terça-feira, abril 14, 2020

A insustentável estratégia da diplomacia brasileira

Hussein Kalout, 
O Estado de S.Paulo

Políticos, diplomatas, militares, acadêmicos e empresários imaginaram que a realidade iria servir como barreira natural para a nova doutrina das relações exteriores do País. Se enganaram. 

  Foto: Dida Sampaio / Estadão
O presidente Jair Bolsonaroa acompanha o ministro
 das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

Desde que o presidente Jair Bolsonaro venceu a eleição presidencial de 2018, foi exibido ao teatro político nacional uma inédita moldura de como o Brasil pretendia defender os seus interesses estratégicos e projetar o seu poder nas relações internacionais. 

Apesar das desconfianças e da perplexidade com a heterodoxia da nova orientação da “política exterior” do País, políticos, diplomatas, militares, acadêmicos e empresários imaginaram que a realidade iria servir como barreira natural de contenção para as descalibradas aventuras que se prenunciavam e o pragmatismo, logo acabaria, com o tempo, predominando sobre a frívola proposta que foi apresentada à Nação. 

O novo corolário doutrinário das relações exteriores do País trazia consigo um equívoco de concepção: desprezar na largada os tabuleiros de fácil e imediata maximização dos interesses nacionais em troca da projeção de hipotéticas vitórias em tabuleiros mais volúveis e de alta complexidade – e isso, obviamente, sem os necessários recursos que delimitam o poder real de dissuasão de um país. 

China e EUA foram transformados em dilema. O presidente, durante a campanha e após a campanha, não poupou esforços para atacar um país e louvar o outro. O inquilino da Casa Branca tornou-se referência moral e padrão estratégico a ser seguido pelo Palácio do Planalto. Até os erros, inertemente, são macaqueados.

No marco dessa difusa equação, a reafirmação de lealdade a esse alinhamento passou a estar consubstanciado no constante antagonismo com a China, na agressividade retórica na América do Sul e no abandono do equilíbrio dos temas médio orientais. 

O bolsolavismo acreditava que poderia modular duas narrativas, que, apesar de ambivalentes, poderiam funcionar sem custo diplomático. Erro crasso! Em seu torpe ideário, provocar um choque frontal com os chineses serviria a dois propósitos: 1) alimentar os ignorantes agitadores digitais de sua bolha ilusória nas redes sociais; e 2) reforçar os laços com Washington de aliado obediente e comprometido com a causa anti-China. A sua turva visão não alcançou, até o momento, a compreensão de que os EUA querem seguidores e não sócios na partilha de qualquer espólio comercial envolvendo o mercado chinês.  

Irritar a China publicamente e contemporizar os danos nos bastidores – para capitalizar com americanos e aplacar a ira dos chineses – é uma estratégia falida. É como caminhar no fio da navalha com uma granada na cintura.

Os bolsolavistas não sopesaram em seus cálculos a virulência da reação chinesa. Julgaram que o pragmatismo chinês amorteceria a sua infantilidade institucional e o que prevaleceria, ao fim e ao cabo, são os negócios – puxados sempre pelos competentes adultos do Ministério da Agricultura e pela prudência dos generais.  

O governo Bolsonaro criou um falso e desnecessário dilema para definir o papel do Brasil no contexto das relações do Brasil-China-EUA. Elevar as relações entre Brasília e Washington ao patamar de uma parceria estratégica – ou mesmo uma aproximação nos termos imaginados por Bolsonaro – não deveria excluir a expansão da relação política e comercial com Pequim. Uma agenda profícua com a China não deveria implicar, por outro lado, distanciamento dos EUA. 

Para jogar no tabuleiro geoestratégico em meio às duas superpotências mundiais – cujos recursos de poder são superiores aos nossos –, o Brasil precisa ter clareza das consequências. Atacar Pequim, sem ter para onde escoar as suas commodities e sem saber como substituir os investimentos no setor energético e de infraestrutura do País, é de um amadorismo atroz.

Enquanto o bolsolavismo não quebrar a criptografia das regras de engajamento que regulam as relações sino-americanas, é melhor o Brasil manter uma distância segura em relação a esse embate.

A diplomacia do governo Bolsonaro não dá sinal de querer ser governada pela razão, pelo pragmatismo ou em defesa dos interesses estratégicos do País, mas, sim, monetizar em votos apoiadores fanáticos a serviço de seu projeto de poder – mesmo que isso arruíne a relação do Brasil com China, França, Alemanha, Argentina ou o inimigo fabricado da vez.  

HUSSEIN KALOUT, 43, é Cientista Político, Professor de Relações Internacionais e Pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016-2018) e atuou como consultor das Nações Unidas e do Banco Mundial. Escreve semanalmente, às segundas-feiras.


Crise do coronavírus vai mudar o mundo do comércio

The Economist,
O Estado de S. Paulo

Empresas que conseguirem sobreviver vão encarar um novo ambiente para negócios

  Foto: Manuel Silvestri/Reuters 
Idosos caminham em Veneza para fazer compras 

A maioria dos chefes e trabalhadores já passou por crises econômicas antes. Eles sabem que cada vez a agonia é diferente e que em cada uma delas os empreendedores e as empresas se adaptam e se recuperam. Mesmo assim, o choque que atinge o mundo dos negócios é assustador. Com países que respondem por mais de 50% do PIB mundial em confinamento, o colapso na atividade comercial é mais grave que nas recessões anteriores.

O caminho de saída do isolamento será precário, com consumidores apreensivos, um ritmo de parada inicial que inibe a eficiência e novos protocolos de saúde complicados. E a longo prazo, as empresas que sobreviverem terão que dominar um novo cenário, à medida que a crise e a resposta a ela acelerarem três tendências: uma adoção energizante de novas tecnologias, um recuo inevitável das cadeias globais de suprimentos e uma preocupante ascensão dos oligopólios bem conectados.

Muitas empresas estão tomando atitudes corajosas. Cheios de adrenalina, chefes estão transmitindo mensagens empolgantes para seus funcionários. Gigantes corporativos impiedosos estão se atribuindo tarefas para o serviço público. A LVMH, fornecedora parisiense de perfumes Dior, está fabricando álcool em gel, a General Motors quer fabricar ventiladores pulmonares e pick-ups, e o fundador do Alibaba está distribuindo máscaras por todo o mundo. Rivais no comércio varejista estão cooperando para garantir que os supermercados se mantenham com estoque. Poucas empresas listadas tornaram públicos seus cálculos dos prejuízos financeiros causados pelo congelamento dos negócios. Como resultado, analistas de Wall Street esperam apenas uma ligeira queda nos lucros de 2020.

Mas não se deixe enganar por tudo isso. Na última recessão, dois terços das grandes empresas americanas sofreram queda nas vendas. No pior trimestre, a queda média foi de 15% em relação ao ano anterior. Nesta desaceleração, quedas de mais de 50% serão comuns, à medida que as ruas movimentadas se tornarem cidades fantasmas e as fábricas forem fechadas. Inúmeros indicadores sugerem desgaste extremo.

A demanda global de petróleo caiu em até um terço; o volume de carros e peças transportadas pelas ferrovias americanas caiu 70%. Muitas empresas têm apenas inventários e dinheiro suficientes para sobreviver por três a seis meses. Como resultado, elas começaram a demitir ou deixar de pagar os funcionários. Na quinzena anterior a 28 de março, 10 milhões de americanos pediram subsídios de desemprego. Na Europa, talvez 1 milhão de empresas se apressaram em reivindicar subsídios estatais para os salários de funcionários inativos. Dividendos e investimentos estão sendo cortados.

A dor vai se aprofundar à medida que o efeito cascata atingir as cadeias de pagamento domésticas. A H&M, uma varejista, está pedindo suspensão de aluguel, prejudicando empresas de propriedades comerciais. Algumas cadeias de suprimentos que conectam muitos países estão paralisadas por causa do fechamento de fábricas e controles de fronteiras. O confinamento da Itália interrompeu o fluxo global de tudo, de queijo a componentes de turbinas a jato.

As fábricas da China estão voltando à ação. Os fornecedores da Apple insistem bravamente em que novos telefones 5G serão lançados ainda este ano, mas eles fazem parte de um sistema complexo que só é tão forte quanto o seu elo mais fraco. O governo de Hong Kong diz que suas empresas estão cambaleando conforme as multinacionais cancelam pedidos e ignoram faturas. A tensão financeira irá revelar algumas fraudes surpreendentes. A Luckin Coffee, uma enorme cadeia chinesa, acaba de admitir que manipula seus registros contábeis.

Nas duas últimas recessões, cerca de um décimo das empresas com classificação de crédito ficou inadimplente em todo o mundo. A sobrevivência agora depende de sua indústria, de seus balanços e da facilidade com que podem obter empréstimos, garantias e ajuda do governo, que totalizam US$ 8 bilhões apenas nas grandes economias ocidentais. Se sua empresa vende produtos de confeitaria ou detergente, a perspectiva é boa.

Muitas empresas de tecnologia estão vendo uma demanda crescente. As pequenas empresas sofrerão mais: 54% nos Estados Unidos estão fechadas temporariamente ou esperam fazê-lo nos próximos dez dias. Elas não têm acesso ao mercado de capitais. E sem amigos nos altos escalões, terão dificuldade em obter ajuda do governo. Apenas 1,5% do pacote de ajuda de US$ 350 bilhões dos Estados Unidos para pequenas empresas foi desembolsado até agora e o esforço da Grã-Bretanha também foi lento. Os bancos estão lutando para lidar com regras contraditórias e uma enxurrada de pedidos de empréstimos. A mágoa pode durar anos.

Depois que as saídas dos isolamentos começarem e o teste de anticorpos aumentar, uma nova fase intermediária será iniciada. As empresas ainda estarão engatinhando, sem funcionar normalmente (a China ainda está funcionando apenas com 80-90% da capacidade). A engenhosidade, e não apenas a força financeira, se tornará uma fonte de vantagem, permitindo que empresas mais inteligentes operem mais perto da velocidade máxima.

Isso significa reconfigurar as linhas de fábrica para o distanciamento físico, monitoramento remoto e limpeza profunda. As empresas voltadas para o consumidor precisarão tranquilizar os clientes: imagine conferências distribuindo máscaras n95 com o programa e restaurantes anunciando seus regimes de testes. Mais de um quarto das 2000 maiores empresas do mundo têm mais dinheiro que dívidas. Algumas comprarão rivais para expandir sua participação no mercado ou garantir seu suprimento e distribuição.

O trabalho dos conselhos não é apenas evitar que as empresas afundem, mas também avaliar as perspectivas de longo prazo. A crise deve ampliar três tendências. Primeiro, uma adoção mais rápida de novas tecnologias. O planeta está tendo um progresso intensivo em comércio eletrônico, pagamentos digitais e trabalho remoto. Mais inovações médicas acenam, incluindo tecnologias de edição de genes.

Segundo, as cadeias de suprimentos globais serão reformuladas, acelerando a mudança desde o início da guerra comercial. A Apple possui apenas dez dias de estoque e seu principal fornecedor na Ásia, a Foxconn, 41 dias. As empresas buscarão armazenamentos de segurança maiores e uma massa crítica de produção perto de casa, usando fábricas altamente automatizadas. O investimento comercial entre fronteiras pode cair de 30% a 40% este ano. As empresas globais se tornarão menos rentáveis, mas mais resilientes.

Não vá da crise para a estagnação

A última mudança de longo prazo é menos certa e mais indesejável: um aumento adicional na concentração e no nepotismo das empresas, à medida que o dinheiro do governo inunda o setor privado e as grandes empresas se tornam ainda mais dominantes. Dois terços das indústrias americanas já se tornaram mais concentradas desde os anos 1990, minando a vitalidade da economia.
Agora, alguns chefes poderosos estão anunciando uma nova era de cooperação entre políticos e grandes empresas - especialmente aquelas da lista cada vez maior de empresas consideradas "estratégicas". Eleitores, consumidores e investidores devem lutar contra essa ideia, pois ela significará mais corrupção, menos concorrência e crescimento econômico mais lento. Como todas as crises, a calamidade da covid-19 passará e, com o tempo, uma nova onda de energia comercial será desencadeada. Muito melhor se isso não for abafado pelo governo permanentemente superdimensionado e por uma nova oligarquia de empresas bem conectadas. 

 TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Pandemia acentua crise da democracia e pode promover novo tipo de Estado-nação

Fernando Eichenberg, 
Especial para O Globo

Governos centrais mais fortes, aumento do autoritarismo e reforço do nacionalismo estão entre cenários cogitados por cientistas políticos

  Foto: ARIS OIKONOMOU / AFP
Um homem vestindo uma máscara caminha em frente 
à sede da Comissão Europeia em Bruxelas 

PARIS - A crise deflagrada pela pandemia do coronavírus está sendo considerada como capaz, uma vez terminada, de alterar não apenas os sistemas econômicos, mas também as formas de governança política no mundo. Um dos cenários que tem sido evocado por analistas na França aponta para a configuração de um novo Estado-nação, diferente dos modelos existentes nas democracias ocidentais e também dos populismos nacionalistas atuais.

Na mais recente sondagem realizada pelo Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), 41% dos franceses concordaram que “na democracia nada avança; seria melhor menos democracia e mais eficácia”. A pesquisa foi realizada no início de fevereiro, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia definido a epidemia do coronavírus como uma “emergência de saúde pública de âmbito internacional”.

Para o analista Luc Rouban, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), do qual faz parte o Cevipof, esta “grande minoria” que almeja menos democracia e mais eficácia é um “contrapeso ao longo período de contestação da tecnocracia e do poder centralizado” vivido recentemente no país, seja pelo movimento dos coletes amarelos ou nas manifestações contra a reforma das aposentadorias.

— Esta demanda por maior autoridade, ainda dentro de um espectro democrático, visa maior eficácia e melhor gestão — diz Rouban. — Após esta crise, poderá ocorrer uma reorientação para uma direita bem mais conservadora, autoritária, mas, ao mesmo tempo, respeitando a Constituição e as liberdades públicas. Haveria uma dimensão de “democracia iliberal”, sustentada na ideia de que a maioria deve impor suas vontades à minoria e de que é preciso uma liderança forte.

Na sua análise, haverá igualmente uma demanda pelo retorno do controle das fronteiras nacionais, o que significaria um recuo do projeto da União Europeia (UE) e de livre circulação no Espaço Schengen (formado por 26 países). O cursor tenderia, segundo ele, para a direção de uma Europa de nações, mais centrada nos Estados e menos em um espaço comum, mas não baseada nas ambições dos governos populistas de direita atuais:

— A diferença com os populismos é que haveria um peso muito importante dos especialistas e cientistas nas decisões políticas, ao menos nos âmbitos da saúde e do meio ambiente. Nos regimes puramente populistas, procura-se agradar o povo, dizendo que não é grave e não haverá problema. Não penso que haverá a saída brasileira de Jair Bolsonaro, mas poderá haver um tipo de tecnocracia um pouco mais reforçada.

O cientista político David Djaïz, também da Sciences-Po e autor do ensaio “Slow democracia — Como controlar a globalização e retomar as rédeas de nosso destino”, vê a emergência de um novo Estado, não autoritário, mas mais voltado ao aspecto nacional. Para ele, existe, hoje, a necessidade de reabilitar a nação no discurso progressista.

— O vocabulário da nação foi abandonado há 30 anos aos identitários e autoritários, que não fazem dele um uso com fins de democracia, solidariedade social e liberdades civis — pondera Djaïz. — É possível reativar um imaginário positivo do Estado-nação, como um dique da globalização, uma força capaz de equilibrar os efeitos da abertura econômica, colocar fora do mercado um certo número de bens públicos, relocalizar ativos estratégicos e dar dignidade a profissões essenciais ao funcionamento do social, como médicos, enfermeiros, professores, funcionários. Precisamos de poder público.

Na pesquisa do Cevipof, 52% dos entrevistados se disseram favoráveis a que sejam “especialistas e não um governo que decidam o que lhes parece ser o melhor para o país”, e 33% afirmaram que gostariam de ter no comando “um homem forte que não tivesse que se preocupar com Parlamento ou eleições”.

— É algo relacionado socialmente na sondagem —nota Djaïz. — As classes superiores se desengajam da democracia em proveito do governo de especialistas, e as classes médias e populares preferem o homem forte. Não acredito que os homens fortes estejam administrando melhor a crise que enfrentamos, mas o inverso. Há uma verdadeira questão para a democracia provar que, mesmo na situação catastrófica que atravessamos, é tão ou mais eficaz que os regimes autoritários, e que respeita o Estado de Direito e assume a transparência em sua comunicação, o que não foi o caso da China, por exemplo.

Pacto democrático

A UE, hoje, está em “perigo de morte”, diz ele, que nota na tríade em que foi edificada — liberdade, responsabilidade e solidariedade — uma falta evidente do terceiro elemento. Por outro lado, acredita que a oportunidade única de grande parte do mundo estar vivendo uma mesma experiência, em uma mistura de medo e de solidariedade, pode ser fundadora de uma nova política. 

— Mesmo em sociedades como as dos Estados Unidos ou do Brasil, muito polarizadas economicamente e culturalmente, há talvez uma experiência comum do medo, da igualdade diante da morte, e de se dizer que, no fundo, a vida e a saúde não têm preço. Existe disposição de congelar a economia para proteger os mais vulneráveis. Todas estas ideias, mais a desaceleração da globalização, devem ser o coquetel de um novo pacto democrático, que se apoiará em Estados-nação, com valor central na solidariedade e não no autoritarismo e na identidade.

Djaïz reconhece a existência de “raízes muitos profundas” nos movimentos populistas nacionalistas, com “danos enormes” para a democracia e sua credibilidade nos últimos anos, e que será preciso “muita energia” para se contrapor a este discurso:

— Muitas vezes, as crises não resultam no melhor. Algo muito importante é o imaginário e as narrativas que criamos. O erro maior após a crise financeira de 2008 foi que se tomaram medidas de urgência tecnocráticas, das quais algumas bem-vindas, mas não houve o cuidado de dizer: “Aqui está o que aprendemos de nossos erros e o mundo novo que vamos desenhar juntos”. E a única oferta que se impôs foi a populista, que tinha uma contranarrativa.

Coronavírus: as tensões diplomáticas que a pandemia provocou ao redor do mundo

Fernando Duarte
BBC World Service


 Direito de imagem  GETTY IMAGES Image caption
A crise gerada pela covid-19 aumentou a tensão entre os EUA e a China

As relações entre vários países foram prejudicadas com a pandemia de coronavírus. As tensões se concentram em questões como a disponibilidade de medicamentos e equipamentos médicos, além de críticas sobre como cada país tem combatido a propagação da doença.

Os atritos entre autoridades brasileiras e a China foram notícia nas últimas semanas, mas não são os únicos.

A Espanha, por exemplo, é um dos países mais afetados pela pandemia de coronavírus e precisa desesperadamente de equipamento médico, especialmente nas regiões mais afetadas pelos casos mais graves da covid-19.

Porém, os esforços para obter suprimentos foram dificultados por uma disputa com o governo turco, já que o embarque de centenas de respiradores comprados por entidades de saúde de três regiões espanholas foi retido pela Turquia, por onde o carregamento precisaria passar.

A mídia espanhola citou fontes locais que descrevem as situações como "roubo". Depois de quase uma semana de idas e vindas, o ministério das Relações Exteriores da Espanha conseguiu garantir o embarque.

Mas o episódio é outro exemplo de como a covid-19 está alimentando tensões diplomáticas em todo o mundo.

Por que tantas tensões estão surgindo?

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
Os hospitais da Espanha ficaram esperando por respiradores
 confiscados temporariamente pelas autoridades turcas

As brigas entre Estados Unidos e China também estão no centro das atenções, especialmente com incidentes como a ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de congelar fundos para a Organização Mundial da Saúde (OMS) sob o argumento de que a instituição é "chinacêntrica".

Mas pontos de conflito surgiram em outros lugares. E nem sempre envolvendo a China, que enfrenta acusações de subnotificação dos números de infecções.

"Em teoria, deveríamos ter visto nações se unindo em um momento em que todos estamos travando a mesma batalha", disse à BBC Sophia Gaston, cientista política do Instituto de Questões Globais da London School of Economics (Escola de Economia de Londres).

"Na prática, essa crise obrigou os países a se fecharem, se preocuparem com seus próprios problemas, com mais concorrência do que cooperação".

Um exemplo é uma disputa dentro das nações da União Europeia (UE).

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, não ficou 
impressionado com a resposta da UE aos problemas da Itália

Quando os casos de covid-19 dispararam na Itália, o país pediu aos vizinhos assistência com equipamentos e suprimentos médicos. Tanto a Alemanha quanto a França, no entanto, proíbem a exportação desses produtos.

"Certamente, este não é um bom sinal de solidariedade europeia", escreveu Maurizio Massari, embaixador da Itália em Bruxelas, no site Politico.

Os italianos também não ficaram impressionados com outro cabo de guerra com Berlim. A Alemanha é um dos países que se opõe a uma proposta de uma espécie de "vaquinha" colaborativa entre os países da União Europeia para ajudar os que estão mais afetados pela pandemia.


A diplomacia das máscaras

Os Países Baixos, a Áustria e a Finlândia também se opuseram publicamente ao plano, enquanto Espanha, França, Bélgica, Grécia, Irlanda, Portugal, Eslovênia e Luxemburgo apoiaram a criação dessa espécie de fundo coletivo. Isso mostrou ainda mais divisões dentro dos países da UE.

A Itália também é um estudo de caso sobre o que os especialistas descrevem como a "diplomacia das máscaras" da China: depois de controlar o coronavírus dentro de suas próprias fronteiras, Pequim inundou vários países de vários continentes com todo tipo de ajuda para combater a doença — entre os destinatários, a Rússia.

Roma recebeu doações de suprimentos médicos, kits de testes e até uma força-tarefa de médicos chineses que foram considerados heróis. De fato, a hashtag #grazieCina (obrigada China, em italiano) é uma tendência nas mídias sociais italianas.

Gesu Antonio Baez, diretor executivo da Pax Tecum, empresa de consultoria com sede em Londres, especializada em questões diplomáticas e de desenvolvimento internacional, diz que o país está explorando um vácuo deixado pelos Estados Unidos no cenário global — e que foi exacerbado por Donald Trump com seu lema "América em Primeiro Lugar", com o qual conquistou a presidência em 2016.

De qualquer forma, a posição de Washington está longe de ser conciliatória: além das brigas com a China, Trump deixou as autoridades alemãs enfurecidas quando tentou garantir direitos exclusivos para uma vacina contra a covid-19 desenvolvida por uma empresa médica alemã.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
A Índia recebeu críticas de Trump pela decisão de proibir a exportação
 de um medicamento que está sendo testado para covid-19

Mais recentemente, o presidente ameaçou a Índia de retaliação por sua decisão de proibir a exportação do medicamento antimalária hidroxicloroquina, que está sendo testado como tratamento para a covid-19, mas cuja eficácia ainda não foi comprovada.

"Os EUA não atuaram (como potência diplomática) durante esta crise e a China agora tem uma oportunidade de preencher essa lacuna", explicou Baez.

A "diplomacia das máscaras" não é um processo tranquilo, como o Brasil mostrou.

A percepção de que a China não conseguiu lidar com o primeiro surto de covid-19 com rapidez suficiente também levou ao ressentimento internacional, de acordo com Sophia Gaston.

Brigas entre o Brasil e a China

Gaston citou relatórios das agências de inteligência americanas que acusam a China de esconder as infecções e mortes no país. Autoridades britânicas também questionaram os dados oficiais chineses.

"A China tem estado sob escrutínio ao mesmo tempo em que iniciou esse enorme exercício de relações públicas. Haverá uma reação enorme quanto mais soubermos sobre seus números", acrescentou Gaston.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption 
As coisas têm sido muito menos cordiais entre Brasil e China desde 
que os presidentes Xi Jinping e Bolsonaro se conheceram em novembro

As relações entre o Brasil e a China também sofreram, com vários aliados do presidente Jair Bolsonaro entrando em brigas com a potência asiática através de postagens nas redes sociais, em que tentavam emplacar o uso da expressão "vírus chinês".

No incidente mais recente, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, irritou as autoridades chinesas com um tweet em que escrevia palavras errado que seus colegas asiáticos consideraram racista.

"Tais declarações são absurdas e desprezíveis e têm forte tom racista", dizia um tweet da Embaixada da China em Brasília.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil — compra 80% da soja do país, por exemplo — e as autoridades de saúde brasileiras já estavam lutando para obter ventiladores e suprimentos de saúde da China antes da intervenção do Weintraub.

Alimentando tensões pré-existentes

"Este caso mostra por que a diplomacia é necessária mais do que nunca", diz Gesu. "Os países precisam avaliar a situação e lidar com o medo da forma adequada".

Mas o vírus também está derramando gasolina no fogo de disputas pré-existentes. Entre elas a entre a Colômbia e a Venezuela.

As autoridades colombianas não reconhecem o regime do presidente venezuelano Nicolas Maduro como legítimo, e os dois países vizinhos estão em desacordo após uma forte movimentação de migrantes venezuelanos na fronteira.

A briga mais recente ocorreu em 1º de abril e foi motivada pela oferta de Maduro de duas máquinas de testes de covid-19 para o presidente colombiano, Ivan Duque.

Nos dias anteriores, houve relatos da mídia de que a única máquina de diagnóstico da Colômbia havia quebrado temporariamente.

A oferta foi recebida em silêncio pelo escritório de Duque, para grande aborrecimento de autoridades da Venezuela, como a vice-presidente Delcy Rodriguez.

 Direito de imagem HANDOUT Image caption
Maduro ofereceu duas máquinas de teste de covid-19
 para o presidente colombiano, Ivan Duque

"O governo de Ivan Duque rejeitou as duas máquinas doadas pelo presidente Maduro. É mais uma demonstração do desprezo de Duque pela vida e saúde do povo colombiano", ela tuitou.

Em uma entrevista de rádio transmitida em 7 de abril, Duque disse que as máquinas "não eram compatíveis com o tipo de testes, o tipo de reagentes, nem o material usado na Colômbia".

No Oriente Médio, Catar e Egito discordaram sobre o destino de cidadãos egípcios presos no Catar.

As autoridades do Catar, que estão lidando com o maior número de casos registrados de covid-19 nos países do Golfo, disseram à rede de televisão Al Jazeera que as autoridades egípcias se recusaram a aceitar um vôo com trabalhadores migrantes fretado pelo emirado.

O Egito faz parte de um grupo de nações árabes que, desde 2017, cortaram todos os laços diplomáticos com Doha por alegações de que seu regime apoia grupos extremistas.

 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
O Catar tem o maior número de casos registrados de covid-19 entre os países do Golfo

Mais razões para discussões do que máscaras e bloqueios

Mas as tensões são causadas por mais do que máscaras ou bloqueios.

Em 18 de março, vazou um relatório da União Europeia acusando os meios de comunicação influenciados pela Rússia de espalhar notícias falsas sobre a covid-19 no Ocidente. Um porta-voz do governo russo chamou as acusações de "infundadas".

Se as divisões parecem aumentar, alguns especialistas também identificam situações positivas em meio à pandemia.

Annalisa Prizzon, do instituto de pesquisas Overseas Development, diz que a crise está oferecendo oportunidades para uma maior cooperação.

"A crise está mostrando que os países desenvolvidos nem sempre são os 'especialistas'", disse Prizzon.


 Direito de imagem GETTY IMAGES Image caption
China doou suprimentos médicos para países de todo o mundo


"A maneira como a China compartilhou conhecimento com a Itália para mitigar o impacto do surto é, novamente, um exemplo oportuno e visível".

Mas Sophia Gaston ainda acha que mais cooperação é necessária.

"É uma oportunidade perdida, especialmente para os países ocidentais em tempos de crescente populismo e nacionalismo", diz. "Este deve ser um momento para demonstrar o poder da cooperação".

"Em vez disso, muitas estratégias estão piorando as relações entre os países", conclui.



Na busca por insumos médicos contra o coronavírus, países ricos empurram os mais pobres para fora do mercado

Jane Bradley, do New York Times
O Globo

África e América Latina têm dificuldade para comprar máscaras e testes para a Covid-19, enquanto EUA e Europa pagam mais caro e compram quase toda a produção


Foto: Sumaya Hisham / REUTERS
Mulher usa máscara e luva em restaurante da Cidade do Cabo 

NOVA YORK — Caixas com máscaras arrancadas de aviões de carga nos pátios dos aeroportos. Países pagando o triplo do preço de mercado para superar as propostas de outros. Acusações de “pirataria moderna” contra governos que tentam conseguir insumos médicos para sua população.

Enquanto os EUA e países da União Europeia travam um combate para comprar os já escassos equipamentos médicos para combater o coronavírus, uma outra divisão preocupante está surgindo, com países mais pobres perdendo para os mais ricos na briga por máscaras e materiais para testagem.

Cientistas na África e na América Latina ouviram de fabricantes que os pedidos de testes vitais não poderão ser atendidos nos próximos meses, uma vez que a cadeia de suprimentos está em situação caótica, e quase tudo que eles produzem vai para EUA ou Europa. Todos os países reportam altas consideráveis nos preços, de kits de testagem até máscaras.

A enorme demanda global por máscaras, ao lado de novas distorções no mercado privado, levou alguns países em desenvolvimento a buscarem o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Etleva Kadilli, responsável pelos suprimentos na agência, disse que tentava comprar 240 milhões de máscaras para ajudar cerca de 100 países, mas só conseguiu 28 milhões. 

—  Há uma guerra nos bastidores, e estamos preocupados que os países mais pobres estão sendo derrotados — disse Catharina Boehme, principal executiva da Fundação por Novos Diagnósticos Inovadores, que colabora com a Organização Mundial da Saúde para ajudar países pobres a conseguirem testes médicos.


Epidemia devastadora

Na África, América Latina e partes da Ásia, muitos países já estão em desvantagem, com sistemas de saúde sem verbas, frágeis e muitas vezes sem os equipamentos necessários. Um estudo recente mostrou que algumas nações mais pobres possuem apenas um leito de terapia intensiva para cada um milhão de habitantes.

Até agora, os países em desenvolvimento relataram poucos casos e mortes ligados à Covid-19, mas muitos especialistas temem que a pandemia possa ser especialmente devastadora para as nações mais pobres.

Realizar testes é a primeira linha de defesa contra o vírus e uma ferramenta importante para evitar que muitos pacientes acabem hospitalizados. Muitos fabricantes querem ajudar, mas esse nicho industrial que produz os equipamentos necessários, além dos reagentes para processar esses testes nos laboratórios, enfrenta uma colossal demanda mundial. 

— Nunca houve uma falta de reagentes químicos como a que estamos vendo agora — afirmou Doris-Ann Williams, executiva da Associação de Diagnósticos Britânica In Vitro, que representa produtores e distribuidores de testes de laboratório usados para detectar o coronavírus. — Se fosse apenas um país com uma epidemia, sem problemas, mas todos os grandes países do mundo querem a mesma coisa ao mesmo tempo.

Para países mais pobres, Boehme disse, a competição por recursos é potencialmente uma “catástrofe global”, uma vez que a cadeia de suprimentos outrora coerente se transformou em uma queda de braço. Líderes de “cada um dos países” ligam pessoalmente aos executivos das indústrias para exigir acesso prioritários aos insumos vitais. Alguns governos ofereceram enviar aviões privados para buscar a carga.

Sem insumos

No Brasil, Amilcar Tanuri não pode oferecer jatos. Ele comanda os laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo que a metade deles está “parada fazendo nada” ao invés de testar trabalhadores da saúde, ele afirma, porque os reagentes químicos necessários estão sendo enviados para nações mais ricas. 

— Se você não tem testes confiáveis, está cego — ele afirma. — Esse é o começo da curva epidêmica, então estou muito preocupado com o sistema de saúde daqui estar sobrecarregado de forma tão rápida. 

O Brasil é o país mais atingido pelo coronavírus na América Latina, com mais de 16 mil casos e cerca de 65 mil testes realizados. Também é o ator regional mais controverso nesta pandemia, com um presidente, Jair Bolsonaro, que é abertamente cético aos riscos apresentados pelo coronavírus,

Deixando os ruídos políticos de lado, os cientistas do país estão tentando aumentar o número de testes desde o anúncio do primeiro caso local. Mas em questão de semanas, Tanuri precisou ligar pessoalmente para empresas privadas em três continentes para tentar obter os reagentes químicos necessários para os 200 testes que seus laboratórios recebem todos os dias — mas apenas ouviu que os EUA e a Europa compraram o equivalente a meses de produção.

— Se comprarmos algo para daqui a 60 dias, já será tarde — afirmou. — O vírus anda mais rápido do que podemos ir.

Uma situação parecida com a de alguns países africanos. 

Depois de confirmar a primeira morte no dia 27 de março, a África do Sul se moveu rapidamente, impondo uma quarentena estrita e anunciando um ambicioso plano para testar as pessoas nas suas próprias casas, tendo realizado 47 mil até agora. A África do Sul tem mais de 200 laboratórios públicos, uma rede impressionante que supera até a de países mais ricos, como o Reino Unido, e que foi desenvolvida em resposta a surtos de HIV e tuberculose no passado.

Mas, assim como o Brasil, depende de empresas internacionais para obter reagentes químicos, além de outros equipamentos, para realizar os testes. François Venter, especialista em doenças infecciosas que está assessorando o governo sul-africano, disse que a dificuldade para obter tais reagentes está colocando em risco a resposta nacional à Covid-19.

— Temos a capacidade de fazer muitos testes, mas estamos sendo atrapalhados pelo fato de que os materiais de testagem, reagentes, não estão chegando — afirmou. — Não somos tão ricos. Não temos tantos respiradores. Não temos tantos médicos. Nosso sistema de saúde se encontrava em situação precária mesmo antes do coronavírus. O país está aterrorizado. 

Alta demanda

Especialistas dizem que a indústria que produz esses testes é pequena. Williams, que representa esse nicho industrial no Reino Unido, diz que não há falta de reagentes químicos, mas as demoras começam a surgir no processo de produção, incluindo nas análises e aprovações, porque a alta demanda estava sobrecarregando o sistema.

— Os fabricantes não querem apenas vender para os países ricos — diz Paul Molinaro, chefe de suprimentos e logística da OMS. — Eles querem diversificar, mas enfrentam essa demanda competitiva de diferentes governos. Quando chegamos ao um nicho de um meio muito competitivo, com preços elevados, os países de renda baixa e média acabam no fim da fila.

Na semana passada, o presidente Donald Trump invocou o Ato de Produção de Defesa para proibir a exportação de máscaras para outros países e ordenou que as empresas americanas aumentem a produção de insumos médicos.

Uma das maiores fabricantes de máscaras, a 3M, respondeu alertando sobre “implicações humanitárias significativas” se suspendesse o fornecimento para a América Latina e Canadá. Esta semana, a companhia e o governo dos EUA chegaram a um acordo que permite à 3M seguir exportando para países em desenvolvimento, enquanto fornece 166 milhões de máscaras aos EUA nos próximos meses.

Em março, Europa e China também introduziram suas próprias restrições de exportação de testes e equipamento de proteção.

Ação em conjunto

Algumas companhias, contudo, estão colocando o lucro de lado para ajudar países em desenvolvimento, justamente os que têm os sistemas de saúde mais frágeis.

Um fabricante britânico de testes, Mologic, recebeu financiamento público para desenvolver um teste caseiro para detectar o coronavírus em dez minutos, realizado em parceria como Senegal. Se aprovado, custará cerca de R$ 5 para ser produzido. Ele não dependeria mais de laboratórios, eletricidade ou insumos caros vindos de fabricantes globais.

A Mologic concordou em compartilhar sua tecnologia com o Instituto Pasteur de Dacar, um dos principais laboratórios da capital senegalesa, para ajudar a produzir o kit a custo de fábrica. O objetivo é, além de torná-lo cada vez mais disponível, frear o avanço da doença na África.

Mas para países mais pobres, o problema de suprimentos vai além dos testes.

A Zâmbia está bem no começo de sua curva epidêmica, com uma morte, mas já enfrenta problemas para conseguir máscaras de proteção, assim como materiais usados nos testes, incluindo cotonetes e reagentes, aforma Charles Holmes, integrante do conselho do Centro de Pesquisa de Doenças Infecciosas no país e ex-responsável médico, no governo de Barack Obama nos EUA, para o Plano Presidencial de Emergência para a Aids.

Quando Zâmbia tentou comprar as máscaras do modelo N95, disse Holmes, o representante tentou vendê-las por “cinco ou dez vezes acima” do preço normal, apesar de uma rápida conferência mostrar que as máscaras estão vencidas desde 2016 (as máscaras possuem validade média de 5 anos).

— É difícil para países ou governos terem essas conversas com fabricantes quando países mais ricos estão tendo as mesmas conversas — afirmou. — O setor privado é mais propenso a aceitar a maior oferta por esses itens. São negócios.

Entenda como funcionam as regras de quarentena nos EUA, Europa e Ásia

Paulo Beraldo, 
O Estado de S.Paulo

Medidas de isolamento social, em maior ou menor grau, já são notadas em inúmeros países. Casos de coronavírus no mundo se aproximam do 1,5 milhão

  Foto: Maria Contreras Coll/The New York Times
Mulher usa máscara em um cruzamento em Barcelona, 
uma das cidades mais afetadas pelo coronavírus na Espanha 

Com quase 1,5 milhão de casos de coronavírus pelo mundo, medidas de isolamento social, em maior ou menor grau, já são notadas em diversos países. Na Itália, onde o vírus causou mais de 17 mil mortes, o controle é rígido e o país já aplicou mais de 40 mil multas para quem fura a quarentena. Na Suécia, onde há bem menos registros, as medidas por enquanto são mais suaves. O que se viu nos Estados Unidos foram decisões progressivas e que mudam de Estado para Estado. Confira a seguir as informações por país: 

Itália, Espanha e França

Os governos de Itália, Espanha e França, três dos quatro países mais afetados pela covid-19, determinaram medidas como quarentenas obrigatórias e estão aplicando multas para as pessoas que desobedecerem a medida. Aglomerações estão proibidas e eventos públicos foram cancelados. Em Madri, o governo decidiu usar drones para monitorar o fluxo de pessoas. A Itália já emitiu mais de 40 mil multas para quem descumpriu as medidas de distanciamento social. As medidas de limitação da circulação de pessoas têm como objetivo reduzir a disseminação do coronavírus nessas nações, que juntas, tiveram 400 mil casos de coronavírus e mais de 43 mil mortos.


Suécia

Diferente de outros países europeus, na Suécia as medidas de distanciamento social estão mais suaves. Ainda é possível levar crianças à escola, ir a restaurantes e à academia. O governo, no entanto, recomendou que as pessoas que possam trabalhem de casa, não façam viagens que não sejam essenciais e fiquem apenas o tempo necessário nas ruas. Shows, eventos esportivos e aglomerações com mais de 50 pessoas estão proibidas.


Estados Unidos

Com 400 mil casos de coronavírus, os Estados Unidos adotaram medidas progressivamente. No início, o presidente Donald Trump minimizou a importância do vírus. Pouco a pouco, Estados como Califórnia e Nova York decidiram adotar quarentenas e medidas mais restritas que as do governo federal. O número de casos confirmados é elevado porque os EUA continuam fazendo mais testes do que qualquer outro país. A nação aprovou um pacote de US$ 2 trilhões para estimular a economia em meio à pandemia de coronavírus.

Pouco a pouco, Estados como Califórnia e Nova York decidiram adotar quarentenas e medidas mais restritas que as do governo federal. O número de casos confirmados é elevado porque os EUA continuam fazendo mais testes do que qualquer outro país. A nação aprovou um pacote de US$ 2 trilhões para estimular a economia em meio à pandemia de coronavírus.

China

No início do surto, na China, autoridades restringiram viagens em todo o país e disseram às pessoas para ficar em casa. As medidas têm sido flexibilizadas apenas recentemente. Mas, nas fábricas, a rotina agora exige medições de temperatura e muito mais cuidado do que antes. Estrangeiros que precisem viajar ao país a trabalho em casos essenciais ainda podem obter vistos.

Índia

Segundo país mais populoso do mundo, a Índia baniu todos os voos internacionais até 14 de abril. E impôs a maior quarentena do mundo, que causou uma migração em massa das grandes cidades para outras regiões do país de 1,3 bilhão de habitantes. Milhões de pessoas vivem em favelas no país e ficar em casa por três semanas, sem renda, é algo impossível. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, anunciou um pacote de US$ 24 bilhões, incluindo o fornecimento de comida gratuita para 800 milhões de pessoas. Também há gás de cozinha gratuito para 80 milhões de famílias nos próximos 3 meses.

Como Portugal mantém o coronavírus mais controlado que países europeus mais ricos

Javier Martín Del Barrio, Lisboa
El Pais  

Precauções sanitárias, planos de controle oportunos e união política controlam a epidemia melhor que em outros lugares com mais recursos econômicos

  FRANCISCO JAVIER MARTÍN DEL BARRIO 
Horácio cria suas ovelhas na aldeia de Santa Margarida da Serra, no Alentejo (Portugal).

Não faz muito tempo, o presidente português disse que seu país era a Suécia do sul. Ainda que o popular Marcelo Rebelo de Sousa tenha se referido na época às conquistas diplomáticas, a definição poderia ser estendida hoje à luta contra o coronavírus. Portugal contorna a pandemia com um índice de casos por milhão de habitantes que é a metade do sueco. Embora o mundo continue boquiaberto olhando para o norte, britânicos, suíços, holandeses e alemães poderiam aprender alguma coisa mais ao sul, com o latino Portugal, onde o coronavírus avança sob controle.

O cordeirinho que ainda exibe cordão umbilical não sabe, mas nasceu com um estrela. Graças a estes tempos de calamidade, não acabará em alguma churrasqueira nesta Páscoa. “Foi parido esta manhã”, confirma o pastor Horácio. O animal quase não pode se manter de pé ao lado dos outros filhotes, alguns dias mais velhos que ele, todos indultados pelo coronavírus. “Hoje é este bicho e não há demanda, amanhã será a seca e não haverá pasto. Em 10 anos não haverá nada nem ninguém por aqui.” Horácio cria as ovelhas numa aldeia do Alentejo, uma região do tamanho da Catalunha onde o coronavírus não conseguiu matar. Um caso excepcional dentro do exemplo já excepcional que é Portugal.

Em 2 de março foram descobertos os primeiros casos positivos em Portugal, praticamente o último país infectado da Europa Ocidental, e por causa de importações da Itália e da Espanha. Embora a autoridade sanitária tivesse considerado a Covid-19 uma “gripe forte” dias antes, as previsões mais pessimistas apontavam para um milhão de contagiados, 10% da população do país. Quarenta dias depois, existem apenas 16.000 casos e 470 mortes. Numa guerra sem fim, os profissionais de saúde portugueses abrem mão das medalhas. “Não somos melhores que os italianos nem que os espanhóis”, afirma o pneumologista Filipe Froes. “São etapas diferentes. Estamos três semanas atrás da Itália e uma ou duas atrás da Espanha. É cedo para avaliar Portugal.”

Até agora, os dados portugueses são muito mais encorajadores que os da França, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Bélgica e Suíça, estereótipos da suposta eficácia, disciplina e racionalidade do norte da Europa.

“Todos os países aplicam as mesmas medidas, mas nós tivemos mais tempo de prepará-las”, diz Froes. “No início, a atividade do vírus foi mais brusca na Itália e na Espanha, agindo em mais focos geográficos e em instituições sensíveis, como hospitais e lares de idosos.”

Em 13 de março, o primeiro-ministro português, António Costa, decretou o estado de alerta e o fechamento dos colégios. Tomou a medida ao mesmo tempo em que a Espanha, com a diferença de que esta registrava 6.000 contágios e 132 mortos, e Portugal apenas 112 positivos, nenhum mortal. 

Naquele mesmo dia, foi detectado o primeiro caso de contágio local, um dado importante para frear a expansão do vírus, segundo a epidemiologista Inês Fronteira. Do primeiro caso importado ao primeiro entre locais, 11 dias haviam passado, ao contrário da Itália e da Espanha, que demoraram 23 e 28 dias, respectivamente, para localizá-los. Um estudo da professora de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa indica que a reprodução do vírus em Portugal, nos primeiros 25 dias da epidemia, foi por isso a mais baixa da Europa, inclusive inferior às cifras da Coreia do Sul e da China.

Apesar da cautela dos especialistas portugueses, faz uma semana que os contágios duplicam a cada oito ou nove dias. “É verdade”, reconhece o pneumologista Froes, “que na fase de desenvolvimento do contágio ativamos a rede de atenção primária. Com isso, conseguimos uma resposta domiciliar ao paciente para seguir o tratamento em casa e uma melhor resposta ao doente grave nos hospitais”. Hoje, 82% dos contagiados continuam a recuperação em seus domicílios.

Os hospitais estão longe do colapso, e os de campanha nem foram capacitados. João Mota, chefe de proteção civil de Grândola, transformou um espaço de feiras num hospital temporário. “No momento ele não é necessário [há quatro casos na localidade], mas está preparado para que outros hospitais transfiram para cá pacientes com doenças não contagiosas”, afirma. Os 233 internados nas UTIs do país utilizam seis ventiladores por cabeça, e nesta semana chegarão outros tantos para completar um total nacional de 3.000 aparelhos.

A epidemia se concentra na Grande Lisboa e na região do Porto, com 90% dos casos positivos. No extremo oposto está a terra de Horácio, o Alentejo, com 0,5%. Com 33% da superfície do país continental, a região tem apenas 23 habitantes por quilômetro quadrado, como na Suécia. “A densidade populacional é um fator fundamental numa expansão epidemiológica”, diz a demógrafa Maria Filomena Mendes, da Universidade de Évora.

O coronavírus, longe de distanciar instituições e partidos, aproximou-os. O presidente, Rebelo de Sousa (Partido Social-Democrata, PSD), e o primeiro-ministro, Costa (Partido Socialista, PS), se complementam e publicamente escondem suas discrepâncias. Não há provas de que a unidade institucional cure epidemias, mas sim de que as brigas políticas estimulam o mal-estar da sociedade. 

Nas redes sociais portuguesas, é impossível encontrar vídeos de cidadãos insultando ou raivosos (tampouco engraçados). Nas ruas, a polícia não controla, “sensibiliza”; não multa, “recomenda”. Em abril, somente deteve – no sentido mais leve do termo – 74 pessoas por violar o confinamento. Empresas e lojas permanecem abertas – com a exceção de bares e restaurantes – enquanto o presidente já anuncia que o estado de emergência continuará até maio.

Seja pelos médicos, pelos políticos ou pelo povo, Portugal está lidando com a situação melhor do que muitos países, embora ela não seja a ideal. Faltam testes, máscaras e gel desinfetante. Os planos de prevenção se esqueceram dos lares de idosos, como reconhece o pneumologista Froes. “Tínhamos que ter sido mais rigorosos na avaliação do risco nessas instituições.”

Aos 70 anos, o pastor Horácio não tem medo do coronavírus. “Lutei na guerra de Moçambique, depois fui a Angola, depois ao Iraque... Se ele vier, aqui estamos. Você acha que o vírus se lembrará de nós?”.

Itália, França e Reino Unido prorrogam medidas de isolamento

Gazeta do Povo (Paraná)
Com informações Estadão Conteúdo

Foto: FRANCK FIFE/AFP
França vai manter o isolamento devido ao novo coronavírus| 

França e Itália decidiram manter suas restrições de mobilidade para tentar conter o avanço do coronavírus, enquanto o Reino Unido deve prorrogar, ainda nesta semana, as normas de isolamento social da população. As medidas mostram o quanto alguns governos europeus temem retomar as atividades econômicas cedo demais e ter de enfrentar depois uma nova onda da pandemia.

França

Em pronunciamento, o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira a prorrogação das regras atuais de "confinamento rígido" até 11 de maio – a partir da data, disse Macron, creches e escolas serão reabertas "progressivamente". De acordo com ele, bares, cafés, restaurantes e hotéis devem continuar fechados mesmo após o dia 11 de maio.

Macron afirmou ainda que os grupos mais sensíveis à doença, como idosos e doentes crônicos, terão de permanecer confinados por mais tempo. A França registrou ontem 574 mortes pela covid-19, elevando o total para 14.967, segundo o Ministério da Saúde. O país tem mais de 98 mil casos da doença.

Itália

Apesar de números que mostram uma desaceleração da disseminação do vírus, a Itália também prorrogou as medidas de restrição até 3 de maio, com a obrigação de confinamento em casa e fechamento de atividades não essenciais.

Um novo decreto começa a vigorar nesta terça-feira (14) e permitirá apenas a abertura de alguns poucos estabelecimentos, quase simbolicamente e em maneira experimental, como livrarias, papelarias, lojas de roupas infantis. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, descartou a abertura de indústrias, apesar das pressões econômicas.

"No momento, qualquer hipótese sobre isso é prematura", disse Angelo Borelli, diretor da agência de Defesa Civil, em entrevista coletiva.

"Ainda estamos na fase um, não há dúvidas", disse Gianni Rezza, do Conselho Técnico Científico, que assessora o governo italiano. Ao todo, o país tem quase 160 mil infectados e mais de 20 mil mortes.

Reino Unido

Já o Reino Unido indicou que também deve manter o isolamento social. Em entrevista coletiva, o secretário de Estado do Reino Unido, Dominic Raab, disse ser "cedo demais" para considerar a possibilidade de flexibilizar as restrições impostas há três semanas para conter a propagação do coronavírus.

"Haverá um momento no futuro em que poderemos falar de uma transição, mas ainda não chegamos lá", disse Raab, que substitui Boris Johnson como chefe de governo, enquanto o primeiro-ministro se recupera da Covid-19 na residência oficial em Chequers, depois de ter recebido alta no domingo. O premiê estava internado desde o dia 5 de abril e passou três noites na UTI.

Segundo Raab, haverá uma reunião na quinta-feira para avaliar as restrições, que devem ser mantidas. Os números do Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) indicam que quase 11,4 mil já morreram pela Covid-19 nos hospitais britânicos, 717 nas últimas 24 horas. O Reino Unido tem mais de 88 mil infecções confirmadas.

Como a Nova Zelândia congelou os casos de coronavírus no país?

Anna Fifield, The Washington Post, 
O Estado de S.Paulo

Governo adotou confinamento quase total, faz testes em massa e controla a chegada de estrangeiros; País de 4,7 milhões de habitantes tem 1239 casos confirmados e apenas uma morte

  Foto: David Lintott/ AFP 
A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern 

WELLINGTON, NOVA ZELÂNDIA - Faz menos de duas semanas desde que a Nova Zelândia impôs um confinamento rigoroso por causa da pandemia de coronavírus. Nadar na praia e caçar em áreas arborizadas foram atividades proibidas, porque não são atividades essenciais. Os cidadãos foram instruídos a não fazer nada que possa desviar os recursos dos serviços de emergência.

As pessoas andam de bicicleta estritamente em seus bairros; são obrigadas a se alinhar a um metro e meio de distância de cada uma em filas dos supermercados enquanto esperam para entrar no local; as escolas estão fechadas e as crianças tem aulas em casa.

Levou apenas 10 dias para que os sinais de que a abordagem no país - “eliminação” do contágio, em vez do objetivo de "contenção" dos Estados Unidos e de outros países ocidentais - está funcionando.

O número de novos casos caiu por dois dias consecutivos, enquanto o número de testes se multiplicou. Houve 54 casos confirmados na terça-feira. Isso significa que o número de pessoas que se recuperaram, 65, excede o número de infecções diárias. Hoje o país tem 1.239 casos confirmados. 

Após atingir o pico de 89 infecções diárias em 2 de abril, o número diário de novos casos chegou a 67 na segunda-feira e 54 na terça-feira. A grande maioria dos casos pode ser vinculada a viagens internacionais, tornando o rastreamento de contatos relativamente fácil, e muitos são mantidos em locais identificáveis.

Por haver poucas evidências de transmissão comunitária, a Nova Zelândia não possui um grande número de pessoas sobrecarregando hospitais. Apenas uma pessoa, uma mulher idosa com problemas de saúde pré-existentes morreu.

"Os sinais são promissores", afirmou Ashley Bloomfield, diretora geral de saúde da Nova Zelândia. Os resultados rápidos levaram a pedidos para reduzir o bloqueio, mesmo que um pouco, para o feriado de Páscoa de quatro dias, especialmente com o término do verão.

Mas a primeira-ministra Jacinda Ardern está convencida de que a Nova Zelândia completará quatro semanas de bloqueio - dois ciclos completos de incubação de 14 dias - antes de relaxar o confinamento. 

Como a Nova Zelândia, um país que ainda chamo de lar depois de 20 anos no exterior, controlou seu surto tão rapidamente?

Quando cheguei aqui há um mês, viajando do epicentro da pandemia na China, atravessando a Coreia do sul, também um foco da pandemia na Ásia, fiquei chocada ao saber que as autoridades não mediram minha temperatura no aeroporto. Disseram-me simplesmente para eu me auto-isolar por 14 dias (o que eu fiz).

Mas com o coronavírus varrendo a Itália e se espalhando pelos Estados Unidos, a Nova Zelândia, um país fortemente dependente do turismo, que recebe 4 milhões de visitantes internacionais por ano (quase o número da população total), fez o impensável: fechou suas fronteiras para estrangeiros em 19 de março.

Dois dias depois, Ardern fez um discurso televisionado de seu escritório - a primeira vez desde 1982 que um discurso do tipo foi feito - anunciando um plano de alerta de resposta a pandemia do coronavírus envolvendo quatro estágios, com um bloqueio total no nível 4.

No dia seguinte, um grupo de líderes influentes do país, entre empresários e políticos, telefonou para ela para pedir a mudança para o nível 4.

"Estávamos extremamente preocupados com o que estava acontecendo na Itália e na Espanha", disse um deles, Stephen Tindall, fundador do Warehouse, o maior varejista da Nova Zelândia.

  Foto: Sanka VIDANAGAMA / AFP 
Aeroporto em Christchurch, na Nova Zelândia, fechado por causa do coronavírus  

"Se não parássemos com rapidez suficiente, a dor continuaria por muito tempo", disse ele em entrevista por telefone. "É inevitável que tenhamos que desligar de qualquer maneira, por isso preferimos que seja rápido e preciso".

Em 23 de março, segunda-feira, Ardern fez outra declaração e deu ao país 48 horas para se preparar para um bloqueio de nível 4. "Atualmente, temos 102 casos", disse ela. "Mas a Itália também fez isso uma vez."

A partir daquela quarta-feira à noite, todos tiveram que ficar em casa por quatro semanas, a menos que trabalhassem serviços essenciais como assistência médica, ou fossem ao supermercado. Exercícios perto de casa também estavam liberados.

Algumas horas antes da meia-noite, meu telefone tocou uma sirene ao emitir um alerta de texto: “Aja como se você tivesse o covid-19. Isso salvará vidas”, dizia o texto, referindo-se à doença causada pelo novo coronavírus. “Vamos fazer a nossa parte para nos unirmos contra o covid-19”.

Desde os primeiros estágios, Ardern e sua equipe falaram em linguagem simples: fique em casa. Não tenha contato com ninguém fora da "bolha" de sua casa. Seja gentil. Estamos juntos nessa.

Ela costuma fazer isso nas entrevistas coletivas, onde discute tudo, desde o preço das couves-flores aos subsídios salariais. Mas ela também atualiza a população regularmente e responde a perguntas no Facebook, incluindo uma feita enquanto estava sentada em casa - possivelmente em sua cama - vestindo um moletom.

Houve críticos e rebeldes. A polícia ordenou que os surfistas saíssem das ondas. O ministro da saúde foi pego andando de bicicleta na montanha e levando sua família à praia. Ele foi castigado publicamente por Ardern, que disse que ela o teria demitido se não fosse prejudicial à resposta à crise.

Mas houve um senso de propósito coletivo. A linha telefônica da polícia para não-emergências foi sobrecarregada com pessoas que ligam para avisar que outras pessoas estão violando as regras.

A resposta foi notavelmente apolítica. O Partido Nacional, de centro-direita, tomou uma decisão de não criticar a resposta do governo - e de fato ajudá-la. Esses esforços parecem estar valendo a pena.

Desaceleração da contaminação por coronavírus

O início da desaceleração refletiu "um triunfo da ciência e da liderança", disse Michael Baker, professor de saúde pública da Universidade de Otago e um dos principais epidemiologistas do país.

"A premiê abordou isso de forma decisiva e inequívoca e enfrentou a ameaça", disse Baker, que defendia uma abordagem de "eliminação" desde a leitura de um relatório da Organização Mundial da Saúde sobre a China, em fevereiro.

"Outros países tiveram um aumento gradual, mas nossa abordagem é exatamente o oposto", disse ele. Enquanto outros países ocidentais tentaram retardar a doença e “achatar a curva”, a Nova Zelândia tentou acabar com ela completamente.

No caso da Nova Zelândia, ser uma pequena nação insular facilita o fechamento de fronteiras. Também ajuda que o país pareça frequentemente uma vila, onde todos conhecem todos os outros, para que as mensagens possam viajar rapidamente.

O próximo desafio da Nova Zelândia: depois que o vírus é eliminado, como mantê-lo dessa maneira?
O governo não poderá permitir a entrada livre de pessoas na Nova Zelândia até que o vírus pare de circular globalmente ou se desenvolva uma vacina, disse Baker. 

Mas com um rígido controle nas fronteiras, as restrições poderiam ser gradualmente relaxadas e a vida na Nova Zelândia poderia voltar ao normal.

Ardern disse que seu governo está considerando quarentena obrigatória para os neozelandeses que retornam ao país após o confinamento. "Eu realmente quero um sistema estanque em nossa fronteira", disse ela nesta semana, "e acho que podemos fazer isso."


Ignorados pelos EUA, imigrantes ilegais apelam ao governo brasileiro por ajuda

Mariana Sanches e Rafael Barifouse
Da BBC News Brasil em Washington e em São Paulo


 Direito de imagem NGELA WEISS/AFP VIA GETTY IMAGES Image caption
'Se a quarentena passar de junho, aí sim o bicho pega, porque minha reserva 
vai acabar e não vou ter mais dinheiro nenhum', diz brasileiro que trabalhava
 de garçom em Nova York e perdeu o emprego

Por dividir um apartamento de três quartos com outras oito pessoas, Otávio* não conseguiria disfarçar os sintomas mesmo se quisesse. Há três semanas, começou a ter febre alta, tosse e dores de cabeça. "Tinha nevado e fazia frio. Não estamos acostumados com esse tempo e achamos que ele tinha pego uma gripe", conta à BBC News Brasil Fabiana*, de 32 anos, que dividia com o rapaz o apartamento em Everett, na região de Boston, no nordeste dos Estados Unidos. Ele tinha sido infectado com o coronavírus.

Mas todos os moradores da casa só souberam disso depois que Otávio foi retirado de casa por uma ambulância, sem conseguir respirar. Há dez dias, ele está entubado e sedado na UTI de um dos hospitais do Estado de Massachussets que atendem imigrantes indocumentados como eles.

Grávida de 5 meses, Fabiana também contraiu a doença. Ela, o marido e o filho, de 2 anos, chegaram aos EUA há quase um ano, depois de deixar para trás a oficina mecânica dele e os serviços de confeiteira dela em Vilhena, em Rondônia.

Com uma renda familiar de R$ 1,5 mil, não conseguiram visto de turismo e resolveram atravessar a fronteira do México para chegar a El Paso, no Texas, uma travessia ilegal feita por um número recorde de brasileiros no último ano: quase 20 mil, segundo estimativas.

"A gente achava que finalmente ia viver os sonhos que já tinha deixado pra trás, que a gente ia mandar dinheiro pro Brasil. Era tudo ilusão. Quem pensa que vai vir pros Estados Unidos pra passar necessidade?", relata, em lágrimas. Ela já emagreceu 25 quilos desde a viagem, que custou US$ 15 mil dólares, apenas parcialmente pagos a um coiote - o traficante de pessoas que viabiliza a entrada irregular de migrantes pela fronteira.

"Demos quase tudo o que a gente tinha, chegamos no país com US$ 100 no bolso", diz. O marido arrumou "bicos" como azulejista, carpinteiro, faxineiro, ajudante. Cada dia em um lugar, com um patrão diferente. Recebia cerca de US$ 120 por dia. Mas, com a doença e o fechamento quase completo dos comércios há cerca de um mês, todos os trabalhos desapareceram.

O governo de Massachussets determinou que nada funcionará até o dia 4 de maio. Com o aluguel atrasado e uma dívida de US$ 3,8 mil com o coiote, Fabiana faz contas: "Recebemos três cestas básicas do pessoal da igreja, brasileiros que ajudam. Temos o que comer por mais duas semanas. Se ele não conseguir voltar a trabalhar até lá, não sei o que vai ser".

 Direito de imagem REUTERS/BRIAN SNYDER Image caption
EUA se converteram no novo epicentro global da doença no mundo; cada 
quatro infectados,um está no país: são mais de 400 mil contaminados e 15 mil mortos

O sofrimento de Fabiana é o mesmo de alguns milhares de brasileiros indocumentados nos EUA que, em meio à quarentena geral e à recessão econômica, não têm direito ao auxílio de US$ 1,2 mil aprovado recentemente pelo governo americano para pessoas em situação vulnerável - nem aos R$ 600 mensais da renda básica emergencial brasileira.

Segundo o Itamaraty, há hoje cerca de 1,2 milhão de brasileiros vivendo nos EUA. Deles, entre 250 mil e 400 mil não têm autorização para isso, segundo estimativa de 2016 do Migration Policy Institute. Invisíveis aos dois sistemas de proteção social e sem qualquer renda de trabalho, já que tudo parou, eles não sabem como pagarão as contas ou comprarão comida nas próximas semanas. E temem que até mesmo pedir ajuda possa levá-los à prisão ou à deportação.

"Imigrantes, especialmente os que não tem documentação, são os mais atingidos na crise. A maioria deles trabalha no setor de serviços, que está sendo afetado tremendamente. Tudo está fechado, até os hotéis, por ordem do Estado. A renda deles diminuiu muito. O imigrante não é funcionário, é autônomo, se não trabalha, não ganha. Não têm direito ao seguro-desemprego. As pessoas ficam desesperadas", afirma Esther Pereira, diretora da ONG Immigrant Resource Center, sediada em Deerfield Beach, no sul da Flórida, que presta auxílio a migrantes em todo o país.

Quando o dinheiro termina antes da quarentena

Consultado, o Itamaraty informou que não teria como consolidar os números de pedidos de ajuda de brasileros em situação de "desvalimento" nos Estados Unidos em tempo hábil. Mas segundo a BBC News Brasil apurou, na última semana, apenas o consulado em Boston recebeu mais de 900 pedidos de ajuda, e o número tende a aumentar conforme a quarentena se prolongue.

"Nas últimas 48 horas, mais de cem brasileiros nos procuraram em busca de auxílio financeiro: quase ninguém pagou o aluguel, muita gente com criança pequena e há semanas sem receber nenhum dinheiro", afirma Tiago Prado, um dos líderes comunitários brasileiros na região de Boston que ajuda a organizar e encaminhar as demandas dessas pessoas para instituições de caridade e autoridades brasileiras.

Por decisão judicial, ordens de despejo estão suspensas por enquanto, e a orientação de ONGs e líderes comunitários é de que as pessoas deixem de pagar o aluguel e mantenham o dinheiro que têm em mãos para gastos com comida e remédio.

"Não posso pagar o aluguel e ficar sem ter o que comer", resume André*, de 27 anos, há cinco anos, morador de Nova York, a megalópole do Estado mais afetado pelo coronavírus, que responde sozinho por 150 mil casos.

A cidade está em quarentena total desde 22 de março. André perdeu o emprego de garçom antes disso, e viu todas as outras formas de trabalho desaparecerem. Sem recursos e sem visto, tomou uma decisão drástica: saiu de sua própria casa para sublocar o espaço e conseguir alguma renda.

Nesse período, foi morar com um amigo, dono de um restaurante, que tentar salvar o que restou do negócio apostando no delivery. Em troca do teto, André faz as entregas do restaurante. Ele diz que teme se contaminar, mas que não vê outra opção a não ser sair por aí com refeições sob o braço para arrumar um jeito de viver. André não possui convênio médico, e os EUA não contam com um sistema universal de saúde pública. Seu alívio é saber que o Congresso americano aprovou uma lei que obriga o Estado a custear testes e tratamento de saúde para quem contraia o vírus, independente de convênio ou de status migratório.

 Direito de imagem EPA Image caption
Nova York se tornou o epicentro da epidemia nos Estados Unidos

Embora a expectativa inicial seja de que a quarentena dure até o dia 30 de abril, André acredita que a situação vai se estender até o fim de junho, o que é provável, considerando-se que os EUA se converteram no novo epicentro global da doença no mundo. Hoje, a cada quatro infectados, um está no país: são mais de 400 mil contaminados e 15 mil mortos. E o pico da epidemia, de acordo com a projeção da Casa Branca, acontecerá por volta do dia 15 de abril.

"Se a quarentena passar de junho, aí sim o bicho pega, porque minha reserva vai acabar e não vou ter mais dinheiro nenhum", diz André.

O prazo de André ainda é mais folgado do que o da paulista Roberta*, de 32 anos. Ela chegou aos EUA há um ano e dois meses com os três filhos - uma menina de 12 e gêmeos de 8 anos. Entrou com visto de turista, mas já sabia que não iria voltar. Cabelereira de formação, ganhava em média R$ 3 mil por mês como faxineira. O dinheiro era o suficiente para as contas e para juntar uma reservinha com a qual pretendia comprar os equipamentos necessários para voltar a trabalhar com corte de cabelo.

A epidemia atropelou os planos. No último dia 22, o governo da Filadélfia, na Pensilvânia, colocou a região em quarentena. Os clientes todos sumiram.

"Quando anunciaram, fiz uma boa compra para estocar comida em casa, mas já não tinha muita coisa na prateleira. Tava difícil de encontrar carne, frango... Fui a quatro mercados para achar um pacote de arroz. Agora, reponho o que vou usando."

No sustento durante a crise, ela está consumindo os US$ 400 que guardava para a compra de tesouras e secadores. "Não posso nem falar que é um fundo de emergência, porque é praticamente só para comer e pagar as contas depois."

A família mudou os hábitos para fazer o dinheiro render, mas Roberta sabe que os recursos não vão durar além dos próximos 30 ou 40 dias. "A gente não pede mais comida fora duas vezes por semana como antes. Também sempre inventava uma refeição diferente. Agora é só o básico: arroz, feijão, macarrão, e estou racionando."

Ficar ou voltar

Em casa, Roberta se desdobra para entreter as crianças com jogos de tabuleiro, celular e televisão. Com bronquite, ela é grupo de risco e não se arrisca nem dar uma volta no quarteirão. Sua atitude não é exceção nas cidades ao redor do país. Mesmo áreas normalmente apinhadas de gente, como a Times Square, em Nova York, estão desertas nas últimas semanas.

"É desesperador ver tudo fechado, ninguém na rua. E passa muita ambulância, que é o som que eu mais ouço da minha janela. Ficava imaginando quem estava ali dentro, me colocava no lugar das outras pessoas que estão passando sufoco. É uma situação muito difícil, muito estranha.", conta Tatiana*, de 51 anos, há sete morando em Nova York.

Ela vive legalmente nos EUA, como estudante - mas seu trabalho, como babá para famílias brasileiras, é irregular, já que seu visto não permite que ela ganhe dinheiro no país. Por isso mesmo, ela não poderia receber auxílio financeiro do governo americano. Sem salário, está consumindo suas reservas, que devem durar mais um mês.

O impacto financeiro da pandemia fez com que ela cogitasse voltar para o Rio de Janeiro.

 Direito de imagem KEVIN DIETSCH/EPA Image caption
Brasileiros sem documentos não têm direito ao auxílio de US$ 1,2 mil
 aprovados recentemente pelo governo americano

"É uma mistura de sentimentos. Dá muita vontade de ir, sair de casa só com a minha mochila e ficar perto da minha família, porque estou sozinha aqui. Se isso continuar, não sei se vou me arriscar a voltar. Sinto que meu tempo aqui ainda não acabou. É um turbilhão de pensamentos.", diz Tatiana.

Os imigrantes ouvidos pela BBC News Brasil se dividem entre querer ficar e a vontade de partir.

Roberta sabe que a situação pode demorar a voltar ao normal. "Querendo ou não, vai ser muito mais fácil eu me recuperar financeiramente aqui do que no Brasil", ela aposta. Mesmo se pudesse receber algum auxílio do governo brasileiro caso voltasse, Aline diz que essa ajuda é "muito pequena se comparado à quantidade de impostos e contas" que precisa pagar no Brasil, onde dividia a casa com sua mãe.

"Não sobrava quase nada no fim do mês. Aqui eu consigo viver bem melhor e posso dar uma educação boa para os meus filhos." Além disso, se ela deixasse o país, ficaria impedida de voltar aos EUA por dez anos - punição imposta a imigrantes deportados ou que viveram no país ilegalmente.

É a mesma situação de Fabiana que, no entanto, afirma que voltaria ao Brasil "amanhã mesmo" se ao menos tivesse como pagar as passagens. "Mas meu marido me diz: como vamos arrumar dinheiro pra ir embora e quitar as dívidas que temos lá no Brasil?".

Pelo menos duas famílias já pediram ajuda ao consulado de Boston para ser repatriadas. Os casos estão em análise. Para Pereira, é provável que a quarentena impulsione muitos a voltarem para o Brasil.

"Acho que a pandemia está mudando o modo de pensar das pessoas, porque está mostrando que o que traz conforto mesmo são a família e os amigos. E ninguém sabe como a economia vai ficar depois", diz ela. E conclui: "Quando há uma crise, os serviços não essenciais são os que sofrem mais, e são esses serviços que o brasileiro presta. Se as pessoas não tiverem dinheiro, você não chama uma faxineira, não tinge o cabelo, não faz a unha, não vai lavar o carro. Vai demorar um tempo para o dinheiro voltar a circular, e essas pessoas não vão ter uma renda. Não sei o que essas pessoas vão fazer".

* Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar suas identidades