o continente africano.

Quando moço, Mandela saiu de sua cidade natal, foi trabalhar duro e estudar, formando-se em Direito, mesmo diante de toda a miséria e dificuldade que precisou enfrentar. Lula pode acaso exibir o mesmo currículo? Mesmo tendo capacidade, resolveu aposentar-se pela falta de um dedo mínimo. Antes de ser eleito, condenou a reeleição, na presidência quis gozar do benefício. E não se cansa de glamourizar sua ignorância

Jamais Lula poderá ombrear sua biografia à do grande líder sul-africano. Seria um insulto à memória do homem que enfrentou toda a sorte de preconceito e venceu pregando a paz. Mandela jamais correu o mundo pleiteando favores, ou praticando lobby em favor dos empresários de seu país. 

Mandela jamais semeou ódio contra os loiros de olhos azuis do outro lado do Atlântico, jamais vociferou ataques às elites de seu país. Pelo contrário: subjugou-as e uniu, pretos e brancos, sob uma só bandeira, sob um só hino pátrio, sempre conduzido pelo signo da paz entre todos. 

Lula querer igualar sua biografia à de Mandela é um atentado à história; os preconceitos que o líder sul-africano enfrentou foram infinitamente superiores, em violência, aos de Lula. Jamais aquele pregou a destruição de seus adversários políticos, como também, fora do poder, jamais conspirou contra eles ou tentou sabotar seus governos. 

Lutou pela liberdade, pregando a paz. Pregou a união de todos, sem distinguir quem quer que fosse. Jamais se valeu enquanto esteve no poder, para acolher amigos e agasalhar “companheiros” a se refugiar na dolce vita da elite política. 

De Mandela jamais se ouviu uma palavra que fosse para criticar a “mídia”. Como, também, quando na presidência, jamais encaminhou algum projeto pedindo sua “democratização”. 

Sim, é abissal as diferenças que separam Lula de Mandela. Lula deveria louvar os feitos do homem, pobre e simples, que lutou contra o apartheid, e não querer se encostar na fama daquele para se aproveitar em causa própria. Porque, até nisso, ambos estão distantes um do outro como a Terra está para o Sol. É lamentável o comportamento oportunista e demagógico do ex presidente brasileiro. Chegar a ser vexatório. 

Vida bandida do submundo petista
Reportagem da Veja desta semana traz revelações que a muitos podem até parecer surpreendentes, mas que para os que conhecem um pouco a alma petista e acompanham os fatos com olhos de ver, são apenas constatações. Tuma Junior, filho do falecido Romeu Tuma, escreveu e acaba de lançar o livro “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, publicado pela Editora Topbooks (557 págs.). Para quem se interessa em conhecer parte do que se faz nos bastidores do poder, trata-se de leitura obrigatória.

Os fatos ali relatados são estarrecedores. Provam as inúmeras vezes a que nos referimos sobre a atuação do PT, partido que transformou seu governo em estado policial e que usa de maneira desbragada as instituições e órgãos de Estado para praticar verdadeiro assalto e sabotagem ao estado de direito.

E traz, ainda, outra revelação que vai dar o que falar, que sempre se comentou entre poucas bocas da República mas que, agora, são divulgadas de forma indiscutível. Lula, a exemplo de outros petistas graduados, foi, sim, colaborador prestimoso da ditadura militar. Não são apenas acusações, há farta documentações probatória das inúmeras imputações que são feitas, dentre elas a saber.

a: o caso do cartel de trens em São Paulo:
b: o dossiê para incriminar Perillo;
c: o dossiê para incriminar Tasso Jereissati (com pressão de Aloizio Mercadante);
d: a armação para manchar a reputação de Ruth Cardozo;
e: o assassinato do petista Celso Daniel, prefeito de Santo André;
f: o grampo no STF (todos os ministros foram grampeados, diz Tuma Junior);
g: a conta do mensalão nas Ilhas Cayman…

Por tudo isso,  o livro não poderia ter melhor título. E comprova, de forma definitiva, que o PT tem um muito bem organizado, desde sempre, bunker criminoso para a montagem de dossiês mentirosos para desqualificar e destruir seus adversários. 

Sem dúvida, o livro de Tuma Junior é uma obra de valor inestimável para todos quanto desejam ver o país passado a limpo. Não era sem tempo. Há muito que se fazia necessária desmistificar o petismo e mostrar seu verdadeiro lado fascista.

Mistura tóxica: inflação, estagnação e crise fiscal

Rolf Kuntz 
O Estado de S.Paulo

Ninguém vai jogar a toalha. A inflação já estourou a meta, com 4,95% até novembro. A economia encolheu 0,5% no terceiro trimestre e cresceu apenas 2,3% em 12 meses. Mas a presidente Dilma Rousseff ainda poderá falar em vitória se o ano terminar com alta de preços inferior a 5,84%, resultado final de 2012, e expansão do produto em torno de 2,5%. Nessa altura, poucos lembrarão a maior parte dos micos de 2013, incluída a entrevista ao jornal El País, quando ela anunciou a revisão do crescimento do ano passado para 1,5%. Houve revisão, sim, mas de 0,9% para 1%, como informou nesta semana o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Talvez numa próxima correção apareça a taxa de 1,5%, mas quem se importará, além da presidente?

Em qualquer país governado por gente comum, a mistura de crescimento econômico em torno de 2,5% com inflação acima de 5% seria considerada um desastre. Neste Brasil de governantes incomuns, as autoridades torcem por esse resultado. Que mais poderiam ambicionar, neste momento? Além disso, cantam vantagem, apontando países com crescimento menor, mas, curiosamente, em posição bem melhor na escala de risco de crédito. Agências de classificação cometeram erros notáveis nos últimos 20 anos, mas seus critérios, de modo geral, fazem sentido e suas avaliações são levadas a sério no setor financeiro.

No mercado, todo mundo sabe do risco de rebaixamento da nota do Brasil. O ministro da Fazenda até já se mostrou preocupado com essa possibilidade. Mas nem por isso decidiu cuidar seriamente das contas públicas, admitir os problemas e pôr de lado a contabilidade criativa e a política de remendos fiscais. Há poucos dias o ministro desistiu de mais uma operação para maquiar as contas federais - uma jogada com participação da Caixa e da Eletrobrás. Mas só mudou de ideia quando uma reportagem do Valor escancarou a manobra e toda a imprensa foi atrás da história. A armação de um lance desse tipo havia sido mencionada algum tempo antes na cobertura do Estado.

Segundo o plano, a Caixa financiaria, com garantia do Tesouro, pagamentos devidos por subsidiárias do setor de energia a um fundo setorial. Isso pouparia ao Tesouro uma transferência de R$ 2,6 bilhões. Assim ficaria um pouco mais fácil obter o superávit primário de R$ 73 bilhões prometido pelo ministro. Se o governo alcançar esse resultado, será principalmente graças a manobras e a receitas extraordinárias, como os bônus de concessões de infraestrutura e as parcelas do programa de refinanciamento de dívidas tributárias, o Refis. Este programa deverá render uns R$ 20 bilhões. Só a Vale deverá entrar com uns R$ 6 bilhões nessa coleta. E só o bônus do leilão do campo de Libra, no pré-sal, deverá proporcionar R$ 15 bilhões. A soma desses valores garantirá quase metade do resultado primário fixado para o governo central.
O desarranjo das contas públicas tem sido apontado como um dos principais fatores da inflação. A alta de preços está obviamente vinculada ao descompasso entre a demanda e a oferta interna, reconhecido por boa parte dos analistas e de novo mencionado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC). O presidente do BC, Alexandre Tombini, citou num discurso, nesta semana, o recuo das taxas acumuladas de inflação, mas é necessário muito otimismo para festejar os números conhecidos.

A inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), chegou a 4,95% no ano e a 5,77% em 12 meses. A variação mensal ficou em 0,54%, ligeiramente abaixo da observada em outubro (0,57%). Cinco dos nove grupos de despesas encareceram mais que no mês anterior. O índice de difusão - parcela de itens com aumento de preços - passou de 67,7% em outubro para 68,2%, confirmando, mais uma vez, a ampla disseminação das pressões inflacionárias. Não há como sustentar - nem havia antes - a tese oficial de uma inflação derivada da alta dos alimentos ou da valorização internacional das commodities. O custo da alimentação tem subido menos, assim como os preços das matérias-primas, como confirma a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Entre outubro e novembro a alta dos preços no atacado passou de 0,71% para 0,12%, enquanto a dos preços ao consumidor acelerou de 0,55% para 0,68%.

Nem um resultado final abaixo dos 5,84% do ano passado está garantido, porque o IPCA de dezembro vai registrar os aumentos de preços de combustíveis, cigarros, eletricidade, água e esgoto, como observou o economista Fernando Parmagnani, da consultoria Rosenberg & Associados. Além disso, um ligeiro recuo da inflação neste ano - por enquanto, só uma hipótese - de nenhum modo garante uma nova redução do acumulado em 2014, advertiu Salomão Quadros, da FGV. Houve "coisas atípicas" neste ano, disse ele, lembrando a interferência política nos preços administrados.

Inflação alta e contas públicas em baixa combinam de forma desastrosa com a indústria emperrada. A produção industrial cresceu 0,6% de setembro para outubro - uma bela notícia, depois do fiasco do terceiro trimestre. Mas a comemoração pode ter sido exagerada.

É bom examinar as médias móveis trimestrais de dois anos. Como a indústria foi mal em 2011, a evolução em 24 meses ficou abaixo de pífia. Nos três meses terminados em outubro, o índice de produção praticamente repetiu o de igual período de 2011, no caso da indústria geral. O indicador do segmento de bens de capital (máquinas e equipamentos), 17,6% superior ao da média de agosto a outubro do ano passado, parece espetacular. Mas o aumento em dois anos ficou em 6,03%. Isso combina com uma taxa geral de investimento - público e privado - na altura decepcionante de 19% do PIB. Não haverá crescimento muito maior com esse investimento.

É a tua, tá?

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

É triste ouvir políticos veteranos comportando-se como crianças. Porque, fora a safadeza, isso de dizer "eu sou ladrão, mas foi ele que começou" é infanto-juvenil: se é ladrão, fora da lei, que seja investigado e julgado. Se o adversário também é ladrão, que também seja investigado e julgado. Não é porque os ladrões estão em partidos adversários que a ladroeira de um compense a do outro.

A moda agora é reclamar da demora no julgamento do Mensalão mineiro, como se isso tornasse injusto o julgamento do Mensalão. Só que uma coisa não tem nada a ver com outra: os responsáveis pelo Mensalão mineiro têm de ser julgado, e logo, mas não para compensar o processo contra os réus do Mensalão. Um criminoso não pode deixar de ser punido porque outros criminosos ainda não o foram. E não se trata apenas do Mensalão mineiro (onde há pelo menos um tucano que já foi importante, Eduardo Azeredo, ex-presidente nacional do PSDB, ex-governador de Minas, há gente que mudou de lado, como Marcos Valério, há amplo material para julgamento). Há o escândalo da Bancoop, o do Banestado, o da Alstom-Siemens (cartel dos trens urbanos de São Paulo, com eventual propina), o desvio do ISS da Prefeitura paulistana, que já derrubou um secretário do prefeito Haddad (PT). O que não falta é caso para ser investigado. Que a filiação política não seja levada em conta: o que se vê nas propinas paulistanas, por exemplo, é uma aliança pluripartidária para delinquir - vulgo "quadrilha".

"Mamãe, foi ele que começou". E daí? Daí, o final tem de ser nos tribunais.

A emenda e o soneto
José Genoíno renunciou à Câmara, segundo se informou, para não ter o nome associado à cassação de seu mandato. Preferiu associar seu nome ao do ex-presidente Collor, do senador Renan Calheiros, do senador Jader Barbalho, do deputado Valdemar Costa Neto, que também renunciaram para fugir à cassação.

Dinheiro, pra que dinheiro
Na ditadura, o Campeonato Nacional era arma de campanha. Dizia-se: onde o Governo vai mal, um time no Nacional. A mágica ainda existe, agora com verbas de propaganda: da presidente ao prefeito da menor cidade, todos multiplicaram gastos com anúncios. A verba estadual paulista era de R$ 33,3 milhões em 2003; hoje, é de R$ 300 milhões (sempre com o PSDB no Governo). O tucano Geraldo Alckmin dobrou a verba, por coincidência em ano eleitoral. A Prefeitura paulistana passou de R$ 12 milhões em 2005 (prefeita Marta Suplicy, PT) para R$ 110 milhões em 2009 (prefeito Kassab, DEM). O Governo Federal (PT) gasta R$ 2 bilhões por ano para nos informar que país rico é país sem pobreza.

Propaganda oficial só é permitida pela Constituição (parágrafo 1º, inciso XXI, artigo 37) em "caráter educativo, informativo ou de orientação social". Mas quem dá bola para a Constituição e as leis se o dinheiro não é deles, é nosso?

Implicância
O senador Zezé Perrela, do PDT mineiro, defendendo seu filho Gustavo, deputado estadual pelo Solidariedade, cujo helicóptero foi apreendido com 450 quilos de cocaína, disse que ninguém de sua família precisa da política. Tudo bem - mas por que, então, tanto a Assembléia mineira quanto o Senado foram chamados a entrar com dinheiro público para pagar o combustível do "helipóptero"?

Falando para o mundo
O Ministério Público de São Paulo recomendou a suspensão de dez contratos de reforma e modernização do Metrô paulistano, por "indícios de irregularidades". O secretário dos Transportes de São Paulo, Jurandir Fernandes, defendeu os contratos. 

Até aí, tudo bem; mas soa estranho ouvir do secretário que "o mundo talvez tenha de aprender" com o Metrô daqui. Este colunista acha bom o Metrô paulistano; sem dúvida, é o meio de transporte urbano mais bem cuidado do país. Mas já andou de metrô em algumas cidades estrangeiras e, sem entrar em detalhes técnicos, não entende o que é que os gringos têm a aprender aqui, não.

Um ou dois fatos
Um dos contratos de reforma do Metrô paulistano se refere à implantação do sistema de segurança CTBC. O sistema, fabricado pela Alstom, não se adapta aos trens que ainda rodam em São Paulo. Não é a primeira vez que fatos como esse acontecem - coisa desagradável para quem quer ensinar o mundo. Houve os trens chineses que o Rio importou e não cabiam nas plataformas. E é provável que São Paulo sido o último cliente a usar computadores de cartão perfurado. Era difícil achar cartões, especialmente porque a Westinghouse, que forneceu os computadores, tinha deixado o ramo da informática uma ou duas décadas antes.

Desvio permitido
A deputada Janira Rocha, do PSOL fluminense, é acusada de exigir parte do salário dos funcionários de seu gabinete e de desviar dinheiro de um sindicato para financiar a campanha. O partido, no Rio, decidiu expulsá-la; mas a direção nacional do PSOL a manteve. Mais dinheiro é melhor que menos dinheiro.

O PSOL faz lembrar o secretário de Estado americano Cordell Hull, questionado pelo apoio ao feroz ditador dominicano Rafael Trujillo: "Pode ser um canalha, mas é o nosso canalha". Na verdade, ele não disse "canalha", mas deixa pra lá.

carlos@brickmann.com.br 
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De trás não vem ninguém

Fernando Gabeira  
O Estado de S.Paulo

Nas estradas, comendo poeira, não tenho mais o tempo dos analistas profissionais. No passado líamos romances e ensaios nos intervalos do trabalho cotidiano. Soterrado por gadgets eletrônicos, baterias, pilhas alcalinas, plugs P2 e XRL, é preciso tempo também para ler os manuais. Sou um mané de manuais. Alegro-me com as descobertas, intrigo-me com a lógica e, às vezes, desespero-me com o tamanho das minúsculas letras. Os escritores de manuais têm futuro com a produção incessante de novos modelos, novas funções. Futuro bem mais promissor que o de um cronista de estrada perdido em temas que desafiam os manuais.

Há duas semanas, no Uruguai, concluí que, apesar das diferenças, havia algo semelhante ao que se passa no Brasil. Um interlocutor uruguaio me dizia: "O governo da esquerda é medíocre, mas a oposição não me entusiasma como alternativa". As eleições, a julgar pelo momento, não devem alterar a balança do poder. Também em nosso país, de acordo com as pesquisas, muita gente que considera o governo medíocre não se entusiasma com a oposição como alternativa do poder.

O governo no Uruguai legalizou a maconha pelo caminho parlamentar. Evitou o plebiscito porque talvez saiba que a maioria é contra. No entanto, uma decisão tão polêmica não mudou em nada o favoritismo de Tabaré Vázquez, o candidato da esquerda.

Aqui, no Brasil, o resultado do júri do mensalão, e também a maneira como os condenados do PT reagiram ao serem presos, erguendo punhos de uma finada revolução bolchevique, deveriam desgastar o partido e o bloco no poder. No entanto, o prestígio de Dilma Rousseff cresce, enquanto a oposição patina. Nas corridas de cavalos tínhamos uma frase para definir o quadro, quando um dos competidores se destacava: de trás não vem ninguém.

Essa zona de conforto é comum aos dois governos. Mas há diferenças no próprio exemplo: o governo uruguaio enfrenta a maioria com uma decisão que acredita ser uma continuidade histórica. O país sempre esteve adiante em temas como casamento gay, prostituição, divórcio, aborto e, além disso, ainda no século 19, resolveu garantir educação obrigatória, gratuita e laica a todos os uruguaios.

São dois movimentos diferentes na mesma zona de conforto. A esquerda uruguaia desafia a maioria porque se crê dotada de uma tarefa histórica e dá um passo típico da vanguarda que aplica seu programa por achar, a despeito da opinião pública, que sabe o que é melhor para todos.

No Uruguai, o presidente José Mujica tem uma vida austera, anda de Fusca, recebe $ 1 mil de salário e daqui a pouco deixa o poder. Aqui a zona de conforto é mais pé na terra, mais sensual e materialista: ocupar a máquina do Estado em todas as suas engrenagens, justificar a corrupção a ponto de romantizá-la e usar o dinheiro público para financiar um grupo escolhido de empresários. Aqui há bolsa para ricos e pobres, o consumo é a nossa droga.

Não leio apenas manuais na estrada. Escolho sempre o corredor, com todo o respeito pelos simpáticos vizinhos. Esta semana viajei com Simon Critchley nas mãos. para reler seu interessante O Livro dos Filósofos Mortos. Para ele, negamos o fato da morte mergulhando nos prazeres do esquecimento, da acumulação de dinheiro e bens materiais ou, então, numa promessa de imortalidade oferecida pelas religiões antigas e as do estilo New Age. Ou se busca a transitória consolação de um esquecimento momentâneo ou a miraculosa redenção depois da vida.

É um enredo tão poderoso que coloniza a própria política onde florescem as incursões em busca do tesouro e aventureiros religiosos. A política tem que ver com o consumo digno e alguns objetivos coincidentes com a religião. Mas não se resume nisso.

Ao analisar a morte de muitos filósofos, Critchley disse que por meio desse roteiro mórbido tentava encontrar o sentido e a possibilidade da felicidade. A política, ao lado do amor e da amizade, é uma das respostas para esse enigma. É duro vê-la desaparecer do horizonte envolta numa nuvem de resignação e fanatismo religioso e saber que não existe resposta nos manuais.

O ano que entra, com Copa do Mundo e eleições, é um desses anos em que o "nunca fomos tão felizes" do discurso oficial é posto contra a parede.

A oposição reclama que o governo é o único que tem visibilidade na mídia. De fato, não só visibilidade, mas instrumentos de poder, helicópteros para voar, enfim, uma campanha perfeita: não se gasta nada com o máximo de repercussão. Mas há um aspecto que a oposição precisa compreender: a importância dos fatos. Se não surgem ações nem discursos em conexão com os fatos que interessam às pessoas, a imprensa não pode fazer nada.

Federalismo ou julgamento do mensalão? Em que planeta nós estamos? Nada contra o federalismo, mas é algo que preocupa governantes estaduais e está dentro da esfera política administrativa. O mensalão vivia nas conversas de rua, na rede.

É fundamental ter programas e fazer propostas para todos os setores num momento como este. Contudo um programa só ganha vida quando se conecta com o interesse das pessoas reais.

Assim não dá. Quem sabe no ano que vem?

Nunca me esquecerei de um homem da minha cidade conhecido como "Antônio me abraça". Ele entrou numa casa de apostas que irradiava uma corrida de cavalos e disse sobre o tordilho que liderava a prova: "Só perde se quebrar a perna". Pois quebrou.

Antônio dedicou os últimos anos de sua vida a obras de caridade e abandonou o ramo dos milagres. Não se pode contar com ele.

Se não houver uma disposição de se encontrar com a sociedade, a onda pode vir novamente em 2014, sem chance de inspirar a alternativa política. De tudo fica um pouco. Mas não precisa ser tão pouco.

Mandela e a libertação das amarras da revanche

Fernando Henrique Cardoso
O Globo


RIO - O mundo inteiro chora a morte de Nelson Mandela. Para nós, brasileiros, sua ação representou, além de um apelo forte à consolidação de uma nação independente, a luta pela liberação do ser humano das amarras, tanto do racismo, como da revanche. Sua vida foi envolta por uma aura de grandeza, de decência e de humildade. Ninguém definiu melhor a relação entre Mandela e seus contemporâneos que sua conterrânea Manphela Ramphele: “Não foi ele quem buscou a glória, foi esta que o procurou”.

Encontrei-me com Mandela em várias oportunidades. A primeira, em 1995, dois anos depois de ele ter sido eleito presidente da África do Sul. A última, em maio de 2010. Mandela formara um grupo, o Elders — antigos líderes dispostos a continuar pelejando pela paz e pela decência no mundo — e teve a generosidade de me incluir entre os dez escolhidos. Em nosso último encontro, de maio passado, em Johannesburgo, embora já fragilizado pela idade e pelas marcas de tantos anos de lutas e sofrimento, jantou conosco. Continuava lúcido e atento às tragédias do mundo, principalmente, às que ocorriam na África.

Sua simplicidade e, ao mesmo tempo, a imantação que decorria de sua presença deixaram marcas fortes nos que conviveram com ele. Há várias formas para um líder fazer notar sua capacidade de orientar e de comandar. Alguns a demonstram com energia e denodo. Outros com certa demagogia e proximidade com os comandados. Há ainda os que utilizam a persuasão intelectual-emotiva das palavras para serem ouvidos. Mandela dispensava tudo isso: sua presença de homem esguio, elegante, suave, com voz entre rouca, estridente, marcante, dava a seus gestos e a suas palavras uma quase santidade. Por trás de cada movimento seu, sem que ele precisasse recordar, vinha à memória dos interlocutores — fosse uma pessoa ou uma multidão — a história de um lutador que não fugiu aos desafios da luta armada, de um advogado que abraçava as causas dos humilhados e dominados, do prisioneiro que se igualava aos demais no trabalho pesado de quebrar pedreiras, do político que, ainda não liberado, se recusava a compromissos, mas que, tão logo teve a voz livre, pregou a reconciliação sem mentiras.

Era tão forte a impressão de quase sobre-humano que Mandela deixava entre os que com ele conviviam, ouviam ou sabiam de suas ações e palavras que ele próprio se assustou. No último livro que publicou, “Conversations with myself” (que tive a honra de receber das mãos de Graça Machel, com dedicatória do autor, quando ela veio a São Paulo inaugurar, no ano passado, o centro que leva o nome de quem foi sua amiga e minha mulher, Ruth Cardoso), Mandela adverte para os erros que cometeu e recusa o altar em que quase todos o colocaram: “O problema, naturalmente, é que muitos homens de sucesso se dobram a algumas formas de vaidade. Chega um momento de suas vidas em que consideram aceitável serem egoístas e vangloriam-se de suas realizações diante do público em geral como se fossem únicas” (p. 6).

Contrapondo-se a esta atitude, Mandela deixa uma lição diferente. Há um estágio na vida no qual cada reformador social se baseia, fundamentalmente, em plataformas tonitruantes como um modo de se desculpar dos fragmentos de informação mal digeridas que acumulou em sua mente; trata-se de tentativas para “impressionar as multidões, em vez de começar pela simples e calma exposição de ideias e princípios cuja verdade universal se faz evidente pela experiência pessoal e o estudo profundo” (p. 41).

Acrescenta ele, “fui vítima das fraquezas de minha geração, não uma, mas centenas de vezes. Devo ser franco e dizer-lhes que, ao olhar para o passado e ver meus primeiros escritos e discursos, fico chocado por seu pedantismo, artificialidade e falta de originalidade. A urgência de impressionar e de propagandear é claramente perceptível neles” (p. 45).

Na maturidade, declarou com serenidade: “Eu não desejo incitar as multidões. Desejo que elas entendam o que estamos fazendo; desejo incutir-lhes o espírito da reconciliação” (p. 326).

Não é preciso acrescentar mais nada para registrar a grandeza de quem soube mostrar a seu povo e a todos nós o caminho da sinceridade, da fraternidade e da luta contínua pela igualdade que a simplicidade só faz enaltecer. Choremos sua morte; guardemos seu testemunho e suas lições.

Faz de conta

Miguel Reale Júnior
 O Estado de S.Paulo

Termina 2013, ano em que as ruas falaram mais alto que as autoridades. Poucas respostas foram dadas às urgências reclamadas pelos brasileiros.

Das reivindicações das ruas, o cancelamento do aumento da tarifa de ônibus foi compensado pela elevação vertiginosa do IPTU, que a população em geral vai pagar, pois o comércio e a indústria repassarão o acréscimo de imposto ao preço dos produtos postos à venda.

A proposta de reforma política foi um fiasco, desde a ideia de convocação de Constituinte até a indicação de realização de plebiscito. Furos n'água. Há 20 dias o Congresso aprovou minirreforma eleitoral a vigorar apenas nas eleições de 2016, porque as regras eleitorais só podem ser alteradas até um ano antes do pleito. Assim, não passa de mais um faz de conta.

Além do mais, a lei aprovada modifica detalhes que em nada alteram a estrutura do sistema eleitoral. Pode-se, a título de exemplo, lembrar a introdução de disciplina acerca da comprovação de gastos com passagens aéreas por partido político, a serem certificados, tão só, por fatura ou duplicata emitida pela agência de viagem. Em outra disposição, proíbe-se o uso de cavaletes com propaganda em vias públicas e a pintura de muros de imóveis. Modifica-se também o artigo 26 da lei regulamentadora das eleições para estabelecer limites a gastos com alimentação do pessoal prestador de serviços eleitorais, bem como a aluguel de veículos automotores.

Como se vê, as inovações legislativas em nada refletem a necessária reforma do sistema eleitoral e partidário, tão reclamada. Dentre as mudanças, cabe buscar as menos irrelevantes.

Questão polêmica diz respeito às pesquisas durante a campanha eleitoral, que restam proibidas nesse período, para se evitar presumido sugestionamento do eleitor em prol do favorito ou contra eventual perdedor, decretando-se o infantilismo do eleitorado, que deve remanescer ignorando as preferências. Mas, a meu ver, é inconstitucional essa norma ao vedar a publicação de pesquisa expressiva de manifestação de pensamento da sociedade.

De outra parte, reputa-se não constituir campanha eleitoral antecipada a comunicação e a posição pessoal sobre questões políticas nas redes sociais, cuja força é inconteste nos dias de hoje, com o que se libera a todo e qualquer tempo a campanha eleitoral. Proíbe-se pesquisa no período eleitoral, mas permite-se manifestação pelo Twitter ou pelo Facebook a partir da publicação da lei até o dia das eleições: contradição não falta ao legislador.

Considera-se propaganda eleitoral antecipada a convocação de rede de radiodifusão pelos presidentes da República, do Senado, da Câmara dos Deputados ou do Supremo Tribunal Federal, "para a divulgação de atos que denotem propaganda política ou ataques a partidos políticos e seus filiados ou instituições". Essa proibição, sem dúvida, é saudável, mas há manifesto equívoco, pois não se trata apenas de propaganda eleitoral antecipada, mas de grave abuso do poder político, a ser sancionado mais seriamente do que com mera imposição de multa, aliás, não claramente sequer prevista nessa hipótese pela lei. E se proibida a convocação de rede de radiodifusão em período pré-eleitoral para divulgação de fatos com caráter de propaganda, estaria assim autorizado que se o fizesse no período eleitoral?

Por fim, limita-se o número de cabos eleitorais, conforme a natureza da candidatura, a prefeito ou a presidente da República, e de acordo com o número de eleitores do município, devendo-se registrar nominalmente as pessoas contratadas, com indicação de seu CPF. Essa é mais uma tentativa de disfarce, pois os principais cabos eleitorais jamais vão constar de qualquer relação: são contratados, por candidatos a deputado, senador ou governador, os prefeitos, vereadores ou candidatos a prefeito derrotados, que jamais vão concordar em constar da relação dos assalariados temporários, formando-se, então, a contingência de se criar indevido caixa 2.

Como se vê, as mudanças, que vão vigorar, recorde-se, apenas em 2016, são de menor monta, irrelevantes para mudar a forma de realizar, com maior proximidade entre eleitor e candidato, o processo de escolha para o Legislativo e com transparência o controle visando a evitar a corrupção eleitoral. Verifica-se, então, outro faz de conta.

O regime prisional semiaberto virou mais um faz de conta. Participei da Comissão Elaboradora do Projeto de Lei de Execução Penal e da Parte Geral do Código Penal e posso afirmar que este código, ao admitir o trabalho externo no semiaberto, deixou à Lei de Execução disciplinar a matéria, segundo a qual, só passado um sexto da pena seria possível o trabalho externo, quando já aplicável o regime aberto. O STJ entendeu não caber tal restrição, confundindo semiaberto e prisão albergue. Deve-se, então, para não fazer do semiaberto um absoluto faz de conta, cumprir o disposto no artigo 124 da Lei de Execução, segundo o qual o trabalho externo é permitido por sete dias, podendo a autorização ser renovada após 45 dias de reclusão. Do contrário fragiliza-se a resposta penal.

Para completar o reino do faz de conta, o PT apresentou texto-base do seu 5.º Congresso Nacional, no qual culpa o presidencialismo de coalizão como responsável pela corrupção, como se seus dirigentes, ora na prisão, tivessem apenas sido vítimas do sistema. Com a desculpa quer empunhar de novo a bandeira da ética, que, como ressaltei em debate com então secretário-geral do partido em 1985, fazia do PT a UDN de macacão, ao se arvorar em dono da moral pública. Dono que a vendeu a alguns "picaretas" no triste episódio do mensalão. Hoje na Papuda, farsantes presos políticos transformaram-se também em vítimas do sistema presidencialista que aprovaram na Constituinte. O País vive uma tragicomédia.

O enguiço

Maria Helena RR de Sousa
Blog Noblat

O Brasil está enguiçado. Sem instrução e sem educação. Não há possibilidade de um país crescer com tanta ignorância e tanta deseducação. E tanto desamor.

Do jeito que o PT fez a cabeça das pessoas, ao discordar desse governo você é mau, cruel, racista, homofóbico, nobre falido, fascista, comunista e outras delicadezas.

“Gosto de amigos que têm mentes independentes, porque fazem você ver os problemas por todos os ângulos", escreveu Mandela em seu diário, na prisão, em 1975.

Sou amiga do Brasil. Mais que amiga, amo o meu país. Por duas vezes tentei morar fora, não deu certo. Falo como amiga e espero que essas palavras calem fundo nos que me leem porque vou discordar e muito:

Chega de universidades. Construam creches, hospitais e não deixem para amanhã o saneamento básico. Fechem a fábrica de universidades e abram uma de prisões.

Comecem por reformar as existentes, não só sua estrutura como seu espírito. De que serve prender e soltar uma mulher que roubou uma bolsa? Ou um homem que assaltou uma loja? Prender e soltar sem antes fazer com que percebam que há outros modos de viver e dar a eles a possibilidade de levar uma vida melhor?

Como? Com aulas, aulas e aulas. Alfabetização, cursos técnicos. Leitura, muita leitura, cinema, palestras, debates, higiene, exercícios, saúde. A prisão não pode ser um fim em si. A prisão deve ser o caminho para uma vida melhor.

Questão de organização. Na cidade X faltam costureiras? Ensinem costura. Na outra faltam cozinheiros? Ensinem a cozinhar. De que nos adianta ter um advogado preso, não era melhor ele trabalhar para o Estado dentro da cadeia? Ensinando, alfabetizando, ajudando quem necessita?

Ao ler a entrevista recente da filha do Genoino, na qual ela chora ao lembrar que seu pai na Papuda bebia água da torneira, li, aqui no Blog, reações espantosas. Todas furiosas com a moça por ela ter esse cuidado com o pai. O engraçado é que não vi ninguém chocado ao saber que uma instituição federal, dentro da capital da República, não tem água filtrada em suas torneiras!

Trago aqui três fotos de prisões:

Da esquerda para a direita: Brasil; EUA; Noruega.

A americana é federal e só recebe criminosos de colarinho branco; a norueguesa tem entre seus presos mais célebres o sujeito que matou 77 pessoas.

Estão relacionadas. Comparem com a brasileira.

Mandela, quase 20 anos numa cela úmida e tenebrosa, lia livros, escrevia cartas e até um diário que hoje é livro de sucesso. Ele era um preso político. Aqui não temos presos políticos. Nem um. Mais um motivo para deixá-los ler muitos livros, jornais, escreverem cartas e blogs. E trabalhar.

Pergunto até assustada: o que é que queremos ao enviar condenados para a cadeia? Vingança? É isso?

Será que devemos ser tão pérfidos, tão mesquinhos, tão baixos?

Vamos limpar essa nódoa que nos envergonha e degrada?

O LIVRO-BOMBA de Tuma Jr.

Reinaldo Azevedo

O LIVRO-BOMBA – Tuma Jr. revela os detalhes do estado policial petista. Partido usa o governo para divulgar dossiês apócrifos e perseguir adversários. Caso dos trens em SP estava na lista. Ele tem documentos e quer falar no Congresso. Mais: diz que Lula foi informante da ditadura, e o contato era seu pai, então chefe do Dops

Romeu Tuma Junior conta como funciona o estado policial petista

O “estado policial petista” não é uma invenção de paranoicos, de antipetistas militantes, de reacionários que babam na gravata dos privilégios e que atuam contra os interesses do povo. Não! O “estado policial petista” reúne as características de todas as máquinas de perseguição e difamação do gênero: o grupo que está no poder se apropria dos aparelhos institucionais de investigação de crimes e de repressão ao malfeito — que, nas democracias, estão submetidos aos limites da lei — e os coloca a seu próprio serviço. A estrutura estatal passa a servir, então, à perseguição dos adversários. Querem um exemplo? Vejam o que se passa com a apuração da eventual formação de cartel na compra de trens para a CPTM e o metrô em São Paulo. A questão não só pode como deve ser investigada, mas não do modo como estão agindo o Cade e a PF, sob o comando de José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça. As sentenças condenatórias estão sendo expedidas por intermédio de vazamentos para a imprensa. Pior: as mesmas empresas investigadas em São Paulo se ocuparam das mesmas práticas na relação com o governo federal. Nesse caso, não há investigação nenhuma. Escrevi a respeito nesta sexta.

Quando se anuncia que o PT criou um estado policial, convenham, não se está a dizer nenhuma novidade. Nunca, no entanto, alguém que conhece por dentro a máquina do governo havia tido a coragem de vir a público para relatar em detalhes como funciona o esquema. Romeu Tuma Junior, filho de Romeu Tuma e secretário nacional de Justiça do governo Lula entre 2007 e 2010, rompe o silêncio e conta tudo no livro “Assassinato de Reputações – Um Crime de Estado”, publicado pela Editora Topbooks (557 págs., R$ 69.90). O trabalho resulta de um depoimento prestado ao longo de dois anos ao jornalista Cláudio Tognolli. O que vai ali é de assustar. Segundo Tuma Junior, a máquina petista:

1: produz e manda investigar dossiês apócrifos contra adversários políticos;
2: procura proteger os aliados.

O livro tem um teor explosivo sobre o presente e o passado recente do Brasil, mas também sobre uma história um pouco mais antiga. O delegado assegura que o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva — que nunca negou ter uma relação de amizade com Romeu Tuma — foi informante da ditadura. A VEJA desta semana traz uma reportagem sobre o livro e uma entrevista com o ex-secretário nacional da Justiça. Ele estava lá. Ele viu. Ele tem documentos e diz que está disposto a falar a respeito no Congresso. O delegado é explícito: Tarso Genro, então ministro da Justiça, o pressionou a divulgar dados de dossiês apócrifos contra tucanos. Mais: diz que a pressão vinha de todo lado, também da Casa Civil. A titular da pasta era a agora presidente da República, Dilma Rousseff.

Segue um trecho da reportagem de Robson Bonin na VEJA desta semana. Volto depois.

(…)
Durante três anos, o delegado de polícia Romeu Tuma Junior conviveu diariamente com as pressões de comandar essa estrutura, cuja mais delicada tarefa era coordenar as equipes para rastrear e recuperar no exterior dinheiro desviado por políticos e empresários corruptos. Pela natureza de suas atividades, Tuma ouviu confidências e teve contato com alguns dos segredos mais bem guardados do país, mas também experimentou um outro lado do poder — um lado sem escrúpulos, sem lei, no qual o governo é usado para proteger os amigos e triturar aqueles que sio considerados inimigos.
(…)
Segundo o ex-secretário, a máquina de moer reputações seguia um padrão. O Ministério da Justiça recebia um documento apócrifo, um dossiê ou um informe qualquer sobre a existência de conta secreta no exterior em nome do inimigo a ser destruído. A ordem era abrir imediatamente uma investigação oficial. Depois, alguém dava urna dica sobre o caso a um jornalista. A divulgação se encarregava de cumprir o resto da missão. Instado a se explicar, o ministério confirmava que, de fato, a investigação existia, mas dizia que ela era sigilosa e ele não poderia fornecer os detalhes. O investigado”, é claro, negava tudo. Em situações assim, culpados e inocentes sempre agem da mesma forma. 0 estrago, porém, já estará feito.

No livro, o autor apresenta documentos inéditos de alguns casos emblemáticos desse modus operandi que ele reuniu para comprovar a existência de uma “fábrica de dossiês” no coração do Ministério da Justiça. Uma das primeiras vítimas dessa engrenagem foi o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Senador época dos fatos, Perillo entrou na mira do petismo quando revelou a imprensa que tinha avisado Lula da existência do mensalão. 0 autor conta que em 2010 o então ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, entregou em suas mãos um dossiê apócrifo sobre contas no exterior do tucano. As ordens eram expressas: Tuma deveria abrir urna investigação formal. 0 trabalho contra Perillo, revela o autor, havia sido encomendado por Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete do presidente Lula. Contrariado, Tuma Junior refutou a “missão” e ainda denunciou o caso ao Senado. Esse ato, diz o livro, foi o primeiro passo do autor para o cadafalso no governo, mas não impediu novas investidas.
(…)

Celso Daniel, trens, mensalão…
Vejam o que vai acima em destaque. Qualquer semelhança com os casos Alstom e Siemens, em São Paulo, não é mera coincidência. O livro traz revelações perturbadoras sobre:
a: o caso do cartel de trens em São Paulo:
b: o dossiê para incriminar Perillo;
c: o dossiê para incriminar Tasso Jereissati (com pressão de Aloizio Mercadante);
d: a armação para manchar a reputação de Ruth Cardozo;
e: o assassinato do petista Celso Daniel, prefeito de Santo André;
f: o grampo no STF (todos os ministros foram grampeados, diz Tuma Junior);
g: a conta do mensalão nas Ilhas Cayman…


E muito mais. Tuma Júnior está com documentos. Tuma Junior quer falar no Congresso. Tuma Junior tem de ser ouvido. Abaixo, seguem trechos de sua entrevista à VEJA.

(…)
Por que Assassinato de Reputações?
Durante todo o tempo em que estive na Secretaria Nacional de Justiça, recebi ordens para produzir e esquentar dossiês contra uma lista inteira de adversários do governo. 0 PT do Lula age assim. Persegue seus inimigos da maneira mais sórdida. Mas sempre me recusei. (…) Havia uma fábrica de dossiês no governo. Sempre refutei essa prática e mandei apurar a origem de todos os dossiês fajutos que chegaram até mim. Por causa disso, virei vítima dessa mesma máquina de difamação. Assassinaram minha reputação. Mas eu sempre digo: não se vira uma página em branco na vida. Meu bem mais valioso é a minha honra.

De onde vinham as ordens para atacar os adversários do PT?
Do Palácio do Planalto, da Casa Civil, do próprio Ministério da Justiça… No livro, conto tudo isso em detalhes, com nomes, datas e documentos. Recebi dossiês de parlamentares, de ministros e assessores petistas que hoje são figuras importantes no atual governo. Conto isso para revelar o motivo de terem me tirado da função, por meio de ataque cerrado a minha reputação, o que foi feito de forma sórdida. Tudo apenas porque não concordei com o modus operandi petista e mandei apurar o que de irregular e ilegal encontrei.
(…)

O Cade era um dos instrumentos da fábrica de dossiês?
Conto isso no livro em detalhes. Desde 2008, o PT queria que eu vazasse os documentos enviados pela Suíça para atingir os tucanos na eleição municipal. O ministro da Justiça, Tarso Genro, me pressionava pessoalmente para deixar isso vazar para a imprensa. Deputados petistas também queriam ver os dados na mídia. Não dei os nomes no livro porque quero ver se eles vão ter coragem de negar.

O senhor é afirmativo quando fala do caso Celso Daniel. Diz que militantes do partido estão envolvidos no crime.
Aquilo foi um crime de encomenda. Não tenho nenhuma dúvida. Os empresários que pagavam propina ao PT em Santo André e não queriam matar, mas assumiram claramente esse risco. Era para ser um sequestro, mas virou homicídio.
(…)

O senhor também diz no livro que descobriu a conta do mensalão no exterior.
Eu descobri a conta do mensalão nas Ilhas Cayman, mas o governo e a Polícia Federal não quiseram investigar. Quando entrei no DRCI, encontrei engavetado um pedido de cooperação internacional do governo brasileiro às Ilhas Cayman para apurar a existência de uma conta do José Dirceu no Caribe. Nesse pedido, o governo solicitava informações sobre a conta não para investigar o mensalão, mas para provar que o Dirceu tinha sido vítima de calúnia, porque a VEJA tinha publicado uma lista do Daniel Dantas com contas dos petistas no exterior. O que o governo não esperava é que Cayman respondesse confirmando a possibilidade de existência da conta. Quer dizer: a autoridade de Cayman fala que está disposta a cooperar e aí o governo brasileiro recua? É um absurdo.
(…)

O senhor afirma no livro que o ex-presidente Lula foi informante da ditadura. É uma acusação muito grave.
Não considero uma acusação. Quero deixar isso bem claro. O que conto no livro é o que vivi no Dops. Eu era investigador subordinado ao meu pai e vivi tudo isso. Eu e o Lula vivemos juntos esse momento. Ninguém me contou. Eu vi o Lula dormir no sofá da sala do meu pai. Presenciei tudo. Conto esses fatos agora até para demonstrar que a confiança que o presidente tinha em mim no governo, quando me nomeou secretário nacional de Justiça, não vinha do nada. Era de muito tempo. 0 Lula era informante do meu pai no Dops .

O senhor tem provas disso?
Não excluo a possibilidade de algum relatório do Dops da época registrar informações atribuídas a um certo informante de codinome Barba.
(…)


Encerro
Encerro por ora. É claro que ainda voltarei ao tema. Tuma Junior estava lá dentro. Tuma Junior viu e ouviu. O deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) quer que o delegado preste depoimento à Câmara sobre o que sabe.

O estado policial petista tem de parar. E parte da imprensa precisa deixar de ser o seu braço operativo.

O Estado-ombudsman

João Bosco Rabello 
 O Estado de S.Paulo

A hierarquia da notícia é um dos elementos básicos na edição de um jornal e constitui prerrogativa de editores, por sua vez avaliados diariamente por núcleos internos especializados, encarregados de medir a qualidade e eficiência desse trabalho.

Em alguns casos, a essa avaliação interna é acrescentada a externa, feita por um ombudsman, eleito por mandatos de duração variável e imune a eventuais reações da redações.

Uma rotina que tem por alvo final o leitor, juiz cuja fidelidade é a razão de ser de qualquer veículo de comunicação e fator de seu êxito ou fracasso.

No contexto competitivo diário no âmbito das comunicações, a busca e preservação dessa credibilidade tornaram-se não só incontornáveis, mas o melhor antídoto à interferência da visão pessoal na triagem e tratamento da notícia. É o conceito de ombudsman que o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, tenta pôr a serviço da pauta política do PT, quando cobra à mídia isonomia de tratamento entre casos que afetam diretamente seu partido, como o mensalão, e outros que atingem seus adversários.

Nada demais e que não seja feito todos os dias por leitores que superestimam suas preferências. A diferença está em que o PT, que tem em Carvalho seu porta-voz no governo, visa a institucionalização do papel de ombudsman como função reguladora do Estado, jurando que isso não se traduz por controle da mídia, embora essa expressão seja encontrada em qualquer texto do partido a respeito do tema.

Serve-se do protesto contra uma fictícia manipulação política da informação para exercê-la com a hipocrisia que as ditaduras dispensam.

Na hierarquia da notícia, o desfecho do mensalão, com prisões de autoridades legislativas ainda em curso, é fato concreto, de dimensão política inédita, enquanto o cartel denunciado pela Siemens produz seus primeiros resultados, ainda insuficientes para dar nomes aos bois, como convém à urgência eleitoral do PT.

Não obstante, a mídia tem dispensado amplo espaço ao cartel, presente nas edições diárias dos jornais, portais, blogs e telejornais, como determinam sua consistência e importância. Não o tornará, porém, substituto do mensalão, tirando este da pauta para a inserção daquele. Como deseja o ministro-editor , ancorado pelo ex-presidente Lula, que ontem lhe fez coro.

Sabem ambos que a crítica à mídia é a forma que restou para atenuar a reação de José Dirceu, cujo isolamento ameaça o que não se conhece ainda de todo o episódio. Não sem razão, o confronto entre o ex-ministro e seu partido já mereceu de uma raposa felpuda o título sugestivo de "terceira guerra mundial".

Mandela e o roqueiro

Sandro Vaia
Blog Noblat

O mundo brasileiro da política se move em 3 dimensões paralelas, que não têm contato nem relação entre si. E mesmo esses universos se movem em várias pequenas constelações que também não se comunicam.
Para ficar nos 3 universos principais:

1) O do eleitor real, aquele que vive o seu dia a dia de preocupações, sua rotina diária de vida, suas relações de emprego, sua luta pela subsistência. É um dos 8% que já ouviram falar, por exemplo, que existe um Eduardo Campos na vida e que é político e que provavelmente um dia disputará seu voto. Nada mais sabe nem lhe interessa.

2) O do eleitor medianamente informado, que faz parte domainstream, se informa pela mídia tradicional, lê algum jornal alguma vez por semana e conhece a superfície dos fatos -- ou pelo menos as manchetes que tentam descrevê-los.

3) O do militante partidário ou do frequentador das redes sociais, que acaba de descobrir um mundo novo e se sente inteiramente apto a emitir juízos de valor sobre qualquer fato político, considerando-se um conhecedor profundo das suas entranhas e das grandes e pequenas teias que formam a rede de interesses que envolvem o mundo desde que o conhecemos como tal.

Esta última categoria envolve desde os lúcidos, os sábios, os ponderados, até os adeptos de todas as teorias conspiratórias e no extremo os cretinos fundamentais que embalavam a ácida ironia de Nelson Rodrigues.

Pois é exatamente neste momento de florescimento das redes sociais que os debates se multiplicam e provocam mais calor do que luz.

Com quase um século de defasagem em relação aos grandes debates ideológicos da primeira metade do século passado, estamos descobrindo a dicotomia esquerda/direita exatamente quando no resto da Humanidade desenvolvida essa conversa caiu em exercício findo. Pelo menos no formato em que aqui se apresenta como novo.

Nesta semana, a entrevista que Lobão,um músico popular, um roqueiro que o Wikipedia descreve como um cantor, compositor, escritor, multi-instrumentista, editor de revista e apresentador de televisão, deu uma entrevista ao Roda Viva, produziu um efeito de cachoeira nas redes sociais: muita espuma, muito barulho e pouca substância.

Lobão, um ex-petista desiludido, tornou-se herói dos que estão em busca de uma oposição e vilão dos governistas, que evidentemente não tinham nada de mais concreto para classificá-lo do que o multisignificativo “fascista”.

Nem Lobão é um gênio político (como músico não saberia julgá-lo) nem é um fascista. É apenas um artista popular que se atreveu a trafegar na contramão do consenso oficialista e resolveu exercer seu senso crítico, fugindo do espírito de rebanho da “classe”.

Que o incensem ou que o apedrejem é apenas um sintoma de como anda raso o nosso debate político. Enquanto o mundo perde Mandela, o Brasil discute mensaleiros e cançonetistas.

Nosso ensino inferior

Zuenir Ventura
O Globo

Sistema educacional não foi totalmente reprovado e até melhorou, mas também não ‘passou’ com louvor. Sob certos aspectos, desempenho foi medíocre

Não é para entrar em depressão, mas também não é para comemorar. Nos dois testes internacionais a que foi submetido esta semana — o do ensino médio e o do superior — o nosso sistema educacional não foi totalmente reprovado e até melhorou, mas também não “passou” com louvor. Sob certos aspectos, o desempenho foi medíocre. No primeiro exame, o Pisa, que avalia alunos de 15 anos de 65 países, o Brasil foi o que mais avançou em matemática entre 2003 e 2012, mas mesmo assim continua lá atrás, ficou em 58º lugar e, em leitura, foi pior, caiu dois pontos para a 55ª colocação. Em Ciências, permaneceu onde estava, na 59ª posição. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, considerou o resultado “uma grande vitória”, mas o responsável pelo Pisa, Andreas Schleicher, acha que temos que “acelerar muito o ritmo de melhoria”, investindo mais em professores e dando aos alunos pobres melhores escolas, para não continuar fazendo feio.

Se as conclusões do Pisa comportam interpretações que podem ser mais ou menos pessimistas, os dados referentes à educação superior não deixam dúvidas: foram péssimos. Segundo a consultoria britânica Times Higher Education, que realizou a pesquisa e estabeleceu o ranking, o Brasil só conseguiu incluir quatro universidades entre as cem melhores dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e de outros 17 países emergentes. O melhor lugar que obtivemos foi o 11º, com a USP, seguido pela Unicamp, em 24º. A UFRJ, em 60º, e a Unesp (Universidade Estadual Paulista), em 87º, completam a nossa representação.
Para se ter uma ideia, a China, que aparece no topo da lista, como já aparecia no Pisa, emplacou 23 instituições entre as 100 mais. E Taiwan, 21. A nossa má performance não pode ser atribuída à falta de representação. O ensino superior brasileiro é composto por 2.377 instituições, das quais 85% são faculdades, 8% são universidades, 5,3% centros tecnológicos e 1,6% são institutos tecnológicos. O nosso problema, portanto, não é de quantidade, mas de qualidade.

O maior de todos
Em 1994, quando visitei a prisão de Robben Island, na África do Sul, onde Nelson Mandela passou 18 dos 27 anos em que esteve preso cumprindo pena de trabalhos forçados, fiz as perguntas que todos repetiram ao realizarem um dia a mesma visita, inclusive Barack Obama: como alguém pôde sofrer tanto e sair perdoando seus algozes e promovendo a reconciliação (um de seus primeiros gestos em liberdade foi tomar café com o antigo carcereiro)? Como foi possível suportar o castigo de quebrar pedra como se fosse um Sísifo moderno, sem enlouquecer? Ali, naquela cela mínima, onde não cabia abrir os braços de tão estreita, sem cama, não tive dúvida de que num século que produziu estadistas como Churchill, De Gaulle, Roosevelt, nenhum se equiparou ao herói africano em resistência moral e superação.

Enem, um retrato desfocado da educação

Pedro Flexa Ribeiro
O Globo

O boletim não diz o que os alunos acertaram em Física e o que erraram em Química. Ou estaria o problema em Biologia?

O fim do ano letivo é a ocasião em que as escolas costumam fazer o planejamento para o ano seguinte. É a hora de avaliar o trabalho que foi feito e definir ajustes e correções de rota.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) apura o desempenho dos alunos em várias áreas do conhecimento. Partindo do pressuposto de que as provas que constituem o exame de fato abrangem os conteúdos e competências relevantes e necessários, as informações apuradas seriam, em tese, muito úteis para a melhoria do trabalho feito em cada escola. As sucessivas edições do Enem dotaram o MEC/Inep de um grande banco de dados, que teria grande utilidade para o planejamento a ser feito na virada do ano letivo.

As informações trariam a radiografia detalhada de como se saíram os alunos em cada questão da prova. Elas ofereceriam ao planejamento interno e para o trabalho do professor a informação exata acerca de que questões os seus alunos erraram em cada prova. Isso revelaria o que, afinal, os alunos deixaram de aprender. Ficariam claros para cada escola os pontos do programa e do conteúdo a serem reforçados. Dessa forma, o Enem traria consequências efetivas para a sala de aula e contribuiria para a melhoria da qualidade do ensino. Isso justificaria todo o grande investimento que a sociedade brasileira tem feito ano a ano, a cada edição do exame.

No entanto, não é o que ocorre. O boletim oficial do Inep não discrimina os erros e acertos em cada questão da prova. O documento indica apenas a distribuição das frequências de acertos em cada faixa de desempenho. Revela, por exemplo, para uma determinada escola, que na prova de ciências da natureza 65% dos seus alunos situam-se na faixa de desempenho que vai de 300 a 400 pontos e os outros 35% dos alunos tiveram acertos entre 400 e 500 pontos.

Sendo a prova por área do conhecimento, suas questões abrangem conteúdos de diferentes disciplinas: Física, Química e Biologia. O boletim não diz o que os alunos acertaram em Física e o que erraram em Química. Ou estaria o problema em Biologia? Que intervenções fazer para que na próxima edição do exame os alunos estejam concentrados em faixas superiores de desempenho? Que providências tomar? O mesmo se dá com a prova de Ciência Sociais, que reúne quatro disciplinas: que programa deveria ser ajustado? O de Filosofia ou o de Geografia? O que recomendar ao professor de Sociologia?

Tal como é divulgado para as escolas, o boletim dá apenas uma visão geral, mas não permite que se efetive a avaliação pretendida. As escolas ficam sem saber que conteúdos ou competências não foram suficientemente aprendidos pelos estudantes. Não se sabe em quê, exatamente, se deveria investir para melhorar. O boletim traz informações insuficientes que não sugerem ao coordenador pedagógico qualquer correção de rumo ou recomendação de ajuste a ser feita aos professores.

Há também que considerar o inconveniente das defasagens de prazos: o passar do tempo faz esvair a utilidade das informações. Os resultados recentemente divulgados são referentes ainda ao Enem de 2012. O mês de dezembro chegou, já se está planejando o ano letivo de 2014. Uma vez instalado o ano letivo, as informações detalhadas só seriam consideradas no planejamento para 2015...

Compreende-se que o trabalho de consolidação dos microdados seja complexo e demorado. Mas, uma vez pronto, deve lhes ser dado um uso que justifique todo o investimento feito. A expansão quantitativa do exame deve ser acompanhada do cuidado em fazer com que as informações cheguem às escolas devidamente detalhadas e a tempo. Afinal, supostamente constituem um patrimônio, propriedade de toda a sociedade brasileira.

Ano a ano, a publicação dos rankings com as médias induz às comparações entre desempenhos de redes e instituições. De modo geral apenas confirma um cenário já conhecido. Esse uso reduz o Enem a uma espécie de torneio anual das escolas. Isso vem desviando o foco daquela que deveria ser a principal questão. O que caberia colocar em pauta é o fato de que, tal como são divulgados, os resultados do Enem ainda não possibilitam que deles se extraiam consequências que tenham efetivo impacto sobre o ensino nem sobre o aprendizado dos alunos. As escolas de todo o país — tanto as particulares quanto as da rede pública — permanecem sem acesso às informações que, supostamente, possibilitariam a melhoria da qualidade do trabalho que fazem no Ensino Médio.

Dezembro chegou, é hora de planejar ajustes para 2014. Ou as escolas precisarão ainda aguardar até 2015?

Educação: só dinheiro não basta

Camila Brandalise
Revista ISTOÉ

O principal projeto do País para a área educacional é o aumento de verbas. Mas os exames internacionais mostram que isso é insuficiente

Quando se fala em melhorar a educação no Brasil, a chave do sucesso parece sempre se concentrar na obtenção de mais verba. O País vem aumentando gradativamente os investimentos no setor – passou de 4,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2000 para 6,1% em 2011, último dado disponível. Pelo Plano Nacional de Educação (PNE), esse percentual deve chegar a 10% em 2020. Há três meses, o Congresso Nacional aprovou com estardalhaço o repasse de 75% do dinheiro do pré-sal para a área educacional. É claro que recursos são muito importantes, mas, para o País dar o salto qualitativo de que precisa, é necessário avançar também em outras áreas. Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (o Pisa, na sigla em inglês), de 2012, divulgados na semana passada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ilustram isso. 


EXEMPLO
Acima, a Escola Professor Renato José da Costa Pacheco, no Espírito Santo,
que capacita professores. Abaixo, colégio chinês: os asiáticos dominaram o Pisa


O exame, realizado de três em três anos, mede o conhecimento de alunos de 15 anos em matemática, leitura e ciências. Nessa edição, o foco principal era matemática e a pontuação dos alunos brasileiros na matéria subiu 10% em relação a 2003, o maior crescimento de todos. O País ficou em segundo lugar no quesito inclusão de novos alunos – perde só para a Indonésia. Mas foi só isso a comemorar. Embora invista US$ 26.765 por aluno dos 6 aos 15 anos, o Brasil amarga a 57ª colocação entre as 65 nações participantes. Os asiáticos dominaram a prova. Salta aos olhos o caso do Vietnã, que gasta apenas US$ 6.969 por estudante e alcançou a 15ª posição (leia quadro). Os Estados Unidos, por exemplo, aplicam 115.961 per capita e estão em 29º lugar. Se não atacar problemas estruturais, o País continuará na lanterna.

Um ponto crucial é ter professores qualificados. “Daqui para a frente, o Brasil precisa atrair bons profissionais”, afirma Andreas Schleicher, diretor-adjunto da OCDE para Educação. “Pessoas talentosas devem estar em escolas com mais desafios para superar as diferenças sociais.” No topo do ranking, a província chinesa de Xangai segue à risca a proposta de colocar o foco na qualidade da docência. Com 20 milhões de habitantes, a localidade tem orçamento e planejamentos próprios e investe pesadamente em educação. “Mas a China como um todo também tem adotado políticas voltadas para o professor”, afirma Alexandre Uehara, coordenador do Grupo de Estudos sobre a Ásia do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Assim como Xangai, o gigante asiático adota uma política de forte supervisão dos métodos empregados em sala de aula.


No Brasil, as dificuldades ainda são primárias. “O problema começa quando a escola procura profissionais em áreas específicas, como química e física. Há estabelecimentos educacionais que passam o ano inteiro sem professor para uma disciplina. Já vi colégios em que um docente de filosofia dava aula de física”, diz Cleuza Repulho, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação. Outra questão urgente é a criação de um currículo nacional. “Com uma base comum, seria possível trabalhar de maneira mais precisa a formação dos professores na faculdade”, afirma Eduardo Deschamps, vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação. Além disso, um bom projeto tem de atravessar as sucessivas administrações e não ser engavetado pelo novo governante. “Países que apresentaram evolução, como Cingapura, tiveram essa postura”, diz Andrea Bergamaschi, do movimento Todos pela Educação.

Entre os Estados brasileiros, o melhor exemplo, segundo o Pisa, é o do Espírito Santo, que passou do 6º lugar em 2009 para o primeiro em 2012. “Cerca de 85% dos alunos são de escolas públicas, isso mostra que estamos avançando”, afirma Klinger Barbosa Alves, secretário de Educação do Estado. Segundo lugar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) entre os colégios estaduais capixabas, a Escola Professor Renato José da Costa Pacheco, em Vitória, atribui a boa nota às sucessivas capacitações de professores. “Os docentes participam de cursos para melhorar o ensino de matemática e damos muito enfoque no envolvimento da família com a realidade escolar”, explica a diretora, Adélia Maria Dias Ramos. A hora é de se debruçar sobre bons exemplos, internos e externos. Caso o País não corra contra o tempo, levaremos 25 anos para atingir a nota mínima estabelecida pela OCDE.

Fotos: Gabriel Lordello / Ag. IstoÉ, © Chen Cheng/Xinhua/ZUMAPRESS.com