domingo, agosto 11, 2013

É preciso conter os falcões nos EUA e na Rússia

Editorial
O Globo

Relação bilateral vive momento tenso devido ao caso Snowden, mas divergências não devem impedir colaboração em temas sensíveis como Síria , Irã e armamentos

Estados Unidos e Rússia entraram em choque devido a Edward Snowden. Washington quer prender o ex-funcionário da CIA e ex-colaborador da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) por ter vazado programas de vigilância e espionagem altamente sofisticados e que atingem qualquer comunicação eletrônica feita por americanos, desde que com origem ou destino no exterior. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, deu asilo de um ano a Snowden, a despeito das enormes pressões americanas.

À parte a discussão sobre se Snowden é um traidor dos EUA ou um benfeitor da humanidade, a atitude de Putin provocou retaliação americana. Barack Obama cancelou o encontro com o líder russo em Moscou, às vésperas da reunião do G-20 em São Petersburgo, dias 5 e 6 de setembro, disse que há ocasiões em que a Rússia “volta à mentalidade da Guerra Fria” e criticou uma nova lei russa que reprime o ativismo em favor dos direitos dos homossexuais. A Casa Branca listou uma série de áreas em que, para os americanos, “não tem havido progresso suficiente em nossa agenda bilateral”, incluindo defesa contra mísseis, controle de armamentos e direitos humanos.

É um momento perigoso porque dá chance aos falcões de ambos os lados de entrarem em cena e jogar lenha na fogueira. Em Washington, parlamentares hostis a Putin já levantaram a voz para pedir ao governo americano que considere boicotar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, na Rússia. Em Moscou, Mikhail Yemelyanov, vice-líder do partido Uma Rússia Justa, advertiu que “os EUA devem pensar melhor sobre a possibilidade de o país se voltar para uma aliança mais próxima com a China”, segundo o “Financial Times”.

Menos mal que foi mantida a reunião de ontem, em Washington, entre o secretário de Estado John Kerry e o secretário de Defesa Chuck Hagel e seus colegas russos, Sergei Lavrov e Sergei Shoigu, sobre questões estratégicas e de segurança. Ao abrir o encontro, Kerry foi na direção correta ao destacar que “EUA e Rússia devem achar meios de contornar suas agudas divergências e concordar sobre a abordagem de problemas como a Síria”. Lavrov anunciou acordo entre as duas partes para a realização de uma conferência de paz sobre a Síria em Genebra, “logo que possível”, e a decisão de realizar um novo encontro bilateral no fim do mês, para preparar as conversações.

Antes assim. EUA e Rússia seguem tendo posições conflitantes em muitas áreas. Mas não devem permitir que as divergências os impeçam de trabalhar juntos em áreas sensíveis e que afetem a segurança regional e/ou global, como no caso da guerra civil síria, do programa nuclear do Irã e da redução de armas nucleares, entre outros.