terça-feira, novembro 09, 2010

O primeiro passo para o desastre é não reconhecer os próprios erros

Adelson Elias Vasconcellos


Ontem, ao desembarcar em Moçambique, espremido pela Imprensa quanto as derrapadas do Enem, versão 2010, Lula não teve dúvida e sapecou isto:

"Tem muita gente que quer que afete porque até hoje tem gente que não se conforma com o Enem, mas, de qualquer forma, ele provou que é extraordinariamente bem sucedido".

Sinceramente? Não sei se devo rir porque a afirmação não passa de uma piada grosseira, ou se devo rir também, mas de tristeza por ver que Lula insiste em ser um cretino em tempo integral.

Ora, durante dez anos o Provão sucedido pelo Enem, não causou mal a ninguém. Nunca teve problemas, por mínimo que fosse. Você estranha o tempo? Pois é, o exame de avaliação do ensino médio foi criado no governo FHC, em 1998. Mais tarde, Lula, como sempre, resolveu “aperfeiçoar” o exame, mudando-lhe o nome para parecer ser obra de seu governo, coisa, aliás, em que ele se esmerou profundamente, a ponto de se tornar um especialista em vigarice da obra alheia. .

Contudo, de um certo tempo para cá, e já sob o governo Lula, o Enem começou a dar mostras de que estava sendo desviado de seu objetivo principal original. Muitas questões passaram a ser feitas pela ótica da ideologia política, o que convenhamos, é o caminho mais curto para o desastre em se tratando de avaliação da qualidade de ensino.

Quando o ministro Haddad (ainda é ministro?), resolveu inovar de vez, aquilo que serviria como instrumento de avaliação passou a valer como instrumento de admissão à universidade. Ontem, aqui, comentei alguns aspectos do Enem sob a ótica atual e deixei claro que ele deve sofrer alterações se pretende comprovar sua utilidade. Não desqualifico a aprova como substituto do vestibular, que, afinal de contas, foi no que ele se transformou. Mas precisa de ajustes na sua forma de execução.

Esta bravata de Lula só demonstra que, a depender deste governo, TODOS os erros não serão assumidos de jeito nenhum. Ontem, na entrevista coletiva que deu, o ministro Haddad comprovou o princípio: tratou de despejar a encrenca no colo de terceiros.

Porém, quem é o pai desta criança? Quem resolveu atropelar o bom senso e, à força, tentou transformar o Provão num imenso vestibular, sem levar em conta toda a necessária para a implantação de um exame, em nível nacional, totalmente centralizado, e sem levar em conta certas regras de cautela e de modificação um sistema em vigor, com a devida cautela e zelo?

Os problemas que ocorreram neste ano e em 2009 são fruto não da mudança de finalidade, mas da pressa em querer mudar o que estava certo a qualquer preço.

Há um post abaixo em que educadores fazem uma avaliação das provas e mostram que não se trata apenas de questões de segurança ou de erros de impressão. Erros primários como datas erradas de eventos históricos do Brasil, por exemplo, são inadmissíveis para uma prova deste gabarito.

Do mesmo modo, a justificativa dada de que, para preservar a segurança se deixou de aplicar a indispensável revisão do material impresso, é de uma suprema infelicidade e incompetência.

É pura conversa fiada do senhor Lula querer atribuir os erros de seu governo às pessoas que torcem conta. Isto era feito no tempo em que ele era oposição. Tudo mundo quer que as políticas deem certo. Mas para isso, é preciso que se faça certo. E “fazer” no caso, é tarefa que cabe ao governo e toda a estrutura montada por ele para cumprir suas tarefas básicas.

Assim, o primeiro passo para que mudanças funcionem de forma adequada e previstas, é estabelecer um cronograma de implantação estabelecendo rigoroso acompanhamento de cada passo. Claro que mudanças sempre exigirão ajustes até que seu funcionamento produza efeitos esperados. O que não se pode é tentar encobrir os erros de organização, planejamento e execução com deboche ou pouco caso. Aceitem-se os erros cometidos e trate-se de corrigir na medida que cada caso exige.

No ano passado, com a quebra da segurança, ficou evidente que o MEC foi incapaz de conduzir o processo todo com a devida cautela e zelo. Para este ano esperava-se que o ministério fosse mais cuidadoso em todas as etapas do processo. E o que se viu e se constatou é que as falhas comprovam descuidos injustificáveis.

O ENEM como instrumento de qualificação ao ingresso de estudantes no ensino superior pode dar certo? Claro que sim, desde que se faça os ajustes adequados e que o MEC não “pule” etapas durante sua execução, como fez neste ano. Mas precisará já em 2011, realizar-se sem falhas se deseja recuperar a credibilidade que o próprio MEC acabou retirando da prova por sua incúria. Para tanto, será indispensável que o senhor Haddad venha a público e assuma que sua pasta errou e se desculpe pelas ameaças que foram feitas nas redes sociais contra aqueles que, prejudicados, resolveram, com justa razão reclamar. Um pouco de humildade nunca fez ninguém perder eleição. Até pelo contrário. Demonstra grandeza de caráter além de ser o indispensável primeiro passo para as correções necessárias no sentido de se prevenir a repetição de erros.