terça-feira, outubro 31, 2006

Votando sem saber no quê

COMENTANDO A NOTÍCIA: Sob o título acima, o jornal O ESTADO DE SÃO PAULO, publicou um editorial dias antes da eleição de segundo turno e que entendemos oportuno reproduzi-lo, mesmo diante do resultado conhecido, para se poder entender o próprio resultado final que reelegeu Lula. No discurso que fez após a proclamação do resultado que lhe garantiu mais quatro anos no poder, Lula afirmou que o país saiu do pleito mais unido do que nunca, e nesta mesma linha, há um artigo publicado pelo Tribuna da Imprensa. Tal afirmação, contudo, não encontra eco na leitura do resultado quando visto de que forma os votos se dividiram entre os eleitores. Há uma clara divisão da sociedade brasileira, sim. Negar isto não apenas se conduz a um engano de análise brutal, como também se vestirá com o manto da hipocresia que há muitos Brasis separados entre si, e que se acentuaram não apenas na campanha movida pelo PT para que tal ocorresse. Mas durante todo o primeiro mandato, o presidente Lula fez questão de manter esta divisão, pois entendia que ela lhe asseguraria a renovação do próprio, como de fato aconteceu.
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Unir esta sociedade verde-amarela, não será obra nos próximos quatros anos que se verá como esforço central de Lula. Ele ainda sustentara que hegemonia petista somente se consolidará se ele mantiver pobres de um lado ricos de outros. Norte/Nordeste de um lado, Sul/Sudeste de outro. Classe branca burgueza de um lado, classe negra e mestiça da mesma burguesia de outro. Este jogo é perigoso, conforme temos alertado sucessivamente. Como superar este cisma ? Dependerá do que deixarmos de fazer em termos de reformas que estão na agenda do país, e da qual Lula extrairá suas prioridades. Porém, se não buscar o caminho da união, abrirá uma alternativa de poder, que para ocupá-la exigirá das oposições uma enorme capacidade de entendimento do momento socio-político brasileiro e das aspirações que acabarão saltando desta segunda via. O perigo é a oposição achar que bastar acenar umaa rota alternativa para ser saudada pela sociedade. Engano, exigirá clareza, propostas, centrar-se em uma ideologia transparente de liberdade diferente do clientelismo pelego do PT. E mais do que nunca união e organização. Sem isto, o país continuará mergulhado na divisão de seu povo, e em situações semelhantes, a história já nos deu exemplos suficientes de que se ficará a um passo do autoritarismo, do populismo desenfreado, cujo destino é sempre o do atraso, retrocesso mesmo, mediocridade e barbárie. Quanto mais clara e forte soar a alternativa ao PT mais a sociedade se fará receptiva. E aqui, deixe-se de lado as vaidades e ambições pessoais e políticas. O que estará em jogo é abrir o Brasil para o mundo, insiri-lo na modernidade, no progresso cultural acentuado de seu povo, no leque de oportunidades que somente países livres se podem permitir a oferecer.
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Votando sem saber no quê

Editorial em O Estado de São Paulo

A eleição presidencial de hoje - a sétima desde o fim do regime militar, incluídos os segundos turnos - é mais um alicerce sobre o qual se amplia o edifício da democracia brasileira. Apesar de tudo o que há para ser melhorado nessa edificação - a começar da questão pantanosa do financiamento das campanhas, sobretudo no que toca à escolha do chamado supremo mandatário -, não temos do que nos envergonhar diante de nenhum outro país do mundo: a eleição é fiscalizada por um tribunal íntegro e independente, transgressões das regras da propaganda são punidas, o acesso às urnas é universal e desimpedido, as apurações são corretas e os resultados, inquestionáveis. Não é pouca coisa para um país cujo último ciclo ditatorial durou o mesmo tempo que o atual período de pleno funcionamento das instituições democráticas.
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Mas a sucessão que hoje se decide contém ao mesmo tempo duas características peculiares, das quais não se pode dizer que contribuíram para a purificação do voto popular - definido como o ato de decidir entre os candidatos a partir de critérios objetivos, baseados, por sua vez, em um conhecimento minimamente suficiente de suas propostas para resolver os problemas que desafiarão o vencedor. A primeira característica deste confronto é que, a rigor, confronto foi o que menos se viu nesses meses. É verdade que a reeleição é, sempre e antes de mais nada, um plebiscito sobre o desempenho do incumbente: a escolha posta ao eleitor é entre mais do mesmo ou um novo rumo. Ainda assim, não se esperava que esse padrão se impusesse como se impôs.
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Já no primeiro turno, com quatro nomes em princípio competitivos e quatro figurantes, se tanto, tudo girou em torno de um só candidato - o presidente Lula. Pode-se afirmar com segurança que a grande maioria dos cerca de 105 milhões de eleitores do 1º de outubro saiu de casa para votar em Lula ou contra ele - e uma parcela substancial dos sufrágios dados a Heloísa Helena e a Cristovam Buarque visava simplesmente a adiar por um mês a decisão, levando-a para o tira-teima de hoje. Agora, é ocioso especular como teria transcorrido a campanha se o candidato de oposição fosse José Serra, mas não é de todo improvável que ela se assemelhasse mais ao segundo turno de 2002, quando o atual componente plebiscitário foi muito menos marcante (embora também naquela eleição a tática petista fosse transformar a eleição em um julgamento do governo Fernando Henrique).
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Desta vez, Lula partiu para a reeleição tendo três trunfos na mão: a sua personalidade, as suas realizações e os erros dos adversários. Personalidade, no caso, significa mais do que carisma e talento incomum para se comunicar com o povo no comprimento certo de onda. Significa também associar de forma inextricável, na percepção do eleitor, atributos pessoais e biografia. Comício após comício, era como se dissesse: eu sou o que sou porque vim de onde vim. São dezenas de milhões os eleitores que se espelham na sua origem e, ao ouvi-lo, refazem mentalmente a própria trajetória. Com esse formidável patrimônio e plena disposição para pôr a história de ponta-cabeça, Lula levou legiões de brasileiros a crer que as suas realizações econômicas e sociais resultaram da rejeição do que fazia “o governo das elites” - e não da adesão à política fiscal que derrubou a inflação, beneficiando os mais pobres em primeiro lugar.
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Em eleições, vale o que parece - e, para a maioria do eleitorado, ficou parecendo que a oposição nada tinha a lhe oferecer além do “samba de uma nota só” da moralidade política. O terrorismo de rotular o tucano Geraldo Alckmin como privatista e a sua incapacidade de sair da defensiva fizeram o resto. Complementa o aspecto negativo da sucessão a sua segunda característica, referida no segundo parágrafo deste texto. Os candidatos tiveram todas as oportunidades - entre elas, uma oferta sem precedentes de entrevistas e debates na reta final da campanha - para falar do que mais interessa: os entraves ao crescimento e as decisões impopulares que precisam ser tomadas para removê-los. Lula, por falsear a amarga realidade das finanças do setor público, e Alckmin, por se esquivar do assunto, como que se uniram para produzir a grande fraude da temporada - a interdição, na campanha, do tema do qual tudo mais depende.
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Em conseqüência, a grande maioria dos eleitores vota hoje sabendo nada ou quase nada do que está para atingi-la amanhã ou depois.