terça-feira, setembro 21, 2010

Para executivo chinês, modelo brasileiro de infraestrutura é "piada"

Folha de São Paulo

Um executivo da maior construtora da China disse que o modelo brasileiro para infraestrutura é uma 'piada' e que a empresa se recusou a participar da licitação para construir o trem-bala ligando Campinas, São Paulo e Rio.

"Não acredito que uma corporação chinesa vá investir em infraestrutura no Brasil, porque não terá lucro", disse Chang Yunbo, vice-gerente-geral do departamento para o estrangeiro da CCCC (China Communications Construction Company).

Concluiu: "Pedir que uma empresa chinesa assuma um risco tipicamente governamental é uma grande piada".

As declarações de Chang, feitas durante debate sobre investimento no Brasil do Fórum Investidores América Latina China (LA-CIF), em Pequim, reforçaram a impressão, entre os presentes, de que os dois países pouco se conhecem, apesar do intenso comércio bilateral.

Chang disse que a CCCC é procurada 'diariamente' para participar de projetos na América Latina, principalmente em mineração, mas que a construtora não quer atuar como operadora ou concessionária por causa do risco de prejuízo.

"A privatização é um esquema, mas não pode estar em todos os projetos", afirmou Chang.

Por outro lado, disse que a empresa atua com sucesso há 30 anos na África e no Oriente Médio e elogiou a Venezuela, lugares onde a negociação é feita "de governo a governo". Para ele, a negociação com países caribenhos é "simples e direta".

Um dos debatedores, o ex-presidente do Banco Central Persio Arida, do BTG Pactual, disse que o Brasil oferece garantias por meio da regulamentação e que, no caso do trem, o fluxo de passageiros é um risco do investidor. Acrescentou que dificilmente as regras serão mudadas.

"O investidor chinês precisa conhecer um parceiro local que saiba correr o risco Brasil. Porque uma empresa querer investir no Brasil com o governo correndo risco, isso é uma piada", afirmou Paulo Oliveira, presidente da Brain (Brasil Investimentos e Negócios), após o debate.

Em conversa com jornalistas após o encontro, Chang disse que a empresa foi sondada para participar da licitação do trem-bala brasileiro, mas a CCCC avaliou que era demasiado arriscado. "Até agora, não vimos um operador ou concessionário que faça bom dinheiro."

Há um consórcio chinês interessado na licitação. Outros seis países mostram disposição em disputar a obra.