Adelson Elias Vasconcellos
No dia 16 deste mês, publiquei um texto da BBC Brasil, informando sobre um relatório da OMS que acusava “Doenças tropicais negligenciadas afetam ‘silenciosamente’ 1 bilhão de pessoas”. Ainda de acordo com a OMS-Organização Mundial da Saúde, quando se referiu ao Brasil especificamente, lá se dizia que:
"(...) O Brasil apresenta incidência de males tropicais como dengue, mal de Chagas, raiva, conjuntivite granulosa, leishmaniose, cisticercose, esquistossomose, tênia, hidática policística e “cegueira dos rios".
O relatório diz que o Brasil vivenciou um aumento nos casos de leishmaniose desde 1999. A doença, antes mais comum nas zonas rurais, “agora também aparece em áreas urbanas”, por conta da migração de pessoas do campo às periferias das cidades.
“No Brasil, os cães são o hospedeiro do parasita” da leishmaniose, que provoca, entre outros problemas, febre, fraqueza e anemia.
No caso da dengue, a OMS afirma que a doença ressurgiu na América Latina porque as medidas de controle não foram mantidas após a campanha para erradicar o Aedes aegypti, seu principal vetor, durante os anos 1960 e 70. “Grandes surtos acontecem atualmente a cada três ou cinco anos”, afirma o relatório.(...)”
Na mesma semana, num evento realizado no Rio de Janeiro, reuniram-se alguns ministros e ex-ministros de Lula para o lançamento do programa de saúde da candidata Dilma Rousseff, onde desceram o sarrafo em José Serra, quando este fora ministro da Saúde, do governo Fernando Henrique. Dado outra matéria que tinha sintonia com o tema saúde, publiquei um ENQUANTO ISSO (acesse aqui) onde informava sobre este evento e as críticas feitas à Serra e, ENQUANTO ISSO, reproduzia a notícia de que 5 pessoas haviam morrido no Rio de Janeiro sem terem conseguido atendimento na rede pública, inclusive casos com mandado judicial, fatos lamentáveis mas que tem sido bastante comuns, infelizmente. Ao comentar a contradição, disse que “(...) Se esta “quadrilha” de ministros hipócritas e salafrários se preocupassem mais em cumprir com as funções dos cargos em que foram empossados, do que em fazer campanha eleitoral ilegal, bancada com dinheiro público, plantando mentiras e inventando calúnias, e muito provavelmente não haveria tanta gente morrendo por falta de atendimento na rede pública de saúde(...)”.
Juntando-se os dois fatos, o relatório da OMS com os casos inúmeros de pessoas que não conseguem atendimento na rede pública e por isso acabam morrendo, não se teria motivos suficientes para tapar a boca da moçada “governista”, metida a cabos eleitorais, já o que não falta é trabalho por fazer na área da saúde? Mas, como Lula abandonou o governo e se travestiu com a fantasia que mais adora, que é a de animador de palanque, sua turma também ficou autorizada a participar da ilegalidade, como se não houvesse uma legislação eleitoral.
Pois bem, o atual ministro da Saúde, José Gomes Temporão, bom de discurso mas ruim de serviço, após 15 mortes ocorridas no DF pela superbactéria, indagado pela Folha de São Paulo, se saiu com esta “maravilha”:
"Infelizmente, no Brasil, nós ainda temos o uso indiscriminado de antibióticos", alertou Temporão. "O alto consumo, o consumo irresponsável e a má prescrição é que levam a situações como essa", completou.
Questionado, porém, se o problema não poderia ser por conta de infecção hospitalar, disse que “(...)também é necessário avaliar as dinâmicas internas dos hospitais, que podem ter levado a falhas no processo de controle de infecção hospitalar”.
Fica claro que, para Temporão, a causa deve-se muito mais aos doentes do que a uma provável falta de melhor higienização e controle das infecções hospitalares.
Como o caso da superbactéria cujo problema é endêmico em várias regiões dos Estados Unidos, onde o controle na venda de antibióticos é muitíssimo rigoroso, a explicação dada pelo ministro soa um tanto vazia e sem fundamento. Mas o Ministro nos tranquilizou: afirmou que os casos estavam restritos ao Distrito Federal e alguns poucos no Paraná. Será?
No Brasil, os primeiros registros de KPC são de 2005, em São Paulo. Há casos no Paraná, Rio, Recife, João Pessoa, Vitória e Rio Grande do Sul. ATENÇÃO: A transmissão acontece principalmente por conta da pouca higienização das mãos e pode ocorrer quando um paciente em estado grave é transportado de um hospital para o outro, por exemplo.
No DF, já contam 18 mortes entre mais de 180 infectados. A Paraíba e o Espírito Santo também confirmaram casos de contaminação pela superbactéria KPC, segundo levantamento da Agência Brasil com as secretarias de saúde de oito estados e do Distrito Federal (DF). Ontem (20), o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou que há casos também no Paraná e em São Paulo. A Secretaria de Saúde da Paraíba confirmou 18 casos de contaminação pela superbactéria. No Espírito Santo, foi notificado um caso. No Paraná, foram registrados 21 casos em Londrina e três na capital, Curitiba, sendo que uma morte está sob investigação, segundo a Secretaria Municipal de Saúde.
Dos pacientes infectados pela bactéria no DF, 46 tiveram quadro de infecção e 61 continuam internados em hospitais públicos e privados. A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo informou ontem que não há surto da KPC. Segundo o órgão, os casos isolados em hospitais não são registrados, porque a notificação não é obrigatória. Mas dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contabilizam 70 casos em São Paulo.
A KPC é um tipo de enzima que tem provocado resistência de algumas bactérias aos antibióticos mais usados. Ela atinge principalmente pessoas hospitalizadas com baixa imunidade, como pacientes de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A bactéria pode ser transmitida por meio do contato direto, como o toque, ou pelo uso de um objeto comum. A lavagem das mãos é uma das formas de impedir a disseminação da bactéria nos hospitais.
A mortalidade nos casos da bactéria é de 30% a 40% maior em comparação à mortalidade provocada por infecção hospitalar, segundo informações do diretor da Anvisa, Dirceu Barbano.
Como se não bastassem as doenças tropicais informadas lá no alto, e a superbactéria se disseminando rapidamente, agora aparece a Paraíba com surto de sarampo. É o que registra maior número de casos de sarampo em 2010. Segundo números do Ministério da Saúde, neste ano, dos 53 casos confirmados no Brasil, até agora 43 deles, estão na Paraíba.
A Secretaria de Estado da Saúde informou que 41 casos da doença aconteceram só em João Pessoa. Até agora, foram 117 notificações, sendo que 72 continuam em investigação. Há ainda sete casos no Rio Grande do Sul e três na Paraíba, segundo balanço do Ministério. Os casos da Paraíba são classificados como decorrentes de um "vírus importado". Análises laboratoriais concluíram que o seu genótipo é similar ao do que circula na África do Sul. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro, identificou que o surto de sarampo, em João Pessoa, é causado pelo vírus B3, o mesmo que circula na África do Sul.
Representa dizer o seguinte: a saúde pública no Brasil é um verdadeiro desastre. Não tem nenhum dos ministros e ex-ministros de Lula moral para atacar o trabalho do Serra quando ministro da saúde. Uma porque, de fato, fez um trabalho de qualidade onde o programa de atendimento aos portadores de AIDS, por exemplo, foi premiado pela OMS e levado para ser implementado em diversos países do mundo inteiro. Segundo, porque muitas das políticas e programas de saúde iniciados por ele, foram abandonados pelo atual governo e sobre isso já publicamos aqui inúmeros artigos de diferentes especialistas. Não estou defendendo Serra, estou é repondo a verdade no seu devido lugar.
O atual governo reclama pela CPMF não ter sido aprovada, quando de sua votação no Senado, e joga à conta da oposição. Esquece duas coisas: primeiro, a oposição não tinha maioria no Senado suficiente para acabar com a contribuição. Portanto, foram senadores de sua própria base que deram a maioria necessária para o enterro da CPMF. Segundo, enquanto o imposto vigorou, Lula recebeu cerca de 180 bilhões de reais a título da contribuição e o que fez do dinheiro? Torrou em tudo o que não dizia respeito a Saúde, que acabou recebendo a mínima parte. Os relatórios do site Contas Abertas são públicos e estão disponíveis para quem quiser conferir. Agora, os mesmos lacaios governistas defendem, a exemplo de Lula, o ressurgimento da CPMF. Errado. O problema brasileiro é de má gerenciamento de recursos, de falta de planejamento, de má ordenamento de prioridades, e não de falta de recursos. Até porque, o que deixou de entrar no caixa do Tesouro, foi inteiramente resposto pelo aumento do IOF e pelos aumentos reais de arrecadação.
Num país de tantos desassistidos, onde mais da metade da população sequer tem esgoto sanitário, o que por si só já é um gerador de múltiplas doenças, o único lugar em que não se deve encontrar um ministro da Saúde minimamente responsável é em palanque eleitoral, ainda mais no Rio de Janeiro, onde a rede pública é um caos, com pessoas morrendo por falta de atendimento. Nem mandado judicial tem evitado as tragédias.
Contudo, não se pode culpar o ministro Temporão completamente: seu chefe maior simplesmente largou o emprego de Chefe de Governo e mandou ministros também abdicarem de suas funções em prol de uma campanha eleitoral. Resultado: não só o governo do país está acéfalo, mas seu povo está abandonado à própria sorte. E quem mais tem sofrido com o país à deriva? Os pobres, justamente os que mais necessitam de atendimento pela rede pública. E eles pregam a continuidade deste abandono? Pobre povo brasileiro pobre!!!