Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa
Pior não fica? Pois ficou, e o Tiririca nada tem ver com a trapalhada. Fala-se da gangorra em que se transformou o governo, através de seus líderes no Congresso. O lance mais recente é trágico, depois de outros terem sido cômicos.
Joseph Blatter veio ao Brasil, encontrou-se com a presidente Dilma, almoçou com o presidente da Câmara e com os líderes oficiais no Congresso, além do ministro dos Esportes e, após anteriores desencontros, ficou acertada a aprovação da exigência da Fifa para a venda de bebidas alcoólicas nos estádios onde se realizarão os jogos. A Lei da Copa seria votada nesses termos na Câmara e no Senado.
O diabo é que menos de uma semana depois da visita do barão do futebol, com direito à presença de Pelé e Ronaldo, reúnem-se os líderes do governo e dos partidos e decidem pela segunda vez retirar do texto do projeto a referência à venda de bebidas alcoólicas. A Fifa que vá negociar com os governadores dos doze estados cujas capitais abrigarão o certame.
É claro que a Fifa não vai. Como também é evidente que essa nova reviravolta deveu-se ao medo do governo de ser derrotado na votação da Lei da Copa, ou seja, não apenas as bancadas evangélicas, mas a massa de descontentes dos partidos da base oficial votaria para derrotar a proposta pelo simples fato de ser endossada pelo palácio do Planalto.
Ignora-se a reação da presidente Dilma, que ontem passou o dia no Rio, visitando iniciativas federais. Não deve estar satisfeita a primeira-companheira, porque até deputados do PT formam entre os dissidentes empenhados em derrotá-la. Nem adianta falar no PMDB, PDT, PR e outros. Traduzindo a confusão: deputados e senadores que supostamente apoiam o governo, com dirigentes e líderes à frente, continuam fazendo pressão e chantagem sobre Dilma.
Tem pouca importância se o torcedor poderá ou não tomar o seu copo de cerveja durante as partidas, ainda mais se ficará limitado a uma marca específica da bebida, aquela que patrocina a Fifa. A Copa do Mundo de 2014 tem muito pouco ver com o confronto entre Executivo e Legislativo. Mas risco de M. Blatter indignar-se é grande. E desta vez, com razão. Ou o Brasil não será mesmo um país sério?
NÃO ERA ASSIM
Até que Ivo Cassol foi um bom governador de Rondônia, tanto que reeleito. Veio agora para o Senado, mas, pelo jeito, comeu alguma coisa que lhe atrapalhou o raciocínio. Declarou que os políticos são muito mal remunerados e, por isso, interrompeu a votação do projeto que extinguia o décimo quarto e o décimo quinto salários de deputados e senadores. Pior de tudo foi o seu argumento: ganham pouco…
O PAPEL DO PAPEL
Autor muito pouco citado nos tempos atuais, o presidente Mao costumava dizer que uma folha de papel aceita qualquer coisa. Da poesia mais bonita à mais execrável das bobagens, basta ter um lápis.
José Serra pode ter sido maoista, nos tempos em que presidiu a União Nacional dos Estudantes, discursou no comício de 13 de março e precisou exilar-se no Chile e nos Estados Unidos para escapar da ditadura. Mas escorregou feio, esta semana, quando declarou que sua promessa não cumprida de completar o mandato na prefeitura de São Paulo foi feita num simples “papelzinho”. Não tinha nada que desculpar-se, abriu mão de ser prefeito para candidatar-se a presidente da República. Se tivesse sido eleito ninguém cobraria dele a iniciativa. Porque perdeu, deveria explicar-se? Agora, papel é papel, se nele estiver a assinatura de qualquer cidadão.
TEMPO DÁ, SE HOUVER VONTADE.
Silenciam os ministros do Supremo Tribunal Federal diante da nova onda de pessimismo que invadiu prognósticos sobre poderem os réus do mensalão começar a ser julgados em maio. Parece que a dúvida invadiu a mais alta corte nacional de justiça. A sombra da prescrição volta a pairar sobre a Praça dos Três Poderes, despertando alegria no Congresso e indiferença no palácio do Planalto. A impunidade continua impávida.