sexta-feira, outubro 22, 2010

Pobre povo brasileiro pobre.

Adelson Elias Vasconcellos

No dia 16 deste mês, publiquei um texto da BBC Brasil, informando sobre um relatório da OMS que acusava “Doenças tropicais negligenciadas afetam ‘silenciosamente’ 1 bilhão de pessoas”. Ainda de acordo com a OMS-Organização Mundial da Saúde, quando se referiu ao Brasil especificamente, lá se dizia que:

"(...) O Brasil apresenta incidência de males tropicais como dengue, mal de Chagas, raiva, conjuntivite granulosa, leishmaniose, cisticercose, esquistossomose, tênia, hidática policística e “cegueira dos rios".

O relatório diz que o Brasil vivenciou um aumento nos casos de leishmaniose desde 1999. A doença, antes mais comum nas zonas rurais, “agora também aparece em áreas urbanas”, por conta da migração de pessoas do campo às periferias das cidades.

“No Brasil, os cães são o hospedeiro do parasita” da leishmaniose, que provoca, entre outros problemas, febre, fraqueza e anemia.

No caso da dengue, a OMS afirma que a doença ressurgiu na América Latina porque as medidas de controle não foram mantidas após a campanha para erradicar o Aedes aegypti, seu principal vetor, durante os anos 1960 e 70. “Grandes surtos acontecem atualmente a cada três ou cinco anos”, afirma o relatório.(...)”

Na mesma semana, num evento realizado no Rio de Janeiro, reuniram-se alguns ministros e ex-ministros de Lula para o lançamento do programa de saúde da candidata Dilma Rousseff, onde desceram o sarrafo em José Serra, quando este fora ministro da Saúde, do governo Fernando Henrique. Dado outra matéria que tinha sintonia com o tema saúde, publiquei um ENQUANTO ISSO (acesse aqui) onde informava sobre este evento e as críticas feitas à Serra e, ENQUANTO ISSO, reproduzia a notícia de que 5 pessoas haviam morrido no Rio de Janeiro sem terem conseguido atendimento na rede pública, inclusive casos com mandado judicial, fatos lamentáveis mas que tem sido bastante comuns, infelizmente. Ao comentar a contradição, disse que “(...) Se esta “quadrilha” de ministros hipócritas e salafrários se preocupassem mais em cumprir com as funções dos cargos em que foram empossados, do que em fazer campanha eleitoral ilegal, bancada com dinheiro público, plantando mentiras e inventando calúnias, e muito provavelmente não haveria tanta gente morrendo por falta de atendimento na rede pública de saúde(...)”.
Juntando-se os dois fatos, o relatório da OMS com os casos inúmeros de pessoas que não conseguem atendimento na rede pública e por isso acabam morrendo, não se teria motivos suficientes para tapar a boca da moçada “governista”, metida a cabos eleitorais, já o que não falta é trabalho por fazer na área da saúde? Mas, como Lula abandonou o governo e se travestiu com a fantasia que mais adora, que é a de animador de palanque, sua turma também ficou autorizada a participar da ilegalidade, como se não houvesse uma legislação eleitoral.

Pois bem, o atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão, bom de discurso mas ruim de serviço, após 15 mortes ocorridas no DF pela superbactéria, indagado pela Folha de São Paulo, se saiu com esta “maravilha”:

"Infelizmente, no Brasil, nós ainda temos o uso indiscriminado de antibióticos", alertou Temporão. "O alto consumo, o consumo irresponsável e a má prescrição é que levam a situações como essa", completou.

Questionado, porém, se o problema não poderia ser por conta de infecção hospitalar, disse que “(...)também é necessário avaliar as dinâmicas internas dos hospitais, que podem ter levado a falhas no processo de controle de infecção hospitalar”.

Fica claro que, para Temporão, a causa deve-se muito mais aos doentes do que a uma provável falta de melhor higienização e controle das infecções hospitalares.

Como o caso da superbactéria cujo problema é endêmico em várias regiões dos Estados Unidos, onde o controle na venda de antibióticos é muitíssimo rigoroso, a explicação dada pelo ministro soa um tanto vazia e sem fundamento. Mas o Ministro nos tranquilizou: afirmou que os casos estavam restritos ao Distrito Federal e alguns poucos no Paraná. Será?

No Brasil, os primeiros registros de KPC são de 2005, em São Paulo. Há casos no Paraná, Rio, Recife, João Pessoa, Vitória e Rio Grande do Sul. ATENÇÃO: A transmissão acontece principalmente por conta da pouca higienização das mãos e pode ocorrer quando um paciente em estado grave é transportado de um hospital para o outro, por exemplo.

No DF, já contam 18 mortes entre mais de 180 infectados. A Paraíba e o Espírito Santo também confirmaram casos de contaminação pela superbactéria KPC, segundo levantamento da Agência Brasil com as secretarias de saúde de oito estados e do Distrito Federal (DF). Ontem (20), o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou que há casos também no Paraná e em São Paulo. A Secretaria de Saúde da Paraíba confirmou 18 casos de contaminação pela superbactéria. No Espírito Santo, foi notificado um caso. No Paraná, foram registrados 21 casos em Londrina e três na capital, Curitiba, sendo que uma morte está sob investigação, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

Dos pacientes infectados pela bactéria no DF, 46 tiveram quadro de infecção e 61 continuam internados em hospitais públicos e privados. A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo informou ontem que não há surto da KPC. Segundo o órgão, os casos isolados em hospitais não são registrados, porque a notificação não é obrigatória. Mas dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contabilizam 70 casos em São Paulo.

A KPC é um tipo de enzima que tem provocado resistência de algumas bactérias aos antibióticos mais usados. Ela atinge principalmente pessoas hospitalizadas com baixa imunidade, como pacientes de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A bactéria pode ser transmitida por meio do contato direto, como o toque, ou pelo uso de um objeto comum. A lavagem das mãos é uma das formas de impedir a disseminação da bactéria nos hospitais.

A mortalidade nos casos da bactéria é de 30% a 40% maior em comparação à mortalidade provocada por infecção hospitalar, segundo informações do diretor da Anvisa, Dirceu Barbano.

Como se não bastassem as doenças tropicais informadas lá no alto, e a superbactéria se disseminando rapidamente, agora aparece a Paraíba com surto de sarampo. É o que registra maior número de casos de sarampo em 2010. Segundo números do Ministério da Saúde, neste ano, dos 53 casos confirmados no Brasil, até agora 43 deles, estão na Paraíba.

A Secretaria de Estado da Saúde informou que 41 casos da doença aconteceram só em João Pessoa. Até agora, foram 117 notificações, sendo que 72 continuam em investigação. Há ainda sete casos no Rio Grande do Sul e três na Paraíba, segundo balanço do Ministério. Os casos da Paraíba são classificados como decorrentes de um "vírus importado". Análises laboratoriais concluíram que o seu genótipo é similar ao do que circula na África do Sul. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, identificou que o surto de sarampo, em João Pessoa, é causado pelo vírus B3, o mesmo que circula na África do Sul.

Representa dizer o seguinte: a saúde pública no Brasil é um verdadeiro desastre. Não tem nenhum dos ministros e ex-ministros de Lula moral para atacar o trabalho do Serra quando ministro da saúde. Uma porque, de fato, fez um trabalho de qualidade onde o programa de atendimento aos portadores de AIDS, por exemplo, foi premiado pela OMS e levado para ser implementado em diversos países do mundo inteiro. Segundo, porque muitas das políticas e programas de saúde iniciados por ele, foram abandonados pelo atual governo e sobre isso já publicamos aqui inúmeros artigos de diferentes especialistas. Não estou defendendo Serra, estou é repondo a verdade no seu devido lugar.

O atual governo reclama pela CPMF não ter sido aprovada, quando de sua votação no Senado, e joga à conta da oposição. Esquece duas coisas: primeiro, a oposição não tinha maioria no Senado suficiente para acabar com a contribuição. Portanto, foram senadores de sua própria base que deram a maioria necessária para o enterro da CPMF. Segundo, enquanto o imposto vigorou, Lula recebeu cerca de 180 bilhões de reais a título da contribuição e o que fez do dinheiro? Torrou em tudo o que não dizia respeito a Saúde, que acabou recebendo a mínima parte. Os relatórios do site Contas Abertas são públicos e estão disponíveis para quem quiser conferir. Agora, os mesmos lacaios governistas defendem, a exemplo de Lula, o ressurgimento da CPMF. Errado. O problema brasileiro é de má gerenciamento de recursos, de falta de planejamento, de má ordenamento de prioridades, e não de falta de recursos. Até porque, o que deixou de entrar no caixa do Tesouro, foi inteiramente resposto pelo aumento do IOF e pelos aumentos reais de arrecadação.

Num país de tantos desassistidos, onde mais da metade da população sequer tem esgoto sanitário, o que por si só já é um gerador de múltiplas doenças, o único lugar em que não se deve encontrar um ministro da Saúde minimamente responsável é em palanque eleitoral, ainda mais no Rio de Janeiro, onde a rede pública é um caos, com pessoas morrendo por falta de atendimento. Nem mandado judicial tem evitado as tragédias.

Contudo, não se pode culpar o ministro Temporão completamente: seu chefe maior simplesmente largou o emprego de Chefe de Governo e mandou ministros também abdicarem de suas funções em prol de uma campanha eleitoral. Resultado: não só o governo do país está acéfalo, mas seu povo está abandonado à própria sorte. E quem mais tem sofrido com o país à deriva? Os pobres, justamente os que mais necessitam de atendimento pela rede pública. E eles pregam a continuidade deste abandono? Pobre povo brasileiro pobre!!!

Por que a violação dos sigilos agora?

Adelson Elias Vasconcellos

Apesar de não haver nenhuma lei que impeça a divulgação de um documento que é público, o Supremo Tribunal Militar – STM, de forma arbitrária, descabida e injustificável continua sentado no processo de Dilma Rousseff que determinou sua prisão pelo regime militar.

Não divulga, não justifica, e pronto. Alguém precisa avisá-los que o regime militar acabou em 1985 e, deste modo, sonegar à sociedade a divulgação de um documento público, coloca sobre esta turma suspeitas estranhas.

De outro lado, a Polícia Federal e a Casa Civil pediram mais tempo para concluírem suas investigações sobre o Bolsa Erenice e o tráfico de influência com direito a taxa de sucesso, ao tempo que a braço direito de Dilma a substituiu. Como PT esperava levar a eleição no primeiro turno, e não levou, entende-se que o adiamento, para depois do segundo turno, é outra protelação para que não se investigue nada.

Aí, depois da eleição, supondo que a vitória seja de Dilma, o governo vai alegar que se o PSDB pressionar pelas investigações, o governo, por certo, alegará que os tucanos querem armar o circo de um terceiro turno, ou querendo ganhar no tapetão. É a típica encenação do governo organizado para o crime. E, claro, dado o interesse do governo em jogar o resultado da investigação para depois da eleição, é demonstrativo de que tudo o que se noticiou era verdadeiro.

Ontem, assistimos mais um capítulo do triste espetáculo proporcionado por Lula que denigre a imagem das instituições brasileiras. Armou-se um circo dentro do Planalto, na questão dos sigilos, para jogarem no colo de Aécio o crime de violação de sigilo de Serra e família, além de outros dirigentes do partido.

Nas diferentes reportagens que já publicamos, ficou claro que a encenação não faz o menor sentido e, dado o que se noticiou hoje, pelo Estadão e pela Veja, o governo reduziu a Polícia Federal, uma instituição de Estado, a um departamento policial de governo. Incrível. O bom é que, ao contrário da versão mentirosa de Lula – sua maior característica, por sinal – os fatos demonstram claramente que foi do comitê de campanha de Dilma quem partiu a iniciativa de se apossarem dos sigilos fiscais dos tucanos, aliás, exatamente o que a Folha de São Paulo já havia informado. Já que a Polícia Federal não quer cumprir o seu papel, é de esperar-se que o Ministério Público consiga reverter o cheiro de pizza armada por Lula com a conivência vergonhosa da PF. Como se vê, foi dado mais um passo para a decomposição institucional do país.

Nesta questão dos sigilos, eu tenho uma teoria. É a seguinte: o governo Lula, ao apressar o inquérito da PF tinha em mente acertar três coelhos com um só tiro. Explico:

a) primeiro, encerrar logo o inquérito para que o fantasma não assombrasse a candidatura Dilma, porque o que interessava adiar era o caso de Erenice, porque este provoca maiores estragos na candidatura governista.

b)Da forma como encerrou as investigações das violações fiscais dos tucanos, o governo tenta afastar as suspeitas sobre o comitê de campanha da Dilma sobre a encomenda do crime.

c) Ao melhor estilo petista, acaba culpando a própria vítima – Serra e outros tucanos – e, de bonificação, joga uma intriga entre Aécio e Serra ao dizer que as violações foram na época que os dois tucanos disputavam pela oficialização, de um ou outro, a candidatura de oposição à sucessão de Lula.

Contudo, como mentira tem perna muito curta, acho que alguém esqueceu de combinar o roteiro do teatro com a Imprensa. Como a história soara muito estranha para os que conseguem pensar, em 24 horas a versão “oficial” foi prô brejo. Hoje, mais do que nunca, o comitê de campanha de Dilma está debaixo do tiroteio.

O lance, ou alvo, era criar um fato novo, que mudasse o foco de atenção sobre outro crime envolvendo a ex-ministra Dilma. Suas relações perigosas e criminosas com Valter Cardeal, e o todo o tráfico de influência que a relação provocou, conforme reportagem da revista Época, e que nós aqui reproduzimos. (clique aqui)

Ou seja, os dois crimes que poderiam fazer Dilma Rousseff despencar na preferência do eleitorado, foram afastados, por enquanto, da atenção do noticiário. Claro que o PSDB deve cuidar da questão dos sigilos, mas este é um assunto que pouco peso político tem junto ao eleitorado. A maioria nem sabe o que é sigilo, e muito menos ainda são os que tomaram conhecimento do assunto.

Não sou político nem candidato a nada. Mas fosse candidato, trabalharia a campanha em três frentes: a de se relacionar os crimes cometidos pelo governo Lula e jogados prá debaixo do tapete, os crimes cometidos com Dilma Rousseff como ministra e feitos debaixo de seu nariz e da apresentação de um projeto de governo que atacasse, diretamente, questões cruciais ao interesse do eleitorado.

Acho que se perde tempo demasiado na campanha, com coisas de menor importância. Serra não precisa mais ficar exibindo seu currículo, já que ele é mais conhecido no país do que a própria Dilma. Como também, sua capacidade gerencial também está comprovada pelo fato de ter feito seu sucessor no governo paulista e seu governo gozar de aprovação dos paulistas. Discuta-se o país e seus problemas, apresentando soluções, mostre-se a outra cara do governo Lula que poucos sabem – os serviços públicos -, e mostrem que a Casa Civil, com Dirceu e Dilma, se transformou num covil de negociatas, trapaças e tráfico de influência para as maracutaias dos amigos do rei. Mostre-se que o PAC é uma farsa, que o programa Luz Para Todos é sucedâneo de outro criado por FHC e que, nesta versão lulista, sequer atingiu metade do que está previsto, mostre-se o descontrole que se acentua, dia a dia, sobre os gastos públicos, mostre-se as privatizações do que eram antes, e do que são hoje, mas isto feito com correção, com linguagem clara, sem rodeios, com objetividade e de forma a que o brasileiro médio se dê conta da mentira que o PT e Lula contam. Não há o que esconder. O Brasil não teria alcançado o êxito de seu programa de estabilização econômica tivessem aquelas empresas continuado em poder do estado.

Como não sou marqueteiro, nem concorro a cargo algum, me proponho apenas a contar a verdade da história em meu blog. Procuro esclarecer e, com o esclarecimento, desmitificar os farsantes que o país aplaude. A oposição hoje, muito mais do que em 2006, tinha uma grande chance de varrer o PT do governo federal. E isto faria um bem danado ao país, principalmente, suas instituições, muitas das quais, bastante fragilizadas e empobrecidas sob o governo Lula.

E aqui uma reflexão: provamos ontem, em NÚMEROS OFICIAIS, que o governo FHC fez mais e melhor que o governo Lula. Sei que muitos sequer se preocupam em pesquisar, mas cumpro o meu papel. Leiam a série de artigos publicados e confiram lá. Ora, se Lula recebeu um país melhor, casa organizada, estado modernizado, contas públicas saneadas, inflação dominada, programas sociais em pleno vigor, com o crescimento da economia mundial acima de 8% ao ano, em média, como explicar que o país tenha crescido abaixo desta média? E, mesmo assim, teria por obrigação fazer mais, muito mais. Tinha plenas condições para isso: então, por que não fez? Por que a saúde pública está um caos? Por que a infraestrutura continua asfixiando o desenvolvimento do país? Por que a educação, na qual se jogam bilhões e bilhões todos os anos, não consegue evoluir em qualidade? Por que a segurança pública regrediu? Por que as reformas estruturais foram deixadas de lado? Santo Deus, o que não falta é prova de um governo que foi competente em manter aquilo que encontrou, e onde precisou, de fato, avançar, simplesmente estacionou e, no institucional, creio até que regrediu.

Era fácil desmontar todo o discurso petista, até porque, por ser oposição, a ela competia impor a agenda de temas. Quanto veio ao ar o tema aborto, ali o eleitorado dava seu recado: a de que esta eleição se decidiria no campo dos valores, e não da economia, do assistencialismo, ou dos currículos. Na relação que estou montando de escândalos patrocinados e ocorridos dentro do governo Lula, a lista está em 120 casos, e nem cheguei ao segundo semestre de 2009!

Mas, como disse, nem sou candidato nem marqueteiro. Mas me parece que se a oposição não lograr êxito na corrida presidencial não deve culpar à central de ilegalidades instaladas pelo Planalto para fraudar as eleições. Deve culpar-se a si mesma. O exemplo mais claro disso é o tema privatização, velho dinossauro que Lula e o PT tentam usar contra o governo FHC: mostre-se os celulares, e o que eram os telefones antes da privatização da Telebrás, e visite-se algumas das empresas privatizadas e mostrem em números do antes e do depois. E jogue-se a isca para outro lado: a de que o interesse contra a privatização não era defender o patrimônio público, e sim o cabide empregos dos políticos tupiniquins, às custas da sociedade. Mostrassem o quanto de empregos, renda e novos investimentos o programa todo logrou em favor do país, e o PT, rapidinho, buscaria mudar de assunto. Mostrassem a longa lista de crimes abafados e acobertados pelo governo, a situação humilhante dos hospitais públicos, a precariedade das estradas, portos e aeroportos, e não haveria PAC capaz de encobrir as imagens da realidade. E poderiam dar o xeque mate mostrando as obras do Avança Brasil que Lula interrompeu e depois, copiou, recortou e colou no Pac. Fizessem isto no primeiro turno e não haveria Dilma ressuscitada no segundo turno.

Mas como disse, nem sou marqueteiro nem candidato. Assim...

De qualquer modo, Serra deve insistir não apenas nos sigilos violados, ou no caso Erenice que está sendo empurrado para baixo do tapete: mas o caso espinhoso do Valter Cardeal e suas relações com Dilma Rousseff. Ah, não esquecendo: o caso espinhoso para o PT chamado BANCOOP, onde o tesoureiro do partido e mais quatro, estão prestes a se tornarem réus. Senão é ir prá casa e esperar pela próxima vez.

Perda de parâmetros. Ou: Este colunista dá uma ordem a Lula em nome da Constituição de que ambos somos súditos

Reinaldo Azevedo

Há uma perda generalizada de parâmetros, de referência, de noção do certo e do errado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com seu casarismo tosco, com sua rusticidade estudada e cínica, com sua violência retórica muito além do que seria cabível a um chefe de governo, reduz a política a um confronto de gangues de rua, e vença aquele que conseguir eliminar o inimigo! Ao fim de seus oito anos de mandato, ao contrário do que dizem os áulicos e os candidatos a tanto, o jogo político de tornou menos civilizado, o estado está mais partidarizado, as instituições obedecem menos ao que prescreve a letra da lei e mais ao que determinam as injunções dos grupos de pressão.

É verdade a máxima de que o poder tende a corromper o caráter das pessoas e dos partidos. E a democracia é mesmo um sistema imperfeito, daí que o zelo para preservá-lo tenha de ser permanente; daí que o esforço para corrigir seus defeitos tenha de ser contínuo. Há instrumentos para impedir que o sistema democrático se desvie de seu curso, e — atenção! — a eleição, com a possibilidade de alternância de poder, é um deles. Alternância que pode não acontecer se o povo assim decidir — mas forçoso é que todos os contendores sigam as regras do jogo. E Lula não as segue. Utiliza as prerrogativas de chefe de governo e chefe de estado, que conquistou nas urnas, para se comportar como o chefe de uma facção e, no que concerne aos lamentáveis episódios do Rio, chefe de um bando.

É forçoso lembrar que a entrevista destrambelhada, desrespeitosa, em que aviltou José Serra — nada menos do que o candidato da oposição à Presidência, com possibilidade mesmo de se eleger presidente — foi concedida na condição de presidente da República, não de simples militante partidário. E que se note: jamais um chefe da nação será apenas o membro de um partido. Mas Lula já não quer ser nem mesmo um hipócrita decoroso. Esta certo de que não mais é mais necessário representar o papel que constitucionalmente lhe cabe — e que ele despreza: o de grande magistrado da nação.

Sim, um presidente, em última instância, é o grande árbitro da nação, e dele se espera que seja equânime, mesmo quando seus adversários políticos representam um dos lados da contenda; afinal, ele é presidente também daqueles que não votaram nele e que lutam, de acordo com as regras, para sucedê-lo — e não para substituí-lo.

Mas quê!!! Esse é o entendimento, com efeito, que os democratas têm do regime. Lula, em que pese a sua falta de preparo teórico e vínculo intelectual mais profundo com a esquerda, ganhou corpo numa outra cultura política. Por mais que seu governo seja, evidentemente, o de um país capitalista, ordenado segundo as leis do mercado, sua visão de mundo é herdeira do socialismo, da crença de que um partido detém o espírito e a forma do futuro, de que afrontá-lo consiste numa regressão do processo histórico — e não é só por malandragem publicitária que ameaçam o eleitorado com o retrocesso se o adversário vencer a disputa. Essa convicção autoritária se deixou temperar por todas as benesses e facilidades do poder, de sorte que, hoje, já não se distinguem o assaltante dos cofres públicos do grupo de assalto à democracia. Eles se misturaram; formam uma coisa só.

A entrevista em que Lula acusa Serra de mentir foi desmoralizada pelos fatos. Já sabemos disso. Mas quero chamar a atenção de vocês para a linguagem empregada pelo presidente, para os temos a que recorre para se referir ao candidato da oposição: “esse cidadão” e “esse homem” — já havia antes se referido a Geraldo Alckmin como “esse sujeito”. As pessoas perdem o nome, tornam-se um todo anônimo que tem de ser esmagado. Mais um pouco, diria “esse elemento”. Não expressou uma só palavra de censura à ação de seus correligionários, de sua tropa de assalto, nada! Lula fazia, assim, do agressor a vítima e da vítima o agressor, recorrendo à metáfora futebolística a que reduz todos os conflitos, internos ou externos.

Mas não está só - A imprensa áulica
Mas não é só ele que perdeu os parâmetros — ou que faz questão de não tê-los por método e escolha consciente. Amplos setores da imprensa hoje o seguem nesse desvario: os comprados porque comprados, e isso os define; os tocados pela ideologia porque supõem que, de algum modo, estariam mesmo em confronto duas visões de mundo: uma mais “progressista”, o PT, e outra mais “conservadora”, o PSDB, clivagem que não resistiria a um exame raso dos fatos. Qualquer pessoa intelectualmente honesta seria obrigada a admitir que, em muitos aspectos, o candidato tucano está à esquerda do ajuntamento que Dilma Rousseff representa hoje.

E, nesse ponto, um caçador de contradições inexistentes tenderia a me indagar, tentando alguma ironia: “Mas, então, você deveria se entusiasmar com Dilma”. Tolice! A questão, como tenho escrito aqui tantas vezes, diz respeito à DEMOCRACIA. Da velha esquerda, o PT conserva um valor intocado: o ódio ao regime democrático — e o esforço consecutivo para solapá-lo, agora pela via legal. Afinal, eu sou aquele que sempre desconfiou do caráter desses caras, mas que nunca disse que eles são burros.

A tacanhice ideológica é um mal, no mais das vezes, incurável. Quem faz as suas escolhas pensando não na preservação dos valores da democracia, consubstanciados nas leis e nas instituições, mas no “avanço da luta dos oprimidos” está pronto, a qualquer momento, para conceder com a transgressão institucional se considerar que a tal “justiça das ruas” está sendo feita. E a nossa imprensa está coalhada dessa boçalidade. Há mais esquerdistas na Folha, no Estadão, no Globo, na Globo e na VEJA do que no PT, que sabe instrumentalizar a favor da consolidação do seu poder esse pendor juvenil (não importa a idade do coroa…) para essa noção muito particular de justiça que abastarda as leis. Curiosamente, essa cultura antiestablishment é, hoje, expressão de um arraigado governismo porque, afinal de contas, na comparação, o PT estaria mais próximo dos idéias de justiça social. Dados empíricos podem comprovar o contrário. Mas e daí? Esse é um mal permanente, sem cura.

E não é o mal maior. O governo Lula conseguiu, como nunca antes na história destepaiz, comprar veículos inteiros — jornais, portais, revistas —, de porteira fechada, com todas as alimárias que lá iam. Assiste-se a um verdadeiro show de horrores. O objetivo não é mais a notícia, o fato, tenha-se dele a leitura que for, mas a fofoca, a difamação, a versão que interessa ao partido, a luta política. E o fazem, naturalmente, sem admitir a escolha política. O caso da agressão sofrida por Serra evidenciou com clareza esse desastre moral: mesmo depois de comprovado que o episódio não se resumia a uma “bolinha de papel”, insistia-se na hipótese delinqüente. Houve até quem chamasse a reportagem de “a versão do Jornal Nacional”, como se, no caso, pudesse haver duas verdades.

É compreensível que alguém indague: “Quem é você para falar?” Como escrevi no post em que anunciei que este blog caminha para 5 milhões de páginas visitadas neste mês de outubro, eu tenho lado — expus os valores desse lado. MAS NÃO PRECISO DA MENTIRA PARA DEFENDÊ-LOS, NÃO! Mais ainda: jamais chamei de “notícia” as minhas opiniões. Rejeito a trapaça. Por isso tantos vêm aqui — até os que me detestam. Os petistas, que me lêem obsessivamente — a turma deles é muito ruim, beirando o analfabetismo —, podem falar o diabo a meu respeito, adjetivos nem sempre afetuosos, mas jamais poderão dizer: “Olhem como ele nos atribui o que não fizemos!” Nunca! Eu sempre lhes atribuo o que fizeram; eles se sentem devidamente caracterizados aqui. Só não tenho deles a opinião que têm de si mesmos.

Luta pelo estado, não pelo mercado
Fosse a convicção a mover esses veículos a que me refiro, vá lá. Mas não é! Tampouco se trata de uma luta para conquistar o “outro”: “Ah, se A e B dizem isso, então vamos dizer aquilo para falar com o outro leitor, o outro telespectador, o outro ouvinte, o outro internauta”. Não assistimos a uma luta pelo mercado senão a uma LUTA PELO ESTADO, por seus recursos, pela verba publicitária do governo federal e das estatais. Apostam alto no cavalo que lhes parece vencedor porque contam, depois, dividir o butim. Se não podem enfrentar a concorrência para conquistar os leitores ou telespectadores, vale enfrentar a verdade com a mentira para conquistar o caixa do governo. Estou nessa profissão há um bom tempo já. Nunca assisti a nada parecido.

Questão errada
Tentou-se deslocar o debate para o objeto que teria atingido a cabeça de José Serra, e se questionou se, afinal de contas, a agressão teria sido forte o bastante para levá-lo ao médico, como se o ato, em si, o verdadeiro assalto que petistas tentaram promover na caminhada tucana, fosse uma prática aceitável, corriqueira, adequada às normas da disputa democrática. O fato de que aquela gente lincharia o adversário se tivesse oportunidade não contou de nenhuma maneira. Não se tocou no assunto.

E, quando a questão foi tratada, caminhou-se pelas veredas do obscurantismo. Discordo, por exemplo, severamente de Janio de Freitas, colunista da Folha. Daria para ir de A a Z, sem ficar uma só letrinha pelo caminho. Mas não imaginava ler um texto seu como o de ontem, em que sugere que os tucanos estavam no lugar errado — deveriam era caminhar na beira da praia, sugeriu — e que o elemento de perturbação, sabe-se lá por quê , era Índio da Costa, vice de José Serra. Janio perguntou à vítima do estupro por que ela estava usando minissaia. Quem escrevia ali? Nem mesmo era ele. Tratava-se de um preconceito bem mais antigo do que o próprio colunista.

Encerrando
Perda de parâmetros. Esse é o nome do nosso mal. Aos poucos, como sociedade, vão desaparecendo as noções do que pode e do que não pode. Há dias, na solenidade promovida por um desses panfletos comprados com dinheiro público, Lula conclamou os políticos a enfrentar a imprensa — mais ou menos como os petistas do Ceará, protegidos por Cid Gomes, já querem fazer, silenciando-o. Não se referia, evidentemente, a esta na qual ele passa hoje as esporas (olhem a metáfora rural deste caipira, hehe…), mas àquela outra que tem valores, que não abre mão da democracia, do estado de direito, da Constituição e das leis; àquela que lhe diz com clareza: um presidente da República tem de atuar dentro de seus limites.

Não sei quem vai ganhar as eleições. Corisco nem se entrega nem se assusta com números. Para Corisco, número não é categoria de pensamento nem pode constituir, sozinho, uma moral ou plasmar uma ética. Vença quem vença, Corisco anuncia: estará na Resistência em nome daqueles valores de que não abre mão: democracia, estado de direito, liberdade de expressão, economia de mercado. Por isso Corisco, como cidadão, ordena, em nome da Constituição de que os dois somos súditos:

“Peça desculpas ao país e ao candidato de oposição, senhor presidente da República! É a oposição que legitima a democracia, meu senhor! Afinal, nas ditaduras também é permitido concordar. Aprenda ao menos isso. Nem que seja a última coisa. Nem que seja a primeira!”

Brincadeira tem hora

Dora Kramer - O Estado de São Paulo

Em primeiro lugar, o presidente Luiz Inácio da Silva é a última pessoa com autoridade moral para falar em farsas ou em "mentira descarada", visto que é protagonista da maior delas: a falácia segundo a qual recebeu uma "herança maldita" e que estabilidade econômica, a abertura do Brasil para o mundo, o crescimento e a entrada de milhões do mercado consumidor deve-se exclusivamente ao seu governo.

Há pouco seu governo inteiro junto com sua candidata à Presidência produziram "mentiras descaradas" ao repudiarem as denúncias de que havia na Receita quebras de sigilo fiscal de adversários políticos e que um esquema de tráfico de influência e corrupção estava montado a partir da Casa Civil.

Lula também se precipitou ao atribuir as quebras de sigilo a uma "briga de tucanos". Baseava sua tese no fato de o mandante ser repórter do Estado de Minas sem saber que à época Amaury Ribeiro estava em férias a serviço de outrem.

O presidente da República dá razão ao antecessor que o chama de "chefe de uma facção", quando escolhe insuflar a violência no lugar de contribuir para apaziguar os ânimos.

É o que faria um estadista.

Justiça se faça, Lula não ficou só em sua tentativa de ridicularizar o episódio. Muitos na imprensa partiram para ironias, achando um exagero a reação de José Serra atingido, afinal, só por "uma bolinha de papel".

Foram duas imagens captadas em dois momentos diferentes, comprovou-se ao longo do dia. Mas, ainda que o candidato tucano tenha feito drama, continuam sendo inaceitáveis os ataques de militantes contrariados com a passagem do tucano pelas ruas de Campo Grande (RJ). Brincar com isso é má-fé, tratar como banal a violência eleitoral e, sobretudo, não entender o valor em jogo.

Impedir um ato de campanha com tumultos é violência. Bem como foi violência atirar um balão cheio de água sobre o carro onde estava a candidata Dilma Rousseff ontem em Curitiba. O balão não a atingiu, mas poderia ter atingido. Ainda assim resta a intenção: agredir.

O presidente da República condenará uma violência, mas aprovará a outra? Ou dirá que estava apenas condenando o "teatro" do adversário? Nisso não é crítico autorizado.

É partícipe e mesmo condutor de uma caminhada em direção ao retrocesso: a nos tornarmos permissivos com o uso da violência na política, assim como já estamos no rumo de revogar a integralidade do preceito do livre pensar.

Ovos da serpente.
É assim que começa: a Assembleia Legislativa do Ceará aprovou projeto de um conselho para atuar entre outras funções no "exercício fiscal sobre a prática da comunicação".

Em Goiás, a TV Brasil Central, do governo do Estado, não pode entrevistar adversários políticos.

O projeto de controle da mídia foi iniciativa de uma deputada estadual do PT cearense, aprovado por unanimidade, e ainda precisa passar pelo crivo do governador Cid Gomes.

A censura foi denunciada, num gesto inédito, ao vivo pelo jornalista Paulo Beringhs, proibido de entrevistar o candidato ao governo Marconi Perillo (PSDB), chamado no dia anterior de "mau caráter" pelo presidente Lula em palanque.

Liberdade e luta.
Já que Chico Buarque puxou o assunto ao manifestar seu encanto com o fato de o governo Lula "não falar fino com Washington nem falar grosso com Bolívia e Paraguai", vamos ao fato: o governo brasileiro não deveria é falar fino com ditaduras.

Aliás, o mundo da cultura, que sofreu pesadamente os efeitos da durindana local, nos últimos anos não se incomodou - se o fez não foi em voz alta - com a maleabilidade das vértebras do presidente Lula diante de tiranos.

A complexidade das relações exteriores não cabe em um jogo de palavras. Já a condenação aos crimes das ditaduras às quais o Brasil se dobra para espanto do mundo requer apenas dois atributos: coerência e solidariedade.

Independentemente da opinião eleitoral.

FHC recriou a Petrobrás

Alberto Tamer - O Estado de São Paulo

Está sendo cometida uma grande injustiça com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a respeito da Petrobrás. Neste clima político, querem reverter contra ele o enorme trabalho que fez para o Brasil ao abrir o capital da Petrobrás, em 1997, atenuando os efeitos nocivos do monopólio estatal do petróleo. Ele recriou e salvou a Petrobrás de si mesma. Antes de Fernando Henrique, a Petrobrás era um "petrossauro", um paquiderme pesado repousando em si mesma; ocupava espaço, não fazia e não deixava ninguém fazer. Hoje, é a quarta maior do mundo em valor de mercado e a oitava entre as empresas de capital aberto. Um novo orgulho para o Brasil.

Antes, era aquele pretexto tacanho e mesquinho, da "soberania nacional", resquícios ainda da era de "O petróleo é nosso". Na verdade, não era nosso, era da Petrobrás e sua corporação, que só investia pouco em pesquisa e extração, se concentrava no refino e na comercialização interna porque davam lucro. Por que gastar em pesquisa e produção se podia ganhar mais sem correr risco importando em dólares, refinando e vendendo em reais? Quando o câmbio lhe era desfavorável, recorria aos cofres do governo, seu grande acionista e proprietário, que a protegia de pai para filho. Era uma conta complicada e obscura que ninguém entendia. Nem o governo.

Fernando Henrique ousou. O ex-presidente teve a ousadia feliz de não acabar totalmente com os privilégios da Petrobrás, mas abri-la ao capital privado.

Gás, o esquecido. A Petrobrás reclamou, mas não só sobreviveu como cresceu, se fortaleceu, se agigantou diante da injeção de recursos privados e do desafio das empresas internacionais. Descobriu que não vinham "competir" com ela, roubar-lhe mercado, mas colaborar na pesquisa e extração de petróleo e gás. Este foi sempre o grande esquecido e rejeitado. A Petrobrás sentou-se sobre ele por décadas , nada fez e não deixou que alguém fizesse. Por quê? É simples: o gás competia com o óleo que lhe dava enorme lucro num mercado cativo...

O resultado dessa iniciativa de Fernando Henrique foi que a Petrobrás cresceu, e é hoje umas das maiores e mais respeitadas empresas mundiais de petróleo! Investe no Brasil e no exterior onde extrai e refina petróleo para os mercados interno e externo também. Essa é a Petrobrás renovada que o Brasil precisava. E hoje tem. De uma empresa acanhada, superprotegida, transformou-se na primeira grande multinacional brasileira respeitada no mundo todo. Obra do ex-presidente, que hoje querem esquecer.

Provava-se ali que, ao fechar o Brasil à tecnologia e ao capital externo, o governo não estava reduzindo, mas aumentando de forma assustadora a dependência do Brasil do petróleo externo, das mesmas empresas que ele impedia que o encontrasse aqui.

Poucos se lembram, mas foi nas duas crises do petróleo, 1973 (invasão árabe contra Israel) e 1979, (a revolução dos aiatolás no Irã) que se formou a brutal divida externa brasileira de mais de US$ 200 bilhões. O Brasil pedia dinheiro emprestado no exterior para pagar à vista o petróleo que escasseava no mundo, acumulando dividas astronômicos. Era a cega política de Geisel, o abastecimento, primeiro, o petróleo depois...

A farsa dos contratos de risco. Quando muito, ele permitiu a farsa dos contratos de risco quando se descobriu o petróleo de Campos. Sim farsa, porque os termos dos contratos davam à Petrobrás a escolha das melhores áreas, que ela conheciam mas não explorava, e deixava as piores para o setor privado, nacional ou estrangeiro. Resultado: não vieram como poderiam ter vindo. E, nas duas crises do petróleo, 1973 e 1979, era mais dependente do que nunca do petróleo importado... Daí o titulo do nosso livro Petróleo, o preço da Dependência, um retrato histórico.

Aqui de novo FHC. E só vieram mesmo, de verdade, depois que o ex-presidente Fernando Henrique abriu o capital da Petrobrás. E estão vindo cada vez mais, não para "roubar"o petróleo recém-descoberto, mas para compartilhar com o Brasil a receita do petróleo que encontrarem. A Petrobrás não foi "enfraquecida", pois será a única operadora, mas revigorada. Obra do ex-presidente que acusam agora de "privativista".

A história - e estou sempre disposto a recontá-la - mostra que foi Fernando Henrique quem recriou e salvou a Petrobrás, quem a tirou da modorra, da apatia do monopólio total para a do semi-monopólio (é isso mesmo, ainda hoje monopólio de fato!) para ser o que é. A quarta maior empresa mundial em valor de patrimônio e a maior multinacional brasileira.

O presidente da Petrobrás, em vez de criticá-lo, deveria lhe oferecer a medalha de ouro! Foi ele, repito, quem recriou e salvou a Petrobrás de si mesma.

Senhores, o petróleo é coisa muito séria. Temos 50 bilhões de barris para extrair de mares profundos, nos transformando em grandes produtores e exportadores mundiais.. Não o misturem com o jogo político que passa a vai acabar em alguns dias. Por favor, deixem o petróleo e a Petrobrás em paz A libertação da Petrobrás do monopólio estatal - sim, libertação! - foi uma das maiores realizações do governo de Fernando Henrique, superada apenas pela privatização do setor de comunicação. Não fosse ele, teríamos hoje não só ainda não só um Petrossauro, mas um Telessauro também, como tivemos por muito tempo. Senhores da Petrobrás, façam justiça ao ex-presidente Fernando Henrique! O Brasil e a Petrobrás devem muito a ele.

O ódio e a mentira se juntam no palanque

Augusto Nunes, Veja online

“Politica a gente não pode fazer com ódio, com agressão, mas ninguém aguenta mentira!”, mentiu no falatório desta terça-feira o palanqueiro que trocou a Presidência da República para assumir o comando de uma facção ─ e agredir com singular virulência todos os que ousam divergir da palavra do Mestre. O alvo imediato da discurseira foi o ex-governador Marconi Perillo, candidato a mais um mandato pelo PSDB. Mas ondas de ódio se propagam na velocidade do som, confirmou nesta tarde o ataque boçal de milícias do PT à passeata de José Serra no Rio.

“Uma coisa que a gente aprende no berço, na relação familiar, é a questão de caráter, de respeito!”, continuou o berreiro em Goiânia. “Não tem nada pior que um politico sem caráter algum, que não colocou um trilho na Ferrovia Norte-Sul, dizer que ele que fez a ferrovia!”. Lula gosta de falar perigosamente: Perillo deveria ser o último nome na lista das vítimas do animador de comícios.

Na improvável hipótese de que tenha reivindicado a execução de uma obra federal, o acusador continuaria em débito com o acusado. Em 2003, como atesta o vídeo, o ex-governador propôs a Lula a criação do Bolsa Família, cuja paternidade seria roubada pelo beneficiário da ideia. Em 2005, foi o mesmo Perillo quem sugeriu ao presidente que procurasse informar-se sobre uma nova modalidade de bandidagem em curso no Congresso. Fora batizada de “mensalão”.

O tom colérico da voz, o rosto crispado, o cortejo de insultos, o desfile de bazófias e bravatas ─ a soma de sinais inconfundíveis gritou que Lula apareceu em Goiás nem tanto para reeleger-se com o nome de Dilma Rousseff, ou para anabolizar a candidatura cada vez mais anêmica do companheiro Iris Rezende, mas para impedir a vitória de Perillo. Se o PSDB perder a eleição, o ressentido incurável terá matado simultaneamente o mensageiro de más notícias e o real criador do Bolsa Família.

Para tanto, Lula não reluta em assassinar a verdade e o próprio passado. A obra cuja autoria reclama aos berros é a mesma em que o oposicionista do século passado enxergou um monumento à corrupção. Em 6 de setembro de 1987, num comício em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva, presidente nacional do PT, disse o que pensava da Ferrovia Norte-Sul e do presidente José Sarney, que a concebera:

“Ademar de Barros e Paulo Maluf poderiam ser ladrão, mas eles são trombadinhas perto do grande ladrão que é o governante da nova República, perto dos assaltos que se faz”, garantiu o candidato crônico. “O presidente da República ao invés de fazer açude, ao invés de fazer cacimba, ao invés de fazer poço artesiano ou fazer irrigação no Nordeste, vai gastar 2 bilhões e meio de dólares pra construir uma ferrovia, Norte-Sul, ligando a casa dele no Maranhão até a casa dele em Brasília”. A “ferrovia do Sarney” hoje é a Ferrovia do Lula. Não é falta de memória. O que sempre faltou é vergonha.

Nesta quarta-feira, o ataque físico a José Serra confirma que, agora mais do que nunca, falta polícia, falta Ministério Público e falta Poder Judiciário.

Uma questão de caráter

O Estado de São Paulo

Na reta final do segundo turno da eleição presidencial a baixaria se generaliza. É impossível determinar até que ponto o lamentável rebaixamento do nível do que deveria ser um debate político esclarecedor deve-se à ação direta dos comandos das campanhas.

Certamente, boa parte dessa guerra suja pode ser debitada à iniciativa irresponsável de militantes extremamente agressivos, de ambos os lados, que, principalmente pela internet, lançam mão das mais torpes mentiras para atacar os adversários. Mas há também o horário gratuito na mídia eletrônica, que nos últimos dias vem sendo usado cada vez mais para veicular ataques e acusações. E assim, tudo considerado, não há como eximir de culpa os responsáveis pela condução das campanhas. É tudo muito lamentável e a constatação a que se acaba chegando, com benevolência, é a de que este é, infelizmente, o tributo que se paga à imaturidade política e à fragilidade dos valores democráticos da sociedade brasileira - problemas que muitos julgavam já superados. Somos, portanto, todos responsáveis.

A responsabilidade, porém, deve ser atribuída com peso proporcional à importância de cada um dos atores da cena política. E é aí que assoma o triste papel que vem desempenhando - na verdade, desde sempre - o presidente da República. Lula, que é, reconhecidamente, quem dá o tom da campanha da candidata do PT, não hesita em partir para a agressão sempre que se vê contrariado. E não mede palavras quando parte para o ataque. Nada mais natural, portanto, que seu exemplo de agressividade seja seguido pelos militantes petistas. Até com agressão física, como a que ocorreu em Campo Grande, no Rio de Janeiro, contra o candidato tucano José Serra.

Depois do susto do primeiro turno, o homem que se considera o inventor do Brasil resolveu partir para o tudo ou nada contra aqueles que elegeu como seus principais inimigos: a oposição e a imprensa. Na verdade, ele gosta de achar que uma e outra são a mesma coisa, mas isso faz parte da tática de confundir para dominar.

Na entrega dos prêmios "As empresas mais admiradas do Brasil", ao qual compareceu a convite da revista semanal promotora do evento, Lula pontificou: "Enquanto a classe política não perder o medo da imprensa, a gente não vai ter liberdade de imprensa neste país. A covardia é muito grande." Pouco lisonjeiro para a "classe política", certamente. Mas qual será o significado real dessa exortação? Mais uma ameaça à imprensa que não lhe rende loas? De fato, Lula tem uma visão muito peculiar de qual deva ser o papel dos veículos de comunicação. Foto e exaltação a Dilma Rousseff na capa do jornal da CUT pode. Crítica ao PT na capa da revista Veja é "acinte à democracia e uma hipocrisia". A indignação do presidente parece resultar de que boa parte dos jornais, revistas, rádios e televisões se nega a atender ao pouco que ele pede: "A única coisa que quero que digam é a verdade. Sejam contra ou a favor, mas digam a verdade." Mas, quando cada um tem a sua própria verdade, Lula quer que fiquemos sempre com a dele.

Por exemplo, em comício realizado dias atrás em Goiânia, ao lado de sua escolhida para governar o Brasil, Lula ensinou: "Política a gente não pode fazer com ódio, com agressão. Ninguém aguenta mentira. Não tem nada pior do que um político mau caráter, alguém que não colocou um trilho na ferrovia dizer que ele fez a ferrovia", disse, referindo-se ao candidato ao governo de Goiás Marconi Perillo.

Claro que não se dá conta de que, partindo para a xingação pura e simples, está liberando os seus "balilas" do Rio de Janeiro para a agressão física. Em caso algum se pode admitir que um presidente da República insulte adversários políticos do alto de um palanque eleitoral. No caso de Lula, porém, a coisa é mais grave, considerando-se que se cercando das companhias de que se cercou para constituir maioria no Congresso, que autoridade moral tem para acusar alguém de mau-caratismo?

Como cidadão, Luiz Inácio Lula da Silva tem o direito de tomar partido no processo de sua sucessão - até inventando, como fez, a candidata. Como presidente, tem o dever de se comportar com a dignidade e a moderação que seu cargo exige. Não faz isso, por uma questão de caráter.

Ao zombar do incidente com Serra, Lula é irresponsável e desrespeita o cargo

Ricardo Setti, Veja online


Depois que a competência da Rede Globo, com o indispensável auxílio de um celular de um repórter da Folha de S.Paulo , comprovou e mostrou ao país inteiro que o presidenciável José Serra foi atingido duas vezes, e não apenas uma — pela bolinha de papel — na caminhada que fez ontem pelo calçadão de Campo Grande, no Rio, ontem, chega a ser inacreditável constatar a irresponsabilidade do presidente Lula em classificar o oponente de Dilma Rousseff como “mentiroso” e zombar do incidente, em vez de condená-lo como parte do ato de selvageria praticado por militantes petistas, que não deveria ter lugar numa democracia.

Lula nem sequer se deu ao trabalho de examinar bem os fatos, como o portal UOL e a Rede Globo fizeram. Sem prova de nada, acusou o adversário de Dilma e, de quebra, duvidou publicamente, e quase às gargalhadas, da integridade do médico que atendeu Serra.

O presidente da República começou a desrespeitar o cargo que ocupa — e que não lhe pertence, mas a todos nós, brasileiros — há um bom tempo, quando abandonou o desejável papel de magistrado nas eleições, trocando-o pelo mais familiar, a ele, de palanqueiro. Com suas declarações e zombarias de hoje, assumiu, sem disfarces, o desrespeito.

Julgando-se acima do bem, do mal e da lei eleitoral, dando caneladas no bom senso e na dignidade do cargo, Lula está atirando pela janela o que de bom realizou no governo, deixando um péssimo exemplo e um péssimo registro para a História.

Deboche com que Lula trata Serra não leva em conta algo difícil, mas possível: uma derrota de Dilma

A agressividade, o desrespeito e, agora, o deboche com que o presidente Lula trata o candidato tucano à Presidência, José Serra — que, justiça seja feita, não contaminaram a presidenciável do PT, Dilma Rousseff –, não revelam apenas sua má educação e a falta de compostura no exercício do cargo.

Evidenciam, também, a auto-suficiência e a arrogância de quem nem sequer cogita, ainda que remotamente, da possibilidade — que não está próxima, mas existe — de Serra derrotar sua candidata no dia 31.

Se levasse em conta a hipótese, sempre presente, de uma vitória do candidato azarão, o presidente precisaria pensar que, nesse caso, ele não apenas terá que tratar detidamente com o adversário transformado em inimigo — no necessário processo de transição de um governo para o outro –, como, diante do público e dos olhos do país, transmitir-lhe a faixa presidencial no Palácio do Planalto.

Lula está levando as coisas a um tal nível de agressividade, de “eles” e “nós” — o oposto da postura que um presidente deve adotar –, que tornará penoso, constrangedor e complicado esse processo, se ele vier a ocorrer.

Conversa vai, conversa vem...

Maria Helena R. R. Silva

Hoje o papo é minimérrimo:

a) eu ouvi mal, ou o Lula disse que está na hora de Minas ter um presidente da República, pois nunca teve um? Com certeza eu ouvi muito mal...

b) passo a palavra hoje para o Cláudio Alves - parece brincadeira, mas o que eu tinha em mente é o que ele escreveu. E rendo-me a que disse tudo muito melhor do que eu diria. MH

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“É pau, é pedra...”

Existem coisas que devem ter o nome dito como realmente são...

Mas não ocorre isso com algumas pessoas nesse país.

Na entrevista dada ao Jornal Nacional, a “cumpanhera candidata Dilma” disse que seu “braço-direito” de longa data, Erenice, cometeu “um erro”. Peraí... Um erro? Ainda por cima, esqueceu-se de seguir o conselho do seu “guru-ventríloquo” que a mandou “se dizer indignada”...

Como nesse país crime, contravenção, extorsão, e tantas outras afrontas à Lei, mudaram de nome ou viraram simplesmente “erros”?

Se ela admite que Erenice errou, tem que admitir que houve prevaricação, no mínimo. Ah... Tá... Tem que esperar as investigações da Policia Federal pra saber o que ocorreu, mas as cabeças já rolaram e cada vez mais vão se descobrindo informações comprometedoras... Mas não... ”Foi um erro”...

“Caixa-dois” virou “recursos não contabilizados”;

“Achacadores” virou “aloprados”;

“Dossiê” virou “banco de dados”;

Devemos dar nome às coisas como elas são.

Caixa-dois é crime e assim deve ser encarado e repreendido.

Achacar, chantagear, prevaricar, corromper ou deixar-se corromper é crime ou contravenção e assim deve ser tratado, independente de partido, cor, credo, gênero ou grau de parentesco.

É isso... “É pau, é pedra...” e se a Justiça for realmente justa, “é o fim do caminho...”

Cláudio Alves

Dissidente cubano ganha prêmio na Europa

Veja online

Fariñas já iniciou 23 greves de fome contra o regime dos irmãos Castro

Guillermo Fariñas ficou 135 dias sem comer (Reuters)

O dissidente cubano Guillermo Fariñas - que já iniciou 23 greves de fome contra o regime dos irmãos Castro - foi anunciado nesta quinta-feira pelo Parlamento Europeu o vencedor do Prêmio SaKharov 2010 de liberdade de pensamento. Este é a terceira premiação concedida à oposição cubana, após a condecoração de Oswaldo Payá, em 2002, e das Damas de Branco, esposas de presos políticos, em 2005.

O reconhecimento ocorre pouco antes da reunião de segunda-feira dos ministros europeus das Relações Exteriores que deve revisar a Posição Comum com Cuba. O documento condiciona as relações da União Europeia (UE) com Havana a avanços nos direitos humanos e mais democracia.

Greve de fome -
Após 135 dias sem comer, Fariñas desistiu da mais recente greve de fome a que se submeteu, no início de julho, após a Igreja Católica de Cuba anunciar a libertação de 52 presos políticos. O dissidente, que tem 48 anos, é jornalista e psicólogo. Ele permanecia em uma unidade de terapia intensiva desde o dia 11 de março, quando sofreu um choque hipoglicêmico em razão da falta de comida. Ele chegou a declarar que sua morte era iminente e que os culpados seriam Raul e Fidel Castro.

(Com agência France-Presse)

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Teriam Celso Amorim e Lula coragem de enviar cumprimentos ao cubano pelo prêmio recebido? Não fizeram com o dissidente chinês vencedor do Nobel da Paz, muita menos o farão com o Farinãs.  E depois eles querer arrotar um grandeza que ainda não tem!!!

Os perigos do fanatismo

Mauro Santayana, Jornal do Brasil

Vejamos os fatos com serenidade, não obstante o ensandecido comportamento de militantes das duas candidaturas. Podemos debitar a Serra a aproximação com o neoliberalismo globalizador e antinacional, como ministro de Fernando Henrique, mas isso não o transforma em traidor do povo e da pátria. Os adversários de Dilma incriminam-na por ter participado da luta armada, embora não haja, até o momento, provas de que tenha realmente alvejado alguém. Ainda que ela tivesse participado de combates guerrilheiros, isso não a tornaria menos humana e menos brasileira. A história dos povos é plena de exemplos de como o insurrecto de ontem é o estadista de hoje. Em princípio, todos os que abraçam uma causa o fazem por considerá-la justa.

Postular a mais alta posição republicana é direito de todos os possuidores de um título de eleitor que preencham as condições exigidas pela justiça, com a observação de que a lei é muito condescendente nesse particular. Pelo que se sabe, tanto Dilma quanto Serra obtiveram o registro normal e correto de suas candidaturas. Neste segundo turno está bem definida a posição de cada candidato, em que Dilma representa a coligação no poder, e que nele pretende continuar, e Serra é o escolhido pela oposição. E, a menos que mintam, o que também é possível, embora não muito provável, ambos prometem avançar na construção de uma sociedade justa e desenvolvida, sem violar o contrato republicano ratificado pela Constituição. É certo que eles têm sido, em seu proselitismo, muito avaros na revelação de sua inteligência política e de seus conhecimentos doutrinários, dando aos observadores a impressão de que não sabem exatamente o que é Estado e o que é o Brasil.

Mas, seja pelo descuido de ambos os lados, ou falta de pulso forte dos candidatos sobre os seus prosélitos, a campanha está caminhando para o confronto estúpido. Registre-se que a violência mais exacerbada, principalmente via os meios de comunicação, entre eles, a internet, se iniciou contra a candidata do PT. Mas, de algum tempo para cá, os dois lados se equivalem na mesma insensatez. Grupos de militantes dos dois lados cercam as manifestações adversárias, e, ontem, alguém atirou um objeto contra José Serra, em Campo Grande, no Rio de Janeiro. Foi ato de provocação – não importa quem tenha atingido o candidato – e que promete novo acirramento da disputa, nestas horas que se tornam mais agudas e mais perigosas.

Por outro lado, estamos assistindo a orquestrado conflito religioso em um Estado laico, como o brasileiro. Já temos indesejável intromissão religiosa no Estado, desde o Império. Para que a República respeite a fé de cada um, é necessário que se mantenha ausente. Nesse particular é bom observar que o governo atual errou, ao negociar acordo com o Vaticano, sobretudo quando a cadeira de Pedro é ocupada por Ratzinger.

Um país de maioria cristã, como o nosso, é destinado ao convívio cordial entre todas as confissões, ainda que algumas delas, desviando-se de Calvino, Lutero e outros, se tenham transformado em grupos comerciais.

A disputa deve ser entre projetos de governo, de Estado e de nação, que são instituições temporais. Os verdadeiros fiéis devem deixar a sua crença longe das urnas. E conviria aos candidatos poupar os cristãos e os agnósticos da atitude farisaica de frequentarem templos em que rezam compungidos. Não necessitamos de novo beato, mas, sim, de quem presida à República.

Responsável por quebra de sigilo de tucanos diz que Rui Falcão copiou os arquivos

Fernando Mello, Veja online

VEJA teve acesso ao depoimento de Amaury Ribeiro Junior à Polícia Federal, no qual ele confirma que foi convidado para integrar equipe de espiões da pré-campanha petista

O único momento em que a expressão "fogo amigo" aparece no depoimento é quando Ribeiro Junior se refere à briga interna entre os grupos petistas de espionagem na casa do Lago Sul, em Brasília

O jornalista Amaury Ribeiro Junior, que encomendou a quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha de José Serra, e de outras pessoas ligadas ao PSDB, afirmou em depoimento à Polícia Federal (PF) que os dados obtidos por ele com a cooperação de servidores da Receita Federal de São Paulo foram copiados em abril deste ano por Rui Falcão, um dos coordenadores da pré-campanha de Dilma Rousseff à Presidência da República. VEJA obteve a transcrição integral do termo de declaração de Ribeiro Junior à PF, que está anexado ao inquérito do caso. Em nenhum momento, em seu depoimento, ele diz ter agido para “proteger” Aécio Neves, tese sustentada pelo presidente do PT, José Eduardo Dutra, e outros dirigentes do partido. A credibilidade de Ribeiro Junior é relativa, já que ele está no olho do furacão do escândalo da quebra de sigilos, mas sua narrativa ajuda a jogar luz sobre alguns pontos da operação criminosa que culminou com a criação de um dossiê que seria usado para prejudicar Serra na campanha.

Ribeiro Junior afirma que começou a investigar pessoas ligadas ao PSDB “há dez anos”, quando ainda trabalhava no jornal O Globo. Seu "foco", diz, eram as privatizações do governo FHC. Depois disso, ele passou pelas redações do antigo Jornal do Brasil e da revista Istoé, onde afirma ter continuado a recolher informações sobre o partido. No final de 2007, foi contratado pelo jornal O Estado de Minas e, segundo conta, continuava nutrindo interesse especial pelos tucanos. Em 2008, Ribeiro Junior diz ter recebido uma dica passada por “fontes da comunidade de informações”. Haveria um grupo de espiões que, segundo Ribeiro Junior, trabalharia para Serra, investigando outro tucano, Aécio Neves. No depoimento, o jornalista afirma que, por conta própria, “decidiu retomar as investigações das privatizações, agora (naquele momento) focando também pessoas ligadas a José Serra”.

As quebras de sigilo realizadas na Receita Federal ocorreram em outubro do ano passado. Nesse período, Ribeiro Junior havia decidido se demitir do jornal, alegando que precisava cuidar do pai, que estava doente e faleceu pouco depois. O jornalista aproveitou para tirar férias em seu último mês na empresa, antes de formalizar a demissão. Foi durante as férias dele que as quebras de sigilo foram perpetradas. Ele viajou a São Paulo para pegar o material. De posse das informações, não voltou a trabalhar no jornal mineiro, apesar de garantir ter deixado uma cópia dos papéis na redação. O jornal O Estado de Minas nunca publicou nenhuma reportagem sobre o assunto.

Pois bem. Por volta de abril deste ano, Ribeiro Junior diz ter sido convidado para trabalhar na pré-campanha de Dilma Rousseff. Ele foi chamado por Luiz Lanzetta, também jornalista, incumbido de formar um “núcleo de inteligência”, ou seja, espionagem, para a petista. Ribeiro Junior foi a Brasília e se hospedou em um flat no apart-hotel Meliá. O lugar pertence a um certo “Jorge”, que segundo Amaury lhe foi apresentado como “responsável pela administração dos gastos da casa do Lago Sul (a sede do tal grupo de inteligência) e da campanha de Dilma Rousseff. Ribeiro Junior diz ter levado para o apartamento um laptop com suas “apurações”, ou seja, a investigação ilegal sobre a família de Serra. E afirmou à PF “ter certeza” que o material “foi copiado por Rui Falcão, pois somente ele tinha a chave do citado apartamento, pois já havia residido no mesmo”. O jornalista também afirmou à polícia que foi até a recepção do apart-hotel e verificou que o nome de Falcão constava como sendo o ocupante do apartamento.

Rui Falcão vive em São Paulo e acaba de se reeleger deputado estadual pelo PT. Naquele período, no entanto, era um dos mais atuantes articuladores da pré-campanha de Dilma Rousseff. Ele representava o grupo do PT paulista, que, liderado pela ex-prefeita Marta Suplicy, disputava espaço internamente com o PT de Minas Gerais, cujo principal representante àquela altura era o ex-prefeito de Belo Horizonte, e amigo pessoal de Dilma, Fernando Pimentel. O PT tenta emplacar a versão de que as quebras de sigilo encomendadas por Ribeiro Junior foram motivadas por um suposto “fogo amigo” entre Serra e Aécio, mas o único momento em que essa expressão aparece no depoimento do jornalista é quando ele se refere à briga interna entre os grupos petistas de espionagem na tal casa do Lago Sul. Depois que o escândalo do dossiê estourou, Ribeiro Junior foi contratado pela TV Record, do bispo Edir Macedo, que apóia a candidatura Dilma.

MP desmente PF e diz que investigações sobre dossiê não estão concluídas
O Ministério Público Federal (MPF) divugou nesta sexta-feira nota em que desautoriza a Polícia Federal a divulgar detalhes do inquérito que investiga a quebra de sigilo fiscal de tucanos. No texto, o MPF afirma que ainda não é possível tirar conclusões sobre o caso, e insinuou que a Polícia Federal teria descumprido suas atribuições ao conceder entrevista coletiva dando detalhes das investigações.

“O Ministério Público Federal, destinatário do inquérito, não ratifica qualquer conclusão ou declaração acerca de possível encerramento ou término das investigações, e lembra que o inquérito permanece sob segredo de Justiça, o que obriga ao sigilo todos os agentes do Estado, especialmente aqueles da persecução criminal”, diz o texto, divulgado no fim da tarde.

A nota afirma ainda que somente o Ministério Público Federal pode dar as investigações como encerradas. E não compartilha da tese, apresentada pela Polícia Federal, de que o caso já está esclarecido – embora ainda restem diligência a serem feitas. “O Ministério Público Federal e a própria Polícia Federal não podem descartar, não descartam e não descartarão, qualquer hipótese de investigação”, traz o texto divulgado pelo MPF.

Nesta quarta-feira, a Polícia Federal divulgou à imprensa sua conclusão sobre a quebra de sigilo de pessoas ligadas ao presidenciável tucano José Serra. O jornalista Amaury Ribeiro Júnior foi apresentado como o principal responsável pelos delitos. Em sua versão, ele diz que o dossiê elaborado por ele chegou, posteriormente, às mãos do petista Rui Falcão, um dos coordenadores da campanha de Dilma Rousseff. Amaury nega ter repassado o material à equipe da candidata, e acusa Falcão de ter roubado os dados de seu notebook.  (Gabriel Castro, de Brasília)

ANJ critica proposta de criação de conselho

Moacir Assunção - O Estado de São Paulo

Para diretor do órgão, iniciativa no Ceará é 'obscurantista e autoritária' ao pretender controlar a imprensa

O diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, classificou de "obscurantista e autoritária" a proposta de criação do Conselho de Comunicação do Estado (Cecs), aprovada pela Assembleia do Ceará, por iniciativa da deputada Raquel Marques (PT).

O conselho estadual segue diretrizes estabelecidas pela 1.ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Essas diretrizes chegaram a integrar o programa de governo da presidenciável Dilma Rousseff (PT), apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Diante da polêmica em torno das propostas, que preveem o controle da mídia, elas acabaram sendo retiradas do texto pela petista.

A ANJ teme que, na prática, o futuro órgão, cuja existência ainda precisa passar por sanção do governador Cid Gomes (PSB), acabe sendo usado para controlar a imprensa. "Quem deve controlar os veículos de comunicação deve ser sua audiência. Não cabe a nenhum órgão do Estado exercer este papel", defendeu Pedreira. A proposta de criação do conselho foi aprovada por unanimidade na Assembleia.

A Confecom, promovida por iniciativa do governo federal, contava com apoio de setores do PT que defendem o controle dos meios de comunicação. "A proposta é inconstitucional e esperamos que não seja sancionada pelo governador, até porque atenta contra a democracia e o bom senso", afirmou o executivo da ANJ.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, defendeu uma discussão sobre o tema na sociedade, mas em sua visão a questão do controle do Estado só pode se dar em emissoras públicas de TV e Rádio. "No que diz respeito a atividades de empresas privadas não deve haver nenhuma forma de lesão à liberdade de imprensa e de expressão."

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindijorce), Clayson Martins, afirmou que vai trabalhar para viabilizar a atuação do conselho, por meio de audiência a ser marcada com o governador Cid Gomes.

De acordo com o texto aprovado, o conselho integrará a Secretaria da Casa Civil do governo tendo entre suas competência a de "definir a política de comunicação estadual, por meio de estudos, pareceres e recomendações, além de acompanhar o desempenho e a atuação dos meios de comunicação local".

Adiar o inadiável

Míriam Leitão, O Globo

A tática não está dando certo. O governo adiou a conclusão da sindicância sobre Erenice Guerra, nem ouviu a própria Erenice, mas novos indícios surgem. A Fazenda tentou embrulhar a quebra do sigilo fiscal de adversários políticos na Receita como crime comum, mas novos indícios surgem. Dilma Rousseff chamou de “fofoca” a queixa judicial de um banco do governo alemão, mas a dúvida continua.

O governo quer deixar para divulgar tudo depois das eleições para evitar marolinhas, mesmo assim está sendo difícil adiar o esclarecimento das graves questões que surgiram durante o processo eleitoral.

Há 60 anos o KfW financia o desenvolvimento brasileiro, é parceiro estratégico. É uma espécie de BNDES alemão, não pode ser tratado como um bancorete que quer fazer “fofoca” no Brasil. O próprio banco divulgou nota deixando claro que não quer influir na disputa eleitoral brasileira. O que ele tem é uma disputa judicial e financeira. A instituição diz que recebeu a confirmação de que a Eletrobrás poderia ser o avalista de um empréstimo privado que estava sendo concedido. Entre os que garantiam isso estava o homem que é diretor da Eletrobrás e presidente do conselho de administração da Eletrosul, Valter Luiz Cardeal de Souza. Ele foi para o governo federal levado por Dilma Rousseff e foi mantido em seus postos mesmo após ser denunciado por gestão fraudulenta na operação Navalha, em 2007. O empréstimo dado aos projetos não foram pagos e os projetos não foram feitos. O dinheiro sumiu. E agora? É que o banco quer saber.

A candidata Dilma Rousseff está repetindo nesse caso o mesmo comportamento que teve no caso Erenice: o de desprezar a informação como falsa. Primeiro, ela disse que o caso Erenice era “factóide”. Hoje, gasta energia se esgueirando da pergunta óbvia: como não sabia de nada já que Erenice era seu braço direito? Diante do escândalo do Cardeal, ela usa a palavra “fofoca”. E os fatos estão exigindo uma explicação mais sólida e consistente.

Está na hora de saírem de cena as respostas preparadas pelos marqueteiros. A candidata Dilma Rousseff precisa responder com sinceridade ao povo brasileiro sobre os vários casos que se acumulam. Dilma tem reconhecidas qualidades, mas ao mesmo tempo há sombras assustadoras levantadas em cada um desses casos. As manobras protelatórias, o ato de varrer para debaixo do tapete as dúvidas e indícios, as negativas desqualificadoras do tipo “é factóide” ou “é fofoca” só vão tirar dela credibilidade antes mesmo de ela assumir, caso seja eleita.

Um banco como o KfW não pode ser tratado com esse desprezo pelo que está reclamando. Ele já financiou inúmeros empreendimentos no Brasil nos últimos 60 anos, inclusive as centrais nucleares. Certamente será necessário no futuro. Pode-se provar na Justiça que ele está errado em sua queixa e que nunca alguém do governo brasileiro deu qualquer garantia estatal para empréstimos ao setor privado, mas o que não se pode é fazer pouco de uma ação judicial impetrada pelo banco alemão como fez a candidata Dilma Rousseff. Ela teria que ser ainda mais cuidadosa porque quem está envolvido no caso é uma pessoa nomeada por ela mesma para cargos no governo Federal. Se o seu critério não funcionou no recrutamento de Erenice Guerra, mais um motivo para que o assunto seja levado a sério, porque Dilma está pedindo aos eleitores que confie o país ao seu comando, por quatro anos.

A “Folha de S.Paulo” publicou que o esquema de tráfico de influências montado pela família de Erenice Guerra no Planalto usava também dois outros órgãos da presidência, a Secretaria de Assuntos Estratégicos e o Gabinete da Segurança Institucional. E que um desses supostos elos é Gabriel Laender, um dos responsáveis pelo Programa Nacional de Banda Larga. Ele foi advogado da Unicel, empresa na qual o marido de Erenice foi diretor. Ou seja: mais uma volta no enrolado novelo da Casa Civil.

O caso da Receita, que antes da hora o órgão tentou dar por encerrado, tem novas suspeitas de que os dados acessados tinham objetivo de serem usados politicamente. A suspeita de uso da máquina pública contra adversários continua pairando sobre a Receita. A conclusão do corregedor do órgão havia sido de que houve compra e venda de informações, mas que não haveria indícios de que as informações foram acessadas para uso político, apesar de as vítimas serem quatro pessoas ligadas diretamente à cúpula do PSDB ou ao candidato José Serra. É preciso ter uma enorme capacidade de abstração para não ver as suspeitas de uso político. Felizmente, a Polícia Federal continua investigando e apareceram agora novos dados e suspeitas.

O importante para a Receita Federal era lutar por sua própria reputação. O órgão, respeitado por sua seriedade, aceitar fazer parte de uma tentativa de acobertamento é assustador.

Ao Jornal Nacional, esta semana, Dilma Rousseff disse o seguinte: “a gente tem que ser muito claro com o eleitor e não tentar enganá-lo. Erros e pessoas que erram acontecem em todos os governos. O que diferencia os governos é a atitude em relação ao erro. Nós investigamos e punimos.” É. Pois é. Então é preciso não adiar as informações do caso Erenice, não enganar os eleitores no caso da Receita, incluir Erenice na investigação porque até agora ela não foi incluída, não desprezar a queixa judicial feita pelo banco alemão. Em suma: falar claro.

Dívida do governo federal cresce e chega a R$ 1,6 tri em setembro

Folha de São Paulo

A dívida do governo federal chegou a R$ 1,626 trilhão em setembro, uma alta de 0,5% na comparação com o mês anterior, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Tesouro Nacional.

O maior aumento ocorreu na dívida interna, composta basicamente por títulos públicos negociados no mercado financeiro. Esse tipo de endividamento passou de R$ 1,525 trilhão para R$ 1,534 trilhão no período, alta de 0,64%. O crescimento da dívida interna reflete a incidência de juros sobre os papéis emitidos pelo governo federal: em setembro, esses encargos financeiros somaram R$ 9,203 bilhões.

A dívida externa, ao contrário, se reduziu em 1,86% e encerrou o mês passado em R$ 91,76 bilhões. Nesse caso, a queda se explica pela movimentação do câmbio, já que os títulos da dívida externa são negociados em moeda estrangeira e, portanto, têm seu valor reduzido sempre que o real se valoriza.

Os títulos com remuneração prefixada tiveram a participação ampliada de 32,82% para 34,62% nesse período. De acordo com o Tesouro Nacional, o resultado deve-se principalmente à emissão líquida de R$ 29,57 bilhões desses papéis.

Apesar do crescimento, o perfil da dívida federal registrou uma pequena melhora no mês passado. Entre agosto e setembro, a participação dos papéis prefixados no endividamento total subiu de 34,6% para 36,1%. Em tese, a maior participação desses títulos é mais favorável porque seus juros são definidos no momento de sua emissão, ou seja, mesmo que os juros praticados no mercado venham a subir, a taxa paga por esses papéis permanece inalterada.

Processo que condenou Dilma no tempo da ditadura continua escondido no tribunal militar

Ricardo Setti, Veja online


A ficha nos arquivos militares de Dilma Rousseff

É um total absurdo a atitude que está adotando o presidente do Superior Tribunal Militar (STM), ministro Carlos Alberto Marques Soares, de sonegar ao jornal Folha de S. Paulo o exame dos autos do processo em que a presidenciável Dilma Rousseff, do PT, foi condenada à prisão durante a ditadura.

Primeiro, ele negou acesso do jornal ao processo. Posteriormente, a Folha descobriu que a papelada foi retirada do arquivo do STM — e acessível ao público, segundo a lei — e guardada num cofre, com a desculpa de que não quer que façam “uso político” do material.

A atitude do ministro é ilegal. A Folha impetrou mandado de segurança junto ao STM para obter a liberação do processo mas a Advocacia-Geral da União pediu vista — mais tempo para examinar o material.

Estão empurrando com a barriga, com o auxílio da Advocacia Geral da União, algo que deveria ser público.

Leia a reportagem publicada pela Folha no dia 17 de agosto passado a respeito, assinada pelo repórter Lucas Ferraz, da sucursal de Brasília:

Está trancado desde março, num cofre da presidência do Superior Tribunal Militar, todo o processo que levou a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, à prisão durante a ditadura (1964-85).

A papelada, retirada dos arquivos por ordem do próprio presidente do tribunal para prevenir um eventual uso político do material, revela em fichas, fotos, depoimentos e relatórios de inteligência a militância de Dilma à época.

Até março, quando foram “escondidos”, os documentos poderiam ser consultados pelo público, como advogados, jornalistas, pesquisadores e pelas partes do processo. A liberação, quase sempre, é feita pelo ministro-presidente do tribunal, Carlos Alberto Marques Soares.

Em entrevista à Folha, ele admitiu que o processo foi parar no cofre por causa das eleições. “Não quero uso político [do STM]“, afirmou ele. “Não vou correr risco no período eleitoral.”

Estão nos arquivos do STM mais de 116 mil processos. Além do material sobre a ditadura, há documentos da Intentona Comunista, de 1935, e da chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930.

Só o processo referente a Dilma e “mais uns outros 50″, segundo Carlos Alberto Marques, estão no cofre.

Mas o passado de Dilma em organizações da esquerda armada não é o único argumento para a retirada do material do arquivo. “Também vamos começar a restauração e a digitalização dos processos”, disse.

A digitalização, por enquanto, só existe no discurso. Uma licitação para contratar um responsável para restaurar os arquivos ainda nem saiu do papel, como reconhece o ministro.

Apenas depois de restaurados, os papeis serão digitalizados. E o processo só será disponibilizado ao público após a digitalização.

A assessoria da candidata do PT diz que ela “desconhece” a guarda dos documentos em um cofre.

“A mim ninguém pediu nada”, afirmou Carlos Alberto ao ser questionado se recebeu alguma solicitação para levar o material aos cofres.

O processo não traz informações somente do passado de Dilma. À época, em 1970, outras 67 pessoas tornaram-se rés no mesmo caso.

Quase todos eram integrantes da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares), organização que Dilma integrava.

Parte do material, mas não ele todo, está espalhado em arquivos públicos do país. O processo não está protegido por sigilo.

Presa no início de 1970, a candidata do PT foi condenada pela Justiça Militar de três Estados –Rio, Minas e São Paulo. Foi torturada. Deixou a prisão no final de 1972.

Em entrevistas sobre o assunto, Dilma Rousseff diz ter orgulho de seu passado de luta contra a ditadura. Ele nega ter atuado em ações armadas e afirma que sua participação restringiu-se à logística das organizações.

Rombo nas contas cresce, mas ministro da Previdência descarta hipótese de uma crise igual à da França

Veja online

Governo não tem em vista qualquer reforma relevante no sistema previdenciário

Manifestantes depredam carro em Lyon, na França,
num protesto contra a reforma previdenciária

A visão do atual governo, de acordo com o ministro, é a de que mudanças não precisam ser feitas de forma apressada no Brasil

Apesar de não constar nos planos do governo qualquer reforma relevante no sistema previdenciário brasileiro, o ministro da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, garantiu nesta quinta-feira que a situação previdenciária no país não chegará ao ponto a que chegou a França. O país europeu vive uma onda de violentos protestos por causa da decisão do governo de aumentar de 60 para 62 anos, a partir de 2018, a idade mínima da aposentadoria.

O aumento da expectativa de vida da população francesa e os efeitos da crise financeira internacional no país tornaram a situação do sistema previdenciário da França insustentável. Segundo um organismo independente, a crise triplicou o déficit da previdência em 2010, a 32 bilhões de euros (39 bilhões de dólares). Se nada for feito, o déficit chegará a 70 bilhões de euros em 2030.

Na visão do ministro brasileiro, os países europeus "se achavam muito poderosos" e, por isso, não modernizaram as regras da Previdência acompanhando o desenvolvimento da sociedade. A declaração foi dada no mesmo dia em que a Previdência Social brasileira anunciou ter atingido, em setembro, o maior déficit em um ano. E, embora o Brasil viva um excelente momento para reformar seu sistema previdenciário, a única modificação que o governo prevê a curto prazo é a separação das contas da previdência urbana e rural. A reforma da Previdência no país é tida pelos especialistas como urgente.

"Não vamos deixar o Brasil ficar como a França, é preciso planejamento. O Brasil tem pé no chão", afirmou Gabas. Ele citou também que o problema não está restrito à França. "A Inglaterra também está numa pindaíba danada", observou. Gabas avaliou que a crise financeira internacional foi o ápice dos problemas nesses países. "Não previram a possibilidade de passarem por uma situação de dificuldade. Agora, estão fazendo as coisas no afogadilho", disse.

'Sem pressa' -
A visão do atual governo, de acordo com o ministro, é a de que mudanças não precisam ser feitas de forma apressada no Brasil. Não é de hoje, porém que o país tem de administrar os riscos de uma crise em seu sistema previdenciário. "Não é preciso fazer guerra como a sociedade está fazendo lá. Para nós, (Previdência) é uma questão de política pública", afirmou.

Gabas disse também que o atual governo, que se encerra no fim de dezembro, não tratará de nenhuma mudança pontual ou de reforma da Previdência. Manteve a promessa de que, no último dia do ano, entregará um documento para o próximo presidente com o diagnóstico e algumas propostas para serem implantadas pela pasta. "Não defendo uma reforma, que é constitucional. Mas ajustes pontuais poderão ser feitos."

Mudança -
O pedido para separar as contas da previdência urbana e rural já foi feito ao Ministério da Fazenda, segundo ele, que está estudando o assunto. Não há prazos, no entanto, para que a proposta entre em vigor. "Se estivermos no governo, vamos fazer e se não estivermos no próximo governo, vamos cobrar", disse Gabas.

Ao contrário do que ocorre na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, o Brasil vive um momento excepcional para tocar esse difícil projeto. Isso porque o país ainda possui um número relativamente baixo de velhos e crianças em relação a sua população em idade ativa; e prosseguirá desta forma por mais 40 anos. É o que os especialistas chamam de bônus demográfico. Sem este ‘prêmio’, qualquer reestruturação será bem mais complicada.

(Com Agência Estado)