domingo, agosto 11, 2013

8 retratos do pai moderno na publicidade

Mirela Portugal
Exame.com

Confira na galeria comerciais para rir e se emocionar no Dia dos Pais



Paizões

São Paulo - "Não basta ser pai. Tem que participar". Se as mães fazem mais barulho e movimentam mais o varejo, o Dia dos Pais também tem sua fatia de importância na publicidade. O clássico slogan da Gelol é um exemplo das excelentes campanhas criadas para celebrar a data.

De lá para cá, a representação da paternidade nos anúncios deixou de lado o estereótipo do homem que se dedica só ao trabalho. Mais afinados à modernidade, são retratados marinheiros de primeira viagem ou veteranos de alma sensível, conectados às tecnologias (claro), sem receio de serem emocionais ou sujar as mãos com algumas fraldas. Confira na galeria alguns comerciais recentes sobre os pais, para rir e se emocionar.

“Pai Não”, Boticário



Pais podem até não engravidar, fazer mil exames ou sentir desejo gastronômicos exóticos, mas facilmente ocupam o posto de coadjuvantes de luxo. No sensível comercial "Pai Não", da Almap BBDO para O Boticário, o destaque vai para as mudanças na vida de um recém iniciado na paternidade, que mergulha numa nova rotina tão intensa quanto emocional. O filme, que promove o Quasar, foi dirigido por Heitor Dhalia, da produtora Paranoid, conhecido por seus longas “À Deriva” e “O Cheiro do Ralo”.

 “New Dad”, Google



Mais um marinheiro de primeira viagem, o protagonista do comercial do Google para promover o Google Plus ganhou uma mãozinha da tecnologia para criar um inventário das emoções de ter um filho.

O filme conta a história de um homem jovem, moderno e conectado, que tirou muitas fotos do filho com o celular, mas esqueceu o aparelho dentro de um táxi. Para sua sorte, nada foi perdido, já que todas as imagens tiradas com o celular ficam salvas em seu perfil do G+. A peça é de 2012.

“Empurrãozinho de pai”, Itaú


Pais ocupados com o trabalho mas sempre com tempo para rituais simples mas significativos, como estar lá dando firmeza à quem aprende a andar de bicicleta. O empurrãozinho é o tema da campanha do Itaú criada pela Africa para o Dia dos Pais 2013. O vídeo é parte da campanha institucional “issomudaomundo”, também iniciada este ano, e que estimula pequenos hábitos para melhorar a vida.

“Pai é pai”, Sprite Light


Nenhuma palavra foi necessária nesse filme delicado que retrata o amor entre um pai e uma filha. Em 30 segundos, a rotina de ter uma menina a é contada com cenas cotidianas, acompanhada da música “To Love Somebody” na trilha sonora . A peça é de 2008.

“Pai que sua a camisa”, Protex



O filme criado para a marca Protex gira em torno da ideia de que pais também podem sentir afeto, beijar e abraçar. A peça mostra a rotina do piloto Rubens Barrichelo e seus dois filhos, Eduardo e Fernando. Numa versão estendida, um trecho destaca a trajetória biográfica do corredor, e principalmente a influência que o seu próprio pai teve no início da sua carreira. O vídeo foi criado pela Red Fuse / VML Brasil.

"Homenagem aos pais", Coca-Cola


O tocante filme, criado pela Santo de Buenos Aires para a Coca-Cola, usa cenas de um vídeo caseiro originalmente publicado por um usuário do YouTube.

O momento capturado pelo usuário mostra um pouco do que ele é capaz de fazer para deixar sua filha mais tranquila. “Para cada banqueiro especulador, um milhão de pais dão tudo que podem sem pedir nada em troca”, diz o slogan.

“Dad”, Volkswagen



Do dia em que leva sua filha para casa, seguido pelo passar acelerado dos anos, até o momento em que sua filha começa a dirigir. O protagonista do filme “Dad”, da Volkswagen, é um homem preocupado com segurança. E assim como os outros pais desta lista, é um pai presente e sensível. O filme foi criado para o Reino Unido.



Falta saber se o ET de Varginha crê no governo

Rolf  Kuntz
O Estado de S.Paulo

É quase uma crueldade pedir à presidente Dilma Rousseff a substituição do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sem ser almas irmãs, são pelo menos espíritos complementares. Ambos atribuem a alta da inflação nos primeiros meses deste ano à quebra da safra americana. Nenhuma relação com a demanda, disse recentemente o ministro. A presidente reafirmou a tese da seca nos Estados Unidos na quarta-feira, ao comentar triunfalmente o resultado de julho, uma alta de apenas 0,03% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Onde encontrar um parceiro tão adequado para esse dueto?

Talvez no Ministério da Educação, mas essa hipótese tem sido negada no Palácio do Planalto. Outra possibilidade seria chamar o ET de Varginha, merecedor do "maior respeito", segundo a presidente. Mas seria preciso saber, em primeiro lugar, se ele acredita na existência do governo instalado em Brasília ou se o considera mais uma alucinação coletiva ou produto da crendice popular. Mas todos esses detalhes, neste momento, são pouco importantes. Quarta-feira, esta é a grande notícia, foi um dia glorioso para a presidente e para Mantega.

A inflação, disseram os dois, está e sempre esteve sob controle, sem prejudicar a economia. O ministro, no entanto, foi mais cauteloso e admitiu aumentos de preços mais acelerados nos próximos meses - "como em todos os anos", segundo ele. Com a mesma prudência, evitou previsões mais detalhadas. Quando lhe perguntaram se a taxa acumulada no fim do ano será menor que a do ano passado, quase tirou o time de campo. "Não sei, provavelmente sim", foi a resposta registrada pela Agência Estado.

Sem a seca americana e com boa oferta de alimentos no Brasil, fica difícil entender essa hesitação. Talvez ele tenha lido, num momento de folga, as projeções de mercado mantidas no site do Banco Central (BC). Na sexta-feira de manhã o BC ainda registrava a estimativa para o mês de julho: 0,01%, um número pouco melhor que o divulgado oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números projetados para os meses seguintes crescem de forma quase contínua: 0,26% em agosto, 0,43% em setembro, 0,55% em outubro, 0,55% em novembro e 0,67% em dezembro.

Para o ano a série indica uma alta acumulada de 5,72%, bem pouco inferior à do ano passado, 5,84%. Talvez se possa falar em convergência para a meta, de 4,5%, mas o avanço é lento e, nesse ritmo, o percurso dificilmente será concluído nos 12 meses seguintes.

Mas o governo parece continuar satisfeito com acumulados anuais abaixo de 6,5%. Sua meta efetiva é qualquer ponto na faixa de 4,5% a 6,5%, um detalhe traído mais de uma vez pelo próprio ministro em suas declarações. Politicamente é este o ponto mais importante: a inflação estará "bastante sob controle", segundo a linguagem presidencial, enquanto as taxas de 12 meses ficarem nessa área. O "compromisso com a estabilidade", mencionado mais uma vez pela presidente na quarta-feira, tem como referência esse limite.

É um compromisso frouxo, próprio de quem pouco se incomoda com a alta persistente dos preços. Em dez anos, uma inflação anual média de 4,5% resulta numa taxa acumulada de 55,3%. Uma inflação de 2,5%, mais próxima das metas adotadas nos países desenvolvidos e em vários emergentes, produziria uma alta de preços de 28% no mesmo período. Uma das consequências seria um considerável desajuste cambial no País com taxa mais elevada.

O ministro Mantega falou muitas vezes em guerra cambial, nos últimos cinco anos. A presidente Dilma Rousseff acusou os governos dos países desenvolvidos de criarem um tsunami monetário e com isso afetarem o câmbio e o poder de competição dos emergentes. Ambos seriam muito mais realistas, e mais eficientes na política econômica, se dessem mais atenção à diferença entre as taxas de inflação no Brasil e em outros países.

Mas isso parece muito improvável. As pressões inflacionárias, segundo o governo, vêm de fora, juntamente com a crise causadora, também segundo a versão do Planalto, da estagnação brasileira. Além disso, a meta de 4,5% foi estendida até 2015, com a margem de tolerância de 2 pontos para mais ou para menos (na prática, para mais). Um resultado anual de 6,4% continuará sendo alardeado como prova do compromisso com a estabilidade.

Tudo isso combina perfeitamente com o desleixo fiscal. Como os truques de maquiagem estão cada vez mais evidentes, o governo tem desistido, com jeito de criança flagrada em molecagem, de alguns expedientes escandalosos, como a antecipação de recebíveis da Itaipu Binacional. É cada vez mais difícil encontrar meios para entregar no fim do ano um superávit primário de 2,3% do produto interno bruto, já bem menor que a meta inicial de 3,1%. Enquanto isso, continua a política fiscal expansionista apontada mais de uma vez pelo pessoal do BC nas avaliações dos fatores inflacionários.

Sem melhora na gestão das finanças públicas - nem corte de gastos, nem aumento da eficiência no uso do dinheiro -, mantém-se uma das causas principais do desarranjo dos preços. As possíveis pressões derivadas do aumento do dólar apenas complicarão um quadro já bastante ruim.

A tarefa de frear a inflação continuará entregue aos formuladores da política monetária. Nenhum diretor do BC entenderá a taxa de 0,03% de julho, explicável basicamente pela redução política das tarifas de transportes e pelo recuo temporário dos preços dos alimentos, como um sinal de vitória. Muito mais fácil será declarar respeito ao ET de Varginha e abrir licitação para um ufódromo. Uma nova estatal poderá cuidar do assunto. Em cinco anos as obras estarão incompletas, talvez nem começadas, mas o orçamento terá aumentado barbaramente.

Vale a aposta

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

O caro leitor acredita que a denúncia de formação de cartel para superfaturar equipamentos do Metrô paulistano (e, eventualmente, de outros metrôs e trens de transporte urbano espalhados pelo país) será investigada a fundo, com seriedade? Este colunista aposta uma gravação de The Sound of Silence, com Simon e Garfunkel, contra o Blowin’ in the Wind, versão Eduardo Suplicy, como não será.

O Brasil é um país curioso. Já condenou um intermediário de distribuição de propina, PC Farias, sem identificar nem os pagadores nem os recebedores. Já condenou um grupo de políticos e empresários no caso do Mensalão, em última instância, mas a última instância aqui não é a última, porque cabe recurso. Por que não criticar duramente os corruptores (sem, naturalmente, puni-los) e deixar de lado a investigação a respeito dos corrompidos? Esse tipo de investigação é tão brasileiro quanto a feijoada, a goiabada com queijo e a pizza à portuguesa.

E, cá entre nós, quem vai atirar a primeira pedra? Alguns mamutes empresariais são os grandes financiadores de campanha dos maiores partidos; e os partidos que não recebem se calam, à espera de sua hora de glória. Há algum tempo, uma operação da Polícia Federal acertou o centro do alvo: descobriu-se quem pagava e quem recebia. Mas, por falta de informações, todos saíram ilesos. Construções de areia são frágeis na praia. Na vida real, são uma fortaleza, um sólido castelo. 

Petistas e tucanos vão se xingar, uns acusando os outros. Mas sabem que investigação em excesso, como remédio em excesso, faz mal para todos eles.

Internacional, e daí?
O caro leitor também não deve se impressionar muito com a corrupção investigada no Exterior. A Suíça provou que dirigentes da FIFA receberam propinas milionárias, mas não aconteceu nada porque isso não era ilegal. O máximo que aconteceu foi a antecipação da aposentadoria para dirigentes com mais de 80 anos de idade (antes, quem decidia a data da aposentadoria era uma Vontade mais alta). Os demais continuam por lá, mandando muito. 

Bernie Ecclestone, da Fórmula 1, enfrenta acusações pesadas. E continua lá, mandando muito, aos 82 anos. Talvez ele também se aposente. De qualquer forma, a punição é mais severa que a brasileira. Aqui o pessoal metido em bandalheiras nem aposentado é.

O risco nacional
De acordo com a Justiça alemã, a Siemens pagou 8 milhões de euros, menos de R$ 25 milhões, a funcionários públicos brasileiros.

O risco que esses funcionários correm é de ser punidos por dumping: cobraram abaixo do mercado.

Batata quente
A decisão do Supremo Tribunal Federal, de ordenar a prisão do senador Ivo Cassol (PP de Roraima) sem cassar seu mandato, deixando que o Senado cuide disso, é esquisita: abre campo para que um parlamentar se mantenha no posto, mesmo na cadeia. Mais: o ficha-suja não pode se candidatar, mas mesmo condenado e preso pode manter o mandato. 

Talvez seja um ato de astúcia política do Supremo: se o Senado não se mexer, a situação esdrúxula poderá provocar revolta na opinião pública. O Senado terá de assumir a responsabilidade de afastá-lo.

É coisa nossa
Esta coluna, hoje, trata apenas de peculiaridades brasileiras. Por exemplo, a Polícia Federal entrou na casa de Sérgio Nogueira Seabra para uma busca e apreensão. O detalhe é que Sérgio Nogueira Seabra é secretário de Prevenção da Corrupção e Informações Estratégicas da Controladoria-Geral da União, CGU. 

É notável: é a Polícia querendo recolher provas de corrupção na residência do responsável pela Prevenção da Corrupção de uma entidade cuja função específica é verificar se os altos funcionários do Governo andam na linha. O ministro-chefe da CGU, Jorge Hage, nem esperou o resultado da ação: diz que Seabra é inocente.

Mais coisa nossa
E a entrega dos dados do Tribunal Superior Eleitoral a uma empresa privada, a Serasa, controlada por um grupo estrangeiro, a Experian? Ninguém sabia de nada! O convênio prevê a entrega à Serasa-Experian dos dados de 140 milhões de eleitores brasileiros. A presidente do TSE, ministra Carmen Lúcia, suspendeu o convênio até que seja examinado pela Corte - o que indica que não tinha sido examinado, e que a presidente do tribunal ou não sabia do que se tratava ou achava que tudo bem, mas de repente a má repercussão fez soar o alerta. 

De qualquer modo, houve uma mudança importante nas circunstâncias, o que talvez torne o convênio impossível: essas coisas valem só quando ninguém sabe delas.

No meio da rua
Mas, pensando bem, essas coisas já existem faz tempo, todo mundo sabe delas e ninguém se mexe. No centro de São Paulo, especialmente na rua Santa Efigênia, compra-se por R$ 30,00 um CD que traz informações cadastrais de centenas de milhares de pessoas. 

Devem ser informações verdadeiras. Fazer uma lista de informações falsas só para vender nos camelôs custaria caríssimo.

Antes da hora
Mais coisas estranhas? O indiciamento do vereador paulistano Andréa Matarazzo, do PSDB, no caso Siemens. 

O caso ocorreu antes que ele fosse secretário.

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

Tempos interessantes

Sandro Vaia
Blog do Noblat

"Que você viva tempos interessantes”.

Essa antiga maldição chinesa é explicada assim pelo engenheiro Demi Getschko, um dos pioneiros da internet no Brasil:

“Ao que se diz, os antigos sábios chineses consideravam a estabilidade dos tempos o melhor ambiente para a evolução do pensamento, para o seguimento calmo da vida, para se obter a felicidade em terra. Assim. desejar “tempos interessantes” a alguém significaria profetizar tribulações, agitação, mudanças, dificuldades de enraizamento e falta de tranquilidade e de paz. Em resumo, tempos difíceis, fluídos e perigosos”.

Foi por isso que o historiador inglês Eric Hobsbawm deu o título de “Tempos Interessantes” à autobiografia onde relata sua inserção nos fatos que abalaram o mundo entre as duas grandes guerras.

Nossos tempos interessantes incluem turbulências que envolvem o jornalismo e os dias políticos que o País vive.

Parece não haver nada de comum entre os dois fenômenos, mas no mesmo momento em que, como diz a revista eletrônica norte-americana Salon “o Iceberg comprou o Titanic” (referindo-se á compra do jornal Washington Post pelo empresário Jeff Bezzos, fundador da Amazon), um “coletivo” alternativo chamado Midia Ninja, ganha espaço na mídia tradicional como um exemplo da emergência de uma nova forma de jornalismo que veio para transformar o mundo.

Ninja, palavra formada pelas iniciais do “coletivo” Narrativa Independente Jornalismo e Ação, um grupo alegadamente apartidário (mas que circunstancialmente é capaz de comprovar que “non tropo”), tornou-se célebre nas coberturas dos protestos de rua e foi saudada no mínimo como uma intrigante tendência revolucionária destinada a estabelecer novos padrões para a indústria da informação em dolorosa transição do processo analógico para o digital.

Revoluções para todo lado. A “crise narrativa” da velha mídia, foi penosamente descrita por Capilé e Bruno Torturra, os líderes inspiradores do Ninja no programa “Roda Viva”.

Eles não conseguiram narrar claramente nem o que seriam as “multiparcialidades” nem como funciona o seu mecanismo de financiamento, e deixaram claro que o dinheiro público seria bem recebido, já que a velha mídia também o recebe. ( Substituiriam talvez o critério de audiência pelo do merecimento?)

Coincidência ou não, na mesma semana, a velha mídia atirou-se com tenacidade a deslindar os meandros de um suposto cartel denunciado pela Siemens nas concorrências para o metrô de São Paulo em governos do PSDB e que está sendo investigado pelo CADE, pelo MP e pela PF.

Nada a opor à dedicação da velha mídia.É seu dever empenhar-se na tentativa de esclarecimento do caso, embora seu ímpeto investigativo,como sempre, se limite a transcrever informações vazadas.

Mas isso não justifica o deslizamento de sentido, que levou um dos jornais – a Folha - a publicar uma manchete lançando uma acusação sobre um nome importante da oposição, José Serra, que é desmentida em um dos parágrafos do próprio texto; a reportagem diz que “os documentos examinados (pelo jornal) não contém indícios contra José Serra”.

Crise narrativa ou tempos interessantes?

Um foro anacrônico

O Estado de S.Paulo

O Foro de São Paulo, que realizou seu 19.º encontro de 31 de julho a 4 de agosto na capital paulista, é uma organização latino-americana fundada por Luiz Inácio Lula da Silva, por inspiração de Fidel Castro, em 1990, quando o ex-presidente brasileiro ainda era tido como político de esquerda. De lá para cá muita coisa mudou no panorama continental, inclusive o então incendiário líder sindical que veio a se tornar presidente da República.

Mas o Foro de São Paulo permanece o mesmo, tal e qual, fiel a uma histórica vocação "anti-imperialista" e ao propósito difuso de "promover a integração econômica, política e cultural da região", com base numa retórica populista e no modelo estatizante que hoje impera na maior parte dos países que integram o grupo.

Não por coincidência, são esses os países, como Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina, que, a exemplo do Brasil, exibem o pior desempenho econômico no continente, em contraste com o dos integrantes da Aliança do Pacífico - México, Colômbia, Peru, Chile e, mais recentemente, Costa Rica - que colhem os resultados positivos de suas bem-sucedidas políticas de integração na economia global.

A ideia-força, hoje mais do que nunca anacrônica, que inspirou a criação do Foro de São Paulo, durante uma visita de Fidel Castro a Lula em São Bernardo do Campo 23 anos atrás, era promover o debate, entre as forças de esquerda da América Latina, sobre as consequências políticas da então recente queda do Muro de Berlim e elaborar estratégias para combater o "neoliberalismo" que "ameaçava" dominar a comunidade latino-americana.

E, por causa do ditador cubano, ganhou destaque na pauta de discussões do Foro a luta "anti-imperialista" focada no combate ao embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba.

O marco inicial do movimento foi a "Declaração de São Paulo", aprovada no final do primeiro encontro. É um documento muito significativo, menos pelas boas intenções proclamadas e mais pela constatação, na perspectiva de mais de 20 anos, de que seus objetivos estão muito longe de ser alcançados: "vontade comum de renovar o pensamento de esquerda e o socialismo, de reafirmar seu caráter emancipador, corrigir concepções errôneas, superar toda expressão de burocratismo e toda ausência de uma verdadeira democracia social e de massas".

Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e até mesmo, cada vez mais, a Argentina são hoje exemplos da estratificação de um "pensamento de esquerda" anacrônico.

Todos padecem de um burocratismo do aparelho estatal semelhante ao que levou à falência a União Soviética e seus satélites. E cada um deles amarga a frustração da falta de qualquer perspectiva de conquistar uma "verdadeira democracia social e de massas".

Em 1990, cerca de 50 partidos políticos, organizações não governamentais e frentes de esquerda de vários países latino-americanos e caribenhos atenderam ao convite feito pelo Partido dos Trabalhadores e aderiram à iniciativa. Hoje são mais de 80, de cerca de 20 países.

A partir da virada do século, quando Lula e o PT já estavam empenhados em atualizar o discurso para conquistar o poder no Brasil, a influência de ambos no Foro foi diminuindo na mesma medida em que crescia a do coronel Hugo Chávez e do seu socialismo "bolivariano". Não faltaram, assim, durante o encontro, generosas referências ao "legado político e ideológico do pensamento e da ação do comandante Hugo Chávez".

As intervenções dos principais representantes brasileiros no Foro, Lula e sua pupila Dilma Rousseff, foram dedicadas especialmente à tentativa de reverter a favor do lulopetismo as recentes manifestações populares contra a corrupção e por serviços públicos mais eficientes.

O argumento é singelo: como a vida dos brasileiros melhorou muito nos últimos 10 anos e meio de governo petista, a população, especialmente os jovens, tende naturalmente a pedir mais. E o governo, é claro, está atento ao clamor das ruas. Todo mundo aplaudiu e, após cinco dias de convescote, voltaram todos para casa com a satisfação do dever cumprido.

Festejando o atraso

Cristovam Buarque
O Globo

A Educação puxou para baixo nosso indicador de bem-estar social

Nestas duas últimas semanas, além do Messi, dois argentinos estiveram no noticiário brasileiro: o Papa Francisco e o representante das Nações Unidas no Brasil, Jorge Chediek. Há uma correlação nestas duas presenças: o primeiro por defender, entre outras coisas, uma economia mais solidária e humanista; o segundo, porque, como coordenador-residente do Sistema ONU no Brasil e representante-residente do Pnud, apresentou os resultados da evolução do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) entre 1991 e 2010 no Brasil. Este indicador mostra uma melhora no quadro social brasileiro e também o nosso atraso e desigualdade. Mostra, sobretudo, como avançamos devagar nos objetivos aos quais deveríamos nos propor como Nação, especialmente na educação.

O IDH é certamente uma das maiores contribuições ao pensamento social no século XX. Até ele, o mundo moderno utilizava apenas o PIB como indicador de progresso e do avanço social. Concebido pelos economistas Mahbub ul Haq e Amartya Sen e publicado pela primeira vez em 1990, e atualmente coordenado pelo economista Khalid Malik, o IDH permitiu reorientar a visão do desenvolvimento para além da análise do crescimento da produção e da renda. Passou a incorporar também objetivos sociais.

Quando surgiu, o IDH foi esnobado pelos economistas e considerado devaneio pouco científico. Na verdade, o IDH é tão pouco científico, quando comparado com um termômetro, quanto é o PIB. Afinal, se é pouco científico somar renda com saúde e educação como faz a metodologia do IDH, também é pouco científico somar comida com armas e ainda mais considerar como positiva a destruição de florestas ou a produção e venda de armas, como faz o cálculo do PIB.

O IDH dá um passo adiante ao PIB por levar em conta o estado da educação e da saúde, ao lado da renda, para medir o desenvolvimento humano de uma sociedade. De acordo com os dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013 e os dados de Contas Nacionais do IBGE, entre 2000 e 2010, o PIB brasileiro cresceu, a preços constantes, 1,43% e o PIB per capita 1,26%. Por sua vez, o IDH cresceu 1,19% no mesmo período. Isso mostra que ficamos mais ricos em renda do que melhoramos em termos de desenvolvimento humano. Só esta constatação já seria suficiente para justificar o cálculo e o uso do IDH.

Uma análise mais cuidadosa do IDH-M mostra que nossa melhora não foi mais acentuada por causa da educação, que puxou para baixo nosso indicador de bem-estar social. Ainda mais grave, a melhora em educação se deu graças ao aumento no número de matrículas e não graças a uma melhoria na qualidade da nossa educação: apenas cinco cidades, uma em cada 1.000, obtiveram IDH-M-Dimensão Educação “muito alto” (acima de 0,799), e quase 30% das cidades tiveram nota inferior a 0,500 (“muito baixo”) em educação.

Isto mostra o nosso atraso e a desigualdade como a educação é oferecida. E, sobretudo, reforça o atraso ao vermos muitos comemorando avanços tão tímidos.

No final da fila

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo

O Brasil tem uma das piores situações no ranking de infraestrutura de transportes do mundo

O grande drama da economia brasileira nos últimos tempos é o baixo crescimento dos investimentos. Investir expande a capacidade de produção do País, além de aumentar a produtividade, crucial para o crescimento do PIB. É só ver o progresso econômico chinês das últimas décadas. Em contraste, prevalece no Brasil o modelo de expansão do consumo, que não consegue mais puxar a carruagem sozinho.

Durante alguns anos, os investimentos subiram acima do PIB. Mas, da crise do subprime para cá, não crescem mais do que ele. Resultado: tendência de crescimento do PIB abaixo do desempenho recente e da média dos emergentes. Há excesso de interferência do governo em vários segmentos da economia, o que obviamente afugenta investidores. Mas tomemos o caso dos transportes, uma prioridade sobre a qual não há dúvida. Eles são parte do setor de serviços, um claro beneficiário do modelo pró-consumo – na ausência de concorrentes externos -, mas cuja expansão, por suas características próprias, depende fundamentalmente da ação governamental. Aqui, não se trata de muita interferência, mas de interferência inadequada.

O Brasil tem uma das piores situações no ranking de infraestrutura de transportes do mundo. Segundo o Fórum Econômico Mundial, é o 107.º pior entre 144 países. Do lado do governo, o problema é que o modelo político em vigor desde a Constituição de 1988 privilegia, na União, pagamentos a pessoas, em detrimento de investimentos. Tanto que, em 2012, os recursos para investimentos em transportes representaram só 1,3% do gasto total.

Diante da baixa disposição política para reformar o sistema de pagamentos a pessoas, projeta-se uma situação duplamente mais onerosa para os contribuintes nos próximos 40 anos. Seja porque o sistema é excessivamente concessivo, seja pelo rápido envelhecimento da população. Os gastos em saúde devem também crescer muito.

A hipótese da concessão de serviços públicos ao setor privado é a única saída à vista para os segmentos em que a rentabilidade é atrativa. Isso vem sendo tentado, mas enfrenta enorme resistência política. Sem falar na conhecida incapacidade de gestão do governo não só para executar obras, como para administrar concessões. Políticos relevantes se insurgem contra a cobrança por serviços públicos de baixa qualidade, mas não fazem nenhum esforço para ajustar a grande folha de pagamento que o governo administra. No fim, é a sociedade quem paga pelo baixo crescimento do PIB. O movimento em favor da emenda constitucional do “orçamento impositivo” no Congresso não passa de mera busca de um carimbo aplicado a uma cota mínima de gastos para cada parlamentar patrocinar, sem tocar na raiz do problema.

Quanto à indústria de transformação, fica cada vez mais clara a incompatibilidade da expansão de boa parte de seus componentes com o modelo de rápido crescimento do consumo. Por esse modelo, sobe também rapidamente a demanda por serviços e, em seguida, aumentam os salários no setor e os respectivos preços recebidos. Sem a mesma proteção natural – um mercado sem competidores – que os serviços têm em relação à competição externa, a indústria local cede gradualmente espaço às importações, à medida que sobe o custo unitário do trabalho (salários em dólares divididos pela produtividade da mão de obra), também pressionado pela tendência inevitável à apreciação cambial real, implícita no modelo pró-consumo. Assim crescem menos sua produção e os investimentos, a despeito da depreciação forçada do real de 2012 e do realinhamento cambial que ora se verifica no mundo.

Já os investimentos em commodities dependem dos preços externos e das condições locais da infraestrutura de transportes – caóticas, como se vê -, à espera, também, de uma mudança de comportamento do País em favor de sua melhoria. Portanto, interferência em excesso (incluindo a cara e excessiva proteção à indústria) e falta de prioridade para a infraestrutura são problemas-chave que deveriam ocupar as mentes governamentais.

Sem margem de manobra

Míriam Leitão  
O Globo

Alguns países vizinhos estão com a inflação na meta ou abaixo da meta e, por isso, enfrentam esse período de alta do dólar baixando os juros e permitindo a desvalorização cambial. O Brasil entrou nesse choque externo, da mudança do fluxo de capitais, sem espaço para isso por causa da inflação elevada. Essa é a avaliação de Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Ele acaba de voltar de uma viagem ao Chile e conta que o país está com 2% de inflação, abaixo da meta de 3%. O México, que passou por um período acima da meta, está agora com a taxa convergindo para o centro e lá o espaço de flutuação é de 2% a 4%. A Colômbia está com inflação abaixo da meta; e o Peru, com a taxa em 2%.

— O que mais me preocupa agora é que o Brasil está entrando num período de choque externo sem margem de manobra para a política monetária, por causa da inflação alta.

Por choque externo ele define os primeiros indícios emitidos pelo Federal Reserve de mudança da política de expansionismo fiscal. Ele vai deixar de comprar US$ 85 bilhões por mês de títulos, operação pela qual ele jogava mais dinheiro no mercado. Com o fim dessa política, a tendência é de fortalecimento do dólar. Como o mercado sempre antecipa o movimento, as moedas já estão perdendo valor em relação ao dólar, porque o fluxo de capitais começou a se inverter. Está indo mais dinheiro para os Estados Unidos, saindo dos mercados emergentes.

— Em momentos assim, o ideal é ter espaço para deixar a moeda se desvalorizar. Isso normalmente produz um pouco de inflação, mas se a taxa estiver baixa não há problema. Em compensação, se tem um aumento da competitividade das exportações pela alta do dólar — diz Ilan.

Como o Brasil chegou nesse momento com uma inflação em torno de 6% a 6,5%, está sem espaço para fazer essa política de ajuste.

— México e Chile estão pensando em baixar juros, ninguém está subindo juros, exceto o Brasil, exatamente porque é apanhado neste momento com a inflação alta demais — diz Ilan.

Isso sem falar em outros problemas, como o da gasolina. Porque o governo eliminou a Cide, que era o colchão que amortecia as altas do petróleo e do dólar, todo o custo da desvalorização está sendo pago pela Petrobras, que está importando gasolina a um preço maior do que pode revender às distribuidoras no Brasil. O rombo da Petrobras por causa disso, e pelo adiamento do registro de importações do ano passado, já é de US$ 15 bilhões.

Com isso, o Banco Central não apenas está subindo os juros, como está intervindo quase diariamente no mercado cambial, vendendo contratos futuros de dólar para evitar a apreciação forte da moeda americana que acabe impactando mais a inflação.

O risco Brasil medido pelo CDS — a compra de seguro contra a dívida brasileira — aumentou. O mercado internacional já começa a colocar no preço o risco de um rebaixamento do Brasil. Ilan disse que isso seria preocupante, se estivesse próximo de o Brasil deixar de ser considerado grau de investimento, mas não há essa perspectiva no momento.

— O Brasil está dois níveis acima do ponto em que é considerado grau de investimento (em que a dívida de um país é recomendada como bom investimento). Das três agências de risco, a Standard & Poor´s colocou o Brasil em perspectiva negativa, indicando que pode rebaixar; a Moody´s está com perspectiva positiva; e a Fitch está neutra. Mesmo se for rebaixado, continuará sendo grau de investimento — diz Ilan.

De fato, a perspectiva de perder essa classificação é remota, mas qualquer rebaixamento não será um bom evento. Aumentará o pessimismo em relação ao Brasil num momento em que os capitais estão saindo dos mercados emergentes.

Dilma insiste na ilusão e diz que queda da inflação "é uma maravilha"

Veja online
Com agência Reuters

Em evento em Brasília, presidente evitou falar a jornalistas sobre adiamento do leilão do trem-bala e elogiou a queda do IPCA

 (Evaristo Sa/AFP) 
Em reunião realizada na noite de terça-feira, no Palácio do Planalto, Dilma disse que,
se o governo não conseguir mobilizar mais empresas, o leilão do trem-bala, 
previsto para setembro, não será realizado.

A presidente Dilma Rousseff voltou a comemorar nesta quinta-feira o resultado da inflação oficial de julho. Ela disse que a desaceleração da alta dos preços "é uma maravilha". A rápida declaração foi dada pela presidente após a cerimônia em que foi apresentada aos novos oficiais generais das Forças Armadas.

Na manhã de quarta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial. Assim como esperado pelo mercado, devido a questões de sazonalidade, a escalada dos preços arrefeceu em julho e o indicador desacelerou para 0,03% no mês passado. Com o resultado mensal, o IPCA acumula alta de 6,27% nos últimos dois meses e volta a ficar abaixo do teto da meta de inflação do governo, de 6,5%.

Na quarta, Dilma disse em entrevista a rádios de Minas Gerais que o compromisso de seu governo com o combate à inflação e com a estabilidade econômica se mostram "na prática".

A alta da inflação foi um dos motivos que levaram à queda da popularidade de Dilma, que se agravou depois das manifestações que tomaram as ruas do país em junho, chegando a levar mais de 1 milhão de pessoas a protestar em um só dia.

Desviando o assunto — 
"A queda da inflação é uma maravilha", gritou Dilma aos jornalistas enquanto deixava o evento, no Palácio do Planalto, em resposta aos questionamentos dos repórteres sobre a possibilidade do adiamento do leilão do trem de alta velocidade (TAV), o trem-bala, marcado para setembro.

Em reunião realizada na noite de terça-feira, no Palácio do Planalto, Dilma disse que, se o governo não conseguir mobilizar mais empresas, o leilão do trem-bala, previsto para setembro, não será realizado. 

Diante da insistência dos jornalistas sobre a possibilidade de adiamento do leilão, Dilma voltou a evitar o assunto e respondeu: "A cesta básica é mais importante."

Terceirizar sem aviltar

Celso Ming  
O Estado de S.Paulo

Ao menos 1 a cada 4 dos 40 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil é terceirizado (veja o Entenda), ou seja, é contratado por uma das 33 mil empresas intermediárias que prestam serviços para outras. São, respectivamente, dados do Ministério do Trabalho e do Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros do Estado de São Paulo (Sindeprestem).

É um segmento que compunha em 2011 uma massa salarial de R$ 22,8 bilhões. Mas ainda não é regulamentado por lei. Sua única diretriz é a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que não permite a terceirização das chamadas atividades-fim - ligadas à função principal (core business) das empresas. Só podem ser terceirizadas as atividades-meio. Por essa regra, uma empresa de segurança não pode contratar outra empresa para atividades de segurança, mas pode contratar empresa que execute faxina.

Um passo para a regulamentação pode ser dado nesta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados, que examinará o Projeto de Lei 4.330/04, que permite a terceirização, desde que a contratada seja especializada no serviço.

O texto substitui os conceitos de atividade-meio e atividade-fim pelo de especialização. A partir daí, as empresas de terceirização deverão ter um único objeto social. "Assim, vamos acabar com a mera intermediação da mão de obra", avisa o deputado federal Arthur Maia (PMDB-BA), relator do projeto.

Se o projeto de lei for aprovado, grande número de fornecedores de "serviços de apoio", que terceirizam de uma só vez funcionários para limpeza, jardinagem, segurança, instalações elétricas, etc., terão de rever sua faixa de atuação ou sair do mercado. Mas pouca coisa deve mudar para empresas consolidadas em seus segmentos, como é o caso da Atento, uma das líderes do setor de teleatendimento no Brasil, que atua em 16 países.

As centrais sindicais temem a perda de direitos já adquiridos do trabalhador e piora das condições de trabalho. O deputado Arthur Maia argumenta que "o projeto impõe exigências que, se aprovadas, excluirão as empresas precárias do mercado. Não é um 'liberou geral'; haverá garantias para o trabalhador".

A especialista Claudia Viegas, da LCA Consultores, observa que, entre os principais objetivos da especialização e da divisão do trabalho, estão a redução de custos e o aumento das margens de lucro, obtidos, assim, por maior eficiência operacional e não mais por condições precárias de trabalho. "As inovações se propagam mais rapidamente nas empresas especializadas e é nesse ponto que a terceirização traz ganhos de escala".

Pesquisa da LCA Consultores mostra que os empregos terceirizados respondem pelo maior avanço dos postos de trabalho formais, sobretudo no Norte e Nordeste do País .

"A necessidade de terceirização vem da maior complexidade da cadeia e da exigência por mais especialização", argumenta Claudia. Mas falta segurança jurídica ao sistema e isso só será possível com uma regulamentação que leve todos os envolvidos a um consenso. 

Colaborou Danielle Villela

IPCA: bom, mas nem tanto

Armando Castelar Pinheiro
O Globo

Um dia as tarifas de ônibus e metrô e o preço da gasolina vão ter de subir. E não vai ser pouco

O IPCA de julho não surpreendeu, vindo dentro da expectativa. Isso não altera o fato de que foi muito bom: 0,03% de alta, contra taxa média de 0,52% na primeira metade do ano. A proporção de preços em alta também caiu, para 58%, contra pico de 73% em fevereiro.

Infelizmente, porém, isso não diminui o perigo que a alta inflação representa. Não só por esta ter ficado em 6,3% em 12 meses, como pela transitoriedade dos fatores que a puxaram para baixo em julho. Foram três esses fatores: a sazonalidade favorável, a queda do preço dos alimentos, e a reversão do reajuste das tarifas de transporte público.

Na média dos últimos quatro anos, a inflação de julho ficou 0,25 ponto percentual abaixo da média do ano. Ou seja, tudo mais igual, a inflação vai subir no resto do ano. A queda dos preços dos alimentos subtraiu 0,08 ponto percentual da inflação de julho. Apesar disso, esses aumentaram 11,4% em 12 meses. Ainda há espaço para novas quedas nesse item à frente. Mais improvável é a repetição da deflação de gastos com transportes, que tirou 0,13 ponto percentual do IPCA.

Considerando apenas estes fatores, seria razoável esperar que o IPCA subisse pouco mais de 0,4% ao mês no resto de 2013. Assim, aumentaria 5,5% no ano, abaixo dos 5,84% de 2012, como é a meta do Banco Central. Estaria aberto o caminho para continuar reduzindo a alta do IPCA em 2014-15 até perto da meta oficial, ainda que meio esquecida, de 4,5% ao ano. Infelizmente, a realidade não tende a ser assim tão linear.
O enfraquecimento do mercado de trabalho joga a favor. A taxa de desemprego já subiu em junho e deve aumentar mais no resto do ano e em 2014. Com isso, o rendimento dos trabalhadores vai ter dificuldade de acompanhar a inflação. O salário mínimo em 2014 também vai subir menos que nos últimos anos, algo entre 6,5% e 7%.

Isso moderará a alta dos preços dos “não comercializáveis”, que nos últimos quatro anos subiram em média 8% ao ano. Essa desaceleração tende a ser, porém, bem gradual, pois as expectativas de inflação estão muito desancoradas. Para trazer a inflação para a meta, seria preciso manter o desemprego alto por muito tempo. Analistas de mercado não acreditam nisso e projetam para 2017, quatro anos à frente, uma alta do IPCA de 5,5%.

A alta do dólar, por outro lado, joga contra. Com o esfriamento da economia, o impacto do câmbio sobre os preços será moderado. Mas ele vai acontecer, mesmo que aos poucos. Além disso, é provável que o dólar suba mais conforme avance a normalização da política monetária americana. A ver.

Mais importante, porém, é que a inflação vem sendo puxada para baixo por fatores insustentáveis a médio prazo. Nos últimos 12 meses, os preços de transporte subiram apenas 2,2%, menos de um terço dos demais preços. Nos últimos quatro anos, os preços monitorados aumentaram apenas 3,6% ao ano. Para conseguir isso, o governo vem gastando dezenas de bilhões de reais, entre subsídios à eletricidade e perdas da Petrobras. Um dia as tarifas de ônibus e metrô e o preço da gasolina vão ter de subir. E não vai ser pouco. Não vai acontecer este ano ou em 2014, mas também não se pode esperar muito mais.

Entrada de dólares no Brasil cai 65% em 2013, para US$ 8,59 bi

Veja online
Com Estadão Conteúdo

Em julho, a saída de dólares do país superou a entrada em 1,447 bilhão de dólares, informou o Banco Central

(Laszlo Balogh/Reuters) 
Fluxo cambial foi divulgado nesta quarta pelo Banco Central 

A saída de dólares do país superou a entrada em 1,447 bilhão de dólares em julho, informou o Banco Central nesta quarta-feira. Contudo, o resultado negativo veio menor do que o registrado em junho, quando a saída da moeda norte-americana superou a entrada em 2,636 bilhões de dólares.

No acumulado do ano até o dia 2 de agosto, o fluxo cambial está positivo em 8,597 bilhões de dólares - com saída de 7,969 bilhões de dólares no segmento financeiro e entrada de 16,566 bilhões de dólares no comercial -, uma queda de 65% em relação ao resultado do ano passado. Em igual período de 2012, o fluxo era maior, estava positivo em 24,442 bilhões de dólares, com entrada de 4,595 bilhões de dólares no segmento financeiro e de 19,847 bilhões de dólares, no comercial.  

No segmento financeiro (que inclui investimentos estrangeiros e remessas de lucros, entre outras operações), o saldo ficou negativo em 1,335 bilhão de dólares em julho, resultado negativo menor do que os 771 milhões negativos registrados em junho. O número é a diferença entre a entrada de 40,507 bilhões de dólares e a saída de 41,842 bilhões de dólares, no mês passado.

As operações comerciais também ficaram negativas em 111 milhões de dólares no mês passado, déficit menor do que o resultado negativo de 1,865 bilhão de dólares no mês passado. No período, as exportações somaram 18,378 bilhões de dólares, enquanto as importações ficaram em 18,490 bilhões de dólares.

Bancos — 
Os bancos encerraram julho com uma posição comprada de 1,675 bilhão de dólares no mercado de câmbio. No encerramento de junho, estavam comprados em 3,063 bilhões de dólares. No final de maio, a posição comprada era de 5,408 bilhões de dólares. Estar "vendido", no jargão do mercado financeiro, representa expectativa de queda do preço da moeda. Estar "comprado", por outro lado, significa aposta de que a cotação do dólar pode subir. Ao ter a moeda em caixa, é possível lucrar com uma eventual alta da moeda.

BC: em julho, US$ 1,5 bilhão deixou o país, já descontando o que entrou

Gabriela Valente 
O Globo

No ano, entrada líquida de dólares no país soma US$ 8,6 bilhões, quase um terço do registro no mesmo período em 2012

BRASÍLIA — O Brasil registrou uma saída líquida de US$ 1,5 bilhão em julho. De acordo com os dados do Banco Central, a retirada de recursos de investidores do mercado financeiro foi a principal responsável pelo fluxo negativo no mês passado. Só de aplicações, os estrangeiros retiraram US$ 1,3 bilhão, descontados todos os ingressos.

Já nos dois primeiros dias de agosto, o Brasil registrou um fluxo cambial positivo. A diferença entre os ingressos e as saídas foi de US$ 509 milhões.

Desde o início do ano, o Brasil acumulou um saldo de US$ 8,6 bilhões. É quase um terço do registrado no mesmo período do ano passado: US$ 24,4 bilhões.

A autarquia informou também que a chamada “posição comprada dos bancos” – ou seja a aposta que as instituições fazem na alta da cotação da moeda americana – diminuiu de US$ 3,1 bilhões para US$ 1,7 bilhão de julho em relação ao mês anterior. O BC tem incentivado os bancos a ficarem “vendidos” para conter a escalada da cotação do dólar.

O BC divulgou ainda a variação do IC-Br, o Índice de Commodities do BC, de 2,27% no mês passado. Os preços das commodities de energia foram os que mais subiram, seguidas de commodities metálicas e agrícolas.

O País sem o MST

Xico Graziano
O Estado de S.Paulo

Noutro dia, em seminário do PT na Bahia, Lula alisava seu ego político quando lançou um enigma: "Eu fico pensando o que seria o Brasil se não fosse o MST". A resposta me brotou fácil: haveria mais prosperidade e paz no campo. Explico o porquê.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) originou-se em 1979, motivado pela luta agrária dos colonos gaúchos nos municípios de Ronda Alta e Sarandi. O regime militar, que comandava o País na época, tentou desmantelar, pelas mãos do famigerado coronel Curió, aquela inquietação camponesa. Ao contrário, porém, sustentado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e apoiado por líderes da oposição democrática, o episódio prosperou, agigantando-se o acampamento de sem-terra.

Cinco anos depois, 8 mil pessoas invadiram a Fazenda Annoni, demonstrando uma ousadia que, de pronto, ganhou a simpatia da opinião pública. O sucesso da empreitada guindou a nova organização à liderança da ação "antilatifundiária" no campo. Seu antípoda, criado no debate da Constituinte, era a União Democrática Ruralista (UDR). Seu rival "interno", de quem procurou sempre se diferenciar, era a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), considerada "pelega" pela esquerda de então. A sociedade em mudança adotou o MST.

Assim, no estrebuchar da ditadura, renascia no País a tese da reforma agrária. Agora, porém, a causa vinha despida de sua lógica econômica, conforme fora idealizada nos anos 1960, para se carregar de conteúdo social. Com a bênção da Teologia da Libertação, um pedaço de terra redimiria os excluídos do campo. Nascia uma utopia agrária.

Ruíra em 1989 o Muro de Berlim. Por aqui, findos os anos de chumbo, avançava a redemocratização. Simultaneamente, avançava a modernização capitalista da agricultura, modificando a dinâmica do agro; antigos latifúndios viravam empresas rurais. Mais à frente, o Plano Real retirou da terra ociosa seu ganho especulativo, empurrando-a para a produção. Começava o império da tecnologia na agropecuária brasileira.

Nesse caminhar da História, a bandeira revolucionária do MST começou a perder seu brilho. Foi então que a organização decidiu, em 1995, mudar sua estratégia, partindo para o confronto direto com os fazendeiros do País: invadiu a Fazenda Aliança, situada em Pedra Preta (MT). Pertencente a um conceituado líder ruralista, a propriedade mantinha excelente rebanho, elevado rendimento, 29 casas de alvenaria, 160 quilômetros de cercas, 21 empregados registrados, reserva florestal intacta. Um brinco produtivo.

Acabou nesse momento o MST "do bem". Inaugurando a fase ulterior da crise agrária, as invasões de propriedades tomaram conta do Brasil, avançando especialmente contra as pastagens de gado. Incontáveis "movimentos" surgiram alhures, arrebentando cercas, roubando gado, fazendo "justiça" com as próprias mãos. Verdadeiras quadrilhas disfarçaram-se de pobres coitados e saquearam regiões, como no sul do Pará. Banditismo rural.

O MST militarizou-se. Seus quadros passaram a fazer treinamento centralizado, o comando definiu regras de comportamento e seleção. Centros passaram a oferecer cursos de capacitação, baseados na cartilha básica intitulada Como Organizar a Massa. Doutrinação pura. Nascido como "movimento social", o MST transformou-se em rígida organização, adentrando a cidade. Recrutando miseráveis urbanos, montou uma "fábrica de sem-terra" no País. Nunca mais a reforma agrária encontrou seu eixo.

Como teria sido a reforma agrária sem o terrorismo das invasões de terras?

Primeiro, seria certamente um programa mais bem planejado, articulado, e não um remendo açodado para resolver conflitos. Não trombaria com a agronomia nem com a ecologia, projetando assentamentos tecnicamente viáveis. Não faria da reforma agrária um foco de devastação ambiental, conforme se verifica em toda a Amazônia. Não confundiria remanescentes florestais com terra inculta, promovendo uma infeliz união da miséria com a depredação ecológica, como, entre tantos exemplos, provam a Fazenda Zabelê, no litoral de Touros (RN), ou a Fazenda Araupel, em Rio Bonito do Iguaçu (PR).

Segundo, os beneficiários da reforma teriam aptidão reconhecida para a lide rural, jovens habilitados, filhos de agricultores familiares, jamais viriam dos excluídos da cidade. O vestibular da terra seria a capacitação, nunca a invasão. Os assentamentos rurais estariam baseados na produção tecnológica, integrada ao circuito de mercado, nunca firmada na roça de subsistência, isolada. Os novos produtores se emancipariam, seriam titulados, e não, como ocorre hoje, se tornariam subservientes ao poder.

Terceiro, e em decorrência dos anteriores, a reforma agrária seria menor em tamanho, porém muito maior em qualidade. Geraria produção e renda. Daria à sociedade retorno do investimento público. Hoje, acreditem, nem se avalia o custo-benefício dos assentamentos. Nunca se mediu sequer a produção agropecuária advinda das áreas reformadas no Brasil, que atingem 90 milhões de hectares, envolvendo 1,2 milhão de assentados. Ninguém sabe quanto nem o que produzem.

Conclusão: o distributivismo agrário resultou na mais onerosa e fracassada política social da História brasileira. Para se ter uma ideia, o custo médio de cada assentado beira os R$ 100 mil, valor que manteria uma família durante 13 anos recebendo um salário mínimo mensal. Com uma agravante: pelas mãos raivosas dos invasores de terra se criou no País um foco contínuo de encrenca, antipatias, inimizades. Cizânia agrária.

O que seria do Brasil se não fosse o MST? Respondo ao Lula, tranquilamente: mais produtivo e fraterno no campo.

A UPP é uma mentira?

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

É irresponsável com os jovens do asfalto e do morro tentar dinamitar o projeto das UPPs

Só os ingênuos, sem perspectiva histórica ou com má-fé podem proclamar que a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) é uma enganação para inglês ver. Que jovens de 18 anos de berço esplêndido confundam tudo, até entendo. Mas adultos que sobreviveram aos governos Garotinho e Rosinha (argh!) e à última fase da prefeitura Cesar Maia (argh!) só têm uma desculpa para dizer que a UPP é uma mentira: a pendenga partidária que desmerece tudo que vier de um adversário político. Quando bandeiras de partidos substituem os valores de nossa consciência, a vida e a inteligência naufragam.

Impossível não lembrar – a não ser que sejamos acometidos de uma amnésia oportunista – o pacote dos ex-desgovernos do Rio: a politização da política de segurança do Estado, os pactos sórdidos com traficantes, o descontrole no número de “autos de resistência” (eufemismo para extermínios nos becos por homens fardados), a absurda mortalidade de jovens favelados em brigas de gangues, o abandono total das favelas, que se espalhavam pelas matas e por áreas de risco.

Nossas favelas eram fortalezas do tráfico e do crime organizado, isoladas por barricadas. Havia o terror imposto aos moradores de bem, o aliciamento escancarado de garotos, a gravidez precoce de garotas encantadas pelos chefões, modelos de “heróis” armados e donos do pedaço. Jornalista só entrava ali após acordo prévio com o chefão ou assumindo risco de morte, como aconteceu com Tim Lopes.

É irresponsabilidade com o Rio de Janeiro e com o futuro dos jovens no asfalto e no morro tentar dinamitar o projeto das UPPs só porque a população tomou ódio ao governador Sérgio Cabral em seu segundo mandato, depois de ele ser reeleito com 66,08% dos votos e com a bênção de Lula. Um ódio compreensível diante da arrogância que Cabral construiu, ao menosprezar qualquer crítica e se fazer de “ixperto” como seu ídolo na terra e no céu, Lula.

Quantos Amarildos sumiram nas favelas, quantos pedreiros e filhos e mulheres de pedreiros foram incendiados em fornos por traficantes ou executados por policiais corruptos e metidos no tráfico e ninguém falou nada? Cariocas que hoje condenam pesadamente as UPPs iam à praia, subiam a serra, lotavam os bares e saíam em seus carrões 4x4 sem tomar conhecimento das chacinas nos morros. Era um assunto inconveniente. Os cariocas de bem nunca tinham enlameado nas ladeiras da Rocinha seus tênis made in China – a não ser para comprar droga.

Só comecei a entender a Rocinha quando dormi ali uns dias, em agosto de 2007, na Rua 2, para escrever sobre a urbanização comandada pelo arquiteto Luiz Carlos Toledo. Já no governo Cabral, mas antes das UPPs. Uma cena nunca me saiu da cabeça. Eu bebia cerveja num boteco. Um rapaz passou na ruela, com um saco de mercado numa das mãos e uma submetralhadora cromada na outra, apontada para baixo. Eu não conseguia enxergar a arma, mesmo alertada por minha amiga. Como todos do asfalto, reconheço uma arma apenas quando é apontada para mim. Ali, na Rocinha, a submetralhadora equivalia às frutas e verduras, quase um peso compensando o outro, carregados com a naturalidade do cotidiano, como se não houvesse contradição entre a fonte da vida e o instrumento da morte.

Vamos, sim, criticar: está muito longe o cumprimento das promessas das UPPs. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, está consciente das frustrações. Sempre foi claro: o objetivo era recuperar os territórios e abrir caminho para a ocupação social do Estado e para a integração das favelas e dos jovens à cidade. Nunca se prometeu prender todos os traficantes ou acabar com o tráfico.

Há dois problemas sérios. Um é o Estado, incompetente para tornar prioridade a infraestrutura das favelas. É lenta demais a ocupação social – com saneamento, serviços essenciais de limpeza, luz, habitação, educação, saúde. O outro problema é a força policial: há casos excessivos de desvio de conduta. Foram expulsos 1.500 da corporação? Muito mais terão de ser expulsos.

Os equipamentos desligados simultaneamente na Rocinha – câmeras e GPS – no dia em que Amarildo foi detido bastariam para afastar o comando local da UPP até que se concluíssem as investigações. Ah, agora a versão é que ele e a mulher, Bete, ajudavam o tráfico nas horas vagas? É uma versão plausível, sim. Nada nas favelas é preto no branco. Há uma zona cinzenta, familiar e histórica que não acabará de um dia para o outro. Mesmo que Amarildo e Bete ajudassem, ele não poderia ter sumido depois de ser levado de casa num carro da UPP. Foi morto por traficantes? Por policiais? Ou por ambos?

É forçada a palavra “pacificação”. Não existem favelas pacificadas. Esse “P” da sigla talvez seja um equívoco, porque promete uma utopia irrealizável. Nenhuma cidade deste país, grande ou pequena, está livre de tráfico, assassinatos, latrocínios. Como exigir que uma favela seja uma ilha da fantasia, dissociada da realidade da violência urbana? O Brasil está longe de ser “pacificado”. 

Sem bala na agulha

Dora Kramer 
 O Estado de S.Paulo

Visto assim do alto, o adiamento da votação do Orçamento impositivo para a próxima terça-feira pode ter parecido um recuo da Câmara, em atendimento aos apelos da presidente Dilma Rousseff.

Examinada de perto, a decisão confirma a disposição dos deputados de tornar obrigatório o pagamento das emendas parlamentares. Ao tomar o cuidado de cumprir todos os prazos regimentais, o Legislativo evita o risco de que a votação seja contestada na Justiça.

Pelo jeito, a questão está decidida. Tanto na Câmara como no Senado. Se vier a ser revista caso o Executivo recorra ao Supremo Tribunal Federal alegando inconstitucionalidade no mérito, será outra história, mas a derrota política que o Parlamento anda ávido para impor a Dilma estará posta.

Familiarizados com movimentos de pressão esvaziados pela contrapressão do Planalto, poderíamos desconfiar de que daqui até lá o governo faça uso de ferramentas de convencimento - cargos, emendas, cessão de espaços políticos, promessas de apoios eleitorais - e consiga desmontar a bomba.

Difícil, para não dizer impossível. Há vários motivos, mas dois são cruciais. Primeiro: o que era apenas uma promessa de campanha do presidente da Câmara, Henrique Alves, prosperou no ambiente de animosidade com o Planalto e hoje virou uma causa da Casa.

Segunda razão: se lançar mão do fisiologismo deslavado, o governo não tem a menor garantia de que o "gigante" não desperte de novo e volte às ruas dessa vez para protestar contra o uso de métodos considerados condenáveis. Prejuízo já contabilizado pelo Congresso, mas que pode dilapidar mais um pouco o capital de aprovação da presidente.

Mais embaixo. 
O cancelamento do contrato de repasse do cadastro do Tribunal Superior Eleitoral para a Serasa - empresa privada que reúne dados sobre a situação de crédito dos consumidores - era o mínimo a ser feito.

Conforme as manifestações da presidente e do vice-presidente do TSE, Cármen Lúcia e Marco Aurélio Mello - ambos surpreendidos com a notícia -, trata-se de agressão aos direitos e garantias do cidadão.

Até aí, morreu neves. Resta, no entanto, averiguar a motivação e os detalhes do acerto firmado entre a diretoria administrativa do tribunal, com o aval da corregedoria, e a empresa à revelia dos ministros.

Havendo dolo, e se o ato é inconstitucional parece evidente que houve, indispensável que não fique só o dito pelo não dito e os responsáveis respondam por seus atos, a fim de que se garanta o exercício ao ativismo Judiciário também dentro de casa.

Com jeito vai. 
A pesquisa do Ibope que mostra 84% de apoio à reforma política com validade já em 2014 nada revela de excepcional. É evidente que as pessoas querem mudanças e que desejem isso o mais rápido possível.

Do mesmo modo todo mundo é a favor da luz elétrica e da água encanada.

O resultado da consulta não significa que o governo deu a resposta certa às manifestações de junho. Nelas, se pedia a prestação de serviços correspondente ao pagamento de impostos e uma conduta mais decente por parte de integrantes do poder público. O Planalto inverteu as prioridades.

O dado mais eloquente da pesquisa está na opinião de 92% dos consultados sobre a forma da reforma: proposta de iniciativa popular. Pelo caminhar do debate no Congresso, os parlamentares continuam só interessados em maquiar a legislação eleitoral.

O problema é o tempo. A elaboração do projeto de emenda, a coleta e conferência de assinaturas (um milhão) e a tramitação precisariam estar concluídas em menos de dois meses para valer já na próxima eleição.

MP faz grampos em mais de 16 mil telefones

Rodrigo Haidar (*)
Revista Consultor Jurídico

Enquanto o Supremo Tribunal Federal não define os limites do poder de investigação do Ministério Público, a instituição vai se equipando para conduzir inquéritos e produzir suas próprias provas para os processos penais em que atua. É o que revela relatório apresentado nesta terça-feira (6/8) pelo conselheiro Fabiano Silveira, do Conselho Nacional do Ministério Público.

Das 30 unidades do Ministério Público brasileiro, 21 possuem ou têm acesso a sistemas de monitoramento de interceptações telefônicas. Das 21 unidades, 17 possuem equipamento própriopara fazer as gravações e quatro usam equipamentos cedidos por órgãos do Poder Executivo estadual para gravar conversas de alvos de suas investigações.

De acordo com informações do relatório, repassadas pelas próprias unidades do MP, a instituição já investiu R$ 8,3 milhões para a aquisição de três tipos de sistemas de grampos telefônicos, sem contar custos de manutenção dos sistemas. Em apenas dois casos foi feita licitação para a compra dos equipamentos: o MP de São Paulo fez pela modalidade pregão e o MP de Mato Grosso do Sul por tomada de preços. As outras 15 unidades do Ministério Público compraram o equipamento com dispensa ou por inexigibilidade de licitação.

Onze unidades do MP usam o sistema Guardião — oito compraram o sistema e três usam por cessão de secretarias de estado. Outras seis unidades usam o Wytron e quatro, o Sombra. O relator também revela que em maio de 2013, o MP monitorava 16.432 telefones e 292 e-mails. E 9.558 pessoas eram investigadas.

O relatório foi apresentado no julgamento de Pedido de Providências feito pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no ano passado, na gestão do então presidente Ophir Cavalcante Júnior. A OAB pediu que o CNMP fizesse inspeção e auditoria nos sistemas de escuta e monitoramento adquiridos pelo Ministério Público.

O relator do processo, conselheiro Fabiano Silveira, requisitou informações a todas as unidades do MP e as respostas, com suas conclusões, estão detalhadas no relatório de 110 páginas apresentadas nesta terça. O processo não foi definido porque o julgamento foi suspenso por pedido de vista.

As informações descortinam o funcionamento das escutas feitas pelo Ministério Público, com o amparo de autorização judicial. Desde os sistemas contratados, e qual o seu preço, até se é permitido o acesso de servidores a eles e quais os órgãos, dentro do MP, responsáveis pela supervisão das escutas.

Na maioria dos casos, a competência da supervisão é do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, o Gaeco, criado por muitas unidades do Ministério Público. Mas, segundo o relatório, “em 8 unidades (MP/SP, MP/AP, MP/ES, MP/AM, MP/BA, MP/PA, MP/PB e MP/RS), o acesso ao sistema de monitoramento das interceptações telefônicas é — pelo menos em tese — ranqueado a todos os membros do Ministério Público que necessitem executar a medida, admitindo-se eventualmente até mesmo o acesso de servidores dos órgãos de execução”.

São três os sistemas de monitoramento telefônicos comprados pelo Ministério Público. O Guardião, da empresa Dígitro, o Sombra, da Federal Tecnologia, e o Wytron, da Wytron Technology. O relator compara preços e conclui que, com base nos valores informados, “sem entrar na complexidade e nos recursos oferecidos por cada sistema”, a solução mais econômica para o Ministério Público é a aquisição do sistema Wytron, seguido pelo sistema Sombra e pelo sistema Guardião.

Fabiano Silveira aborda, em boa parte do relatório, o poder de investigação do Ministério Público. Cita a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, que sinaliza para a permissão da investigação penal por parte do MP e observa que “o único fundamento jurídico para a aquisição de sistemas de monitoramento de interceptações telefônicas (a exemplo do Sistema Guardião) por parte do Ministério Público é a sua legitimidade constitucional para conduzir investigações por iniciativa própria, observadas as hipóteses em que tal procedimento mostra-se justificável à luz da jurisprudência do STF, como, por exemplo, nos casos de omissão, ineficiência ou morosidade da polícia judiciária, bem como no exercício do controle externo da atividade policial”.

De qualquer maneira, o relator recomenda que seria desejável, “a bem dos princípios da segurança jurídica e do devido processo legal, que a legislação ordinária descrevesse as hipóteses que justificam a investigação diretamente conduzida pelo Ministério Público, evitando-se, assim, casuísmos e arguições de nulidade”. Ou seja, falta regulamentação clara no setor.

Das 21 unidades que usam sistemas de interceptação telefônica, 18 recorrem a policiais civis ou militares para operá-los. Para Silveira, isso revela uma contradição. “Se a investigação levada a cabo pelo Ministério Público é justificada por alegada deficiência dos serviços prestados pela polícia judiciária ou até mesmo por dita fragilidade institucional por sua exposição ao poder político, estranho admitir que o órgão ministerial recorra justamente a quadros das polícias civil e militar para desempenhar as funções reivindicadas pela instituição”, afirma.

Ao final, o conselheiro determina que as corregedorias de todas as unidades do MP façam, no prazo de 90 dias, inspeções nos órgãos que operam os sistemas de escutas e encaminhem relatórios para a Corregedoria Nacional. E propõe uma resolução que, na prática, cria um cadastro nacional para monitorar “a quantidade de interceptações em andamento e o número de investigados que tiveram seus sigilos telefônico, telemático ou informático quebrados”. Se aprovada a proposta, os dados devem ser encaminhados mensalmente à Corregedoria Nacional pelo membro do Ministério Público responsável pela investigação criminal ou instrução penal.

 (*) Rodrigo Haidar é editor da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Os parlamentares perderam o respeito ao povo que dizem representar

Francisco Bendl
Tribuna da Imprensa

Em algum lugar do passado os parlamentares perderam o respeito para com a população e, o mais grave: o medo de qualquer reação popular! Acredito que tenha sido depois da retomada da democracia que a política tratou de ir em busca de compensação pelas cassações, perseguições, fechamento do Congresso, e dizer ao povo quem era que de fato mandava no Brasil.

De lá para cá, vivemos sob a égide da impunidade, dos escândalos, da desfaçatez, da corrupção desmedida, que atribuem aos parlamentares brasileiros a condição de casta, de uma classe inatingível pelas leis, que elabora seus próprios métodos de enriquecimento mediante extorsão do erário através das despesas de viagens que não suportariam meia hora de auditoria, acordos extra-parlamentares, comissões, licitações forjadas, enfim, o Congresso brasileiro se transformou no antro do mal, no templo da vergonha, na basílica da imoralidade, na catedral da desonra, no monastério onde se formam sacerdotes sem ética, honra e decência.

Não creio que haja no mundo um parlamento tão prejudicial à imagem de uma nação quanto o nosso, tão inútil, incompetente, incapaz e desonesto na sua raiz, nas suas entranhas, no âmago da sua construção.

CASTA PODEROSA
Eu os classifico como párias muito bem remunerados, daí eu os denominar de casta, abastada, poderosa, que trafica impunemente a influência, que explicita seu fisiologismo, que escancara seus roubos através de notas fiscais de despesas pessoais falsas, que se revelam como o grupelho TRAIDOR da Pátria, indivíduos abjetos e destituídos de dignidade, probidade e caráter.

E não me venham dizer mediante sofismas que eles são o retrato da sociedade, ledo engano. Com as exceções de praxe, eles representam a ganância, o egoísmo, a formação de uma quadrilha de 81 senadores e 513 deputados federais cujo objetivo primordial é locupletaram-se pessoalmente e a seus familiares, parentes e apaniguados.

O senador Collor, o pior e mais cruel presidente da nossa História, um insano e vaidoso indivíduo que odiava o povo e o Brasil, que adorava cultos satânicos, mediante declarações de sua ex-mulher, comprova o festival de gastos irresponsáveis que o Congresso autoriza às nossas custas, uma população analfabeta funcionalmente, que não se dá conta dos prejuízos que sofre diariamente com o dinheiro arrecadado dos impostos escorchantes de seus bolsos e que abarrota as burras de nossos parlamentares, que não precisam “trabalhar” em nosso favor em consequência.

COLLOR, O GASTADOR
Collor gastou este ano de 2013, até julho, a quantia fabulosa de, a título de despesas pessoais, afora o excelente salário como senador, R$ 216.329,88, em média, a cada mês, R$ 30.904,27.

Considerando que Suas Excelências, os outros senadoras e senadores, gastem o mesmo, apenas o Senado extirpa dos cofres públicos a quantia astronômica anual de quase R$ 31 milhões para pagar gastos pessoais.

Levando em conta o preço de uma casa popular, na ordem de dez mil reais, os senadores gastam em jantares, passeios, aluguel de carros de luxo, passagens de avião, em prazeres e satisfações particulares, repito, sem contar os proventos oficiais, o equivalente a TRÊS MIL CASAS POPULARES. Isso, sem contar os gastos da Câmara Federal e seus 513 integrantes. Certamente a palavra ÉTICA não poderia mesmo figurar no dicionário dos parlamentares brasileiros. Pena que tenha sido reincluída no Código de Conduta do Senado.

Senado adia votação da 'PEC dos mensaleiros'

Laryssa Borges
Veja online

Proposta determina a perda automática dos mandatos de parlamentares condenados por improbidade ou crime contra a administração pública

(Dida Sampaio/Dorivan Marinho/Vagner Campos/Lindomar Cruz ) 
QUARTETO MENSALEIRO - 
Os deputados João Paulo Cunha, José Genoino, Valdemar Costa Neto
 e Pedro Henry: condenados pela Justiça com mandatos na Câmara 

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado adiou para a próxima semana a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que determina a perda automática dos mandatos de parlamentares condenados, em sentença definitiva, por improbidade administrativa ou crime contra a administração pública.

A proposta é conhecida no Congresso como "PEC dos mensaleiros" já que a discussão sobre a perda automática de mandatos de parlamentares condenados permeou todo o julgamento do mensalão no ano passado. No entanto, apesar de ter sido "inspirada" no caso do mensalão, mesmo se a emenda fosse aprovada agora ela não valeria para os deputados condenados no ano passado.

Em dezembro, por 5 votos a 4, o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu que os deputados federais condenados no mensalão não poderão exercer seus mandatos na Câmara quando a sentença se tornar definitiva - ou seja, quando se esgotarem os recursos. 

Quatro deputados condenados no mensalão detêm mandatos atualmente: João Paulo Cunha (PT-SP), José Genoino (PT-SP), Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Pedro Henry (PP-MT). Outro caso é o do deputado Natan Donadon (RO), preso desde junho por desvios na Assembleia Legislativa de Rondônia, cuja perda do mandato ainda não foi analisada pelo plenário da Câmara.

Pelo texto da proposta na CCJ, no caso das condenações com trânsito em julgado, caberá às Mesas Diretoras da Câmara ou do Senado apenas declarar extinto o mandato do parlamentar penalizado, não sendo possível, portanto, garantir a permanência do congressista com direitos políticos suspensos. 
 
“A perda do mandato é uma consequência direta e imediata da suspensão dos direitos políticos causada pela condenação criminal transitada em julgado. Nesse caso, a Casa procederá meramente declarando esse fato extintivo já reconhecido”, defendeu o ministro Celso de Mello, do STF, durante o julgamento. Os ministros Joaquim Barbosa, Luiz Fux, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello também têm entendimento semelhante.

Entre os que defendem que a perda dos mandatos não ocorre de forma automática, o argumento é que o parágrafo 2º do artigo 55 da Constituição Federal estabelece a perda do mandato “por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa”. Por essa interpretação, antes da cassação do mandato, deveria ocorrer uma votação secreta para definir se o parlamentar deve ou não perder o cargo.

Quando a PEC foi debatida na CCJ, o senador Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) pediu vista e adiou a votação. O parlamentar é um dos principais aliados do deputado Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e dez meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Na sessão plenária desta quarta, Rodrigues negou que o adiamento da votação tivesse relação com os condenados no mensalão. 
 
“Sempre fui favorável à PEC. Fui mal interpretado no dia que pedi vista”, argumentou o senador. Para ele, a perda automática dos mandatos de condenados poderia ocorrer não só em crimes contra a administração pública ou atos de improbidade, mas também em crimes hediondos.

Acampados na Câmara, aposentados da Aerus dormem no chão do Salão Verde

O Globo

Grupo de idosos usa almofadas das cadeiras da Câmara para dormir; colchonetes foram recolhidos pelos seguranças

Givaldo Barbosa / Agência O Globo 
Ex-funcionários de empresas aéreas extintas afirmam 
que vão permanecer no local até que as reivindicações sejam resolvidas 

BRASÍLIA – Dormindo no chão do Salão Verde da Câmara, sem colchonetes e usando apenas algumas almofadas das cadeiras , um grupo de aposentados e pensionistas do Instituto Aerus, está acampado desde terça-feira no Congresso Nacional. Os ex-funcionários de empresas aéreas extintas afirmam que vão permanecer no local até que as reivindicações sejam resolvidas. A maioria tem cabelos brancos, o mais velho tem 82 anos.

Eles querem ajuda do governo para pôr fim à intervenção no fundo, que já dura sete anos e impede o pagamento dos benefícios. Até 2007, os aposentados da Varig e Transbrasil recebiam 100% dos benefícios, mas, há três anos, o valor pago, segundo eles, é equivalente a 8% da parcela contratada.

— Ficaremos até que uma solução seja dada. Esse grupo já ficou 26 dias confinado na sede da Aerus no Rio. Só suspendeu o confinamento porque a AGU (Advocacia Geral da União) sinalizou que poderia haver um acordo, mas isso não aconteceu. Agora, transferimos o confinamento para a Câmara dos Deputados. O que queremos é o direito reconhecido nos contratos no fundo que os tralhadores fizeram — disse Graziella Baggio, ex-dirigente do Sindicato Nacional dos Aeronautas.

São 29 pessoas dormindo nos tapetes do Salão Verde. Eles chegaram a ganhar colchonete de deputados, que foram apreendidos pelos seguranças da Casa. Sílvio Cardozo, de 76 anos, é um dos que pressionam pela solução do problema.

— Nós queremos nosso problema resolvido. É uma maldade o que fizeram tirando os colchonetes que ganhamos —desabafou.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), prestou apoio ao grupo. O senador disse na quinta-feira que vai tentar marcar uma reunião com a presidente Dilma Rousseff em busca de solução para o caso dos aposentados.

O Aerus foi criado em 1982 por essas duas empresas junto com a Cruzeiro. Aposentados que contribuíram para o fundo ficaram sem receber os benefícios que contrataram.