Alvaro Gribel e Valéria Maniero
O Globo
O Banco Central deu sinais de que o ciclo de aumento dos juros está perto do fim. A maioria dos economistas entendeu, pela Ata do Copom, que haverá redução das doses, para 0,25%, e que o ciclo pode acabar em janeiro. O BC faria uma parada para avaliar os efeitos da alta de juros que começou em abril. O dólar passou a ser a grande preocupação. Não há estimativa sobre quando a inflação voltará ao centro da meta.
A grande contradição do documento divulgado ontem é o reconhecimento de que a inflação não voltará a 4,5% nem no terceiro trimestre de 2015. O cenário de mercado, com as projeções do sistema financeiro, já estima a Selic em 10,5% em 2014. Ou seja, se o ciclo terminar em janeiro, com mais 0,25%, ou março, o Banco Central já avisa, de antemão, que o IPCA não voltará ao centro.
— O BC trabalha com uma meta circunstancial. O que ele persegue neste ano e em 2014 é uma inflação menor que a do período anterior. Não é o centro de 4,5% — explicou o economista-chefe da CNC, Carlos Thadeu de Freitas.
A alta do dólar passou a ser a principal ameaça. Por isso, além da ênfase dada à questão na ata, o BC anunciou que vai estender o programa de venda da moeda americana no mercado. Para evitar subir mais os juros, outra arma será usada, a venda de dólares.
O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, estima que os juros precisariam ir a 12,5% para que a inflação voltasse ao centro. Teriam que retornar ao mesmo ponto de quando a autoridade monetária começou a reduzi-los, em julho de 2011.
— Juros a 10,25% não vão levar a inflação ao centro da meta, pela própria estimativa do BC. O aumento dos preços administrados, que, este ano, será de 1%, vai subir para 4,5%, segundo a ata. Só isso impedirá o recuo, e ainda há o dólar — disse.
Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi, chama atenção às palavras de Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, em evento com economistas em São Paulo, logo após a divulgação da ata.
— Ele frisou muito que o BC está vigilante com a inflação. Minha leitura é que ele vai parar de subir juros, podendo fazer isso até mesmo em janeiro, mas que está deixando as portas abertas para voltar a subir, dependendo do câmbio.
A última vez que o IPCA esteve em 4,5% foi em agosto de 2010. Serão cinco anos com inflação acima do centro da meta, pela projeção do Banco Central.
Risco do Brasil em direção contrária
O gráfico abaixo foi elaborado pela equipe do economista José Júlio Senna, do Centro de Estudos Monetários FGV/Ibre. Ele ilustra a piora da avaliação do Brasil no mercado internacional. O CDS do país de 5 anos, papel que mede o risco de calote de um título público, passou a cobrar juros mais altos nos últimos meses. Ou seja, o investidor está exigindo mais dinheiro para correr o risco de ficar com um papel do governo brasileiro. Repare que isso não acontece com outros emergentes da América Latina, como Chile, México, Peru e Colômbia.
EUA: PIB bom, mas há problemas
A revisão do crescimento do PIB americano de 2,8% para 3,6%, no terceiro trimestre, é uma ótima notícia, mas não é o bastante para que o BC dos EUA mude a política de estímulos à economia. Monica de Bolle, professora da PUC-Rio, diz que o mercado de trabalho ainda tem problemas e a inflação está muito baixa.
— O Fed não tem pressa. É possível que comece a retirar os estímulos no começo do ano que vem, mas eu acho mesmo que vai ser mais para o meio de 2014.
O dólar já subiu por aqui, por conta da expectativa de diminuição da injeção de dinheiro nos EUA, mas agora, segundo ela, o câmbio tem oscilado muito por causa da má condução da política fiscal.
