Ricardo Setti, Veja online
Depois que a competência da Rede Globo, com o indispensável auxílio de um celular de um repórter da Folha de S.Paulo , comprovou e mostrou ao país inteiro que o presidenciável José Serra foi atingido duas vezes, e não apenas uma — pela bolinha de papel — na caminhada que fez ontem pelo calçadão de Campo Grande, no Rio, ontem, chega a ser inacreditável constatar a irresponsabilidade do presidente Lula em classificar o oponente de Dilma Rousseff como “mentiroso” e zombar do incidente, em vez de condená-lo como parte do ato de selvageria praticado por militantes petistas, que não deveria ter lugar numa democracia.
Lula nem sequer se deu ao trabalho de examinar bem os fatos, como o portal UOL e a Rede Globo fizeram. Sem prova de nada, acusou o adversário de Dilma e, de quebra, duvidou publicamente, e quase às gargalhadas, da integridade do médico que atendeu Serra.
O presidente da República começou a desrespeitar o cargo que ocupa — e que não lhe pertence, mas a todos nós, brasileiros — há um bom tempo, quando abandonou o desejável papel de magistrado nas eleições, trocando-o pelo mais familiar, a ele, de palanqueiro. Com suas declarações e zombarias de hoje, assumiu, sem disfarces, o desrespeito.
Julgando-se acima do bem, do mal e da lei eleitoral, dando caneladas no bom senso e na dignidade do cargo, Lula está atirando pela janela o que de bom realizou no governo, deixando um péssimo exemplo e um péssimo registro para a História.
Deboche com que Lula trata Serra não leva em conta algo difícil, mas possível: uma derrota de Dilma
A agressividade, o desrespeito e, agora, o deboche com que o presidente Lula trata o candidato tucano à Presidência, José Serra — que, justiça seja feita, não contaminaram a presidenciável do PT, Dilma Rousseff –, não revelam apenas sua má educação e a falta de compostura no exercício do cargo.
Evidenciam, também, a auto-suficiência e a arrogância de quem nem sequer cogita, ainda que remotamente, da possibilidade — que não está próxima, mas existe — de Serra derrotar sua candidata no dia 31.
Se levasse em conta a hipótese, sempre presente, de uma vitória do candidato azarão, o presidente precisaria pensar que, nesse caso, ele não apenas terá que tratar detidamente com o adversário transformado em inimigo — no necessário processo de transição de um governo para o outro –, como, diante do público e dos olhos do país, transmitir-lhe a faixa presidencial no Palácio do Planalto.
Lula está levando as coisas a um tal nível de agressividade, de “eles” e “nós” — o oposto da postura que um presidente deve adotar –, que tornará penoso, constrangedor e complicado esse processo, se ele vier a ocorrer.
