terça-feira, outubro 31, 2006

Não adianta, eles não tomam jeito

Acusar "terceiro turno" é parte do mesmo golpe petista que
levou à tramóia do dossiê
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Por Reinaldo Azevedo
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Por que tantos no PT atacam FHC? Ontem, o ex-presidente foi alvo de Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais, e de Marco Aurélio Garcia, presidente do PT, professor licenciado do Departamento de História da Unicamp. Nesse caso, além dos motivos políticos, é claro que conta também a inveja. MAG, como era conhecido nos tempos da militância, sempre teve ambição de ser reconhecido como um intelectual. Vai entrar para a história, no máximo, como o Leporello do Apedeuta. Coitado! Empresta a sua pouca ciência a uma causa ruim. Quanto a Genro, é bom lembrar, o ataque não vem de agora. No dia 19 de janeiro de 1999, este senhor escreveu um artigo cobrando a renúncia do recém-empossado (segundo mandato) FHC e a convocação de eleições gerais. E o tucano não havia sido escolhido nas urnas sub judice, como Lula. Tarso entende de golpe.
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A resposta para a pergunta que abre o texto é simples. Atacam FHC porque ele é dos poucos, nas oposições, que têm clareza do que está em curso e alcance teórico para avaliar o que acontece no Brasil. É uma tolice supor — e petistas com miolos sabem disso: eles existem, ainda que os tais miolos não sejam lá grande coisa — que o ex-presidente esteja surpreso com o que está em curso. Posso lhes assegurar com absoluta certeza que não está. Também FHC é do tipo que considera que a história tem uma grande margem de indeterminação, mas sabe que os erros cobram o seu preço.
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Ontem, o ex-presidente se encarregou de desmentir o boato de que esteja interessado no impeachment de Lula. Como coisa em si, como objetivo, meta, ponto de chegada, ninguém está. Isso é parte da campanha petista para obter do sistema político licença para mais lambança. O PT denuncia a operação “terceiro turno” — expressão roubada de Collor (até isso!) — para que possa, diante da menor contrariedade, sair gritando: “Estão querendo desestabilizar o presidente Lula”. ATENÇÃO: ESSA GRITARIA SOBRE A QUESTÃO LEGAL É PARTE DO GOLPE PETISTA, DE QUE O DOSSIÊ FOI UMA ETAPA.
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FHC disse a coisa certa. A reeleição, em si, é legítima; traduz a vontade das urnas. E isso não quer dizer condescender com ilegalidades. O raciocínio é simples: se ficar provado que o dinheiro que pagou o dossiê veio do caixa dois da campanha de Lula, sua eleição se torna ilegal. E José Alencar vai junto com ele. Mas os petistas estão tranqüilos quanto a isso. Tudo já foi providenciado para que a coisa não chegue a esse ponto. A versão final já está arrumada: foi caixa dois, sim, mas da campanha de Mercadante. E o senador também não sabia de nada. José Serra e Aécio Neves, governadores eleito e reeleito de São Paulo e Minas, respectivamente, são vozes importantes na oposição. É claro que não poderão assumir com o propósito de liderar a deposição de Lula — ainda que por motivos diferentes... Isso não lhes cabe. Caberá, aí, sim, ao PSDB e ao PFL — e a quantos estiverem na oposição — zelar pelo triunfo da legalidade.Volto ao ex-presidente. Ele evoca a necessidade de o PSDB resgatar seus princípios e sua história. É isso mesmo o que tem de ser feito.
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Falta de clareza, de coragem, de altitude política fez com que o debate sobre a administração pública e as questões de Estado no Brasil regredissem 20 anos em um mês. Esse debate satanizando as privatizações — no exato momento em que a Vale se torna a segunda ou a primeira siderúrgica do mundo, em que a Embraer é exemplo de eficiência e de competitividade e em que a telefonia se universaliza no Brasil — beira o surrealismo. A delinqüência da indagação petista (onde foi o dinheiro?), como se os petistas não soubessem ou como se ele tivesse sido roubado, joga sobre o processo político um manto de obscurantismo, de atraso, de burrice.
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Eu ousaria dizer que, em 26 anos de existência, o PT não fez ao país o mal que conseguiu fazer em três semanas. Levará muito tempo até que nos curemos dessa estupidez estatista a que a campanha de Lula conduziu o país. Infelizmente, será preciso, como vai acontecer, que seu modelo comece a fazer água para que, desgastada a imagem do Babalorixá, suas bobagens naufraguem com ele. É claro que o povaréu vai pagar o pato. Antes disso, ele vai fazer muita besteira. A renegociação da dívida dos Estados, com a qual ameaça, é uma das possibilidades.
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Lula vai tentar ainda outras aventuras. O laboratório das maluquices petistas pode muito bem ser a reforma política. O homem que, em 2002, se comprometeu com a Carta ao Povo Brasileiro, em que jogava no lixo, ainda bem!, 22 anos de militância, desta feita, não quis assinar um documento negando que pretenda fazer a constituinte exclusiva. Não! O objetivo das oposições não pode ser depor Lula — não que faltem motivos; é que Márcio Thomaz Bastos não permitirá o surgimento de provas. O objetivo das oposições tem de ser fazer valer a legalidade, reconquistando a parcela do eleitorado de classe média que voltou para os braços de Lula porque não se sentiu devidamente representada. E, sobretudo, a tarefa de quem quiser apear o PT do poder tem ser a denúncia da infiltração petista em todas as esferas da vida social.
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PSDB, PFL e quem quer que venha a fazer oposição têm de ter a coragem de ter uma agenda que confronte o petismo. Até quando forem reféns desse estúpido militantismo, serão seus meros caudatários. É preciso fazer a guerra de valores. Que não foi feita ao longo de quatro nos. E criar uma núcleo de Inteligência nas oposições (não à moda Lorenzetti, como já disse). FHC sabe disso. Marco Aurélio e Tarso Genro sabem que ele sabe. Por isso tentam desqualificá-lo. De todo modo, os nossos inimigos e adversários também dizem muito de nossa qualidade, não é mesmo? Assim sendo, FHC está muito bem. Talvez ele ande pensando mais longe do que supõem os petistas. Eu acho que anda.