terça-feira, outubro 29, 2013

As ações dos governos petistas contra os trabalhadores

Adelson Elias Vasconcellos

Um tema recorrente no blog tem sido a política de confisco salarial que vem sendo aplicada pelos governos petistas (desde o primeiro ano de Lula no poder, em 2003), via tabela do imposto de renda na fonte. 

Enquanto a elevação do salário mínimo se dá em termos reais, a correção da tabela do IRF se dá sempre  abaixo da inflação. Resultado: cada vez mais este imposto atinge um maior número de trabalhadores e penaliza faixas de renda cada vez menores. 

Em 2012, comentando esta “façanha” petista, montamos a tabela que reproduzimos a seguir. 

Em 2002 (último ano de FHC)
Salário mínimo -    R$ 200,00    
Faixa de isenção de IRF : até R$ 1.058,00 ou até 5,29 salários mínimo

Em 2010 (último ano de Lula):
Salário mínimo: R$ 510,00
Faixa de isenção do IRF:  até R$ 1.499,15 ou 2,94 salários mínimos

Em 2011 (primeiro ano de Dilma):
 Salário mínimo: R$ 545,00
Isentos de IRF: até R$ 1.566,61 ou  2,87 salários mínimos

Em 2012 (segundo ano de Dilma ou o décimo do governo petista)
Salário Mínimo: R$ 622,00
Isentos de IRF: até R$ 1.637,11 ou 2,63 salários mínimos

Creio que a tabela não deixa margem à dúvida: trata-se de um vergonhoso confisco salarial que vem sendo aplicado pelos governos petistas. Apesar disto, no discurso, eles reclamam para si a defesa dos interesses dos trabalhadores. Na prática, porém, é o que se vê. 

Infelizmente, esta não é a única ação criminosa que os governos petistas praticam contra os trabalhadores. 

Há poucos dias, reproduzimos texto do Jornal O Globo, informando sobre as perdas bilionárias no FGTS, claro, contra os trabalhadores. Em 11 anos, o  lucro do Fundo cresceu 938%, mas o retorno para o trabalhador foi só, e apenas,  de 69%, perdendo, inclusive, para a  inflação.

Alguém ainda duvida que o PT age contra os trabalhadores brasileiros? 

Mas a coisa é ainda pior. Desde 2002, é cobrada multa acessória  sobre o depósito do FGTS quando da demissão sem justa causa. Na época de sua criação, justificava-se este ônus como forma de impedir demissões sem motivação e, de certa forma, prover o caixa do governo para o pagamento do seguro desemprego.

Como em tudo no Brasil, quando a sanha de arrancar o couro do contribuinte não tem limites, aquilo que era para ser provisório, e que de certa forma até se justificava, acaba se tornando definitivo. 

O pior desta multa adicional é que  ela fica para o governo. O trabalhador jamais viu a cor deste dinheiro.

Hoje, com um desemprego em níveis baixíssimos, e mesmo com o Congresso querendo eliminar esta sobrecarga tributária, que na realidade atual não mais se justifica, apenas onera ainda amais o custo das empresas, o governo Dilma se agarra com unhas e dentes para evitar que a multa de 10% seja extirpada. Repito: esta grana beneficia apenas o governo. A questão está nas mãos do Supremo Tribunal: as empresas, cansadas de exploração, pedem a eliminação do tributo por sua exaustão. 

O dinheiro arrecadado com a multa adicional de 10% paga pelas empresas ao FGTS, quando demitem sem justa causa,  tem ajudado o Tesouro Nacional a cobrir perdas de arrecadação no caixa oficial desde o início de 2012. E que perdas são essas? Primeiro, o baixo crescimento, culpa do próprio governo. Segundo, as desonerações seletivas praticadas para elevar o consumo e animar a economia que, com o sabemos, se esgotou. A pergunta que fica é: a troco do quê, e em nome dos trabalhadores, o governo quer repor estas perdas?  Onde está a tal justiça social?  Fica claro que, mais uma vez, o governo pratica desvio de finalidade, o que se fez com a CPMF que se destinava para saúde, mas foi a área que menos recebeu.  

Mas, num governo petista, se alguma coisa pode piorar, estejam certos, vai piorar. Vocês ouviram falar  do FAT- Fundo de Amparo ao Trabalhador?

Pois bem. O Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT é um fundo especial, de natureza contábil-financeira, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, destinado ao custeio do Programa do Seguro-Desemprego, do Abono Salarial e ao financiamento de Programas de Desenvolvimento Econômico.

A principal fonte de recursos do FAT é composta pelas contribuições para o Programa de Integração Social - PIS, criado por meio da Lei Complementar n° 07, de 07 de setembro de 1970, e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PASEP, instituído pela Lei Complementar nº 08, de 03 de dezembro de 1970.

A regulamentação do Programa do Seguro-Desemprego e do abono a que se refere o art. 239 da Constituição ocorreu com a publicação Lei nº 7.998, de 11 de janeiro de 1990. Essa lei também instituiu o Fundo de Amparo ao Trabalhador - FAT e o Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador - CODEFAT.

O CODEFAT é um órgão colegiado, de caráter tripartite e paritário, composto por representantes dos trabalhadores, dos empregadores e do governo, que atua como gestor do FAT.

As principais ações de emprego financiadas com recursos do FAT estão estruturadas em torno de dois programas: o Programa do Seguro-Desemprego (com as ações de pagamento do benefício do seguro-desemprego, de qualificação e requalificação profissional e de orientação e intermediação do emprego) e os Programas de Geração de Emprego e Renda, cujos recursos são alocados por meio dos depósitos especiais criados pela Lei nº 8.352, de 28 de dezembro de 1991 (incorporando, entre outros, o próprio Programa de Geração de Emprego e Renda - PROGER, nas modalidades Urbano e Rural e o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF).

As definições e organização do FAT acima descritas estão disponíveis no portal do Ministério do Trabalho. Portanto, são oficiais. 

Vistas na sua aparência, parece regular não é mesmo? Os recursos tem sua destinação específica, e o gestor é o próprio governo. 

Porém, vimos no texto do jornal O Globo que este gestor tem se comportado de forma absolutamente irresponsável. Ou seja, também tem desviado os recursos do FAT para outros fins que não aqueles definidos em lei. E, de tal forma tem agido irresponsavelmente, que o Fundo deve encerrar o ano com um déficit de R$ 7,2 bi. Ou seja, o governo tem gasto mais do que arrecada, e parte desta gastança maior em sido para cobrir outras despesas dele próprio.

Desde as primeiras manifestações de junho, tenho dito que lamentava a enorme distância que ainda tínhamos até as próximas eleições presidenciais,  dando tempo para o governo reverter a insatisfação popular. Como também temos afirmado que, no atual cenário, é bem provável que a senhora Rousseff até conquiste nas urnas um novo mandato.  Porém, sob o ângulo que se analisar, dona Dilma merece é ficar em casa mesmo, a partir de 2015. 

As ações deste governo são um desastre, e o resultado que delas provém são de uma mediocridade impressionante. 

Porém, além dos péssimos serviços sobre os quais temos dado destaque, afora também a redução dos investimentos fruto de regramentos que mais espantam do que atraem interesses,  estas ações contra os trabalhadores revelam um governo que segue em direção contrária ao seu discurso e à sua própria história. 

De nada vale, de um lado, conceder aumentos reais de salário mínimo se, de outro, contudo, a mordida do leão tem sido cada vez mais intensa. A tabela lá no alto é prova provada. Como, também, é um absurdo o governo obter o lucro fabuloso sobre FGTS como ocorreu nos últimos 11 anos, enquanto os trabalhadores sequer puderam ter reposta a inflação. E um detalhe: TODO o patrimônio do FGTS é dinheiro dos brasileiros, não há nele um único centavo do governo. E, inobstante a isso, o governo ainda quer morder um pouco mais deste patrimônio, apenas para bancar privilégios para os empresários amigos do poder, mantendo assim uma aliança espúria para atrair a colaboração aos seus caixas de campanha. Dane-se o interesse público, dane-se o interesse de quem realmente trabalha e sustenta o poder. 

Ainda sob o comando de Lula, quando se aprovou uma lei transferindo dinheiro do imposto sindical para as centrais sindicais, dispensando-as da devida fiscalização sobre o destino que dariam à bolada, o governo petista, mais uma vez, traiu os trabalhadores, mantendo a obrigação até para quem não é sindicalizado.   

Como se nota, os petistas não se contentam apenas em avançar no minguado salário dos trabalhadores brasileiros,  também se esforçam o quanto podem para destruir o patrimônio que lhes pertence.

 Assim, antes de ser dos trabalhadores, o PT está se transformando em partido dos trambiqueiros. Talvez um dia, quem sabe, os trabalhadores brasileiros despertem desta ilusão suprema em relação ao PT. Na versão modernosa do Brasil, a grande senzala continua sendo os braços dos operários, teleguiados e submissos ao discurso paradisíaco que lhes prometem o paraíso em vida, mas cujo acesso está restrito apenas aos nhô-nhôs do poder. Aos lacaios é permitido apenas servir,  pagar e, claro, sonhar.  

LEIA TAMBÉM: 

Perdas bilionárias no FGTS (mas só para o trabalhador)

Multa extra do FGTS é usada para cobrir perdas do governo

Dilma e o confisco do salário mínimo patrocinado pelo governo dos “trabalhadores”.


Governo usa patrimônio do FAT para cobrir suas despesas

Geralda Doca 
O Globo

Retirada de R$ 1,2 bilhão evitou novo aporte do Tesouro Nacional

BRASÍLIA - O governo já começou a tirar recursos do patrimônio do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), segundo o presidente do Conselho Deliberativo do FAT (Codefat), Quintino Marques Severo. No mês passado, alegando problemas de fluxo de caixa, o Tesouro Nacional decidiu usar R$ 1,2 bilhão do FAT para fazer frente aos gastos com o abono salarial (PIS), segundo Severo. Esse dinheiro estava aplicado no mercado financeiro e foi a alternativa encontrada para evitar novos aportes no FAT, diante do descasamento entre receitas e despesas.

Preocupado em evitar que a medida vire rotina, diante da tendência de crescimento no déficit, que deve chegar a R$ 7,2 bilhões neste ano, conforme reportagem publicada nesta segunda-feira pelo GLOBO, Severo pediu uma audiência ao ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República. O assunto será discutido em audiência hoje na Comissão de Trabalho da Câmara e amanhã na reunião do Codefat. Procurado, o Ministério da Fazenda não quis se manifestar.

- Esperamos que esse problema de fluxo de caixa do governo seja sanado e nos próximos períodos não haja retirada do patrimônio - diz Severo, representante dos trabalhadores (CUT), que assumiu a presidência rotativa do Codefat em agosto.

Força vai ao STF por seguro-desemprego
As centrais sindicais refutam o argumento do governo de que o déficit do FAT é resultado da explosão de gastos com o seguro-desemprego e o abono. Alegam que a União retém 20% das receitas do Fundo com a Desvinculação das Receitas da União (DRU) e não compensa o FAT pelas perdas decorrentes das desonerações do PIS.

- O FAT não ficou deficitário por causa de gastos com seguro-desemprego e abono. Queremos desmitificar isso. O governo já segurou R$ 71,2 bilhões do FAT com a DRU e agora retira recursos do patrimônio do Fundo - diz Sérgio Luiz Leite, representante da Força Sindical no Codefat.

Além do fim da incidência da DRU sobre as receitas do FAT, o que o governo não aceita, as centrais querem que a desoneração da folha seja condicionada à redução da rotatividade no mercado de trabalho. A proposta é regulamentar o artigo 239 da Constituição, criando uma contribuição adicional para as empresas que apresentarem índice acima da média do setor. Em 2009, alertado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a tendência deficitária do FAT, o Tesouro Nacional defendeu a criação dessa contribuição e mudanças no pagamento do abono, que seria limitado aos trabalhadores com renda média anual de um salário mínimo e não a dois pisos, como ocorre hoje. Mas a proposta não avançou.

A Força Sindical apresentou nesta segunda ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra decreto presidencial que dificulta o acesso ao seguro-desemprego, com a exigência de cursos de qualificação a partir do segundo pedido do auxílio.

Fundo de Amparo ao Trabalhador deve fechar ano com déficit recorde de R$ 7,2 bi

Geralda Doca e Eliane Oliveira 
O Globo

Aumento nos gastos com seguro-desemprego e abono salarial pressionam o FAT

BRASÍLIA - O Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), fonte de recursos para o BNDES, o seguro-desemprego e o abono salarial (PIS), caminha cada vez mais rapidamente para um déficit recorde. A previsão é que o Fundo feche o ano com resultado negativo recorde de R$ 7,2 bilhões, o pior desde sua criação, em 1990, segundo fontes do Conselho Deliberativo do FAT. Em 2012, as contas fecharam com superávit de R$ 3 bilhões. Para 2014, o déficit projetado chega a R$ 9,3 bilhões, mas poderá ser ainda maior, o que exigirá novos aportes do Tesouro, ou vai forçar redução do patrimônio do Fundo, que já está crescendo menos. Entre 2003 e 2012, o patrimônio avançou 10,1% ao ano, mas, em 2013, até agosto (último dado disponível), a alta foi de apenas 3,88%.

Uma análise das contas do Fundo nesse período mostra uma explosão das despesas, principalmente com seguro-desemprego e abono salarial. Enquanto as receitas do FAT (oriundas do PIS/Pasep recolhido pelas empresas) subiram 79,5%, de R$ 21,701 bilhões para R$ 38,954 bilhões (valores corrigidos pelo IPCA), os gastos com seguro-desemprego aumentaram 158,4%, passando de R$ 10,999 bilhões para R$ 28,424 bilhões. Com o abono, as despesas subiram 325,5%, de R$ 2,965 bilhões a R$ 12,617 bilhões. Os desembolsos com o seguro, até agosto deste ano, atingiram o montante de R$ 20,510 bilhões e, com o abono, R$ 7,735 bilhões.

O economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, chama a atenção para as elevadas despesas, principalmente com o seguro-desemprego.

— Quando temos debates com estrangeiros, há grande dificuldade para explicar por que o desemprego cai e os gastos com seguro-desemprego sobem. É igual jabuticaba, só tem no Brasil — disse.

Especialistas destacam que as razões para a piora das contas incluem ganhos reais maiores do salário mínimo, rotatividade dos trabalhadores e até fraudes.

Exigência de cursos
Para conter despesas, o governo começou a exigir, no fim de 2011, curso de qualificação para quem recorrer ao auxílio três vezes em dez anos. Semana passada, as regras para receber o benefício ficaram mais rígidas, e o pagamento do seguro foi condicionado à realização do curso de capacitação para quem requisitar o benefício duas vezes em dez anos. Os cursos são gratuitos (no Senai e Senac), do Pronatec, parceria entre os ministérios da Educação e do Trabalho.

Mas poucos trabalhadores conseguem se matricular nos cursos de formação, o que reduz os efeitos práticos da medida, já que o trabalhador não pode ser prejudicado. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho, 7,7 milhões de trabalhadores receberam o seguro no ano passado e só 46.481 foram matriculados. Em 2013, de 5,7 milhões de trabalhadores beneficiados, só 50.803 apresentaram comprovante de matrícula. O Ministério da Educação disse ter recebido valor de R$ 195 milhões do Orçamento da União para remunerar as instituições de ensino, mas quem controla o andamento dos cursos e a frequência dos alunos são as próprias instituições.

Dados do Ministério do Trabalho revelam, ainda, que mais de um terço dos beneficiários do seguro-desemprego recorrem ao auxílio mais de duas vezes num prazo de dez anos. Entre 2002 e 2011, o benefício foi pago a 62,7 milhões de trabalhadores, sendo que 22,6 milhões pediram o benefício duas vezes, no mínimo. No período, 5,2 milhões de trabalhadores recorreram ao seguro três vezes; 1,4 milhão, quatro vezes; 67,9 mil por seis vezes e 5,6 mil por oito vezes.

Pelas regras do seguro-desemprego, a recusa por parte do trabalhador de outro emprego condizente com sua qualificação e remuneração anterior pode resultar no cancelamento do benefício, mas faltam funcionários treinados nas agências do Sistema Nacional de Emprego (Sine). Há também problemas com a exigência dos cursos de qualificação, a rede do Sistema S não está presente em todos os municípios brasileiros e, além disso, não existem vagas disponíveis. O Senai atende 2.700 municípios e o Senac, 3.154.

O Ministério da Educação informou que está tomando medidas para ampliar a oferta de curso aos trabalhadores, junto com o Ministério do Trabalho (MTE). A proposta é interligar a rede do Sine ao Sistema de Informações da Educação Profissional e Tecnologia (Sistec) para escolha dos cursos e matrícula.

“Isso dará mais agilidade aos procedimentos de matrícula e permitirá ao MTE realizar o acompanhamento on-line da frequência dos alunos”, informou a assessoria de imprensa do Ministério da Educação.

Receita com outros fins
No início do ano, o Ministério do Trabalho, por orientação da Fazenda, limitou o reajuste do benefício com valor superior ao mínimo à correção pela inflação (INPC) e não mais pela adoção dos mesmos parâmetros do salário mínimo, com ganhos reais. A medida desagradou as centrais sindicais, mas o governo conseguiu adesão dos empresários no Conselho Deliberativo do FAT para manter a trava. No fim deste mês, haverá reunião extraordinária do Conselho para discutir soluções para o déficit.

Entre as causas da piora nas contas do FAT, estão os ganhos reais do salário mínimo que impactaram as despesas com o seguro-desemprego e com o abono, com ampliação do universo de trabalhadores beneficiados (renda de até dois salários mínimos). O FAT, por determinação da Constituição, repassa todo ano 40% das suas receitas ao BNDES. Além disso, o governo segura 20% da arrecadação, via Desvinculação de Receitas (DRU), para outras finalidades.

Para José Matias Pereira, professor de administração pública da Universidade de Brasília, não importa o tamanho do esforço do governo com medidas para reduzir ou controlar as despesas do FAT. É preciso, antes de tudo, combater inúmeros casos de fraude.

— Há casos em que a pessoa encontra um emprego, mas pede para a carteira trabalho não ser assinada e assim não perder o seguro-desemprego. Há, ainda, aqueles que trabalham por algum tempo e, quando é possível voltar a receber o benefício, largam o emprego — ilustrou o professor da UnB.

O presidente da Comissão do Trabalho da Câmara dos Deputados, Roberto Santiago (PSD-SP), defende a redistribuição dos recursos do FAT. Ele observa que, se não houvesse a DRU, o FAT seria superavitário.

O governo precisa ter juízo e parar de usar o dinheiro do FAT, que é dos trabalhadores .

DECLARAÇÃO DEPRIMENTE: Mendigo tem que virar ração de peixe, diz vereador em vídeo

Marco Prates
Exame.com

Vereador de Piraí (RJ) disse que mendigo deveria virar “ração para peixe” e que o Brasil precisa da pena de morte. José Paulo Carvalho reconheceu hoje que "errou"

Reprodução YouTube
Vereador José Paulo de Carvalho (PT do B), de Piraí (RJ), 
em vídeo onde diz que mendigo deve virar "ração de peixe" e defende pena de morte

São Paulo – O vereador José Paulo de Carvalho (PT do B), de Piraí, no sul do Rio de Janeiro, está chamando atenção nacional depois de dizer na Câmara Municipal que mendigo deveria virar ração de peixe (veja vídeo abaixo, a partir dos 46 minutos). Na manhã desta terça, o político se retratou pelo episódio.

 “Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz não faz nada na vida. Aliás, eu acho que deveria até virar ração para peixe”, afirmou o vereador em sessão da Câmara no dia 8 de outubro.

O assunto da reunião era os 25 anos da Constituição brasileira. Na ocasião, José Paulo, conhecido como Russo, disse ainda que deveria haver pena de morte no Brasil.

“’Ah, vai matar inocente’. Não vai. E ainda que matasse, ia morrer muito menos inocente do que morre hoje. Porque se um bandido soubesse que ele ia ser morto, com certeza ia pensar mais um pouquinho antes de fazer as coisas”, disse.

Nos mais de 12 minutos de seu pronunciamento, o vereador de primeiro mandato, eleito em 2012, defende a censura na televisão (“não se pode liberar tudo na vida, tem que ter censura sim”), a expulsão de alunos problemáticos de escolas (“ou a família cuida ou o estado toma”) e o fim de benefícios para detentos (“tem muita vantagem em ser bandido hoje: todo mundo te respeita e a família tem salário para comer”).

Retratação
Na manhã desta terça, o vereador afirmou em entrevista ao G1 que errou.

"A minha conduta é totalmente diferente do que eu falei. Vou pedir desculpas publicamente às pessoas que ofendi”, disse ao portal.

Veja vídeo abaixo (a partir dos 46 minutos):

Crê ou morre

J.R.Guzzo
Revista VEJA

No Brasil 2013, Fernando Gabeira, Marina silva e tantos outros que querem pensar com a própria cabeça são de direita, segundo os propagandistas do governo. Já Paulo Maluf, José Sarney etc. são de esquerda. 

E se de repente, um dia desses, ficasse demonstrado por A + B que o grande problema do Brasil, acima de qualquer outro, é a burrice? Ninguém está aqui para ficar fazendo comentários alarmistas, prática que esta revista desaconselha formalmente a seus colaboradores, mas chega uma hora em que certas realidades têm de ser discutidas cara a cara com os leitores, por mais desagradáveis que possam ser.  É possível, perfeitamente, que estejamos diante de uma delas neste momento: achamos que a mãe de todos os males deste país é a boa e velha safadeza, que persegue cada brasileiro a partir do minuto em que sua certidão de nascimento é expedida pelo cartório de registro civil, e o acompanha até a entrega do atestado de óbito, mas a coisa pode ser bem pior que isso. Safadeza aleija, é claro, e sabemos perfeitamente quanto ela nos custa – basicamente, custa todo este dinheiro que deveria estar sendo aplicado em nosso favor mas que acaba se transformando em fortunas privados para os amigos do governo, ou é jogado  no lixo por incompetência, preguiça e irresponsabilidade.

Mas burrice mata, e para a morte, como também se sabe, não existe cura.  Ela está presente pelos quatro cantos da vida nacional. 

Um país que tem embargos infringentes, por exemplo, é um país  burro – não pode existir vida inteligente num sistema em que, para cumprir a lei, é preciso admitir a possibilidade de processos que não acabam nunca. Também não há atividade cerebral mínima em sociedades que aceitam como fato normal trens que viajam a 2 quilômetros por hora , a existência de firma reconhecida, o voto obrigatório e assim  por diante.   A variedade a ser tratada neste artigo é a burrice na vida política. Ela é especialmente malvada, pois age como um bloqueador para as funções vitais do organismo público  - impede a melhora de qualquer coisa que precisa ser melhorada, e ajuda a piorar tudo o que pode ser piorado. 

A manifestação mais maligna desse tipo de estupidez é a imposição, feita pelo governo, e sua aceitação passiva, por parte de quase todos os participantes da atividade política brasileira, da seguinte ideia:   no Brasil de hoje só existem dois campos. Um deles, o do governo, do PT, da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, é o campo do “bem”: atribui a si próprio as virtudes de ser a favor da população pobre, da verdadeira democracia, da distribuição de renda, da independência nacional e tudo o mais que possa haver de positivo na existência de uma nação. É, em suma, a “esquerda”.

O outro, formado automaticamente por quem discorda do governo e dos seus atuais proprietários, é o campo do “mal”. A ele a máquina de propaganda oficial atribui os vícios de ser a “elite”, defender a volta da escravidão, conspirar para dar golpes de Estado, brigar contra a redução da pobreza e apoiar tudo o mais que possa haver de horrível numa sociedade humana. É, em suma, a direita.

O efeito mais visível dessa prática é que se interditou no Brasil a possibilidade  de haver um centro na vida política. Ou você está com Lula-Dilma ou vai para o inferno: “crê ou morre”, como insistia a Inquisição da Santa Madre Igreja.

Essa postura é um insulto à capacidade humana de pensar em linha reta, que continua sendo a distância mais curta entre dois pontos. O Brasil não é feito de extremos: isso simplesmente não existe em nenhum país democrático do mundo. Abolir o espaço para um centro moderado é negar às pessoas oi direito de pensar com aquilo que lhes parecer ser apenas bom-senso, ou a lógica comum. Por que o cidadão não poderia ser, ao mesmo tempo, a  favor do Bolsa Família e contra a conduta do PT no governo? É dinheiro de imposto: melhor dar algum aos pobres do que  deixar que roubem tudo. (O programa, aliás, foi criado por Fernando Henrique; de Júlio César  para cá, passando por Frankin Roosevelt, dar dinheiro ou comida direto ao povão é regra básica de qualquer manual de sobrevivência política).

Qual o problema em defender a legislação trabalhista e, ao mesmo tempo, achar que quem rouba deve ir para a cadeia?    O que impediria alguém de ser a favor do voto livre e contra o voto obrigatório? Nada, a não ser a burrice que obriga todos a se ajoelharem diante do que o PT quer hoje, para não serem condenados como hereges. 

É por isso que no Brasil 2013, Fernando Gabeira, Marina Silva e tantos outros que querem pensar com a própria cabeça são de “direita”, segundo os propagandistas do governo. Já Paulo Maluf, José Sarney etc. são de esquerda.

Vida inteligente?    

O harakiri de Dilma

Suely Caldas 
O Estado de S.Paulo

No dia em que o campo gigante de Libra foi vendido para a Petrobrás e quatro empresas estrangeiras, a presidente Dilma Rousseff foi à TV comemorar o sucesso do leilão e garantir que seu governo não privatizou o petróleo do pré-sal.

Ora, então por que leiloou? Por que despachou equipes para a Europa, EUA e China com a missão de "vender" o petróleo do pré-sal como um bom negócio? Por que a tristeza e a decepção de seu governo quando as gigantes Chevron, British Petroleum e Exxon Mobil desistiram da licitação?

Por que a alegria e o alívio quando a francesa Total e a anglo-holandesa Shell aderiram ao consórcio vencedor? Por que negar algo tão simples e óbvio?

A resposta veio de um ex-tucano (hoje aliado querido de Dilma), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes: "O discurso antiprivatista ainda resiste no Brasil de 2013, quando a gente vê pessoas fazendo questão de dizer que não estão privatizando ou negociando com o setor privado", afirmou ele na manhã seguinte ao discurso da aliada, misturando espanto, lamento e decepção.

Afinal, em mais de 20 anos a privatização já deu provas e provas de que mais enriquece a população do que empobrece o patrimônio público. Privatização e autonomia do Banco Central nasceram liberais e tornaram-se políticas universais.

Mas com espantosa insistência ela ainda é atacada, por oportunismo político de quem usa o argumento do falso nacionalismo para impressionar e comover os brios do sincero patriotismo dos brasileiros. Pura enganação.

O que os políticos defendem são seus interesses e privilégios, temem o desmanche de uma parcela do Estado que sempre usaram para trocar favores, comprar aliados, fazer caixa para suas campanhas eleitorais. Só alguns exemplos: os bancos estaduais, as elétricas estaduais, as siderúrgicas federais, a Rede Ferroviária Federal (a Valec pode seguir caminho igual) e muitas outras. Felizmente privatizadas.

A Vale privada ganhou em qualidade de gestão e passou a arrecadar para o Estado mais dinheiro em impostos do que em dividendos quando era estatal.

Não parece o caso da presidente Dilma. O combustível que a move é ideológico, mas de uma forma tão confusa e atrapalhada - porque contraditória (afinal, ela precisa do capital privado) - que mais tem prejudicado sua gestão do que satisfeito seu preconceito.

No leilão de Libra a presença de petroleiros nas ruas denunciando-a por ter "traído" o compromisso de não privatizar o pré-sal levou Dilma a recuar aos anos 70 e ignorar que aqueles ideais desmoronaram junto com o Muro de Berlim, e foi à telinha da TV responder, negar a "traição" e a privatização que seu governo acabara de fazer.

Seu argumento: não seria privatização porque 85% da renda de Libra irá para a Petrobrás e a União. Principal idealizadora do modelo de exploração do pré-sal, logo após o leilão Dilma repetiu duas vezes que não vai alterar nada, mesmo com Libra - o filé do filé do pré-sal - tendo atraído um único consórcio e vendido a maior reserva de petróleo do mundo pelo preço mínimo, sem nenhuma disputa.

Para garantir 85% da renda para o Estado não precisaria criar mais gasto público com uma nova estatal (a PPSA, que vai administrar o pré-sal) nem sacrificar a Petrobrás com a obrigatoriedade de bancar 30% de todos os poços, tampouco afastar o investidor desconfiado com frequentes interferências políticas do governo em estatais.

Para isso bastaria elevar taxas e impostos para valores equivalentes, manter o regime de partilha, mas tirar da Petrobrás o peso maior pelos investimentos. O efeito de gerar riqueza para aplicar na área social seria o mesmo.

Dilma precisa do capital privado para seu programa de investimentos em portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, energia e petróleo. Se hoje a crise de confiança entre seu governo e empresários tem causado graves prejuízos e inibido investimentos, o que esperar de um discurso escancaradamente antiprivatista da própria presidente, levado a público em rede nacional de TV?

A profissão mais antiga do mundo

Ricardo Noblat

A resposta foi o silêncio quando a presidente Dilma Rousseff cancelou a visita de Estado aos Estados Unidos e aproveitou discurso na Assembleia Geral da ONU para denunciar que a Agência Nacional de Segurança americana havia bisbilhotado seu e-mail e celular.

Na época, as informações publicadas por diversos jornais, principalmente pelo The Guardian, de Londres, davam conta de que ocorrera o mesmo com líderes de outros países – entre eles o México. Os Estados Unidos prometeram estudar melhor tal tipo de espionagem e assunto saiu das manchetes. 

Agora voltou por provocação, outra vez, do The Guardian. “Estados Unidos espionaram os celulares de 35 líderes mundiais”, estampou o jornal – entre eles o da primeira ministro alemã Angela Merkel e o do presidente francês. Foi um alto funcionário da Casa Branca que forneceu os números para a escuta.

Bem, dessa vez mexeram com quem de fato tem poder. E a reação dessa gente foi a mesma da Dilma – a denúncia. Nenhum chefe de Estado pode ficar calado ante a notícia de que um país amigo escuta suas conversas mais reservadas e tem acesso à sua correspondência mais íntima.

Mas fora o vexame diplomático que o barulho pode causar, não se espere mais nada – não nesse caso. Os Estados Unidos funcionam como uma espécie de poder imperial. A maior potência econômica e militar do planeta julga-se no direito de espionar quem quiser e onde quiser em nome de sua segurança particular.

Potências de calibre menor procedam da mesma maneira. A prostituição e a espionagem competem pelo título de a profissão mais antiga do mundo. Remotamente o atual escândalo dará origem a uma espécie de protocolo que ao menos regule a espionagem entre países aliados. Seria embaraçoso.

Em breve o assunto desocupará parte da agenda dos grandes líderes. Para retornar em qualquer outra ocasião. Quem tem cacife e meios para espionar, espiona. Quem não tem finge que não é espionado. Sempre foi assim. Sempre será assim. Em nome dos superiores interesses de cada Nação.

Revolta dos reservas

Dora Kramer  
O Estado de S.Paulo

Depois de três mandatos presidenciais como dono das regras de funcionamento da aliança partidária montada em 2003 e consolidada em 2006 com a entrada oficial do PMDB na coligação de governo, o PT enfrenta uma espécie de rebelião dos reservas.

Continua sendo o protagonista, mas seus aliados já não se conformam com o papel de coadjuvantes passivos. Por uma razão simples e objetiva: eles precisam sobreviver, o que significa disputar eleições locais para se fortalecer no Congresso e no jogo político como um todo, além de trabalhar com a hipótese de um plano B no âmbito federal.

É o que provoca essa movimentação toda nos partidos ditos governistas, cuja adesão é cobiçada pelos oposicionistas que lhes oferecem em troca espaço que os petistas imaginavam em seu projeto inicial ocupar paulatinamente até se tornarem irremediavelmente hegemônicos. Na política e na sociedade.

Como a banda não toca nesse ritmo e ninguém espera o aniquilamento de braços cruzados, cada um dá o seu jeito na base do salve-se quem puder. A boa posição da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas nessa altura não é garantia de nada. Nem de vitória nem de parceria leal nos Estados, de modo a que os outros integrantes da aliança possam fugir do destino que coube a partidos de oposição esmagados pela fortaleza governista.

Foi isso que moveu o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a se afastar do PT a partir da eleição municipal de 2012 - quando percebeu que o combinado com o ex-presidente Lula em relação à disputa em Recife não era "à vera"; apenas uma maneira de ganhar tempo, levá-lo na conversa e mantê-lo atrelado ao governo com a vaga promessa de uma candidatura presidencial de 2018.

"Tem gente ainda esperando o cumprimento de acordos feitos em 2002", comentou Campos com amigos no início do processo de decisão de se candidatar ou não em 2014.

A desconfiança também é o pano de fundo da rebelião que se avoluma no PMDB, onde a cada dia aparece uma seção estadual querendo sair do jugo do PT. Há ainda a tentativa de antecipar a convenção que decidirá sobre a aliança presidencial para 2014. Já são 11 os Estados que reivindicam liberdade para voar.

E mesmo que não haja convenção antecipada, na data oficial o PMDB pode até não romper, mas não ficará unido a reboque do projeto alheio.

Água benta. Se o combinado entre Marina Silva e Eduardo Campos era não dar espaço para que se disseminasse a cizânia entre os dois, a ex-senadora foi a primeira a quebrar o acordo.

Ao dizer - no programa Roda Viva - que a aliança com a Rede permitiu a Campos ganhar "um pouquinho mais de substância" para fugir à construção de uma candidatura "no diapasão" da velha política.

Ou seja, considera-se uma espécie de salvação da lavoura sem cuja presença o pernambucano ficaria entregue à própria inconsistência e obsolescência.

A murada. 
Quando José Serra indica que não abandonou o projeto de se candidatar a presidente, o gesto sugere que existe margem para Aécio Neves recuar da candidatura dependendo das circunstâncias (adversas) à frente.

Seria a única hipótese de o PSDB dar a legenda a Serra: por cessão do mineiro, presidente e praticamente absoluto no partido. O ex-governador de São Paulo certamente sabe disto.

De fato.
 "Toda xenofobia é burra", disse a presidente Dilma Rousseff. Aplica-se à crítica do então candidato Lula da Silva, em 2002, sobre a encomenda de uma plataforma para estaleiro de Cingapura no governo Fernando Henrique: "Vocês já viram os Estados Unidos ou a Alemanha contratando empresas que não sejam de seus países"?

Traduza-se black bloc para português: bandido

Josias de Souza

Centro de São Paulo, noite de sexta-feira (25/10): 
mais depredação e muito mais violência

Em junho, quando as ruas ferveram, eles eram chamados de “minoria de vândalos”. Infiltravam-se nos protestos e, do meio para o final, transformavam pacíficas manifestações em surtos de desordem. Eles eram poucos. Mas foram ganhando a adesão de uma legião de desocupados. Gente que enxergou na algazarra uma oportunidade para realizar saques e pequenos furtos.

A violência foi ganhando ares de rotina. Eles investiam contra policiais e jornalistas, incendiavam ônibus, depredavam estações de metrô, atacavam agências bancárias, destruíam caixas eletrônicos, estilhaçavam vitrines de lojas, lançavam coquetéis molotov em prédios públicos… Aos pouquinhos, foram migrando dos rodapés de página para as manchetes.

Com o passar dos dias, verificou-se que eles macaqueavam ativistas europeus e americanos. Imitavam-nos nas vestes, no gestual e nos métodos. Ganharam apelido chique: black blocs. E a destruição passou a ser justificada como “protesto consciente de inspiração anarquista”. Supremo paradoxo: disfarçados de inimigos do capitalismo, estudantes bem-nascidos tornaram-se um estorvo para a gente simples das cidades.

Exaltados pela imprensa dita alternativa, do tipo Ninja, eles ganharam a cena. Intimidada, a polícia assistiu, por vezes passivamente, ao recrudescimento da violência. Amedrontada, a rapaziada pacífica voltou para casa. O ronco do asfalto virou lamúria. Numa visita às ruas de São Paulo, os pesquisares do Datafolha acabam de verificar que 95% dos paulistanos não suporta mais a anarquia.

Já passou da hora de definir melhor as coisas. Está nas ruas uma estudantada corpulenta, de cara coberta e violenta. Esse grupelho adquiriu o vício orgânico de tramar contra o sossego alheio. Vândalos? É muito pouco! Black Blocs? O escambau! Traduza-se para o português: bandidos, eis o que são.

Num instante em que a sociedade se escandaliza com os PMs que torturaram e mataram Amarildo numa unidade pseudopacificadora da favela do Rio, convém abrir os olhos para as atrocidades cometidas pela bandidagem que faz Bakunin revirar no túmulo. Repare nas duas cenas que se seguem:

Cena 1: A selvageria




“Pega, peeega, peeeeeega!” Estamos no centro de São Paulo, no meio de mais uma manifestação promovida pelo Movimento Passe Livre, cujo objetivo declarado é o de zerar as tarifas de ônibus, metrô e trem. É sexta-feira (25/10), 20h20.

Selvagens com os rostos cobertos cercam o coronel da Polícia Militar Reynaldo Simões Rossi. Passam a agredi-lo com pauladas e pontapés. Imprensado contra uma pilastra, o soldado cai.

“Eu me recordo que eu fui projetado ao solo a partir de uma pancada na cabeça que eu levei”, Reynaldo contaria depois. No solo, ele ainda tenta proteger a cabeça com as mãos. Inútil. Intensificam-se os golpes.

Zonzo, Reynaldo se levanta. É empurrado pelas costas. À sua direita, um dos agressores o atinge com uma chapa metálica bem na cabeça. Ele corre. Os algozes o perseguem. “Na segunda onda de agressões, eu já estava perdendo um pouco a lucidez”, diria depois da surra. Foi então que, empunhando o revólver, um soldado metido em roupas civis resgata o coronel Reynaldo, livrando-o dos seus torturadores.

Cena 2: A sensatez


Já sob a proteção de seus soldados, o coronel Reynaldo faz cara de dor. Antes de se enfiar no banco traseiro da viatura policial que o levaria para o hospital, ele pronuncia uma derradeira ordem. Em meio à insensatez, o coronel diz algo sensato: “Não deixa a tropa perder a cabeça!”

Reynaldo passou a noite no hospital. No dia seguinte, com um dos braços na tipóia, ele contabilizou os prejuízos: “Eu tenho os dois omoplatas fraturados: um, integralmente; outro, parcialmente. Tenho lesões na perna, no abdômen, e tenho duas lesões na cabeça.”

Tardiamente, as polícias do Rio e de São Paulo começam a lidar com a tribo dos sem-rosto de maneira mais profissionalizada. Para evitar o moto-contínuo das prisões que duram menos de uma noite, reúnem provas que permitirão aos juízes impor aos criminosos penas compatíveis com os seus crimes.

Até Dilma Rousseff já acordou: “Agredir e depredar não fazem parte da liberdade de manifestação. Pelo contrário”, ela escreveu no Twitter. “Presto minha solidariedade ao coronel da PM Reynaldo Simões Rossi, agredido covardemente por um grupo de black blocs em SP”, acrescentou. Alvíssaras!



A vida dele vale tanto quanto a sua?

Camila Guimarães, Felipe Pontes e  Júlia Korte 
Revista ÉPOCA

Explode no Brasil a violência que opõe os defensores de testes científicos com animais àqueles que querem proteger os bichos a todo custo 
Um dos cientistas mais brilhantes do planeta, o britânico Colin Blakemore começou sua carreira fazendo algo que a muitos pareceria uma inadmissível crueldade: ele costurava os olhos de gatinhos recém-nascidos. Fez isso por anos em seu laboratório na Universidade de Oxford, onde é hoje professor de neurociência. Ele privava totalmente os bichinhos da visão para observar como se comportaria, nessas condições, uma parte específica do cérebro deles, o córtex. Sua pesquisa foi fundamental para entender a forma mais comum de cegueira infantil, a ambliopia, e ajudar a preveni-la. Estima-se que existam no mundo 15 milhões de crianças menores de 5 anos de idade com essa doença. A partir da observação do desenvolvimento do cérebro dos gatinhos, Blakemore também ajudou a revelar a capacidade de as conexões nervosas se reorganizarem. Conhecido como “plasticidade cerebral”, esse conceito ajuda a entender por que pessoas que sofreram algum tipo de lesão neurológica, como um derrame, recuperam a capacidade de se movimentar e falar. A plasticidade também explica como se forma a memória e como aprendemos a ler e escrever.

Pela importância das duas descobertas, Blakemore se tornou um dos mais poderosos e respeitados cientistas do mundo. Ao mesmo tempo, virou a figura mais odiada pelos ativistas dos direitos animais do Reino Unido. Sua vida tornou-se um pesadelo. Passou a receber pacotes de falsas bombas endereçadas a seus filhos. Era constantemente abordado e insultado na rua por ativistas mascarados. Outros, com e sem máscara, se reuniam diariamente em frente de seu portão e hostilizavam sua família. Sua mulher teve depressão e tentou suicídio. Blakemore foi acusado por uma vizinha de roubar seu gato e guardá-lo no congelador de sua geladeira. Por causa das ameaças de invasão para resgatar o tal gato, Blakemore obteve na Justiça uma ordem que a mantém a 100 metros distante de sua casa. Certa vez, jogaram um produto químico em seu carro e atingiram o gato que pertencia a seus filhos, causando queimaduras severas. Por mais de uma década, os ataques foram constantes. Hoje, diminuíram. Sua casa, ainda, tem botões de pânico, fechaduras triplas e um quarto secreto, onde ele pode se esconder com a família em caso de invasão.

Grupos radicais que afirmam defender os direitos dos animais e usam táticas terroristas para passar seu recado são comuns na Europa e nos Estados Unidos há pelo menos duas décadas. O britânico Frente pela Libertação dos Animais (ALF, na sigla em inglês) é um dos mais violentos. Um de seus principais ativistas, Greg Avery, está preso desde 2009, com uma sentença de nove anos, por ter articulado uma campanha de intimidação criminosa contra um laboratório de testes farmacêuticos. Os ataques eram feitos contra os funcionários e seus familiares. Seu grupo chegou a mandar cartas anônimas para vizinhos de um cientista, “denunciando-o” como pedófilo. A ALF pode ser considerada a grande inspiradora do ataque recente ao Instituto Royal, em São Paulo, um dos cinco centros de referência brasileiros para pesquisas de medicamentos em animais.

Na madrugada do dia 18, sexta-feira, diante dos olhos complacentes da polícia, os ativistas entraram no prédio do Instituto Royal, no município de São Roque, e soltaram 178 cães da raça beagle, usados em testes de remédios para doenças como câncer, diabetes, hipertensão e epilepsia. Também levaram sete coelhos. Eles afirmam que os animais sofriam maus-tratos – o Instituto Royal nega. As pesquisas feitas ali estavam dentro das leis e dos protocolos científicos estabelecidos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Com os bichos, sumiram documentos e pen drives com dados dos experimentos. O laboratório foi depredado. Os invasores quebraram equipamentos caros e jogaram substâncias usadas nas pesquisas no chão. “Nunca vi nada parecido em 30 anos de ciência”, afirma João Henriques, diretor científico do Royal. “Testávamos medicamentos para o bem-estar humano, e, agora, uma década de trabalho foi perdida.” O médico Marcelo Marcos Morales, coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e secretário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, afirmou o seguinte sobre o episódio: “Um trabalho que demorou anos para produzir foi jogado no lixo. O prejuízo é incalculável para a ciência e para o benefício humano”.

O caso do Instituto Royal não foi o primeiro ato de violência dos defensores de animais no Brasil. A ALF se gaba de ter invadido no passado laboratórios da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Santa Catarina. No primeiro, para sabotar pesquisas sobre malária. No outro, impedindo experimentos com animais para tratamento de tuberculose. No mundo todo, a ALF contou 224 ações pró-animais em 2012. Neste ano, ocorreram 192. O site Bite Back (Morda de volta) acompanha o avanço da guerrilha contra a ciência a partir de um site hospedado na Malásia, onde a Justiça ocidental não pode atingir seus editores. 

O assalto às instalações do Instituto Royal, que parece ser mais um eco da onda de manifestações violentas que varrem o país desde junho, fez desembarcar no Brasil, com barulho, uma discussão ética e científica que pode ser resumida numa única pergunta: é correto usar animais em experimentos para salvar vidas humanas? A resposta, embora nem todos a enxerguem com clareza, é: sim – sem sombra de dúvida.

"Nenhuma mãe deixaria eu fazer um teste no seu filho"

Guilherme Rosa e Juliana Santos
Veja online

A geneticista Mariz Vainzof, da USP, explica que, para desenvolver um tratamento aplicável aos seres humanos, é preciso passar por modelos animais

(Thinkstock) 
Entre os pesquisadores, a opinião é unânime: 
os o modelos animais são imprescindíveis para os experimentos. 
A ciência não dispõe de nenhum método alternativos para substituir 
os modelos animais em testes que podem salvar vidas humanas 

A geneticista Mariz Vainzof é coordenadora do Laboratório de Proteínas Musculares e Histopatologia Comparada do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. Suas pesquisas são focadas em uma série de doenças musculares humanas, de origem genética. A principal disfunção estudada em seu laboratório é a distrofia de Duchenne, que atinge um entre cada 3 000 homens. Os meninos portadores da mutação nascem normais, mas demoram um pouco mais que os outros para começar a andar. Com o tempo, começam a ter quedas frequentes e dificuldade para subir escadas. Aos dez anos, a fraqueza muscular é tanta que eles precisam usar cadeiras de rodas. "Antigamente, não costumavam passar dos vinte anos, porque não conseguiam respirar. Hoje vivem mais, por causa de aparelhos de suporte ventilatório, mas sua principal causa de morte ainda é a insuficiência respiratória e cardíaca", afirma Mariz.

O objetivo de seu estudo é chegar à cura da doença. Mas, para desenvolver um tratamento aplicável aos seres humanos, o caminho é longo — e tem de passar por modelos animais. O primeiro passo é entender como a doença funciona. Para isso, estudam o próprio corpo do paciente, em busca dos genes que sofreram mutação e de proteínas que faltem em seus músculos.

Em um segundo momento, a pesquisa tem de ser transferida para as culturas de células. Ali, a cientista consegue realizar mudanças nos genomas, ver quais genes produzem quais proteínas e qual efeito essas proteínas podem ter sobre determinadas células. "Os estudos in vitro são uma ótima ferramenta para responder a uma série de questões. Posso ver, por exemplo, que determinado fármaco afeta determinada proteína. Mas e depois? O que faço com essa informação? Injeto a substância no paciente? Nenhuma mãe deixaria eu fazer um teste no seu filho", diz Mariz.

Segundo a pesquisadora, chega um momento na pesquisa no qual a relação entre as diversas proteínas e o corpo tem de ser analisada de forma sistêmica, levando em conta o organismo com um todo. Ao testar um fármaco em um animal, ela poderia analisar seu funcionamento não só em um tipo de tecido — como acontece na cultura de células — mas levar em conta todos os sistemas do corpo, como circulatório, nervoso e imunológico. O resultado pode ser completamente diverso.

Em sua pesquisa, Mariz elaborou um possível tratamento baseado no uso de células-tronco extraídas da medula óssea dos camundongos. Sua ideia inicial, que parecia promissora a partir dos experimentos in vitro, era simples: injetar as células-tronco no músculo dos ratos e esperar pela cura. Ao analisar o animal, no entanto, não encontrou a proteína em seus músculos. Examinando mais a fundo, também não achou a célula inserida, nem seu DNA. "O tecido não durou dois dias no corpo do camundongo. Imagine se eu tivesse feito o teste em humanos. Íamos fazer um procedimento invasivo, ficar em dúvida sobre seu efeito e procurar pela proteína, quando, na verdade, essas células já teriam sido eliminadas logo no começo do experimento. Viu que resposta importante os camundongos nos deram?", pergunta.

O resultado fez a pesquisadora retroceder em alguns passos seu estudo, para analisar que tipos de células-tronco conseguem se fixar no local. "A ciência avança desse modo: pedaço por pedaço. Cada tijolo de informação adicionado vai formando uma estrutura cada vez mais sólida, tornando o ato seguinte mais embasado. O resultado não é imediato. Mas o objetivo final é curar os pacientes", diz.

A ciência sob ataque

Guilherme Rosa e Juliana Santos
Veja online

Na última semana, diversas vozes se levantaram para atacar o uso de bichos como cobaias em experimentos científicos. As críticas, no entanto, não levam em conta um fato irrefutável: não existe, por enquanto, nenhum substituto para o uso dos modelos animais. Sem as cobaias, a medicina não avança

Avener Prado/Folhapress 
Os ativistas arrombaram gaiolas e retiraram dezenas de cães da raça beagle, 
que foram levados para clínicas veterinárias particulares da região  

Desde a invasão ao Instituto Royal, em São Roque (SP), na semana passada, um velho debate voltou à tona no Brasil. Ativistas, personalidades da TV e parlamentares se juntaram a uma turba de vozes das redes sociais para pedir um fim às pesquisas científicas que se utilizam de cobaias animais. Os testes foram tachados de cruéis, desnecessários e antiquados. Pesquisadores brasileiros passaram a ser vistos como monstros sádicos que utilizam procedimentos abandonados no resto do mundo em troca do lucro fácil.

Faltava nessa discussão, no entanto, uma voz importante, os próprios cientistas. Ninguém melhor do que biólogos, geneticistas, veterinários e médicos para dizer se é possível eliminar as cobaias animais nos testes. Entre os pesquisadores, a opinião é unânime: os bichos são imprescindíveis para os experimentos. Por isso, são permitidos no mundo todo; e sem eles não há como desenvolver novos remédios e tratamentos — a ciência médica poderia decretar falência no país.

"O uso de animais em experimentos não é opcional. Existem situações em que eles simplesmente não podem ser substituídos", diz Silvana Gorniak, pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP que realiza pesquisas com roedores para estudar o potencial terapêutico e tóxico de diversas substâncias naturais.

Seu estudo atual é sobre a planta Solanum malacoxylon, conhecida popularmente como espichadeira. "Quando consumida naturalmente, ela é tóxica. Estamos estudando se o seu princípio ativo, usado em quantidades menores e controladas, pode funcionar como um substituto da vitamina D", explica. Para descobrir se o potencial terapêutico da planta pode se reverter em tratamentos reais, é necessário realizar testes em modelos animais. Caso a substância seja testada diretamente em cobaias humanas, o risco para os voluntários é imenso.

Segundo a cientista, a decisão de usar bichos em suas pesquisas não é simples — nenhum pesquisador faz isso porque gosta. Ademais, esse tipo de estudo é muito caro, pois o custo das cobaias animais eleva em muito o preço dos experimentos. Por isso, há décadas, laboratórios de todo o mundo procuram por métodos alternativos. Nos últimos anos surgiram novas técnicas de cultura celular e modelos de computador, capazes de substituir os animais em algumas pesquisas, mas não todas. Não há como simular o funcionamento conjunto de sistemas complexos do corpo, como o circulatório, nervoso e imunológico. "Como replicar a depressão em uma cultura de células? Não existem métodos alternativos para testar anticancerígenos, vacinas contra aids, medicamentos anti-hipertensivos. Para saber se eles funcionam, precisamos testar em animais", diz Gorniak.

Camundongos e cães — 
Ao contrário do que tem sido apregoado por ativistas nos últimos dias, o uso de modelos animais — mesmo pequenos roedores — é importantíssimo para o estudo de doenças em seres humanos. "O camundongo é pequeno, fácil de reproduzir, tem um curto ciclo de vida e regeneração rápida, o que o torna uma ótima cobaia. Seu genoma é muito parecido com o humano, o que ajuda a responder muitas perguntas, principalmente da área genética", afirma a geneticista Mariz Vainzof, coordenadora do Laboratório de Proteínas Musculares e Histopatologia Comparada do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

É claro que nenhuma cobaia é absolutamente fiel à fisiologia humana, mas cada linhagem de animal pode fornecer respostas para questões diferentes dos pesquisadores. Os roedores são um ótimo modelo para a pesquisa conduzida por Mariz, por exemplo, mas péssimos para a depressão. Nesse caso, os pesquisadores teriam de estudar algum outro animal. Poderia ser, inclusive, um cachorro.

Em algumas pesquisas, os cientistas precisam de mais de uma espécie — cada uma responderá a questões diferentes dos cientistas. A talidomida é um exemplo da importância desse tipo de procedimento. A droga chegou às farmácias no final da década de 1950, como uma espécie de sedativo. Anos mais tarde, descobriu-se que ela era responsável por produzir deformações em recém-nascidos, levando à morte de milhares de crianças. O problema foi que a droga só havia sido testada em ratos e camundongos — animais imunes a seus efeitos adversos. Os pesquisadores deveriam ter realizado experimentos também em outras espécies, capazes de emular outros sistemas do corpo humano. Atualmente, esse erro não se repetiria.

Cuidados com as cobaias — 
Durante uma pesquisa científica, os animais têm de receber todos os cuidados necessários. Cobaias que sofram maus tratos podem arruinar uma pesquisa, alterar seus resultados, impedir seu financiamento e barrar sua publicação em periódicos científicos. "Não sei de onde as pessoas tiram que os cientistas estão loucos para ficar matando os bichinhos. A maioria de nós é formada em biologia. Estamos nessa área justamente porque gostamos da natureza", afirma Mariz.

Para alguns dos pesquisadores, começar a realizar testes em animais é um choque. Mesmo com todos os cuidados, nem sempre é fácil seguir os procedimentos necessários. "Quando isso acontece com algum dos meus estudantes, eu o coloco em contato com algumas das crianças que estamos tentando tratar, com sua família. E mostro que esse é o nosso objetivo: estamos fazendo isso em prol de uma criança doente", diz Mariz, cuja principal pesquisa busca a cura para a distrofia de Duchenne, uma doença degenerativa que atinge um entre cada 3 000 homens.

Paula Cristina Onofre Oliveira, aluna de doutorado de Vainzof, é um exemplo desse tipo de pesquisador. Antes de se envolver com as pesquisas, ela havia ingressado em movimentos pela defesa dos direitos dos animais, participado de seminários e cursos que analisavam métodos substitutivos. Hoje, ela usa cobaias em seus estudos sobre a genética das doenças neuromusculares. "Não vou dizer que é fácil. Sempre tentamos minimizar o sofrimento e o número de animais, mas às vezes é impossível escapar desse tipo de experimento. Para conseguir fazer isso, temos de estar sempre pensando nos pacientes", diz.

Preconceito animal — 
Gilson Volpato especialista em bem-estar animal e professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, realiza uma série de experimentos com peixes para provar que esses animais também são capazes de sofrer e sentir dor. "A pesquisa pretende mostrar que outros animais além dos cachorrinhos e gatinhos sofrem. Essa é uma crença humana: quanto mais próximo animal do homem — e mais bonitinho ele for — mais acreditamos que ele é capaz de sofrer. Mas a ciência tem mostrado que isso não é verdade."

Segundo Volpato, a decisão de utilizar animais em experimentos científicos só é justificada quando não existem alternativas e quando o objetivo é um bem maior. "A ciência é uma consequência direta da evolução humana. Uma ferramenta que surgiu para ajudar o homem na luta por sobrevivência na natureza. É aceitável o ser humano usar essa faculdade para resolver problemas de saúde e aumentar a longevidade", afirma. "Nesse sentido, utilizar animais em pesquisas que podem curar doenças é um processo natural. Agora, causar sofrimento nos animais por motivos meramente lúdicos não é natural, é um absurdo."

Enquanto a pesquisa científica seria eticamente permitida por ter objetivos maiores, diversas outras atividades rotineiramente praticadas pelo homem seriam, elas sim, cruéis e injustificáveis. "Veja a pesca esportiva, na qual o animal é fisgado, tirado da água e depois devolvido ao mar. É lógico que ele sofre — e em troca de pura diversão. Isso é sacanagem. O mesmo acontece com algumas raças de cachorro, criadas apenas para o prazer humano de ter um pet. São animais com deformações físicas, dificuldade para respirar, problemas de pele. O indivíduo pode até cuidar bem do animal, mas ele claramente sofre. E em troca do que? Em troca do indivíduo ter um cachorro para amar. Isso é pura incoerência", afirma.

Cosméticos na mira – 
Pelo mesmo motivo, Gilson Volpato se coloca contra a o uso de cobaias animais em pesquisas para cosméticos — o que ainda é aprovado pela legislação brasileira. "São duas pesquisas diferentes. Uma visa um bem maior, a outra fazer um novo tipo de perfume." Na sua opinião, a indústria da beleza deveria achar outro jeito de testar os produtos ou parar de lançá-los.

O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) admite discutir a proibição de testes de cosméticos em animais. Uma série de questões legais precisa, no entanto, ser acertadas primeiramente. "Estamos caminhando para isso, mas é uma regra que precisa ser discutida com racionalidade entre cientistas, técnicas e parlamentares", diz Marcelo Morales, coordenador do Concea.

Debate eleitoreiro — 
Segundo os cientistas, a invasão do Instituto Royal tornou menos saudável a atmosfera em que o debate acontece no país, e cada vez menos racional. Laboratórios de faculdades procurados pelo site de VEJA para participar da reportagem preferiram se abster, com medo da reação de ativistas, da invasão de seus laboratórios e da perda de anos de trabalho.

Não é uma questão de criticar todas as organizações de defesa dos direitos dos animais. Segundo Volpato, a ação desses ativistas tem sido, historicamente, muito importante. "É bom ter alguém olhando e fiscalizando nosso trabalho. Em função de denúncias desses grupos, já deixamos muitas práticas para trás, verdadeiras atrocidades deixaram de ser cometidas e hoje temos uma legislação sobre esse assunto", diz. "Mas eu queria saber daqueles que querem banir totalmente as pesquisas com animais o que eles diriam para quem tem um parente internado em um hospital."

A volta dessa discussão entre políticos foi ainda mais atribulada e irracional. Movidos pela poderosa cena do resgate dos beagles, deputados já se pronunciaram a favor da criação de um CPI para investigar o caso e, quem sabe, proibir todos os testes com animais. As maiores autoridades no assunto não podem ficar fora dessa discussão. "Quando o político entra no debate, ele vem pensando em que posição tomar para ganhar a próxima eleição, em qual discurso será melhor para ele", diz Volpato. "Em países sérios, os políticos ouvem os cientistas envolvidos quando discutem questões técnicas. Infelizmente no Brasil, a opinião dos cientistas costuma ser ignorada."

O que diz a lei


Desde 2008, o cientistas brasileiro que quer realizar pesquisas com cobaias animais tem de obedecer a uma série de regras. Nesse ano, a Lei Arouca estabeleceu a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Consea), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia com o objetivo de decidir o que pode ser feito durante esse tipo de procedimento.

Todo biotério, local onde os animais são criados e armazenados antes de serem utilizados no experimento científico, tem de ser aprovado pelo conselho. Para conseguir o cadastro, uma instituição deve informar ao governo o que é feito com os animais, as condições em que são mantidos — temperatura, luminosidade, espaço — e quais profissionais são treinados para cuidar dos animais. "Nenhuma instituição pode fazer pesquisa sem estar credenciada", diz Marcelo Morales, coordenador do Concea.

Além disso, cada biotério precisa ter uma Comissão de Ética para o Uso de Animais, que deve ter entre seus membros, obrigatoriamente, médicos veterinários, biólogos, membros da sociedade civil e de entidades protetoras aos animais. Nenhuma pesquisa pode ser feita sem a aprovação da comissão, que vai analisá-la baseada nas regras nacionais e internacionais. (O Instituto Royal tinha uma Comissão de Ética, e todas as suas pesquisas foram aprovadas por todos os seus membros — inclusive os de sociedade protetoras dos animais).

Entre as regras a serem seguidas, está a necessidade de evitar causar dor ou sofrimento a qualquer animal. Se um procedimento for gerar desconforto, o animal tem de estar anestesiado e permanecer sob efeito de analgésicos até que a dor passe. Caso o sofrimento não possa ser revertido, o bicho deve sofrer eutanásia, também realizada seguindo normas estritas.

A lei brasileira é muito semelhante à que existe na maior parte do mundo desenvolvido, com uma exceção. A União Europeia criou uma lei em 2009 que proíbe o teste de cosméticos em animais. O Concea admite discutir o tema no futuro.

Os testes de cosméticos


Desde julho deste ano, a União Europeia proíbe a venda de produtos cosméticos testados em animais. O principal motivo alegado é o bem-estar dos bichos — mas as pesquisas com fins científicos e médicos continuam aprovadas. Outro fato que pode ter ajudado na proibição é a existência de diversas técnicas que substituem o uso de animais nesse tipo de experimentos, como peles artificiais.

Antes mesmo dessa decisão, algumas empresas alardeavam que seus produtos não eram testados em animais, o que dificilmente pode ser verdade. "Falar que seu produto cosmético não foi testado em animal é uma espécie de enganação. Hoje, 99% dos produtos cosméticos finalizados — um xampu, por exemplo — não são testados em animais. Mas todos os seus componentes foram testados no passado, para descobrir se não eram tóxicos. Por sorte, essa prática está sendo abandonada com o avanço da tecnologia", diz Silvana Gorniak, pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

No Brasil, esse tipo de experimentos não está proibido, apesar de ser cada vez mais incomum — tanto por causa do marketing das empresas quanto pelas novas técnicas disponíveis. Segundo Marcelo Morales, coordenador do Concea, a proibição dos testes de cosméticos em animais está sendo cogitada. Mas uma série de empecilhos técnicos e legais precisam ser superados antes disso.

"No Brasil, nós temos de importar kits para testar a irritabilidade da pele humana. O problema é que eles têm prazo de validade de sete dias, e muitas vezes já não funcionam quando chegam nos laboratório", diz Morales. O CNPQ investiu dinheiro para que pesquisadores produzissem o kit no Brasil. Quando isso for possível, haverá outro problema: uma lei vigente que proíbe a comercialização de produtos derivados de seres humanos, de modo que esse kit não poderá ser vendido no país. "Uma das intenções do Concea é proibir o teste de cosméticos em animais, mas isso ainda tem de ser discutido, com calma e racionalidade, entre cientistas e Congresso", diz Morales.

Anomia

Rodrigo Constantino
O Globo

A anomia é, pois, ‘uma condição em que tanto a eficácia social como a moralidade cultural das normas tendem a zero’. Tudo passa a ser visto como permitido, já que nada é punido

“Estado de uma sociedade caracterizada pela desintegração das normas que regem a conduta dos homens e asseguram a ordem social”. Assim o dicionário define o termo anomia, cunhado pelo sociólogo Durkheim. É a palavra que melhor define o perigoso momento que vivemos atualmente.

Que as normas de conduta no Brasil sempre foram elásticas, isso todos sabemos. Afinal, esse é o país do “jeitinho”. Só que há algo novo no ar. Agora, muitos acreditam que a violência e a criminalidade são recursos legítimos para suas causas, vistas como nobres.

A tarifa do ônibus incomoda? Os hospitais públicos não são “padrão FIFA”? O salário dos professores é baixo? Cães são usados em pesquisas de laboratórios? As causas são as mais diversas possíveis, mas os métodos se repetem: vandalismo, depredação,coquetéis molotov, ruas fechadas, gente mascarada atacando policiais.

O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, que acompanhou os terríveis anos nazistas de Berlim, escreveu em 1985 um livro chamado “A Lei e a Ordem”, que o Instituto Liberal traduziu, onde traçou alguns paralelos entre a situação que estavam vivendo os países desenvolvidos nessa época e a era que antecedeu o nazismo.

Seu principal alerta era quanto ao caminho para a anomia, que costuma anteceder regimes totalitários. Afinal, os índices de criminalidade estavam em alta nesses países desenvolvidos, ameaçando a paz e a ordem dos cidadãos.

Dahrendorf estava preocupado com a incidência da impunidade, cuja conseqüência é a anomia, “quando um número elevado e crescente de violações de normas torna-se conhecido e é relatado, mas não é punido”.

A anomia é, pois, “uma condição em que tanto a eficácia social como a moralidade cultural das normas tendem a zero”. Tudo passa a ser visto como permitido, já que nada é punido.

Quando atos criminosos são praticados à luz do dia, carros da polícia são incendiados, cachorros são furtados, e ninguém é preso, ou se é, logo acaba sendo solto, isso é um convite para novos e mais ousados atos criminosos.

Nova York já foi a capital do crime na década de 1970, e foi somente quando as autoridades compreenderam a teoria da “janela quebrada” que as coisas começaram a mudar. Haveria tolerância zero, mesmo com pequenos delitos, como grafiteiros no metrô. O respeito a lei e a ordem deveria ser pleno.

Reparem que sequer entrei no mérito das bandeiras que esses vândalos e criminosos levantam. Isso é secundário. São os métodos que estão sendo julgados, e condenados. Cada um pode achar que sua causa é a mais justa, mas se todos pensarem que isso justifica atos ilegais, então estaremos perdidos na completa anomia.

Reinaldo Azevedo, em sua coluna de estreia na “Folha”, foi preciso quando disse: “Em política, quando o fim justifica os meios, o que se tem é a brutalidade dos meios com um fim sempre desastroso”. E não foi assim em toda revolução cheia de boas intenções?

Não resta dúvida de que nossa democracia está bastante disfuncional. Para começo de conversa, há uma completa hegemonia de esquerda. Além disso, há mais legendas de aluguel do que partidos. Por fim, o corporativismo e a corrupção são as marcas registradas na política nacional.

Dito isso, ainda temos uma democracia, por mais imperfeita que seja. E isso deve ser valorizado. Aqueles que estão insatisfeitos, como eu, devem lutar pelas vias legais e democráticas por mudanças. A linguagem da violência é a dos bárbaros, e nunca traz bons resultados.

Por isso considero tão temerária a reação de muitos artistas e intelectuais frente à escalada de atos violentos desses baderneiros. Tentam justificá-los, quando não endossá-los, alguns chegando a se fantasiar de “Black Bloc”. Acabam jogando lenha na fogueira da anomia, ameaçando nossa frágil democracia.

Disse que havia algo novo, mas me enganei. Maio de 1968 foi parecido. Escrevendo nesse mesmo ano para esse mesmo jornal, Nelson Rodrigues dissecou o “velho mito” de que as ruas são a voz divina:

“Hoje, todo mundo protesta. Há sujeitos que acordam indignados e não sabem contra quem, nem por quê. [...] Não existe, hoje, palavra mais vã, mais sem caráter, e, direi mesmo, mais pulha do que ‘liberdade’. Como a corromperam em todos os idiomas! [...] Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar, os homens se aglomeram. As unanimidades decidem por nós, sonham por nós, berram por nós. Qualquer idiota sobe num pára-lama de automóvel, esbraveja e faz uma multidão”.

Gostaria de convidar todos para o lançamento de “Esquerda Caviar” nesta quarta, dia 30, na Travessa do Leblon, às 19h.

Atlânticos e Pacíficos

Gustavo H. B. Franco
O Estado de S. Paulo

Quem culpa o neoliberalismo pelos males do Brasil não reparou nos exemplos que temos seguindo, nem no que diz a presidente

Mario Vargas Llosa descreveu certa vez a América Latina como uma terra “propícia ao surrealismo, à beleza inebriante da fantasia e da intuição, e à desconfiança para com o racional”. Uma das inúmeras implicações econômicas desse encantamento, ou maldição, é o fascínio exercido pela feitiçaria econômica na região.

A tabela ao lado mostra o continente dividido em dois grupos, Atlânticos e Pacíficos, cada qual com sua fé e seu modelo. Venezuela, Argentina, Equador e Bolívia formam o grupo bolivariano, enquanto a república neoliberal pró-globalização é formada por Chile, Peru e Colômbia. A tabela também traz o Brasil, um indeciso, e um grupo de emergentes asiáticos com semelhanças econômicas com os latinos, uma espécie de grupo de controle, formado por Coreia do Sul, Malásia e Tailândia.

A tabela exibe diversos indicadores econômicos na forma de médias ponderadas onde os pesos correspondem ao PIB de cada país. Assim podemos olhar para cada grupo qual fosse uma única república. Porém, é muito importante ter em mente que os números da República Atlântica são feitas no Instituto de Geografia e Estatística de Macondo (IGEM), e por conta disso, o crescimento da federação bolivariana-peronista para 1994-2012 está designado por “&*#”, a única forma algébrica de capturar o que ali se passa.

É simples: o cálculo do crescimento real utiliza os índices oficiais para a inflação sabidamente manipulados. Medições independentes para a inflação argentina mostram algo próximo a 20% (www.inflacionverdadera.com) ao passo que os números oficiais mostram pouco mais de 10%. Segundo o IGEM, o crescimento médio real do PIB argentino para 2003-2012 foi de 7,2%, um colosso, maior que o da Coreia do Sul, mas menor que a trapaça no deflator. Puro realismo fantástico. O aspecto é o de um crescimento minúsculo ou mesmo nulo para esses anos mais recentes, o que é consistente com os relatos de viajantes pela Grande Buenos Aires.

O crescimento médio anual da Federação Pacífica no período de 1994 a 2012 foi de respeitáveis 4,4%, sendo que o Chile avançou 4,7%, o mesmo número da Federação Asiática. O Brasil cresceu 3,2% no período, e perdendo o gás.

As outras variáveis de desempenho são a inflação para os últimos 12 meses e a colocação no ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). É bastante claro que os atlânticos estão às voltas com um pesadelo inflacionário (falta papel higiênico na Venezuela, a inflação superou os 50% e o caos está próximo), mas sua colocação no IDH até que ainda não é tão ruim graças à Argentina que ocupa a posição 45 em 186 países, puxando a média do grupo para 60. São as glórias do passado que vão sendo erodidas com velocidade. O Chile já ultrapassou a Argentina em IDH (posição 40), mas a Colômbia puxa a média do grupo para 71. A República Pacífica vai muito bem no assunto “inflação”, como os asiáticos.

As diferenças no desempenho econômico são notáveis, a que se devem? Como aferir o impacto nefasto de políticas heterodoxas e ideias econômicas obtusas?

É difícil encontrar uma única variável livre de maquiagem que capture, por exemplo, a indisciplina fiscal, marca registrada do governante populista. A inflação em si conta boa parte da história, talvez a pior parte, daí o interesse em ocultá-la. O mesmo se passa com déficits e dívidas, cujas estatísticas vão se tornando esfinges que o FMI faz o que pode para decifrar. A dívida pública (medida pelo FMI) é bem maior no Atlântico que no Pacífico mesmo tendo em vista que as possibilidades de endividamento são bem mais reduzidas nos países bolivarianos, basta olhar seus estratosféricos números para o risco soberano.

Os números para o “ambiente de negócios” na República Atlântica são terríveis. Trata-se aí da colocação no ranking de 185 países que compõem a pesquisa “Doing Business” do Banco Mundial para o ano de 2013, na qual o grupo estaria na posição 147. A Venezuela está na posição 180 (pior que Haiti e Afeganistão) enquanto que o Chile está na posição 37 e a Coreia na 7ª. O Brasil está na patética posição 130. Quando se trata de corrupção, segundo o ranking divulgado pela Transparência Internacional, a situação está péssima para os atlânticos (posição 127 em 176 países), ao passo que os pacíficos estão na posição 67 (o Chile em 20º).

É claro que a caracterização desses modelos de desenvolvimento poderia utilizar inúmeras outras variáveis (abertura, desigualdade, investimento, demografia, por exemplo), mas é difícil acreditar que a conclusão vá se modificar: os modelos econômicos “alternativos” praticados no Atlântico, bem como as ideias exóticas que os apoiam, são fraudes grotescas ocultas por trás de uma traiçoeira névoa estatístico-ideológica.

Ademais, deve-se notar que o crescimento na República Atlântica, o que quer que tenha sido, foi muito ajudado pela extraordinária bonança de termos de troca que os beneficiou no período. Não fora isso, seria muito pior, ou não, pois o populismo talvez não tivesse chegado ao poder, o que sugere uma dinâmica cruel: para todo choque favorável nos termos de troca, ou descoberta redentora, que possa levar o país para um patamar mais elevado de desenvolvimento, haverá um governante arrivista pronto a desperdiçar a oportunidade.

Os indicadores brasileiros servem para mostrar o quanto estamos hesitantes quanto a que grupo acompanhar. Quem disse que o muro é uma criatura tucana? Na verdade, no tocante a endividamento e ambiente de negócios, para não falar em diplomacia, o Brasil está mais para a República Peronista Bolivariana do que para a Federação Neoliberal Pacífica. Quem culpa o neoliberalismo pelos males do Brasil não reparou nos exemplos que temos seguindo, nem no que diz a presidente. Felizmente, ainda podemos nos aproximar dos pacíficos, e trabalhar para construir uma economia de mercado baseada no empreendedorismo e na liberdade de fazer negócios. Ou não. A decisão é nossa.