terça-feira, novembro 09, 2010

Eternamente em berço esplêndido

Adelson Elias Vasconcellos



São Paulo e Minas Gerais são os dois maiores colégio eleitorais. Por seus números, decidem eleições nacionais. Os dois estados serão governados a partir de 2011 pelo PSDB.

Vocês leram nos posts abaixo, que o PT já se articula para tentar deixar de ser oposição tanto em São Paulo quanto em Minas. E, para quem conhece um pouco a história do PT, sabe bem que os governadores tucanos nos dois estados não terão vida fácil. Se no plano federal, o PT não permite que se investiguem seus crimes no poder, no plano estadual, enquanto oposição, e se deixarem, o PT criará uma CPI por dia se puder. Para eles, oposição é oposição, e fim de papo. Não tem essa do interesse público, de oposição “generosa” ou responsável. Pau é pau pedra é pedra. E vamos à luta, porque, para esta gente, qualquer meio, ilegal ou não, delinquente ou não, justifica a retomada ou tomado do poder.

Pois bem. Vejamos o PSDB. Perdeu as três últimas eleições presidenciais. E o motivo foi o mesmo: deixou de fazer o papel que lhe competia cumprir, isto é, deixou de fazer oposição. Já analisei bastante este aspecto aqui no blog.

Ora, era de se esperar que agora, depois das três derrotas, os tucanos tivessem aprendido a lição e resolvessem corrigir seu rumo, sua atuação política, e até sua postura diante do governo federal, que é petista.

Mas qual, quem tem compulsão à derrota, parece gostar de apanhar. Assim, pelo andar da carruagem, parece que o PSDB vai continuar apostando no seu erro e, em consequência, tem tudo para continuar oposição no governo federal por um bom tempo.

Querem ver? Até agora não se ouviu de ninguém da oposição, vir a público para denunciar o massacre que está sendo feito na Petrobrás em relação ao pré-sal. Conforme comprovamos aqui, mais de 2/3 dos campos já descobertos, será explorado por concessão por empresas estrangeiras em parceria com a Petrobrás. Logo após a derrota, e até antes, tem elementos suficientes para cobrar do Ministério Público Eleitoral a abertura de um processo de impugnação da candidatura Dilma por prática de crime de abuso político e econômico durante a campanha. Se quiserem, o que não faltaram são provas evidentes disto. Porém, proclamados os resultados, parecem que a oposição, atual e futura, vai deixar por isso mesmo. Outra: alguém do partido está acompanhando e cobrando providências nas investigações do caso Erenice e da quebra de sigilo fiscal dos tucanos de fina cepa? Não creio.

No dia de sua proclamação como presidente eleita, Dilma fez seu primeiro discurso prometendo e assumindo compromisso, com pelo menos duas propostas: uma, a de reduzir a carga tributária. Nem bem se transcorreram 48 horas, e em entrevista concedida por Lula, na qual a eleita estava presente, Lula já acenava com o retorno da CPMF. Mais: vimos ontem, que o governo também trará à tona outra de suas propostas, a de rever, para baixo, naturamente, o rendimento das cadernetas de poupança. Alguém ouviu alguém da oposição acusar de estelionato eleitoral as duas medidas? Claro que não.

O segundo compromisso importante, seria com a manutenção da liberdade de expressão na forma como está previsto na Constituição. Porém, em andamento o Seminário de Convergência de Mídias, que começa nesta terça-feira em Brasília, que preparará o terreno para outra tentativa de intervir nos meios de comunicação - segundo o ministro, com o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ninguém parece fazer diferença.

E, antes dele, a pérola da semana: a carta em que, em nome de Dilma, o tesoureiro do PT pede dinheiro à empresários para cobrir os gastos de campanha. Os detalhes vocês tem abaixo, também. E o máximo que se ouviu de indignação, nem foi de tucano, foi do Democratas, mas também ficou nisso. “Nem PC Farias, tesoureiro de Collor, seria capaz de fazer uma carta tão precisa no pedido e tão forte na ameaça”, foi o que declarou José Carlos Aleluia, DEM/BA, sobre a carta em que José de Filipi Jr. busca recursos para fechar as contas da campanha petista.

A capa da Folha de São Paulo, desta segunda feira, 8, estampava a seguinte manchete: Despesas com reservas supera gastos com obras. É grave? Claro que é: trata-se de um desperdício fruto de uma incorreção no elenco de prioridades econômicas capitaneado pelo atual governo. Quem da oposição disse um “ah” de assombro de protesto diante do inusitado? Silêncio total. E o governo ainda fala em ressuscitar a CPMF? Mas gasta aonde não precisava gastar.

A pergunta que não quer calar: diante destes episódios – e a notar, que Dilma ainda não assumiu – qual tem sido a reação do PSDB? Esta, conforme informa Lauro Jardim, em sua coluna Radar, na Veja online: a Executiva Nacional do PSDB se reunirá nos próximos dias para iniciar os debates sobre o futuro do partido. A cúpula tucana deve aproveitar a oportunidade para definir o tom que adotará no fim do mandato de Lula e na oposição ao governo Dilma Rousseff.

Líderes nordestinos de PSDB e DEM também têm comemorado a tendência de a figura de Lula perder força nas eleições de 2014. Na última campanha, diversos candidatos da oposição evitaram criticar um presidente carismático e popular para não perder votos. Na próxima disputa presidencial, no entanto, acreditam que conseguirão concentrar o debate nos problemas que o governo Dilma Rousseff tiver.

Ora, senhores, esta tal reunião já deveria ter se realizado no máximo três dias após a derrota nas urnas. Já deveriam ter escalado os próceres do partido que deveriam acompanhar passo a passo as medidas que estão em gestação pela equipe de transição, e serão o escopo do governo Dilma. E, diante dos balões de ensaio que vão sendo esparramados pela mídia, deveriam firmar posição e bater duro, gritar, espernear, fazer oposição cerrada todos os dias. Mas, “somente” nos próximos dias, é que “reunirão” para debater o futuro do partido. E daí? Quem fará oposição até que eles afinem o discurso entre si? A imprensa? Em Minas e São Paulo o PT, antes que os novos governadores assumam, já está de plantão e desenhando estratégias de atuação.

Em 2005, cometeu-se o mesmo grave erro: diante do mensalão, havia munição legal suficiente para abrir processo de impedimento do presidente. Qual foi a escolha? Apostar na sangria de Lula até as eleições de 2006. Resultado: deu-se a Lula a oportunidade e o tempo suficientes para dar a volta por cima e ainda vencer em 2006.

Assim, reparando-se nas atitudes dos tucanos, fica difícil entender onde pretendem chegar. E nem podem queixar-se de falta de apoio: a sociedade os consagrou no comando de 10 estados, e na eleição presidencial, concedeu-lhes mais de 40 milhões de votos, para que eles fizessem o seu papel. E qual foi a escolha do partido? A de continuar deitado em berço esplêndido. Neste ritmo, nem Dilma terá com que se preocupar, tampouco o candidato do partido em 2014, seja ela própria ou até mesmo Lula. Porque não imaginem os tucanos que o governo Dilma se desmanchará por obra e conta da natureza. O mesmo ritmo de mentiras e mistificações será empregado até com maior relevo.

Precisaria o PSDB trazer debaixo do braço o próprio legado do governo FHC do qual, inexplicavelmente, se afastou de 2002 para cá. E, ato contínuo, manter plantão permanente para ações tanto do governo Lula em seu final de mandato quanto já apresentar armas para as medidas que estão sendo discutidas para o governo Dilma. Deveria manter acesa a discussão em torno de questões em aberto do governo Lula e que precisam ser investigadas e exigir punição aos culpados. Não o que ser discutido como está sendo proposto. O tom a ser adotado é apenas e unicamente um: o de oposição. O resto é papo furado de quem ainda não se deu conta do papel importante delegado por grande parte da própria sociedade que querem representar.

Portanto, que saem imediatamente do marasmo em que se encontram deitados em berço esplêndido e partam para a luta. O que não lhes faltam, mesmo neste período de transição de Lula para Dilma, são armas e munição para o bom combate. Mas para usá-los, é preciso ter vontade de vencer.