terça-feira, setembro 21, 2010

PT convoca seus mercenários para protestar em favor da corrupção!

Adelson Elias Vasconcellos

Na exata significação do termo, mercenários são soldados que, mediante pagamento em dinheiro, se põem a serviço de qualquer governo, ou de qualquer causa. Não interessa se estarão a serviço de um tirano, ou de uma causa anárquica. Pagou, levou. São as prostitutas do barulho, de preferência, de armas em punho. O cinema tem produzidos dezenas de filmes sobre a atuação destas quadrilhas cujo ideário maior não é ideológico, não é nacionalista, não é nada, além do dinheiro.

O PT, por seu viés ideológico, sempre teve seu rebanho de mercenários e militantes. Os militantes são aqueles que se dispõem irem a luta levados pela paixão ideológica, acreditam no partido, porque acreditam nas suas ideias. Os mercenários, não. Colocam-se à disposição do partido para serem agraciados com o dinheiro que poderão ganhar se a causa vencer.

Com o governo Lula, a militância ganhou reforço substancial de mercenários. O sindicalismo pelego que, antes já lhe fazia a corte, dado que a maioria dos petistas provém do sindicalismo, e a dos sem terra, representados pelo MST, cujo apanágio é a reforma agrária usada como pretexto para a prática de crimes de absoluta barbárie, porque são raros os assentamentos coordenados pelo MST que deram certo. E, diga-se, que estes raros assentamentos exitosos, na maioria das vezes, tentam desligar-se do MST tendo em vista que, não se pode negar, há muitos que desejam, de fato, serem honestos trabalhadores do campo.

Porém, com Lula no poder – e as estatísticas estão aí para mostrar – o MST não só intensificou suas invasões sobre propriedades produtivas, como ainda tornaram suas ações cada vez mais violentas, fugindo, deste modo, das verdadeiras características de um movimento social, para se caracterizar em quadrilha. E, tudo isso, bancado com dinheiro público, o que além de patrocinar, financiar e até incitar o aumento da violência no campo – e até nas cidades, dado que o MST invade prédios públicos sem a maior cerimônia – infringe a lei de forma plena, uma vez que há dispositivos legais vedando tal prática com dinheiro público. Porém, o governo do Luiz Inácio ao invés de cortar o patrocínio, tem é feito aumentar o volume de doações ilegais.

Lula, num daqueles momentos nebulosos que se multiplicaram em seu governo, querendo agradar as massas de onde surgiu, assinou lei em que se mantinha não apenas o tal imposto sindical obrigatório, inclusive para quem não for filiado a sindicato algum – o que é um absurdo, entendo que até inconstitucional – transferindo parte da bolada para as centrais sindicais e, o que é pior, desobrigando as centrais de prestarem contas ao TCU sobre a destinação do dinheiro que, por definição, é público, portanto, sujeito a fiscalização.

No mesmo sentido, Lula passou a doar considerável soma de dinheiro público para a União Nacional de Estudantes – UNE, que um dia foi uma das muitas vozes da sociedade e que, historicamente, sempre atuou no sentido de ser um fiscal dos governantes. Hoje, totalmente aparelhada pelo petismo vagabundo, se tornou, a exemplo do MST e das Centrais Sindicais, CUT, principalmente, uma espécie de exército de mercenários a serviço do PT. Digam o que disserem tais correntes, por mais representativas que sejam, ao se filiarem a partidos políticos e por eles ser financiados, põem de lado a característica de “movimentos sociais”, já que deixam de cumprir sua função principal. Já disse aqui várias vezes que, no caso do sindicalismo, que o propósito é defenderem causas que digam respeito aos trabalhadores. Se algum sindicato pretende exercer o papel de partidos políticos está, automaticamente, se desviando de sua razão principal de ser. Neste mesmo sentido, se entende qualquer movimento que se diga social. Se atuar politicamente, sua missão passa a ser política, e, em consequência, passa a ser movimento político, e não social. O que dá a bandeira aos movimentos, não é serem ocupados por pessoas, ou a missão que ditam seus estatutos. E, sim, as ações que protagonizam na sociedade.

Não condeno que, este ou aquele movimento social, seja mais ou menos simpático a um determinado partido político, e porque esta agremiação, por seu ideário, se identifique mais com os seus propósitos. Mas daí a exercer militância política vai uma enorme distância.

Ora, qualquer movimento social deve ter em mente a luta por causas que, além de sua própria missão específica, também sirvam para solidificar e fortalecer os laços democráticos de toda uma sociedade. Democracia não é caracterizada apenas pela existência de eleições. Na Alemanha nazista havia eleições, Hitler foi levado ao poder pelo povo direto. No Brasil da ditadura militar, havia eleições legislativas diretas. São vários outros aspectos que caracterizam ser ou não uma sociedade democrática, e dentre estes, a liberdade de expressão e de imprensa, são direitos inalienáveis.

O PT, enquanto foi oposição, sempre teve na imprensa o canal condutor de suas ideias, críticas e apelos. Não foram poucas vezes em que se valeu da boa fé de alguns jornalistas e repórteres, para plantar notas falsas com calúnias contra adversários políticos. Como, também, não foram poucas vezes em que se valeu da imprensa para divulgar dossiês que, regra geral, acabavam indo parar nos processos abertos pelo Ministério Público. Ou seja, na oposição, o PT tinha a imprensa como uma instituição de utilidade pública. Chegando ao Poder, o PT passou a encarar a imprensa como inimiga aos seus propósitos de poder absoluto. Não admite ser fiscalizado, rebate críticas e se indispõem contra qualquer notícia indicativa de erros por seus militantes e aliados.

Juntemos os pontos: para fazer frente à imprensa que fiscaliza e vigia e, a exemplo de outros governos, também noticia desmandos e escândalos de corrupção, desvios de dinheiro público, patrimonialismo, coronelismo, superfaturamento, licitações viciadas e contratos sem licitação que ocorrem no governo Lula, pretende o partido agora reunir seu exército de mercenários para se indisporem contra a ... imprensa. Ou seja, levantam a bandeira da democracia para agredir exatamente um dos seus pilares. E, o que é pior, agressão gratuita e injusta, já que a mesma contra a qual bradam palavras de ordem, tem sido muito mais leniente com o governo do PT do que jamais fora com qualquer outro governo. Tem sido muito mais tolerante e bem menos crítica com os desmandos, do que jamais fora com outros governos.

Dentre os últimos escândalos, cite-se um apenas que não se tenha comprovado passados alguns dias. Um apenas. Os chamados “factoides” assim classificados pela candidata governista, tiveram o dom de derrubar uma ministra e mais três assessores servindo na Casa Civil. Então, neste caso, injusta não é a imprensa que informa, e sim o governo que daria guarida a fofocas e demite seus auxiliares.

Portanto, os fatos acabaram se provando como verdadeiros, e o governo Lula, a exemplo de sua prática costumeira, mais tem servido para abafar os acontecimentos e acobertar seus larápios do que propriamente se demonstrando, realmente, interessado na apuração dos crimes noticiados. É bom lembrar o caso dos aloprados, dentre inúmeros outros exemplos. Completados quatro anos, o resultado é nenhuma punição apesar do dossiê ser real – e fajuto – apesar da dinheirama, apesar de inúmeros envolvidos apanhados em flagrante delito. Como é saudável lembrar, também, que todos os envolvidos, ou estavam ligados diretamente à campanha de Aloysio Mercadante ou ao gabinete da presidência da República, e tanto quanto se saiba, todos vão “muito bem, obrigado”.

Entenderia e aceitaria os protestos pelos quais sindicalistas e MST se movem nas ruas, se o mote dos protestos fosse para cobrarem apuração e punição para os crimes cometidos contra o país. Mas, para acusarem a imprensa porque esta “cometeu” o pecado de noticiar fatos reais de corrupção que eram cometidos no coração do poder, e porque este poder hoje está concentrado em Lula, sinceramente, não vejo outro meio de classificar tal atitude como ação mercenária.

É heresia pura, desta gente, justificar seus protestos em nome da democracia. Isto se trata de anarquia, de incitação à violência, ao desejo mórbido de verem impunes os culpados que atentaram contra a sociedade ao desviar dinheiro público para fins pessoais. Mais hipocrisia, impossível. Não tem moral para falar de democracia qualquer movimento que apele para acobertamento de crimes praticados pelo governo com o qual se simpatizam. Que o MST atue neste sentido é até compreensível, dado que, de há muito tempo, deixou de ser movimento social para transformar-se em quadrilha de bandoleiros, para a prática de ações de puro vandalismo, depredações, assalto, cárcere privado, dentre outros. Já as centrais sindicais, por mais simpatia que possam ter para com o governo Lula, deveriam eram cobrar deste mesmo governo, até por conta de sua maior proximidade, apurações sérias, com punição exemplar dos culpados e exigirem o fiel cumprimento das leis vigentes no país. Ir contra a ordem, e ainda acenarem com a justificativa porca de que estão defendendo instituições democráticas, não passa de pura vigarice que ninguém, dotado de juízo e um mínimo de bom senso, é capaz de dar crédito.

Se Lula quer se mostrar um governante realmente democrático aos olhos da sociedade, o melhor que faria seria chamar sua turma e pedir-lhes que abortassem a missão. Porque isto poderá se transformar em arma contra o próprio Lula. Não é bom nem para ele, tampouco para o futuro de estabilidade institucional do país, ver movimentos patrocinados, financiados e regalados no dinheiro público, irem para ruas protestarem contra aqueles que noticiam as falcatruas escondidas no interior do governo. Para isto existem leis, rebelar-se e afrontá-las é abrir uma perigosa avenida por onde esta estabilidade começa a se sentir ameaçada.

Além disto, parece-me que, tanto Centrais Sindicais quanto MST, ao atenderem a convocação feita pelo PT, mais fazem é lutarem para garantir seus privilégios ilegais e imorais conquistados, à custa da sociedade, no governo Lula, do que preocupados que estão com a democracia. Isto os identifica mais ainda como mercenários.

Eles se dizem democratas? Pois sim, o direito “democrático” que eles, de fato, defendem, é continuar a ter direito de assaltar nossos bolsos, não serem punidos e a imprensa, simplesmente, ignorar seus crimes, cometidos em nome do direito “democrático” de serem bandidos. E a classificação que eles merecem, é facilmente encontrada não na Constituição, mas no Código Penal... Acho que não preciso desenhar...

Centrais sindicais fazem ato contra a imprensa nesta quinta-feira

Por Leila Suwwan, para O Globo, o movimento guerrilheiro comandado pelo PT. Comentaremos no post seguinte, para demonstrar que, a par e ao contrário das “justificativas” que apresentam, o que esta gente faz é, justamente, legitimar as agressões praticadas contra a própria democracia.

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SÃO PAULO - Depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusar a imprensa de agir como partido político, as centrais sindicais, alguns sindicatos, partidos governistas e movimentos sociais farão na quinta-feira o "Ato contra o golpismo midiático", em São Paulo. O convite para o evento, divulgado pelo PT, acusa a imprensa de "castrar o voto popular", "deslegitimizar as instituições" e destruir a democracia. E não faz menção explícita à onda de denúncias de corrupção que atingem a Casa Civil da Presidência.

"Conduzida pela velha mídia, que nos últimos anos se transformou em autêntico partido político conservado, essa ofensiva antidemocrática precisa ser barrada. No comando estão grupos de comunicação que, pelo apoio ao golpe de 64 e à ditadura militar, já demonstraram seu desapreço pela democracia", diz o texto.

De acordo com o site do PT, estarão presentes líderes de sindicatos e movimentos sociais. São listados: CUT, Força Sindical, CTB, CGTB, MST e UNE. Também estão confirmados políticos de PT, PCdoB, PSB e PDT, todos partidos da coligação da candidata a presidente Dilma Rousseff.

Em comício em Campinas, no sábado, o presidente Lula acusou a imprensa de não agir de forma democrática . O discurso provocou reações da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) . Lula disse que a população não precisa mais de formadores de opinião e acrescentou: "Nós somos a opinião pública".

E continuou: "Não vamos derrotar apenas nossos adversários tucanos. Vamos derrotar alguns jornais e revistas, que se comportam como se fossem um partido político e não têm coragem de dizer que são um partido político, que têm candidato e não têm coragem de dizer que têm candidato, que não são democratas e pensam que são democratas", disse Lula, para quem os pobres não precisam de formadores de opinião.

No anúncio do ato, o PT afirma que a imprensa busca "forçar a ida do candidato do PSDB ao segundo turno". Em seguida, o convite afirma que "boatos de campanha" indicam que o "jogo sujo" irá piorar até a eleição. O ato está marcado para quinta, no auditório do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, e é patrocinado também por "blogueiros progressistas".

Dutra ironiza citando briga entre Obama e Fox News
Sem citar a denúncia de tráfico de influência e cobrança de propina dentro da Casa Civil , em um esquema que supostamente era capitaneado pela ex-ministra Erenice Guerra, braço-direito de Dilma Rousseff, o convite do evento acusa os jornais de combinar suas manchetes com o programa eleitoral de José Serra (PSDB) na televisão.

O GLOBO não conseguiu contato nesta segunda-feira com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, nem com o coordenador de comunicação da campanha de Dilma, Rui Falcão. Em seu microblog no Twitter, Dutra ironizou o tema.

"Deve ser horrível viver em uma ditadura como esta, em que o presidente ataca um órgão da imprensa", escreveu Dutra, fazendo referência, na realidade, a uma notícia de que o presidente americano, Barack Obama, está em embate com o canal de televisão conservador Fox News.

O valete e a dama no jogo do vale-tudo

Ruth de Aquino, Revista Época

A Casa Civil foi implodida por dois amigos de Dilma: Dirceu (o antecessor) e Erenice (a sucessora)

Quem tem amigos como Dirceu e Erenice não precisa de inimigos. Na explosiva semana que passou, Dilma Rousseff deve ter reavaliado sua amizade ferrenha por aloprados. Ao menos até 3 de outubro. A Casa Civil foi duas vezes implodida nos mandatos de Lula por amigos íntimos de Dilma: seu antecessor e sua sucessora. Amigos de ideologia, de luta, de confidências e de um projeto petista para o país. Ambos com língua solta e rabo preso.

Foi na Bahia que Dirceu rasgou a fantasia e saiu mais uma vez da clandestinidade a que estava condenado desde seu afastamento do governo, como chefe do mensalão. Para sindicalistas, falou tudo o que pensava, sem perceber a presença da maldita imprensa. Admitiu que a ex-ministra “não é uma liderança que tenha grande expressão popular ou uma raiz histórica”. Comemorou antecipadamente a vitória: “A eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque é a eleição do projeto político, do nosso acúmulo de 30 anos, porque a Dilma não se representa”.

Dirceu é aquele valete que sonha ser rei. Enxerga uma oportunidade de ouro para voltar com força e acabar com o “excesso de liberdade de informar” no Brasil. Dirceu não se segura – e nunca vai se segurar. O ex-ministro da Casa Civil se considera um articulador mais realista que a rainha, mas se comporta como bobo da corte. Em sua pregação para os companheiros do setor petroleiro baiano, adulou Lula, “duas vezes maior que o PT”. Apoiou, como mal inevitável, a aliança com o PMDB e seus líderes, Renan Calheiros e José Sarney, os oligarcas que Lula avalizou como homens incomuns. E, agora, conclama os sindicalistas a “ganhar a maioria”.

Com a saída de Lula, Dirceu disse para os sindicalistas que é hora de “transformar de novo o PT numa instituição política”, “abrir para a juventude”, refletir sobre o “movimento socialista internacional”. Em seu discurso, negou que esteja afastado, disse que percorre o país como dirigente petista e apoia Dilma nos palanques estaduais. Falou muitas vezes na primeira pessoa do plural: “temos que reestruturar”, “demos um piso”, “somos o maior interessado”, “somos uma candidatura”, “o pau tá comendo em cima de nós”. Somos quem, afinal, Dilma?

Dirceu levou um puxão de orelhas de Lula. Não percebeu a inconveniência ao ser sincero antes do tempo, num país onde ainda há liberdade para informar. A íntegra da fala de Dirceu foi divulgada na grande mídia, nos blogs, nos sites e nas redes sociais. Ele só não caiu como Erenice porque não tem de onde cair, não ocupa cargo nenhum. Até agora.

Lula, que tomou posse em 2002 com uma defesa emocionante da ética nas questões públicas, prometendo ser “implacável” contra a corrupção e o suborno, adotou rapidamente o argumento de que “todo mundo faz”. Mas houve momentos – como no mensalão e, agora, a “formação de família” de Erenice Guerra – em que Lula abriu mão dos anéis.

A exemplo do valete, a dama também levou um puxão de orelhas por falar demais. Ao ser acuada por denúncias de tráfico de influência, Erenice chamou o adversário tucano de “aético e derrotado”. Mas não seria essa a tônica do atual governo? Não seria este o recado do Planalto: falar o que dá na telha, atacar quando acusado, jogar palavras no ventilador, meter-se onde não é chamado? Essa parece ser a cartilha de Lula e os subordinados a seguem com muito menos astúcia, carisma e autoridade. Só quem fala de menos é Dilma, que chegou a ficar rouca de tanto se calar. E Palocci, este sim é discreto.

Mais incisivo que Dilma, Lula mandou a dama passear antes que prejudicasse mais sua candidata. Erenice vivia de braços dados com Dilma como duas comadres, especialmente após sucedê-la na Casa Civil. Os escândalos levaram Dilma a rebaixá-la publicamente como “ex-assessora”. E, na demissão, foi elogiada pela candidata: “Ela agiu certo ao se retirar para permitir investigações”. A queda de Erenice não foi atribuída por Dilma a nenhum “malfeito”. Foram-se temporariamente os anéis, ficarão todos os dedos?

A Escalada Fascista

Rodrigo Constantino, Instituto Millenium

Fruto de intensa propaganda, a imensa maioria das pessoas encara o fascismo como um regime de “direita” e, portanto, diametralmente oposto ao sindicalismo de esquerda. Não obstante, a verdade é que ambos, fascismo e sindicalismo, muitas vezes se confundem, apresentando enormes semelhanças e disputando o mesmo tipo de alma. O estudo histórico da ascensão de Mussolini ao poder pode elucidar melhor este paralelo.

Para começo de conversa, a chegada de Mussolini ao poder foi perfeitamente legal. Como explica Donald Sassoon em seu livro sobre o ditador, “Mussolini fora designado constitucionalmente, prestara juramento de fidelidade ao rei e à Constituição e apresentara seu programa de governo ao Parlamento, dele solicitando e obtendo plenos poderes”. O líder fascista controlava uma massa de militantes uniformizados que representava uma espécie de Estado dentro do Estado.

Mantendo-se nos limites da legalidade, mas permitindo investidas regulares fora dela, Mussolini seria capaz de obter o apoio estratégico de muitos grupos temerosos de um golpe comunista. Estes pensavam que Mussolini, apesar da própria retórica revolucionária, seria capaz de manter sob controle os camisas-negras mais exaltados ao seu redor. Talvez algo análogo ao que o presidente Lula sempre tentou “vender” ao eleitorado de classe média e alta, de que somente ele era capaz de “dialogar” com os radicais do MST, na verdade um braço revolucionário do próprio PT.

“Muitos camaradas, entretanto, logo seriam seduzidos pelos encantos do establishment político que haviam tentado destruir”, diz Sassoon. “Começaram a experimentar os prazeres do poder, o fato de serem temidos e invejados e a desfrutar do respeito daqueles que até então viam com admiração”, ele acrescenta. E mais: “As velhas elites, naturalmente, desprezavam Mussolini, filho de um ferreiro e de uma professora. Ficaram alarmadas com seu aspecto plebeu e sua linguagem rude e populista, mas reconheciam nele alguém disposto a se encarregar do trabalho sujo que não sabiam ou não queriam fazer. Certos intelectuais o admiravam abertamente ou não se dispunham a criticá-lo”.

A demagogia de Mussolini era escancarada: “Em 1931, exagerando absurdamente seus antecedentes de ‘homem do povo’, ele escreveu com certo orgulho que pertencia à classe dos que compartilhavam um quarto que também servia de cozinha, tendo como refeição noturna uma simples sopa de legumes”. A imagem de um homem tão humilde que se tornara primeiro-ministro era usada constantemente como material de propaganda política. Aos poucos, o poder foi sendo concentrado no “homem do povo”, e o que restava de freio constitucional foi sendo abolido. Os poucos jornais independentes que restavam foram amordaçados por uma série de restrições à imprensa. O caminho estava livre para a ditadura.

O fator nacionalista também foi crucial para a escalada fascista. O partido “imaculado” de Mussolini denunciava a incapacidade das velhas classes governantes em fazer frente às grandes potências e restabelecer a grandeza da Itália. “O nacionalismo italiano chafurdava num sentimento de inferioridade”, coloca o autor. O “orgulho nacional” seria resgatado pelos fascistas. Talvez algo parecido com o que os petistas tentam fazer com o governo Lula, alegando que nunca o Brasil fora tão respeitado lá fora, e abusando de uma retórica nacionalista. A declaração antiamericana sensacionalista do próprio presidente, falando que o “elefante” iria tremer diante do “rato”, demonstra como este nacionalismo ainda pesa por aqui.

As velhas oligarquias italianas pensaram que seria possível usar Mussolini para controlar os radicais vermelhos e continuar governando por baixo dos panos. O carismático líder fascista seria apenas uma figura decorativa, e o antigo establishment governaria na sombra, como sempre havia feito. A personalidade magnética de Mussolini irradiaria a energia do poder, enquanto quem daria as cartas de fato seriam os mesmos de sempre. Não contaram com a possibilidade de o dono da popularidade toda resolver assumir o controle do poder por conta própria.

O crescimento econômico serviu para anestesiar as massas também. “Grande parte do crescimento industrial, longe de ser uma vitória da competitividade de mercado, deveu-se ao maciço aumento das compras por parte do Estado”, explica Sassoon. E completa: “A indústria italiana mostrava-se como sempre dependente do governo”. O setor manufatureiro não estava insatisfeito com a situação, pois contava com o grande cliente certo. “O enriquecimento e a corrupção andavam de mãos dadas – tudo sob a bandeira do patriotismo”, conclui o autor. O petróleo é nosso! Viva o BNDES!

O sentimento geral era antiparlamentar, uma vez que o Parlamento era, de fato, um balcão de negociatas. “Da noite para o dia, adversários podiam ser ‘transformados’ em aliados mediante suborno direto ou indireto – razão da designação pejorativa transformismo ser aplicada ao sistema”, explica Sassoon. O “mensalão”, como se pode ver, não é tão original assim. Desenvolveu-se então um sistema de “clientelismo”, no qual “os políticos prometiam empregos aos eleitores e seguidores, proteção e um constante influxo de dinheiro público”. Todos acabaram seduzidos pelas enormes tetas estatais, inclusive os sindicatos. A Itália tinha um dos níveis mais altos de sindicalização da Europa.

Com o benefício do retrospecto, muitos tentam personalizar demais os regimes fascistas, colocando a culpa toda na figura do líder, e ignorando o amplo apoio popular que tiveram. A verdade é que havia simpatia pelos fascistas em muitos setores. A “principal fonte de apoio aos fascistas eram certamente os estudantes colegiais e universitários”, afirma Sassoon. Os industriais acabaram se convencendo de que era necessário entrar em acordo com os fascistas, pois “haviam se tornado a principal força anti-socialista do país”. Entre ter a propriedade confiscada ou ter uma ditadura que servia aos interesses do grande capital, a escolha parecia evidente.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em artigo recente, fez um paralelo entre Lula e Mussolini, lembrando que o presidente precisa de freios constitucionais para seus abusos de poder. Logo depois, entretanto, fez questão de deixar claro que Lula não tem nada a ver com Mussolini. FHC é um típico tucano, sempre em cima do muro. Mas como podemos ver, há sim muitas “coincidências” entre os dois, e se os italianos, mais educados que os brasileiros, foram vítimas do fascismo de Mussolini, nada garante que nós seremos capazes de evitar o mesmo destino. Donald Sassoon conclui:

“Mussolini poderia ter sido contido, mas aqueles capazes de bloquear a sua trajetória – os liberais, a esquerda, a Igreja, a monarquia – não souberam ou não quiseram fazê-lo, caminhando para 20 anos de ditadura como se tivessem os olhos vendados”.

Não era para acreditar

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Se alguém viu alguma promessa de seriedade na campanha da candidata Dilma Rousseff, esqueça. Foi uma falha de comunicação. Ela já negou a intenção de realizar um ajuste fiscal se for eleita. Desmentiu a notícia publicada um dia antes. Segundo a mesma reportagem, ela também poderia baixar a meta de inflação. A fonte da informação divulgada na segunda-feira foi o ex-ministro Antônio Palocci, um dos coordenadores da campanha petista. O ajuste é desnecessário, disse ontem a candidata, porque a economia cresce, a inflação está sob controle, a relação dívida/PIB está em queda e há um bom volume de reservas internacionais. Talvez ela acredite nessa história e também esse detalhe é preocupante. Nenhuma pessoa razoavelmente informada pode estar tranquila em relação às contas públicas. A dívida pública bruta continua a crescer rapidamente por causa do aumento de compromissos do governo.

Só para reforçar a caixa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram emitidos papéis no valor de R$ 180 bilhões. Mais títulos serão lançados para a capitalização da Petrobrás. Ninguém sabe qual será o montante, porque isso dependerá do preço fixado para os 5 bilhões de barris de petróleo prometidos à empresa. Pelas avaliações propostas pelas consultorias, a soma poderá corresponder a algo entre US$ 25 bilhões e US$ 60 bilhões – sim, essas cifras são dólares.

A referência ao crescimento econômico seria irrelevante, se não indicasse um critério perverso: para a candidata, assim como para vários de seus ex-colegas de governo, a chave do equilíbrio fiscal é o aumento da receita. Se a arrecadação cresce, como é normal em fases de prosperidade econômica, as contas públicas vão bem. Foi esse o padrão seguido em muitos anos: a saída é sempre arrecadar mais, nunca reduzir despesas.

Mas ela ainda faz uma concessão. Segundo a ex-ministra, nenhum tostão será destinado, em seu governo, a gastos desnecessários. Se houvesse alguma seriedade nessa promessa, a ministra deveria, caso eleita, rever imediatamente os compromissos assumidos para a realização da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016. Por quais critérios os gastos federais serão necessários?

O Brasil precisa mesmo gastar em prováveis elefantes brancos e ao mesmo tempo enfrentar os enormes custos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da exploração do pré-sal? O governo já se dispôs a participar, por meio do BNDES, da construção do trem-bala, um empreendimento de utilidade e de retorno altamente duvidosos, segundo opinião de técnicos. Enquanto isso, o quadro do saneamento divulgado na semana passada pelo IBGE continua assustador. A distribuição de água encanada melhorou muito nos últimos dez anos, mas não os serviços sanitários.

Se as concepções de política fiscal da ex-ministra forem as mesmas de seu patrono, dificilmente haverá alguma racionalidade no uso de recursos públicos. O ajuste realizado em 2003 foi uma solução de emergência, forçada pela circunstância política e executada por um ministro capaz de influenciar o presidente Lula. Nenhum outro, depois de Palocci, teve um poder semelhante. Além disso, o presidente nunca mais precisou de um auxiliar com ideias próprias – com exceção, é claro, do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Passada a emergência, predominou a noção da política fiscal orientada para o gasto. O presidente Lula várias vezes defendeu a expansão da despesa como se fosse a marca do bom governo – e, como contrapartida, sempre tomou como referência os países com grande carga tributária. Falou em planejamento muitas vezes, mas nunca renunciou ao voluntarismo.

Isso explica sua defesa da política de financiamentos do Tesouro e do BNDES. Esse BNDES não é aquele gerido racionalmente para modernizar e ampliar a capacidade produtiva e disseminar o poder de competição. É uma instituição usada, em conjunto com o Tesouro, para favorecer a fusão de grandes grupos, facilitar a compra de empresas no exterior e financiar até obras da Copa do Mundo e um trem-bala ainda sem projeto e sem custo conhecido.

Quem apoia esse tipo de política não pode seriamente prometer um controle do uso de recursos públicos. E quanto pode valer seu compromisso de trabalhar pela reforma tributária e pela racionalização dos impostos, se o seu chefe e mentor continua defendendo uma aberração como o imposto do cheque, a CPMF?

Em sua conversa com a repórter Patrícia Campos Mello, o ex-ministro Palocci mencionou pontos indispensáveis na pauta de qualquer governo sério. Mas a agenda real da candidata petista, como ela mesma indica, deve ser bem diferente.

Muita demanda para pouca poupança

Raul Velloso, O Estado de São Paulo

No Brasil existe uma longa tradição estatista, associada à desconfiança em relação ao capital privado e estrangeiro e à ideia de que o Estado pode resolver boa parte das mazelas sociais do País. Mais recentemente, ignorando a enorme escassez de recursos públicos que vigora há muitos anos no País, esse perfil foi fortalecido pela ascensão de governos com viés estatista ainda mais forte por aqui e em outros países da América Latina e pela associação espúria entre a crise econômica recente e a necessidade de maior intervenção do Estado na economia.

É nesse contexto que se vem tentando implementar o “modelo” de crescimento dos gastos públicos correntes consagrado no texto constitucional de 1988, com vistas ao “resgate da dívida social”, em que, de tempos em tempos, pressões puramente corporativas pegam carona indevida.

Além disso: 1) tem havido claro recuo das políticas liberalizantes implementadas junto ao Plano Real; 2) tenta-se reforçar o papel do Estado na expansão de setores básicos, como energia elétrica, petróleo e mesmo telecomunicações (cuja privatização foi reconhecidamente um caso de sucesso); e 3) procura-se recolocar em prática a ideia de que o Estado deve ser o grande operador no financiamento das atividades de investimento no País, notadamente das empresas estatais, mediante a colocação de títulos públicos e emprestando com juros subsidiados.

Ao contrário da China, que, segundo consta, poupa 50% do seu PIB – e onde a linha que separa público e privado é pouco nítida -, lideranças políticas querem que o setor público brasileiro, poupando muito pouco e com baixo grau de eficiência, dê conta, simultaneamente, de muitas tarefas. Seriam: diminuir a pobreza; promover a redistribuição de renda; fornecer serviços básicos de saúde e educação com subsídios ou gratuitamente; pagar o funcionalismo acima do setor privado; investir pesadamente em infraestrutura, energia, petróleo, telecomunicações, etc.; ser o principal financiador dos investimentos no País; interferir nos mercados cambiais depreciando a moeda nacional (como faz a China); sem falar no malsucedido 3.º Plano Nacional de Direitos Humanos.

O ponto central é que, para o governo fazer tanta coisa, precisa poupar muito. E essa não é nossa tradição. Último dado do IBGE para a poupança global interna: 14,2% do PIB, no início deste ano. Minha estimativa para a poupança média das administrações públicas (União, Estados e municípios, sem empresas) em 1995-2009: -0,1% do PIB (ou seja, um déficit corrente). Não é preciso recorrer a diferenças ideológicas – trata-se de mera falta de dinheiro. É preciso diminuir, e não aumentar, os gastos correntes.

Se os gastos são ineficientes, é sempre possível fazer mais com os mesmos recursos. E nada é de graça. Mesmo se fossem eficientes e cobertos por impostos adicionais, os aumentos de gastos correntes no Brasil encerrariam outros problemas: primeiro, redução de produção por causa dos próprios impostos; e, segundo, de poupança privada, não só pela queda de produção, como porque, via transferências orçamentárias, são redirecionados recursos de quem poupa mais para quem poupa menos. Resultado: queda de investimentos privados.

Sem cobertura de impostos adicionais, reduz-se a disponibilidade de recursos para investimentos públicos. Para realizá-los, só aumentando o endividamento público, à custa de subir as taxas de juros e inibir o setor privado. No final, queda dos investimentos e da taxa de crescimento potencial da economia.

Nas fases de bonança internacional, como a que vivemos entre 2003 e 2008, o aporte maciço de poupança externa resolve parte das deficiências, mas à custa de inundar de dólares o País (que, sem poupança suficiente, tem de se endividar internamente para comprá-los, e, mesmo assim, não impede a apreciação cambial com efeitos desfavoráveis sobre certos segmentos). E como nem tudo pode ser importado (especialmente serviços de infraestrutura), o congestionamento de gastos correntes públicos com o investimento privado acaba pressionando a inflação além da conta, levando, finalmente, à subida dos juros e à interrupção da retomada.

E o velho risco de insolvência pública? A crise de 2008 nos pegou com margem inédita para piorar os resultados fiscais, porque vínhamos gerando saldos acima do necessário para estabilizar a razão dívida líquida-PIB. Só que essa margem já se esgotou. E, além disso, criamos um compromisso adicional de R$ 66 bilhões que não existia antes da crise e não consta das estatísticas da dívida pública líquida de ativos financeiros. Trata-se do valor presente dos subsídios de crédito dos novos empréstimos do BNDES, conforme cálculos do próprio banco.

É curioso que, nessas condições, não haja maiores preocupações com o risco fiscal. Talvez porque haja países na Europa em situação bem pior, por não terem acumulado a citada margem para piorar. Só que lá a ameaça à unificação monetária cria um manto de proteção para os países mais fracos, enquanto por aqui a saída tem de vir mesmo é do nosso bolso.

Apenas cálculo eleitoral

O Estado de S.Paulo

No encontro que tiveram domingo à noite para tratar da revelação de uma pesada operação de traficância na Casa Civil do Planalto, o presidente Lula poderia ter determinado à ainda ministra Erenice Guerra que se licenciasse até o esclarecimento cabal da denúncia que a envolvia por tabela e, diretamente, um de seus filhos, Israel. Por muito menos, afinal, o presidente Itamar Franco afastou o ocupante do mesmo cargo no seu governo, Henrique Hargreaves - para readmiti-lo quando as acusações contra ele não foram comprovadas.

Mas Lula não parece aprender com o exemplo alheio nem com a própria experiência. Com o exemplo, no caso, porque a sua visão da ética pública não é a de princípios, mas a de resultados. E com a experiência porque, ao fim e ao cabo, não precisou pagar o preço devido, fossem outras as circunstâncias e, quem sabe, outro fosse o país, pela relutância em se privar do ministro José Dirceu, também da Casa Civil e pivô do mensalão, e do seu colega da Fazenda, Antonio Palocci, no escândalo da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

Erenice Guerra saiu daquela reunião com a cabeça no pescoço não porque o chefe, como diria, se acha "obrigado a acreditar" no que as pessoas lhe falam, e Erenice jurou-lhe por tudo o que é sagrado que era inocente. Mas porque ele avaliou que a reportagem incriminadora da revista Veja não teria o potencial de respingar na candidata Dilma Rousseff - que está para Erenice como Lula está para ela, criadores e criaturas - da mesma forma que não respingaram, a julgar pelas pesquisas, as violações em série do sigilo fiscal de parentes e aliados do opositor José Serra.

Por isso, o que o lulismo se ocupou em fazer nos dias seguintes foi desqualificar o noticiário sobre as movimentações da espaçosa família Guerra pelas pradarias do poder. Nesse exercício de mistificação e cumplicidade, Dilma levou a palma, ao afirmar que tudo se resumia a um "factoide". Sintomaticamente, a soberba de Lula, a certeza de que o seu prestígio garantiria a incolumidade da candidata, desarmou a sua apuradíssima intuição. Ele decidiu manter Erenice no lugar enquanto não surgisse um fato novo que agravasse a crise, mesmo depois de a ministra ter ido além das tamancas ao culpar um "candidato aético e já derrotado" por suas atribulações.

O fato novo não tardou a surgir. Na quinta-feira, a Folha de S.Paulo publicou declarações de um agenciador de negócios, segundo as quais Israel e a sua patota, em troca da obtenção de recursos do BNDES para um bilionário projeto de energia solar, queriam receber R$ 240 mil para acelerar a tramitação do pedido, 5% sobre o valor do financiamento, quando saísse - e, de quebra, um ajutório de R$ 5 milhões para a campanha de Dilma. Decerto achando a conta salgada demais, a firma interessada se recusou a pagar. Por sua vez, o seu agente disparou e-mails para a Casa Civil reclamando das cobranças e fazendo ameaças. Passados mais de 7 meses, falou.

Com incomum rapidez, Lula mandou Erenice se demitir. A segunda denúncia, semelhante à anterior, teria enfim convencido o presidente da responsabilidade da ministra. "Quando a gente está na máquina pública, não tem o direito de errar", proclamou. "E se errar, a gente tem de pagar." Conversa. O que o fez defenestrar Erenice - a quem havia nomeado por insistência de Dilma, quando ela se desincompatibilizou - foi o temor manifestado pela campanha petista, com base em pesquisas, de que desta vez a candidata corria o risco de ser atingida pelos estilhaços das malfeitorias do círculo da amiga em quem apregoava confiar.

A demissão de Erenice não elimina a hipótese. Os episódios expostos aconteceram quando Dilma era ministra e Erenice a sua mais íntima colaboradora. É implausível que ela não lhe tivesse contado nem uma versão sanitizada dessas histórias. Plausível, isso sim, é que Dilma não quisesse saber mais. Como Lula não quis saber detalhes do mensalão para o qual foi alertado duas vezes. A ignorância assumida é um ato de vontade política. Eles olham para o outro lado para não fitar o ambiente propício à corrupção que semearam no Planalto como parte de um projeto de poder.

O lulismo, ou a mentira como conforto intelectual

Marcos Guterman, Estadão.com

Há pelo menos três boas desculpas para os seguidos escândalos do final do mandato do presidente Lula. A primeira delas é o interesse eleitoreiro da oposição. A segunda é a versão segundo a qual o governo anterior também aprontava. A terceira minimiza os crimes, dando-lhes caráter de coisa comum.

Como toda boa desculpa, os argumentos acima servem somente para burlar a realidade, de modo a relativizar os desmandos da administração lulista, isto é, de modo a diminuir-lhes a importância ante a missão histórica que Lula julga cumprir. Tudo o que interessa, ao fim e ao cabo, é o “bem do povo”. Em nome disso, opera-se uma clara inversão moral: aceita-se como “natural” que haja corrupção, porque, afinal, “todo mundo faz” – e, ademais, a vulnerabilidade da administração pública é vista como problema menor, quando não como mera construção da “oposição golpista”, quando colocada na perspectiva das conquistas sociais do lulismo.

A experiência dos grandes regimes autoritários do século 20 mostra que eles se assentaram em modelos desse tipo. Em torno de um líder carismático, o real dá lugar à retórica, e a história é substituída pela certeza de que o passado não existe senão como prova da necessidade da revolução que o líder opera. É dele que emana o sentido de tudo – e então, aos demais, resta renunciar à razão, já que refletir sobre o real e suas contradições é tarefa que cabe somente ao líder, travestido de profeta.

A experiência desses regimes também mostra que mesmo cidadãos intelectualmente muito preparados aceitam a ideia de que o líder está ali para salvá-los da insegurança da democracia, um regime tão frágil que precisa ser cultivado dia a dia para sobreviver. No Estado autoritário de perfil totalitário, por outro lado, nada é confuso – ao contrário: é confortavelmente lógico. Se o líder determina que algo é verdade, então materializa-se a verdade, mesmo que não seja.

Desse modo, as “verdades” emanadas do líder devem ser defendidas a todo custo, porque permitir que elas sejam negadas, por meio do contraditório, significa desmontar todo o sistema de pensamento sobre o qual se assentam as mentiras usadas justamente para destruir a pluralidade democrática.

À deriva

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

É o que dá o Congresso despir-se de suas prerrogativas, a oposição não funcionar, a sociedade se alienar, a universidade se calar, a cultura se acovardar, o Ministério Público se intimidar e a Justiça demorar a decidir: perde-se a referência do que seja certo ou errado.

Chega-se ao ponto de uma testemunha dizer com todos os efes e erres que uma quadrilha de traficantes de influência funciona a partir da Casa Civil da Presidência da República e que a segunda pessoa na hierarquia, substituta da ministra hoje candidata a presidente do Brasil, intermediava contatos mediante o pagamento de R$ 40 mil mensais.

Foi essa quantia que o consultor Rubnei Quícoli disse ao jornal Folha de S. Paulo que o filho e o afilhado da ministra cobraram dele para "apressar" a liberação de recursos do BNDES.

Antes disso, a revista Veja já apresentara outro caso - menos contundente até - de venda de influência na Casa Civil, com a mesma família da mesma Erenice Guerra, até ontem ministra e, na época da transação denunciada agora, secretária executiva e braço direito de Dilma Rousseff.

Se Dilma não sabia quem era Erenice, trabalhando com ela desde o Ministério de Minas e Energia, e se Erenice não sabia o que faziam seus parentes é ainda pior. Duas ineptas a quem se pode enganar facilmente, sendo que uma delas se dispõe a dirigir a República, a fazer escolhas estratégicas e a se responsabilizar por milhares de contratações.

Quando se trata de escândalos é arriscado falar em superlativos. Sempre pode haver um maior e um mais grave no dia seguinte. Mas o governo habitualmente dá um jeito de encerrar o assunto, jogar a sujeira para debaixo do tapete de maneira a tornar tudo banal e absolutamente sem importância diante dos benefícios que recebem os mais pobres, o crédito dos remediados e as benesses dos mais ricos.

Será udenismo, farisaísmo, tucanismo, direitismo ou golpismo considerar grave a Casa Civil - o gabinete mais importante da República depois do presidencial - ser o centro de três escândalos, um pior que o outro, no período de seis anos?

No primeiro, em 2004, descobriu-se que o braço direito do ministro era dado à prática da extorsão; foi filmado pedindo propina a um bicheiro. Waldomiro Diniz foi demitido "a pedido" e nada mais aconteceu.

No segundo, em 2007, descobriu-se que fora produzido na Casa Civil um dossiê com os gastos de Fernando Henrique e Ruth Cardoso para chantagear a oposição na investigação sobre gastos da atual Presidência. Um funcionário de baixo escalão foi devolvido ao "órgão de origem".

Na época, a desfaçatez chegou ao ponto de a então ministra Dilma Rousseff dizer que telefonara para se desculpar com a ex-primeira-dama e que fora uma boa conversa. Ruth, falecida pouco depois, não desmentiu Dilma em público, mas nem houve pedido de desculpas nem a conversa foi cordial.

No terceiro, em 2010, é o que se vê e ouve. Erenice Guerra, era mais do que evidente, precisava sair para preservar a candidatura de Dilma e acalmar a grita. Não fosse a proximidade da eleição, a amiga Erenice continuaria sendo defendida como foi até horas antes de aparecer uma testemunha da tentativa de extorsão e enterrar os argumentos sobre golpes, factoides e armações.

Mesmo que seja verdadeira a inverossímil versão de que ela redigiu uma nota de resposta sem consultar nenhum capa preta do palácio, Erenice apenas seguiu o exemplo que vem de cima e carregou nas tintas eleitorais como tem mandado o figurino.

O governo fez uma conta de custo benefício e, pelo jeito, achou que sairia mais barato afastá-la. De fato, por pior que seja a repercussão e por mais que a demissão evidencie o fundamento das denúncias, a manutenção da acusada no cargo seria injustificável. Haveria três problemas: rebater as acusações, defender a ministra e explicar o que ela ainda estava fazendo na chefia da Casa Civil.

A respeito do impacto eleitoral, assim como no caso das quebras de sigilo na Receita Federal, este é o aspecto menos relevante, embora seja de espantar a indiferença geral. É que a eleição passa, o Brasil continua e toda conta um dia é cobrada.

O sucesso das emissões no exterior tem preço alto

O Estado de S.Paulo

Ontem o mercado secundário de títulos registrou uma valorização de 2,5%, sobre o preço de lançamento do bônus emitido na véspera pelo Banco Cruzeiro, e de 1,5%, sobre o preço da emissão do Global 2041, do Brasil. Essas valorizações, pouco comuns, refletem o interesse por papéis brasileiros.

Neste ano, segundo nosso levantamento, as emissões do Brasil no exterior, desde março, estão somando cerca de US$ 28,5 bilhões e não encontraram dificuldades para serem colocadas no mercado mundial. Ao contrário, o que se ouve no exterior são queixas de investidores de que as empresas implantadas no Brasil estão emitindo poucos papéis.

Não é de estranhar o sucesso das emissões brasileiras. Existe, na Europa e nos EUA, um excesso de liquidez decorrente da queda de investimentos neste período de crise. Por isso surgiu uma massa importante de poupança que procura aplicações. O Brasil oferece garantias aos investidores estrangeiros, não apenas pelo dinamismo atual da sua economia, mas especialmente pelo volume de reservas internacionais, apesar de certa deterioração das transações correntes do balanço de pagamentos.

Porém, existe um outro fator determinante para a procura de bônus brasileiros: a alta remuneração que está sendo oferecida aos investidores estrangeiros por um país que é campeão dos juros elevados.

De fato, se examinamos o retorno auferido pelos investidores estrangeiros, verificamos que varia de um mínimo de 4,101% ao ano (emissão do Bradesco) a 9,635% ao ano (Banco Mercantil do Brasil). O "yeld" depende do prazo do bônus, e a última emissão soberana, do Global 2041, ofereceu remuneração de 5,625% ao ano. E é bom lembrar que estão em estudos outras emissões: do Unibanco-Itaú, mínimo de US$ 500 milhões; da Gerdau, de US$ 750 milhões; e da CSN, de US$ 1 bilhão.

Isso explica também o aumento constante da dívida externa bruta, sendo que a oferta de títulos com renda fixa elevada atrai o capital estrangeiro. Estamos aproveitando a fase de um mercado internacional que, diante de poucas oportunidades nos países ricos, se mostrou pronto para aceitar papéis de países emergentes que ofereçam garantias.

É preciso reconhecer, todavia, que pagamos juros elevados em relação ao padrão internacional, que só nos atraem por serem mais baixos do que os praticados, aqui, por nossas instituições. Mas teremos de pagar regularmente os cupons, no quadro de um balanço de pagamentos frágil. É necessário ter consciência disso.

País de sindicalismo de cegos. Ou ‘cegados’?

Por Fernando Alves de Oliveira

Diz o adágio popular que o pior cego é aquele que não quer enxergar. E deles, lastimavelmente, o Brasil está cheio, ainda que para tristeza do País, mas de velada alegria da invulgar banda podre da classe política. É deles que é formado o imenso batalhão de inocentes úteis que se deixam enganar facilmente, acreditando piamente nessa asquerosa camada de politiqueiros mentirosos, bravateiros, desprovidos de valores morais e éticos, que buscam não só alcançar o poder, mas dele não mais se desatrelar.

Este quadro só mudará quando os governantes renderem - de forma efetiva aos governados- condições basilares de acesso e alcance à Educação e de seu contínuo desenvolvimento, na incessante forja de valores básicos de formação do caráter do cidadão, de seu efetivo e irrestrito amor à pátria, do aprimoramento de sua consciência ao pleno exercício de sua cidadania, estágio no qual ele estará então capacitado para distinguir com clareza, dentre outros importantes valores, quem é verdadeiramente quem neste malsinado quadro político brasileiro, eivado de carreiristas e oportunistas de carteirinha ou crachá.

Como é óbvio, não interessa aos governantes esses ou quaisquer outros tipos de capacitação. O que importa mesmo –e muito- é manter o povão nas trevas da ignorância e dominados por valores bem tupiniquins, do tipo samba, cachaça e futebol. Na arte da hipocrisia e da enganação eles são artífices natos. Assim, quanto o menor esclarecimento político, melhor. Que ele se contente em trabalhar como um jumento, em troca de um salário miserável, ou ser contemplado com a bolsa-miséria e que, na volta para o lar, depois de passar no bar da esquina, que se contente em assistir o jornal televisivo chapa-branca (onde somente se veicula o que interessa ou que seja do agrado do senhor feudal, que controla o verbo e a verba publicitária institucional governamental, jorrada do pote do dinheiro público) e entremeado entre duas novelinhas, que, com certeza, nunca serão perdidas pois nela são inseridas generosas cenas de sexo, traição, pederastia, além de aulas explícitas de fraudes, picaretagens, e outros componentes afins, conexos e assemelhados de como empulhar o próximo, assim como procedem os políticos (ou politiqueiros?) desse jaez.

Ao povo, dê-se pão e circo. Claro que, de preferência, o pão que o diabo tiver amassado e o circo de qualidade mambembe. Até porque do pobre, o político (ou politiqueiro?) quer o voto. Do rico, o dinheiro escuso da campanha. Escuso, porque jamais será doado sem retorno. E o retorno será em favores ou em negócios não muito claros. A única certeza aqui será que dinheiro público, como é evidente.

Nunca nesta terra de Cabral enganou-se tanto, de forma tão despudorada como às escâncaras. Antigamente, essa “classe” ainda tinha pelo menos algum zelo e reserva no balcão de negócios das coisas públicas, sendo conduzido de forma velada. Além disso, é importante salientar que o político (ou politiqueiro?) tinha nome e sobrenome. Hoje, alguns preferem o codinome associado ao do originariamente registrado no cartório civil e confirmado na pia batismal. E pelo codinome são tratados e fazem questão de serem conhecidos. Agem como verdadeiro semideuses. E julgam-se inimputáveis. Como tal, consideram-se acima do bem e do mal.

No passado, tínhamos estadistas. Nos dias atuais temos o quê, além de identificáveis oportunistas?

No passado, exercitava-se o voto de convicção. Hoje – e quando muito- é o de exclusão. Isto é, vota-se no menos pior!

A esta altura, o intrigado leitor indagará: mas por que diabos o autor efetua no título desse seu artigo uma similaridade com o sindicalismo brasileiro? É porque é dessa “nata” que o quadro político nacional ganhou especial considerável “reforço” nos últimos tempos.

O sindicalismo serviu de trampolim para que essa gente se infiltrasse na política. Alguns, mentindo escandalosamente. Provado e documentado nos anais do Congresso Nacional. Quem duvidar disso que leia em meu último livro “S.O.S.SINDICALpt – O que os contribuintes dos sindicatos e a sociedade precisam saber sobre o sindicalismo brasileiro e suas graves contradições”, ou simplesmente acessem os implacáveis arquivos da Câmara dos Deputados. Está lá, com todas as letras o engodo, o logro do governante de turno, representado pela PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 252/2000, de maio do ano 2000, dois anos e meio antes da eleição do atual governante. Confiram com a PEC-369/2005 (quando já no Governo do petismo).

Vejam o que lá está escrito e assinado. E comparem com a tal reforma sindical “para valer do PT” (do qual o referido governante é seu conhecido cacique e donatário dessa capitania hereditária) e que na verdade teve um único mote. Distribuir a metade que o governo arrecada com o rateio da contribuição sindical obrigatória com as centrais, entes espúrios na legislação prevalecente, dentre as quais figura e pontifica a CUT, braço direito do PT. Enquanto a querela jurídica derivada da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4067 prossegue sob julgamento no Supremo Tribunal Federal, as centrais já embolsaram quase 250 milhões de reais. Dinheiro público, saído do bolso do trabalhador que paga a contribuição obrigatória, dado em retribuição à cooptação de imoral e vergonhoso apoio político-eleitoral.
Há muito mais o que dizer sobre a indigência do sistema sindical brasileiro, concebido na era dos anos 40 pelo ditador Vargas e que até hoje, decorridos setenta anos, permanece incólume, por força dos lobbies daqueles que não admitem nenhuma alteração do sistema e sob o beneplácito de governantes movidos exclusivamente pelo minúsculo desejo de perpetuidade de poder, deles e de seus acólitos, em detrimento do interesse comum.

Com isto o Brasil, líder dos emergentes, ostenta o lúgubre e indecoroso galardão de um sistema sindical caduco, anacrônico, farto e rentável balcão de negócios, além de meio de vida de muita gente sem valor, especializada na arte de enganar o próximo. Como tal, vivemos a era de autêntica república sindicalista. Mais de 45% dos postos do Governo estão a cargo de sindicalistas. Isto sem contar nos que aboletaram nas estatais! E quem diz isso consta de trabalho produzido pela reputada e insuspeita Fundação Getúlio Vargas.

Não se pode admitir ou perdoar que decorridos mais de 70 longos anos, essa legislação possa ser definida e caracterizada numa só frase conceitual: trata-se de um pleno e caracterizado divórcio entre a norma jurídica e a realidade política e econômico-financeira do Brasil do século 21!

Só mesmo uma republiqueta de bananas teria algo igual. Você acha que o Brasil, ainda que de cegos ou cegados é merecedor disso?

Neste deserto de valores da representação popular contemporânea, resulta ser muito mais fácil saber em quem não se deve votar, do que em quem votar.

(*) Fernando Alves de Oliveira é consultor sindical patronal há 35 anos, autônomo e independente, e autor dos livros “O sindicalismo brasileiro clama por socorro” (fev./2001) e “S.O.S.SINDICALpt (mar/2009)” pela Editora LTr.

Uma nova oposição

Por Ipojuca Pontes

A esta altura dos acontecimentos, com a provável derrota do candidato José Serra ao cargo de presidente da República, ainda que com a possibilidade de um eventual segundo turno, já é hora de se considerar a formação de um verdadeiro partido de oposição política no Brasil, para fazer frente ao regime totalitário que se pretende implantar com a eleição da ex-terrorista Dilma Rousseff.

De fato, se faz urgente a criação de um partido de oposição não apenas nominal, de mentirinha, mas de oposição genuína, que não pense ou atue de conformidade com os valores conceituais estabelecidos pelo adversário, a exemplo do que fazem hoje o Partido Democratas e o PSDB – este. mero súcubo do partido do governo, a declarar sem o menor pudor que tem por finalidade os mesmos objetivos políticos e ideológicos do PT.

Com efeito, nos próximos anos – ou, quem sabe, nos próximos meses – precisamos organizar um partido político vigoroso, consciente e determinado, que saiba dialogar e levar às massas o entendimento de que o Estado Forte, tangido por um governo de feição coletivista, significa apenas a imposição de mais tributos, que fatalmente cairão sobre os ombros dos cidadãos, tornando-os ainda mais pobres e dependentes. Ou seja: mais escravos.

Sim, é urgente: necessitamos votar num novo partido político de oposição que se empenhe diuturnamente em demonstrar ao cidadão que só o mérito, o respeito pelo trabalho, a impessoalidade e a vigilância, afrontando e confrontando a perniciosa manipulação do Partido-Estado, poderão livrar a sociedade das garras do banditismo organizado que, uma vez no poder, só trata de saqueá-la e roubá-la para usufruir a riqueza gerada pelo trabalho alheio.

Precisamos de um partido que esclareça e advirta a população sobre o socialismo que se quer impingir ao país promovendo, em caráter definitivo, a celebração da censura, do medo, da negação de todas as liberdades, da violência, da quebra dos direitos individuais, de perseguições, espionagem, ameaças, terror, prisões e assassinatos – a exemplo do que se faz hoje na China, em Cuba, na Coreia do Norte e no Vietnã, países que se proclamam socialistas.

Precisamos de um partido que diga à população que ela não é burro de carga ou mulher de malandro para sustentar hordas de vagabundos que se apropriam dos recursos públicos e com eles vivem à tripa forra, viajando, comendo, bebendo e ganhando rios de dinheiro sem levantar uma palha.

Precisamos de um partido em que os seus representes, uma vez no plenário do Congresso nacional, discursando ou aparteando, comecem por não chamar políticos canalhas e ladravazes de “Vossa Excelência”, e tampouco de fazer conchavos partidários em benefício de corporações, grupos e indivíduos que só agem para obter privilégios em troca de propinas e mensalões.

Sim: mais do que nunca é obrigatório a formação de um partido que não tenha medo de ser estigmatizado pela pecha de ‘direitista”, uma aleivosia industriada pelas esquerdas desde que o socialista Benito Mussolini criou o fascismo e Adolf Hitler, na Alemanha, comandou o nacional-socialismo inspirado nas lições de apelo à violência administradas pelo burguês ocioso (e odiento) Karl Marx, o pai do ultrajante “socialismo cientifico”.

Precisamos de um partido que se empenhe na defesa da livre iniciativa, da propriedade privada, do pão nosso de cada dia ganho com o suor do próprio rosto - numa palavra, que ataque o Estado Forte de Lula e Dilma e defenda o capitalismo pioneiro que tem na poupança e na moderação os agentes de desenvolvimento e do progresso, sem os quais a humanidade ainda estaria engatinhando como nos tempos das cavernas.

Precisamos a todo custo de um partido que denuncie sem cessar a propaganda mentirosa do poder que deprava a alma da nação – a propaganda massiva financiada com os recursos sacados do próprio bolso do contribuinte, que, em meio ao emaranhado de promessas, se perde e acredita que o governo predador pode transformar suas vidas.

Desde já, admita-se, a tarefa de criar um partido de oposição eficiente e combativo se apresenta de forma problemática. Como diria Napoleão, um especialista em guerras, é preciso tempo, caráter, dinheiro e vocação. Mas os rombos para se combater o bom combate nunca foram tão flagrantes: o governo socialista de Lula faz da corrupção sua arma política, as instituições permanentes da República se desintegram, a violência campeia, a democracia cambaleia e a insegurança se alastra.

Ademais, ao contrário do que proclama o ufanismo totalitário, o país não atingiu no plano econômico a dimensão do nirvana alardeado. De fato, as nossas exportações para o mercado mundial, em que pese a voracidade da China, continuam estacionados na faixa de 1%, e, o que é pior, no peso da produção global caímos, entre 1995/2009, de 3.1% para 2.9%, conforme registro do “Financial Times” (10/09/2010) – o que significa dizer que em matéria de competitividade estamos na rabeira do bloco emergente e até mesmo de certos países do continente europeu.

Por sua vez, no plano da educação, continuamos a formar alunos que nem sequer aprendem a ler, escrever e somar, ao tempo em que os nossos enfermos morrem aos milhares nas filas dos hospitais públicos abandonados. No Congresso, as votações básicas e urgentes, tais como a reforma tributária e a lei que limita crescimento dos gastos públicos, adormecem nas gavetas do “impoluto” Zé Sarney, presidente do Senado.

Para completar, enquanto cresce vertiginosamente a prostituição e o trabalho infantil e aumenta a exploração da mão de obra escrava, no campo e na cidade, o PT e as centrais sindicais dentro do governo só esperam por Dilma para ampliar ainda mais o aparelhamento da máquina pública, revogar os atos que criminalizam as invasões dos “movimentos sociais” (MST e outros) e estabelecer o “controle social” dos meios de comunicação.

A julgar pela ira de Lula, o DEM, partido que ele quer “extirpar” da face da terra, ameaçou, quando da sua reestruturação, representar o papel de um autêntico partido de oposição, para logo depois passar marcha a ré no intento e servir de pau de cabeleira para o enfatuado PSDB.

Por que adiar, então, a formação de um verdadeiro partido de oposição?

Serra foi 'suave' demais e pode ser 'humilhado' nas urnas, diz jornal espanhol

BBC Brasil


José Serra errou ao não criticar mais Lula, afirma jornal espanhol

Uma reportagem na edição desta segunda-feira do jornal espanhol El País afirma que o candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, conduziu uma campanha eleitoral "suave" e "totalmente errada" e que o político corre o risco de sofrer uma "derrota humilhante" nas urnas.

No texto intitulado "A surpreendente queda de José Serra", a enviada especial do El País a São Paulo, Soledad Gallego-Díaz, escreve que competir com a herdeira política do presidente Lula, Dilma Rousseff, sempre foi uma "tarefa difícil", mas que Serra complicou sua situação por cometer muitos erros e passou de "grande favorito a futuro grande perdedor".

"Serra, de 68 anos, o bem-sucedido governador de São Paulo que passou toda sua vida se preparando para este dia e este cargo, pode enfrentar agora não só um fracasso eleitoral, como o fim de toda a sua carreira política", escreve a correspondente.

A reportagem do El País lista algumas das críticas à campanha de Serra que partiram de dentro do próprio PSDB. Segundo o jornal, o governador teria adotado uma campanha "suave" e "totalmente errada", evitando fazer oposição direta e críticas mais duras ao "presidente mais popular da história".

Serra inclusive chegou a usar a imagem de Lula em seus programas eleitorais. O jornal afirma que Serra é criticado por tentar se mostrar como "o verdadeiro herdeiro político de Lula", em vez de utilizar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na sua campanha.

O jornal também critica o primeiro slogan da campanha de Serra – "O Brasil pode mais" – considerado neutro demais.

O El País afirma que alguns dirigentes do PSDB estão mais preocupados com o resultado da campanha eleitoral para os governos de Minas Gerais e São Paulo, com as candidaturas de Antonio Anastasiae Geraldo Alckmin.

Já a campanha de Serra concentra seus esforços nos últimos dias de campanha para tentar ganhar fôlego com os escândalos que levaram à demissão da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, auxiliar próxima de Dilma Rousseff na época em que a petista era ministra.



Muitos estão mexendo no câmbio. Mais uma razão para mexer aqui

José Paulo Kupfer, Estadão.com

A conversa do pensamento mais ortodoxo de que a tendência à abertura de déficits nas contas externas não era problema, de uns tempos para cá, mudou de tom. Aqueles déficits que seriam facilmente cobertos pelo ingresso de investimentos diretos, agora preocupam. Mas, é uma estranha preocupação, que não vê saídas para mudar o rumo do que preocupa.

Não há, para os que pensam assim, o que fazer para impedir a valorização do real – a questão no centro do problema. Por quê? Vou tomar a resposta do economista Gustavo Franco, ex-BC, ao colega Silvio Crespo, aqui no vizinho blog “Radar econômico”, para sintetizar: câmbio valorizado é característica de país que se desenvolve. Isso sem falar numa série de grandes projetos consumidores de pesados investimentos – pré-sal, infra-estrutura, Copa do Mundo, Olimpíadas etc. etc. – que atraem capital externo. “Devemos pensar em como conviver com essa realidade, e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema, porque não tem”, afirmou Gustavo Franco.

Essa é outra estranheza nesse estranho modo de encarar o problema cambial. A explicação para o fatalismo da valorização da moeda é o reconhecimento de um sucesso econômico que os defensores do argumento são os primeiros a não reconhecer.

Perguntar não ofende: por que acham tão natural, a ponto de não enxergarem o que fazer para evitar, que investidores externos disputem a tapa a possibilidade de aplicar recursos aqui, se o crescimento, por conta de uma taxa de investimento insuficiente, não é sustentável, os déficits públicos, diante de uma irrefreável gastança, explodem e o ambiente para fazer negócios, poluído por burocracias kafkianas e tributos em excesso, seja uma desgraceira?

A única resposta que faz sentido tem duas variáveis. A primeira é que, mesmo com todos os problemas e possíveis riscos, a economia brasileira e seus megaprojetos de infraestrutura valem a pena. A outra é que, embora não carimbado, o dinheiro que entra, em grande medida, está de olho no ganho de arbitragem.

Neste segundo lance, para simplificar, digamos que os investidores façam o inverso do que o Banco Central brasileiro faz com a reservas internacionais. O BC toma os dólares à taxa Selic, hoje em 10,75% ao ano, e os aplica, no mercado internacional, a 2% ao ano. Os investidores externos tomam dinheiro a 2% para aplicar a, no mínimo, a taxa Selic mais a variação cambial (maior o ganho quanto maior a valorização do real).

O argumento de que não é a arbitragem de taxas que está atraindo recursos, visto que, ao longo do tempo, os juros têm recuado, mas a valorização do real continua, é típico do esquecimento parcial de certos argumentos. Sim, a taxa Selic vem caindo ao longo do tempo, mas os juros internacionais vêm caindo muito mais, mantendo, se não ampliando, a margem de arbitragem.

A taxa de câmbio, na verdade, tem se mantido relativamente estável, dentro de uma faixa valorizada. Quando o governo impôs um IOF de 2% no ingresso de capitais externos, em outubro do ano passado, o câmbio havia batido na mínima de R$ 1,69 por dólar. Com as turbulências na Europa, com epicentro na Grécia, no início de 2010, a taxa alçou a seu pico, registrando R$ 1,89 por dólar. Depois, ficou rondando esses R$ 1,70 por dólar.

Mas essa relativa estabilidade se deu às custas de um crescente acúmulo de reservas pelo BC. O enxugamento dos excessos de dólares, via operações compromissadas de compra de reservas, no entanto, tem custos fiscais crescentes e não desprezíveis e, se não afeta a dívida pública líquida, engorda direto a dívida bruta.

Não foi só a percepção de que a ampliação do volume de reservas tem limites que alimentou o traço de preocupação com o andar da taxa de câmbio e seu impacto negativo nas contas externas. Também pesou o reconhecimento de que a única saída geralmente aceita pela cartilha – a do enxugamento, via inchaço de reservas, do excesso de dólares na economia – é daqueles remédios que podem virar veneno. Quanto mais crescem as reservas, é verdade, mais os investidores externos se sentem seguros para trazer recursos.

Argumenta-se que, se o País necessita de enormes volumes de recursos externos para sustentar seus megaprojetos, não faria sentido impor restrições administrativas e fiscais ao ingresso de dinheiro externo. Mas, os mesmos que se valem desse argumento são os primeiros a levantar dúvidas sobre a política de acumular sem limites reservas internacionais. De fato, se a economia agüentou o tranco do período aguda da crise com um volume de reservas de US$ 200 bilhões, qual a validade de acumular US$ 300 bilhões ou US$ 400 bilhões, já que este almoço não é nada gratuito em termos fiscais?

Parece intuitivo, diante dessa conjuntura favorável de atração de recursos externos, que há um leque de ações possíveis para aliviar a pressão pela valorização do real, além da acumulação de reservas. Simplesmente falar mais grosso já seria um bom começo.

Há muito mais a fazer. Por exemplo: o BC já anunciou a possibilidade e seria o caso de passar a intervir no mercado com leilões de compra de moeda sem data e taxa previsíveis. Com isso, introduziria um pouco de risco num mercado café com leite, propício para a marcação de posições especulativas.

Neste momento, os bancos acumulam cerca de US$ 14 bilhões em posições vendidas em dólar. Estão, provavelmente, na expectativa de que fique por aí o volume líquido de recursos a entrar com a operação-monstro de subscrição de ações da Petrobras. Já sabem que o governo enxugará todo o excesso e, portanto, só esperam a hora de zerar as posições, estourar as champanhes e abocanhar os bônus da operação.

Algum tipo soft de controle de capitais também poderia ser experimentado – por que não? Há, nesse sentido, um leque de possibilidades, todas visando ampliar o risco inerente às operações. Uma política de fixação de prazos mínimos de permanência dos recursos ingressados – como, aliás, é feito em todo o mundo –, se cuidadosa e bem estudada, certamente promoveria uma seleção de investimentos, tornando a vida um pouco mais dura para os capitais especulativos.

Muitos, em situação pior do que a Brasil, estão mexendo no câmbio. Só nós não devemos? Aliás, se todos estão mexendo no câmbio, esta é mais uma razão para não ficarmos parado.

Diretor dos Correios se demite, mas contratos com MTA serão mantidos

O Estado de São Paulo

Coronel Eduardo A. R. Silva é ligado a empresa que presta serviço de transporte de carga aérea

Indagado sobre os contratos com a Master Top Linhas Aéreas (MTA), Matos explicou que são quatro contratos com validade de um ano, no valor de cerca de R$ 60 milhões, que serão mantidos. "A empresa ganhou a licitação, não tem porque romper os contratos, a empresa está funcionando regularmente", disse. Por fim, ele colocou à disposição da imprensa a documentação dos contratos firmados pela estatal com a MTA. "Os Correios não têm nada a esconder", disse.

Na edição desta segunda de 'O Estado de S.Paulo', o ministro havia informado que pediria esclarecimentos ao presidente dos Correios e ao ex-diretor sobre as informações veiculadas pela imprensa das relações do coronel com empresas aéreas. O coronel não compareceu à audiência com o ministro, alegando estar muito abalado emocionalmente. "Ele está com a família muito abalada", disse Matos.

Questionado sobre a justificativa dada na carta de demissão, o presidente da estatal afirmou que o ex-diretor disse que tinha expectativa de ajudar os Correios com sua experiência no mercado de aviação, mas que essa expectativa havia sido frustrada, razão pela qual ele solicitou o desligamento da empresa.

Entenda o caso
Na primeira reportagem sobre o caso, dia 29 de agosto, o Estado revelou conflito de interesses por trás da nomeação do coronel Artur. Ele assumiu um cargo que administra as contratações das empresas privadas que prestam serviços de transporte de carga aérea para os Correios, mesmo tendo presidido a Master Top Linhas Aéreas (MTA). A empresa tem contratos no valor de R$ 60 milhões com os Correios. Ao assumir, no dia 2 de agosto, o coronel entregou o comando da MTA à filha, Tatiana Blanco, o que deixou o diretor na condição de contratante e contratado.

Na edição de domingo, 19, o 'Estado' revelou que o coronel Artur é testa de ferro do empresário argentino Alfonso Conrado Rey, verdadeiro dono da MTA. Este se beneficiava do tráfico de influência feito em seu favor por Israel Guerra, filho da ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. Quando a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu a licença de voo da MTA, foi Israel quem conseguiu, numa operação que juntou tráfico de influência e cobrança de propina - como mostrou a Veja da semana passada - a certificação da transportadora.

Ex-coronel da Aeronáutica, Artur faz parte de um grupo de executivos e advogados que tem uma rede de empresas de fachada espalhadas por Uruguai, EUA e Brasil. Eles movimentam dinheiro para um casal de laranjas brasileiros, como provam documentos do Banco Central.

Os documentos mostram também que o grupo trabalha para fazer da MTA o embrião da empresa de logística e carga aérea que o governo Lula promete criar após as eleições, um negócio de cerca de R$ 400 milhões.

Ainda segundo o documento, o coronel Artur se envolveu pessoalmente no esquema montado para viabilizar a MTA no Brasil com recursos externos e driblar a legislação, que é clara: o capital estrangeiro não pode superar 20% em empresas aéreas. Por isso, foi criada, de 2005 para cá, a rede com pelo menos seis empresas de fachada com sede em apenas dois endereços: em Campinas e em Montevidéu, no Uruguai. Em outra ponta, sustentam o esquema empresas com sede nos EUA, ligadas a Rey. Atualmente, a MTA é dirigida no Brasil pelo peruano Orestes Romero. Mas no papel os ex-sogros da filha do coronel, Tatiana Silva Blanco, são os donos, na condição de "laranjas".

Ao Estado, o coronel desabafou: "Eu tenho 61 anos e estou saindo frustrado, por não poder passar meus conhecimentos para a empresa. Tudo que eu queria era consertar a rede postal noturna, sei que posso deslanchar o departamento de logística (da estatal)". Disse que seria "a primeira vez" que um aviador chegaria à direção da empresa.

"Eu poderia mudar a rede postal noturna, mas perdi a vontade. Não quero mais ir lá", disse, ao fim de seus 48 dias na estatal. O presidente da ECT antecipou que não iria tentar impedir a saída do coronel Artur. "Pedir para quê? Não vale a pena. Não adianta dizer a verdade (para a imprensa)", afirmou David Matos. "Vou chamar os dois para virem ao ministério nesta segunda, para conversar", disse Filardi.

"Família destroçada"
O coronel observou que não está se desligando da empresa "com medo de A, B ou C" ou em função das denúncias. "Se a minha família não estivesse destroçada emocionalmente, eu ia continuar lá. Não fiz nada de errado." Trazendo à memória o caso da Escola de Base, em São Paulo, o coronel prosseguiu: "Vocês acabaram com a minha vida. Não durmo direito e, quando falo com a minha mulher e minha filha, os olhos delas se enchem de água. Não aguento mais."

Ele admitiu conhecer o empresário Alfonso Conrado Rey, mas negou que seja seu "testa de ferro" na MTA. "Nunca fui dono, nem presidente, nem sócio da MTA. Me mostre qualquer documento que prove isso. Estou pronto para responder qualquer investigação". Ele negou ainda que tenha sido convidado por indicação de Roberto Teixeira, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A indicação, garante, partiu do senador Leomar Quintanilha (PMDB-TO). Leomar nega essa informação.

PONTOS-CHAVE

Nomeação
No dia 2 de agosto deste ano, o coronel Eduardo Artur Rodrigues assumiu a diretoria de Operações do Correios, numa "reformulação administrativa" comandada por Erenice Guerra

"Direto da Fonte"
Na mesma semana, a colunista do "Estado" Sonia Racy revelou a influência do coronel para viabilizar a constituição da empresa cargueira Master Top Linhas Aéreas (MTA)

Laranjas
A MTA foi registrada em nome de Anna Rosa Pepe Blanco Craddock e Jorge Augusto Dale Craddock, mas o verdadeiro dono é o empresário argentino Alfonso Conrado Rey

Esquema
No domingo, 19, o "Estado" revelou que o coronel é testa de ferro de Alfonso e faz parte de um grupo de executivos que tem uma rede de empresas de fachada espalhadas pelo Uruguai, Brasil e EUA.

Para executivo chinês, modelo brasileiro de infraestrutura é "piada"

Folha de São Paulo

Um executivo da maior construtora da China disse que o modelo brasileiro para infraestrutura é uma 'piada' e que a empresa se recusou a participar da licitação para construir o trem-bala ligando Campinas, São Paulo e Rio.

"Não acredito que uma corporação chinesa vá investir em infraestrutura no Brasil, porque não terá lucro", disse Chang Yunbo, vice-gerente-geral do departamento para o estrangeiro da CCCC (China Communications Construction Company).

Concluiu: "Pedir que uma empresa chinesa assuma um risco tipicamente governamental é uma grande piada".

As declarações de Chang, feitas durante debate sobre investimento no Brasil do Fórum Investidores América Latina China (LA-CIF), em Pequim, reforçaram a impressão, entre os presentes, de que os dois países pouco se conhecem, apesar do intenso comércio bilateral.

Chang disse que a CCCC é procurada 'diariamente' para participar de projetos na América Latina, principalmente em mineração, mas que a construtora não quer atuar como operadora ou concessionária por causa do risco de prejuízo.

"A privatização é um esquema, mas não pode estar em todos os projetos", afirmou Chang.

Por outro lado, disse que a empresa atua com sucesso há 30 anos na África e no Oriente Médio e elogiou a Venezuela, lugares onde a negociação é feita "de governo a governo". Para ele, a negociação com países caribenhos é "simples e direta".

Um dos debatedores, o ex-presidente do Banco Central Persio Arida, do BTG Pactual, disse que o Brasil oferece garantias por meio da regulamentação e que, no caso do trem, o fluxo de passageiros é um risco do investidor. Acrescentou que dificilmente as regras serão mudadas.

"O investidor chinês precisa conhecer um parceiro local que saiba correr o risco Brasil. Porque uma empresa querer investir no Brasil com o governo correndo risco, isso é uma piada", afirmou Paulo Oliveira, presidente da Brain (Brasil Investimentos e Negócios), após o debate.

Em conversa com jornalistas após o encontro, Chang disse que a empresa foi sondada para participar da licitação do trem-bala brasileiro, mas a CCCC avaliou que era demasiado arriscado. "Até agora, não vimos um operador ou concessionário que faça bom dinheiro."

Há um consórcio chinês interessado na licitação. Outros seis países mostram disposição em disputar a obra.

Na campanha, Roseana deixa de ser Sarney

Evandro Éboli, enviado especial

SÃO LUÍS - Nome que batiza ponte, avenida, praça e até uma cidade no Maranhão, o senador José Sarney (PMDB-AP) está ausente nas eleições no estado este ano. A filha e governadora Roseana (PMDB) aboliu o sobrenome Sarney na campanha à reeleição. Não é feita qualquer referência ao ex-presidente nos comícios, no programa de TV ou no material de propaganda. Ao menos publicamente, Sarney está distante do embate, o primeiro desde que estourou o escândalo dos atos secretos no Senado, em 2009.

Roseana colou sua imagem à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Os dois estão no jingle, em todos os cartazes e o tempo inteiro na TV: "É o arrastão da Dilma, do Lula e da Roseana", diz a propaganda eleitoral.

Jackson usa ator fantasiado para lembra senador
Sarney evita a campanha, mas a oposição não o esquece: ele é lembrado em seus programas eleitorais. O ex-governador Jackson Lago (PDT), cassado ano passado e novamente candidato, exibe no horário eleitoral a performance de um ator caracterizado como o senador, que sai em defesa da filha, e critica quem o acusa de pintar o bigode. "Nenhuma família é melhor do que a sua", afirma Lago, em seguida. "O Maranhão não tem dono. Vamos vencer a oligarquia", diz Dino, no programa do PCdoB, referindo-se ao senador Sarney.

Num comício em Codó, a 300 quilômetros da capital, São Luís, no domingo, Roseana acusou os adversários de apelarem para baixarias:

- Quero que vocês me defendam. Vocês têm argumentos para me defender - afirmou a governadora, em rápido discurso, após pousar em Codó num jatinho King Air de sua campanha.

Temor de governadora é disputa no segundo turno
A briga agora é para levar a eleição para o segundo turno, o que Roseana quer evitar. A governadora vai tirar licença de uma semana do cargo para intensificar a campanha. Ela sabe ser inevitável uma aliança entre Lago e Dino, se não vencer em 3 de outubro.

Em pesquisa do Ibope, da semana passada, Roseana aparece na liderança, com 46%. Há empate entre Dino e Lago, ambos com 21%.

- Não conversei com Flávio Dino sobre isso, mas não há dúvida. Estaremos juntos. Aqui você é Sarney ou anti-Sarney - disse Lago.

Sarney é do Amapá, diz assessor de Roseana
O chefe de comunicação da campanha de Roseana, Sérgio Macêdo, negou que o senador seja omitido nos programas para não prejudicar a filha. Ele argumenta que Sarney não aparece por não ser um político do Maranhão, mas do Amapá. Disse que o fato de não aparecer em horário eleitoral ou comício não significa que Sarney esteja fora da campanha. A assessoria de José Sarney, no Senado, foi procurada pelo GLOBO, mas não houve retorno do senador.

- Sarney sempre é consultado quando há necessidade. Ele não está excluído. É um conselheiro. A Roseana nunca negou que seja filha do Sarney e sempre usou somente o primeiro nome nas suas campanhas, desde 1990. Agora, o nome dela não é Roseana Filha de Sarney - diz Macêdo.

Roseana não economiza na campanha. É visível a diferença de sua estrutura para a dos concorrentes. Tem mais carros de som, bandeirolas e cabos eleitorais. Além do jatinho e de um helicóptero a seu dispor. Na prestação parcial de contas ao TSE, ela declarou receita de R$ 4,4 milhões, contra R$ 736 mil de Dino e R$ 105 mil de Jackson.

Ministros de Lula gravam para Flávio Dino (PCdoB)
O apoio do PT a Roseana é controverso e determinado por uma intervenção do comando nacional do partido. No voto, o PT do Maranhão havia aprovado adesão ao deputado federal Flávio Dino (PCdoB). Lula e Dilma gravaram depoimento para Roseana. "Você não deixaria de atender um pedido de Lula, não é mesmo? Por isso, vote Roseana", emenda o locutor.

Apesar de PT, Lula e Dilma estarem com Roseana, os ministros Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Luiz Paulo Barreto (Justiça), além do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), gravaram depoimento de apoio a Dino. O comunista se apresenta como único candidato que pode mudar o Maranhão e também manter boas relações com o governo federal, por ser de um partido aliado do governo Lula.