terça-feira, dezembro 24, 2013

ESPECIAL DE NATAL



Como é tradição, COMENTANDO A NOTÍCIA apresenta sua EDIÇÃO ESPECIAL DE NATAL, com histórias, curiosidades, contos e vídeos no intuito de celebrar, com muita emoção, a festa maior da Cristandade.

É a nossa forma carinhosa de desejar a todos os amigos do blog, Um Natal Maravilhoso, e que o espírito de amor universal possa habitar todos os corações não apenas um dia único do ano, mas em todos os momentos de nossas vidas, para que a fraternidade ungida pelo amor ao próximo, lição derradeira legada por nosso irmão  maior, JESUS CRISTO, transforme o mundo numa verdadeira aldeia de comunhão com a Paz e a Justiça Celestial . 

BOAS FESTAS A TODOS LEITORES !!!


VÍDEO: Sandi Patty e The Mormon Tabernacle Choir - O Holy Night






Sandi Patty e The Mormon Tabernacle Choir apresentam  um especial de Músicas de Natal com The Orchestra at Temple Square, Bells on Temple Square, e a Banda  Força Aérea dos Estados Unidos

Programa: 
1. Joy to the World
2. Carol of the Bells
3. O, Come, All Ye Faithful
4. I Saw Three Ships
5. Sleigh Ride
6. The Spoken Word
7. Silent Night
8. O Holy Night

O que a história tem a dizer sobre Jesus

Guilherme Rosa
Veja online

Pesquisas de historiadores ajudam a confirmar que, de fato, Jesus caminhou sobre a região da Galileia há 2.000 anos. As descobertas, no entanto, não devem satisfazer aqueles que levam a Bíblia ao pé da letra

(Reprodução) 
Ao longo dos séculos, Jesus foi interpretado de maneiras diversas por religiosos,
 artistas e governantes. O trabalho dos historiadores é deixar toda essa carga
 teológica para trás e encontrar o homem e a mensagem que deu origem a tudo

O pesquisador americano Joseph Atwill é categórico: Jesus não passa de um mito. O personagem, suas palavras e ações fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus — um povo envolvido em sucessivas rebeliões contra o império. Atwill apresentou suas ideias em outubro, numa conferência realizada em Londres, na Inglaterra. "Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade missionária fervorosa entre os judeus era criar um sistema de crenças que competisse com o deles", afirmou.

Joseph Atwill não é um acadêmico da área — sua formação é em ciências da computação. Ele não publicou suas pesquisas em periódicos científicos e suas ideias estão longe de ser apoiadas por seus pares. No entanto, sua teoria recebeu atenção mundial, e foi debatida entre pesquisadores, jornalistas e religiosos. Seu poder está no fato de ela ser o capítulo mais novo de uma antiga discussão — com quase 2.000 anos de idade — sobre qual é a verdade por trás de Jesus, seus feitos, milagres e mensagem.

Para Atwill, a ideia de que Jesus não passaria de uma montagem histórica deveria funcionar como um duro golpe aplicado pela ciência contra a ignorância propagada pela religião. "Embora o cristianismo possa ser um conforto para alguns, ele também pode ser muito prejudicial e repressivo, uma forma insidiosa de controle mental que levou à aceitação cega da servidão, pobreza e guerra ao longo da história", diz. Seu erro é que a existência de Jesus não é mais uma questão de fé, mas de ciência.

Os acadêmicos da área — historiadores das mais prestigiadas universidades do mundo — afirmam restar poucas dúvidas sobre a questão. "Volta e meia aparecem essas hipóteses sobre Jesus ser um mito. Mas, do ponto de vista metodológico, parece bastante claro que ele realmente existiu", diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução e Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.

Jesus histórico — 
Os historiadores deixam claro que o personagem estudado por eles não é o mesmo da religião. Eles estão em busca de informações sobre o homem chamado Jesus, que viveu na Galileia há 2.000 anos e em torno do qual foi criada a maior religião do mundo. “Os historiadores não buscam um ser divino, que é impossível de quantificar, medir e avaliar. O Jesus da história é estritamente humano“, afirma Chevitarese.

Nessa busca pelo Jesus histórico, a perspectiva dos pesquisadores lembra a de São Tomé, o apóstolo que duvidou de Cristo e exigiu provas de sua ressurreição. Do mesmo modo, os historiadores não podem acreditar cegamente no que dizem as religiões e seus líderes, mas devem embasar tudo que afirmam em evidências. Essas provas não precisam ser, necessariamente, físicas, como a descoberta de uma ossada ou um túmulo. "Se esse critério fosse adotado, 95% dos personagens históricos não seriam reconhecidos", diz o pesquisador.

Hoje, o critério mais importante que os pesquisadores possuem para atestar a existência de Jesus é o da múltipla confirmação: autores diferentes, que nunca se conheceram, afirmam fatos semelhantes sobre o personagem.

Os textos mais antigos sobre Jesus datam do século I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. A exceção é Flávio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a história do povo judaico, desde o Gênesis até sua época. Ele cita Jesus, João Batista e Tiago (irmão de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messiânicos na região da Galileia.

No século seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. "Esses dados servem para mostrar que não estamos no campo da mitologia. São autores judeus e romanos, que nunca se tornaram cristãos, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus é um personagem histórico."

O homem — 
A esses textos se somam descobertas recentes da arqueologia que fornecem informações precisas sobre o tempo e o espaço em que Jesus viveu. Os dados não são abundantes, mas permitem esboçar como se pareceria esse personagem histórico real. "Não podemos afirmar exatamente a cor de pele e cabelo de Jesus. A partir dos mosaicos e dos afrescos que retratam outros romanos, judeus e sírios que viviam no mesmo ambiente, a tendência maior é de vermos um Jesus de cabelos preto, com a pele queimada por causa de sol", diz Chevitarese.

Segundo a maior parte dos historiadores, Jesus não nasceu em Belém, como afirmam algumas passagens bíblicas, mas em Nazaré — uma pequena aldeia montanhosa da Galileia, cuja população era camponesa e girava em torno de 500 indivíduos. "A aldeia não tinha nenhuma relevância política, não possuía construções públicas ou sinagogas. Os escritores dos Evangelhos mudaram o lugar por razões teológicas, para que o nascimento de Cristo confirmasse algumas profecias do Antigo Testamento."

Jesus teria nascido na pequena vila em torno do ano 4 A.C., e teria passado a maior parte de sua vida na região, sem nunca pisar em uma cidade grande. A exceção acontece quando ele entra em Jerusalém — ato que teria como consequência sua crucificação pelas autoridades romanas. Sua morte deve ter acontecido por volta dos anos 35 e 36 D.C., pouco tempo depois de João Batista também ter sido morto pelos romanos, segundo a narrativa de Flávio Josefo.

A mensagem — 
Segundo os historiadores, tão importante quanto quem era Jesus é o que ele dizia — foi sua mensagem poderosa que repercutiu em todo o mundo e, séculos mais tarde, deu origem às diversas vertentes religiosas. "Ele era um camponês pobre que, diante das injustiças que o mundo apresentava, defendia a instauração do Reino de Deus — um reino de justiça e fartura, sem hierarquias sociais", diz Chevitarese.

A mensagem espiritual — e messiânica— de Jesus era voltada especialmente aos judeus de seu tempo. Ela, no entanto, adquiria caráter político ao afrontar o Império Romano e setores da elite judaica. Foi justamente a força dessa mensagem, e os rebanhos que ela poderia angariar, que levaram à sua crucificação e morte. Como aconteceu muitas vezes na história, no entanto, o assassinato de Jesus não conseguiu matar suas ideias.

Jesus teológico — 
Jesus nunca chegou a colocar suas ideias no papel (nem poderia, os historiadores afirmam que ele era analfabeto). A maior parte do que chega aos dias de hoje sobre o personagem e suas ideias foi escrito por seguidores das primeiras comunidades cristãs, duas ou três gerações depois de sua morte. Os autores não estão preocupados em transmitir uma versão fiel dos fatos, como uma biografia, mas em defender os pressupostos de sua fé. Assim, os primeiros cristãos que escrevem sobre Jesus — os evangelistas — já não estão fazendo história, mas teologia. 

Nessa época o cristianismo começava a se distanciar do judaísmo em que ele estava originalmente inserido, e a se aproximar do Império Romano — o que exigiu algumas mudanças em sua mensagem. "Ao serem escritas, suas ideias começam a ser diluídas, pois vários filtros são impostos. Primeiro, Jesus é um indivíduo de fala aramaica, mas quase tudo que conhecemos sobre ele está escrito em grego. Além disso, os textos são destinados a convencer um público urbano, muito diferente dos camponeses para quem Jesus pregava", diz Chevitarese.

Com o passar dos séculos, isso abriu margem para que vários teólogos interpretassem as escrituras de maneiras variadas, criando as inúmeras vertentes do cristianismo que se encontram nos dias de hoje. Assim, a depender de quem faz a homilia, Jesus pode ser visto como um personagem sagrado ou humano, santo ou falho, foco de paz ou de guerra, de fundamentalismo ou de liberdade.

É por isso que o estudo do Jesus histórico é importante. "Ele pode ajudar a colocar um freio naqueles que querem transformar pressupostos teológicos em verdades históricas", diz Chevitarese. Seu objetivo não é acabar com a teologia ou retirar da história de Jesus seu caráter espiritual. O que a ciência faz é descobrir o que, de fato, pode ser afirmado sobre o homem e sua época. As muitas lacunas que permanecerão abertas apresentam mistérios suficientes para que a religião possa se instalar. 

  • Os autores dos Evangelhos conheceram Jesus? 


A maior parte dos historiadores concorda que nenhum dos evangelistas foi testemunha ocular da vida de Jesus. Os Evangelhos, na verdade, faziam parte de uma grande variedade de textos que circulavam nos primeiros séculos depois de Cristo e representavam o que algumas das comunidades cristãs pensavam (os Evangelhos que foram deixados de lado pela tradição católica se tornaram conhecidos como apócrifos).

Os textos têm autoria anônima, e os pesquisadores possuem poucas informações sobre sua exata origem geográfica. O que se sabe é que eles foram criados a partir de relatos, memórias, tradições e textos mais antigos, que circulavam entre as primeiras comunidades cristãs. Eles teriam sido escritos entre o ano 60 e o 120, e só no século II é que seus autores foram atribuídos — o primeiro Evangelho a Marcos, e o último a João.

Com o passar dos séculos — e com a ortodoxia cristã tendo relações cada vez mais próximas ao Império Romano — surgiu a preocupação de delimitar exatamente quais os textos que guardavam a memória verdadeira sobre Jesus. Por volta do século IV, depois de sérias disputas teológicas, a Igreja finalmente escolheu quais haviam sido inspirados por Deus — criando o cânone do Novo Testamento. "Decidiu-se assim quais textos seria destruídos e quais preservados, e quais tradições cristãs seriam perseguidas e quais aceitas pela Igreja", diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros "Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução" e "Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos" (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.

Dentre os textos do Novo Testamento, aqueles que os historiadores atribuem, de fato, a alguém que conviveu com Jesus são as encíclicas escritas por Paulo — pelo menos sete delas teriam sido ditadas pelo apóstolo. "Na forma como o Novo Testamento está organizado, os quatro Evangelhos aparecem antes dos textos de Paulo. No entanto, as encíclicas foram escritas primeiro. O pesquisador tem de começar a ler por elas — assim fica mais fácil entender a evolução das primeiras comunidades cristãs."

  • Como era a família de Jesus? 

A família de Jesus é citada em diversos pontos das escrituras, de Maria e José até seus irmãos e primos. No Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, seus parentes são mostrados de forma bastante distanciada. Em certo momento, eles tratam Jesus como maníaco, afirmando que suas atividades como pregador só poderiam ser fruto da loucura. Jesus se afasta, e passa a defender uma nova percepção de família, formada por aqueles que estão juntos dele, fazendo a vontade de Deus.

Nos outros Evangelhos, no entanto, a família é mostrada como sendo muito mais próxima do movimento de Jesus — com destaque especial para a figura de Maria, presente em momentos-chave da história. Em Atos dos Apóstolos, o livro bíblico que narra o que acontece com os discípulos após a ressurreição, a família recebe ainda mais destaque: os parentes de Cristo estão entre os principais pregadores da nova religião cristã que passa a ser construída. Dessa vez, o destaque fica para Tiago, irmão de Jesus e um dos principais líderes do cristianismo primitivo.

"Do primeiro texto, em que a família vê Jesus como um louco, ao último, onde são eles que levam adiante o cristianismo, parece haver uma contradição — mas não necessariamente. Pode ser que, com o passar do tempo, a família tenha se reaproximado de Jesus, e tomado seu lugar na Igreja", diz André Chevitarese.

A citação bíblica aos irmãos de Jesus é alvo de grandes discussões entre acadêmicos e teólogos, pois pode afrontar uma das principais crenças da igreja católica: a da virgindade de Maria. Ao longo dos séculos, os teólogos católicos esboçaram possíveis explicações para isso. Uma delas diz que eles seriam, na verdade, meios-irmãos de Jesus, filhos de um primeiro casamento de José. Outra explicação afirma que o termo grego utilizado no texto bíblico original pode significar tanto primo quanto irmão, e teria havido uma confusão nas traduções.

Essa segunda interpretação também pode estar correta. "A noção de família que se apresenta no contexto do século I mediterrâneo é muito diferente da atual. Ela é uma família extensiva, onde todos os parentes orbitam em torno de uma figura masculina mais velha. Nesse ambiente, o primo pode, sim, ser um irmão."

  • João Batista existiu? 

Assim como Jesus, João Batista é um personagem histórico. Segundo diversas fontes da época, ele era um importante pregador judeu que viveu na Galileia durante o século I. O tipo de movimento messiânico comandado por João e Jesus era bastante comum na época. Esmagados pelo Império Romano, os camponeses judeus eram levados a esperar pela intervenção de um salvador que fosse mudar os rumos da história. O historiador judeu Flávio Josefo cita dezenas de candidatos a messias em seus textos.

Segundo as fontes históricas, o movimento liderado por João Batista chegou a ser, por certo tempo, mais importante que o de Jesus. "O número de páginas que Josefo dedica a Batista é muito maior do que o dedicado a Jesus. O historiador narra como Herodes reconhece sua força e manda matá-lo. Isso mostra que era Batista quem realmente desafiava Roma em sua época", diz André Chevitarese.

Na verdade, segundo os historiadores, Jesus pode ter sido um discípulo de João Batista — teria sido com ele que aprendeu a batizar, exorcizar e a desafiar as autoridades romanas. Acontece que, em algum momento, discípulo e mestre romperam. "As ideias dos dois eram muito diferentes. Enquanto João acreditava em preparar o caminho para um personagem divino intervir na história, Jesus dizia que essa personagem já veio, e era ele mesmo", diz o pesquisador.

Os próprios Evangelhos podem servir para mostrar o quanto João Batista era importante em seu tempo histórico. Segundo os pesquisadores, a necessidade que os evangelistas demonstram ter de citá-lo em seus textos se deve ao fato de sua memória ainda continuar forte no século I. Assim, os autores precisam mostrar que esse personagem, que até então permanecia independente do cristianismo, poderia ser amarrado à sua própria teologia. "Os cristãos tiveram a necessidade de mostrar que João Batista enxergou em Jesus o Messias. Assim, eles conseguiram demonstrar ainda mais o valor de Jesus."

  • Jesus sabia ler? 

Jesus demonstra saber ler em dois momentos da Bíblia. O primeiro deles acontece no Evangelho de Lucas, quando ele entra em uma sinagoga na cidade de Nazaré e começa a ler textos escritos pelo profeta Isaías. O segundo é mostrado no Evangelho de João, onde Jesus aparece escrevendo. Logo depois de intervir no apedrejamento de uma mulher — usando o conhecido desafio de "quem nunca tiver pecado que atire a primeira pedra" — ele se abaixa e começa a escrever no chão.

O problema é que ambos os trechos apresentam problemas. Não existe nenhum indício de sinagoga em Nazaré e, mais importante, o verbo grego para ler é o mesmo para memorizar — Jesus poderia simplesmente ter decorado a passagem de Isaías. Ao mesmo tempo, o trecho tirado do Evangelho de João (capitulo 8, versículo 8) é bastante discutido entre os pesquisadores. Muitos deles vêm a passagem como uma alteração tardia feita à Bíblia, adicionada já no século V.

A verdade é que as estimativas dos historiadores mostram que entre 95% e 98% da população que vivia naquela região do mediterrâneo era analfabeta. Seria natural que Jesus, um camponês pobre que nasceu e nunca saiu daquele ambiente, estivesse dentro dessa estatística.

"Na verdade, o maior incômodo com o fato de Jesus ser analfabeto vem do mundo contemporâneo. Hoje, se assume que uma liderança — politica, religiosa ou econômica — precisa ter feito até faculdade, quanto mais saber ler. Mas essa não era uma demanda dos discípulos."

  • Qual era a religião de Jesus? 

"Jesus nasceu judeu, viveu judeu, e morreu judeu", responde André Cheviterese. Foi só nos séculos seguintes à sua morte que a Igreja começou a se distanciar do judaísmo e a se aproximar do Império Romano. Nesse processo, a teologia cristã vai se tornando cada vez mais arredia aos judeus, resvalando até no antissemitismo — o que transparece nos Evangelhos, principalmente no de João.

"Acho que a base para se entender isso está na tensão que é criada entre a comunidade cristã joanina [que se pretendia seguidora do apóstolo João] e a religião judaica. A partir da década de 80 do século I, seu proselitismo se torna tão agressivo que eles são expulsos das sinagogas. A partir daí, se tornam muitos hostis", diz o pesquisador.

Assim, no Evangelho de João (capítulo 8, versículo 44), Jesus se refere aos judeus como Filhos do Diabo, adoradores de um Deus homicida e mentiroso. Do mesmo modo, a narração deixa de mostrar Jesus sendo morto de forma sumária pelos romanos. Segundo os textos, ele é assassinado a pedido dos judeus — Pôncio Pilatos até lava as mãos.

"Essas passagens não deixaram de ser repercutidas desde então, e foram usadas, inclusive, para perseguir os judeus. Por sorte, a Igreja se desviou dessa visão nas últimas décadas", afirma o historiador.

  • Jesus seria casado com Maria Madalena? 

Maria Madalena é uma das figuras mais importantes e disputadas de todo o cristianismo. Ela costuma ser usada como a prova de que Jesus teria apóstolos e apóstolas — o que contraria a doutrina religiosa de só permitir padres do sexo masculino. Mais que isso, ela é uma personagem central dos Evangelhos, pois é a primeira a visitar o sepulcro de Jesus e perceber que seu corpo não estava lá — e a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado.

Do século I ao IV, houve uma grande disputa dentro do cristianismo para decidir se mulheres poderiam ou não assumir funções de proeminência nos ritos religiosos. "No ano 591, o papa Gregório Magno proferiu uma homilia onde juntava duas personagens diferentes citadas no Evangelho de Lucas. Ele afirma que uma mulher vista como pecadora (uma prostituta) e Maria Madalena eram a mesma pessoa. Desse modo, sugere que as mulheres são demoníacas", afirma Chevitarese. 

No século XIX, a Igreja finalmente voltou atrás: Maria Madalena deixa de ser prostituta e é promovida a santa. Mesmo assim, sua imagem como pecadora continua entranhada no imaginário cristão.

Quanto às teorias que defendem seu casamento com Jesus, elas têm origem em uma passagem do Evangelho de Felipe, um dos livros apócrifos, onde os dois personagens aparecem se beijando. "Analisando esse trecho com os olhos de hoje, alguns pesquisadores enxergaram um elemento erótico na cena. Mas no mesmo evangelho Jesus beija seus apóstolos homens. Isso não tinha nada de anormal. Usar isso para afirmar que Jesus tinha um caso com Maria Madalena passa longe de fazer história."

  • Jesus foi traído por Judas? 

Os pesquisadores costumam concordar que Jesus foi traído e entregue por um de seus discípulos para o exército romano. Mas o traidor é desconhecido. A figura de Judas — desde seu nome até seus trejeitos — parece ter sido criada sob medida para objetivos teológicos.

"Ele é fruto de uma teologia evidentemente antijudaica. Seu nome remete a Judá, a Judeia. Suas características também vêm das caricaturas que se fazem dos judeus: ele ama o dinheiro, é traidor e ladrão. Do século 2 em diante, isso vai, de novo, ser usado como ferramenta antissemita. Quando pensado em seus efeitos de longo prazo, isso é muito cruel. É só lembrar da malhação de Judas, por exemplo", diz Chevitarese.

As próprias narrativas da morte de Judas servem como exemplo de que o personagem é mais fruto da teologia do que de história. No Evangelho de Mateus, ele se enforca. No Ato dos Apóstolos, ele tropeça, rasga a barriga e morre. E nos textos de Papias, um autor cristão contemporâneo ao Evangelho de João, ele come até explodir.

  • Jesus foi crucificado? 

A crucificação é, sim, um fato histórico. Já o contexto que a cerca, como o julgamento de Jesus e a via-crúcis, não é.

Ser pregado em uma cruz era a penalidade aplicada pelos romanos aos escravos que matavam seus senhores, aos escravos que se rebelavam e aos rebeldes políticos — categoria onde Jesus poderia ser facilmente incluído. O historiador Flávio Josefo, por exemplo, cita uma cena onde milhares de judeus foram crucificados após uma rebelião em Jerusalém.

Quanto à Via Crúcis e ao julgamento, eles dificilmente seriam realizados pelo governo romano naquelas circunstâncias. Jesus foi preso em Jerusalém, na sexta-feira que antecede a Páscoa. Acontece que nessa época do ano a cidade estava lotada de judeus de todos os cantos, desde o Mediterrâneo até o Oriente Médio, vindos para as festividades. Além disso, a Páscoa judaica não é uma festa apenas religiosa, mas também política — ela celebra a passagem dos hebreus da escravidão para a liberdade. 

"Nesse ambiente explosivo, é claro que as autoridades romanas não iam prender uma liderança judaica, fazer um julgamento público e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pela cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária, um tiro no pé", diz Chevitarese.

Pôncio Pilatos é um personagem histórico. Os pesquisadores sabem, a partir de escavações arqueológicas da década de 1960, que ele realmente foi um procurador romano radicado na região da Judeia. Mas não existe nenhum registro dos ritos seguidos pelo personagem na Bíblia. As autoridades romanas, por exemplo, nunca se ofereceram para soltar um prisioneiro judeu, a gosto do público. "Essas passagens foram colocadas para reforçar o caráter messiânico de Jesus. Elas são baseadas em profecias do Antigo Testamento, mas sua plausibilidade histórica é zero."

VÍDEO: Libera Sings interpretam canções de Natal.







Data da festa do Natal tem origens pagãs

Martin Koch 
Deutsche Welle

Na Alemanha, como no Brasil, é na véspera de Natal que se presenteiam parentes e amigos. Mas a festa é em 25 de dezembro, quando, em outros países, também transcorre a troca de presentes. Por que o Natal cai nesse dia?


A questão do Natal é parecida com o mistério da concepção da Virgem Maria. Ninguém sabe ao certo como aconteceu. Nos primeiros séculos da nossa era, havia na Palestina até mesmo cristãos que comemoravam o nascimento de Jesus em maio. Tradição, aliás, que muitos alemães até pensam não ser uma má ideia, considerando o estresse de fazer as suas últimas compras de Natal enfrentando o frio e ruas abarrotadas de neve.

Natal invernal desde século 4º

Nascimento de Jesus já foi comemorado em maio

A tradição de se festejar o Natal durante o inverno europeu foi estabelecida no século 4º. Em 336, o 25 de dezembro é mencionado oficialmente pela primeira vez como o aniversário de Jesus. Mas o motivo dessa escolha é discutido pelos estudiosos até hoje. Alguns dizem que a data decisiva para o cálculo foi o 25 de março, quando dia e noite têm duração igual.

A data já tinha significado importante na era pré-cristã, e os cristãos tomaram posse dela, como o dia em que um anjo anunciou a Maria que ela teria um filho. Nove meses depois, e estamos no dia 25 de dezembro.
Mas que ninguém pergunte como se sabia que o anjo apareceu exatamente no dia 25 de março, ou por que uma concepção divina deve necessariamente durar nove meses.

Cristãos reciclaram costumes de outros povos
A teoria mais difundida sobre o Natal no fim do ano evoca a "Festa do Sol Vitorioso", que os povos germânicos comemoravam no dia 21 de dezembro com muitas luzes. Eles temiam que o mundo saísse dos eixos, devido à longa escuridão e, com tochas e velas, garantiam que isso não fosse acontecer, durante a noite mais longa do ano.

Árvore de Natal também tem origem em tradição pagã

Consta que os espertos cristãos se apoderaram desse simbolismo de luzes e colocaram o nascimento do Messias, seu redentor, simplesmente na mesma data, dando um novo significado às festividades germânicas. Afinal, no Antigo Testamento o Salvador é, de fato, designado como a luz que virá ao mundo.

E como essa apropriação funcionou tão bem, os cristãos decidiram ao longo dos séculos também ir se apoderando de vários outros costumes pagãos. Um exemplo é a sempre verde árvore de Natal, símbolo da fidelidade e da esperança, enfeitada com luzes como sinal dos planos de Deus para salvar a humanidade.

Na Alemanha, assim como no Brasil, é na véspera de Natal que se presenteiam parentes e amigos, com a diferença de que os alemães não costumam esperar até a meia-noite. Porém o feriado é em 25 de dezembro, quando, em muitos países, também acontece a troca de presentes.

Revisão: Augusto Valente

Por que Papai Noel ainda fascina

Camila Brandalise
Revista Istoé

Nos dias de hoje, com os tablets, smartphones e videogames dominando o universo infantil, a magia do Natal resiste e é fundamental para o desenvolvimento das crianças


INFÂNCIA 
Até os 7 anos, a criança entende o mundo por meio do imaginário e do fantástico

No dia 25 de outubro, dois meses antes do Natal, o capixaba Ryan Lucas Teixeira da Silva, 9 anos, colocou seus brinquedos de lado, se sentou em uma mesa, pegou papel e caneta azul e começou a escrever uma carta para o Papai Noel. “Minha família é maravilhosa e me dá tudo o que eu preciso, por isso quero que o senhor entregue meu presente a uma criança que precise mais do que eu”, pediu. No final da mensagem, se despediu desejando feliz Natal ao destinatário, aos seus ajudantes e a todas as crianças do mundo. Nessa época, a fantasia do Papai Noel povoa o imaginário infantil. Prova disso é que os Correios estimam receber, só neste ano, cerca de um milhão de cartas de todo o País endereçadas a ele. Imagens do velhinho simpático vestido de vermelho estão por todos os lados. Enquanto isso, a maioria das crianças ouve dos adultos que ele será o responsável por trazer os presentes na noite de Natal. Chegará solenemente num trenó, conduzido por elegantes renas, entrará nas casas de todo o mundo, numa mesma madrugada, depositando os sonhos infantis sob as árvores iluminadas.


  
Mas, diante de uma geração tão familiarizada com as novas tecnologias e que parece saltar a etapa da infância dedicada à fantasia, uma dúvida dos pais é recorrente: ainda faz sentido incentivar o mito do Papai Noel?

Para os especialistas, a resposta é sim. Até os 7 anos, as crianças vivem o período do desenvolvimento cognitivo, em que seu entendimento do mundo acontece por meio do imaginário, do fantástico. Reproduzir a história do Papai Noel, um personagem caloroso e solidário, seria uma maneira de estimular a criatividade e inserir no universo infantil valores como a benevolência e a preocupação com o bem-estar do outro – ensinamentos que o pequeno Ryan parece ter assimilado muito bem. “Não se pode ficar preso à questão concreta, do presente. O bacana de ter a figura do Bom Velhinho é passar a ideia de generosidade, pois a criança leva esse conceito para outras épocas do ano”, afirma Ivete Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Abusar da sinceridade e dizer que o Papai Noel não existe pode quebrar esse encantamento, segundo a psicopedagoga Teresa Messeder Andion, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia. “A criança ouve a história na escola, escuta os amiguinhos falando e vê imagens de Natal espalhadas; portanto, é natural assimilar a fantasia. Então, se em casa a família diz que é mentira, ela vai viver em contradição”, diz.



A melhor escolha dos pais, segundo os educadores, é deixar o filho fazer suas descobertas naturalmente. “Caso ele pergunte se Papai Noel existe, a saída é ouvi-lo, tentar saber o que ele entende do Natal e responder à pergunta questionando se ele acredita”, afirma a psicopedagoga Teresa. A analista de tecnologia da informação Gleise Segatto de Oliveira Teixeira, 32 anos, deixou que a filha Iara, de 6 anos, tomasse sua própria decisão. Apesar de não incentivar o mito, ouviu-a perguntar ao pai, o também analista Jeyson Teixeira, 44 anos, se ele acreditava no personagem. “Ele disse que não, mas que há pessoas que acreditam. E ela optou por crer na história mais por influência da comunidade”, diz Gleise, que não monta árvore nem dá presentes para a filha no Natal. A aeroviária Monica Seminara, 43 anos, preferiu dar outra resposta quando ouviu a pergunta do filho Gabriel, 10 anos. “Eu disse que acreditava. Queria que ele continuasse acreditando também. Mas, sozinho, foi descobrindo que não passava de uma lenda.” A outra filha, Isabel, 7 anos, ainda espera a visita do Papai Noel. “Converso com a Isa sobre como ele atende os sonhos das crianças. É uma lição de esperança, uma história bonita.”


Normalmente, os questionamentos começam a surgir na idade de Iara, aos 6 anos. “Acontece uma virada na capacidade da criança e ela passa a ficar mais atenta ao mundo real do que ao imaginário. Não por acaso é a idade que ela entra na escola”, afirma Ivete, da Unifesp. “É quando começam a fazer as associações e por si só passam a questionar.” A fase da infância em que é mais provável acreditar e se divertir com o Papai Noel é entre os 4 e os 7 anos de idade, afirma a psicopedagoga Teresa. “Até os 3 anos, a criança estranha mais ao ver uma pessoa fantasiada.” Com um filho de 4 anos em casa, a projetista Alessandra Barth, 37 anos, incentiva a brincadeira. “Deixo o Edgar imaginar, sonhar. Gosto disso”, diz a mãe, que o ajuda a escrever as cartas. Já a filha da professora Itália Nicolai, 48 anos, Mirella, 8, entrou na etapa da dúvida. “No ano passado, meu primo se fantasiou e não tirou o tênis. Ela percebeu que era ele por causa do calçado”, diz. O mais velho, Erick, 10 anos, já não acredita mais. “Ele descobriu pelos amigos e nos perguntou. Vimos que não tinha mais jeito e contamos a verdade. Foi tranquilo.” A mãe só pediu a Erick que não revelasse a verdade à irmã. “Quero que ela acredite até quando for possível.” Mas, na hora em que se der conta, o melhor é não insistir. Caso contrário, os pais correm o risco de o filho fingir crer na lenda somente para agradá-los.


Outro erro tão comum quanto grave: associar o Papai Noel unicamente ao consumo. Claro que a criança vai relacionar a noite de Natal aos presentes, mas a reunião familiar, a história por trás do mito e o sentido da comemoração do nascimento de Jesus, caso a família seja religiosa, precisam ser lembrados. “Nesse momento, a convivência é o mais importante. Não se pode deixar levar apenas pela questão material”, afirma a pediatra Evelyn Eisenstein, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Outro problema é usar a figura como um sistema de recompensa. “É muito melhor os pais dizerem que o que filho fez não foi legal do que afirmar que o Papai Noel não vai lhe trazer presentes. Eles saem do papel de educadores e passam a função ao personagem. É um desserviço à educação da criança”, diz Ivete, da Unifesp.


Uma questão dos dias de hoje é que, com a geração atual, superconectada a tablets, smartphones e computadores, manter um mito como o do Papai Noel fica mais difícil. “Elas têm mais acesso à informação e o desenvolvimento neurológico é mais precoce”, afirma o pediatra Marcelo Reibscheid. Segundo Tatiana Jereissati, coordenadora de pesquisas do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic), a internet tem forte presença no cotidiano infantil. Andréa Jotta, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que, por conta disso, as novas gerações não estão acostumadas com uma única resposta às suas dúvidas, pois sabem que podem chegar facilmente a diferentes explicações. “Se tiver curiosidade e estiver na idade de pré-alfabetização, consegue acessar essas informações sozinha”, diz. O interessante, então, é não acabar com a fantasia, mas tentar negociar. Mostrar que o Papai Noel pode não existir, mas é símbolo do Natal, que há lendas a seu respeito fazendo parte de uma cultura. Para Evelyn, da Uerj, a figura do Papai Noel pode ser ainda mais importante no momento atual. “As crianças muito conectadas não sabem mais lidar com os sentimentos, pois a vivência se volta para o virtual”, afirma ela, que é autora do livro “Geração Digital: Riscos das Novas Tecnologias para Crianças e Adolescentes”. “Por isso, é ainda mais interessante inserir os mitos, pois o que envolve a brincadeira, como alguém da família se vestir de Papai Noel, pode trazer o ‘sentir’ de volta.”


As tradições envolvendo a visita do Papai Noel na noite de Natal são relativamente recentes . Segundo o historiador Gerry Bowler, professor de história do Natal na Universidade de Manitoba, no Canadá, a maioria das lendas sobre o personagem surgiu no fim do século XIX. “Era uma época em que a criação dos filhos estava se tornando menos dura e mais sentimental. Também era o momento da Revolução Industrial, quando cresceu a produção de mercadorias e os preços diminuíram. Papai Noel permitiu aos pais serem generosos com as crianças uma vez no ano e as vendas aumentaram durante essa época”, afirma Bowler. A origem do mito, porém, é bem mais antiga e está ligada à Igreja Católica. A história começa com São Nicolau, bispo de Mira, na Turquia, entre os séculos III e IV, conhecido por presentear crianças com roupas e alimentos. “São Nicolau dedicou sua vida para ajudar os outros. Ele evangelizava com gestos, algo muito parecido com o que o papa Francisco faz atualmente”, diz o padre Rafael Javier Magul, pároco da igreja ortodoxa São Nicolau, de Goiânia. Para o sacerdote, os pais devem aproveitar essa imagem que já existe para contar a história do homem generoso por trás da lenda. “Papai Noel existiu de verdade e foi uma pessoa misericordiosa que não se esquecia de ninguém”, diz padre Rafael. Talvez por isso ocupe um espaço tão privilegiado no imaginário infantil.


 
Fotos: Pedro Dias

Conto de Natal

Rubem Braga (*)


Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado: 

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não aguentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo: 

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

Texto extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza - Rio de Janeiro, 1964, pág. 39.



VIDEO: Rod Stewart - Christmas Live





Show natalino, ao vivo, apresentado por Rod Stewart Rod Stewart no Stirling Castle em novembro de 2012, tendo como convidados Michael Bublé, Kylie Minogue and Nicola Benedetti.

01.Intro
02.Have Your Self A Merry Christmas
03.You Wear It Well
04.White Christmas
05.Interview
06.Red Suited Santa Man
07.Can't Stop Me Now
08.Let It Snow
09.Interview
10.Merry Christmas Baby
11.Winter Wonderland
12.Interview
13.Silent Night
14.Auld Lang Syne

CONTOS DE NATAL: Lenda da Fonte da Pedra



Quando Herodes perseguiu São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus, eles fugiram para o Egito. No seu percurso, passaram pela Serra da Avoaça e N. Senhora quis descansar porque estava muito cansada. 

Todos tinham sede  mas não se via nenhuma nascente por perto. S. José, vendo uma pedra ao pé deles, virou-se para o burro e ordenou:

- Dá um coice na pedra!

O burro obedeceu  mas a pedra não tugiu!

S. José ordenou novamente:

- Dá um coice na pedra!

O burro obedeceu e desta vez a pedra gemeu!

S. José ordenou pela terceira vez:

- Dá um coice na pedra!

O burro obedeceu e a pedra chorou!

E desta forma puderam os três matar a sede. A partir daí, a nascente passou a chamar-se Fonte da Pedra e possui propriedades terapêuticas; nomeadamente, a água cura os cravos, isto é, as verrugas das mãos.

Ainda lá estão as três marcas na pedra:

A primeira está seca (não tugiu).

A segunda deita um fio de água (gemeu).

A terceira é a nascente (chorou).

Enquanto descansavam, Nossa Senhora resolveu estender a toalha sobre uma pedra para comerem algo, que a fome apertava. Pois desde então nunca mais o musgo cresceu nessa pedra, como ainda hoje se pode comprovar!

Porém , chegou a hora de continuarem a viagem e arrumaram tudo. Quando começaram a andar, Nossa Senhora prendeu o manto no mato que crescia na zona e rasgou-o. Como castigo de tal atitude, decidiu que nunca o mato cresceria, seria sempre pequeno. E assim é, visto que ainda hoje se diz que o mato é como o da Fonte da Pedra, quando se pretende explicar que é de pequena estatura.

Tinha a Sagrada Família retomado a sua marcha, quando chegaram a um terreno onde várias pessoas semeavam a terra. E pergunta S. José:

- Então que semeais aqui?

- Semeamos pão (leia-se centeio)!

- Pois voltai amanhã, que pão colhereis!!

E assim aconteceu: no dia seguinte, as pessoas voltaram e encontraram o terreno repleto de centeio maduro, pronto para a ceifa.

Mais à frente, Nossa Senhora e S. José encontraram outro grupo de pessoas que semeavam igualmente um terreno. E, de igual forma, pergunta S. José:

- Então, que semeais vós aqui?

Sendo estas pessoas de má índole, responderam:

- Semeamos pedras!

- Pois voltai amanhã, que pedras colhereis!

E no dia seguinte, quando as pessoas tornaram ao terreno, encontraram-no cheio de pedregulhos. Diz-se que foi na Pedriça de Unhais, onde ainda se podem ver as pedras.

Entretanto, o rei Herodes não se conformou com a fuga da Sagrada Família e mandou soldados no seu encalço. Estes seguiram o mesmo percurso da Fonte da Pedra e chegaram ao local onde o primeiro grupo de homens ceifava o terreno de centeio. Os soldados resolveram informar-se e perguntaram às pessoas:

- Viram passar um homem a conduzir um burro, onde ia uma mulher com um menino ao colo?

- Vimos, sim senhor! - responderam os ceifeiros. - Passaram aqui quando estavámos a semear este terreno!
Ao ouvir tal, exclamaram os soldados:

 - Oh! Estavam a semear?! Então já passaram há muito tempo! Já não os vamos conseguir apanhar!
E voltaram para trás, desistindo da perseguição.

VÍDEO: Michael Bublé Home for the Christmas Special





Show natalino apresentado por Michael Bublé tendo como convidados Carly Rae Jepsen, Rod Stewart, Blake Shelton e Elmo.

CONTOS DE NATAL: A árvore de Natal na casa de Cristo

Dostoiévski

 
Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. 

No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmagá-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa.   Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. 

De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. 

Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.

- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... 

- Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus. 


Tradicional no Natal, panetone surgiu por erro de padeiro

Exame.com
Lorena Amazonas, ANSA Brasil

O pão amplamente consumido no Natal foi criado em Milão, na Itália, graças ao erro de um padeiro

Embalagens de panetone Bauducco em 2013: 
a Bauducco diz que o fundador na empresa começou a vender o produto aqui a partir de 1948

São Paulo - De tão tradicional no Brasil, o panetone parece ter sido inventado aqui mesmo. Mas não foi. O pão amplamente consumido no Natal foi criado em Milão, na Itália, graças ao "erro" de um padeiro.

A lenda em torno de sua criação remonta ao ano de 900 e diz que o humilde assistente de padeiro Toni, após ter trabalhado horas a fio na véspera de Natal, precisava ainda assar mais uma fornada de pães e preparar uma torta para seu chefe.

De tão exausto que estava, confundiu-se e colocou as uvas passas da torta na massa de pão.

Desesperado, tentou salvar a situação jogando frutas cristalizadas, manteiga, ovos e os demais ingredientes do recheio que seriam usados originalmente na torta. Toni assou a mistura e entregou para o patrão.

O que o assistente não esperava era que sua criação fizesse sucesso durante a ceia de Natal de seu chefe, que, além de elogiá-lo, decidiu homenageá-lo e dar o nome à massa de "pane di Toni" ("Pão do Toni", na tradução do italiano). Com o passar do tempo, o bolo começou a ser chamado de panetone.

Como toda boa lenda, a origem do panetone possui várias versões, mas todas elas têm Toni como denominador comum. A chegada dos imigrantes italianos no Brasil após a II Guerra Mundial trouxe o panetone para o país. A Bauducco diz que o fundador na empresa, o italiano Carlo Bauducco, começou a vender o produto aqui a partir de 1948.

A confecção do panetone clássico na Itália é tão levada a sério que em 2005 passaram a ser especificados por lei os ingredientes e os percentuais mínimos que devem ser utilizados para que o bolo possa ser classificado como panetone. Em entrevista à ANSA, a Bauli, umas das mais tradicionais empresas no ramo de panetones na Itália, explicou que o decreto determina que sejam utilizados "farinha, sal, açúcar, ovos, nata e frutas cristalizadas, cuja quantidade não pode ser inferior a 20%". Sem frutas - Na Itália, além do panetone, o pandoro também disputa a preferência no paladar italiano durante o Natal. Essa variação, criada em Verona, é similar ao panetone, mas não leva frutas.

No entanto, apesar de serem ambos tradicionais, o panetone acaba sendo o mais procurado. "O panetone é certamente o mais popular", afirma o confeiteiro Carlo Pozza, da padaria Da Venicio, em Vicenza, na Itália. As "invencionices" brasileiras, como panetones de doce de leite, que fogem do tradicional, também podem ser encontrados na Itália. "Nos últimos tempos, os confeiteiros começaram a oferecer panetones com ingredientes diferentes, como pistache, fruta fresca, limoncello (espécie de licor de limão), chocolate, cerveja ou vinho doce", disse à ANSA o especialista Davide Polini.

"Esses panetones servem para estimular as vendas, levando a clientela a provar gostos diferentes", afirmou o mestre confeiteiro Murizio Busi, da Pasticceria Paola, em Ferrara, na Itália. "Mas, em minha opinião, os tradicionais são sempre melhores", afirmou o mestre, que também faz parte da Accademia Maestri Pasticceri Italiani, associação que reúne importantes expoentes da confeitaria do país. Nos últimos anos, também foram introduzidos no mercado italiano os panetones salgados.

É possível encontrar versões com alcaçuz e açafrão, tartufo, gorgonzola e até mesmo o "panetone pizza". Lançado em Nápoles, leva ricota doce, flocos de frutas e de chocolate cristalizados colocados sobre a massa tradicional de pizza. O bolo milanês inspirou até mesmo o "Cocktail Panettone", bebida para os brindes de fim de ano. Industrial x Artesanal - No Brasil, já se pode encontrar há algum tempo panetones artesanais. Algumas padarias, por exemplo, tiram de seus próprios fornos sua produção dos bolos natalinos.

Na Itália, apesar de serem um pouco mais difundidos e apreciados, são os industriais que ganham na preferência dos consumidores. "Em 2008, foram vendidos na Itália 100 milhões de panetones, mas somente 20% eram artesanais", explica o confeiteiro Iginio Massari, da Pasticceria Veneto, em Bréscia, no norte da Itália.

Por outro lado, o confeiteiro Maurizio Busi acredita que a matéria-prima dos panetones artesanais é melhor. "O frescor, a riqueza dos ingredientes, a personalização e a busca pelos melhores ingredientes, além das habilidades do confeiteiro, fazem toda a diferença", acredita. O panetone é tão amado na Itália que foi criado o projeto "Panettone tuttol'anno" ("Panetone o ano todo"). Idealizado pelo "gastronauta" Davide Polini, propõe que o panetone seja vendido constantemente.

"Por que só no Natal? O panetone pode ser consumido em todas as estações. Acho um absurdo que se deva comê-lo somente nesta época do ano", disse. Polini já comeu panetone inclusive no verão, "na praia, embaixo de um guarda-sol, acompanhado de sorvete". E aqui, será que a moda pega? 

VÍDEO: Country Christmas 2011





Show ao vivo apresentando diversas personalidades da música country como Lauren Alaina, Amy Grant, Faith Hill, Little Big Town, Martina McBride, "American Idol" winner Scotty McCreery, Kellie Pickler, Rascal Flatts, Darius Rucker, Sugarland, Keith Urban, e Vince Gill, em dueto especial Miss Piggy.

Estrela de Belém pode ter origem na Babilônia, dizem teólogos

Hartmut Schade 
Deutsche Welle

Para especialistas, a Estrela de Belém descrita na história do nascimento de Cristo é originada da tradição de se associar grandes fatos ou monarcas a sinais celestes, costume mais antigo do que o cristianismo.


A Estrela de Belém sempre representa, no Natal, um papel importante e, ao mesmo tempo, misterioso. Teria sido um cometa, uma supernova, ou Júpiter e Saturno entraram em conjunção quando Jesus nasceu? Os astrônomos discutem até hoje sobre o que, na verdade, era a Estrela de Belém. Independente disso, permanece um mistério o motivo que levou os três reis magos a segui-la. Como conseguiu atraí-los? E como lidamos com símbolos estelares produzidos culturalmente?

Quando os três reis magos viram a estrela, compreenderam imediatamente que ela era um sinal divino. "O aparecimento da estrela foi para os magos o sinal de que um novo rei havia nascido", afirma o estudioso do Novo Testamento Jens Herzer, teólogo da Universidade de Leipzig. "Afinal, o profeta Balaão escreveu: 'Uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um cetro'."

Sempre que uma pessoa importante vem ao mundo, isso se reflete num sinal celeste. Pode ser uma estrela que aparece ou que cai do céu, o Sol ou a Lua que escurecem. A história está cheia desses relatos, lembra o professor de Teologia: "Fenômenos naturais e fenômenos celestes, no nascimento ou na morte de pessoas importantes sempre fizeram parte do repertório de histórias sobre diversas personalidades", explica Herzer.

Sinais do céu e personalidades importantes
Os habitantes da antiga Babilônia foram os primeiros a ver no céu certas relações entre as estrelas e a política, aponta Hannah Müller, professora de Estudos Religiosos pela Universidade de Leipzig. "Os sacerdotes babilônicos estudavam as estrelas para calcular os eclipses da Lua, que tinham uma importância para o calendário, para eles saberem quando podiam, ou não, realizar certos rituais."

Estrela teria anunciado nascimento de Cristo

Os gregos trouxeram um elemento novo à observação dos astros, ao associarem as divindades às estrelas: Marte é o deus da guerra, Mercúrio é responsável pelo comércio e Vênus, pela beleza, Júpiter é o astro-rei, Saturno é considerado a estrela dos judeus.

E aqui pode estar uma chave para o mistério da Estrela de Belém: Pesquisadores de história da astronomia acreditam que, há 2011 anos, Júpiter e Saturno encontraram na constelação de Peixes. Astrologicamente, isso significaria o nascimento de um novo rei dos judeus.

"Quando Mateus, em seu evangelho, descreve as figuras de três reis magos que seguem a estrela a partir do Oriente, quer dizer, da Babilônia, ele lança uma prova de legitimação de que aquele tinha realmente que ser um acontecimento único”, observa Hannah Müller.

A estrela remete não só à criança prodigiosa que nasceu em Belém. A estrela é Cristo. Assim era, pelo menos, a interpretação de Santo Ambrósio, no século 4º. Jens Herzer lembra que associar o monarca a uma estrela faz parte da tradição judaica.

"O líder da segunda revolta judaica do começo do século 2º descreveu a si mesmo como Bar Kochba, que significa 'filho da estrela'. Ele mandou cunhar moedas que também traziam o símbolo de uma estrela. Isso mostra claramente o quanto a vinda de um Messias estava também ligada com tal simbolismo astronômico", ressalta o teólogo.

Revisão Augusto Valente