Adelson Elias Vasconcellos
Na exata significação do termo, mercenários são soldados que, mediante pagamento em dinheiro, se põem a serviço de qualquer governo, ou de qualquer causa. Não interessa se estarão a serviço de um tirano, ou de uma causa anárquica. Pagou, levou. São as prostitutas do barulho, de preferência, de armas em punho. O cinema tem produzidos dezenas de filmes sobre a atuação destas quadrilhas cujo ideário maior não é ideológico, não é nacionalista, não é nada, além do dinheiro.
O PT, por seu viés ideológico, sempre teve seu rebanho de mercenários e militantes. Os militantes são aqueles que se dispõem irem a luta levados pela paixão ideológica, acreditam no partido, porque acreditam nas suas ideias. Os mercenários, não. Colocam-se à disposição do partido para serem agraciados com o dinheiro que poderão ganhar se a causa vencer.
Com o governo Lula, a militância ganhou reforço substancial de mercenários. O sindicalismo pelego que, antes já lhe fazia a corte, dado que a maioria dos petistas provém do sindicalismo, e a dos sem terra, representados pelo MST, cujo apanágio é a reforma agrária usada como pretexto para a prática de crimes de absoluta barbárie, porque são raros os assentamentos coordenados pelo MST que deram certo. E, diga-se, que estes raros assentamentos exitosos, na maioria das vezes, tentam desligar-se do MST tendo em vista que, não se pode negar, há muitos que desejam, de fato, serem honestos trabalhadores do campo.
Porém, com Lula no poder – e as estatísticas estão aí para mostrar – o MST não só intensificou suas invasões sobre propriedades produtivas, como ainda tornaram suas ações cada vez mais violentas, fugindo, deste modo, das verdadeiras características de um movimento social, para se caracterizar em quadrilha. E, tudo isso, bancado com dinheiro público, o que além de patrocinar, financiar e até incitar o aumento da violência no campo – e até nas cidades, dado que o MST invade prédios públicos sem a maior cerimônia – infringe a lei de forma plena, uma vez que há dispositivos legais vedando tal prática com dinheiro público. Porém, o governo do Luiz Inácio ao invés de cortar o patrocínio, tem é feito aumentar o volume de doações ilegais.
Lula, num daqueles momentos nebulosos que se multiplicaram em seu governo, querendo agradar as massas de onde surgiu, assinou lei em que se mantinha não apenas o tal imposto sindical obrigatório, inclusive para quem não for filiado a sindicato algum – o que é um absurdo, entendo que até inconstitucional – transferindo parte da bolada para as centrais sindicais e, o que é pior, desobrigando as centrais de prestarem contas ao TCU sobre a destinação do dinheiro que, por definição, é público, portanto, sujeito a fiscalização.
No mesmo sentido, Lula passou a doar considerável soma de dinheiro público para a União Nacional de Estudantes – UNE, que um dia foi uma das muitas vozes da sociedade e que, historicamente, sempre atuou no sentido de ser um fiscal dos governantes. Hoje, totalmente aparelhada pelo petismo vagabundo, se tornou, a exemplo do MST e das Centrais Sindicais, CUT, principalmente, uma espécie de exército de mercenários a serviço do PT. Digam o que disserem tais correntes, por mais representativas que sejam, ao se filiarem a partidos políticos e por eles ser financiados, põem de lado a característica de “movimentos sociais”, já que deixam de cumprir sua função principal. Já disse aqui várias vezes que, no caso do sindicalismo, que o propósito é defenderem causas que digam respeito aos trabalhadores. Se algum sindicato pretende exercer o papel de partidos políticos está, automaticamente, se desviando de sua razão principal de ser. Neste mesmo sentido, se entende qualquer movimento que se diga social. Se atuar politicamente, sua missão passa a ser política, e, em consequência, passa a ser movimento político, e não social. O que dá a bandeira aos movimentos, não é serem ocupados por pessoas, ou a missão que ditam seus estatutos. E, sim, as ações que protagonizam na sociedade.
Não condeno que, este ou aquele movimento social, seja mais ou menos simpático a um determinado partido político, e porque esta agremiação, por seu ideário, se identifique mais com os seus propósitos. Mas daí a exercer militância política vai uma enorme distância.
Ora, qualquer movimento social deve ter em mente a luta por causas que, além de sua própria missão específica, também sirvam para solidificar e fortalecer os laços democráticos de toda uma sociedade. Democracia não é caracterizada apenas pela existência de eleições. Na Alemanha nazista havia eleições, Hitler foi levado ao poder pelo povo direto. No Brasil da ditadura militar, havia eleições legislativas diretas. São vários outros aspectos que caracterizam ser ou não uma sociedade democrática, e dentre estes, a liberdade de expressão e de imprensa, são direitos inalienáveis.
O PT, enquanto foi oposição, sempre teve na imprensa o canal condutor de suas ideias, críticas e apelos. Não foram poucas vezes em que se valeu da boa fé de alguns jornalistas e repórteres, para plantar notas falsas com calúnias contra adversários políticos. Como, também, não foram poucas vezes em que se valeu da imprensa para divulgar dossiês que, regra geral, acabavam indo parar nos processos abertos pelo Ministério Público. Ou seja, na oposição, o PT tinha a imprensa como uma instituição de utilidade pública. Chegando ao Poder, o PT passou a encarar a imprensa como inimiga aos seus propósitos de poder absoluto. Não admite ser fiscalizado, rebate críticas e se indispõem contra qualquer notícia indicativa de erros por seus militantes e aliados.
Juntemos os pontos: para fazer frente à imprensa que fiscaliza e vigia e, a exemplo de outros governos, também noticia desmandos e escândalos de corrupção, desvios de dinheiro público, patrimonialismo, coronelismo, superfaturamento, licitações viciadas e contratos sem licitação que ocorrem no governo Lula, pretende o partido agora reunir seu exército de mercenários para se indisporem contra a ... imprensa. Ou seja, levantam a bandeira da democracia para agredir exatamente um dos seus pilares. E, o que é pior, agressão gratuita e injusta, já que a mesma contra a qual bradam palavras de ordem, tem sido muito mais leniente com o governo do PT do que jamais fora com qualquer outro governo. Tem sido muito mais tolerante e bem menos crítica com os desmandos, do que jamais fora com outros governos.
Dentre os últimos escândalos, cite-se um apenas que não se tenha comprovado passados alguns dias. Um apenas. Os chamados “factoides” assim classificados pela candidata governista, tiveram o dom de derrubar uma ministra e mais três assessores servindo na Casa Civil. Então, neste caso, injusta não é a imprensa que informa, e sim o governo que daria guarida a fofocas e demite seus auxiliares.
Portanto, os fatos acabaram se provando como verdadeiros, e o governo Lula, a exemplo de sua prática costumeira, mais tem servido para abafar os acontecimentos e acobertar seus larápios do que propriamente se demonstrando, realmente, interessado na apuração dos crimes noticiados. É bom lembrar o caso dos aloprados, dentre inúmeros outros exemplos. Completados quatro anos, o resultado é nenhuma punição apesar do dossiê ser real – e fajuto – apesar da dinheirama, apesar de inúmeros envolvidos apanhados em flagrante delito. Como é saudável lembrar, também, que todos os envolvidos, ou estavam ligados diretamente à campanha de Aloysio Mercadante ou ao gabinete da presidência da República, e tanto quanto se saiba, todos vão “muito bem, obrigado”.
Entenderia e aceitaria os protestos pelos quais sindicalistas e MST se movem nas ruas, se o mote dos protestos fosse para cobrarem apuração e punição para os crimes cometidos contra o país. Mas, para acusarem a imprensa porque esta “cometeu” o pecado de noticiar fatos reais de corrupção que eram cometidos no coração do poder, e porque este poder hoje está concentrado em Lula, sinceramente, não vejo outro meio de classificar tal atitude como ação mercenária.
É heresia pura, desta gente, justificar seus protestos em nome da democracia. Isto se trata de anarquia, de incitação à violência, ao desejo mórbido de verem impunes os culpados que atentaram contra a sociedade ao desviar dinheiro público para fins pessoais. Mais hipocrisia, impossível. Não tem moral para falar de democracia qualquer movimento que apele para acobertamento de crimes praticados pelo governo com o qual se simpatizam. Que o MST atue neste sentido é até compreensível, dado que, de há muito tempo, deixou de ser movimento social para transformar-se em quadrilha de bandoleiros, para a prática de ações de puro vandalismo, depredações, assalto, cárcere privado, dentre outros. Já as centrais sindicais, por mais simpatia que possam ter para com o governo Lula, deveriam eram cobrar deste mesmo governo, até por conta de sua maior proximidade, apurações sérias, com punição exemplar dos culpados e exigirem o fiel cumprimento das leis vigentes no país. Ir contra a ordem, e ainda acenarem com a justificativa porca de que estão defendendo instituições democráticas, não passa de pura vigarice que ninguém, dotado de juízo e um mínimo de bom senso, é capaz de dar crédito.
Se Lula quer se mostrar um governante realmente democrático aos olhos da sociedade, o melhor que faria seria chamar sua turma e pedir-lhes que abortassem a missão. Porque isto poderá se transformar em arma contra o próprio Lula. Não é bom nem para ele, tampouco para o futuro de estabilidade institucional do país, ver movimentos patrocinados, financiados e regalados no dinheiro público, irem para ruas protestarem contra aqueles que noticiam as falcatruas escondidas no interior do governo. Para isto existem leis, rebelar-se e afrontá-las é abrir uma perigosa avenida por onde esta estabilidade começa a se sentir ameaçada.
Além disto, parece-me que, tanto Centrais Sindicais quanto MST, ao atenderem a convocação feita pelo PT, mais fazem é lutarem para garantir seus privilégios ilegais e imorais conquistados, à custa da sociedade, no governo Lula, do que preocupados que estão com a democracia. Isto os identifica mais ainda como mercenários.
Eles se dizem democratas? Pois sim, o direito “democrático” que eles, de fato, defendem, é continuar a ter direito de assaltar nossos bolsos, não serem punidos e a imprensa, simplesmente, ignorar seus crimes, cometidos em nome do direito “democrático” de serem bandidos. E a classificação que eles merecem, é facilmente encontrada não na Constituição, mas no Código Penal... Acho que não preciso desenhar...
