domingo, agosto 11, 2013

Pessimismo com o Egito

Editorial
O Globo

País vive enorme retrocesso político e está sob ameaça de convulsão. Só encontrará saída quando os atores políticos concordarem num diálogo de salvação nacional

ois senadores americanos em visita ao Egito, Lindsey Graham e John McCain, exortaram as autoridades provisórias do país a libertar os líderes islâmicos, presos desde o golpe de 3 de julho, para permitir o início de um diálogo político. Graham, citado pelo “Financial Times”, advertiu que o Egito está “a apenas dias ou semanas de um banho de sangue”.

Não há nenhum exagero nisso. Até porque, de certa forma, já começou: pelo menos 300 pessoas foram mortas em confrontos em julho depois que o Exército derrubou o presidente islamista Mohamed Mursi, na esteira de enormes protestos populares contra seu governo. Os partidários de Mursi, discípulos da Irmandade Muçulmana, saíram às ruas em sua defesa e foram brutalmente reprimidos. Cerca de 130 dos 300 morreram em confrontos com forças de segurança perto da maior área ocupada pelos islamistas em Cidade Nasser, subúrbio do Cairo.

A tensão está subindo. Adli Mansour, presidente provisório posto no cargo pelos militares, anunciou o fracasso dos esforços de enviados de EUA, União Europeia, Qatar e Emirados Árabes Unidos para superar o impasse político após o golpe contra Mursi, que está detido. E pôs a culpa na Irmandade Muçulmana. Pouco depois, Hazem al-Biblawi, primeiro-ministro interino, advertiu que o governo está “perdendo a paciência” com os partidários de Mursi, numa ameaça de que poderá ordenar sua retirada à força de onde permanecem mobilizados, o que levaria ao banho de sangue citado por Graham.

Biblawi disse que se absteve de fazê-lo até agora em respeito ao período do Ramadã, sagrado para os islâmicos. Ontem, milhares de islâmicos saíram às ruas do Cairo para festejar o início dos quatro dias do feriado de Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, mas também para exigir a restauração de Mursi na presidência. Observadores estimam que o fim do feriado, na próxima semana, poderá marcar o início da operação militar contra os islamistas.

No Egito, a Primavera Árabe trouxe a esperança não só do fim da ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak, o que de fato ocorreu, mas também de um futuro melhor para um país com a economia em frangalhos, precisando de grandes reformas para crescer e gerar empregos, de investimentos estrangeiros e de um forte impulso modernizante. Como se temia, o governo da Irmandade Muçulmana, vencedora das primeiras eleições livres, nada conseguiu e ainda se complicou, fazendo avançar a islamização, o que desagradou os setores laicos e os militares.

Agora é o pior dos mundos. Os militares voltaram ao poder. Os líderes islâmicos voltaram à cadeia, como na era Mubarak. A vida, para o egípcio comum, não melhorou. E o país pode entrar em convulsão. A não ser que se retome o diálogo propiciado por EUA, UE, Qatar e EAU para que militares e islamistas cheguem a um acordo, pelo bem do país.