domingo, junho 09, 2013

‘Eles querem que as mulheres de Gaza vivam na Idade da Pedra’

O Globo
David Alandete, do El País

Governo do Hamas condena mulheres ao ostracismo e castiga as que lutam pela liberdade
Noha el Suri denuncia o machismo do governo da região

MOHAMMED SALEM / REUTERS 
Palestina na Faixa de Gaza: 
mulheres foram excluídas de maratona em região governada pelo Hamas 

FAIXA DE GAZA - Samah Ahmad não tem medo. Seguidora do islamismo, ela se define como rebelde por natureza. Mesmo assim, Ahmad diz estar disposta a lutar contra a ofensiva do Hamas, organização islamista que governa a Faixa de Gaza.

- O que fazemos pela religião é por escolha pessoal, ninguém pode nos impor nada - afirmou uma das 67 mulheres palestinas que foram inscritas para participar de uma maratona no dia 10 de abril, em Gaza. - O Hamas nos proibiu de participar da competição, e os organizadores cancelaram o evento. Quero que eles me digam onde está no Alcorão ou em alguma lei palestina que uma mulher não pode participar de uma maratona.

A notícia do cancelamento da maratona repercutiu em vários veículos de comunicação do mundo, causando indignação, principalmente, no Ocidente. No entanto, em Gaza, essa era apenas mais uma história entre outras tantas de queixas sobre a situação das mulheres na região. A própria Samah Ahmad, de 32 anos, possui cicatrizes que provam isso. Ela foi esfaqueada em março durante um comício pela reunificação palestina.

- Primeiro, eles me atacaram com uma faca. Depois me prenderam durante horas, enquanto eu sangrava. Vi quem era. Foi um dos oficiais do governo, ele estava uniformizado. Assim nos protege quem governa Gaza - criticou Samah.

Samah não é secular. Ela usa véu.

- Porque eu quero - revela.

Em 2007, ela fez a tradicional peregrinação muçulmana a Meca. Quando voltou à Faixa de Gaza, depois que o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas, a região havia se transformado em um palco de guerra entre o grupo islâmico e o secular Fatah, que seria expulso da região semanas depois.

- Nas ruas, começaram a dizer que a polícia impôs às mulheres o uso dohijab (véu islâmico). Eu decidi em vestir como agora, com camisa e calças. E só fiz isso porque eu quero, não porque alguém me disse que eu precisava usar.

Em Gaza vivem cerca de 3 mil cristãos ortodoxos.

O problema fica pior quando seu próprio credo não é o mesmo do Hamas. Cristã ortodoxa, a religião de Noha el Suri, de 28 anos, não exige o uso véu, mas o simples ato de andar pelas ruas de Gaza pode se transformar em uma provação. A secretária sempre procura a companhia de um parente do sexo masculino quando vai fazer compras ou vai ao restaurante. Porém, nem sempre ela consegue essa proteção. Um dia, quando foi a um café no centro da Cidade de Gaza, um homem que passava a insultou, acusando-a de irreverência.

- Eles querem impor o véu sobre todas as mulheres, ainda que não sejam muçulmanas. Não sabem que sou cristã, e acham que sou muçulmana porque vivo aqui. Quando encontro um homem na rua, ouço comentários. Dizem que eu não me importo com Deus, que eu não tenho medo do que pode acontecer comigo no Juízo Final.

Noha, porém, acredita que, se usasse véu, sua vida em Gaza seria muito mais fácil.

- Mas, isso não é religião, é sobre quem eu sou. Não parece justo que alguém não possa viver sua sua vida livremente - afirmou.

A campanha contra as liberdades femininas não atinge somente as mulheres. Adnan Barakat, de 47 anos, foi preso há dois anos. Seu crime: ele corta cabelos de mulheres.

- Isso é a única coisa que sei fazer, de verdade. Sou cabeleireiro há 30 anos - contou Barakat.

Atualmente, somente sua esposa e duas empregadas trabalham no seu salão de beleza, que fica em um armazém.

- O Hamas impõe que as clientes do sexo feminino só podem estar na presença de outras mulheres.

Depois de ser preso preso, Barakat foi obrigado a assinar um documento em que se comprometia a não pôr os pés em seu salão. Ainda assim, teve sorte. Foram colocados explosivos no salão em frente ao seu. Não houve feridos, mas os danos foram grandes.

- No final, eles conseguiram o que queriam. Nenhum homem em Gaza, neste momento, corta o cabelo das mulheres. Não é apenas o Hamas que proíbe, outros grupos também, como os salafistas e os jihadistas. Eles querem que as mulheres vivam na Idade da Pedra - afirmou Barakat.