domingo, junho 09, 2013

O enigma das elites

J. R. Guzzo
Revista  VEJA

O resumo dessa ópera é uma palavra só: hipocrisia. Lula bate tanto assim na “elite” para esconder o fato de que ele é hoje, na vida real, o rei da elite brasileira.

A elite brasileira é acusada todo santo dia pelo ex-presidente Lula de ser a inimiga número 1 do Brasil ─ uma espécie de mistura da saúva com as dez pragas do Egito, e culpada direta por tudo o que já aconteceu, acontece e vai acontecer de ruim neste país. É possível até que tenha razão, pois se há alguma coisa acima de qualquer discussão é a inépcia, a ignorância e a devastadora compulsão por ganhar dinheiro do Erário que inspiram há 500 anos, inclusive os últimos dez e meio, a conduta de quem manda no país, dentro e fora do governo.

O diabo do problema é que jamais se soube exatamente quem é a elite que faz a desgraça do Brasil. Seria indispensável saber: sabendo-se quem é a elite, ela poderia ser eliminada, como a febre amarela, e tudo estaria resolvido. Mas continuamos não sabendo, porque Lula e o PT não contam. Falam do pecado, mas não falam dos pecadores; até hoje o ex-presidente conseguiu a mágica de fazer discursos cada vez mais enfurecidos contra a elite, sem jamais citar, uma vez que fosse, o nome, sobrenome, endereço e CPF de um único de seus integrantes em carne e osso. Aí fica difícil.

Mas a vida é assim mesmo, rica em perguntas e pobre em respostas; a única saída é partir atrás delas. Na tarefa de descobrir quem é a elite brasileira, seria razoável começar por uma indagação que permite a utilização de números: as elites seriam, como Lula e o PT frequentemente dão a entender, os que votam contra eles nas eleições? Não pode ser. Na última vez em que foi possível medir isso com precisão, no segundo turno das eleições presidenciais de 2010, cerca de 80 milhões de brasileiros não quiseram votar na candidata de Lula, Dilma Rousseff: num eleitorado total pouco abaixo dos 136 milhões de pessoas, menos de 56 milhões votaram nela. É gente que não acaba mais.

Nenhum país do mundo, por mais poderoso que seja, tem uma elite com 80 milhões de indivíduos. Fica então eliminada, logo de cara, a hipótese de os inimigos da pátria serem os brasileiros que não votam no PT. As elites seriam os ricos, talvez? De novo, não faz sentido: os ricos do Brasil não têm o menor motivo para se queixar de Lula, dos seus oito anos de governo ou da atuação de sua sucessora. Ao contrário, nunca ganharam tanto dinheiro como nos últimos dez anos, segundo diz o próprio Lula. Ninguém foi expropriado sequer em 1 centavo, ou perdeu patrimônio, ou ficou mais pobre em consequência de qualquer ato direto do governo.

Os empresários vivem encantados, na vida real, com o petismo; um dos seus maiores orgulhos é serem “chamados a Brasília” ou alcançarem a graça máxima de uma convocação da presidente em pessoa. No puro campo dos números, também aqui, não dá para entender como os ricos possam ser a elite tão amaldiçoada por Lula e seus devotos. De 2003 para cá, o número de milionários brasileiros (gente que tem pelo menos 2 milhões de reais, além do valor de sua residência) só aumentou. Na verdade, segundo estimativas do consórcio Merrill Lynch Capgemini, apoiado pelo Royal Bank of Canada e tido como o grande perito mundial na área, essa gente vem crescendo cada vez mais rápido.

Pelos seus cálculos, surgem dezenove novos milionários por dia no Brasil, o que dá quase um por hora, ou cerca de 7 000 por ano; em 2011, o último período medido, o Brasil foi o país que teve o maior crescimento de HNWIs ─ no dialeto dos pesquisadores, “High Net Worth Individuais”, ou “milionários”. O resultado é que há hoje no Brasil 170 000 HNWIs ¬─ os 156 000 que havia no levantamento de 2011 mais os 14 000 que vieram se somar a eles, dentro da tal conta dos dezenove milionários a mais por dia. Não dá para entender bem essa história. O número de milionários brasileiros, após dez anos de governo popular, não deveria estar diminuindo, em vez de aumentar? Deveria, mas não foi o que aconteceu.

A sempre citada frota de helicópteros de São Paulo, com 420 aparelhos, é a segunda maior do mundo; no Brasil já são quase 2000, alugados por até 3 000 reais a hora. Os 800 000 brasileiros, ou pouco mais, que estiveram em Nova York no ano passado foram os turistas estrangeiros que mais gastaram ali: quase 2 bilhões de dólares. Na soma total de visitantes, só ficaram abaixo de canadenses e ingleses ─ e seu número, hoje, é dez vezes maior do que era dez anos atrás, início da era Lula. O eixo formado pela Avenida Europa, em São Paulo, é um feirão de carros Maserati, Lamborghini, Ferrari, Aston Martin, Rolls-Royce, Bentley, e por aí afora. Então não podem ser os ricos os cidadãos que formam a elite brasileira ─ se fossem, estariam sendo combatidos dia e noite, em vez de viverem nesse clima de refrigério, luz e paz.

Um outro complicador são as ligações de Lula com a nossa vasta armada de HNWIs, como diriam os rapazes da Merrill Lynch. É um mistério. Como ele consegue, ao mesmo tempo, ser o generalíssimo da guerra contra as elites e ter tantos amigos do peito entre os mais óbvios arquiduques dessa mesmíssima elite? Ou será que bilionários e outros potentados deixam de ser da elite e recebem automaticamente uma carteirinha de “homem do povo” quando viram amigos do ex-presidente? Para ficar num exemplo bem fácil de entender, veja-se o caso do ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi, uma das estrelas do círculo de amizades políticas de Lula.

O homem é o maior produtor individual de soja do mundo, e a extensão das suas terras o qualifica como o suprassumo do “latifundiário” brasileiro. É detentor, também, do título de “Motosserra de Ouro”, dado anos atrás pelo Greenpeace ─ grupo extremista e frequentemente estúpido, mas que ainda faz a cabeça de muita gente boa pelo mundo afora.É claro que não há nada de errado com Blairo: junto com seu pai, André, fundador da empresa hoje chamada Amaggi, é um dos heróis do progresso do Brasil Central e da transformação do país em potência agrícola mundial. Mas, se Blairo Maggi não é elite em estado puro, o que seria? Um pilar das massas trabalhadoras do Brasil?

Lula anda de mãos dadas com Marcelo Odebrecht, presidente de uma das maiores empreiteiras de obras do Brasil e do vasto complexo industrial que crescerem torno dela. Ainda há pouco foi fotografado em companhia do inevitável Eike Batista, cuja fortuna acaba de desabar para meros 10 bilhões de dólares, numa visita a um desses seus empreendimentos que nunca decolam; foi seu advogado, logo em seguida, para conseguir-lhe um ajutório do governo. É um fato inseparável de sua biografia, desde o ano passado, o beija-mão que fez a Paulo Maluf, hoje um aliado político com direito a pedir cargos no governo ─ assim como Maggi, que ainda recentemente foi cotado para ser nada menos, que o ministro da Agricultura de Dilma. Dize-me com quem andas e eu te direi quem andas e te direi quem és, ensina o provérbio. Talvez não dê, só por aí, para saber quem é realmente Lula. Mas, com certeza, está bem claro com quem ele anda.

As classes que Lula e o PT descrevem a “elite brasileira” não são suas amigas só de conversa ─ estão sempre prontas para abrir o bolso e encher de dinheiro a companheirada. Nas últimas eleições presidenciais, presentearam a candidata oficial Dilma Rousseff quase 160 milhões de reais ─ mais do que deram a todos os outros candidatos somados. Há de tudo nesses amigos dos amigos: empreiteiros de obras, é claro, banqueiros de primeira, frigoríficos empenhados até a alma no BNDES, siderúrgicas, fábricas de tecidos, indústrias metalúrgicas, mineradoras. É o que a imprensa gosta de chamar de “pesos-pesados do PIB”.

Ninguém, nessa turma, faz mais bonito que as empreiteiras, que dependem do Tesouro Nacional como nós dependemos do ar. Foram as maiores doadoras privadas às eleições municipais do ano passado: torraram ali quase 200 milhões de reais, e o PT foi o partido que mais recebeu. Ficou com cerca de 30% da bolada distribuída pelas quatro maiores empreiteiras do país, e junto com seu grande sócio da “base aliada”, o PMDB, raspou metade do dinheiro colocado nesse tacho. Todo mundo sabe quem são: Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS e Camargo Corrêa. Mas esses nomes não resolvem o enigma que continua a ocultar a identidade dos membros da elite. Com certeza, nenhum dos quatro citados acima pertence a ela, já que dão tanto dinheiro assim ao ex-presidente, seu partido e seus candidatos. Devem ser, ao contrário, a vanguarda classes populares.

Restariam como membros da elite, enfim, os “inconformados” com o fato de que “um operário chegou à Presidência” ou que a “classe melhorou de vida. Mais uma vez, não dá para levar a sério. Por que raios essa gente toda está inconformada, se não perdeu nada com isso? Qual diferença prática lhes fez a eleição de presidente de origem operária, ou por que sofreriam vendo um trabalhador viajar de avião? Num país com 190 milhões de habitantes, é óbvio há muita gente que detesta o ex-presidente, ou simplesmente não gosta dele. E daí? Que lei os obriga a gostar? Acontece com qualquer grande nome da política, em qualquer lugar do mundo. Ainda outro dia, milhares de pessoas foram às ruas de de Londres para festejar alegremente a morte da ex-líder britânica Margaret Thatcher – que já não estava mais no governo havia 23 anos. É a vida.

Por que Lula e seus crentes não se conformam com isso e param de encher a paciência dos de outros com sua choradeira sem fim? O resumo dessa ópera é uma palavra só: hipocrisia. Lula bate tanto assim na “elite” para esconder o fato de que ele é hoje, na vida real, o rei da elite brasileira. O ex-presidente diz o tempo todo que saiu do povo. De fato, saiu – mas depois que saiu não voltou nunca mais. Falemos sério: ninguém consegue viver todos os dias como rico, viajar como rico, tratar-se em hospital de rico, ganhar como rico (200 000 reais por palestra, e já houve pagamentos maiores), comer e beber como rico, hospedar-se em hotel de rico e, com tudo isso, querer que os outros acreditem que não é rico.

Lula exige jato particular para ir às suas conferências e Johnnie Walker Rótulo Azul no cardápio de bordo. Quando tem problemas de saúde, interna-se no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, um dos mais caros do mundo. Sempre chega ali de helicóptero. Vive cercado por um regimento de seguranças que só o típico magnata brasileiro costuma ter. O ex-presidente sempre comenta que só falam dessas coisas porque “não admitem” que um “operário” possa desfrutar delas. Mas onde está o operário nisso tudo? É como se o banqueiro Amador Aguiar, que foi operário numa gráfica do interior de São Paulo e ali perdeu, exatamente como Lula, um dos dedos num acidente com a máquina que operava, continuasse dizendo, sentado na cadeira de presidente do Bradesco, que era um trabalhador manual.

Lula não trabalha, não no sentido que a palavra “trabalho” tem para o brasileiro comum, desde os 29 anos de idade, quando virou dirigente sindical e ganhou o direito legal de não comparecer mais ao serviço. Está a caminho de completar 68 e, depois que passou a fazer política em tempo integral, nunca mais tomou um ônibus, fez uma fila ou ficou sem dinheiro no fim do mês. Melhor para ele, é claro. Mas a vida que leva é um igualzinha à de qualquer cidadão da elite. O centro da questão está aí, e só aí. Todo o resto é puro conto do vigário.

Cada vez maior a farra fiscal

O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, respondeu com mais uma de suas bravatas à agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P), um dia depois de rebaixada a perspectiva do Brasil de estável para negativa. Segundo ele, a agência terá de mudar sua avaliação para um viés de alta, se isso depender da perspectiva econômica do País. A economia brasileira, argumentou, teve um "desempenho razoável" no primeiro trimestre e há sinais de crescimento maior no segundo.

É um arrazoado estranho. Depois de dois anos de estagnação, seria necessária uma expansão muito superior a 0,6% num trimestre para caracterizar uma evolução "razoável". Se o Produto Interno Bruto (PIB) crescer 3% neste ano, a expansão no triênio terá ficado em pífios 2,2% ao ano.

Além disso, o ministro Mantega descartou muito facilmente outros pontos. Ao adotar o viés de baixa, os avaliadores levaram em conta o risco de uma piora das contas públicas, já comprometidas pela combinação de excesso de gastos com desonerações mal planejadas. Somaram a isso a preocupação com o rápido aumento das operações dos bancos públicos e com o seu risco de crédito. Além disso, a justificativa da agência menciona também o baixo nível de investimentos e a fraqueza das exportações.

O anúncio da S&P coincidiu com a divulgação de duas más notícias sobre as contas públicas. Autorizado pela Medida Provisória (MP) 618, o Tesouro Nacional deverá repassar mais R$ 15 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e uma quantia igual à Valec.

Esse dinheiro será levantado com mais endividamento, por meio da colocação de títulos federais no mercado. A transferência será feita por meio de um empréstimo sem prazo de vencimento. O governo poderá disfarçar outros efeitos, contabilmente, mas o impacto sobre a dívida bruta do Tesouro será evidente, e esse é o ponto mais relevante para os credores e demais agentes do mercado.

Além disso, o BNDES terá um desconto da dívida acumulada com o Tesouro desde 1997. A maior parte dessa dívida corresponde a transferências ligadas ao Programa de Sustentação de Investimentos, instituído em 2009 como instrumento de ação contra a crise. O governo deveria ter encerrado esse programa em poucos meses, mas decidiu renová-lo mais de uma vez. Entre 2009 e 2012 o Tesouro transferiu para o banco R$ 280 bilhões. A MP ainda autorizou o BNDES a descasar ativos e passivos de operações em dólares.

A outra má notícia reforça as expectativas de um mau resultado fiscal neste ano. O governo só conseguirá fechar suas contas - mesmo abatendo R$ 45 bilhões de investimentos e desonerações da meta fiscal - com a inclusão do bônus de assinatura das licitações do pré-sal na receita do Tesouro. A receita de concessões, inicialmente estimada em R$ 3,3 bilhões, foi revista em maio para R$ 15,6 bilhões, mas poderá ser maior, segundo fontes do Executivo.

O governo deverá usar, portanto, além dos truques já conhecidos, a contabilização de uma receita meramente eventual, sem perspectiva de repetição nos próximos anos. Mas a maior parte da gastança financiada pelo Tesouro deverá ser permanente.

A bagunça fiscal permanece, é indisfarçável e é inútil o governo rejeitar as avaliações de agências de classificação de risco ou de quaisquer outras entidades. Agências como a S&P têm o poder especial de prejudicar governos e países com suas opiniões negativas, certas ou erradas, mas esse é o menor problema. Muito mais grave, com ou sem classificação negativa, é o dano causado pelo manejo irresponsável das finanças públicas.

O Banco Central voltou a acentuar, na quinta-feira passada, a importância da política fiscal para o combate à inflação e para a preservação da confiança. Sem isso, ninguém poderá contar com estabilidade de preços nem com os investimentos indispensáveis ao País. A inflação em 12 meses continua no limite da margem de tolerância (6,5%), e os investimentos ainda estão longe do nível mínimo desejável. Nenhum desses indicadores vai melhorar com a farra fiscal.

Governo tenta - e consegue - iniciar círculo vicioso na economia

Ana Clara Costa
Veja online

Intervencionismo petista deu resultados rapidamente: PIB frustrante, inflação alta, indústria estagnada, deterioração fiscal e perda de credibilidade no mercado externo. E o governo segue culpando a crise internacional

(Ueslei Marcelino/Reuters) 
Dilma Rousseff: 
tentativas frustradas de impulsionar o PIB colocam o país em situação delicada 

Tornou-se prática corriqueira entre os governantes petistas gabar-se dos bons feitos (seus e também dos demais) e culpar os outros (países, empresas e oposição) pelos seus próprios passos errados. Uma célebre afirmação do ex-ministro da Fazenda Delfim Netto reflete bem essa mania - ainda que tenha sido dita nos idos do governo Lula. "O nível do mar subiu e o navio subiu junto. De vez em quando, o governo pensa que foi ele quem elevou o nível do mar", afirmava o ministro durante o último ano de gestão do ex-presidente, ao comentar o bom desempenho da economia brasileira. Em 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu inacreditáveis 7,5% - e o governo não se cansava de afirmar que havia iniciado um "círculo virtuoso" econômico.

Agora, o cenário se inverte e o país está em face de um círculo vicioso. A exuberância de três anos atrás desapareceu - e a culpa, diz o governo em uníssono, é do cenário externo. Esse é o argumento usado pelo Banco Central para justificar a inflação que não cede - e também é a explicação do ministro Guido Mantega para chancelar o corte do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos estrangeiros em títulos de renda fixa no Brasil. O mercado aplaudiu a medida, pois ela desonera a entrada de capital externo no país. Contudo, Mantega sequer cogitou reconhecer que o imposto foi criado (e depois zerado) devido a uma estratégia falha e intervencionista do governo de tentar deter a entrada de dólares no mercado brasileiro num momento em que o real se fortalecia. Ao retirar o IOF, o ministro se justificou afirmando que, devido à mudança da política monetária do Federal Reserve (o Fed, banco central americano), poderia haver menos liquidez no mercado global - e um IOF alto poderia potencializar essa falta de recursos no Brasil. Novamente, a culpa é do vizinho.

A economia brasileira passa por um momento delicado: após inúmeras mudanças que engordaram o peso do estado no setor produtivo e fecharam ainda mais o mercado interno, o PIB segue decepcionando (avançou apenas 0,6% no 1º trimestre) e os pilares que sustentam a estabilidade do país perderam firmeza. A inflação há muito não figura no centro da meta do BC - e o câmbio deixou de ser flutuante e passou a ser mantido próximo de uma banda não-oficial de 2 reais. Tal feito ocorre por meio de leilões de compra e venda de contratos da moeda americana no mercado futuro pilotados pelo Banco Central. Se o dólar sobe demais, o BC anuncia leilões de venda. Se cai, o movimento é de compra. Por fim, a taxa básica de juros (a Selic)  - principal ferramenta de controle da inflação - foi submetida a um corte vertiginoso orquestrado pelo Palácio do Planalto.


O resultado da matemática irresponsável é que o país teve sua perspectiva de nota da dívida soberana rebaixada de 'estável' para 'negativa' pela agência de classificação de risco Standard & Poor's na noite de quinta-feira. A agência argumentou que a deterioração da situação fiscal do país motivou a revisão. Em janeiro, a dívida pública estava em 35,2% do PIB. Em maio, aumentou para 35,4%. "Não é nenhum desastre. Mas o termômetro subiu e se o governo continuar com essa toada expansionista, com depreciação fiscal e juro real definido por decreto, os problemas vão se agravar", afirma o economista Felipe Salto, da consultoria Tendências.

Nos três primeiros meses do ano, o déficit fiscal (saldo entre as receitas e as despesas do governo) ficou negativo em 32 bilhões de reais - número 150% maior do que o mesmo período de 2012. Já as contas externas somaram 33 bilhões de dólares no vermelho nos quatro primeiros meses do ano, ante déficit de 17 bilhões de dólares registrado no mesmo período do ano passado. Em 12 meses, o déficit nas contas externas soma 3% do PIB - número que não se via há dez anos. "Há um baque na nova matriz econômica do governo. E ele mostra que pode ser o início do fim. Pois essa matriz tem muitas pernas, mas não para em pé", diz Salto.

A recente subida dos juros para tentar estancar a inflação - a Selic passou de 7,25% para 8% no intervalo de duas reuniões do Copom - e o corte do IOF não foram suficientes para convencer o mercado de que o Brasil retomou as rédeas da ortodoxia e a autoridade monetária voltou a ser independente. "Enquanto o BC não tiver autonomia total, como ocorre no Chile, as preocupações continuarão, especialmente no que se refere à influência política. Dilma deixou bem claro que aprovou a subida da Selic na última reunião", afirma o economista da Economist Intelligence Unit (EIU), Robert Wood.

No intento de convencer o mercado que todas as decisões foram acertadas, o governo engana (apenas) a si mesmo. E as consequências já começam a aparecer em forma de números. Para piorar, o país corre o risco de não cumprir a meta fiscal (a economia do governo para pagar os juros da dívida) nem mesmo lançando mão da chamada contabilidade criativa em 2013. Como nos anos anteriores, o governo pretende abater 45 bilhões de reais do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) da meta de superávit - o que diminui seu esforço fiscal para o ano e abre espaço para mais gastança. Contudo, mesmo com a ajuda do PAC, a queda da arrecadação de impostos decorrente das desonerações promovidas por Brasília pode impossibilitar o cumprimento da meta. Para conseguir a façanha, o Palácio do Planalto conta com a antecipação do bônus que receberá da primeira rodada de licitações do pré-sal, que deverá ser pago em setembro.

O mecanismo cria a ilusão de que o país fez o esforço fiscal necessário. Mas, na realidade, tudo continua igual: política fiscal frouxa, inflação alta, competitividade baixa e crescimento econômico ínfimo. O cenário que se cristaliza é de um Brasil que poderia ser, mas não foi. A personificação do voo de galinha, do futuro que jamais chegou.

Avanço para o passado

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Em quatro capitais, São Paulo, Rio, Goiânia e Natal, houve manifestações e tumultos contra o aumento das tarifas de transporte público. Em São Paulo, vândalos misturados a militantes de partidos radicais puseram fogo em bancas de jornais na Avenida Paulista, que dá acesso, entre outros equipamentos urbanos, a nove hospitais, e ficou interditada por algumas horas; quebraram lixeiras, depredaram estações de Metrô, chutaram carros de quem nada tinha com isso, invadiram um shopping. A tropa de choque dissolveu o tumulto com gás lacrimogêneo.

Há alguns fatos curiosos a examinar. O primeiro é que Movimento Passe Livre, que organizou a manifestação, foi criado pelo Fórum Social Mundial, onde se reúnem bolivarianos de várias partes do mundo por conta do nosso dinheiro, canalizado pelo Governo gaúcho. O segundo é que a tropa de choque paulista estava nas ruas na véspera da manifestação. Aparentemente, sabia de tudo, e apenas esperava a oportunidade de, bem postada, dissolver o eventual tumulto.

O fato é que há vários indícios de crise, muitos com origem na ação ou inação do Governo Federal. Há dois anos, ninguém, exceto meia dúzia de saudosistas, pensava em militares. Hoje, com a ação nem sempre equânime das comissões da verdade, há em organização até um Partido Militar, e antigos torturadores voltam a ser ouvidos - por poucos, sim, mas que buscam articular-se. A inflação ficou livre por muito tempo, o crescimento é baixo, a dívida das famílias é alta. 

Para o clima tornar-se explosivo, faltava a baderna. Não falta mais.

Mais um pouco
1 - A agência de classificação de riscos Standard&Poor’s rebaixou as notas do Brasil, em vista do baixo crescimento econômico, do investimento declinante do setor privado e da deterioração da política fiscal do Governo. Prevê a SP um terceiro ano seguido de baixo crescimento e a redução no consumo das famílias.

2- A revista britânica The Economist brinca com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Referindo-se às informações de que Mantega se fortalecera após ter recebido críticas da revista, a Economist fez-lhe elogios, dizendo que agora o Governo brasileiro pode demiti-lo sem parecer que está cedendo a pressões. 

3 - A balança comercial brasileira teve déficit de US$ 5,4 bilhões de janeiro a maio. Comparada a igual período do ano passado, quando o superávit foi de US$ 6,26 bilhões, a queda é de US$ 11 bilhões. É o pior resultado já obtido pelo país.

E que temos a ver com isso? Tudo: os estrangeiros estão avisados de que é arriscado trazer dinheiro. Os negócios com o Brasil ficam mais caros. E, como dizia o ministro Mário Henrique Simonsen, inflação aleija e crise cambial mata.

Resumo geral
O problema é que o PIB é pequeno e o buraco é grande.

Transporte gratuito
A tese do transporte gratuito, que os manifestantes dizem defender, surgiu de um estudo de Lewis Mumford, grande especialista de planejamento urbano dos EUA, condecorado pelo presidente Ronald Reagan. Dizia ele que, como num prédio, em que o transporte por elevadores é custeado pelos condôminos, uma cidade deveria ter transporte público custeado pelos contribuintes. 

Em São Paulo, a prefeita Luiza Erundina, do PT, propôs a tarifa zero, mas dois problemas fizeram com que a ideia fosse rejeitada: primeiro, o caráter partidário que a cercou; segundo, o que fazer com pessoas que quisessem passar o dia inteiro no ônibus, como se fosse sua casa, indo e voltando, indo e voltando. A ideia é defensável. Mas não é preciso botar fogo em nada nem jogar pedras para defendê-la. 

Agora vai
Crise nenhuma, caro leitor. Seus problemas acabaram. Numa decisão histórica, a Justiça paulista determinou padrões de roupas adequadas para homens e mulheres. Quem estiver fora desses padrões pode ser barrado na entrada do Fórum Regional de Santana. Vejamos omust da moda forense: estão proibidos "decotes profundos a ponto de deixarem mais da metade do colo dos seios visíveis" (o português é mambembe, mas que fazer?), e roupas "transparentes a ponto de permitir entrever-se partes do corpo ou de peças íntimas". 

Homens não podem usar "camisetas com gola ‘U’ ou ‘V’ que deixe mais da metade do tórax exposto". Saias têm de cobrir dois terços das coxas. Blusas sem alças, ou gente descalça, não. E pobres que andam sem sapatos? Dependerão do que o juiz determinar, se conseguirem entrar para fazer o pedido. 

Também, quem manda ser pobre? 

Tá faltando uma
A Agência Nacional de Aviação Civil, ANAC, abriu processo administrativo para apurar se Flora, esposa do ex-ministro Gilberto Gil, esteve durante o voo na cabine de comando de um jato da Azul. Flora postou fotos no Instagram em que aparece na cabine, sentada, com cinto afivelado e usando radiocomunicador, ao lado de piloto ou copiloto. Se o avião estivesse em terra, parado, tudo bem; em movimento, é proibido (e por isso a TAM teve problemas quando o cantor Latino postou fotos da cabine durante o voo). OK, lei é lei, é para ser cumprida. 

Mas a presidente Dilma Rousseff, que abertamente interfere na rota do avião e dá ordens ao piloto, tudo bem? Manda quem pode, obedece quem tem juízo?

carlos@brickmann.com.br 
www.brickmann.com.br

O futuro dos peitos

João Ubaldo Ribeiro
O Globo

A principal cadeia americana de breastaurants está para instalar-se no Brasil, onde talvez a experiência venha a indicar ser mais negócio estabelecer-se uma franquia de bundorantes

Sempre à busca, por profissão e sina, de novidades e maravilhas que lhe possam atrair fregueses e assim garantir seu laborioso e incerto sustento, o escritor, em dias de sorte como hoje, regozija-se por haver achado uma notícia que talvez ainda não tenha chegado à meia dúzia de três ou quatro que o leem. Em si, ela já não causará o impacto que teria há algum tempo, mas enseja alguma meditação sobre o nosso futuro. Trata-se da criação de, digamos, um novo conceito gastronômico, qual seja o de que é bom comer rodeado de garçonetes esvoaçantes, que circulam de patins, usando shorts curtinhos, com os umbigos à mostra até quase lá embaixo e, principalmente, decotes panorâmicos. Se não estiverem servindo às mesas, fazem demonstrações de bambolê e dão cambalhotas em camas elásticas. Apressadamente, o jovem afoito aprovará, mas convém recordar que almoçar dessa forma pode suscitar problemas, pois não são nem um nem dois os casos narrados pelo Brasil afora de mortes pela temida congestão, ocorridas quando o imprudente finado comeu mocotó e foi aos dares e tomares com alguma senhora, ou teve os chamados baixos instintos vigorosamente incitados por visões provocantes.

Sim, mas corro o risco de incorrer novamente no velho vício da digressão e não cuidarei desse problema da congestão, até porque a Anvisa ou similar terminará baixando normas para o consumo de mocotó, tornando obrigatório o registro no Cadastro Nacional de Comedores de Mocotó e o pagamento da taxa de mocotó. Atenho-me ao novo conceito anunciado, para o qual já existe um neologismo em inglês, a palavra breastaurant. É um trocadilho difícil de traduzir e literalmente seria, perdão, “peitorante”. Mais diretamente, um restaurante onde o frequentador, além de comer, fica olhando para os peitos das garçonetes. Mas sem tocar neles, é claro. Americano é muito rigoroso quanto à moral e os bons costumes, de maneira que as garçonetes são treinadas para resistir a qualquer paquera. É só para olhar, o ambiente é familiar.

A principal cadeia americana de breastaurants está para instalar-se no Brasil, onde talvez a experiência venha a indicar ser mais negócio estabelecer-se uma franquia de bundorantes, mas isso deve ser uma complexa questão mercadológica, acima de meu alcance. Vai demorar, porque americano é doido por peito e, quando fui estudante lá, uma das moças de maior cartaz no campus não devia conseguir ver a ponta dos pés seguramente desde os catorze anos. Aliás, as moças desfilavam de bicicleta com as saias adejando à altura da cabeça, mas quase todas sem decote e usando mangas pelo menos até o meio dos braços. Uma vez, não faz tanto tempo assim, fui fazer uma conferência numa universidade e o auditório era desses em que o palestrante fica diversos níveis abaixo no nível dos assentos, como num estádio. Fiquei sem saber para onde olhar, depois que várias moças, todas com blusas recatadas e quase todas de saia, se sentaram bem à vontade na minha frente — dificulta um pouco a concentração.

Além desse aspecto, talvez os breastaurants brasileiros venham a ser vítimas de um fenômeno que acredito universal. É que todo mundo, ao abancar-se num lugar assim, finge que está à vontade, disfarça o olhar, faz ares distraídos e aparenta não ter nenhum interesse mais duradouro pelo que vai em torno. Um dia me levaram para almoçar no Playboy Club de Chicago. As garçonetes eram coelhinhas, envergando trajes ousadíssimos para a época, corpetes cavados e, claro, decotes modelo Grand Canyon, que de vez em quando deixavam entrever um biquinho de peito ou outro. Mas os frequentadores, de paletó e gravata e com pinta de homens de negócios, faziam de conta que não davam importância às coelhinhas, a não ser para falar sobre seus pedidos. Agindo em Roma como os romanos, falsifiquei a mesma postura blasée, com exceção de um momento ou outro, como quando a garçonete punha alguma coisa em meu prato e se curvava a meu lado esquerdo. Era um pouco difícil afetar indiferença com meio peito enfiado na orelha, mas acho que consegui, pelo menos ninguém se queixou.

Não sei se a moda vai pegar aqui. Se pegar, tenho certeza de que será com adaptações ditadas pela renomada criatividade brasileira. Nesse departamento de peitos, creio que o provável é que a versão nacional opte por um caminho mais condizente com nossa imagem casual, tropical, sensual e safadal. Aqui vai ser logo topless, nada dessa besteira de blusa decotada, que só faz atrapalhar e gasta pano. Creio que, por enquanto, o restaurante cujas garçonetes atendam de peito de fora poderá ser acusado de ultraje ao pudor. Mas isso não dura muito, pois já há precedentes em outros países. No Canadá, por exemplo, onde o verão cai num domingo e sair sem camisa é um evento raro e precioso. Se bem me lembro, uma canadense alegou num tribunal que tinha o mesmo direito de sair sem camisa que os homens e um juiz decidiu que ela estava certa. Gostamos muito de ser adiantados e, se alguma brasileira usar o mesmo argumento, não é impossível que venha a ganhar a causa.

Diante de tal quadro, o futuro dos peitos, tão prestigiados até o passado recente, parece ser a banalização e em breve, com todas as mulheres de peito de fora, ninguém mais dará atenção a eles. Comentaremos os peitos das passantes como quem hoje comenta os olhos ou cabelos. Talvez se criem até linhas de cosméticos especiais com nomes em inglês, como é da prática — Natty Nipple, Tit for Tat, Boobs ‘n’ Belly, coisas assim. E, na avidez insaciável por novos horizontes, chegará o dia em que dispensaremos também a parte de baixo da roupa e sutiãs, calcinhas e vestidos serão vendidos em sex shops, para os tarados e taradas que desejarem continuar a ter vida sexual.

Cinco boas novas, mas com muitas ressalvas

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

Junho começou com cinco notícias positivas - ataque mais firme à inflação, promessa de prioridade ao investimento, sinais de recuperação na indústria, melhora na balança comercial e pressão empresarial por mais e melhores acordos de comércio. Apesar disso, a Standard & Poor's mudou de estável para negativa a perspectiva do País, alegando baixo crescimento e gasto público excessivo. Convém conferir as novidades positivas.

1) O Banco Central (BC) aumentou os juros, aparentemente com a concordância da presidente Dilma Rousseff. O novo aumento foi o dobro do anterior. O aperto pode ajudar a restabelecer a imagem de uma política autônoma e baseada em critérios técnicos. A noção de autonomia operacional do BC havia sido prejudicada nos últimos dois anos. A recuperação, se ocorrer, provavelmente ainda levará algum tempo, mas a primeira providência foi tomada.

Mas pode-se perguntar se o novo aperto, iniciado em abril, é justificável, quando o consumo das famílias parece estagnado. Afinal, cresceu no primeiro trimestre apenas 0,1% em relação aos três meses finais de 2012. Esse argumento é enganador.

Entre janeiro e março o consumo das famílias foi 2,1% maior do que havia sido um ano antes, enquanto a produção industrial foi 1,4% menor. O consumo do governo superou por 1,6% o de janeiro a março de 2012. Bastariam esses dados para mostrar um grave desequilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno.

A diferença resultou em aumentos de preços e de importações. Além disso, a expansão trimestral do consumo privado foi a 39.º consecutiva, impulsionada pela expansão da massa de salários e do crédito. Em vista da demanda, a ação do BC é plenamente defensável. Mas a eficácia será prejudicada se a política fiscal continuar expansionista. A perspectiva é de mais um ano sem realização integral do superávit primário e de novas transferências do Tesouro às estatais - como os novos aportes de R$ 15 bilhões para o BNDES e R$ 15 bilhões para a Valec.

2) A cúpula federal resolveu, segundo informação da última semana, atribuir ao investimento a função de motor principal do crescimento. Para isso será necessário, entre outras providências, apressar a execução do programa de concessões na área de infraestrutura, anunciado em agosto de 2012 e até agora empacado.

A revisão da estratégia, se for real, resultará do mero reconhecimento de um fato bem visível: embora ainda supere a capacidade interna de oferta, o consumo perdeu dinamismo. Seu papel como estimulante do crescimento esgotou-se - e provavelmente já estava esgotado em 2012. Além disso, o descompasso entre consumo e produção industrial era evidente há mais tempo, mas o governo desprezou esse dado.

A expansão do investimento dependerá tanto do governo quanto do setor privado. Do lado governamental, a tarefa só será cumprida se a administração de programas e projetos melhorar consideravelmente. Há muitos anos o governo mal consegue desembolsar 50% ou 60% das verbas orçamentárias previstas para investimento.

Entre as estatais, a Petrobrás tem sido responsável por uma fatia entre 80% e 90% do total investido. Mas também suas operações ficam menos bonitas quando examinadas de perto. Basta lembrar a queda de produção, o aumento da importação de combustíveis e lubrificantes e o mau negócio da Refinaria Abreu e Lima. Daí o programa de desinvestimentos.

3) A produção industrial em abril foi 1,8% maior que em março e 8,4% superior à de um ano antes. De janeiro a abril, ficou 1,6% acima da registrada nos primeiros quatro meses de 2012. Em 12 meses, no entanto, ainda foi 1,6% menor que no período anterior. A melhor parte dessa notícia é a evolução do setor de bens de capital. Em abril os fabricantes de máquinas e equipamentos produziram 3,2% mais do que em março e 24,4% mais do que um ano antes. Mas ainda houve uma queda de 4,4% no acumulado em 12 meses. O setor ainda nem se recuperou do tombo de 2012. A continuidade da recuperação dependerá da confiança dos empresários e, em proporção menor, das possibilidades de exportar. Somando-se os projetos públicos e privados, o investimento continuará, quase certamente, abaixo de 20% do PIB, uma miséria.

4) Há sinais de melhora na balança comercial, com superávit de US$ 760 milhões em maio, mas o acumulado no ano ainda foi um déficit de US$ 5,4 bilhões. Este resultado e o desempenho da indústria, ruim em 2012 e ainda em lenta melhora, estão claramente vinculados. É cedo para afirmar se o saldo continuará a crescer. De toda forma, o superávit de US$ 15 bilhões previsto pelo BC só será alcançado com um saldo mensal de US$ 2,9 bilhões até o fim do ano. Acredite quem quiser.

5) Setores da indústria começam a discutir e até a cobrar do governo medidas para uma inserção mais ampla do Brasil nos acordos bilaterais e interregionais de comércio. Reagem, finalmente, a eventos como a formação da Aliança do Pacífico, integrada por Chile, Peru, Colômbia e México, e às negociações das Parcerias Transpacífico e Transatlântica, ambas com participação dos Estados Unidos e de grandes e médias potências comerciais. Acordos parciais de comércio já aumentavam antes da interrupção da Rodada Doha e depois passaram a multiplicar-se mais velozmente, enquanto o Brasil continuou preso a um Mercosul estagnado e a alguns pactos pouco relevantes.

Para o Brasil, um resultado comercial relativamente modesto neste ano significará um déficit maior em transações correntes, provavelmente superior a 3% do PIB. Não será um desastre, mas a tendência é preocupante. Se o Banco Central continuar disposto a combater a inflação, os riscos à frente poderão ser menores, mas o aperto monetário dificilmente compensará o previsível desarranjo fiscal. O governo parece ter percebido o custo político da inflação, mas ainda se mostra disposto a pagar caro, por outros meios, pela reeleição.

Use a cabeça, senhor juiz

Guilherme Fiúza 
O Globo

Enfim, uma unanimidade. A escolha do novo ministro do Supremo Tribunal Federal, o advogado Luís Roberto Barroso, que pode dar o voto decisivo sobre o mensalão, agradou a todos — governistas e opositores, comentaristas e críticos, simpatizantes da defesa e da acusação. Dilma teria resistido à tentação de inocular na Corte mais uma carta marcada petista, como Lewandowski e Toffoli.

O juízo geral parece ser de que Barroso é politicamente equilibrado e seu julgamento será sóbrio e técnico. Sendo isso mesmo, fica difícil entender o falatório do novo ministro nos últimos dias.

Em plena sabatina no Senado, Luís Roberto Barroso achou que devia opinar sobre o processo do mensalão, julgado por seus futuros colegas. E declarou que o Supremo “endureceu” nesse caso.

Com seu palpite, Barroso julgou de uma vez só o jogo jogado, os juízes do jogo e o prognóstico para o resultado final. Depois ressalvou que não estudou nada do processo e só estava dizendo isso porque já tinha dito antes.

O problema é que antes o palpite era só um palpite. Agora ele estava apenas esperando a toga para entrar em campo como juiz.Com uma pitada da sobriedade que lhe atribuem, Barroso poderia ter dito que suas opiniões como advogado sobre um processo onde agora será juiz, naturalmente, não vêm ao caso.

São papéis completamente diferentes, e a primeira responsabilidade de um alto magistrado a serviço do Estado é mostrar, justamente, que não será na Corte um advogado de suas opiniões pregressas.

Quem quiser conhecê-las que vá ao Google. Na sabatina, Barroso ressalvou que aquele era o único momento em que falaria livremente, pois em seguida mergulharia na discrição do cargo.

Ora, ele já estava virtualmente no cargo. Todos sabiam que suas chances de aprovação beiravam os 100%. Evidentemente, suas declarações foram para as manchetes não como opiniões de um jurista, mas como o pensamento do novo ministro do STF.

O que provocou repercussões imediatas — inclusive com declaração de outro ministro do STF encampando a tese do julgamento “duro” no caso do mensalão.

Em bom português, o sóbrio, equilibrado e técnico Luís Roberto Barroso inaugurou sua carreira de juiz fazendo política. O que significa sua declaração de que o Supremo endureceu? Significa que no seu voto ele vai amolecer? E se não for isso, por que não simplesmente se calar e ir estudar o processo? É bom não perder de vista o que significa o STF amolecer nas decisões sobre os recursos dos réus do mensalão.

Significa desde o abrandamento de penas até a possibilidade de os chefes do esquema escaparem da prisão. O novo ministro disse que o rigor da Corte no mensalão foi “um ponto fora da curva”

O que quer dizer isso? Barroso está dizendo que o Supremo Tribunal Federal se excedeu? Ou que o Supremo errou? Sim, porque não existe mulher meio grávida, nem sentença meio certa. Existe sentença meio mozarela e meio calabresa — e essas são muito comuns.

Estará o STF, com sua nova formação, se encaminhando para uma dessas, no julgamento político mais importante da República? Depois da grande catarse nacional no ano passado, o caso esfriou e a opinião pública não mais voltará a olhá-lo com a mesma atenção.

Isso é um fenômeno tipicamente brasileiro, uma espécie de habeas corpus natural, com o qual os delinquentes contam fervorosamente. Mas se o novo ministro do STF acha que o julgamento do mensalão foi um ponto fora da curva, é importante lembrar ao ministro que o escândalo do mensalão também foi um ponto fora da curva.

Seria o caso de perguntar ao ministro Barroso se ele tem notícia de outra quadrilha, na história deste país, que tenha criado um duto entre os cofres públicos e o partido do presidente da República.

Não para um desvio fortuito, mas para diversas operações, devidamente comprovadas, que levaram o dinheiro do contribuinte para o caixa do PT. Seria também interessante lembrar ao novo ministro que o grupo político que pariu e operou esse esquema continua governando o Brasil.

Os réus do mensalão não estão no governo, mas a tecnologia está. Talvez o ministro ainda não tenha tido que andar um quilômetro entre os terminais 1 e 2 do aeroporto do Galeão, por conta de uma esteira que não funciona às vésperas da Copa das Confederações. Pois bem: a agência reguladora que deveria garantir a dignidade dos passageiros é aquela transformada em bazar por Rosemary Noronha — a protegida de Lula que Dilma segurou até onde pôde.

Seria bom lembrar que o PAC, que ostenta níveis ridículos de investimento e planejamento em infraestrutura, tinha como empreiteira campeã a Delta — uma central de negociatas revelada pela CPI do Cachoeira (asfixiada pelo governo Dilma). São cachoeiras de parasitas atarraxados ao Estado pelo governo popular, alguns mais aberrantes, como o ex-ministro Carlos Lupi.

Demitido sob acusação de usar ONGs para desviar dinheiro do Ministério do Trabalho, menos de um ano depois ele já dava as cartas no governo novamente. Dizendo que, no STF, vai fazer apenas o que acha certo, Luís Roberto Barroso disse que seguirá seu coração. Não, ministro. Siga sua cabeça. Estude bem o que essa quadrilha fez ao Brasil, e use a cabeça.

O Alienista e o Supremo Tribunal Federal

José Alberto Couto Maciel (*)
Brickmann & Associados Comunicação

... talvez, tão tarde, nenhum mensaleiro deverá seguir para a cadeia e o STF (Bacamarte nessa história), poderá até repensar seu posicionamento e ver que, se só ele tem caráter e honestidade nesse país, seria o caso do Congresso alterar a Constituição e determinar que seus Membros fossem presos...

No genial conto de Machado de Assis, o famoso médico Simão Bacamarte, resolvendo dedicar-se ao estudo da psiquiatria, constrói em sua cidade um Manicômio - Casa Verde -, para abrigar todos os loucos da região. Inicialmente internava aqueles que realmente eram considerados loucos, mas, com o tempo, passou o Dr. Bacamarte a enxergar loucura em todos, deixando os moradores da cidade apavorados a ponto de se revoltar. A revolta, porém, encontra o médico calmo e racional, internando os demais revoltados.

Com a maioria dos residentes da Cidade internados, inclusive políticos e militares, resolve Dr. Bacamarte rever sua teoria, considerando que estava ela equivocada, ou seja, como a maioria das pessoas tinha desvio de caráter deveriam elas ser consideradas curadas, internando quem tinha regularidade de ação e princípios de honestidade, pois estes, como exceção, é que deveriam ser considerados loucos, acabando, na história, internando somente ele mesmo.

Na verdade a história se repete de forma muito parecida, atualmente, em Brasília, especialmente no que concerne ao julgamento do Mensalão e o STF. Ministros da Suprema Corte decidem que os petistas envolvidos no escândalo do chamado Mensalão, teriam cometido crimes contra o Estado e, em decorrência, condenam os denunciados à cadeia, onde deverão pagar pelos crimes cometidos.

Contra essa decisão, revolta-se parte dos deputados e senadores, sendo que alguns congressistas criam até projeto de alteração do texto constitucional para destituírem de parte do poder os membros do Supremo Tribunal, abrindo caminho mesmo até para prender esses integrantes da Corte que pretendem tratar como criminosos aqueles que, lutando pelo Brasil, tomaram o dinheiro dos contribuintes para manter o partido no poder.

Abre-se, assim, um conflito entre poderes, desmentido pelos jornais, o que evidencia sua existência, não mais se sabendo se o Poder Judiciário pode julgar e prender, ou se, de acordo com o Congresso Nacional, só pode julgar e prender quem o Congresso acha viável, ou seja, é possível internar no manicômio ou não tem o STF (Bacamarte), poderes para prender determinados políticos?

Enquanto isso é publicado o acórdão do julgamento e apresentam os réus embargos de declaração. São tantos declaratórios quantos são os condenados, embargos que não alteram em nada a condenação, mas protelam a cadeia, pois evitam o trânsito em julgado.

Haverá julgamento desses declaratórios até junho? Em agosto? Mas e depois, publicado o acórdão dos declaratórios, caberá ainda embargos infringentes dos que obtiveram quatro votos em seu favor no julgamento original. Daí sim, poderá se reapreciar as condenações, e com um novo Ministro que não julgou inicialmente o processo, e, talvez, com outro a ser ainda nomeado.

Nessa hipótese, poderão ser alterados os julgamentos anteriores? Quanto tempo demorará o julgamento dos infringentes? E a publicação do novo acórdão? Daí caberá novos declaratórios com relação a eles? E o prazo de julgamento dos novos declaratórios? E o referido acórdão?

Vejam, tão cedo, e, até talvez, tão tarde, nenhum mensaleiro deverá seguir para a cadeia e o STF (Bacamarte nessa história), poderá até repensar seu posicionamento e ver que, se só ele tem caráter e honestidade nesse país, seria o caso do Congresso alterar a Constituição e determinar que seus Membros fossem presos porque quem é honesto é que , realmente, está fora do contexto normal de nossa sociedade.

(*) José Alberto Couto Maciel - é membro da Academia Nacional de Direito do Trabalho, professor de Direito Processual e Individual do Trabalho e sócio da Advocacia Maciel

Chavismo lá, petismo cá

O Estado de S.Paulo

Não faz muito tempo, o PT preconizava o "controle social da mídia". Mas a ideia de "controle" assusta um pouco e não tem lá grande apelo motivacional. Os marqueteiros entraram em ação e a palavra de ordem mudou então para "democratização da mídia". Afinal, "democratização" é o tipo ideal de ideia-ônibus: todo mundo embarca nela. Só que, como é da natureza das proposições populistas - muito apelo e pouco conteúdo -, nunca ficou claro o que vinha a ser exatamente a "democratização" preconizada, de que modo ela se aplicaria ao cotidiano dos veículos de comunicação, no que ela mudaria de fato para melhor a vida dos brasileiros. Agora, finalmente, o grande enigma parece desvendado. Por analogia.

O finado general Hugo Chávez acaba de ser agraciado, na Venezuela, com o Prêmio Nacional de Jornalismo Simón Bolívar, pelos relevantes serviços prestados à causa da "democratização da mídia" em seu país. Como até as maçanetas do Instituto Lula sabem, Hugo Chávez é a segunda grande figura da política latino-americana a quem as lideranças petistas, Lula à frente, prestam fervorosa reverência. A primeira é Fidel Castro. Não há bom petista que não inveje os poderes de que Chávez logrou se investir para implantar "democraticamente" o "socialismo bolivariano" na Venezuela.

A instituição que outorgou a láurea póstuma a Chávez é uma fundação vinculada à vice-presidência da República. Estatal, portanto. E a justificativa do prêmio chega a ser comovente: "Decidimos outorgar o prêmio extraordinário ao comandante Hugo Chávez porque ele devolveu a palavra aos oprimidos do mundo (sic) em seu papel de comunicador social, em sua constante batalha contra a mentira midiática".

O panorama do jornalismo que hoje existe na Venezuela ainda não chegou à perfeição daquele que vigora há mais de meio século em Cuba, pois ainda sobrevivem alguns veículos não estatais. Em 13 anos de governo, Chávez desenvolveu um meticuloso e eficiente trabalho de neutralização dos jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão que ousavam manifestar discordância com as políticas oficiais. Apelou para todos os tipos de recursos, desde os embargos de um Poder Judiciário completamente subjugado até os obstáculos econômicos e financeiros, passando pela intimidação e o empastelamento.

As emissoras de televisão, pela extensão de sua audiência, foram as mais perseguidas. As duas maiores redes, por insistirem no jornalismo não alinhado com a política chavista, acabaram subjugadas. Em 2007, a RCTV teve a renovação da concessão simplesmente negada, sob o argumento de que teria participado do golpe de Estado que apeou Chávez do poder por dois dias, em 2002. Este ano, a Globovisión, depois de ter sido financeiramente exaurida pela imposição de pesadas multas, foi vendida para um grupo empresarial aliado do governo e está mudando radicalmente sua linha editorial.

Diante dessa realidade na qual praticamente já não se pode falar em liberdade de imprensa, o Sindicato Nacional de Jornalistas da Venezuela protestou contra a homenagem ao caudilho: "Repudiamos o prêmio dado ao falecido presidente Chávez, responsável pelo fechamento de grande número de veículos de comunicação durante seu governo: além da RCTV, 33 emissoras de rádio".

No Brasil, sob o pretexto da urgente necessidade de um novo marco regulatório das comunicações (o atual tem mais de meio século), o PT promove deliberadamente a confusão entre o verdadeiro objetivo desse marco, que é regular o funcionamento de uma concessão pública - as emissoras de rádio e TV -, com o controle da mídia impressa, cujo funcionamento não depende de concessão. Para ambos os casos, aliás, prevalecem o fundamento constitucional da liberdade de expressão e o veto a qualquer tipo de censura à atividade jornalística, cujos eventuais abusos são tipificados e têm punição prevista na lei ordinária.

Mas o modelo dos sonhos do lulopetismo é aquele que a Venezuela e outros governos bolivarianos estão tentando copiar de Cuba.

Desencontro federal

Carla Kreefft
Tribuna da Imprensa


Do jeito que as coisas caminham, a paciência, até mesmo a dos aliados, não demora a chegar ao fim. O governo da presidente Dilma Rousseff deixa perceber que muita coisa não anda bem.

As ações do governo federal são divergentes, e as declarações públicas são contraditórias. Assim, a presidente vai perdendo credibilidade e se mostrando, cada vez mais, inábil.

São cartilhas que deveriam contribuir para a informação e a formação dos cidadãos e, por terem conteúdos questionáveis, acabam provocando polêmicas enormes e não cumprem o papel educativo. Em consequência de fatos como esse, surgem demissões e explicações de difícil entendimento – sintomas de crise interna. São medidas provisórias que, em vez de negociadas, são impostas ao Congresso e terminam sendo derrotadas ou perdendo a validade – sintomas de falta de articulação política.

CLARA INSATISTAÇÃO
São partidos aliados que mostram clara insatisfação e, pior, não se trata de uma tradicional rebelião em função do não pagamento de emendas parlamentares. São insatisfações em relação ao tratamento recebido por eles pelo Poder Executivo. Portas fechadas, telefonemas inesperados e recados mal-educados são exemplos da forma com a qual o governo Dilma tem tratado alguns de seus aliados. E as grosseiras são cometidas por pessoas muito próximas da presidente – é o pessoal do primeiro escalão. Para alguns parlamentares da base, o comportamento condenável não está restrito a um ocupante de cargo ou a uma situação infeliz. Parece, segundo eles, que o comportamento é padrão e teria sido estabelecido a partir do exemplo da própria Dilma, que já tem a fama de ser durona e pouco tolerante.

A pergunta que se faz é: por que tanta aspereza na relação entre os Poderes Executivo e Legislativo? Os aliados do governo não admitem abertamente, mas sussurram nos bastidores a resposta para o questionamento. “É simples, a administração não está bem”, dizem eles. A afirmação não é de difícil compreensão. Quando segmentos e movimentos sociais – como o MST e os índios – partem para a radicalização diante de um governo que se denomina de centro-esquerda a um ano de uma eleição presidencial, é prova de que o diálogo está esgotado ou nem mesmo existiu.

Como se esse cenário não bastasse, a situação econômica começa a apontar para alguns problemas. A inflação está mais resistente e em tendência de alta, o consumo interno – salvação do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – começa a se retrair, os investimentos públicos, especialmente os relativos à infraestrutura, já estão no limite, o que significa, no mínimo, o impedimento para a expansão de emprego. Crise?

Popularidade de Dilma tem maior queda desde o início do mandato, aponta Datafolha

Rodrigo Taves 
O Globo

De acordo com o Datafolha, 57% da população avaliam o governo Dilma como bom ou ótimo

Gustavo Miranda / O Globo 
Dilma durante café da manhã com jornalistas, no Palácio do Planalto 

SÃO PAULO — Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada neste sábado pelo site do jornal “Folha de S.Paulo” informa que a popularidade da presidente Dilma Rousseff caiu 8 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, realizado em março. É a maior queda desde o início do mandato de Dilma, há dois anos. Antes, pequenas reduções tinham chegado, no máximo, a dois pontos percentuais, dentro da margem de erro da pesquisa.

De acordo com o Datafolha, 57% da população avaliam o governo Dilma como bom ou ótimo, contra 65% em março. A avaliação regular subiu de 27% para 33%, e o ruim ou péssimo de 7% para 9%. Apesar da queda de popularidade, diz o Datafolha, a presidente Dilma Rousseff continua sendo a favorita para vencer a eleição presidencial do ano que vem.

A pesquisa aponta que Dilma perdeu popularidade entre homens e mulheres, em todas as regiões do país, em todas as faixas de renda e em todas as faixas etárias. Os dados mostram que os entrevistados estão mais preocupada com a inflação e o desemprego. Para 51%, a inflação vai subir. Em março, esse índice era de 45%. O aumento do pessimismo também pode ser observado em questões como desemprego, poder de compra do salário, situação econômica do país e do próprio entrevistado.

Em relação às eleições de 2014, o Datafolha fez a pesquisa levando em conta diferentes possíveis cenários da disputa. Se Dilma tivesse como adversários a ex-senadora Marina Silva (Rede), o senador Aécio Neves (PSDB) e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), a pesquisa indica que ela teria 51% das intenções de voto. São sete pontos percentuais a menos que o verificado no levantamento anterior, de março, mas ainda suficientes para vencer a eleição no primeiro turno.

Marina apareceu em segundo lugar, com 16%, e Aécio em terceiro, com 14%, quatro pontos a mais que na pesquisa de março.

Estilo Dilma de governar

Rogério Gentile
Tribuna da Imprensa 

Dois anos e meio depois da sua posse, Dilma Rousseff ainda governa o Brasil como se fosse ministra da Casa Civil. Gasta mais tempo com os detalhes da administração do que com os rumos do país. Privilegia a tecnocracia em detrimento da articulação política. E, em vez de estimular a criatividade, usa broncas como método de trabalho.

Dilma não é uma presidente formuladora, como foi FHC. Tampouco tem a intuição e a sensibilidade de Lula ou mesmo a sua capacidade de enfrentar situações difíceis, inclusive na economia, na base do gogó.

A presidente também tem grande dificuldade para escolher auxiliares. FHC tinha Malan, Serra, Armínio Fraga e Pedro Parente. Lula tinha Dirceu, Palocci, Thomaz Bastos, Henrique Meirelles e a própria Dilma.

Pode-se gostar ou não de cada um deles, mas é inegável que compunham núcleos consistentes e capacitados de governo. Não é à toa que FHC e Lula tornaram-se dois dos mais importantes presidentes da história do Brasil. Dilma trabalha praticamente sozinha.

TURBULÊNCIAS…
Reportagem publicada pela Folha na semana passada é simbólica sobre o jeito Dilma de governar. Por não tolerar turbulências em seus deslocamentos aéreos, a presidente verifica pessoalmente o plano de voo do avião presidencial, aprendeu a ler os dados do painel da cabine do piloto e até modifica as rotas oficiais.

A presidente-gerente, como seus aliados costumam dizer, de fato toca o governo como quem supervisiona o embarque de um avião. Auxilia os passageiros, agiliza as filas, arruma a gola do piloto, reclama do penteado das aeromoças, observa se as malas estão devidamente etiquetadas e manda limpar de novo o banheiro dos aviões.

Se o país estivesse voando em céu de brigadeiro, seu estilo centralizador, detalhista e reclamão seria apenas folclórico. Em tempos de crescimento econômico baixo e de inflação batendo novamente à porta, é motivo para preocupação.

 (Transcrito da Folha)

Piora estrutural

Alvaro Gribel e Valéria Maniero 
O  Globo

Foi uma semana ruim para a economia brasileira. O Banco Central reconheceu que a inflação está alta e deve subir mais os juros; a S&P colocou a nota do país em viés negativo; o IPCA voltou ao limite da meta. As notícias reforçam sinais dados por outros indicadores que vêm piorando há um bom tempo. O PIB desacelerou, a balança comercial encolheu, as taxas de poupança e de investimento caíram. 

A bolsa não reage e continua longe do recorde de 73 mil pontos. Caiu ontem a 51 mil. A indústria continua 1,8% abaixo de maio de 2011. O déficit em conta corrente chegou a 3% do PIB e já não é mais inteiramente financiado pelo Investimento Estrangeiro. Voltamos a depender de capital especulativo.

Vários setores ficaram muito tempo travados. Aconteceu com o petróleo e ainda acontece com a mineração. O setor de energia mudou o marco regulatório em tempo recorde e gerou insegurança. O estímulo ao consumo elevou as dívidas, e a inadimplência subiu no melhor momento do mercado de trabalho. A inflação tem tirado o ímpeto do consumo. Não são poucos os sinais de que algo está fora do lugar.

O economista Mário Mesquita, ex-diretor do BC e sócio do banco de investimentos Brasil Plural, avalia que, de tudo, a política fiscal foi a que mais perdeu credibilidade. Mesquita lembra que hoje é preciso expurgar números para se saber qual é o superávit primário e explica que a dívida líquida deixou de ser referência:

— Houve abalos ao tripé macroeconômico sem que se tenha colocado nada no lugar. Enquanto a dívida líquida descontava as reservas, era uma coisa. Agora, descontam-se empréstimos a entidades públicas. Começou em 2010. O governo vai usar bônus do pré-sal para ajudar no primário. Vamos queimar poupança para financiar gasto corrente. As contas estaduais, pouco a pouco, estão perdendo as amarras.

Pelo lado positivo, ele cita que melhoraram as reservas cambiais, a taxa de desemprego, e a confiança dos consumidores tem se sustentado. Mas, no conjunto, há muito mais indicadores que ficaram piores nos últimos anos (veja na tabela).

— A política monetária deu sinais de que está preocupada com a credibilidade. Mas, no lado fiscal, ainda não há nenhuma indicação disso.

Portos: governo fecha e depois abre
O fim da restrição à carga de terceiros nos terminais privados deve acelerar investimentos no setor portuário. O que é difícil de entender é o vai e vem do governo. Essa restrição começou em 2005, com uma resolução da Antaq, durante o governo Lula. Em 2008, decreto assinado pela então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, determinou que a carga própria deveria ser preponderante. Vários terminais que já estavam construídos ou em andamento correram risco de cair na ilegalidade. Tiveram que ir à Justiça e perderam negócios. Com a MP dos Portos, a presidente volta atrás e libera o embarque. É esse tipo de indecisão regulatória que deixa empresários inseguros e trava os investimentos.

DIA SEGUINTE. O Ibovespa reagiu mal, ontem, à decisão da S&P de colocar em perspectiva negativa a nota do Brasil. Caiu mais de 2%, ficando abaixo de 52 mil pontos. A má notícia não parou por aí. A agência também fez o mesmo com 11 instituições financeiras brasileiras. Há bancos públicos e privados nessa leva.




Sem ajuste fiscal, Selic vai a dois dígitos, diz Delfim

Exame.com
Ricardo Leopoldo, Estadão Conteúdo

Para Delfim, a presidente Dilma Rousseff deveria buscar o déficit nominal zero

Carol do Valle /VEJA 
"Tem de esquecer o superávit primário. Temos de ir para o 
déficit nominal zero. O que interessa é o déficit fiscal", diz Delfim

São Paulo - O Banco Central (BC) terá de elevar os juros para uma taxa de dois dígitos para combater a inflação, caso o governo não contribua com um ajuste fiscal (redução de gastos públicos), afirmou o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Antônio Delfim Netto. "Se deixar tudo na mão do BC e se ele for cumprir o seu papel, isso vai gerar uma recessão muito mais profunda do que em qualquer outra condição", disse.

Para Delfim, a presidente Dilma Rousseff deveria buscar o déficit nominal zero (ou seja, uma economia suficiente para pagar todas as despesas do governo, incluindo os juros da dívida), pois um controle rigoroso das contas públicas é fundamental para restaurar a credibilidade da política econômica. Essa estratégia, avalia, contribuiria para reduzir os juros futuros e estimularia os investimentos.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que o sr. defende uma política fiscal austera e déficit nominal zero?
Porque só a política monetária (taxa de juros) é incapaz de controlar essa inflação. Os juros sozinhos impõem um custo social gigantesco, muito maior que o necessário. Mas o governo está mudando. Ele deixou o dólar flutuar um pouco mais, acabou aceitando a ideia de que precisa de uma política monetária um pouco mais ativa. Falta um complemento fundamental que é uma mudança radical no entendimento da economia brasileira.

Há muitas críticas de economistas que acreditam que o governo vai gerar um superávit primário (economia para pagamento dos juros da dívida pública) menor que 2% do PIB neste ano.
Tem de esquecer o superávit primário. Temos de ir para o déficit nominal zero. O que interessa é o déficit fiscal.

O que ocorreria se a presidente Dilma Rousseff anunciasse agora que vai buscar o déficit nominal zero?
Se ela disser "eu vou buscar o déficit nominal zero nos próximos três anos", o efeito ocorre hoje, pois ela tem credibilidade. E estamos nas vésperas de recuperar a credibilidade. Está na mão dela fazer isso. O governo precisa fazer com que todos os gastos avancem menos que o PIB, sobretudo despesas correntes. Graças aos enormes truques contábeis, ninguém mais acredita em nada. A tal quadrangulação fiscal realizada no fim do ano foi a gota que derrubou a água do copo.

E isso melhoraria o sentimento dos empresários para investir e rebaixaria os juros futuros?
E criaria também um ambiente favorável para as novas concessões públicas, como estradas, aeroportos, ferrovias. A presidente é uma mulher inteligente, preparada e pragmática. Tudo o que ela fez está correto. A forma de fazer você pode discutir. Ela agiu bem na mudança das regras da poupança, na desoneração de impostos federais da folha de pagamento, no acordo do aumento salarial do serviço público. Só que na execução tem muito atrito. Daqui a dois anos tudo isso estará no lugar certo e vai ajudar o crescimento.

A adoção do déficit nominal zero pode ocorrer no curto prazo?
Sim. O mercado tem a percepção de que a situação fiscal no Brasil é uma esculhambação. Há uma crença no mercado, que não é a minha opinião, de que o governo já não sabe mais qual é o déficit público que está criando. Para o mercado, o governo faz tanto truque, mexe com tanta coisa, que não tem mais credibilidade. É preciso encontrar um caminho claro e transparente que não tenha mais truque.

Essa percepção ruim sobre a política fiscal colaborou para que a Standard & Poor’s mudasse a perspectiva do Brasil de estável para negativa.
A decisão da Standard & Poor’s reflete esse pensamento do mercado, que é exagerado. O governo mexeu tanto que as pessoas adquiriram uma percepção de que o sistema está caminhando mal. Não adianta insistir que a situação não é essa, pois as pessoas respondem à situação na qual elas acreditam.

Por que o BC aumentou o ritmo da alta de juros pela primeira vez no governo Dilma?
O BC adotou essa postura para cortar a demanda mesmo. Mas vai cortar a demanda privada, quando o que tem de ocorrer é a redução da demanda pública. E, na medida em que isso não acontece, sobe o custo da dívida, que eleva o déficit público. A solução para o problema é fiscal. O Tombini vai aumentar os juros para onde eles terão de ir. Só que, se tiver que subir os juros sem o ajuste fiscal, a Selic vai aumentar para dois dígitos, seguramente. Se deixar tudo na mão do BC, e se ele for cumprir o seu papel, isso vai gerar uma recessão muito mais profunda do que em qualquer outra condição.

Nesse contexto, o crescimento do País de 2,5% neste ano estará de bom tamanho?
Eu acho que deve ser por aí mesmo. Mas o ano não está acabado.

O BC disse na ata da última reunião do Copom que o caminho do dólar é de fortalecimento. O sr. Concorda?
É de fortalecimento mesmo, o que tem consequências, como a queda do preço das matérias-primas. E sobem os juros nos EUA. Ou seja, a direção do investimento estrangeiro vai mudar. Os EUA são um elefante na sala. Ele mexe o rabo e quebra quatro ou cinco peças de louça, e nós somos uma louça que está lá na sala. Hoje é o momento próprio para fazer essa inversão: dar para o setor externo aquela convicção que existia há três anos de que o Brasil é um país no qual as oportunidades de investimentos são as mais seguras.

Nas sombras, uma gastança de R$ 4,3 bilhões

Izabelle Torres
Revista ISTOÉ

Na contramão dos cortes no Orçamento anunciados pelo governo, gastos com funcionários terceirizados aumentam 48% em apenas dois anos


Embora tenha anunciado um freio de arrumação nos contratos de funcionários terceirizados – um velho drama da administração pública –, o governo Dilma Rousseff tem exibido uma grande dificuldade em cumprir a promessa. Os gastos com terceirização têm aumentado a cada ano e os contratos com empresas criaram uma máquina paralela de governo. Ao responder, na semana passada, a um requerimento apresentado pelo deputado Antônio Reguffe (PDT-DF) ao qual ISTOÉ teve acesso, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, disse que, em 2012, 24 ministérios e a Presidência da República consumiram nada menos do que R$ 4,3 bilhões em mão de obra terceirizada. O documento mostra ainda uma verdadeira escalada de despesas com terceiros, a despeito de o governo já contar em seus quadros com 23.579 servidores comissionados. O total divulgado é 48% maior do que o registrado em 2010 e 20,3% superior ao que foi gasto em 2011. Só no ano passado, o Ministério da Educação gastou com mão de obra contratada R$ 1,2 bilhão. Foi seguido pela Saúde, com despesa de R$ 922 milhões e pela Previdência, que desembolsou R$ 431 milhões. Coube à Presidência da República o único bom exemplo da diminuição de gastos, que reduziu em 4,8% os contratos com terceirização entre 2011 e 2012.

INCHAÇO
Documento assinado pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior, mostra gastos de 
R$ 4,3 bilhões com terceirizados em 2012. Só a Educação desembolsou R$ 1,2 bilhão

O crescimento de terceirizados é um movimento na contramão dos acordos já assinados pelo próprio governo e viola uma determinação do TCU. O tribunal tinha dado um prazo até fevereiro para a substituição de servidores terceirizados e pediu um mapa dos contratos. Em vez de reduzir a estrutura, o Executivo apresentou um recurso e paralisou o processo. Em 2010, um acordo entre o Ministério Público do Trabalho e a ministra Miriam Belchior também havia estabelecido regras para a contratação de terceirizados. Entre elas, a proibição de designá-los para cargos com poder de decisão. Entretanto, os ministérios descumprem esse item sem constrangimentos. No Ministério do Esporte, por exemplo, esses funcionários comandam núcleos de esporte e fiscalizam programas como o Segundo Tempo. Nos ministérios da Cultura, dos Transportes e da Agricultura também há chefes e coordenadores de setores ocupando vagas específicas de servidores de carreira. Segundo o Ministério do Planejamento, 12.465 servidores terceirizados estão irregulares. Mas o número pode ser bem maior. “Temos as mais diferentes denúncias. Estimamos que na administração pública federal estejam mais de 200 mil terceirizados e 20% deles exerçam funções indevidamente. Sucessivos governos ignoraram as leis e mantiveram essa estrutura paralela”, avalia José Milton, diretor da Confederação dos Trabalhadores do Serviço Público Federal.


EM VÃO
A ministra Miriam Belchior fechou acordo com o MP 
para disciplinar a contratação de terceirizados, 
mas a maioria dos ministérios descumpre regras

A dificuldade de frear o aumento de gastos com terceirizados não é uma questão meramente administrativa. Segundo técnicos do Ministério do Planejamento, o problema também é político. Além de esses tipos de contratos possibilitarem elasticidade salarial, também permitem que os órgãos ampliem os gastos com servidores sem descumprir limites legais. “A lista apresentada pela ministra mostra que a estrutura do governo conta com cargos em excesso. Além dos cargos de confiança, o Executivo gasta muito com terceirizações e camufla o custo real com funcionários na máquina administrativa”, opina Reguffe, autor do requerimento. 

Fotos: Anderson Schneider/Istoé Dinheiro; Adriano Machado

No teto da meta

Celso Ming  
O Estado de S. Paulo

Se prosseguir na venda de ilusões, o governo Dilma dirá, como tem dito, que a inflação de maio (0,37%) foi mais baixa do que a de abril (0,55%); que a alta dos alimentos desacelerou com força e que, por isso, estamos melhorando e tal.

No entanto, a inflação em 12 meses (6,5%) está no gargalo da garrafa e vai saltar para cima desse nível pelo menos nos próximos três meses. Os efeitos da desoneração da cesta básica já não atuarão sobre a inflação e há os reajustes da condução que começam a pesar.

Embora um pouco mais contida, a alta continua espalhada demais, na medida em que 63% dos itens que compõem a cesta do custo de vida apresentaram elevação em maio. Enfim, como aponta o Banco Central, a inflação segue resistente, dizimando o poder aquisitivo.

Se estiver realmente empenhado em virar esse jogo agora adverso, o primeiro passo é admitir a deterioração da economia e tratar de colocar a composição nos trilhos.

Sempre há aqueles que argumentam que o setor fiscal (contas públicas) está melhor do que em tantos países modelos do mundo; que os juros básicos estão elevados demais quando se comparam com os praticados lá fora e, por isso, teriam de cair; que o Brasil estoca respeitável volume em reservas, de US$ 374 bilhões; e que, embora venha decepcionando, a atividade econômica avança mais do que na maioria dos países ricos, há cinco anos mergulhados na estagnação.

A atual combinação de políticas vem produzindo fiascos sucessivos quando comparados com os objetivos propostos: crescimento do PIB provavelmente na casa de 2% neste ano, em vez de 4% a 4,5% ao ano; inflação para além dos 6% ao ano, em vez do limite de 4,5%; derrubada do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) em vez dos 3,1% do PIB; e rombo crescente nas contas externas (saldo nas Transações Correntes) em vez da relativa estabilidade.

As depredações de quinta-feira na Avenida Paulista em protestos contra a alta das tarifas da condução e o anúncio da perspectiva de rebaixamento da qualidade dos títulos de dívida do Brasil pela Standard & Poor's são parte do mesmo quadro deteriorado que, felizmente, está longe do que acontece na Argentina, mas que, infelizmente, por lá começou também assim.

Por enquanto, apenas o Banco Central mudou de comportamento, antes complacente demais. O resto da administração Dilma parece paralisado, em parte porque não aprendeu a livrar-se dos mata-burros ideológicos e, pelos quatro cantos, vê a ação conspiratória dos neoliberais e "da finança internacional" e, em parte, porque não sabe ainda o que fazer.

Até que ponto o aperto da política monetária (política de juros) será capaz de conter a inflação? Se o Banco Central ficar sozinho na empreitada, poderá alcançar algum sucesso, mas terá de puxar os juros sabe-se lá para que alturas. Falta saber se o governo está disposto a calibrar sua política fiscal nessa direção.

Brasil precisa de plano de austeridade fiscal, diz banco

Exame.com
Altamiro Silva Júnior, Estadão Conteúdo

"O Brasil passa por uma erosão de credibilidade no mercado internacional", avalia o economista do Barclays em Nova York, Marcelo Salomon

Andrew Kelly/Reuters 
O Barclays recentemente rebaixou a projeção de expansão
 do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2013

Nova York - Existe um pessimismo enorme em relação ao Brasil no exterior e só um choque de credibilidade do governo da presidente Dilma Rousseff pode mudar essa percepção. "Com o rebaixamento da perspectiva do rating, o Brasil só está colhendo o que plantou", avalia o economista do Barclays em Nova York, Marcelo Salomon.

"O Brasil passa por uma erosão de credibilidade no mercado internacional", afirma o economista. Para Salomon, o governo precisa delinear um plano claro de voo em que se comprometa com austeridade fiscal.

Já houve uma mudança recente de postura pelo lado do Banco Central, ao aumentar os juros em 0,50 ponto em maio, sinalizando maior preocupação com o controle da inflação - sinalização também dada, na quinta-feira, 6, na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). "É uma carga muito grande deixar só o BC controlando a inflação", salientou.

Por isso, apenas a política monetária, avalia o economista, não é suficiente para restaurar a credibilidade perdida da economia brasileira. "O governo achou que poderia forçar o crescimento da economia brasileira e não conseguiu. Houve intervencionismo elevado."

Salomon destaca que o governo ficou alguns anos tratando mal o capital externo, aumentando a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Assim, seria complicado esperar que os fluxos voltem de uma hora para outra após a alíquota ser zerada esta semana, embora o Brasil sempre seja um destino para o investidor estrangeiro.

A mudança de perspectiva do rating, destaca o economista do Barclays, é negativa para o Brasil e sua imagem no exterior e pode adicionar uma pressão de venda para os ativos brasileiros, especialmente em um momento em que os investidores internacionais realocam suas carteiras diante da perspectiva de mudanças na política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Além disso, o anúncio pode esquentar o debate político para as eleições presidenciais de 2014, que já foi antecipado em meio à alta da inflação e a corrosão do poder de compra das famílias.

O Barclays recentemente rebaixou a projeção de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2013. A previsão agora é de crescimento de 2,5%, ante 3% da estimativa inicial. Para a Selic, após a ata da quinta-feira, 6, o banco vê mais três altas dos juros este ano (duas de 0,50 ponto e uma de 0,25), com a taxa básica chegando a 9,25% em dezembro.

Enquanto o Brasil passa por um inferno astral, o economista do Barclays destaca que o México vem se beneficiando do atual cenário e ganhando a confiança dos investidores internacionais. "O governo mexicano tem diretriz, tem norte, está fazendo reformas, melhorando a produtividade", diz Salomon.