O Globo
Com Agências Internacionais
Resultado surpreende Morales e é visto como duro golpe ao governo
STR / AFP
Presidente da Bolívia, Evo Morales, em discurso em Cochabamba
LA PAZ - O anúncio nesta semana dos resultados do censo feito no ano passado na Bolívia surpreendeu o presidente Evo Morales: em vez de um Estado no qual a maioria da população se considera indígena - base de várias das propostas do governo de Morales, no poder desde 2006 -, o que apareceu foi justamente o contrário. Segundo o censo, 58% dos bolivianos com mais de 15 anos de idade disseram não ter nenhum tipo de herança indígena. Em 2001, 62% dos habitantes do país afirmaram ser índios ou descendentes.
Não ficou claro ainda se houve uma mudança no modo de os bolivianos perceberem sua identidade ou se houve falhas em algum dos censos, o de 2001 ou o de 2012 - no último, a soma total da população ficou abaixo das projeções feitas anteriormente. Mais que a desconfiança nos resultados totais, chamou a atenção a existência, para especialistas locais, de um Estado mestiço. O termo “mestiço”, aliás, é considerado racista e não aparece no censo. Quem opta por não declarar-se descendente de índios entra em uma categoria comum.
‘Plurinacional’ em debate
Em 2009, seguindo a nova Constituição referendada por voto popular, o nome oficial da república boliviana mudou para Estado Plurinacional da Bolívia. A Carta garantiu uma presença mais numerosa de representantes dos chamados 36 povos originários - ou seja, os presentes na região antes da chegada dos colonizadores europeus - no Estado.
- Também fiquei surpreso, os dados anteriores eram muito diferentes - disse Morales esta semana. - Não sei se estamos em um momento de uma maior mentalidade colonizadora, é debatível. Mas o mais importante era saber sobre a população, a habitação, os serviços básicos - minimizou o presidente.
Para o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, o censo de 2012 deve ser lido como “uma consolidação das nações indígenas originárias na Bolívia, assim como uma fortificante indianização da nação” em vez do surgimento de um Estado mestiço.
Já o ex-presidente Victor Hugo Cárdenas, índio aymara como Morales e um dos principais nomes da oposição boliviana, avalia que o resultado do censo pode ter a ver com fato de o governo ter decepcionado os indígenas ao reduzir a concepção de nação originária à cultura e à língua, sem território.
- O país disse a Morales que não está de acordo com sua forma de ver o indígena. O discurso do governo perde base social étnica e demonstra que é insuficiente construir um Estado Plurinacional sobre supostas maiorias - afirmou Cárdenas.
