Adelson Elias Vasconcellos
No artigo com que encerramos a edição de ontem, A política da saliva e saliva sem política, não quis entrar em maiores detalhes sobre as reformas urgentes que o governo precisa adotar para devolver um pouco da competitividade perdida nos últimos anos, porque nem o caso, uma vez que a intenção era demonstrar que a pasmaceira do governo continua a mesma: muita promessa de ação, pedir para que os empresários invistam mais, etc. etc. Ou seja, quis demonstrar a inutilidade da reunião.
Mas há que se voltar ao tema dada a gravidade que a desindustrialização vem assumindo e a enorme pressão que os industriais estão exercendo sobre o governo, cobrando primeiro a conscientização de que o problema existe, é real, é prejudicial ao país, e segundo, que o governo saia das promessas para ação imediata.
De todas as medidas das quais temos enfocado nestas últimas semanas, há especialmente uma que deixamos de lado, muito embora eventualmente tenhamos tocado o dedo na ferida, que é a o indispensável aumento da eficiência do gasto público, que aliás, é a mesma sugestão dada nesta semana por Delfim Neto, ao afirmar, com inteira de que “...a indústria de transformação está sendo depenada”.
Só que Delfim Neto acha que a carga tributária alta é culpa dos gastos em educação e saúde universais e gratuitos. Se formos somar o quanto o governo federal arrecada e compararmos com o que ele investe nestes dois campos, chegaremos a conclusão de que a avaliação de Delfim está completamente equivocada.
Tome-se, por exemplo, os tais cargos de confiança, que nada tem a ver com educação e saúde, tratam-se de cargos burocráticos, a maioria deles inúteis, e que servem apenas para atender o fisiologismo dos partidos políticos. Somente nos governos petistas, o aumento deles foi brutal, saltando em mais de 30%. Considerem o custo total disto para o país. Agora, adicionem a enorme quantidade de empresas estatais além do aumento indiscriminado de participação do governo nas estatais já existentes, e teremos aí mais um golpe no equilíbrio fiscal.
Ora, sabemos todos nós que o governo mantém os juros básicos elevados não é apenas para evitar que a inflação fuja ao controle. Isto é até verdadeiro lá atrás, quando o Plano Real estava sendo implantado, porque fazia parte da política de extermínio da hiperinflação. Contudo, a partir do estabelecimento de metas fixadas pelo Banco Central em níveis controlados, esta necessidade desapareceu. E por que os juros se mantiveram nas alturas? Porque, simplesmente, para atender seu projeto de poder, o governo Lula, por exemplo, expandiu os gastos irresponsavelmente, e isto provocou um rombo orçamentário estupendo. Para fechar suas contas, o governo precisou e precisa emitir títulos de dívida pública para cobrir este déficit. Ou se explique por conta do que a dívida pública interna saltou de 600 bilhões em 2003, para quase 2 trilhões em 2010, ou seja, três vezes mais?
É por aí que se deve pressionar o governo federal. Eficiência do gasto público, gastar naquilo que for extremamente necessário, primeiro, para reduzir o tamanho do déficit orçamentário e diminuir a necessidade de endividamento. Voltando à crítica de Delfim, neste ponto ele está absolutamente certo. Ocorre que, com um gasto mais responsável, o governo encontrar brecha para reduzir progressivamente a taxa de juros SELIC. Ora, gastando menos, ou ao menos não expandindo irresponsavelmente em termos reais como vem acontecendo desde que Lula assumiu, e sempre acima do crescimento do próprio PIB já descontada a inflação, dá, sim, para o governo federal ir, gradativamente, reduzindo as alíquotas existentes dos diferentes impostos e contribuições, podendo até zerar muitas delas.
Só que este roteiro, senhores, exigiria que o governo petista colocasse em segundo plano seu projeto de poder. E, isto, definitivamente, não vai ocorrer. E dou um exemplo. Na última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, fixou-se um teto mínimo para a queda dos juros em torno de 9,0%. Poderia ser menor, claro, só que isto traria um preço político que, em ano de eleição, o PT não quer pagar de jeito nenhum. O governo se veria obrigado em mexer na remuneração da caderneta de poupança. Ou seja, o limite do que o governo poderá fazer ou não, será permeado pelo calendário eleitoral e pelo projeto de poder do partido do governo, mesmo que isto signifique colocar em risco a estabilidade econômica do país. Para eles, o interesse do partido vem antes, muito antes, das necessidades do Brasil.
Esta é a razão principal pela qual venho afirmando seguidamente que Dilma chegará num determinado instante de seu mandato que não lhe restará escolha: ou ela rompe com o PT, e dá prioridade aos interesses do Brasil, ou leva tudo com a barriga aplicando medidas pontuais, de pura improvisação para amenizar os efeitos da doença, jamais para combatê-la. Se não houver jeito mesmo, dada as contingências que surgirem, que forcem Dilma chutar o balde e mandando ver em algumas reformas estruturais que sejam impopulares, ela então assumirá o risco político, jogando fora sua chance de reeleição, abrindo caminho para a volta de Lula como o salvador da pátria.
Só que este digamos... plano “B”, tem um pequeno “porém”: a saúde de Lula. Se, de fato, ele livrar-se completamente do câncer, e torcemos para isto aconteça, a alternativa se viabiliza. Do contrário, ou o PT abre mão do poder em favor do país, uma vez que a situação chegará ao fundo do poço, obrigando o governo Dilma a fazer o dever de casa, ou os petistas correrão o perigoso risco de andarem sobre o abismo para ver o que acontece. Será que o vale o risco? Será que o país pode ser transformado em laboratório de testes para os petistas edxperimentarem suas estratégias de poder?
A grande verdade, senhores, que a situação do jeito que está não se sustenta no médio prazo. São inúmeros os indicadores que sinalizam um forte alerta, obrigando-nos a rever conceitos e fazer escolhas. E, sinto informar aos políticos, aos petistas especialmente, que chegará o momento, se a rota não for corrigida e as prioridades revistas, em que o empirismo político e o barrigaço com que se está empurrando e adiando as reformas, perderá totalmente seu brilho.
Como disse ontem, ninguém colhe competência no jardim da omissão. Muito embora, na situação atual, mudança na condução da economia talvez não fosse o mais recomendável, contudo, acredito que o arsenal do ministro Mantega não apenas está esgotado como ainda está superado para a necessidade urgente do país. O momento exige um reformador não um quebra galho ou bombeiro. Ou seja, alguém que encare o presente com visão de futuro, dotado de um perfil mais estratégico, e estratégia de longo prazo. Do contrário, quem sofrerá as consequências, infelizmente, e mais uma vez, será quem menos culpa tem pelo descalabro: os trabalhadores, principalmente, aqueles que menos recursos têm para defender-se das turbulências que surgirão.
É bom não nos enganarmos: nossa indústria de transformação, que perdeu participação no PIB, nos dois últimos anos, caindo de 18 para 14%, já está na beira do abismo. Recuperar depois o terreno perdido custará caro, muito caro. Vejam a contradição do governo Dilma: enquanto reúne os empresários e pede-lhes mais investimentos, o próprio governo, ano após ano, vê reduzido seu nível de investimento. Ora...
O erro nem é tanto este projeto de poder do PT. E ele não é um, são dois: primeiro, está em se achar que o governo FHC tenha feito todo o trabalho de reformas, e depois, suporem que os ventos favoráveis da economia mundial, que tanto nos beneficiaram – talvez isto até tenha provocado esta visão relaxada sobre os nossos problemas – não iriam mudar tanto.
Pois é, mas eles mudaram, e estão agora nos cobrando um preço que, ou pagamos e continuaremos bem, ou recusamos, e perderemos os excelentes avanços obtidos nos últimos anos, seja na economia seja no social. E o pagamento não exige esforço e sacrifício apenas do Executivo, mas também de todo o Estado, em seus diferentes níveis e poderes. A advertência é antiga, mas sempre válida e atual: dinheiro não aceita desaforo. E o Tesouro Nacional, infelizmente, desde 2003, vem engolindo desaforos demais do Executivo, Legislativo e Judiciário. Se nada for feito para conter a sangria, um dia o poço seca.










