Pois é, e daí ? Como ler uma reeleição de um presidente com quatro anos de intensa corrupção nas costas ? Mas e o povo, votou em quê afinal, na ética, ou no bolso ? Na verdade, o país continua o mesmo. Produzimos bem menos riquezas do que poderíamos, mas quem se importa ? No ano que vem poderemos ter escassez em algum itens e inflação em outros. Mas quem faz esta leitura dentre os milhões de assistidos pelo Bolsa Família ? Quantos ali vão além do jantar de logo mais ? Para entender este resultado de hoje, extraio do artigo de Sérgio Bermudes, sob o título “Miséria moral” dois parágrafos que entendo eloqüentes e que nos fornece uma leitura de fácil digestão, para compreender a reeleição de Lula.
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“A democracia revela-se também imperfeita, quando admite o processo eleitoral, não apenas pela exposição do currículo enxuto dos candidatos, por suas qualidades e competência, pelo programa (dá-lhe, velha UDN) do seu partido. Jingles, plumas e cores aproximam o processo democrático da publicidade comercial, capaz de confundir ou enganar.
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As maiores fraquezas da democracia, como sistema ou método de governar, para o qual nunca se encontrou substituto, são a possibilidade de exploração da credulidade e da esperança; pior, da miséria do eleitor e os resultados a que pode levar, negando, por incrível que pareça, a sua própria substância; a sua finalidade institucional. Não há remédio capaz de erradicar esses vícios, que minoram com o passar dos tempos, como naquela anedota do verde dos gramados ingleses, que só chegaram à cor exuberante decorridos séculos. É claro que muito se fará, suprimindo-se os estágios de evolução do processo democrático pelos meios disponíveis, um dos quais a legislação e a correta aplicação dela.”
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Mas não somente a lei, o aperfeiçoamento do aparato jurisdicional, mas, acima de tudo, a educação e o acesso universal à informação é que se tornam as vacinas eficazes e capazes de erradicar alguns destes males e reduzir-se os riscos da má-escolha por indução enganosa da publicidade. Nos últimos dias e que antecederam este domingo de 29 de outubro, muito se falou de um terceiro turno, ou de um presidente reeleito sob-judice. Primeiro que Lula não está sendo julgado por coisa alguma, ainda. Há sim um inquérito sob o comando da Polícia Federal que ainda resta concluir. Apesar dos pesares, mesmo que esta investigação siga por caminhos um tanto estranhos a uma apuração de aparente normalidade, somente ela é que poderá instruir um provável processo ou não contra Lula. Claro que muito este espaço já falou da indecência como Lula concorreu, principalmente neste segundo turno. Claro que a oposição cometeu erros e acabou incompetente para livrar o Brasil do comando lulista, que ainda entendemos nefasto ao progresso econômico e institucional do país. Não estamos condenando ou recuando um milímetro sequer desta posição. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma, portanto, é a nossa opinião, nosso entendimento feito a partir da leitura de um governo inepto que nos fez retroceder no tempo uns dez anos ou mais. Outra, é colocarem Lula acima da lei. E uma terceira, é querer-se a condenação antes do julgamento. Se comprovada a ação ilegal de campanha na forma e à luz do que determina a legislação em vigor, cumpra-se a lei. Não me venham com este papo-furado de que o povo é soberano. É sim, enquanto os candidatos se mantiverem dentro dos limites do aparato legal. E a democracia é justamente isto. Collor foi eleito pela mesma vontade soberana do povo, nem por isso mesmo deixou de sofrer o processo de impeachment que a lei determinava e ainda determina. E se é para definitivamente comprovar que o povo também erra na sua escolha basta lembrar que Hitler chegou ao poder na Alemanha pela via do ... voto direto. Ele não caiu lá de pára-quedas. Chegou ao poder pela via expressa da democracia. Temos aí duas amostras de que o povo erra sim, e de que, apesar de sua soberana vontade, determina o estado de direito que, se houver cometido crime descrito em lei apontando para o seu impedimento e afastamento, que cumpra-se a lei. Ponto final.
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Contudo, precisamos ainda ler por quais razões Lula se reelegeu mesmo tendo cometido um deslavado terrorismo eleitoral, e tendo seu governo quebrado todos os recordes de irregularidades já vistos em nossa história republicana. Recorremos ao Bermudes, no trecho final de seu artigo:
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“Um dos elementos fundamentais da democracia é a igualdade. Dela exsurge, como conseqüência lógica, a prevalência da vontade da maioria, determinante da eleição dos que governam. Dispensam-se teorias para explicar o fenômeno dos governos eleitos. O eleitorado assim quis. É preciso vergar à sua vontade porque o regime democrático funciona desse modo. O povo quer sempre o bom governo, mas é incapaz de assegurá-lo quando elege os governantes. O problema sério da eleição é o direcionamento da vontade popular, que se aceita quando resulta da propaganda eleitoral limpa que enaltece os candidatos, mas exige do eleitor a formulação de um juízo de escolha. Não vale, entretanto, a captação de votos pela demagogia eleitoreira, que os compra barato, “numa” forma hedionda de vilipêndio da vontade. Murilo Mendes diz que o cúmulo da miséria moral é explorar a miséria alheia.”
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Eis aí o contraponto exato do que fez Lula ganhar: abandonando todos escrúpulos capazes de limitar as ações de um político, o petista passou para a sociedade de que a ética não enche barriga. Claro que isto não está colocado desta forma, mas o sentido exato e o tom de toda a sua campanha visou este enfoque. Primeiro, fez a sociedade entender de que todos são iguais. Igual pór igual na seara da honestidade ou falta dela, fique-se com quem já está lá. Nisto, a propaganda transpareceu de que ele não destoou nem um pouco de todos os outros. Em seguida, se era para eleger corrupto, que fosse um que se parece com o povo e com ele dividisse parte do tesouro. Simples ? Sim, sem tirar nem por.
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Claro, que a publicidade empregada aqui teve um excepcional mérito: foi vitoriosa em transmitir uma mensagem e teve o retorno na medida exata do voto recebido. Quem perdeu ? Quem ganhou ? Agora, já não interessa mais saber do dossiê, das cartilhas, dos cartões corporativos, dos superfaturamentos, mensaleiros, sanguessugas, vampiros, valeriodutos, caixa 2, etc. Por que ? Porque agora o batalhão de choque jogará o resultado na mesa e dirá: eis a vontade do povo. Quem irá contra ? E em cima do resultado ainda quente das urnas, quem se aventurará em tentar apear Lula do poder ? Ora, a sociedade já está dividida conforme inúmeras vezes alertamos aqui. Não foi a eleição que promoveu esta divisão, foi o governo de Lula que sempre se esmerou nesta divisão. O Estado foi aparelhado desde antes da eleição de Lula em 2002. Os militantes aos poucos foram se entranhando pelos serviços públicos em todas as direções. Mas isto não elimina os crimes cometidos, nem sua investigação, nem que se identifique os culpados e, após justo julgamento, se condenados, que paguem na forma da lei pelos “erros” cometidos. E este é o esforço que o PT também tentará impor como sendo “vontade das urnas”. Se começar por aí, começa errado e irá mal até o fim.
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Ao liberar o cofres para as entidades sociais e sindicais, Lula também fez alianças importantes e que lhe garantiram a sustentação política necessária para sua voz chegar mais próxima do povão. O resto, a propaganda se encarregou de difundir. Daí porque as mentiras que Lula e seu comitê de campanha se encarregaram de construir e espalhar, chegaram rapidamente em todas as camadas mais necessitadas da população. O medo de perderem o bolsa família tornou a vitória de Lula irreversível.
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Há muito para ser desvendado nas ações de investigação em curso. Mas não acredito que a oposição tentará reverter o resultado das urnas. Acredito que será preferível deixar Lula viver da própria herança que armou desde 2003. As facilidades de governabilidade não serão mais as mesmas de antes. As condições favoráveis da economia mundial também não. O que Lula tentará consolidar é sua conquista eleitoral com a concessão de mais benefícios. Mas não pensem que se oferecerá a porta de saída, não o menor interesse político nesta direção. Contudo, a irresponsabilidade de um mau governo, apesar dos resultados positivos da economia, ergueu uma barreira que para superar, Lula precisará sim trabalhar e muito, afastando-se cada vez mais de seu PT.
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E aqui, os caminhos que ele entende deva escolher serão: ou dá uma total guinada à esquerda, e compromete as conquistas econômicas e causa um rebuliço maluco no mundo todo, correndo altos riscos, ou se mantém conservador e tenta avançar nos pontos básicos receitado pela fórmula do liberalismo econômico. Não há meio termo. Após quatro anos, Lula sentiu o sabor que emana do poder para aqueles que fazem o jogo da elite econômica. Talvez Lula tente equilibrar-se entre um lado e outro como fez no primeiro mandato. Porém sob condições totalmente diferentes das que terá para enfrentar a partir de 2007. Porém, nunca é demais informar que jogamos fora quatro anos de oportunidades excelentes para avançarmos e permanecemos estagnados. E a rigor, Lula não acenou com programas específicos para questões específicas. Há uma certa embromação no seu discurso que alguns poucos percebem. E, a partir do discurso que deu logo após a vitória (e do qual iremos tratar amanhã, assim como o contrato com a Bolívia e as tendências de uma linha governo na área econômica), acredito que tais programas sequer existam. Vamos seguir mais uma vez ao sabor dos ventos, na base da improvisação. Deus queira que dê certo. Mas, antes de se tirar qualquer conclusão apressada, seria conveniente ver que reforma política se tratará logo ai em frente, e quais outras reformas serão privilegiadas nos seus primeiros cem dias de governo. Delas dependerá a sorte do país nos próximos quatros anos. Se na largada Lula não acertar a mão, passará mais quatro anos de suspeitas, de críticas e falta de segurança quanto aos rumos a serem dados ao país. Li hoje alguém escrever que “o Brasil não merece passar por tudo de ruim de novo!”. Será ? Lula não foi escolhido pela vontade soberana do povo ? E de que o povo nunca erra ? Então...certo ou errado, agora não será possível mudar. É com isto que iremos contar até 2010. Se o povo entender que foi traído ou que escolheu de modo equivocado terá a chance de reverter dentro de 4 anos. Talvez seja uma dura lição a ser aprendida. A de que o benefício que o povo recebe de seus governantes, não se trata de nenhum favor: é uma obrigação de todos. E de que Lula não inovou absolutamente nada, ele apenas deu seguimento ao que já existia. Quem acreditou nele como sendo o o salvador da pátria, que fique agora durante quatro anãos tentando explicar para o povo porque não deu certo. Aliás, numa enquete promovida pelo provedor Terra, dentre cerca de 3 mil votos, o resultado foi de que, 60 % acreditam que Lula fará um governo pior do que no primeiro mandato. Coincidência ou não, o fato é que o resultado é semelhante ao do resultado final da eleição, só que invertido. Vá se entender eleições no Brasil !!!