terça-feira, novembro 09, 2010

O troco da Historia

Sebastião Nery

BRASILIA – Foi um dia muito maluco. Getulio acuado no Catete pela UDN militar, depois que amigos dele tentaram matar Lacerda e só acertaram o pé. Juscelino, governador de Minas, generoso e valente, resolveu fazer um gesto de solidariedade publica a Getulio. Convidou-o a ir a Belo Horizonte no dia 12 de abril de 1954 inaugurar a siderúrgica Mannesman. A UDN e o Partido Comunista ficaram histéricos.

Nós, universitários da Juventude Comunista,fomos com os colegas da UDN, tentar impedir que Getulio entrasse na cidade pelo centro, pela avenida Afonso Pena. Todos de lenço branco amarrado na boca até a praça da Feira de Amostras. O Guimarães, tio do atual deputado do PT mineiro Virgilio Guimarães, disse-me na escada da Faculdade de Direito:

- Nery, isso que vocês comunistas vão fazer é uma loucura. Que a UDN faça, tudo bem. Mas vocês estão engordando o golpe militar que vai derrubar Getulio e pôr vocês todos na cadeia.

Getulio
Ele foi o único a não sair. Ficou na escadaria protestando. Não havia um trabalhador, um operário. Só nós estudantes. Éramos centenas. Lotamos a praça da Feira. A policia nos cercou mas nos deixou ali. Quando Getulio apareceu vaiamos, e a comitiva, comandada por JK, entrou pela avenida Paraná, passou pela praça Raul Soares e seguiu para a Cidade Industrial.

Deixei de ser estudante e voltei a ser jornalista. Peguei um taxi e fui atrás. Queria ver e ouvir Getulio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que eu pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Quando começou a ler seu discurso, a voz forte, decidida mas tensa, tive tanta pena que quase lhe pedi perdão pelo lenço na boca de meia hora atrás. Deixou claro: só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : corajoso, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, contra o golpe. Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Juscelino
Terminada a cerimônia, foram para o palácio. Getulio, que pelo programa deveria voltar para o Rio, resolveu dormir em Minas. Gregório, preso no Catete, não foi com ele. A segurança dele ficou por conta de militares. Foi visto, ao amanhecer, ajoelhado na beira da cama, chorando.

De manhã, depois do café, Getulio todo pronto para viajar, com um charuto aceso na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar a ele. A mão miúda, gordinha, fria, úmida, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, fazia perguntas, mas com os olhos distantes de quem não estava mais ali,

Em nenhum momento sorriu. Entrou no carro sem olhar para trás

Suicidio
E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as grandes rádios (“Nacional”, “Tupy”, “Globo”) ficaram de plantão permanente. A “Nacional” do governo, a “Tupy” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

De madrugada, depois de receber o manifesto dos generais levado pelo ministro da Guerra Zenobio da Costa, Getulio desistiu de resistir, concordou em assinar uma licença, deu a caneta a Tancredo Neves, foi deitar-se já ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

-“Licença coisa nenhuma. Ele não voltará”.

Não voltou mesmo. Com um tiro no peito, ficou para sempre.

PC
Depois da madrugada jantando, ouvindo as rádios e um pianista cego, no “Columbia”, bar-restaurante de jornalistas depois de prontos os jornais, na avenida Paraná (o outro era o “Pólo Norte”, na Afonso Pena, ao lado do hotel Financial, onde eu morava), fui para o hotel dormir.

“Às 9 da manhã, batem na minha porta. Era Roberto Costa, dono da livraria “Oliveira e Costa”, e da direção do Partido Comunista em Minas :

- Acorda, companheiro. O velho Getulio acaba de se matar, às 8,30. Vamos buscar os trabalhadores na Cidade Industrial para protestar

- Mas não éramos contra ele, o partido não era contra?

- Agora não é mais. Deixou uma Carta Testamento maravilhosa, um documento revolucionário, denunciando o imperialismo americano.

- É o trôco da historia, Roberto. Há 17 anos, em 1937, ele deu o golpe. Agora deram contra ele. O poder para sempre é uma ilusão.

- Para de filosofar e vamos levantar o povo.

“A Nuvem”
Estou aqui em Brasília, onde vim lançar meu livro “A Nuvem – O Que Ficou do Que Passou”, já na 3ª edição (15 mil exemplares vendidos em poucos meses), depois de ter lançado em dez Estados. É o depoimento de um jornalista que viu e viveu os últimos 60 anos da historia do pais.

Incrível como se fala aqui nos “20 anos do Lulismo”, nos “20 anos de governo do PT”. São uns idiotas deslumbrados. Não conhecem a força da historia. Quarta-feira agora, 10 de novembro, fez exatamente 73 anos que Getulio deu seu golpe do Estado Novo, “para durar gerações”. Durou 8 anos, derrubado pelo Exercito em 45. Voltou em 50, foi suicidado em 54.

Lula não é Getulio, Dilma não é Chico Campos, José Dirceu não é Filinto Muller. Mas “quem não aprende com a historia paga caro por ela”.