terça-feira, outubro 31, 2006

Idéias boçais em tempos medíocres !

Imprensa ameaçada: no dia em que jornalistas apanham de petistas,
presidente do PT critica o... jornalismo!

Por Reinaldo Azevedo

Num post abaixo, vocês têm relatados os ataques de que foram vítimas os jornalistas na frente de Palácio da Alvorada. A questão é grave. Alguns dos agressores são funcionários comissionados do governo federal. A hostilidade dos petistas já começou no aeroporto, em Brasília: “Ou, ou, ou, a Veja de ferrou” e “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.
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Como já se informou aqui, um jornalista foi agredido com o mastro de uma bandeira do PT. “Tem alguém da Veja por aí?”, perguntavam, como se estivessem caçando pessoas. Na frase mais significativa do dia, afirmou um deles: “A ditadura era melhor do que a imprensa, eles matavam com baionetas, vocês matam com a língua". E pediam o fechamento dos jornais. O PT ficou chocado com isso, certo? Ah, Marco Aurélio Garcia, presidente da legenda, criticou, claro, os atos de violência. Mas gastou a maior parte do tempo atacando a imprensa, que apanhara havia pouco.
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No meu artigo desta semana na Veja, digo que faz 26 anos que o sistema político tenta civilizar o canibalismo petista. Não adianta. Escrevam: eles vão querer alguma forma de censura. Vão tentar nem que seja a econômica. Vão estimular grupos de pressão a se comportar como horda. O trabalho já começou. Garcia cobra “da imprensa” um desmentido sobre o mensalão. Segundo ele, o PT fez apenas caixa dois. Ele deveria perguntar por que Valdemar da Costa Neto renunciou. Confessou ter recebido R$ 10 milhões do PT. Ok, não foi em parcelas. A compra se fez de uma vez só. E em dinheiro vivo. Ele deveria cobrar ainda uma autocrítica do procurador geral da República.Garcia também quer uma “auto-reflexão” da imprensa sobre o seu comportamento durante as eleições. A sugestão é que prejudicou o PT. Vejam só: o presidente do partido que, até agora, não disse de onde saiu o dinheiro sujo do dossiê fajuto tem a coragem de fazer cobranças ao jornalismo. Não só cobranças. Também intrigas e ameaças.
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Para Marco Aurélio Garcia, esse sentimento de crítica à mídia “atravessa uma parte dos jornalistas nas redações.” E acrescentou: “Tenho informações disso e sei que existem instituições da sociedade civil preocupadas. Da mesma forma que sei que há movimentos crescentes de consumidores de órgãos de imprensa que estão manifestando a sua inconformidade através do cancelamento de assinaturas”.
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Certamente ele não está se referindo aos veículos que puxam o saco do governo. Para os petistas, todos os jornais e revistas seriam cartilhas. Cartilhas capitais.
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Ele chamou esse movimento de “sadio”, sugerindo a sua espontaneidade. Nós sabemos muito bem como essas coisas funcionam no PT. As "instituições da sociedade civil" são as ONGs que o partido cria para patrulhar a sociedade. Por dia, recebo mais de mil e-mails malcriados de militantes. Trata-se de um movimento organizado.
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PS: Uma equipe da TV Globo teve de se esconder no veículo da emissora com medo de agressões. O Jornal Nacional ignorou o caso. Não sei por quê. Jornalista não é mesmo para ser notícia. A não ser quando apanha de militantes de um partido que cobram o fechamento dos jornais.
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COMENTANDO A NOTICIA: Este é o PT e o seu regime de terror. O apreço que eles tem pela democracia é aquele em que se critica os adversários, se monta e se compra dossiês malditos e fajutos, se censura a política dos outros, se mente e se roubas a obra pronta dos outros, mas eles deve ser amados, venerados, elogiados, até diante do crime mais torpe.
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Saiba o Sr. Marco Aurélio Garcia, vulgo presidente do Partido de Trambiqueiros ou de Tramóias, que isto aqui ainda não é Cuba que se cala a crítica e os críticos no paredão. A lei, aquela que vocês vulgar e corriqueiramente ignoram, aquela que vocês atropelam e passam por cima apenas para atender interesses espúrios, ordinários e cretinos, é igual para todos, e neste país, quer vocês gostem ou não ainda se vive o estado de direito. Claro que sabemos que a tal da reforma política para mexer nos direitos dos cidadãos, para comprar o silêncio da sociedade e permitir que os larápios ratos do T4esouro Nacional continuem a se divertir ad eternum e impunes.
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Sua guangue de cafajestes sabemos que não se furtará em agredir a sociedade diuturnamente, nem tampouco de ameaçar a segurança do cidadão, avançando sempre por exemplo não apenas ao direito da livre manifestação, como também na privacidade, no patrimônio e no bolso para satisfação de sua turba de delinqüentes e imorais. Mas é bom que se diga: mesmo seu “exército” de paus mandados não serão suficientes para por à cabresto mais de 180,0 milhões de brasileiros. Não atentem contra a democracia brasileira, seu boçal canastrão. A resposta será mais dura do que você imagina. A vitória de Lula foi para governar o país, não instalar uma republiqueta ao estilo cubano e medíocre tipo circo dos horrores. Não lhe foi concedida nenhuma autoridade para agredir o cidadão em seus direitos fundamentais. Nem tampouco anistia para instalar em nosso país a baderna e a senzala. Se você, que adora a boçalidade e a mediocridade, se apraz de viver abraçado a elas isto é lá problema seu: mas não queira impor teu estilo imbecilóide ao demais moradores deste país. O Brasil não é propriedade nem de PT nem de Lula. Respeite nossa integridade, mas principalmente, respeite o direito mais sagrado de qualquer ser humano: o da liberdade de se expressar e de pensar. Não somos vossas amebas socialistas teleguiadas e sem vontade própria.

Rir é o melhor remédio

O dilema do Anão
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Dois anões resolvem se divertir e vão para a zona.
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Depois de uns drinques, eles pegam umas meninas e sobem para os quartos.
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Mesmo animadinho, um dos anões não consegue ter uma boa ereção. Por mais que se esforçasse, nada conseguia fazer com a prostituta.
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Fica ainda mais desapontado quando ouve o seu amigo no quarto ao lado:
- Um, dois, três e... jaaaaaá!
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Novamente o anão tenta se entusiasmar, mas... nada.
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Passados mais alguns minutos, ele ouve novamente seu amigo gritar:
- Um, dois, três e... jaaaaaaaaaaaá!
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O anão tenta se animar, encorajado pelos gritos do companheiro no quarto ao lado, mas... nada. Nem sinal de vida!!!
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Passado mais um tempo, ele volta a ouvir:
- Um, dois, três e... jaaaaaaaaaaaaaaaá!
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Aí ele pensa:
- "Putz, meu amigo está se divertindo pacas, e eu aqui nesse sufoco sem conseguir nada!"
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E ouve outra vez:
- Um, dois, três e... jaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaá!
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Passada a hora do programa, os anões se encontram na saída.
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Vendo o amigo todo suado, descabelado, ofegante, o anão que “falhou” comenta:- Pô! Foi uma droga! Por mais que eu me esforçasse, não consegui ter nenhuma ereção!
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Ao que o colega responde, rispidamente:
- Ereção!? Pior fui eu, que nem consegui subir na cama...

TOQUEDEPRIMA...

Lula não respeita nem as leis feitas pelos outros
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Vigarista da obra pronta
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Além de apresentar como feitos do seu governo obras que nunca saíram do papel, os tucanos denunciam que o candidato Lula da Silva passou a se intitular autor de leis que foram sancionadas em governos anteriores e até redigidas por adversários políticos.
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No debate realizado na Rede Record, Lula se apropriou indevidamente do mérito de outros políticos em pelo menos quatro ocasiões.
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Portadores de Deficiência
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Ao responder a uma questão feita por Geraldo sobre corte de verbas para projetos que facilitariam a vida de deficiente, Lula respondeu que nenhum governo havia cuidado tanto desse segmento da população.
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"Inclusive com a aprovação da lei da acessibilidade, inclusive com a aprovação da Lei do Cão Guia".
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Tucanos denunciam que é mentira, pois há duas leis que estabelecem direitos para os deficientes, a 10.048 e a 10.098.
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As duas foram sancionadas pelo presidente Fernando Henrique, no final de 2000.A primeira estabelece atendimento preferencial.
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A segunda, "normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida".
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A Lei do Cão Guia, por sua vez, é um projeto de autoria do senador Romeu Tuma (PFL-SP).
Lula apenas sancionou o texto que foi aprovado pelo Congresso.
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Estória de Pescadores
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Lula também tentou se apresentar como responsável pelo seguro-desemprego que é pago aos pescadores durante o período em que a pesca é proibida pelo Ibama."E eu conheço a realidade das quebradeiras de coco de babaçu, eu conheço a realidade dos pescadores, foram 500 mil pescadores cadastrados e garantido a eles o seguro defeso".
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A lei que criou o seguro-desemprego durante o período de defeso foi sancionada no dia 20 de dezembro de 1991.
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O governo Lula aprovou uma nova legislação sobre o assunto, que não mudou a essência do projeto assinado por Collor.
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Seguro-safra
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Outro exagero do presidente foi em relação ao seguro para agricultores:
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"O Rio Grande do Sul teve a maior seca dos últimos 70 anos e nós criamos o seguro agrícola que vocês poderiam ter criado há 50 anos atrás e não criaram. Fomos nós que criamos".
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O seguro-safra, que estabeleceu, na época, uma renda mínima para agricultores do Norte, Nordeste e do norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha em caso de estiagem, foi aprovado em 10 de abril de 2002 pelo presidente FHC, com a sanção da lei 10.420.
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COMENTANDO A NOTICIA: Lula, vigarista da obra pronta, vai roubar o quê e de quem agora, em seu segundo mandato ? Obras de si mesmo ? Cretino !!!
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A mordida do Leão nos brasileiros é maior
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O aumento da carga tributária fez com que o valor pago por cada brasileiro à Receita Federal quase dobrasse em cinco anos.
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Levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) mostra que o pagamento anual per capita de imposto de renda saltou de R$ 1.087,07, em 2001, para R$ 1.977,02 em 2005.
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O valor pago à Previdência subiu de R$ 388,83, em média, para R$ 629,28, no mesmo período.
De cada R$ 100 que a Receita Federal arrecada anualmente, mais de R$ 81 saem de contribuintes dos sete Estados que compõem as regiões Sul e Sudeste.No ano passado, essas regiões contribuíram com 81,48% de toda a arrecadação administrada pela Receita.
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A triste constatação está no estudo "Arrecadação tributária para a União por Estados e por regiões do país", elaborado pelo IBPT.
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Esta semana, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, após ter feito uma "confissão pública" de elevação da carga tributária a uma platéia formada por empresários, voltou atrás e disse que fez a afirmação em tom de brincadeira.
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Não elevar a carga tributária durante o mandato era uma das principais promessas feitas pelo governo Lula.

TOQUEDEPRIMA...

A bandalheira petista não tem fim!

Problemas na Casa da Moeda
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A ONG Contas Abertas denuncia que o Tribunal de Contas da União investiga irregularidades encontradas em licitação feita pela Casa da Moeda do Brasil (CMB).Uma das acusações é de que as empresas participantes de um processo licitatório, convidadas pela CMB, têm vínculos entre si.
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Um documento do TCU mostra que houve prática de preços excessivos dos serviços prestados.
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De acordo com o relatório elaborado pelo ministro do TCU Ubiratan Aguiar, a CMB convidou as empresas Planear Assessoria e Consultoria Ltda., CG Consultores Associados, Cooperativa de Trabalho de Especialistas Ltda. e o Instituto de Políticas Públicas (Inpp) para participarem da licitação, que foi feita em 2003.
Ligações entre empresas
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O relatório esclarece o vínculo entre as empresas Planear e Cooperativa de Trabalho: “um dos sócios da Planear, Sr. Fernando Antônio Marinho Pereira, é sócio majoritário da Cooperativa. A outra sócia da Planear, Sra. Magda Moreira Cunha Marinho, é presidente da Cooperativa. Além disso, esta funciona no mesmo endereço da residência dos sócios da Planear”.O documento também explica a relação com a CG Consultores Associados.
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“A empresa foi responsável pela elaboração do Manual de Campanha Eleitoral do Partido dos Trabalhadores para as eleições de 2004, e que nesse documento, consta como integrante da ‘equipe de base’ da empresa o Sr. Fernando Antônio Marinho Pereira, sócio da Planear e da Cooperativa.”O Instituto de Políticas Públicas nem chegou a apresentar as propostas na licitação, mas, segundo o relatório, Fernando Marinho trabalhou no instituto por três anos.Diante de tais acusações, seria necessário refazer o convite para outras empresas interessadas no processo licitatório, o que não foi feito.
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O ministro-relator, Ubiratan Aguiar, afirma que isso “reforça a convicção de que a intenção dos responsáveis era a contratação da Planear, como de fato ocorreu”.Irregularidade na Dataprev
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Relatório publicado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no último dia 11 de outubro relata uma série de irregularidades cometidas pela Empresa de Processamento de Dados da Previdência Social (Dataprev) na contratação indevida e antieconômica da Cobra Tecnologia S.A..
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Segundo o TCU, a empresa serviu como mera intermediária na prestação de serviços executados pela Unysis Brasil Ltda, que tem o monopólio do mercado de computadores de grande porte e de sua manutenção.
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Segundo o relatório do TCU, além de desobedecer as leis n° 8.666/93 e nº 2/2004, o contrato trouxe ônus adicional a Dataprev, já que a Cobra não era capaz de prestar os serviços, tendo que recorrer a Unysis.
Os dispêndios gerados por esse novo contrato foram de R$ 31 milhões e 200 mil reais.
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COMENTANDO A NOTÍCIA: Não jeito não, a bandalheira petista que assistimos no primeiro mandato, marquem aí: vai se intensificar muito mais no segundo turno. Com um adendo: periga agora muita patifaria lulista sequer vir a público. Como ele mesmo disse que agora conheceram o caminho dqs pedras, provavelmente o aparelhamento do Estado feito pelo PT, começará a podar certas "informações" não agradáveis para a opinião pública. ACORDA, BRASIL. A vigarice vai continuar.
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Clientes da TAM: desrespeito e correria
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O domínio da TAM no mercado nacional de aviação civil e a falta de punição dos órgãos regulares, como a Agência Nacional de Aviação Civil, continuam gerando situações desagradáveis. Os passageiros do vôo 3566 da TAM que saíram de Brasília para Salvador na quarta-feira (25) passaram maus momentos. Por falta de teto no aeroporto da capital baiana, o piloto teve que pousar em Aracaju. Os cinqüenta passageiros que viajam no Airbus foram colocados na sala de espera até o final da tarde. O avião seguiu para Recife. Após horas de espera na capital sergipana, pousou um Fokker 100. No entanto, havia apenas vinte vagas disponíveis. Como não houve consenso para saber quem iria embarcar o jeito foi cada um pegar as suas bolsas e sacolas e sair correndo pela pista. Quem chegou primeiro na escada do avião conseguiu embarcar. Os demais voltaram para a sala de espera. O jeito foi dormir em Aracaju.
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Aeroportos podem enfrentar colapso até 2015, prevê ITA
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Filas nos balcões de check-in, atrasos dos vôos e congestionamento de aeronaves nas pistas e nos pátios. O aumento da procura por passagens aéreas tem feito com que os aeroportos do país operem quase no limite. Estudo do ITA mostra que alguns deles poderão entrar em colapso até 2015
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Arthur Virgílio: cerco se fecha sobre o governo

O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio, leu há pouco, na íntegra, da tribuna do Senado, a nota de coluna do Cláudio Humberto, com a informação de que o presidente Lula e outras vinte pessoas, incluindo o ex-ministro Luiz Gushiken (Secom), são réus em ação popular, movida na Justiça Federal por um advogado do Distrito Federal. Para Arthur Virgílio, isto mostra que "algo de estranho se passa no País". É a crise, que para ele se chama Lula: "Vou até sugerir que ele,que já incorporou ao nome o apelido de Lula, que adote também esse, passando a chamar-se Luís Inácio Lula Crise da Silva", ironizou o tucano.

Não adianta, eles não tomam jeito

Acusar "terceiro turno" é parte do mesmo golpe petista que
levou à tramóia do dossiê
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Por Reinaldo Azevedo
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Por que tantos no PT atacam FHC? Ontem, o ex-presidente foi alvo de Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais, e de Marco Aurélio Garcia, presidente do PT, professor licenciado do Departamento de História da Unicamp. Nesse caso, além dos motivos políticos, é claro que conta também a inveja. MAG, como era conhecido nos tempos da militância, sempre teve ambição de ser reconhecido como um intelectual. Vai entrar para a história, no máximo, como o Leporello do Apedeuta. Coitado! Empresta a sua pouca ciência a uma causa ruim. Quanto a Genro, é bom lembrar, o ataque não vem de agora. No dia 19 de janeiro de 1999, este senhor escreveu um artigo cobrando a renúncia do recém-empossado (segundo mandato) FHC e a convocação de eleições gerais. E o tucano não havia sido escolhido nas urnas sub judice, como Lula. Tarso entende de golpe.
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A resposta para a pergunta que abre o texto é simples. Atacam FHC porque ele é dos poucos, nas oposições, que têm clareza do que está em curso e alcance teórico para avaliar o que acontece no Brasil. É uma tolice supor — e petistas com miolos sabem disso: eles existem, ainda que os tais miolos não sejam lá grande coisa — que o ex-presidente esteja surpreso com o que está em curso. Posso lhes assegurar com absoluta certeza que não está. Também FHC é do tipo que considera que a história tem uma grande margem de indeterminação, mas sabe que os erros cobram o seu preço.
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Ontem, o ex-presidente se encarregou de desmentir o boato de que esteja interessado no impeachment de Lula. Como coisa em si, como objetivo, meta, ponto de chegada, ninguém está. Isso é parte da campanha petista para obter do sistema político licença para mais lambança. O PT denuncia a operação “terceiro turno” — expressão roubada de Collor (até isso!) — para que possa, diante da menor contrariedade, sair gritando: “Estão querendo desestabilizar o presidente Lula”. ATENÇÃO: ESSA GRITARIA SOBRE A QUESTÃO LEGAL É PARTE DO GOLPE PETISTA, DE QUE O DOSSIÊ FOI UMA ETAPA.
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FHC disse a coisa certa. A reeleição, em si, é legítima; traduz a vontade das urnas. E isso não quer dizer condescender com ilegalidades. O raciocínio é simples: se ficar provado que o dinheiro que pagou o dossiê veio do caixa dois da campanha de Lula, sua eleição se torna ilegal. E José Alencar vai junto com ele. Mas os petistas estão tranqüilos quanto a isso. Tudo já foi providenciado para que a coisa não chegue a esse ponto. A versão final já está arrumada: foi caixa dois, sim, mas da campanha de Mercadante. E o senador também não sabia de nada. José Serra e Aécio Neves, governadores eleito e reeleito de São Paulo e Minas, respectivamente, são vozes importantes na oposição. É claro que não poderão assumir com o propósito de liderar a deposição de Lula — ainda que por motivos diferentes... Isso não lhes cabe. Caberá, aí, sim, ao PSDB e ao PFL — e a quantos estiverem na oposição — zelar pelo triunfo da legalidade.Volto ao ex-presidente. Ele evoca a necessidade de o PSDB resgatar seus princípios e sua história. É isso mesmo o que tem de ser feito.
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Falta de clareza, de coragem, de altitude política fez com que o debate sobre a administração pública e as questões de Estado no Brasil regredissem 20 anos em um mês. Esse debate satanizando as privatizações — no exato momento em que a Vale se torna a segunda ou a primeira siderúrgica do mundo, em que a Embraer é exemplo de eficiência e de competitividade e em que a telefonia se universaliza no Brasil — beira o surrealismo. A delinqüência da indagação petista (onde foi o dinheiro?), como se os petistas não soubessem ou como se ele tivesse sido roubado, joga sobre o processo político um manto de obscurantismo, de atraso, de burrice.
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Eu ousaria dizer que, em 26 anos de existência, o PT não fez ao país o mal que conseguiu fazer em três semanas. Levará muito tempo até que nos curemos dessa estupidez estatista a que a campanha de Lula conduziu o país. Infelizmente, será preciso, como vai acontecer, que seu modelo comece a fazer água para que, desgastada a imagem do Babalorixá, suas bobagens naufraguem com ele. É claro que o povaréu vai pagar o pato. Antes disso, ele vai fazer muita besteira. A renegociação da dívida dos Estados, com a qual ameaça, é uma das possibilidades.
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Lula vai tentar ainda outras aventuras. O laboratório das maluquices petistas pode muito bem ser a reforma política. O homem que, em 2002, se comprometeu com a Carta ao Povo Brasileiro, em que jogava no lixo, ainda bem!, 22 anos de militância, desta feita, não quis assinar um documento negando que pretenda fazer a constituinte exclusiva. Não! O objetivo das oposições não pode ser depor Lula — não que faltem motivos; é que Márcio Thomaz Bastos não permitirá o surgimento de provas. O objetivo das oposições tem de ser fazer valer a legalidade, reconquistando a parcela do eleitorado de classe média que voltou para os braços de Lula porque não se sentiu devidamente representada. E, sobretudo, a tarefa de quem quiser apear o PT do poder tem ser a denúncia da infiltração petista em todas as esferas da vida social.
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PSDB, PFL e quem quer que venha a fazer oposição têm de ter a coragem de ter uma agenda que confronte o petismo. Até quando forem reféns desse estúpido militantismo, serão seus meros caudatários. É preciso fazer a guerra de valores. Que não foi feita ao longo de quatro nos. E criar uma núcleo de Inteligência nas oposições (não à moda Lorenzetti, como já disse). FHC sabe disso. Marco Aurélio e Tarso Genro sabem que ele sabe. Por isso tentam desqualificá-lo. De todo modo, os nossos inimigos e adversários também dizem muito de nossa qualidade, não é mesmo? Assim sendo, FHC está muito bem. Talvez ele ande pensando mais longe do que supõem os petistas. Eu acho que anda.

A Educação de marcha-ré

Falta de pré-escola põe Brasil na 72ª posição em educação

BRASÍLIA - Relatório preparado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) mostra que o Brasil tem de percorrer ainda um bom caminho para atingir as metas do Programa Educação Para Todos. O programa, um compromisso firmado por vários países em Dakar, no ano 2000, é composto por seis metas de educação, que em tese devem ser atingidas até 2015. Dos 125 países avaliados, 47 já atingiram as propostas.

O Brasil está no grupo intermediário, composto por 50 integrantes. E no ranking de desempenho, ocupa a 72ª posição. Bem atrás, por exemplo, do México, 48ª colocado, e da Argentina, que está no 50º lugar. Também está atrás da Indonésia, Venezuela e Panamá. O relatório mostra ainda estagnação do País na área. Em 2003, o País apresentou o mesmo índice de cumprimento de metas.

No documento, divulgado ontem, a Unesco faz um alerta para todos os países: é preciso ampliar de forma significativa a oferta de uma rede de educação para crianças em idade pré-escolar. O levantamento mostra que metade dos países não dispõe atendimento para estas crianças. Tal constatação torna difícil o cumprimento da primeira meta do programa, considerada pelos especialistas como uma das mais importantes do compromisso.

O relatório mostra que o número de crianças brasileiras na pré-escola aumentou. Entre 1999 até 2004, a porcentagem de crianças de 4 a 6 anos assistidas passou de 58% para 68%. O índice melhorou, mas está atrás de países como Argentina, que têm 100% de suas crianças freqüentando cursos pré-escolares.

Integrantes da Unesco estão convictos de que um sistema integral de acompanhamento na idade pré-escolar é passaporte eficaz para garantir boa qualidade de vida para crianças, e, principalmente, uma política de redução de pobreza. Pesquisadores lembram que todos os dias, em países em desenvolvimento, 10 milhões de crianças morrem em conseqüência de doenças para as quais há prevenção. Apesar do impacto positivo em todos os indicadores sociais, poucos são os países que investem na educação pré-escolar.

Ainda de acordo com o estudo, menos de 10% do orçamento público para educação foi destinado à educação pré-escolar em 65 dos 79 países analisados neste quesito. Quase metade dos países aplicava menos de 5%.
Embora o desempenho dos países no cumprimento da primeira meta seja decepcionante, o relatório indica avanços - mesmo que em velocidade abaixo do desejado - na área da educação. Atualmente, 77 milhões de crianças no mundo estão fora da escola. Mas este índice já foi pior. E pelos cálculos da Unesco, vem sofrendo uma redução de 4% ao ano.
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COMENTANDO A NOTICIA: Cristovam Buarque nem no segundo turno concorreu, mas a sua insistência na prioridade que deve dar ao ensino no Brasil, principalmente o fundamental, cada vez mais faz sentido. E vejam, que apesar de todos apregoarem que a educação é o primeiro passo que qualquer governante decente deva dar em seus programas prioritários de governo, a população não cravou mais do que 3,0% no discurso da educação. Mal, muito mal sintoma. Significa dizer que o povo brasileiro não tá nem aí se tem ou não educação. E isto é a maior e mais contundente crítica que se deve fazer ao presidente Lula, e por duas claríssimas e indiscutíveis razões.
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A primeira, porque criminosamente Lula passou seu primeiro mandato pregando que para vencer na vida não se precisa de estudo. Glamourizou ao máximo a falta dele, a ignorância nunca foi tantas vezes elogiada. Como se faz para incentivar a juventude a estudar com mais afinco e determinação, buscando mais e mais qualidade em sua formação, se o presidente cretinamente se expressa nestes termos ?
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Segundo, porque continuamos na contra-mão do mundo civilizado, como já demonstramos aqui, recentemente, numa série de quatro artigos específicos sobre educação, ou seja, investimos muito em ensino superior, e muito pouco em ensino fundamental. Os países que experimentaram uma revolução em educação, com total êxito, Coréia do Sul apenas para lembrar, são hoje nações desenvolvidas e de crescimento vertiginoso. Qualidade de vida, tecnologia, progresso, aumento de renda. Tudo o de que precisamos e estamos ainda distantes.E de nada vale os PRO-UNI que nada mais são do que investimento de baixa qualidade, em universidades de menor qualidade e competência ainda. Escola ruim forma alunos ruins.
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E o resultado acima é demonstrativo de que aqui não se está fazendo discurso vazio. Vazia é a cabeça oca de governantes que por absoluta ignorância, má fé e incompetência, tentam provar ao contrário. A prova provada está no fato de que ano a ano estamos caindo no ranking em que se comparam alunos de diferentes países. Vergonhoso ? Sim, mas e daí, Lula foi eleito com 60% dos votos. E de um eleitorado, pelo que se vê, que não está nem aí para educação. Então, enterre-se o Bolsa Escola, e loas ao Bolsa Família !!!! Patético, para dizer-se o mínimo. Louvemos a mediocridade nacional, cada vez mais medíocre, cada vez mais ignorante. E o cara acha que nestas condições, apenas por um passe de mágica, o Brasil agora deixará de ser emergente para "inserir-se no mundo civilizado"? Trágico país desgovernado por um imbecil destes !!! Ou será que assim fica mais fácil comprar seus votinhos e se manter no poder ? É, a filosofia do “coronel” nordestino parece fazer parte de seu DNA. E tome bolsa esmola, povo pobre ! E todo poder para o marginal delinqüente que se arvora e posa de estadista !!! Pobre povo brasileiro, enganado mais uma vez !

A esperança viaja para 2010

Pedro do Coutto
Publicado na Tribuna da Imprensa


Os resultados das eleições presidenciais deste ano, já consolidados mesmo antes das urnas, garantem a reeleição de Lula por ampla margem de votos e, na realidade, como observa Elena, minha mulher, são praticamente idênticos aos do pleito de 2002. Os jornais de quarta-feira publicaram a mais recente pesquisa do Datafolha apontando 58 para Luís Inácio da Silva e 37 para Geraldo Alckmin. Assim, como também se constata, apenas 5 por cento dos eleitores e eleitoras permanecem indecisos ou dispostos a anular o voto. Uma das menores taxas da história, da redemocratização de 1945 aos dias de hoje. Considerando-se somente os votos válidos, o presidente da República alcança 61 por cento contra 39 pontos do ex-governador de São Paulo.

No segundo turno de quatro anos atrás, Lula derrotou José Serra por 62 a 38. O panorama político, quando à essência do confronto entre a posição assumida por Lula e a que sintetiza o PSDB, que não se livrou de FHC, permanece o mesmo, apesar das tempestades - várias - que desabaram sobre o Palácio do Planalto. Os maremotos afundaram o PT, mas preservaram intacta a imagem eleitoral de Luís Inácio da Silva.

Ele possui uma força intrínseca extraordinária, os fatos tornam isso inegável. O presidente da República superou os desastres chamados José Dirceu, Ricardo Berzoini, José Genoíno, Delúbio Soares, Duda Mendonça, Sílvio Pereira, mais recentemente Freud Godoy e Jorge Lorenzetti. Superou o falso aliado Aloísio Mercadante. Resistiu incólume à bomba lançada contra o governo por Roberto Jefferson. O ex-deputado do PTB até, indiretamente, o ajudou a livrar-se dos falsos amigos, que são eternos.

Lula segue firmíssimo para o novo mandato que conquistará nas urnas de domingo, depois de amanhã. Faltam apenas 48 horas para receber uma nova e maciça confiança popular. Estas eleições, de outro lado, desapontam muitos daqueles que são apresentados na televisão como cientistas políticos.

Previram um número muito grande de votos nulos e brancos.

Não vai acontecer isso. Se fosse alto, acentuaria um grau de desinteresse por parte do povo. Ao contrário, o interesse é muito elevado. Os números das pesquisas, inclusive do Ibope, estão aí. Vários cientistas achavam também que a abstenção seria expressiva. Nada disso. É a mais baixa ao longo do tempo. Foi, em média, de 16 por cento no primeiro turno. Na verdade, significa uma taxa pouco maior que zero. Pois temos que levar em conta - como já escrevi - que o último cadastramento foi efetuado em 1986, portanto há duas décadas. E o índice de mortalidade, de acordo com o IBGE, é de 0,6 por cento ao ano. Entretanto, não podemos esquecer as pessoas hospitalizadas em todo o Ppaís e aqueles acometidos de doenças graves, imobilizantes. A abstenção voluntária quase não existiu no primeiro turno e será das mais reduzidas no segundo.

Em termos eleitorais, Lula mantém forte sintonia com os grupos sociais de menor renda e possui boa penetração nas classes médias e também nas ricas. Estas não pesam quase nada em matéria de botos. Influem muito, isso sim, nas decisões econômicas nacionais. Desconfiavam de Lula, no passado. Hoje, não duvidam mais. O presidente da República é, aí sua maior vantagem, no fundo um conservador, mas é interpretado como reformista. Esta dualidade é fundamental para o seu destino político.

Não apresenta qualquer risco para a riqueza. Não tentou, e difilmente tentará, mudar o perfil da distribuição de renda. É neste ponto que os interesses sociais poderiam se chocar. O não reajuste dos salários, especialmente do funcionalismo público ao nível da inflação, hoje, é a tradução moderna da mais valia marxista do século dezenove.

Não haverá mudanças no que se refere à transferência de renda do capital para o trabalho. As cestas básicas do Bolsa Família são uma transferência do capital estatal para a pobreza. Não do capital privado. A participação do trabalho na forma do PIB - como descobriu o economista Claudio Contador em 89 e Antônio Houaiss e eu colocamos no livro "Brasil, O fracasso do conservadorismo" - permanecerá restrita a um terço. A remuneração do capital vai permanecer na escala de dois terços. O nosso Produto Interno Bruto está em torno de 800 bilhões de dólares.

Nos Estados Unidos, para um PIB de 12 trilhões de dólares, um terço do que se produz e fatura no mundo, a massa salarial pesa 60 por cento, a remuneração do capital 40 por cento. O funcionalismo público federal, estadual, municipal americano recebe a cada doze meses 1 trilhão e 560 bilhões de dólares. É quanto custa a máquina estatal no país do capitalismo. Os salários nos Estados Unidos impulsionam a economia para o alto. No Brasil, conduzem para baixo, reduzindo o consumo. Esta a diferença essencial.

O Produto Interno brasileiro sobe pouco porque os vencimentos perdem para a taxa inflacionária. Sem dúvida, ao que tudo indica, vão continuar perdendo. O conservadorismo conseguiu ocupar o quadro político com bastante intensidade. Triunfou. As urnas de 2006 vão passar com o vento e não mudarão nada. A esperança, pois sem ela não se vive, fica transferida para 2010.

Lula na área de risco

Por Villas-Bôas Corrêa
Publicado em A Voz da Serra

Ao assumir oficiosamente o pódio de presidente reeleito para o segundo mandato, o candidato Lula deu a campanha por encerrada, dispensou o resultado das urnas de domingo e começou a adotar as primeiras medidas, no pleno exercício de vencedor, seja nas comemorações ruidosas do sucesso ou em gestos de reconciliação com o bom senso.
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Do lado bom do deslumbramento – que é o que necessitamos enxergar para o reencontro com a esperança – destaque para a declaração de Lula anunciando o armistício com a oposição e a suspensão das hostilidades com o seu antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o seu efetivo adversário nos comícios, entrevistas e debates.
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Pela novidade da mensagem conciliatória, convém reler, na forma original, o recado de Lula na entrevista à Rádio Gaúcha, de Porto Alegre: “Eu não quero mais ficar comparando com o Fernando Henrique Cardoso, porque nos nossos quatro anos já batemos muito neles. Ou seja: agora eu quero comparar comigo mesmo”.
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Com a ressalva ao dispensável desdém que macula o aceno de pacificação, Lula curva-se à evidência do novo desafio que se apresenta para os quatro anos da reeleição. A carga de responsável pelos erros e fracassos alivia as costas do antecessor e passa para o agraciado com a consagradora reeleição, por mais de 20 milhões de votos de diferença.
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Já e já, como prioridade absoluta que relega para segundo plano os contactos com a oposição para o acerto do esquema de governabilidade, o reeleito invade a área de risco das articulações para a remontagem do governo. As elementares características da reeleição facilitam a reforma da equipe ministerial e de seus apêndices cobiçados, como a presidência da Petrobras, que vale por três ministérios na bolsa das apostas.
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Mas, entre os muitos complicadores a considerar nas obras para o reajuste do time, não deve ser desprezada a inabilidade presidencial na escolha de auxiliares. Basta correr os olhos na lista dos despachados por envolvimento da série de escândalos de corrupção, que rondaram o gabinete do presidente sem que ele de nada soubesse, fosse informado ou sequer suspeitasse no alheamento da angelical boa-fé e no pouco interesse pela rotina tediosa da administração.
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Se errou feio na escolha de companheiros do PT e não conseguiu conter a invasão em massa aos milhares de postos de sedutora remuneração, sem concurso ou qualquer exigência, as coisas se complicam quando tiver que conciliar as reivindicações dos aliados com a redução da cota dos que se aboletaram na nata açucarada e se organizam para resistir às ordens de despejo.
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Entre os ex-desafetos e recentes aliados, a fatia do PMDB que apostou na dezena sorteada não deixa a mais remota dúvida quanto às suas pretensões e as cobranças dos compromissos assumidos. E na mistura do joio e do trigo, uma turma da pesada não fará abatimento no acerto de conta.O monstrengo ministerial não agüenta novas divisões de tabiques para a acomodação dos hóspedes que socam a porta. Cortar enxúndias para agilizar a emperrada máquina administrativa está fora de cogitação. Nem será surpresa se mais dois ou três ministérios ou secretarias forem criados para instalar os novos inquilinos.
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A badalação da vitória, com milionária votação recordista, abafará os ruídos dos esbarrões e cutucadas na briga na zona de risco. E a oposição, abatida pela derrota, desempenhará o seu papel sem entusiasmo e com graves atritos internos.
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Mas trégua e festa são passageiras. A nuvem política muda a cada vez que se olha o céu.

Melhor, mas pior que os demais

Com reportagem de Cíntia Borsato
Publicado na Revista Veja


O Brasil progrediu muito nos últimos anos, mas seus concorrentes
avançaram ainda mais.

Foram muitos os avanços da economia brasileira nos últimos anos. As exportações dobraram, as reservas internacionais nunca foram tão altas, a dívida externa deixou de ser motivo para dor de cabeça e a inflação recuou a níveis civilizados. Esses avanços afastaram o risco de colapso financeiro criado pelo debate eleitoral de 2002 e hoje permitem ao presidente Lula dizer, com razão, que o país apresenta uma combinação rara de fatores econômicos positivos. O país está melhor. Mas só se o compararmos a ele mesmo – espartilho característico do debate econômico brasileiro. No cotejo internacional, o Brasil está ficando para trás. Nos últimos quatro anos, os países em desenvolvimento progrediram em um ritmo superior a 7% ao ano, enquanto, no Brasil, o PIB não avançou mais do que 3%. O país caminha ainda mais lentamente em questões essenciais a seu desenvolvimento: produtividade, competição e conhecimento. O Brasil perdeu posições nos rankings de competitividade e liberdade econômica (veja quadro), o que se traduz em perspectivas piores para o investimento e o crescimento. A economia brasileira permanece uma das mais fechadas do planeta: sua participação no comércio internacional segue ínfima, em torno de 1% das transações.

Como recuperar posições na corrida global do desenvolvimento? Existe um consenso há muito estabelecido sobre o que precisa ser feito – menos impostos, menos gastos do governo com o conseqüente corte acentuado de juros e atração de investimentos. Essa agenda de formulação simples sempre encontra grossa artilharia política pela frente. Enquanto se marcha para as reformas do Estado, quatro iniciativas emergenciais amenizariam a situação:

• abrir mais a economia e buscar novos acordos comerciais, principalmente com os países ricos e desenvolvidos;
• diminuir a burocracia e oferecer regras claras aos investidores;
• investir em educação de qualidade – e não apenas em quantidade;
• reduzir os gastos de custeio da burocracia.

Para aumentar a fatia no bolo internacional, o país precisará buscar novos tratados comerciais e ampliar ainda mais o valor agregado de seus produtos. Há dez anos, apenas 5% das vendas brasileiras ao exterior eram de produtos de alta tecnologia, e hoje esse índice é de 17%. No entanto, concorrentes diretos do Brasil vendem produtos com muito mais valor agregado. Nas exportações chinesas, 30% são mercadorias de alto conteúdo tecnológico; nas da Coréia do Sul, 33%; e nas de Cingapura, 59%. As exportações brasileiras ainda são dominadas por itens básicos, como minério de ferro e soja em grão. Para mudar isso, é imprescindível um sistema educacional baseado na aferição de resultados e na recompensa ao mérito. Só isso produz e atrai tecnologias e investimentos. Não é o que tem ocorrido. Os investimentos no setor produtivo, que crescem a todo vapor no resto do mundo, despencaram no Brasil. Em 2000, as empresas estrangeiras despejaram 33 bilhões de dólares no país, na aquisição de empresas ou na ampliação de suas subsidiárias. Foram esses recursos que modernizaram a telefonia e popularizaram a internet. Em 2006, no entanto, as estimativas indicam que os investimentos ficarão em torno de 15,5 bilhões de dólares, um quarto do total recebido pela China.

Além de receber menos capital produtivo, o país passou a ser grande exportador de investimentos, uma situação inédita. Em 2006, pela primeira vez, o total investido lá fora pelas empresas brasileiras deverá ser superior ao montante recebido do exterior. Por que as companhias brasileiras acham melhor se expandir no mercado externo e não aqui dentro? A resposta tem diversos componentes. Com o avanço externo, as empresas brasileiras ganham acesso a novos mercados, tornam-se mais competitivas e obtêm receitas em moeda forte, com as quais podem crescer realizando aquisições. Em outras palavras, elas buscam um ambiente de negócios menos adverso que o brasileiro. Diz Álvaro Cyrino, especialista em internacionalização, da Fundação Dom Cabral: "As empresas precisam de escala e acesso a mercados. Se não se lançarem ao exterior, correm o risco de perder espaço e ser compradas por concorrentes" (veja reportagem sobre a Vale do Rio Doce na pág. 88).

Não foi só em busca de escala que as companhias brasileiras se aventuraram no exterior. Elas deixaram o país também para reduzir sua exposição à carga tributária monstruosa, ao baixo crescimento e ao fechamento comercial. Foi o caso da têxtil Coteminas, do vice-presidente José Alencar, que se uniu à americana Springs e estuda abrir fábrica na China. Ou da Gerdau, que já adquiriu diversas siderúrgicas nos Estados Unidos, no Canadá e na América do Sul. Tudo isso seria salutar se o país continuasse recebendo um volume adequado de investimentos estrangeiros. Mas não é o que ocorre. Por esse motivo, torna-se imperioso que o Brasil aprimore o ambiente de negócios, corte a burocracia e reduza os impostos. Nesse quesito, o país tem piorado muito não só com relação ao mundo, mas também a si próprio. Exemplos dessa deterioração são o enfraquecimento e o aparelhamento político das agências reguladoras verificados nos últimos quatro anos.

A história de sucesso dos asiáticos apresenta outra característica negligenciada no Brasil: o investimento em educação. Sem trabalhadores qualificados, ficam limitadas as perspectivas de desenvolvimento. Apesar da melhora no acesso, a qualidade do ensino brasileiro permanece precária. O país investe bem menos que os asiáticos na educação básica, algo que precisa mudar com urgência. Diz o economista Ilan Goldfajn, da PUC-Rio: "Os juros estão em queda, e o Brasil deverá começar a crescer mais rápido nos próximos anos. Quando isso ocorrer, não poderá faltar mão-de-obra qualificada". Por fim, o país não poderá se esquivar da tarefa de fechar as torneiras da gastança pública, sem o que será impossível reduzir os impostos. Para o economista Paulo Leme, do banco americano Goldman Sachs, o problema é que os políticos brasileiros, especialmente os petistas, insistem em defender um Estado "grande", não necessariamente "forte". Conclui Leme: "Eles querem distribuir uma riqueza que ainda nem foi gerada". Ou, como expôs a revista inglesa Economist em sua última edição: "Será difícil curar a síndrome de Estocolmo no Brasil, um Estado que mantém a economia como sua refém".

Votando sem saber no quê

COMENTANDO A NOTÍCIA: Sob o título acima, o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, publicou um editorial dias antes da eleição de segundo turno e que entendemos oportuno reproduzi-lo, mesmo diante do resultado conhecido, para se poder entender o próprio resultado final que reelegeu Lula. No discurso que fez após a proclamação do resultado que lhe garantiu mais quatro anos no poder, Lula afirmou que o país saiu do pleito mais unido do que nunca, e nesta mesma linha, há um artigo publicado pelo Tribuna da Imprensa. Tal afirmação, contudo, não encontra eco na leitura do resultado quando visto de que forma os votos se dividiram entre os eleitores. Há uma clara divisão da sociedade brasileira, sim. Negar isto não apenas se conduz a um engano de análise brutal, como também se vestirá com o manto da hipocresia que há muitos Brasis separados entre si, e que se acentuaram não apenas na campanha movida pelo PT para que tal ocorresse. Mas durante todo o primeiro mandato, o presidente Lula fez questão de manter esta divisão, pois entendia que ela lhe asseguraria a renovação do próprio, como de fato aconteceu.
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Unir esta sociedade verde-amarela, não será obra nos próximos quatros anos que se verá como esforço central de Lula. Ele ainda sustentara que hegemonia petista somente se consolidará se ele mantiver pobres de um lado ricos de outros. Norte/Nordeste de um lado, Sul/Sudeste de outro. Classe branca burgueza de um lado, classe negra e mestiça da mesma burguesia de outro. Este jogo é perigoso, conforme temos alertado sucessivamente. Como superar este cisma ? Dependerá do que deixarmos de fazer em termos de reformas que estão na agenda do país, e da qual Lula extrairá suas prioridades. Porém, se não buscar o caminho da união, abrirá uma alternativa de poder, que para ocupá-la exigirá das oposições uma enorme capacidade de entendimento do momento socio-político brasileiro e das aspirações que acabarão saltando desta segunda via. O perigo é a oposição achar que bastar acenar umaa rota alternativa para ser saudada pela sociedade. Engano, exigirá clareza, propostas, centrar-se em uma ideologia transparente de liberdade diferente do clientelismo pelego do PT. E mais do que nunca união e organização. Sem isto, o país continuará mergulhado na divisão de seu povo, e em situações semelhantes, a história já nos deu exemplos suficientes de que se ficará a um passo do autoritarismo, do populismo desenfreado, cujo destino é sempre o do atraso, retrocesso mesmo, mediocridade e barbárie. Quanto mais clara e forte soar a alternativa ao PT mais a sociedade se fará receptiva. E aqui, deixe-se de lado as vaidades e ambições pessoais e políticas. O que estará em jogo é abrir o Brasil para o mundo, insiri-lo na modernidade, no progresso cultural acentuado de seu povo, no leque de oportunidades que somente países livres se podem permitir a oferecer.
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Votando sem saber no quê

Editorial em O Estado de São Paulo

A eleição presidencial de hoje - a sétima desde o fim do regime militar, incluídos os segundos turnos - é mais um alicerce sobre o qual se amplia o edifício da democracia brasileira. Apesar de tudo o que há para ser melhorado nessa edificação - a começar da questão pantanosa do financiamento das campanhas, sobretudo no que toca à escolha do chamado supremo mandatário -, não temos do que nos envergonhar diante de nenhum outro país do mundo: a eleição é fiscalizada por um tribunal íntegro e independente, transgressões das regras da propaganda são punidas, o acesso às urnas é universal e desimpedido, as apurações são corretas e os resultados, inquestionáveis. Não é pouca coisa para um país cujo último ciclo ditatorial durou o mesmo tempo que o atual período de pleno funcionamento das instituições democráticas.
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Mas a sucessão que hoje se decide contém ao mesmo tempo duas características peculiares, das quais não se pode dizer que contribuíram para a purificação do voto popular - definido como o ato de decidir entre os candidatos a partir de critérios objetivos, baseados, por sua vez, em um conhecimento minimamente suficiente de suas propostas para resolver os problemas que desafiarão o vencedor. A primeira característica deste confronto é que, a rigor, confronto foi o que menos se viu nesses meses. É verdade que a reeleição é, sempre e antes de mais nada, um plebiscito sobre o desempenho do incumbente: a escolha posta ao eleitor é entre mais do mesmo ou um novo rumo. Ainda assim, não se esperava que esse padrão se impusesse como se impôs.
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Já no primeiro turno, com quatro nomes em princípio competitivos e quatro figurantes, se tanto, tudo girou em torno de um só candidato - o presidente Lula. Pode-se afirmar com segurança que a grande maioria dos cerca de 105 milhões de eleitores do 1º de outubro saiu de casa para votar em Lula ou contra ele - e uma parcela substancial dos sufrágios dados a Heloísa Helena e a Cristovam Buarque visava simplesmente a adiar por um mês a decisão, levando-a para o tira-teima de hoje. Agora, é ocioso especular como teria transcorrido a campanha se o candidato de oposição fosse José Serra, mas não é de todo improvável que ela se assemelhasse mais ao segundo turno de 2002, quando o atual componente plebiscitário foi muito menos marcante (embora também naquela eleição a tática petista fosse transformar a eleição em um julgamento do governo Fernando Henrique).
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Desta vez, Lula partiu para a reeleição tendo três trunfos na mão: a sua personalidade, as suas realizações e os erros dos adversários. Personalidade, no caso, significa mais do que carisma e talento incomum para se comunicar com o povo no comprimento certo de onda. Significa também associar de forma inextricável, na percepção do eleitor, atributos pessoais e biografia. Comício após comício, era como se dissesse: eu sou o que sou porque vim de onde vim. São dezenas de milhões os eleitores que se espelham na sua origem e, ao ouvi-lo, refazem mentalmente a própria trajetória. Com esse formidável patrimônio e plena disposição para pôr a história de ponta-cabeça, Lula levou legiões de brasileiros a crer que as suas realizações econômicas e sociais resultaram da rejeição do que fazia “o governo das elites” - e não da adesão à política fiscal que derrubou a inflação, beneficiando os mais pobres em primeiro lugar.
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Em eleições, vale o que parece - e, para a maioria do eleitorado, ficou parecendo que a oposição nada tinha a lhe oferecer além do “samba de uma nota só” da moralidade política. O terrorismo de rotular o tucano Geraldo Alckmin como privatista e a sua incapacidade de sair da defensiva fizeram o resto. Complementa o aspecto negativo da sucessão a sua segunda característica, referida no segundo parágrafo deste texto. Os candidatos tiveram todas as oportunidades - entre elas, uma oferta sem precedentes de entrevistas e debates na reta final da campanha - para falar do que mais interessa: os entraves ao crescimento e as decisões impopulares que precisam ser tomadas para removê-los. Lula, por falsear a amarga realidade das finanças do setor público, e Alckmin, por se esquivar do assunto, como que se uniram para produzir a grande fraude da temporada - a interdição, na campanha, do tema do qual tudo mais depende.
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Em conseqüência, a grande maioria dos eleitores vota hoje sabendo nada ou quase nada do que está para atingi-la amanhã ou depois.

Neoliberal, quem?

por Carlos Alberto Sardenberg
Instituto Millenium

O presidente Lula acusa o tucano Geraldo Alckmin de “privatizador” e espalha por aí que ele pode até vender o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobrás. Alckmin sustenta que isso é uma mentira e uma calúnia.
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Assim, a privatização entrou no debate eleitoral mais ou menos como satanás em uma igreja. E entretanto, basta dar uma olhada por aí para encontrar fartos argumentos a favor da privatização.
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Nos escândalos produzidos pelo governo Lula – valerioduto, mensalão, compra do dossiê – sempre aparece o Banco do Brasil. Começou lá atrás, quando a instituição comprou ingressos para um show de arrecadação de fundos para o PT. Depois, o BB apareceu como cliente das agências de Marcos Valério, tendo um de seus diretores, responsável pela propaganda, como destinatário de um pacote de dinheiro vivo. Agora, um outro diretor do banco, Expedito Veloso (e diretor de Gestão de Risco!) , aparece como operador na tentativa de compra do tal dossiê.
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Expedito estava de férias quando atuou na operação, um outro diz que não sabia de nada e os ingressos se destinavam a clientes vip, mas terminou que todos foram afastados de seus cargos, inquéritos estão abertos. Se não era nada, não precisaria disso, não é mesmo?
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Essas atuações de dirigentes do PT acomodados em diretorias do maior banco do país levantam uma enorme suspeita. Banco é coisa séria, mexe com o dinheiro dos outros e, no caso, com recursos e interesses públicos. Tem que ser e parecer uma fortaleza de credibilidade. Mas o BB parece estar a serviço do governo Lula e do PT.
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Se diretores se metem em jogadas tão escandalosas, e primárias, a gente tem o direito de pensar: o que mais estarão fazendo?
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É verdade que o BB é uma sociedade anônima, tem ações em bolsa, presta conta aos reguladores do mercado. Mas é difícil, praticamente impossível apanhar desvios em gastos com publicidade, como já se viu. Além disso, é possível que a instituição seja levada a fazer operações de risco inaceitável apenas para atender políticas e planos do governo, como emprestar para setores, empresas e pessoas não qualificadas tecnicamente.
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Dirão que estamos exagerando nas suspeitas. Mas foi exatamente assim que quebraram os bancos estaduais, inclusive o Banespa, deixando uma conta para o contribuinte de mais de R$ 40 bilhões.
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É ou não um poderoso argumento a favor da privatização? A própria democracia está em jogo se o maior banco do país pode ser utilizado a favor dos governantes do momento.
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E o caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, crime praticado pelo mais alto dirigente da Caixa Econômica Federal? De novo, se fizeram isso, algo tão tosco e primário, o que mais estarão fazendo?
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O PT sempre se opôs às privatizações, assim como, para dar um exemplo do lado tucano, o falecido Mario Covas. O argumento era o mesmo: governantes sérios e honestos colocariam as estatais nos trilhos. Mas a democracia, como temos visto por aqui, não é garantia de que não serão eleitos corruptos, mal intencionados ou apenas incompetentes. E podem se eleger governantes para os quais as estatais estão aí para isso mesmo, para servirem ao programa de seu partido.
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Não pode ser assim. Deveriam estar a serviço de interesses nacionais, reconhecidos por todos. Difícil definí-los? Mais difícil ainda distinguí-los dos objetivos partidários? Certamente e é por isso mesmo que a privatização é uma boa idéia.
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Alguns dizem que não é possível fazer política econômica sem controlar grandes bancos. Bobagem. Há países que não têm bancos estatais comerciais e funcionam muito bem, a começar pelos Estados Unidos, onde, aliás, a regulação bancária é mais rigorosa.
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Mas não, a privatização não emplaca por aqui. É acusação.
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Sabem por que? É que não se trata de uma plataforma apenas da esquerda. O centro e a direita, criados na cultura de obter tudo do Estado, também precisam de estatais para atender ao interesse de suas clientelas, que vai desde empregar os correligionários até gastar dinheiro e investir ali onde se tem votos, isso para não falar de outras práticas. A novidade do governo Lula foi mostrar que, nisso, a dita esquerda republicana é igualzinha à direita fisiológica.
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E ainda dizem que isso aqui é neoliberal.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Lula reeleito, e daí ?

Pois é, e daí ? Como ler uma reeleição de um presidente com quatro anos de intensa corrupção nas costas ? Mas e o povo, votou em quê afinal, na ética, ou no bolso ? Na verdade, o país continua o mesmo. Produzimos bem menos riquezas do que poderíamos, mas quem se importa ? No ano que vem poderemos ter escassez em algum itens e inflação em outros. Mas quem faz esta leitura dentre os milhões de assistidos pelo Bolsa Família ? Quantos ali vão além do jantar de logo mais ? Para entender este resultado de hoje, extraio do artigo de Sérgio Bermudes, sob o título “Miséria moral” dois parágrafos que entendo eloqüentes e que nos fornece uma leitura de fácil digestão, para compreender a reeleição de Lula.
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“A democracia revela-se também imperfeita, quando admite o processo eleitoral, não apenas pela exposição do currículo enxuto dos candidatos, por suas qualidades e competência, pelo programa (dá-lhe, velha UDN) do seu partido. Jingles, plumas e cores aproximam o processo democrático da publicidade comercial, capaz de confundir ou enganar.
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As maiores fraquezas da democracia, como sistema ou método de governar, para o qual nunca se encontrou substituto, são a possibilidade de exploração da credulidade e da esperança; pior, da miséria do eleitor e os resultados a que pode levar, negando, por incrível que pareça, a sua própria substância; a sua finalidade institucional. Não há remédio capaz de erradicar esses vícios, que minoram com o passar dos tempos, como naquela anedota do verde dos gramados ingleses, que só chegaram à cor exuberante decorridos séculos. É claro que muito se fará, suprimindo-se os estágios de evolução do processo democrático pelos meios disponíveis, um dos quais a legislação e a correta aplicação dela.”
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Mas não somente a lei, o aperfeiçoamento do aparato jurisdicional, mas, acima de tudo, a educação e o acesso universal à informação é que se tornam as vacinas eficazes e capazes de erradicar alguns destes males e reduzir-se os riscos da má-escolha por indução enganosa da publicidade. Nos últimos dias e que antecederam este domingo de 29 de outubro, muito se falou de um terceiro turno, ou de um presidente reeleito sob-judice. Primeiro que Lula não está sendo julgado por coisa alguma, ainda. Há sim um inquérito sob o comando da Polícia Federal que ainda resta concluir. Apesar dos pesares, mesmo que esta investigação siga por caminhos um tanto estranhos a uma apuração de aparente normalidade, somente ela é que poderá instruir um provável processo ou não contra Lula. Claro que muito este espaço já falou da indecência como Lula concorreu, principalmente neste segundo turno. Claro que a oposição cometeu erros e acabou incompetente para livrar o Brasil do comando lulista, que ainda entendemos nefasto ao progresso econômico e institucional do país. Não estamos condenando ou recuando um milímetro sequer desta posição. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma, portanto, é a nossa opinião, nosso entendimento feito a partir da leitura de um governo inepto que nos fez retroceder no tempo uns dez anos ou mais. Outra, é colocarem Lula acima da lei. E uma terceira, é querer-se a condenação antes do julgamento. Se comprovada a ação ilegal de campanha na forma e à luz do que determina a legislação em vigor, cumpra-se a lei. Não me venham com este papo-furado de que o povo é soberano. É sim, enquanto os candidatos se mantiverem dentro dos limites do aparato legal. E a democracia é justamente isto. Collor foi eleito pela mesma vontade soberana do povo, nem por isso mesmo deixou de sofrer o processo de impeachment que a lei determinava e ainda determina. E se é para definitivamente comprovar que o povo também erra na sua escolha basta lembrar que Hitler chegou ao poder na Alemanha pela via do ... voto direto. Ele não caiu lá de pára-quedas. Chegou ao poder pela via expressa da democracia. Temos aí duas amostras de que o povo erra sim, e de que, apesar de sua soberana vontade, determina o estado de direito que, se houver cometido crime descrito em lei apontando para o seu impedimento e afastamento, que cumpra-se a lei. Ponto final.
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Contudo, precisamos ainda ler por quais razões Lula se reelegeu mesmo tendo cometido um deslavado terrorismo eleitoral, e tendo seu governo quebrado todos os recordes de irregularidades já vistos em nossa história republicana. Recorremos ao Bermudes, no trecho final de seu artigo:
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Um dos elementos fundamentais da democracia é a igualdade. Dela exsurge, como conseqüência lógica, a prevalência da vontade da maioria, determinante da eleição dos que governam. Dispensam-se teorias para explicar o fenômeno dos governos eleitos. O eleitorado assim quis. É preciso vergar à sua vontade porque o regime democrático funciona desse modo. O povo quer sempre o bom governo, mas é incapaz de assegurá-lo quando elege os governantes. O problema sério da eleição é o direcionamento da vontade popular, que se aceita quando resulta da propaganda eleitoral limpa que enaltece os candidatos, mas exige do eleitor a formulação de um juízo de escolha. Não vale, entretanto, a captação de votos pela demagogia eleitoreira, que os compra barato, “numa” forma hedionda de vilipêndio da vontade. Murilo Mendes diz que o cúmulo da miséria moral é explorar a miséria alheia.”
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Eis aí o contraponto exato do que fez Lula ganhar: abandonando todos escrúpulos capazes de limitar as ações de um político, o petista passou para a sociedade de que a ética não enche barriga. Claro que isto não está colocado desta forma, mas o sentido exato e o tom de toda a sua campanha visou este enfoque. Primeiro, fez a sociedade entender de que todos são iguais. Igual pór igual na seara da honestidade ou falta dela, fique-se com quem já está lá. Nisto, a propaganda transpareceu de que ele não destoou nem um pouco de todos os outros. Em seguida, se era para eleger corrupto, que fosse um que se parece com o povo e com ele dividisse parte do tesouro. Simples ? Sim, sem tirar nem por.
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Claro, que a publicidade empregada aqui teve um excepcional mérito: foi vitoriosa em transmitir uma mensagem e teve o retorno na medida exata do voto recebido. Quem perdeu ? Quem ganhou ? Agora, já não interessa mais saber do dossiê, das cartilhas, dos cartões corporativos, dos superfaturamentos, mensaleiros, sanguessugas, vampiros, valeriodutos, caixa 2, etc. Por que ? Porque agora o batalhão de choque jogará o resultado na mesa e dirá: eis a vontade do povo. Quem irá contra ? E em cima do resultado ainda quente das urnas, quem se aventurará em tentar apear Lula do poder ? Ora, a sociedade já está dividida conforme inúmeras vezes alertamos aqui. Não foi a eleição que promoveu esta divisão, foi o governo de Lula que sempre se esmerou nesta divisão. O Estado foi aparelhado desde antes da eleição de Lula em 2002. Os militantes aos poucos foram se entranhando pelos serviços públicos em todas as direções. Mas isto não elimina os crimes cometidos, nem sua investigação, nem que se identifique os culpados e, após justo julgamento, se condenados, que paguem na forma da lei pelos “erros” cometidos. E este é o esforço que o PT também tentará impor como sendo “vontade das urnas”. Se começar por aí, começa errado e irá mal até o fim.
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Ao liberar o cofres para as entidades sociais e sindicais, Lula também fez alianças importantes e que lhe garantiram a sustentação política necessária para sua voz chegar mais próxima do povão. O resto, a propaganda se encarregou de difundir. Daí porque as mentiras que Lula e seu comitê de campanha se encarregaram de construir e espalhar, chegaram rapidamente em todas as camadas mais necessitadas da população. O medo de perderem o bolsa família tornou a vitória de Lula irreversível.
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Há muito para ser desvendado nas ações de investigação em curso. Mas não acredito que a oposição tentará reverter o resultado das urnas. Acredito que será preferível deixar Lula viver da própria herança que armou desde 2003. As facilidades de governabilidade não serão mais as mesmas de antes. As condições favoráveis da economia mundial também não. O que Lula tentará consolidar é sua conquista eleitoral com a concessão de mais benefícios. Mas não pensem que se oferecerá a porta de saída, não o menor interesse político nesta direção. Contudo, a irresponsabilidade de um mau governo, apesar dos resultados positivos da economia, ergueu uma barreira que para superar, Lula precisará sim trabalhar e muito, afastando-se cada vez mais de seu PT.
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E aqui, os caminhos que ele entende deva escolher serão: ou dá uma total guinada à esquerda, e compromete as conquistas econômicas e causa um rebuliço maluco no mundo todo, correndo altos riscos, ou se mantém conservador e tenta avançar nos pontos básicos receitado pela fórmula do liberalismo econômico. Não há meio termo. Após quatro anos, Lula sentiu o sabor que emana do poder para aqueles que fazem o jogo da elite econômica. Talvez Lula tente equilibrar-se entre um lado e outro como fez no primeiro mandato. Porém sob condições totalmente diferentes das que terá para enfrentar a partir de 2007. Porém, nunca é demais informar que jogamos fora quatro anos de oportunidades excelentes para avançarmos e permanecemos estagnados. E a rigor, Lula não acenou com programas específicos para questões específicas. Há uma certa embromação no seu discurso que alguns poucos percebem. E, a partir do discurso que deu logo após a vitória (e do qual iremos tratar amanhã, assim como o contrato com a Bolívia e as tendências de uma linha governo na área econômica), acredito que tais programas sequer existam. Vamos seguir mais uma vez ao sabor dos ventos, na base da improvisação. Deus queira que dê certo. Mas, antes de se tirar qualquer conclusão apressada, seria conveniente ver que reforma política se tratará logo ai em frente, e quais outras reformas serão privilegiadas nos seus primeiros cem dias de governo. Delas dependerá a sorte do país nos próximos quatros anos. Se na largada Lula não acertar a mão, passará mais quatro anos de suspeitas, de críticas e falta de segurança quanto aos rumos a serem dados ao país. Li hoje alguém escrever que “o Brasil não merece passar por tudo de ruim de novo!”. Será ? Lula não foi escolhido pela vontade soberana do povo ? E de que o povo nunca erra ? Então...certo ou errado, agora não será possível mudar. É com isto que iremos contar até 2010. Se o povo entender que foi traído ou que escolheu de modo equivocado terá a chance de reverter dentro de 4 anos. Talvez seja uma dura lição a ser aprendida. A de que o benefício que o povo recebe de seus governantes, não se trata de nenhum favor: é uma obrigação de todos. E de que Lula não inovou absolutamente nada, ele apenas deu seguimento ao que já existia. Quem acreditou nele como sendo o o salvador da pátria, que fique agora durante quatro anãos tentando explicar para o povo porque não deu certo. Aliás, numa enquete promovida pelo provedor Terra, dentre cerca de 3 mil votos, o resultado foi de que, 60 % acreditam que Lula fará um governo pior do que no primeiro mandato. Coincidência ou não, o fato é que o resultado é semelhante ao do resultado final da eleição, só que invertido. Vá se entender eleições no Brasil !!!

domingo, outubro 29, 2006

Aproveite o celular, Presidente !

Por Augusto Nunes
Publicado no Jornal do Brasil


O presidente da República já informou que, se não fosse Lula, gostaria de ser Juscelino Kubitschek. O destino não permitiu a JK tratar desse assunto, mas a hipótese contrária parece insensata. Ele não desejaria ser Lula. A evidente distância entre ambos ganha dimensões abissais quando o Grande Pastor assume a liderança da vanguarda do atraso e desanda no ataque a medidas que modernizaram o Brasil.
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A privatização de estatais, por exemplo. "Eu não teria vendido as telefônicas", exemplificou Lula ao infiltrar o tema na campanha eleitoral. JK diria que, se a transferência das empresas para a iniciativa privada merece, na forma, alguns reparos, foi exemplarmente acertada no conteúdo.
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A decisão livrou o mamute federal dos tumores disseminados por monstrengos ineptos, gulosos, envelhecidos, envilecidos, condenados à morte por inanição. Até 1997, quase 30 siglas - cabides de empregos para apadrinhados, gazuas manejadas por bandidos amigos - submeteram milhões de brasileiros à mudez, à estática e à extorsão.
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Para escapar das filas medonhas, formadas por interessados na aquisição de linhas fixas, multidões de contribuintes consumiram fortunas em transações pinçadas nas páginas de classificados. A privatização dos feudos odiosos universalizou o acesso ao telefone e encerrou a era do abuso.Caso tivesse vivido para utilizar os pequenos aparelhos hoje ao alcance do Brasil inteiro, JK decerto daria um recado a Lula: "Aproveite o celular, colega".
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Só não recomendaria a imediata suspensão de frases alopradas porque JK, ao contrário do herdeiro, era homem educado. Era gente fina.A polidez o impediria de lembrar ao atual presidente que também a privatização da Vale do Rio Doce foi uma ótima idéia. "Eu não teria vendido", repete Lula. "Principalmente por um preço tão baixo". O preço, como ocorre nos leilões públicos, resultou das leis do mercado.
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O valor da empresa acusou saltos extraordinários justamente por ter sido privatizada. "Se a Vale tivesse continuado estatal, hoje não seria a segunda maior siderúrgica do mundo, mas uma empresa a ser comprada", resume o economista William Eid, coordenador de um bem-vindo levantamento produzido pela Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas.
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O estudo avisa que a Vale, como quase todas as outras estatais privatizadas, tornou-se bem mais eficiente, lucrativa e financeiramente saudável. O investimento programado para este ano, por exemplo, soma US$ 4,6 bilhões. É 10 vezes superior ao registrado em 1997. Ganhou o governo, que passou a receber impostos antes sonegados. Ganharam os acionistas, agora beneficiados por lucros substanciais. E ganharam os trabalhadores. Os funcionários da Vale eram 11 mil no ano da privatização. Hoje, passam de 44 mil. Lula talvez não saiba disso. Ele nunca sabe de nada.
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Sim, o presidente é incapaz de poupar a lógica e a sensatez. Deveria ao menos poupar JK.

Campanha permanente.

Por Dora Kramer
Publicado em O Estado de São Paulo

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As eleições dominaram o cenário durante quase todo o 1º mandato de LulaFormalmente, terminou ontem a campanha eleitoral. A mais longa da história, pois a disputa eleitoral prevaleceu sobre qualquer outro assunto e serviu de pano de fundo a todos os debates durante praticamente todo o mandato do presidente Luiz Inácio da Silva.
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Lula nunca desceu do palanque onde passou a vida toda e isso ficou muito bem demonstrado por seu estilo discursivo de governar, com grande apreço a pronunciamentos - não raro dois ou três por dia - e aversão a entrevistas e questionamentos em geral. Em quatro anos, só deu uma entrevista coletiva - contrariando prática comum nas democracias - e só se dispôs ao contraditório quando lhe interessou: agora, no segundo turno da campanha pela reeleição.
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A oposição, por sua vez, resolveu subir no palanque quando começaram a aparecer os escândalos de corrupção. PSDB e PFL, que no início não viam chance de voltar ao poder tão cedo, passaram a considerar fortemente a hipótese de Lula não se reeleger.
Contribuiu para a animação oposicionista a vitória do PSDB em São Paulo, com José Serra, e a derrota imposta ao PT no Rio Grande do Sul, com a eleição de José Fogaça para a prefeitura de Porto Alegre, depois de 16 anos de administrações petistas.
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Em dezembro de 2005, um ano marcado por adversidades, a oposição vislumbrava a vitória na sucessão presidencial quase que como uma certeza.
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Lula vivia seu período de popularidade mais baixo.
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Em março, com o presidente já em franco estado de recuperação, o PSDB escolheu para disputar com Lula seu candidato menos competitivo. Ficou com Geraldo Alckmin porque, como diz agora a campanha do PT, não quis trocar o certo pelo duvidoso e optou por garantir o governo de São Paulo, com José Serra.
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Se ganhasse a Presidência com Alckmin, estaria no lucro. Se não, aguardaria a vez na esperança de que Lula padeça do mesmo veneno que vitimou os tucanos na campanha de 2002: o imenso desgaste provocado por 8 anos de poder.
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É nisso que o PSDB aposta agora. O partido está como Roberto Jefferson: sublimou a derrota, adotou o discurso segundo o qual é melhor Lula na Presidência mais 4 anos, se enfraquecendo à medida que não puder atender às expectativas da população, do que na oposição ainda forte e se preparando para retomar o governo em 2010, atrapalhando os planos de José Serra e Aécio Neves.
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É uma conta arriscada, visto que a oposição apostava também no 'sangramento' em praça pública do presidente neste último ano e o que se viu foi uma recuperação e capacidade de resistência invejáveis.
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Mas, a despeito dos riscos, é nisso que a oposição aposta. E é por isso que a campanha eleitoral terminou de direito, mas, de fato, recomeça logo depois de proclamados os resultados de hoje e vai perdurar pelos próximos 4 anos.

Tudo às escuras

Por André Petry
Publicado na Revista Veja

"Alckmin não foi capaz de usar a campanha para mostrar o essencial:
que o projeto tucano é diferente do projeto petista"

.No dia 26 de setembro de 1960, aconteceu o célebre debate televisivo entre John Kennedy e Richard Nixon, que inaugurou a idéia de colocar candidatos em confronto em transmissões ao vivo. No dia seguinte, Clark Clifford, conselheiro de Kennedy, mandou-lhe uma carta curta e objetiva. Elogiava o desempenho de Kennedy e alinhava três sugestões para os debates seguintes. A primeira dizia assim: "Nixon está dizendo que vocês dois têm os mesmos objetivos, apenas diferem sobre os meios de alcançá-los, mas isso é falso". E encerrava, apelando: "Você não pode permitir que ele crie a ilusão de que vocês trabalham para o mesmo fim". Kennedy não permitiu. E ganhou.
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Na campanha de Geraldo Alckmin, faltou alguém para lhe dar esse conselho singelo. As pesquisas indicam que, neste domingo, Alckmin perderá a eleição. Mas o problema não é perder uma eleição. Isso é próprio da democracia. Alguém sempre perde. O problema é perder a eleição sem cumprir seu papel de apresentar-se como uma alternativa concreta. Alckmin não foi capaz de usar sua campanha para mostrar o essencial: que o projeto tucano é diferente do projeto petista.
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Não mostrou que seu partido defende a radicalização da experiência social-democrata no Brasil, mobilizando todo o seu empuxo modernizador e seu sentido libertário. Não defendeu sua crença no capitalismo avançado. Não conseguiu sequer defender a privatização. Em vez disso, resolveu fazer o campeonato da intensidade: era mais emprego, mais escola, mais crescimento. No auge dessa disputa, Alckmin disse que era mais esquerda do que Lula e mais pobre do que Lula (a contenda patrimonial, a se julgar pelas declarações de bens apresentadas pelos candidatos, dá 691.000 reais contra 839.000 reais, com vantagem para Lula, o menos pobre).
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É possível que a exposição das idéias tucanas não levasse à vitória eleitoral, mas o inverso também não levou e, para piorar, ainda deixou tudo às escuras. Se mostrasse com clareza que o projeto tucano é diferente do projeto petista, a oposição poderia até não mudar o resultado das urnas, mas colheria dois dividendos: teria ajudado no seu compromisso pedagógico de esclarecer as massas, que é papel da oposição em qualquer democracia, e não teria se rendido à demagogia paralisante de que o país pode crescer sem cortar nada, pode crescer sem fazer sacrifícios, pode crescer sem suor.
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O único campo em que Alckmin tentou cravar a diferença foi na ética. Diante da bandalheira petista, parecia galinha morta. Não era. Os tucanos ignoraram que, tendo escondido Eduardo Azeredo nas sombras do valerioduto, não podiam falar como guardiães da moralidade pública. No fundo, os tucanos subestimaram a capacidade da bandidagem petista de recuperar um discurso, qualquer discurso, e esqueceram de organizar o seu próprio. Por isso, gritaram mais contra o dossiê do que contra o mensalão – quando, pela natureza dos crimes, deveria ter sido justamente o contrário. O dossiê é uma delinqüência. O mensalão é uma patologia.
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Repetindo: "Você não pode permitir que ele crie a ilusão de que vocês trabalham para o mesmo fim".
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Deu no que deu.

Porque hoje é domingo

Por Adriana Vandoni
Publicado no Argumento & Prosa

Estou ficando com muita pena das pessoas ligadas às investigações da gangue do dossiê. A turma da CPI é só lamúria. O Biscaia, tadinho, esta semana foi todo cheio de autoridade receber uns documentos sigilosos. Guardou no cofre rapidinho. Nem uma risadinha ele deu para as câmeras, até que descobriu que tinha em mãos o Brasil inteiro já conhecia, menos ele. Maldade dos meninos de Cuiabá!
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O Raul Jungmann, revoltadinho vai processar todo mundo. Sua próxima vítima é o delegado Diógenes. Tô com dó desse rapaz, tadinho. Ele não sabe se atende a imprensa, a CPI, o superintendente, o ministro do crime Thomaz Bastos. Ninguém deixa o homem trabalhar. Não dá tempo! Só nesta semana, quantos quilômetros ele já andou? Foi na baixada fluminense, vai Diógenes pra lá. Em Varginha, em Atibaia, volta pra Mato Grosso. E a imprensa atrás. Não, foi em Campo Grande!, corre o delegado pra Campo Grande. Não dá! Não deixam o homem trabalhar.
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Entendo a pressão que ele está passando. Imaginem! Eu que não tenho nada com isso não agüentava mais receber telefonemas e e-mails: Quem mandô? Quem mandô? Quem mandô? Não adiantava eu gritar: não sei quem mandou! Que coisa! Tenho minhas suspeitas, claro.
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Mas, depois da publicação na revista Época de que pagaram 2,5 milhões de reais para o bandido Vedoin envolver o Senador Antero, eu achei que estivesse livre. Quanto engano! Continuei recebendo ainda mais telefonemas e e-mails, só mudou a pergunta: quem pagô? Quem pagô? Quem pagô? Caramba! Não sei quem pagou! Gostaria de saber, mas não sei. Que coisa! Tenho minhas suspeitas, claro.
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Daí eu tomei uma decisão. Vou investigar. Darei uma mãozinha à Policia Federal, em especial para o delegado Diógenes porque, fala sério, agüentar o Ministro do crime na cola, é fogo!
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Crime que se preza sempre tem sua trama iniciada durante uma conversa em um restaurante. Isso é clássico. Então eu chamei a “H.B.”. “H.B.” é o apelido da “histérica do bacalhau”, uma doida anti-tabagista especialista em restaurantes. É uma espécie de “Maria algodão” de banheiro de colégio. Todo mundo tem medo dela. Peguei a “H.B.” e passei as informações: - precisamos descobrir a origem de tudo isso. O suspeito é o Sr. Chefe, você precisa vasculhar todos os restaurantes de Cuiabá e região.
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Depois eu disse: vá. E ela foi.
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Mas todas as informações eram sempre truncadas. Não conectava. Pensei: será que a “H.B.” está ficando velha e não consegue mais investigar? Parecia um quebra-cabeça, mas de pouquíssimas peças. Só não conseguia juntar. Fiz um organograma e... ah, agora sim, estava fechando! Nisso vinha a “H.B.” pra mim: mas saiu na TV que foi no Rio, em SP, no Paraguai. – Isso é pra pulverizar as informações, “H.B.”! Cê tá tonta? Tá de tinta nova no cabelo?
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Ah, quer saber? Chega! Montei meu organograma - adóóóro fazer organograma de tudo - e guardei. Essa turma não tem jeito.Mas vou antecipar aqui o que será divulgado pelo Ministro do Crime ou por algum porta-voz. A origem do dinheiro está na militância do PT. O partido tem 1.048.164 filiados no Brasil, segundo o TSE. O dossiê custou 1.750.000 de reais, o que deu para cada filiado a merreca de R$1,66 (um real e sessenta e seis centavos). Agora eu quero ver a PF prender 1.048.164 pessoas. É o crime perfeito!
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Ah, quanto ao dinheiro pra envolver Antero?, eu também quero saber. Quem pagou?

Lula é reeleito !

Uma sinuca de bico.

por Ipojuca Pontes
Publicado no DiegoCasagrande

O Brasil está numa sinuca de bico. Depois das eleições do próximo dia 29, que definirá, entre outras coisas, quem vai tomar conta do país, é muito provável que se instale na vida pública nacional um quadro de completa falta de governabilidade. No frigir dos ovos, qualquer analista político consciente, ou que tenha se empenhado em observar a vida política brasileira nos últimos 30 anos, já percebeu que está se acumulando entre as duas facções partidárias, PT e PSDB, um enorme arsenal de chumbo grosso que, no calor da refrega, pode se transformar numa explosiva carga de nitroglicerina pura.
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Senão vejamos: na possibilidade, ainda que cada vez mais difícil, de ocorrer uma vitória do candidato tucano Geraldo Alckmin, comprometido, conforme programa de governo, com o desenvolvimento de um capitalismo brasileiro a partir do fortalecimento do mercado, é mais que previsível que a sanha do PT, partido comprometido com o monopólio de um “Estado regulado”, e o seu conseqüente aparelhamento, faça cair sobre o próximo mandatário uma permanente tempestade de intimidações.
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Neste sentido - como já foi dito de forma transversa pelos próprios membros do PT, especialmente os seus “quadros ideológicos” mais empenhados - não será desprezível imaginar a radicalização da atuação dos “movimentos sociais” e das tropas de choque petistas formadas por militantes profissionais bem treinados, tendo como desfecho as sucessivas ondas de greves, passeatas, atos de violência e marchas sobre Brasília, que levarão o governo a promover, obrigatoriamente, o sempre lastimável Estado de sítio, a estabelecer a suspensão de certos direitos e garantias individuais.
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Por outro lado, é plenamente admissível que a vitória do candidato-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e do seu partido contraventor, reeleito pela prática de ilícitos (considerados, entre outros, pelo Ministério Público), venha a desencadear a mobilização do conjunto das oposições e de parte da sociedade brasileira na luta pelo estabelecimento do impeachment presidencial, considerado constitucionalmente como inafiançável crime de responsabilidade.
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Com efeito, razões para a imposição de tal medida não faltam. No histórico, nenhum outro governo da República brasileira esteve envolvido, em menos de quatro anos, em quantidade tão alarmante de denúncias de fraudes e operações mafiosas como as que contaminaram a vida pública nacional e determinaram a queda de figuras ministeriais e membros de todos os escalões governamentais. De fato, em menos de 174 semanas de vigência, o governo e seu partido leninista estivem envolvidos em nada menos de 218 denúncias de escândalos, mais de um por semana, com destaque, entre outros, para os escabrosos casos da compra do AeroLula, da extorsão do assessor parlamentar Waldomiro Diniz, da atuação da máfia dos “vampiros” no Ministério da Saúde, da ação nefasta da quadrilha das sanguessugas, do acachapante mensalão denunciado pelo partícipe Roberto Jefferson, das remessas de dólares ilegais pelo mentor publicitário e contraventor Duda Mendonça, do uso e abuso dos permissivos cartões de crédito do Palácio do Planalto, da ação empresarial de Lulinha (o filho privilegiado), das operações da quadrilha de Ribeirão Preto e da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, para não falar no recente e acintoso “dossiêgate”, ápice da volúpia criminosa – tudo isso somado, a formar um conjunto de aberrações de fazer tremer o Império Romano, na iminência de cair no limbo e ficar na impunidade, como se a verdade fosse a mentira, e a mentira, a paralaxe da nação.
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Ademais, com a permanência de Lula da Silva no poder, é factível antecipar um quadro de estagnação ou mesmo de retrocesso econômico e social. A julgar pelo já vivido no atual período de governo, devemos enfrentar, no próximo mandato, o avanço e a ampliação do “Estado forte”, levado adiante pelo bolchevismo petista, com todos os agravantes da propaganda enganosa, do empreguismo partidário, do falso crescimento e da manutenção dos privilégios e, pior que tudo, do efetivo “controle social” monitorado pela fortalecida Abin, a ser transformada numa cópia cabocla das famigeradas DGI cubana e a KGB, a repressiva máquina de espionagem soviética.
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Quem duvidar do que se afirma, basta olhar os itens básicos da plataforma de governo da reeleição de Lula. Nele, o presidente e aliados dão conta de que, 1) buscarão o “desenvolvimento induzido pelo financiamento e a ação do Estado” falido; 2) perpetuarão o atual modelo da Previdência, com déficit anual crescente na ordem de R$ 40 milhões, à margem o rombo previdenciário que ultrapassa a casa de R$ 1 trilhão; 3) marginalizarão qualquer hipótese de reforma trabalhista, fomentadora do desemprego galopante e do trabalho informal, visto que, no entender fantasista, “há espaço para modernizar as relações de trabalho sem comprometer os direitos dos trabalhadores” e, 4) recrudescerão a carga tributária, no “propósito de racionalizar a arrecadação e de defender a desoneração das exportações e dos investimentos”.
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(De fato, como já antecipado pelos burocratas do fisco, logo em 2007 está previsto o aumento dos impostos que atingirão a marca recorde de 42%, um massacre fiscal que transformará o empresariado em refém do governo e a força de trabalho numa multidão escravizada para manter o parasitismo estatal).
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Sim, não cabe dúvida: o Brasil está numa sinuca de bico. Só quem não vê o óbvio é aquele tipo de gente que fura os olhos para enxergar melhor. Que, mais cedo do que imagina, pagará caro pela ilusão do mito vermelho.

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Coisa das elites

por Carlos Alberto Sardenberg
Instituto Millenium


O regime de metas de inflação, introduzido no Brasil em 1999 e desde então praticado com rigor e competência, é o que há de mais moderno em política econômica. Cerca de 90 países, entre desenvolvidos e emergentes, utilizam esse sistema, baseado em teorias desenvolvidas a partir dos anos 60, quando a inflação elevada era um problema mundial.

Hoje, não é mais. Em países desenvolvidos, não se tolera inflação acima de 2,5% ao ano. Para os emergentes, aceita-se um pouco mais, mas sempre abaixo dos 5%. Resumindo, o regime de metas é um caso talvez raro de sucesso na teoria e na prática.

Foi introduzido no Brasil tardiamente e meio de surpresa. Não surgiu de um longo debate, nem acadêmico, muito menos político. Nas faculdades de economia, eram poucos os que se dedicavam ao tema. Nos meios políticos, então, sequer se cogitava dessa coisa.

A crise de 1999, em seguida à desvalorização do real, criou a oportunidade. Sem a âncora do dólar baixo e controlado, a equipe econômica, então liderada por Pedro Malan e Armínio Fraga, propôs a idéia do regime de metas. O presidente Fernando Henrique Cardoso entendeu, topou e a introduziu por medidas provisórias e decretos.

Portanto, foi uma decisão de cima, da elite dirigente.

Nos meios políticos, praticamente ninguém tinha ouvido falar disso e quase todos viram com maus olhos essa coisa de Banco Central independente, condição essencial do regime de metas. Quer dizer que o presidente da República não pode mandar o BC reduzir os juros? – perguntavam os políticos, entre surpresos e desconfiados, incluindo muitos aliados de FHC. No PT, então, foi unanimidade contra. Lideranças e economistas do partido simplesmente atacaram mais essa invenção neoliberal e, pior, de banqueiros.
No governo, entretanto, em 2003, Lula manteve o regime, dando autonomia ao BC, e até nomeando para sua presidência um ex-banqueiro tucano e de banco estrangeiro. Não havia alternativa. Com dólar a quatro reais e inflação passando dos 10% ao ano, consequência da crise de confiança criada pelo temor de que Lula governasse com as propostas e os economistas originais do PT, o novo presidente foi praticamente obrigado a manter as políticas ditas neoliberais, e apoiadas pelo mercado, pelo FMI e pela comunidade econômica internacional, a chamada elite da globalização.

Muitos no PT entenderam isso como provisório. O próprio presidente Lula, em diversos momentos, alimentou essa versão de que, debelada a crise, voltaria a suas verdadeiras propostas. Mas foi ficando, ficando, até que hoje Lula, em campanha, alardeia: eu acabei com a inflação.

Terá sido convencido da eficiência do sistema ou simplesmente se deixa levar pelas circunstâncias? Nos meios políticos, valem as circuntâncias. Tanto que até hoje, com sete anos de metas de inflação, ainda não houve condições de se votar no Congresso a legislação que formalize a independência do BC.

Para economistas que estudam esse regime, se o BC tivesse independência fixada em lei, em vez de autonomia concedida pelo presidente da República, só por isso os juros poderiam ser mais baixos.

O BC, nessa prática, é uma espécie de agência, que cuida da estabilidade da moeda. Não é o BC que fixa a meta de inflação – é o governo, por algum instrumento. No caso brasileiro, o Conselho Monetário Nacional, integrado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC. O Banco Central deve ter autonomia para fixar os juros, de modo a cumprir a meta.

Essa construção parte do entendimento de que política monetária, uma vez fixados os objetivos, deve ser uma coisa técnica. Ou ainda, entende-se que a estabilidade da moeda é um bem universal, de interesse de toda a sociedade, não podendo depender deste ou daquele governo, deste ou daquele partido.

A idéia de que o governo e os políticos eleitos não podem abrir mão desse poder é atrasada, vem do tempo da inflação. É tão atrasada quanto a idéia de achar que setores ditos estratégicos devem ficar sob controle do governo, via estatais. Dizia-se, por exemplo, que a privatização das telecomunicações comprometeria a segurança nacional.

Passado esse tempo, o que se vê? Que mais pessoas têm telefone – o que certamente é um objetivo comercial das empresas, mas também um objetivo estratégico para o desenvolvimento nacional.

Mas ainda se discute se a privatização deveria ou não ter sido feita. Mais um debate atrasado.

É preciso civilizar os bárbaros do PT.

Por Reinaldo Azevedo
Publicado na Revista Veja
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"Faz 26 anos que os democratas se ocupam de atrair o PT para a civilização. Os tupinambás e os caetés, no entanto, resistem e tentam impor o canibalismo como algo doce e decoroso. Mas continuamos aqui, firmes no nosso papel de jesuítas, crentes na nossa missão civilizadora, esforçando-nos para catequizá-los, fingindo que são tupis amistosos"

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Faz 26 anos que os democratas se ocupam de atrair o PT para a civilização. Os tupinambás e os caetés, no entanto, resistem e tentam impor o canibalismo como algo doce e decoroso. Antes, tingiam a cara para a guerra e nos propunham o dilema: "Socialismo ou barbárie". Com o tempo, eles mesmos fizeram a opção sem nem nos dar a chance de escolher: barbárie! Institucional, quando menos. Mas continuamos aqui, firmes no nosso papel de jesuítas, crentes na nossa missão civilizadora, esforçando-nos para catequizá-los, fingindo que são tupis amistosos – tentando, enfim, emprestar-lhes alguma metafísica. Mas quê... Tenho cá as minhas dúvidas se os aborígines não estão vencendo. Em vez de o primitivismo ser domado, o que vejo é muita gente a flertar com Guaixará, Aimbirê e Saravaia, invertendo o fluxo histórico da civilização.
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Os três acima eram os demônios da peça Auto de São Lourenço, do padre Anchieta (1534-1597), representada para os índios e para os primeiros colonos. Lembro-me de um livro que ganhei quando criança. Havia uma ilustração do jesuíta fazendo um poema na areia com um galho ou cajado. A catequese é mais do que um confronto de culturas. É um choque entre tempos. Trata-se do encontro de homens que estão em estágios diversos de domínio da natureza. Um trazia a escrita, a abstração, a realidade como conceito; outros viviam imersos no gozo, no terror e na ignorância. Antropólogos vão protestar. Para eles, pouco importa por que cai a maçã. Qualquer explicação "cultural" vale a pena. Continuo a achar libertadora a lei da gravidade...
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Anchieta era um grande educador. Deixaria arrepiados os seguidores do "pedago-demagogo" Paulo Freire. O padre também usava o universo do "educando" (meu micro quase trava diante da palavra...) para passar uma mensagem "libertadora". Empregando elementos da cultura dos indígenas, queria tirá-los de sua crença e lhes ensinar os valores cristãos. Por isso, ridicularizava o seu modo de vida, em vez de adulá-lo. Devemos muito a esse padre. Guaixará, por exemplo, recitava: "Boa medida é beber / cauim até vomitar. / Isto é jeito de gozar / a vida, e se recomenda / a quem queira aproveitar. / A moçada beberrona / trago bem conceituada. / Valente é quem se embriaga / e todo o cauim entorna, / e à luta então se consagra".
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Como se vê, Anchieta fazia o contrário do que fazem as ONGs financiadas pelo petismo e por entidades estrangeiras que se encantam com os aborígines alheios. O que o padre associava ao mal e exibia como hábito a ser vencido seria, hoje em dia, exaltado como cultura de resistência. Reparem como a educação formal, do "centro", foi invadida pela chamada "cultura da periferia".
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Isso é verdade tanto dentro do Brasil como na relação do país com o mundo. Há mais antiamericanos na USP do que em Bagdá ou em Cabul. O Brasil não aceita ser humilhado pelos EUA e pelo FMI. Só pela Bolívia e por Evo Morales. A reeleição de Lula corresponde à vitória do recalque do oprimido.
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Falando a catadores de papelão e a sem-teto na quinta, no Palácio do Planalto, Lula Aimbirê disse que nunca antes gente como aquela entrou em palácios. Como se vê, ele precisa de gente como aquela para fazer discursos como aquele... Mais de 400 anos depois, Saravaia dá um pé no traseiro de Anchieta e diz: "Nós vencemos".
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Esta nossa catequese política, um tanto infrutífera, também vive, a exemplo da outra, um choque de tempos. A economia da informação do século XXI, os indivíduos conectados à rede e à diversidade, a vitória inequívoca do capitalismo, o triunfo das sociedades abertas, tudo isso tem de conviver com um partido que é herdeiro do Terror Jacobino do século XVIII, do marxismo do século XIX e da Revolução Russa de 1917.
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O partido só entende o exercício do poder como golpe e eliminação do outro – ainda que este herdeiro daquelas vocações totalitárias faça a mímica da democracia. Quando se acredita que se converteram, são flagrados comprando um naco do Parlamento. Quando se supõe que estão assustados, tentam golpear as eleições com dossiês fajutos. Quando a gente acha que estão rezando o "creio-em-deus-pai" da democracia, estão se entupindo de cauim, mobilizando instrumentos do Estado a seu próprio serviço. Até vomitar.
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O conteúdo que se queria utópico daquelas formulações dos séculos XVIII, XIX e XX ganhou uma nova feição, é verdade, e faz concessões aparentes ao estado de direito. Alguns tantos sustentam que, do totalitarismo jacobino-bolchevista, teria restado tão-somente a moldura, uma vez que não seria lícito duvidar da adesão dos tupinambás e caetés ideológicos à economia de mercado e à democracia. Quantas vezes é preciso que o diabo sapateie no altar para que se reconheça a sua real natureza?
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Os "bons selvagens" perderam a batalha para uma teologia e uma tecnologia superiores. Já os maus selvagens decidiram partir para a guerra de valores. Lula e seus rapazes não aceitam mais ser "colonizados" pela democracia. Olham para o conjunto de leis do país e, a exemplo de Guaixará, recitam: "Vêm os tais padres agora / com regras fora de hora / pra que duvidem de mim. / Lei de Deus que não vigora".
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O PT conseguiu eliminar a hierarquia de valores que regula a vida em sociedade, de modo a conduzi-la a um estado de permanente subversão. Vale atribuir ao adversário uma intenção que ele não tem, obviamente mentirosa, e, a exemplo do que afirmou Lula num debate, o outro "que desminta". Jaques Wagner, governador eleito da Bahia, um dos caciques petistas, sob o pretexto de defender o bom princípio de que ninguém é obrigado a se auto-incriminar no estado de direito, afirma que o acusado tem o "direito de mentir". Não, meu senhor! Mentir à polícia è a Justiça é um risco, não um direito. O petismo é mestre não propriamente em negar a verdade, mas em corrompê-la. É por isso que precisa tanto do concurso de um criminalista.
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Ou o petismo passa a ser visto no curso de uma revolução cultural ou jamais será entendido – e vencido. E o canibalismo será regra. Numa campanha eleitoral sem propostas, sem valores, sem alternativas, sem diferenças de conteúdo, aborrecida a mais não poder, resta, sem dúvida, uma intenção, anunciada por Lula, que faz toda a diferença. No debate da Rede Record, deixou entrever a disposição de estudar o que eles chamam de "controle social dos meios de comunicação". Trata-se de um eufemismo e de uma perífrase para "censura". O PT vê em cada veículo – ou, vá lá, em boa parte deles – um bispo Sardinha dando sopa. Sabe que a imprensa livre é o Evangelho da democracia; que ela guarda seus segredos e seus fundamentos.
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Estamos vivendo os nossos dias de Hans Staden (1525-1579), o aventureiro alemão que caiu presa dos tupinambás. Deu sorte: conseguiu sair vivo. No cativeiro, observou os costumes dos antropófagos e depois redigiu um relato de viagem que fez grande sucesso na Europa. Ajudou a espalhar a lenda de que, por estas plagas, comer gente era prática corriqueira – os tupis, coitados, gostavam mesmo era de uma capivara e de um macaco. Alguns acreditam de tal modo na superioridade de sua teologia e de seus hábitos alimentares que observam os seus raptores com interesse antropológico, mal disfarçando certa simpatia por aqueles que os ameaçam.
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Estou fora dessa. Quero os tupinambás e os caetés ajoelhados. Sob o signo da Cruz da civilização. Os petistas devem acionar a tecla SAP para metáforas e metonímias neste último parágrafo.