domingo, dezembro 08, 2013

Maduro recorre a golpes baixos para vencer eleição

Editorial
O Globo

Sucessor de Chávez exacerba populismo e demagogia para colher votos, contratando o agravamento da crise em que se afunda a Venezuela

Num país com a produção e as finanças em frangalhos, em que a inflação já supera os 50% anuais, o presidente Nicolás Maduro deflagrou uma operação de guerra para vencer as eleições municipais de amanhã, para 337 prefeituras e 2.523 cargos de vereadores em toda a Venezuela. O Congresso chavista deu a Maduro poderes para governar por decreto.

As medidas do governo beiram o absurdo, como a fixação artificial de preços ao consumidor, controle da distribuição de produtos no mercado, imposição da margem de lucro dos empresários, medidas que provocaram uma corrida às lojas, inclusive com saques, e criam uma falsa impressão de beneficiar a população, quando, na verdade, agravam o desabastecimento. A começar pelo papel higiênico.

As eleições municipais são vistas como um plebiscito sobre os oito meses no governo de Maduro, que em abril foi eleito para suceder Chávez com 50,66% dos votos, contra 49,07% do líder da oposição, Henrique Capriles — cerca de 220 mil votos num universo de 19 milhões de eleitores. Nem Maduro nem Capriles disputam cargos amanhã, mas estarão novamente frente à frente numa disputa para ver quem aumentou o cacife.

Os abusos cometidos pelo governo contra a oposição são quase inacreditáveis, não se tratasse da Venezuela e do chavismo desesperado de Maduro. Por decreto, o presidente declarou o dia da eleição como de “Lealdade e Amor a Chávez”, como forma de mobilizar os seguidores do líder morto em março, em flagrante manipulação do eleitorado para enfraquecer oposicionistas.

Pelo sim, pelo não, o governo tratou de fazer toda a sorte de manobras para prejudicar candidatos ligados a Capriles. Até 90% do tempo de um dos muitos canais estatais de TV são usados para propaganda dos candidatos do chavismo, enquanto os oposicionistas não têm espaço na programação. Dinheiro público é gasto a rodo para apoiar os políticos governistas, que contam, ainda, com o uso de veículos oficiais e a intensificação de ações populistas. Uma delas,a distribuição de casas pelo programa Gran Misión Vivienda Venezuela.

Com esse rolo compressor, é provável que o governo continue a manter a hegemonia num grande número de cidades menores e rincões, enquanto a oposição ficará feliz se conservar o poder em grandes cidades, Caracas e Maracaibo, o que é também provável.

O problema de Maduro é o dia seguinte. País de economia planejada, a China usou doses maciças de capitalismo para se transformar em potência. Até Cuba, paradigma do chavismo, dá passos, embora modestos, em direção ao mercado. Já Maduro, como antes Chávez, se empenha no sentido contrário. Quer revogar a lei da oferta e da procura. Como a História mostra, é fracasso garantido. O problema será o custo humano nesta tragédia.