domingo, junho 09, 2013

'Voltar para casa vivo se tornou um luxo', diz síria ao abandonar Damasco

BBC Brasil

"Algum tempo atrás, percebi que não era mais capaz de chorar ou de sentir. Mas eu queria chorar a cada morte, reconquistar minha humanidade e a minha alma. Não quero ficar confortável com a morte, quero vida"

Muitos acharam, erroneamente, que Damasco ficaria imune ao conflito na Síria

A repórter da BBC Lina Sinjab relata sua profunda emoção ao deixar para trás sua cidade natal, Damasco, capital da Síria - país que vive há mais de dois anos uma dura guerra civil:

"Damasco, a cidade onde eu cresci, com suas árvores de jasmim, mercados de especiarias e barazes, o rio Barada e uma história de milhares de anos.

A cidade está totalmente diferente. Cobri a Primavera Árabe desde seu começo, em março de 2011, e mantive meu amor por Damasco mesmo enquanto ela mudava diante dos meus olhos.

Todos achavam que a cidade ficaria imune à violência, que os conflitos em cidades e aldeias vizinhas não afetariam a capital.

Mas eles estavam enganados. Damasco se tornou mais um ponto de confrontos, testemunhando violência praticada pelo governo contra manifestantes pacíficos.

No início, o regime conseguiu reunir muitos simpatizantes ao redor da liderança de Bashar al-Assad. Houve dezenas de manifestações pró-governo, com slogans como "longa vida a Assad" e "Deus, Síria, Bashar apenas".

Depois, os cantos mudaram para: "Ou Assad ou ninguém" e "Ou Assad ou incendiaremos o país".

Hoje, são simplesmente "Incendiaremos o país".

Polarização
Para os aliados de Assad, que são principalmente do ramo alauíta (dentro do islã xiita), a sobrevivência do presidente significa a sobrevivência do próprio grupo.

A sociedade se tornou polarizada - amigos se separaram; familiares entraram em disputa, já que todos tomaram partido no conflito. A dinâmica da vida também mudou. Todos estão tentando, à sua maneira, se ajustar a uma cidade em guerra.

Lina Sinjab (dir) com seus colegas da BBC;
ela cresceu em Damasco, mas decidiu deixar seu país

Voltar para casa vivo se tornou um luxo. Todos na cidade sabem que podem morrer a qualquer minuto. Ou alguém próximo pode morrer no fogo cruzado ou nos morteiros que começam a chover sobre a cidade.

Na praça Abbassien, perto dos subúrbios ao sul, é possível ver as operações militares a todo vapor. Um estádio esportivo foi convertido em base, com tanques e soldados. De lá, assisti um tanque disparar contra o distrito de Jobar, a duas ruas de onde mora a minha família.

Não sabia como me sentir. Por algum motivo, eu ri - não sei se de raiva, ou da sensação de impotência porque tantos estão morrendo e não há nada que eu possa fazer; ou de egoísmo, pela minha sorte de estar atrás do tanque e ainda poder viver.

Algum tempo atrás, percebi que não era mais capaz de chorar ou de sentir. Mas eu queria chorar a cada morte, reconquistar minha humanidade e a minha alma. Não quero ficar confortável com a morte, quero vida.

Destruição
Ao longo do conflito, visitei muitas cidades. Fui a protestos em Homs; vi jovens cristãos e ativistas alauítas visitando subúrbios de Damasco para oferecer condolências a famílias que perderam crianças, mortas por tropas pró-governo; acompanhei mulheres indo de porta em porta para ajudar pessoas traumatizadas pela guerra.

Mas mesmo pequenos gestos pacíficos eram motivo para prisão - imagine então estar na linha de frente do combate, pegando em armas para lutar contra o regime.

Douma, um subúrbio de Damasco, foi um dos primeiros lugares a protestar, de forma totalmente pacífica. Hoje, está totalmente destruído.

Os civis que continuaram lá ficaram marcados pelo conflito. Um menino de 14 anos que abandonou a escola para se tornar enfermeiro me disse que, se tivesse continuado os estudos, já estaria falando inglês fluentemente.

Ele diz que vive rodeado de sangue e ferimentos. Mas manteve-se forte. E, enquanto um avião militar o sobrevoava durante a nossa conversa, ele disse que não tinha medo da morte; pelo menos agora ele podia falar livremente.

Dar valor
Criamos maneiras de sobreviver - cozinhando, bebendo, dançando, rindo.

Fizemos piadas sobre a guerra, sobre nossos medos, criticando o governo e a oposição.

Não se passa um dia sequer sem que haja um encontro social entre amigos. É bizarro como a guerra faz você dar valor a todas as pessoas na sua vida.

Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos tristes ou fracos, e não há alternativas senão levantar e seguir em frente.

Após um ano impedida de deixar o país, consegui meu passaporte, e era hora de ir embora. Disse adeus aos últimos amigos.

A situação em Damasco piora a cada dia. Algo dentro de cada um de nós se despede, e não sabemos se vamos voltar a nos ver.

Não sei o que acontecerá com a minha cidade e com quem permanece na Síria. Saí de Damasco com o coração e a alma partidos, deixando para trás memórias, minha vida, amizades e histórias.

Não sei quando voltarei, mas, se voltar, temo que não será para a mesma cidade onde eu cresci.