terça-feira, novembro 09, 2010

O primeiro passo para o desastre é não reconhecer os próprios erros

Adelson Elias Vasconcellos


Ontem, ao desembarcar em Moçambique, espremido pela Imprensa quanto as derrapadas do Enem, versão 2010, Lula não teve dúvida e sapecou isto:

"Tem muita gente que quer que afete porque até hoje tem gente que não se conforma com o Enem, mas, de qualquer forma, ele provou que é extraordinariamente bem sucedido".

Sinceramente? Não sei se devo rir porque a afirmação não passa de uma piada grosseira, ou se devo rir também, mas de tristeza por ver que Lula insiste em ser um cretino em tempo integral.

Ora, durante dez anos o Provão sucedido pelo Enem, não causou mal a ninguém. Nunca teve problemas, por mínimo que fosse. Você estranha o tempo? Pois é, o exame de avaliação do ensino médio foi criado no governo FHC, em 1998. Mais tarde, Lula, como sempre, resolveu “aperfeiçoar” o exame, mudando-lhe o nome para parecer ser obra de seu governo, coisa, aliás, em que ele se esmerou profundamente, a ponto de se tornar um especialista em vigarice da obra alheia. .

Contudo, de um certo tempo para cá, e já sob o governo Lula, o Enem começou a dar mostras de que estava sendo desviado de seu objetivo principal original. Muitas questões passaram a ser feitas pela ótica da ideologia política, o que convenhamos, é o caminho mais curto para o desastre em se tratando de avaliação da qualidade de ensino.

Quando o ministro Haddad (ainda é ministro?), resolveu inovar de vez, aquilo que serviria como instrumento de avaliação passou a valer como instrumento de admissão à universidade. Ontem, aqui, comentei alguns aspectos do Enem sob a ótica atual e deixei claro que ele deve sofrer alterações se pretende comprovar sua utilidade. Não desqualifico a aprova como substituto do vestibular, que, afinal de contas, foi no que ele se transformou. Mas precisa de ajustes na sua forma de execução.

Esta bravata de Lula só demonstra que, a depender deste governo, TODOS os erros não serão assumidos de jeito nenhum. Ontem, na entrevista coletiva que deu, o ministro Haddad comprovou o princípio: tratou de despejar a encrenca no colo de terceiros.

Porém, quem é o pai desta criança? Quem resolveu atropelar o bom senso e, à força, tentou transformar o Provão num imenso vestibular, sem levar em conta toda a necessária para a implantação de um exame, em nível nacional, totalmente centralizado, e sem levar em conta certas regras de cautela e de modificação um sistema em vigor, com a devida cautela e zelo?

Os problemas que ocorreram neste ano e em 2009 são fruto não da mudança de finalidade, mas da pressa em querer mudar o que estava certo a qualquer preço.

Há um post abaixo em que educadores fazem uma avaliação das provas e mostram que não se trata apenas de questões de segurança ou de erros de impressão. Erros primários como datas erradas de eventos históricos do Brasil, por exemplo, são inadmissíveis para uma prova deste gabarito.

Do mesmo modo, a justificativa dada de que, para preservar a segurança se deixou de aplicar a indispensável revisão do material impresso, é de uma suprema infelicidade e incompetência.

É pura conversa fiada do senhor Lula querer atribuir os erros de seu governo às pessoas que torcem conta. Isto era feito no tempo em que ele era oposição. Tudo mundo quer que as políticas deem certo. Mas para isso, é preciso que se faça certo. E “fazer” no caso, é tarefa que cabe ao governo e toda a estrutura montada por ele para cumprir suas tarefas básicas.

Assim, o primeiro passo para que mudanças funcionem de forma adequada e previstas, é estabelecer um cronograma de implantação estabelecendo rigoroso acompanhamento de cada passo. Claro que mudanças sempre exigirão ajustes até que seu funcionamento produza efeitos esperados. O que não se pode é tentar encobrir os erros de organização, planejamento e execução com deboche ou pouco caso. Aceitem-se os erros cometidos e trate-se de corrigir na medida que cada caso exige.

No ano passado, com a quebra da segurança, ficou evidente que o MEC foi incapaz de conduzir o processo todo com a devida cautela e zelo. Para este ano esperava-se que o ministério fosse mais cuidadoso em todas as etapas do processo. E o que se viu e se constatou é que as falhas comprovam descuidos injustificáveis.

O ENEM como instrumento de qualificação ao ingresso de estudantes no ensino superior pode dar certo? Claro que sim, desde que se faça os ajustes adequados e que o MEC não “pule” etapas durante sua execução, como fez neste ano. Mas precisará já em 2011, realizar-se sem falhas se deseja recuperar a credibilidade que o próprio MEC acabou retirando da prova por sua incúria. Para tanto, será indispensável que o senhor Haddad venha a público e assuma que sua pasta errou e se desculpe pelas ameaças que foram feitas nas redes sociais contra aqueles que, prejudicados, resolveram, com justa razão reclamar. Um pouco de humildade nunca fez ninguém perder eleição. Até pelo contrário. Demonstra grandeza de caráter além de ser o indispensável primeiro passo para as correções necessárias no sentido de se prevenir a repetição de erros.

Novo fiasco do Enem

O Estado de São Paulo

Se havia alguma dúvida sobre a capacidade do Ministério da Educação (MEC) de recuperar a imagem do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e evitar que sua desmoralização comprometesse todo o sistema de avaliação escolar, ela foi desfeita nesse fim de semana com a prova aplicada a cerca de 3,4 milhões de estudantes. Além de avaliar a qualidade do ensino médio, o Enem é usado como processo seletivo para muitas instituições públicas de ensino superior - principalmente as universidades federais.

Dessa vez os problemas decorreram de falhas de montagem de um dos cadernos da prova, o que levou os estudantes a se deparar com textos repetitivos e falta de questões. Além disso, os cartões de resposta foram impressos de forma invertida - fato que não foi comunicado à maioria dos candidatos. No sábado, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o mesmo que fracassou na organização do Enem de 2009, divulgou que quem foi induzido a erro, no preenchimento do cartão, poderá solicitar que a prova seja corrigida "ao contrário". Isso dá a medida da inépcia administrativa do MEC.

Por um balanço extraoficial, os problemas ocorridos com o Enem envolveram 20 mil provas. Mas, segundo o reitor da Universidade de Brasília, José Geraldo de Souza Jr., o número de provas impressas com falhas seria de 30 mil. A instituição foi encarregada, juntamente com a Fundação Cesgranrio, de preparar as questões.

Embora as autoridades educacionais tenham afirmado que nenhum aluno será prejudicado, nem o Inep nem o MEC sabem ainda qual é a extensão das falhas ocorridas e de que modo elas poderão ser corrigidas. A aplicação da prova foi classificada como um "desastre" pela OAB. O Ministério Público Federal anunciou que poderá ingressar com ação judicial pedindo a anulação do exame. A Defensoria Pública da União anunciou que tomará iniciativa semelhante. No Ceará, a Justiça Federal concedeu liminar determinando a suspensão imediata do Enem. E a Associação Nacional das Instituições Federais de Ensino Superior reconheceu que a insegurança jurídica acarretará para as universidades problemas ainda mais graves do que os criados pelo Enem de 2009.

No ano passado, os problemas começaram quando se constatou que o MEC não dispunha de infraestrutura adequada para fazer inscrições pela internet. Em seguida, o Inep determinou que vários estudantes deveriam prestar o exame em colégios situados a mais de 300 quilômetros das escolas em que estavam matriculados. Depois, a prova vazou dois dias antes de sua realização, deixando claro que as autoridades educacionais não haviam tomado as medidas de segurança necessárias. Isso as obrigou a preparar um novo teste às pressas, a um custo superior a R$ 30 milhões, e aplicá-lo dois meses após a data prevista, o que desorganizou o calendário das universidades. Na sequência de confusões, constatou-se que várias questões da nova prova tinham viés ideológico. E, no dia em que ela foi aplicada, o MEC divulgou o gabarito errado.

Em 2010, as dificuldades começaram com falhas de logística e amadorismo no planejamento, o que levou à substituição do presidente do Inep. Em seguida, descobriu-se que os dados pessoais dos candidatos às três últimas edições do Enem tinham vazado. Com isso, informações que deveriam ser mantidas em sigilo foram expostas no site do Inep com acesso livre. Depois o MEC se atrapalhou na escolha dos órgãos responsáveis pela formulação das questões, o que acabou criando problemas para a licitação da gráfica e atrasando a contratação de cerca de 300 mil pessoas, entre coordenadores, aplicadores e profissionais encarregados da correção.

Esse é o quadro, descrito com o máximo de objetividade, da desmoralização do Enem. Mas o principal responsável por ele não parece preocupado. Muito pelo contrário. De fato, o presidente do Inep, José Joaquim Soares Neto, dizendo-se "orgulhoso" pela aplicação do Enem, considera que "não houve problemas graves".

Apreciação sobre a qual os alunos prejudicados teriam muito a opinar...

Repetência federal

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

É óbvio para qualquer pessoa que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem problemas graves de execução, assim como é evidente que o Ministério da Educação não tem o domínio nem o controle da situação.

Quer dizer, não dispõe do mapa das deficiências nem sabe como resolvê-las.

Durante anos e numa época de tecnologia incomparável com a de hoje realizaram-se exames vestibulares em todo o País, sem que houvesse nada parecido.

A série de erros gravíssimos - vazamento de provas, troca de cabeçalhos em gabaritos, alteração na ordem das questões nos exames - já comprometeu a credibilidade do Enem.

Mas os desastres não foram suficientes para abalar o prestígio do ministro da Educação, Fernando Haddad, junto com presidente Luiz Inácio da Silva, que, segundo consta, pensa em indicá-lo para permanecer no cargo no governo Dilma Rousseff.

Claro que o ministro não pode ser o único culpado por erros administrativos. Mas, como responsável pela área, deve saber corrigi-los e cuidar para que não se repitam. Nesse aspecto, Haddad foi reprovado, pois pelo segundo ano consecutivo o Enem é comprometido por causa de transtornos de gerência.

Ex-reitor da UnB, ex-ministro da Educação, candidato a presidente em 2006 como porta-bandeira da área, o senador Cristovam Buarque lembra que no futebol não há descontrole nem tolerância semelhantes. "Com dois jogos perdidos, os times trocam os técnicos."

O senador não se refere só ao ministro da Educação - embora se refira também - e estende o conceito de indulgência a todo o sistema. "Falhou a máquina do ministério."

Na opinião dele, o ministério deveria tomar três medidas: reavaliar toda a estrutura do Enem (administrativa, educacional e de segurança), encontrar uma maneira de transmitir segurança emocional aos milhões de estudantes que fazem do exame um divisor de águas em suas vidas e patrocinar uma campanha para recuperar a credibilidade do Enem.

"Sem isso temo que acabemos por matar uma ótima ideia", diz ele. Essa "morte", na opinião do senador se daria de duas maneiras. Uma, as universidades podem começar a rejeitar o exame como instrumento de admissão de alunos; outra, pelo reforço da posição de todos os que são contra exames de avaliação.

"E não são poucos nem só os donos de escolas mal avaliadas: há governadores, prefeitos e professores que contestam o próprio instituto do Enem. Isso é muito ruim."

Cristovam, particularmente, prefere outro sistema de avaliação, o PAS, que implantou em Brasília quando governador. Enquanto o Enem é aplicado no fim do segundo grau, o PAS é feito durante os três anos e, no fim, o estudante é avaliado pela média.

A sugestão dele é que o governo convide gente de notório saber para examinar as razões dos erros e as possibilidades de acerto no que concerne ao exame de avaliação, antes que surja algum movimento pela extinção pura e simples das provas.

Mas o senador duvida que o governo se disponha a abrir esse jogo de forma franca. "Quando formei a CPI da Educação para investigar as causas de o Brasil não sair desse apagão educacional não tinha nada a ver com o governo e mesmo assim o palácio mandou sua base retirar as assinaturas. Por isso imagino que não aceite uma avaliação externa."

O cara.
Barack Obama defendeu assento permanente no Conselho de Segurança da ONU para a Índia. Há razões estratégicas, mas digamos que a política externa brasileira de sotaque antiamericano não ajude o Brasil nessa questão.

Em debate.
A TV Cultura vai reunir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto e o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, em seminário sobre liberdade de imprensa.

Será nos próximos dias 25 e 26, com transmissão pela internet e os interessados podem se inscrever a partir de amanhã no site www.tvcultura.com.br/seminario.

Eternamente em berço esplêndido

Adelson Elias Vasconcellos



São Paulo e Minas Gerais são os dois maiores colégio eleitorais. Por seus números, decidem eleições nacionais. Os dois estados serão governados a partir de 2011 pelo PSDB.

Vocês leram nos posts abaixo, que o PT já se articula para tentar deixar de ser oposição tanto em São Paulo quanto em Minas. E, para quem conhece um pouco a história do PT, sabe bem que os governadores tucanos nos dois estados não terão vida fácil. Se no plano federal, o PT não permite que se investiguem seus crimes no poder, no plano estadual, enquanto oposição, e se deixarem, o PT criará uma CPI por dia se puder. Para eles, oposição é oposição, e fim de papo. Não tem essa do interesse público, de oposição “generosa” ou responsável. Pau é pau pedra é pedra. E vamos à luta, porque, para esta gente, qualquer meio, ilegal ou não, delinquente ou não, justifica a retomada ou tomado do poder.

Pois bem. Vejamos o PSDB. Perdeu as três últimas eleições presidenciais. E o motivo foi o mesmo: deixou de fazer o papel que lhe competia cumprir, isto é, deixou de fazer oposição. Já analisei bastante este aspecto aqui no blog.

Ora, era de se esperar que agora, depois das três derrotas, os tucanos tivessem aprendido a lição e resolvessem corrigir seu rumo, sua atuação política, e até sua postura diante do governo federal, que é petista.

Mas qual, quem tem compulsão à derrota, parece gostar de apanhar. Assim, pelo andar da carruagem, parece que o PSDB vai continuar apostando no seu erro e, em consequência, tem tudo para continuar oposição no governo federal por um bom tempo.

Querem ver? Até agora não se ouviu de ninguém da oposição, vir a público para denunciar o massacre que está sendo feito na Petrobrás em relação ao pré-sal. Conforme comprovamos aqui, mais de 2/3 dos campos já descobertos, será explorado por concessão por empresas estrangeiras em parceria com a Petrobrás. Logo após a derrota, e até antes, tem elementos suficientes para cobrar do Ministério Público Eleitoral a abertura de um processo de impugnação da candidatura Dilma por prática de crime de abuso político e econômico durante a campanha. Se quiserem, o que não faltaram são provas evidentes disto. Porém, proclamados os resultados, parecem que a oposição, atual e futura, vai deixar por isso mesmo. Outra: alguém do partido está acompanhando e cobrando providências nas investigações do caso Erenice e da quebra de sigilo fiscal dos tucanos de fina cepa? Não creio.

No dia de sua proclamação como presidente eleita, Dilma fez seu primeiro discurso prometendo e assumindo compromisso, com pelo menos duas propostas: uma, a de reduzir a carga tributária. Nem bem se transcorreram 48 horas, e em entrevista concedida por Lula, na qual a eleita estava presente, Lula já acenava com o retorno da CPMF. Mais: vimos ontem, que o governo também trará à tona outra de suas propostas, a de rever, para baixo, naturamente, o rendimento das cadernetas de poupança. Alguém ouviu alguém da oposição acusar de estelionato eleitoral as duas medidas? Claro que não.

O segundo compromisso importante, seria com a manutenção da liberdade de expressão na forma como está previsto na Constituição. Porém, em andamento o Seminário de Convergência de Mídias, que começa nesta terça-feira em Brasília, que preparará o terreno para outra tentativa de intervir nos meios de comunicação - segundo o ministro, com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ninguém parece fazer diferença.

E, antes dele, a pérola da semana: a carta em que, em nome de Dilma, o tesoureiro do PT pede dinheiro à empresários para cobrir os gastos de campanha. Os detalhes vocês tem abaixo, também. E o máximo que se ouviu de indignação, nem foi de tucano, foi do Democratas, mas também ficou nisso. “Nem PC Farias, tesoureiro de Collor, seria capaz de fazer uma carta tão precisa no pedido e tão forte na ameaça”, foi o que declarou José Carlos Aleluia, DEM/BA, sobre a carta em que José de Filipi Jr. busca recursos para fechar as contas da campanha petista.

A capa da Folha de São Paulo, desta segunda feira, 8, estampava a seguinte manchete: Despesas com reservas supera gastos com obras. É grave? Claro que é: trata-se de um desperdício fruto de uma incorreção no elenco de prioridades econômicas capitaneado pelo atual governo. Quem da oposição disse um “ah” de assombro de protesto diante do inusitado? Silêncio total. E o governo ainda fala em ressuscitar a CPMF? Mas gasta aonde não precisava gastar.

A pergunta que não quer calar: diante destes episódios – e a notar, que Dilma ainda não assumiu – qual tem sido a reação do PSDB? Esta, conforme informa Lauro Jardim, em sua coluna Radar, na Veja online: a Executiva Nacional do PSDB se reunirá nos próximos dias para iniciar os debates sobre o futuro do partido. A cúpula tucana deve aproveitar a oportunidade para definir o tom que adotará no fim do mandato de Lula e na oposição ao governo Dilma Rousseff.

Líderes nordestinos de PSDB e DEM também têm comemorado a tendência de a figura de Lula perder força nas eleições de 2014. Na última campanha, diversos candidatos da oposição evitaram criticar um presidente carismático e popular para não perder votos. Na próxima disputa presidencial, no entanto, acreditam que conseguirão concentrar o debate nos problemas que o governo Dilma Rousseff tiver.

Ora, senhores, esta tal reunião já deveria ter se realizado no máximo três dias após a derrota nas urnas. Já deveriam ter escalado os próceres do partido que deveriam acompanhar passo a passo as medidas que estão em gestação pela equipe de transição, e serão o escopo do governo Dilma. E, diante dos balões de ensaio que vão sendo esparramados pela mídia, deveriam firmar posição e bater duro, gritar, espernear, fazer oposição cerrada todos os dias. Mas, “somente” nos próximos dias, é que “reunirão” para debater o futuro do partido. E daí? Quem fará oposição até que eles afinem o discurso entre si? A imprensa? Em Minas e São Paulo o PT, antes que os novos governadores assumam, já está de plantão e desenhando estratégias de atuação.

Em 2005, cometeu-se o mesmo grave erro: diante do mensalão, havia munição legal suficiente para abrir processo de impedimento do presidente. Qual foi a escolha? Apostar na sangria de Lula até as eleições de 2006. Resultado: deu-se a Lula a oportunidade e o tempo suficientes para dar a volta por cima e ainda vencer em 2006.

Assim, reparando-se nas atitudes dos tucanos, fica difícil entender onde pretendem chegar. E nem podem queixar-se de falta de apoio: a sociedade os consagrou no comando de 10 estados, e na eleição presidencial, concedeu-lhes mais de 40 milhões de votos, para que eles fizessem o seu papel. E qual foi a escolha do partido? A de continuar deitado em berço esplêndido. Neste ritmo, nem Dilma terá com que se preocupar, tampouco o candidato do partido em 2014, seja ela própria ou até mesmo Lula. Porque não imaginem os tucanos que o governo Dilma se desmanchará por obra e conta da natureza. O mesmo ritmo de mentiras e mistificações será empregado até com maior relevo.

Precisaria o PSDB trazer debaixo do braço o próprio legado do governo FHC do qual, inexplicavelmente, se afastou de 2002 para cá. E, ato contínuo, manter plantão permanente para ações tanto do governo Lula em seu final de mandato quanto já apresentar armas para as medidas que estão sendo discutidas para o governo Dilma. Deveria manter acesa a discussão em torno de questões em aberto do governo Lula e que precisam ser investigadas e exigir punição aos culpados. Não o que ser discutido como está sendo proposto. O tom a ser adotado é apenas e unicamente um: o de oposição. O resto é papo furado de quem ainda não se deu conta do papel importante delegado por grande parte da própria sociedade que querem representar.

Portanto, que saem imediatamente do marasmo em que se encontram deitados em berço esplêndido e partam para a luta. O que não lhes faltam, mesmo neste período de transição de Lula para Dilma, são armas e munição para o bom combate. Mas para usá-los, é preciso ter vontade de vencer.

E agora, PSDB?

Rubens Barbosa (*) - O Estado de São Paulo

Na época em que servi como embaixador em Londres pude acompanhar de perto os últimos anos do período conservador de Margaret Thatcher/John Major e a gradual reformulação do Partido Trabalhista para voltar a brigar pelo poder. A vitória trabalhista em 1997 fez os conservadores amargarem 13 anos de oposição. O recente final melancólico dos governos de Tony Blair e Gordon Brown mostrou o Partido Trabalhista dilacerado pela disputa de poder entre seus dois principais líderes, que, juntamente com poderoso ex-ministro Peter Mandelson, haviam transformado uma máquina partidária pesada e ultrapassada num novo Partido Trabalhista, moderno e ajustado ao seu tempo.

Recordo esse episódio da história política britânica pela semelhança da situação no Brasil depois da eleição na semana passada.

O PSDB - que emerge das urnas como o principal partido de oposição - está diante de um dilema: ou é refundado, ou tenderá a perder relevância na cena política nacional, até mesmo pela possibilidade de criação de um novo partido, que dividiria ainda mais a oposição. A refundação do PSDB passa pela definição de sua estratégia de médio e de longo prazos. A falta de estruturação de suas bases e de seus quadros para a formação de militância, consequência de uma organização partidária deficiente, demandará liderança e recursos para ser corrigida.

A inexistência de uma oposição crítica, que fiscalizasse as ações do governo e cobrasse os equívocos éticos e políticos, foi um dos fatores mais importantes para o alto nível de popularidade do presidente Lula, decisivo na eleição da candidata do PT. A simples oposição praticada no Congresso Nacional não teve repercussão pública e o resultado da eleição veio provar a atitude equivocada do PSDB em relação ao governo.

Para enfrentar a profunda transformação na vida política brasileira - com a emergência de uma crescente classe média, que quis preservar seus ganhos, mas tem expectativas ampliadas - o PSDB deverá ter uma visão clara de sua plataforma e de seu ideário e, a partir destes, tentar ganhar o apoio das ruas do Brasil inteiro, e não apenas de São Paulo e dos grandes centros. A reformulação passa também pela renovação das suas lideranças nos quatro cantos do País. O PSDB tem uma história, partidária e de governo, que deve ser contada e valorizada (e não escondida). E tem também uma luta de oposição que precisa ser agora retomada. O partido terá tempo para ampliar os seus quadros, definir o que queremos para o Brasil nas próximas décadas e buscar clareza nas suas posições em relação ao novo governo.

Como diria o conselheiro Acácio, a oposição deve fazer oposição, com o objetivo de alcançar o poder. O óbvio nem sempre é evidente, como se viu nos últimos oito anos. O ideal olímpico não se aplica à política. O importante não é apenas competir. O essencial é ter condições reais de se apresentar como alternativa para disputar o poder.

A oposição - por meio dos partidos, e não apenas de suas lideranças individuais - tem de se organizar para ser efetiva, apoiando as iniciativas consideradas adequadas e criticando as que forem percebidas como contrárias ao interesse nacional. Mais do que nunca, é necessária uma oposição coesa para fortalecer a democracia, as instituições e os direitos de cidadania.

O pronunciamento inicial da presidente eleita foi positivo quando assinalou compromissos democráticos e de avanços sociais e políticos pela via da negociação pluripartidária. Seu gesto de estender a mão à oposição deveria ser respondido, até para testar a efetiva vontade de negociação. Colocando os interesses do Brasil acima das divergências pessoais e partidárias, o PSDB deveria aceitar esse desafio e propor ao novo governo, em seu primeiro ato de oposição, uma agenda mínima, que vem sendo adiada há mais de 15 anos, para ser aprovada nos primeiros cem dias de governo. Não se trata de adesão nem de manobra oportunista. Cada partido manterá sua independência, mas haveria uma trégua, com prazo definido, para a obtenção do entendimento para aprovação de matérias de efetivo interesse do País.

Com a perspectiva de 16 anos na oposição, com Dilma ou com Lula eventualmente de volta, o fantasma do controle absoluto do Estado por um partido é uma grave ameaça. As primeiras medidas a serem anunciadas pelo novo governo indicarão se algumas propostas controvertidas e divisivas do programa do PT serão ou não postas em marcha. Se efetivadas, aí, então, justificar-se-ia a abertura de trincheiras.

A inexistência, nos últimos oito anos, de uma estratégia coerente de oposição aconselha a adoção de uma inovação na política brasileira. Emprestando do sistema inglês uma prática que pode tornar o debate civilizado e bem fundamentado, o PSDB deveria acompanhar de perto as ações do governo federal. A partir de janeiro de 2011, deveria ser instituído o sistema de "shadow cabinet", isto é, um governo informal paralelo que fiscalizaria os atos mais importantes do futuro governo em alguns setores, como economia, políticas sociais, meio ambiente, direitos humanos, agricultura, comércio exterior e política externa. Não se trata de fazer oposição a tudo com base em preconceito ideológico, mas acompanhar no dia a dia as medidas do novo governo para poder manifestar-se, em bases técnicas, sobre sua viabilidade e sua oportunidade, a começar pela proposta de volta da CPMF.

Como resultado dos sucessos dos dois últimos governos, o Brasil terá de enfrentar, nos próximos anos, novos desafios internos e externos. Os eleitores definiram quem vai responder às demandas globais, regionais e nacionais. O governo e a oposição têm a responsabilidade de oferecer condições para que o País possa afirmar-se como uma das mais pujantes e competitivas economias globais.

(*) Foi Embaixador em Londres (1994-1999) e em Washington (1999-2004)

Na oposição, PT em ação

PT reformulará estratégia para atrair eleitor de SP

Agência Estado

As crises de 2005 e 2006 do PT, o mensalão e o dossiê dos aloprados, explicam essa resistência eleitoral, segundo os próprios petistas


São Paulo - O Estado de São Paulo tem se mostrado como uma espécie de escudo eleitoral que o PT não consegue transpor. O diagnóstico, feito a partir do resultado das eleições deste ano e de pleitos passados deixa dirigentes do partido em Estado de alerta e exige uma reformulação de estratégias para disputas futuras.O PT progressivamente aumenta sua penetração entre segmentos populares e de baixa renda, mas seu discurso não tem comovido o eleitor paulista de classes médias mais conservadoras, mais escolarizado e de maior renda nas últimas eleições. As crises de 2005 e 2006 do PT, o mensalão e o dossiê dos aloprados, explicam essa resistência eleitoral, segundo os próprios petistas.

Ainda que José Serra (PSDB) tenha vencido Dilma Rousseff (PT) no Estado por 54,05% a 45,95%, e os petistas tenham considerado o resultado “não catastrófico”, ficou evidenciada a dificuldade de captar votos de eleitores de Marina Silva (PV) no primeiro turno do pleito.

Na capital, o tucano superou a petista por 53,64% a 46,36% dos votos válidos. O mapa de votação na capital em 2008 e 2010, respectivamente nas eleições municipal e presidencial, é um exemplo do bom desempenho do partido nas periferias e da resistência que enfrenta em regiões de renda mais elevada (ver arte ao lado).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já sinalizou a dirigentes do partido que vai se dedicar pessoalmente às reformulações e articulações necessárias para fortalecer a sigla nas disputas municipais de 2012.

“O fato é que o PT ainda não conseguiu estabelecer um diálogo com os eleitores paulistas no sentido de ter a maioria dos votos embora nesta eleição (a governador) quase tenha tido segundo turno em São Paulo”, admite o presidente nacional do partido, José Eduardo Dutra.

Aloizio Mercadante (PT) não conseguiu ir para o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB) por 72.571 votos. O petista teve, porém, o melhor desempenho eleitoral (35,23% dos votos válidos) do partido se consideradas as eleições a governador desde 1998, quando Marta Suplicy , derrotada por Mário Covas, obteve apenas 22,18% dos votos.

“Ganhamos prefeituras importantes no Estado, mas não temos conseguido atrair o voto da maioria do povo paulista. É um desafio não só para o PT de São Paulo, mas para o PT do Brasil”, acrescenta Dutra. Segundo ele, o PT já se consolidou como um partido nacional, mas a importância de São Paulo, berço do partido, não pode ser desconsiderada para a sobrevivência política.

O presidente do PT no Estado, Edinho Silva, já levou o problema à executiva partidária na última semana e preparou um cronograma de seminários pelo Estado ao longo do ano de 2011 para tentar reaproximar o PT de setores da juventude e acadêmicos. Para ele, essa é uma agenda urgente para o partido que não pode ser adiada. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Em Minas Gerais, PT briga pela eleição de 2012
Agencia Estado
Patrus Ananias é apresentado como opção para o PT recuperar o terreno perdido na capital mineira

Belo Horizonte - A confirmação da vitória de Dilma Rousseff na eleição presidencial desencadeou nova movimentação no PT mineiro. O pano de fundo dessa vez é a disputa pela prefeitura de Belo Horizonte em 2012.

Os sinais de movimentação surgiram antes da votação do primeiro turno, quando a iminência da derrota da chapa de Hélio Costa (PMDB) e Patrus Ananias (PT) fez recrudescer no diretório estadual as dissensões entre os grupos do ex-ministro do Desenvolvimento Social e do ex-prefeito Fernando Pimentel.

Agora enquanto Pimentel, derrotado na eleição para o Senado, busca espaço no governo Dilma, Patrus é apresentado como opção para o PT recuperar o terreno perdido na capital mineira. 

Interlocutores dos dois líderes concordam que o partido precisa se preparar para impedir que o senador eleito Aécio Neves (PSDB) se torne o imperador político do Estado, com poder suficiente para exilar o PT da prefeitura. Na opinião de um deputado federal ligado a Pimentel, a disputa pelo poder na capital deve ser o maior foco de resistência petista.

Eleito com votação expressiva para o Senado, Aécio também emplacou o nome de seu sucessor, o governador reeleito Antonio Anastasia (PSDB), e ajudou o ex-presidente Itamar Franco (PPS) a se eleger para outra vaga de senador. Os petistas apostam que a próxima investida do tucano será a prefeitura. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Governo organiza seminário para discutir controle da imprensa

Gabriel Castro, Veja online

Franklin Martins não esconde as intenções do governo federal: "A discussão chegará ao conteúdo, não tem jeito”

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Franklin Martins, mantém-se firme na sua intenção de criar mecanismos de controle da imprensa no Brasil. O Seminário de Convergência de Mídias, que começa nesta terça-feira em Brasília, prepara o terreno para outra tentativa de intervir nos meios de comunicação - segundo o ministro, com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O encontro na capital federal deve auxiliar na formulação de propostas de regulação dos meios eletrônicos. Pelos convidados, é possível ter uma ideia do modelo que o ministro defende para o Brasil. Entre os palestrantes do evento está Gustavo Bulla, argentino que ajudou a redigir a controversa Lei dos Meios Audivisuais em seu país. O texto proposto por ele reserva um terço do espectro de radiodifusão às entidades "sem fins lucrativos" e restringe a atividade dos grandes grupos de comunicação.

Serão, ao todo, 12 palestrantes em dois dias de encontro. O evento tem o pomposo nome de Seminário Internacional das Comunicações Eletrônicas e Convergência de Mídias.

Anteprojeto - Há um mês, Franklin Martins esteve na Europa para, segundo ele, colher experiências sobre a regulação da imprensa no continente. As bandeiras do ministro não são segredo: "desconcentração" do mercado de comunicação e um "aumento de qualidade" no conteúdo hoje divulgado. Falta explicar como essas mudanças serão implementadas sem ferir o direito à livre expressão e à livre iniciativa.

Entusiasmado com a possibilidade de emplacar seu projeto de controle da imprensa por tentáculos do governo, Franklin atribuiu ao preconceito as queixas à proposta: "É normal que questões que não são discutidas há muito tempo tragam uma carga emocional, com preconceitos, ressentimentos, cacoetes. Mas esta discussão chegará, em algum momento, ao debate sobre conteúdo, não tem jeito”.

A expectativa é que o encontro apresente novas propostas a para um anteprojeto que será encaminhado à presidente eleita, Dilma Rousseff - em cujo governo, aliás, Franklin não deve ter espaço. Diz o ministro: "Ela pode decidir tocar para a frente ou não. É uma decisão do governo dela. Mas a decisão do governo do presidente Lula é de entregar um anteprojeto que permita enfrentar a regulação do ambiente de convergência de mídias, uma questão crucial”.

Sob a batuta de Franklin, o governo organizou no ano passado a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que aprovou resoluções sugerindo a criação de mecanismos de regulação sobre o conteúdo divulgado pela imprensa. Antes, o governo Lula já havia tentado, sem sucesso, criar um Conselho Federal de Jornalismo.

Desde que foi eleita, Dilma Rousseff tem dado declarações enfáticas contra qualquer tentativa de controle sobre o conteúdo dos meios de comunicação. Mas admite a necessidade de um novo marco regulatório para redefinir a organização do setor. Na noite desta quinta-feira, ela recebeu em sua casa o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência.

Um bom conselho

Carlos Cornwall, Blog Maria Helena R. R. de Souza

Tem um conto japonês milenar que é mais ou menos assim:

Em uma planície, viviam um Urubu e um Pavão.

Certo dia, o Pavão refletiu:

- Sou a ave mais bonita do mundo animal, tenho uma plumagem colorida e exuberante, porém nem voar eu posso, de modo a mostrar minha beleza. Feliz é o Urubu que é livre para voar para onde o vento o levar.

O Urubu, por sua vez, também refletia no alto de uma árvore:

- Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos, quem me dera ser belo e vistoso tal qual aquele Pavão.

Foi quando ambas as aves tiveram uma brilhante idéia em comum e se juntaram para discorrer sobre ela: um cruzamento entre eles seria ótimo para ambos, gerando um descendente que voasse como o Urubu e tivesse a graciosidade de um Pavão.

Então cruzaram... e daí nasceu o Peru, que é feio pra cacete e não voa!

Moral da história:

Se a coisa tá ruim, não inventa!!!

Gambiarra só dá merda!!!

Carta de tesoureiro do PT a empresários, em nome da “Presidente Dilma”, tem cara de achaque e de chantagem

Reinaldo Azevedo


Desculpo-me, claro, por ser um dos poucos a desafinar o coro dos contentes e falar de coisas que não remetam à “neo-Dilma”, a “Tchutchuca do Pós-Lulismo”, como se isso existisse. Desculpo-me por lembrar que o PT continua a ser PT. Vamos ver. Na campanha do primeiro turno, o tesoureiro do partido, José Filippi Jr., já mandava cartinhas para as empresas que tinham, digamos assim, um pé na brutalidade. E não é difícil entender por quê. À época, escrevi um post a respeito (Aqui). Leiam um trecho daquela carta:

“Em 2006. procurei sua empresa como coordenador financeiro da campanha de reeleição do presidente Lula. Naquele momento, sua empresa não aceitou o convite para contribuir com nossa campanha. De todo modo, acredito que ela tenha se beneficiado com os avanços conquistados pelo Brasil…”

Fillippi Jr. está de volta. Agora, ele precisa cobrir o rombo deixado pela campanha. Uma nova carta está sendo enviada. Depois de listar as conquistas do governo Lula, ele pede mais dinheiro. E fala em nome da presidente eleita: “Estou contatando o senhor e sua empresa em nome da Presidente Dilma Rousseff”. O homem cria até um novo conceito sociológico: a “cidadania corporativa”, que deve ser uma coisa meio parente do fascismo: “A participação de sua empresa nesta eleição, como estabelece a lei brasileira, será muito bem vinda. Buscamos nesta eleição ampliar o número de empresas engajadas nessa prática de cidadania corporativa.” Depois de deixar claro que o governo é excelente e que as empresas têm o dever cívico de participar, só resta apontar o caminho para a contribuição, dando-a como certa (abaixo, a imagem, que pode ser ampliada; no pé, a integra). Ainda sigo:


Imaginem isso numa república que se levasse a sério mesmo — não naquela em que Chico Buarque não pode perder um prêmio literário… Que o PT, jamais Dilma, expusesse as suas necessidades aos empresários, vá lá. Que listasse as conquistas do partido — NÃO AS DO GOVERNO — para convencer, muito bem! Mas o pedido de dinheiro “em nome da Presidente Dilma Rousseff” tem a cara indisfarçável do achaque e da chantagem. Trata-se de uma afronta ao espírito republicano. É o mesmo que advertir: “A presidente saberá quem colaborou e quem não colaborou”. Colaborou com o quê? Com a sua eleição? Não!!! Com aquele Brasil maravilhoso de que fala Filippi Jr., claro! UMA PRESIDENTE DA REPÚBLICA, AINDA QUE APENAS A ELEITA, NÃO PEDE DINHEIRO JAMAIS NEM USA CONQUISTAS DA SOCIEDADE COMO SE FOSSEM COISAS PRIVADAS, PERTENCENTES A UMA FACÇÃO OU PARTIDO.

Haverá algum protesto ou barulho? Ora, pensa-se no neojornalismo, “o que há de errado em uma autoridade pedir a empresários dinheiro para o seu partido, empresários que podem vir a ser beneficiados ou prejudicados a depender das decisões do governo? Isso é normal! Tão normal quanto roubar o Prêmio Jabuti”.

Segue a íntegra da “carta”. No pé do post, imagem da carta enviada no primeiro turno.

Brasília, 04 de Novembro de 2010.

Prezad (…)

Dilma Rousseff foi eleita Presidente da República, a primeira mulher na história do Brasil. Sua vitória representa uma opção dos eleitores pela continuidade do governo Lula, que criou 14 milhões de novos empregos formais, tirou 28 milhões de pessoas da pobreza e promoveu a ascensão de 36 milhões para a classe média. O Brasil tem hoje destacada posição de liderança internacional e enfrentou com sucesso a grave crise de 2008.

Neste momento em que nos preparamos para uma nova etapa de desenvolvimento econômico e social do Brasil, estou contatando o senhor e sua empresa em nome da Presidente Dilma Rousseff. O segundo turno da campanha eleitoral gerou novas despesas especialmente, com materiais de divulgação, que estamos buscando saldar ainda neste mês de novembro, de acordo com as normas da arrecadação eleitoral. Muitos empresários brasileiros já contribuíram, optando por exercer esse direito facultado pela lei eleitoral, que deixa o financiamento das campanhas a cargo das empresas, principalmente, e dos cidadãos.

A participação de sua empresa nesta eleição, como estabelece a lei brasileira, será muito bem vinda. Buscamos nesta eleição ampliar o número de empresas engajadas nessa prática de cidadania corporativa. Dentro deste espírito, tenho prazer de convidar sua empresa a dar uma contribuição para a campanha de Dilma Rousseff. A doação deve ser feita por meio de depósito (DOC ou TED), diretamente na conta da campanha. Mais informações e as instruções para depósito e emissão do recibo podem ser solicitadas por email ou por meio de contato com nosso Comitê Financeiro no telefone abaixo.

Obrigado e um abraço,

José de Filippi Jr., ex-prefeito de Diadema-SP, deputado federal eleito pelo PT-SP.

Coordenador financeiro da Campanha Dilma Presidente 2010.




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A delicadeza com que o PT toma o dinheiro das empresas para Dilma

Reinaldo Azevedo

Uma nota na coluna “Radar”, de Lauro Jardim, na VEJA desta semana, demonstra a sutileza com que os petistas arrecadam dinheiro para a campanha de Dilma. Leiam. Comento em seguida:

Grandes empresários brasileiros que não doaram seus reais a Lula em 2006 estão recebendo uma cartinha num tom nada delicado do tesoureiro da campanha de Duma Rousseff, José de Filippi Júnior. Começa assim: “Em 2006. procurei sua empresa como coordenador financeiro da campanha de reeleição do presidente Lula. Naquele momento, sua empresa não aceitou o convite para contribuir com nossa campanha. De todo modo, acredito que ela tenha se beneficiado com os avanços conquistados pelo Brasil…”. Ou seja, daquela vez passou; mas agora é melhor contribuir.

Comento

1 - a mensagem deixa claro que a empresa está “no caderninho”;

2 - transforma conquistas da economia brasileira numa espécie de benevolência do governo;

3 - o tom fica entre a cobrança e a ameaça.

Dilma era a que mais tinha arrecadado na primeira prestação de contas. Vai ver o estilo brucutu funciona — intimidatório, obviamente, ele é.

















Principal desafio de Dilma é político

Aldo Fornazieri (*)  - O Estado de São Paulo

Dilma Rousseff, certamente, terá de enfrentar importantes pontos da agenda econômica no início do seu governo: ajuste fiscal, valorização cambial, aumento do investimento público, principalmente em infraestrutura, alta taxa de juros, controle da inflação, redução da dívida pública, e assim por diante. Mas são problemas em relação aos quais existem estoques de saberes armazenados, técnicas e capacitações humanas disponíveis no âmbito das forças governistas, suficientes para enfrentá-los de forma adequada.

Muitos temem o aumento do viés estatizante no governo Dilma. Um maior protagonismo do Estado na economia, hoje, não é bem um problema de escolha, mas de necessidade, em decorrência da crise de 2008. De qualquer forma, Dilma e os petistas aprenderam o caminho das pedras da economia e ninguém cometerá excessos a la Hugo Chávez. O governo Dilma não deverá ser mais estatizante do que o governo Lula.

O maior desafio de Dilma, nesses termos, situa-se no terreno político. As próprias reformas (tributária, política, previdenciária e trabalhista) dependem da capacidade de direção política. O primeiro ponto que Dilma terá de enfrentar consiste em fugir à regra dos governantes que chegam ao poder pela força alheia: o fracasso. Maquiavel e a História nos ensinaram que governantes que ascendem ao poder não pela força política própria, mas pela força de outros, tendem ao fracasso. Sem comparar personalidades, basta citar alguns exemplos recentes: Cristina Kirchner, Celso Pitta, Luiz Antônio Fleury Filho e George W. Bush. Todos eles venceram pela força política de predecessores e fracassaram em seu mandato ou em sua carreira.

Dilma terá de buscar a exceção. Tendo desenvolvido uma carreira gerencial e administrativa, é como se ela, agora, tivesse de constituir sua personalidade política. Ao vencer as eleições, já percorreu a metade desse caminho. A outra metade terá de percorrê-la no exercício da Presidência e, registre-se, essa será a parte mais difícil.

É preciso notar que existe uma diferença essencial entre ser um bom gerente e ser um bom líder político. Um bom gerente precisa saber coordenar processos e pessoas para atingir metas com eficácia. O principal requisito é que domine métodos e técnicas de gestão. A principal qualidade que se exige do líder político é a de saber comandar, dirigir pessoas, povos, multidões. Deve saber decidir de acordo com a variabilidade das coisas e dos tempos. Deve ser prudente a ponto de se antecipar aos problemas futuros e ousado para enfrentá-los. No âmbito das democracias, o líder político sempre lidará com conflitos. Terá êxito se souber agregar forças e satisfazer as maiorias. O bom líder político deve saber também escolher e valer-se de bons gerentes e administradores.

Há, contudo, a favor de Dilma alguns pontos importantes. Ela não é, simplesmente, uma herdeira parental ou pessoal de Lula. O presidente escolheu-a como candidata não por mero capricho personalista e autoritário. Lula precisava arbitrar a escolha do candidato para evitar que o PT se engalfinhasse numa luta interna fragmentadora, que poderia debilitar o partido na disputa. Dilma também não é uma outsider na política que simplesmente aproveitou a oportunidade que a sorte lhe oferecia. Sem planejar disputar a Presidência da República, mas treinada nos padrões organizativos da antiga esquerda, recebeu do presidente Lula a tarefa de disputar as eleições não como uma dotação do acaso ou da fortuna, mas como uma missão. Desempenhar bem as missões partidárias e políticas faz parte do ethos da formação militante de base em que Dilma se iniciou politicamente. Essa formação, nos momentos de desafios, constitui enorme vantagem em relação a políticos que desenvolveram carreiras meramente individuais.

Dilma foi eleita com a força da liderança política de Lula - liderança no sentido forte do termo - e este é o segundo problema político a ser revolvido. Se Lula fizer sombra a Dilma, estará minando o processo de construção de sua personalidade política como líder e presidente da República. Ao que tudo indica, esse não é um risco considerável, pois Lula é suficientemente sagaz e sabe que não pode projetar poder sobre sua sucessora. Lula deve socorrer Dilma somente em caso de última necessidade e Dilma deve bater à porta de Lula no limite estrito do necessário. Nestes termos, Dilma será a presidente real, legitimada democraticamente pelas urnas. A democracia brasileira atingiu um grau elevado de institucionalização, que não permite arranjos paralelos de comandos coletivos ou de unipresença de personalidades externas às funções constitucionais. Se Lula não foi bonapartista nem mesmo em seu próprio governo, por que haveria de sê-lo agora?

O terceiro problema diz respeito ao perfil do Ministério. O recomendável é que nenhum ministro tenha status de superministro. Tal circunstância, além de gerar disputas indesejadas entre ministros, enfraqueceria a figura da presidente. Para preservar sua autoridade Dilma deve decidir e dar a última palavra sobre as principais questões de governo.

Por fim, o maior risco político que Dilma deve evitar é o do impeachment. Presidentes com escassa força política própria são sempre mais suscetíveis de enfrentar investidas seja de forças da oposição, seja até mesmo de forças aliadas, desejosas de mais espaço e poder. Na crise do mensalão, a oposição, em grande medida, não propôs o impeachment do presidente Lula por causa do seu forte respaldo popular. Levando em conta que 44% dos eleitores votaram na oposição, Dilma deve fazer um esforço para ampliar o apoio da população. O esforço maior, contudo, deve consistir em impedir que o seu governo resvale para escândalos de corrupção. É neles que reside o maior potencial de erosão da legitimidade democrática.

(*) Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Não existe oposição “generosa”, nem “má”: existe oposição

João Bosco Rabello, Estadão.com

Não foi bem digerida no PSDB e no DEM a proposta do governador Aécio Neves de uma oposição “generosa” ao futuro governo Dilma. O adjetivo poderia ter ficado de fora da declaração do mineiro, sobretudo porque foi simultânea ao lançamento, pelo PSB ,de seu nome para presidir o Senado.

A leitura foi a de que Aécio traça seu próprio projeto de chegar ao posto numa aliança com partidos governistas, à revelia de seus aliados.

De suas declarações decorrem as manifestações em sentido contrário de oposicionistas como o governador de São Paulo, Alberto Goldman, e do próprio senador eleito, Itamar Franco. Ambos corrigem Aécio: oposição é oposição – consciente e ativa, mas sem meios termos.

Itamar, inclusive, defende que ela comece no dia seguinte à posse de Dilma. “Até a posse, tudo são flores”, diz.

De fato, o eleitor já demonstrou não apreciar posições pouco claras ou comportamento dúbio, como ficou patente na campanha de José Serra, criticado por não admitir interferência no trabalho de seu marqueteiro Luis Gonzales.

Nada disso significa oposição irresponsável ou do “quanto pior, melhor”, como a exercida pelo PT durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, quando combateu o plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e outras medidas, de resto responsáveis pela estabilidade da qual se beneficiou para consolidar um cenário econômico favorável ao País.

O que Aécio, apesar do escorregão, não deixou de assinalar. O rescaldo da derrota já parece estar reorientando o pensamento dos oposicionistas que, mais conscientes da votação obtida – 44 milhões de votos, dez governadores de estados que somam 95 milhões de brasileiros, ou 52% da população -, começam a avaliar o resultado pelo lado positivo – o da representatividade obtida.

A avaliação da derrota elegeu como causa principal a desarticulação da oposição, majoritariamente representada pelo PSDB, que entrou na disputa dividido e a três meses da abertura oficial da campanha.

Nos anos anteriores de governo Lula não exerceu uma oposição permanente, fundada em bases sólidas, programáticas e definidoras de um norte político que propiciasse ao eleitor mais que a repetição de um duelo ideológico entre dois partidos que brigam pelo monopólio de uma esquerda de conceito obsoleto.

Prevaleceu assim, por uma questão lógica, a chamada vida real, ou seja, o voto pela continuidade de um bem estar ditado pela economia positiva, cujo mérito o PT nega ao PSDB, mantendo o adversário numa discussão enfadonha para o cidadão sobre quem começou o que de bom ele desfruta.

Ao lado da inconveniente supremacia do marketing na campanha, em detrimento da politização dos temas, essas as lições para a oposição extrair da derrota que, por não ter sido acachapante como pregava a aliança governista, exibe um Brasil dividido que lhe deu, apesar de toda a sua desarticulação, 46% dos votos apurados.

Não é pouco e deve orientar a reconstrução das bases dessa oposição, tornando-a orgânica, mais bem distribuída em todo o país e consistente na sua ação congressual.

ENEM: especialistas avaliam e apontam erros

Veja online

Enem 2010: prova de química ignorou temas relevantes

Além disso, enunciados foram excessivamente extensos: "Muitos alunos devem questionar isso”, diz João Usberco, coordenador de química do Curso Anglo

Para o professor João Usberco, coordenador de química do Curso Anglo, a prova da edição 2010 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada neste sábado, deixou de abordar assuntos importantes da área. "Eles pecaram ao não fazer uma prova abrangente. Deixaram de fora temas como radioatividade, propriedades coligativas e equilíbrios químicos", diz.

Uma das falhas apontadas foram os enunciados excessivamente extensos das questões, o que pode ter atrapalhado os estudantes. "Em alguns casos, como a questão 80 do caderno azul, os estudantes poderiam partir diretamente para o último parágrafo. Lá, estavam todas as informações necessárias para resolver o problema. Além disso, alguns textos estavam confusos e mais atrapalharam do que ajudaram", diz Usberco.

Comparando o Enem com avaliações de outras instituições, como a Fuvest, o professor considera o exame apresentado neste domingo "pouco criativo". "Nenhuma questão chamou a atenção. Foram cobrados assuntos básicos", diz.

Enem 2010: prova de história apresentou 'erros graves'

Falhas podem prejudicar estudantes mais bem preparados, diz José Carlos Moura, professor de história do Curso Anglo

Questões abordaram temas em períodos históricos variados, o que foi positivo, mas trouxeram erros inadimissíveis em seus enunciados muito longos, diz professor de história do Curso Anglo

Para José Carlos Moura, professor de história do Curso Anglo, a prova de história do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizada neste sábado, pode ser considerada "razoável". As questões abordaram temas de períodos históricos variados, o que foi "positivo", mas apresentaram "erros inadimissíveis em seus enunciados muito longos".

Exemplo disso foi a questão de número 25 da prova azul, que tratou da chegada da Família Real ao Brasil, em 1808. "A questão estava mal redigida e trazia erros de informação em várias datas, por exemplo. Erros infantis". Para Moura, o candidato que conhece o conteúdo de forma mais aprofundada provavelmente se incomodou com as falhas. "Isso prejudica o estudante na hora de assinalar a alternativa correta."

A questão de número 21, que tratava da Guerra de Canudos, também tinha problemas, segundo Moura, pois apresentava duas respostas corretas: "A" e "D". Isso pode provocar sua anulação.

Enem 2010: uma questão de geografia deveria ser anulada
Marina Dias

Reinaldo Scalzaretto, coordenador da disciplina do Curso Anglo, diz ainda que exame abordou temas que não fazem parte do conteúdo do ensino médio

O professor Reinaldo Scalzaretto, coordenador de geografia do curso Anglo, afirmou que a questão de número 1 do caderno azul da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), aplicada neste sábado, não tem resposta

O professor Reinaldo Scalzaretto, coordenador de geografia do Curso Anglo, avalia que os enunciados das questões da disciplina da prova do Exame Nacional do Ensino Médio, realizada neste sábado, eram "muito difíceis e abordavam conteúdos que estão fora do campo de aprendizado do ensino médio". Para ele, a disciplina foi abordada de forma pouco diversificada e trabalhou em apenas duas frentes: o meio ambiente e a discussão agrícola.

Ele afirma que a questão de número 1 do caderno azul, que trata do tema da distribuição de terra no país, foi apresentada de forma confusa, o que deveria levar a seu cancelamento. Contudo, segundo Scalzaretto, o Enem deverá considerar como correta a alternativa A, que afirma que a concentração de terras está nas mãos de poucos no Brasil.

"Apesar da afirmação ser válida, o gráfico e a tabela que acompanhanaram o enunciado não transmitiam informação suficiente e correta para que o aluno tirasse essa conclusão", diz.

Em nome do bem se faz muito mal

Eliane Brum, Revista Época

As tentativas de censurar a literatura são mais graves e menos isoladas do que parecem

Apenas entre agosto e outubro deste ano foram três tentativas de censurar a literatura. Três que se tornaram conhecidas, podem ter ocorrido outras. A mais rumorosa delas foi o parecer do Conselho Nacional de Educação recomendando que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, fosse banido das escolas públicas. Ou apresentasse notas explicativas alertando sobre a presença de “estereótipos raciais”. Os membros do CNE viram racismo na forma como a personagem Tia Nastácia é tratada no livro. Dois meses antes, em agosto, pais de estudantes do ensino médio da rede pública de Jundiaí, no interior de São Paulo, protestaram contra o uso do livro “Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”. Segundo eles, o conto “Obscenidades para uma dona de casa”, de Ignácio de Loyola Brandão, usa “linguagem chula” para descrever atos sexuais narrados em cartas recebidas por uma dona de casa. Ainda em agosto, mais uma polêmica. Desta vez por causa do livro “Teresa, Que Esperava as Uvas”, de Monique Revillion, também destinado ao ensino médio. No conto “Os primeiros que chegaram” a autora descreve um sequestro com estupro e assassinato.

É bastante diferente quando a tentativa de censurar a literatura parte de pais ou pedagogos – indivíduos, portanto – e quando é encampada por um órgão que tem a tarefa de pensar a educação brasileira e ajudar a aprimorá-la com suas análises e recomendações. A má qualidade da educação na rede pública, como todos sabemos, é uma das maiores, senão a maior tragédia nacional. Entre as causas da indigência educacional brasileira está o fato de que os brasileiros leem pouco ou nada leem. Boa parte deles porque não tem acesso a bibliotecas, triste realidade que os programas governamentais têm tentado mudar com menos empenho do que seria necessário.

Quando soube das tentativas de censura, minha primeira reação foi rir. Era tão absurdo que parecia mesmo piada. Percebi então que enquanto nós rimos, eles proíbem. Esta última polêmica atingiu uma repercussão tão grande, capaz de fazer o ministro Fernando Haddad manifestar-se pedindo uma revisão do parecer, apenas por tratar-se de Monteiro Lobato, um autor consagrado. Quem teve a sorte de conhecer Tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Emília e todos os habitantes do Sítio do Picapau Amarelo deve ao autor uma das partes mais saborosas de sua infância. Tão deliciosa quanto os bolinhos da Tia Nastácia, aliás. Nos outros dois casos, os protestos e a repercussão tiveram um volume menor.

É assim que o autoritarismo vai se insinuando em nossas vidas, pelas bordas. Vai nos comendo aos poucos e um dia se instala em nosso cotidiano como se fosse um dado da natureza. Acontece quando a equipe responsável pela seleção dos livros depara com um conteúdo que já provocou polêmica antes e, para se poupar de problemas, acaba optando por uma obra mais palatável. Pronto, o livro em questão, apesar de sua reconhecida qualidade, jamais chegará às bibliotecas. Ou quando o professor na sala de aula, que já é criticado por quase tudo, prefere abster-se do risco. Em vez de escolher o melhor livro, opta por aquele que não causará a reação raivosa de nenhum pai ou mesmo uma discussão acalorada na classe. Pronto, os alunos só terão acesso a textos que nada provocam. Ou ainda quando algum escritor começa a se policiar nos termos que usa e nos temas que aborda para ter alguma chance de ser selecionado pelos programas de governo. É assim, muito mais pelo que não é dito, pelos caminhos subjetivos, que a vida se empobrece e o controle se instaura.

A História nos mostra que censurar livros e controlar o que é escrito estão entre os primeiros atos de regimes autoritários. Vale a pena revisitar a obra de Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”, um pequeno livro essencial que possivelmente o CNE não aprovaria.

Nas democracias, o autoritarismo costuma vir embalado no discurso do bem. Que é, de longe, o mais insidioso e difícil de identificar. Se o CNE afirma que Tia Nastácia é tratada de modo preconceituoso, como vamos nos posicionar contra a eliminação de algo tão abjeto como o racismo sem nos sentirmos boçais? Só mesmo porque o autor se chama Monteiro Lobato. Mas e se fosse um escritor menos conhecido, ainda que brilhante? Será que tantos teriam a coragem de defender a sua obra?

É preciso dizer que o CNE nega ter cometido qualquer ato de censura da obra de Monteiro Lobato. Ele apenas “recomenda” que todas as obras com “preconceitos e estereótipos”, como “Caçadas de Pedrinho”, não sejam compradas nem distribuídas pelos governos. Para o CNE, isto não é banimento. No caso de clássicos como os livros de Monteiro Lobato, se insistirem em usá-los nas salas de aula, o CNE sugere que seja feita uma nota explicativa alertando para seus pecados. Interpretar esta recomendação bem intencionada como uma tentativa de censura seria apenas mais uma das incontáveis “manipulações da imprensa”.

Entre os argumentos utilizados para defender o parecer está o de que os professores da rede pública não teriam preparo para discutir uma questão complexa como o racismo. Ou para contextualizar a época de Monteiro Lobato assim como o Brasil que ele retrata. Surpreende-me que nenhum professor tenha se manifestado contra uma generalização que poderia ser interpretada como preconceito. Mas, supondo por um momento que esta afirmação esteja correta, a saída seria banir todos os conteúdos que hoje são mal trabalhados nas salas de aula, de Monteiro Lobato à equação de segundo grau?

Neste mesmo rumo, acreditar que as crianças, por lerem “Caçadas de Pedrinho”, começariam a discriminar os negros nas ruas é no mínimo subestimá-las. É preocupante perceber que pessoas responsáveis por pensar e aprimorar a educação brasileira possam enxergar as crianças como meros receptáculos, vazios e passivos, sem capacidade de fazer relações, inferências e mediações. Se aceitarmos o argumento de que Tia Nastácia tem um tratamento racista na obra, sob os olhos de hoje e não da época de Monteiro Lobato, a atitude de um bom educador deveria ser a de calar as contradições e eliminar a oportunidade de debate?

Eu, que tive a sorte de ler toda a obra de Monteiro Lobato entre os 8 e os 9 anos e incrivelmente não me tornei racista, gostaria de dizer aos membros do CNE que mesmo a sua interpretação da personagem Tia Nastácia é pobre. Bem pobre. Mas a Academia Brasileira de Letras disse isso de uma forma muito melhor do que eu faria. Transcrevo aqui parte da manifestação da ABL, contrária ao parecer do CNE:

“Um bom leitor de Monteiro Lobato sabe que tia Nastácia encarna a divindade criadora, dentro do sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos. Ela é quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Ela é a escolhida para ficar no céu com São Jorge. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.

Em vez de proibir as crianças de saber disso, seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos. Mostrassem como nascem e se constroem preconceitos, se acharem que é o caso. Sugerissem que se pesquise a herança dessas atitudes na sociedade contemporânea, se quiserem. Propusessem que se analise a legislação que busca coibir tais práticas. Ou o que mais a criatividade pedagógica indicar.

Mas para tal, é necessário que os professores e os formuladores de políticas educacionais tenham lido a obra infantil de Lobato e estejam familiarizados com ela. Então saberiam que esses livros são motivo de orgulho para uma cultura. E que muito poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento. Raros autores estimulam tanto os leitores a pensar por conta própria quanto Lobato, inclusive para discordar dele. Dispensá-lo sumariamente é um desperdício.

A obra de Monteiro Lobato, em sua Integridade, faz parte do patrimônio cultural brasileiro”.

A única parte boa desta tentativa de censura foi me dar uma excelente desculpa para reler “Caçadas de Pedrinho” (Editora Globo) aos 44 anos e renovar minha gratidão a Monteiro Lobato pelo tanto de imaginação que me deu. Assim como comprar “Os cem melhores contos brasileiros” (Objetiva) para ler o texto de Ignácio de Loyola Brandão que provocou furor no interior de São Paulo. E de quebra ler Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Mário de Andrade, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João Ubaldo Ribeiro e todos os grandes da literatura brasileira que fazem parte da coletânea. Banir tal livro das escolas? Por favor, não!

O conto de Ignácio de Loyola Brandão é excelente. Ótimo mesmo. Quando li a notícia de que alguns pais e estudantes queriam proibi-lo por usar “linguagem chula” na descrição de atos sexuais, estranhei. Afinal, tratava-se de adolescentes do terceiro ano do ensino médio, na faixa dos 17 anos. Neste mundo. Nesta época. Será que não seriam capazes de lidar com isso? Parece-me que, se não conseguem lidar com isso, então sim temos um problema.

Foi só ao ler o conto que formulei minha própria hipótese sobre a razão de tanto incômodo. Eu arriscaria dizer que o que pode ter perturbado estes pais e estes filhos é uma outra realidade que o conto desnuda, esta sem “linguagem chula”, com a qual muitos podem se identificar. Quem ler o conto, talvez concorde comigo. É verdade que é sempre mais fácil proibir aquilo que nos produz incômodo do que olhar para dentro e tentar compreender com honestidade os nossos porquês. Perturbar, incomodar e até transtornar o leitor, em minha opinião, são qualidades num texto.

Não encontrei o “Teresa, que esperava as uvas” (Geração Editorial), de Monique Revillion. Infelizmente. Pelo que li nos jornais, o conto da discórdia chocava pela crueza da descrição da violência. De novo, o livro era usado como material de apoio para estudantes do ensino médio, com idades a partir de 15 anos. Houve quem acreditasse, com bastante estardalhaço, que os adolescentes não seriam capazes de lidar com temas como a violência urbana e a sexual. Não compreendo como não ocorreu a estas mentes privilegiadas proibir logo todo o noticiário, que nem mesmo pode alegar em sua defesa que é ficção. Que os jornais e revistas sejam vendidos nos fundos das bancas, junto com os filmes pornôs.

Tudo isso – sempre – em nome do bem. Com as melhores intenções.

Sou filha de professores de português e literatura que dedicaram boa parte da vida a dar aulas na rede pública. Meus pais, que me ensinaram a amar os livros, se esforçaram muito para que tivéssemos uma biblioteca em casa. Na minha família as roupas eram remendadas e herdadas dos primos mais velhos. Se sobrava algum dinheiro era sempre para livros, para a educação. Numa cidade pobre em bibliotecas e com bibliotecas pobres, a nossa era uma das melhores. E foi lá que amigos meus e de meus irmãos, assim como alunos dos meus pais, se serviam livremente das letras. Volta e meia encontro alguém que me interrompe o passo na rua para me dizer que a biblioteca da minha casa foi fundamental na sua vida.

Devo a esta lucidez e a esta biblioteca boa parte do que sou e consegui fazer de mim. Assim como a Lili Lohmann, a moça da livraria cuja história já contei aqui. Nunca, em nenhum momento, nem meus pais nem Lili dificultaram o acesso a um livro. Eu lia o que bem entendia porque eles sabiam que esta busca pertencia a mim, era determinada pelos meus anseios e pelos meus incômodos, pela minha curiosidade que só aumentava. A viagem da literatura é talvez a travessia mais fascinante, importante e – ainda bem – sem fim da minha vida.

Eu era criança e já intuía que a literatura era o território do indizível. Nela cabia tudo o que era humano. Mesmo o feio, o brutal. Mesmo a covardia, a inveja, os sentimentos todos que a gente prefere dizer que não sente. A literatura, como as várias manifestações da arte, é o não-lugar geográfico onde podemos lidar com nossos demônios sem que eles nos devorem. A literatura só é literatura se incontrolável.

Tenho medo que os bem intencionados do politicamente correto inventem a maior ficção de todas, que é um homem sem conflitos, sem pequenezas e sem contradições. E então a literatura, que não será mais literatura porque deixará de estar encarnada na vida, ficará reduzida a uma casca vazia e sem ressonância onde não nos reconheceremos. Porque se estes iluminados se decidirem a revisar a literatura sob a ótica do que é politicamente correto nesta época, podem começar a alimentar sua fogueira com a Odisséia de Homero. E dali em diante não sobra nada. Em sua sanha não devem se esquecer de incluir a Bíblia – aliás, como ainda não pensaram nisso?

É sério, muito sério. E nenhum de nós deve se omitir quando tentarem arrancar o cachimbo do Saci Pererê ou submeter as bruxas dos contos de fadas a um tratamento a laser para eliminação das verrugas. Sobre isso sugiro ler “Saci sem cachimbo, lobo sem dentes e gente sem pensamento”. Percebam bem quantos absurdos nos assediam, nas mais variadas instâncias, em nome do bem. Estamos conseguindo resistir, mais ou menos, e até colecionamos algumas vitórias parciais, como a reversão da censura ao humor nestas eleições. Mas é preciso se manter vigilante nesta luta de resistência.

Não sei o que pensam vocês. Mas eu, quando vejo aquelas pessoas com seu par de olhos angelicais, anunciando que ainda que seja contra a minha vontade estão fazendo o que fazem para o meu bem, não hesito. Corro.

(*) Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

O troco da Historia

Sebastião Nery

BRASILIA – Foi um dia muito maluco. Getulio acuado no Catete pela UDN militar, depois que amigos dele tentaram matar Lacerda e só acertaram o pé. Juscelino, governador de Minas, generoso e valente, resolveu fazer um gesto de solidariedade publica a Getulio. Convidou-o a ir a Belo Horizonte no dia 12 de abril de 1954 inaugurar a siderúrgica Mannesman. A UDN e o Partido Comunista ficaram histéricos.

Nós, universitários da Juventude Comunista,fomos com os colegas da UDN, tentar impedir que Getulio entrasse na cidade pelo centro, pela avenida Afonso Pena. Todos de lenço branco amarrado na boca até a praça da Feira de Amostras. O Guimarães, tio do atual deputado do PT mineiro Virgilio Guimarães, disse-me na escada da Faculdade de Direito:

- Nery, isso que vocês comunistas vão fazer é uma loucura. Que a UDN faça, tudo bem. Mas vocês estão engordando o golpe militar que vai derrubar Getulio e pôr vocês todos na cadeia.

Getulio
Ele foi o único a não sair. Ficou na escadaria protestando. Não havia um trabalhador, um operário. Só nós estudantes. Éramos centenas. Lotamos a praça da Feira. A policia nos cercou mas nos deixou ali. Quando Getulio apareceu vaiamos, e a comitiva, comandada por JK, entrou pela avenida Paraná, passou pela praça Raul Soares e seguiu para a Cidade Industrial.

Deixei de ser estudante e voltei a ser jornalista. Peguei um taxi e fui atrás. Queria ver e ouvir Getulio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que eu pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Quando começou a ler seu discurso, a voz forte, decidida mas tensa, tive tanta pena que quase lhe pedi perdão pelo lenço na boca de meia hora atrás. Deixou claro: só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : corajoso, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, contra o golpe. Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Juscelino
Terminada a cerimônia, foram para o palácio. Getulio, que pelo programa deveria voltar para o Rio, resolveu dormir em Minas. Gregório, preso no Catete, não foi com ele. A segurança dele ficou por conta de militares. Foi visto, ao amanhecer, ajoelhado na beira da cama, chorando.

De manhã, depois do café, Getulio todo pronto para viajar, com um charuto aceso na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar a ele. A mão miúda, gordinha, fria, úmida, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, fazia perguntas, mas com os olhos distantes de quem não estava mais ali,

Em nenhum momento sorriu. Entrou no carro sem olhar para trás

Suicidio
E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as grandes rádios (“Nacional”, “Tupy”, “Globo”) ficaram de plantão permanente. A “Nacional” do governo, a “Tupy” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

De madrugada, depois de receber o manifesto dos generais levado pelo ministro da Guerra Zenobio da Costa, Getulio desistiu de resistir, concordou em assinar uma licença, deu a caneta a Tancredo Neves, foi deitar-se já ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

-“Licença coisa nenhuma. Ele não voltará”.

Não voltou mesmo. Com um tiro no peito, ficou para sempre.

PC
Depois da madrugada jantando, ouvindo as rádios e um pianista cego, no “Columbia”, bar-restaurante de jornalistas depois de prontos os jornais, na avenida Paraná (o outro era o “Pólo Norte”, na Afonso Pena, ao lado do hotel Financial, onde eu morava), fui para o hotel dormir.

“Às 9 da manhã, batem na minha porta. Era Roberto Costa, dono da livraria “Oliveira e Costa”, e da direção do Partido Comunista em Minas :

- Acorda, companheiro. O velho Getulio acaba de se matar, às 8,30. Vamos buscar os trabalhadores na Cidade Industrial para protestar

- Mas não éramos contra ele, o partido não era contra?

- Agora não é mais. Deixou uma Carta Testamento maravilhosa, um documento revolucionário, denunciando o imperialismo americano.

- É o trôco da historia, Roberto. Há 17 anos, em 1937, ele deu o golpe. Agora deram contra ele. O poder para sempre é uma ilusão.

- Para de filosofar e vamos levantar o povo.

“A Nuvem”
Estou aqui em Brasília, onde vim lançar meu livro “A Nuvem – O Que Ficou do Que Passou”, já na 3ª edição (15 mil exemplares vendidos em poucos meses), depois de ter lançado em dez Estados. É o depoimento de um jornalista que viu e viveu os últimos 60 anos da historia do pais.

Incrível como se fala aqui nos “20 anos do Lulismo”, nos “20 anos de governo do PT”. São uns idiotas deslumbrados. Não conhecem a força da historia. Quarta-feira agora, 10 de novembro, fez exatamente 73 anos que Getulio deu seu golpe do Estado Novo, “para durar gerações”. Durou 8 anos, derrubado pelo Exercito em 45. Voltou em 50, foi suicidado em 54.

Lula não é Getulio, Dilma não é Chico Campos, José Dirceu não é Filinto Muller. Mas “quem não aprende com a historia paga caro por ela”.

Guerra com a mídia continua

Adriana Vasconcelos , O Globo

As eleições no Brasil terminaram há oito dias, mas um grande número de militantes, até mesmo dentro do governo, ainda continua querendo alimentar a briga e a cizânia.

Logo após o anúncio oficial do resultado da disputa presidencial, percebi que o clima de guerra travado entre tucanos e petistas não seria ultrapassado facilmente.

Foram muitas as mensagens que li de internautas dizendo que não se sentiam representados pela petista Dilma Rousseff.

De pouco adiantou o argumento de que numa democracia, a maioria escolhe seus representantes e a minoria acata o resultado.

Mas a verdade é a agressividade também permanece entre aqueles que trabalharam e conseguiram eleger a nova presidente do Brasil.

Enquanto as armas não forem guardadas e a patrulha prosseguir, pior para todos.

Para acirrar um pouco mais os ânimos desse cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promete deixar como herança para sua sucessora uma proposta de regulamentação da mídia.

Aquela mesma que ele tentou emplacar ao longo dos últimos oito anos e virou quase uma obsessão para alguns de seus ministros, como o da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins.

O ministro em questão, aliás, justificou nesta segunda-feira sua posição com o argumento de que imprensa livre não significa necessariamente imprensa boa.

Eu complementaria essa declaração dizendo que o que realmente não tem jeito de ser boa é a censura.

E não adianta o ministro dizer que a mídia precisa conviver com o contraditório e aceitar as críticas, tendo em vista que essa mesma imprensa teria escrito e dito o que bem queria sobre o governo Lula.

Seria bom refrescar a memória do ministro lembrando que a mídia sempre se submeteu às leis em vigor no país e nunca se colocou acima do bem e do mal, ao contrário de algumas autoridades.

E tampouco se nega a aceitar o contraditório, examente aquele que tanto parece incomodar alguns setores governistas.

É preciso entender, contudo, que noticiar fatos incômodos para o governo não significa ataque ou crítica, mas a reprodução da realidade, por pior que possa ser.

Coisa, aliás, de que alguns internautas continuam sem conseguir diferenciar, preferindo agredir gratuitamente quem noticia e se negando a enxergar o que lhe desagrada ou parece ser ruim para seu ponto de vista.

Que Deus _ aquele mesmo, tão citado durante a campanha eleitoral _ nos dê paciência para aguentar esses pobres de espírito!