terça-feira, setembro 21, 2010

É sério: petismo já pauta palavras cruzadas de jornal de bairro

Luis Lopes Diniz Filho, Instituto Millenium

No Brasil, o aparelhamento de veículos de comunicação por partidos de esquerda é fato bastante conhecido. Em muitos casos, a cooptação se faz por meio de patrocínios ou financiamentos concedidos por estatais a empresas do setor. Em outros, trata-se de uma adesão motivada por simpatias ideológicas que, temperadas pela concepção gramsciana de “guerra de posições”, acaba transformando o trabalho jornalístico em propaganda partidária disfarçada de notícia.

Bem, pode parecer piada, mas talvez o aparelhamento esteja atingindo até um segmento pouco lembrado do jornalismo, que são os jornais de bairro. É o que sugere a leitura do Jornal Água Verde, distribuído gratuitamente no bairro de mesmo nome, onde moro, em Curitiba.

À primeira vista, um jornal desse tipo deveria privilegiar as notícias sobre o bairro e a cidade, pois já existem os grandes jornais para tratar de outras escalas. Mas, na última edição do jornalzinho, temos o artigo intitulado “A visita do Presidente da Síria ao Brasil foi Positiva”, ilustrado por uma foto de Lula ao lado do ditador daquele país. Talvez para justificar o que uma matéria dessas estaria fazendo num jornal de bairro, a avaliação positiva enunciada no título foi colhida de declarações do cônsul da Síria no Paraná e Santa Catarina. Ah, bom.

E não faltaram no artigo declarações do ditador sírio em favor do programa nuclear do Irã e elogios à política externa do governo Lula. Nem podia ser diferente, já que essa política se pauta pelo apoio incondicional a regimes autoritários, belicosos e que desrespeitam cotidianamente os direitos humanos.

Mas o viés partidário do jornal se revela mesmo é na predileção por temas políticos estaduais e, sobretudo, nacionais. Em um número recente, vê-se uma comparação sumária entre os governos Lula e FHC na qual este último é condenado textualmente à “lata de lixo da história”. Sobre a continuidade da política econômica desse governo nas gestões de Lula, entre outros continuísmos, nem uma palavra. Já na última edição do jornal, temos um artigo sobre as eleições deste ano em que o autor acusa Roberto Requião de “traidor” por haver aderido à candidatura de Osmar Dias ao governo estadual e ameaça votar nos seus “camaradas do PCB” (sic). Bem, ao menos um articulista ainda parece ter a preocupação de cobrar coerência dos seus ídolos políticos nesta era de crise das esquerdas.

E o viés partidário do jornal se revela ainda na seção de humor e, pasme-se, nas palavras cruzadas! Essa seção traz a chamada “Momentos de Terror” logo acima de duas fotos de José Serra em campanha. Já nas cruzadas, há duas palavras a serem preenchidas que merecem destaque:

Horizontais

“20. A mais grave denúncia já feita sobre o Governo de Fernando Henrique, relativa à campanha para a reeleição”.

Verticais

“18. Grupo político que mais tem a ganhar com a apuração da denúncia mencionada na chave Horizontais 20”.

E o bairro?

Enquanto isso, as questões locais são tratadas no jornal principalmente em entrevistas com políticos que moram no bairro, não por meio de reportagens. Isso é compreensível na medida em que reportagens demandam mais tempo e recursos para serem realizadas, mas o uso de entrevistas contribui para que o jornal se torne uma vitrine para políticos em busca de votos.

Na entrevista com um candidato a deputado estadual pelo Partido Verde – PV, consta o seu número eleitoral e também o endereço, telefone e site do seu comitê político, além de um site pessoal. Ao final da entrevista, pergunta-se a ele quais são seus candidatos ao senado e a resposta, óbvia, é que ele vai apoiar os candidatos do PV e do PT, que são coligados. Essa edição do jornal traz ainda uma matéria sobre Gleisi Hoffmann, justamente a candidata ao senado pelo PT. O artigo mereceu uma chamada na primeira página (com foto da candidata) e diz que ela “sempre defendeu as causas ligadas às crianças e aos adolescentes”. Mas, para demonstrar isso, limita-se apenas a citar algumas afirmações superficiais da candidata sobre os vinte anos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Sobre os problemas do bairro, nada.

Diante de tudo isso, surgem algumas perguntas. Por que um jornal de bairro dá tanta importância à política, especialmente em nível estadual, nacional e até internacional? Como esses assuntos já são tratados pelos grandes jornais, o diferencial de uma publicação de bairro não deveria estar no destaque dado às questões locais?

Bem, talvez seja porque o espaço de um bairro é limitado demais para gerar notícias interessantes em quantidade suficiente. Mas por que o jornal não supre essa lacuna abrindo mais espaço para assuntos como esporte, culinária e entretenimento, os quais são até mais populares do que questões políticas? Essa é uma boa pergunta, não?

Mas, seja qual for a resposta, uma coisa é certa: até palavras cruzadas de jornal de bairro estão sendo usadas para satanizar os inimigos políticos do PT.