Editorial
O Globo
Caráter autoritário e agenda islâmica do premier desagradam aos que desejam manter o Estado laico. Confrontos podem retardar ainda mais ingresso do país na UE
Como em todos os movimentos de massa recentes, redes sociais são decisivas na mobilização dos manifestantes turcos. Para o premier Tayyip Erdogan, elas são “a pior ameaça à sociedade”. Sua polícia deteve 25 pessoas sob acusação de “espalhar informações falsas” nas redes. Mas o twitter foi também um dos instrumentos de comunicação usados por milhares de partidários do premier que foram recebê-lo de uma viagem ao exterior, no aeroporto de Istambul.
É possível uma comparação com o próprio Erdogan. Em seus dez anos no poder pelo partido AKP, islâmico moderado, ele fez reformas e domou os militares responsáveis por quatro golpes de Estado em 40 anos; triplicou a renda per capita e fez os negócios florescerem; retomou conversações para o ingresso na UE; conteve abusos de direitos humanos pela polícia e encaminhou o processo de paz com rebeldes curdos; ampliou o peso do país na diplomacia internacional. Muitos turcos o veem com bons olhos.
Com o passar do tempo, outro Erdogan emergiu. Arrogante, autoritário, com pouco apreço pela liberdade de imprensa e pela opinião pública e com uma agenda islamizadora que interfere diretamente na vida dos cidadãos, como a proibição à venda de bebida alcoólica. Obviamente, este Erdogan desagrada a outros tantos turcos. Principalmente a uma grande parcela que deseja a manutenção do caráter laico da sociedade, tal como estabelecido pelo fundador da moderna Turquia, Kemal Ataturk. E como prometido pelo premier após a vitória de seu partido nas eleições de 2007.
Nesse quadro, a centelha foi a decisão de Erdogan de erguer, sem consulta pública, um quartel otomano num parque adjacente à Praça Taksim, no centro de Istambul. Formou-se um enorme protesto popular, tornado violento por radicais e reprimido violentamente pela polícia. As manifestações se espalharam pelo país; mais de 4 mil pessoas foram feridas e mais de 900 detidas; pelo menos três morreram.
Erdogan acusou a oposição pela crise. Mas não é assim. Entre os manifestantes há nacionalistas, socialistas, estudantes, sindicalistas, radicais de esquerda e profissionais de classe média, muitos beneficiados pelo desenvolvimento do país nos três governos do premier. Eles não se voltam contra o Islã, religião da esmagadora maioria dos turcos, mas contra o autoritarismo de Erdogan e sua agenda de crescente intervenção na sociedade em nome do Islã.
Os confrontos põem em risco o modelo turco, que até hoje provava ser viável a convivência entre Islã e democracia. A UE, meta almejada, advertiu que “uso excessivo da força contra manifestantes não tem lugar num país que aspira à adesão”. Na única concessão até agora, Erdogan afirmou que seu governo está aberto a “demandas democráticas”. Ele precisa entender que, ao passar de estadista a aprendiz de sultão, engrena marcha à ré no país.